Monthly Archives: maio 2024

Zumbis da série “Walking Dead”: as redes sociais podem nos transformar em uma versão digital dessas criaturas - Foto: reprodução

Ansiedade algorítmica cria zumbis que trabalham de graça para redes sociais

By | Tecnologia | No Comments

“Responda aos comentários dos fãs para ajudar a aumentar o engajamento com a sua conta”. Nessa semana, o Facebook me conclamou (de novo) a interagir ainda mais com outras pessoas, como se isso fosse fazer uma grande diferença na minha vida.

Como a principal rede do Mark Zuckerberg definitivamente não me entrega tal valor, dei de ombros. Mas muita gente não consegue praticar esse desapego, seja no Facebook ou em outras redes sociais. E isso vem provocando uma crescente onda de ansiosos por não darem conta de todas as “tarefas” sugeridas pelos algoritmos, como se fossem necessárias para se destacar em uma vida dividida constantemente entre as redes sociais e suas atividades presenciais.

Por que nos permitimos seduzir (ou controlar) por esses sistemas? Quando deixamos de agradar genuína e desinteressadamente pessoas verdadeiras para satisfazer as demandas insaciáveis das plataformas? Como elas conseguem nos dominar de maneira tão intensa e, ao mesmo tempo, subliminar?

A única rede que me traz benefícios reais é o LinkedIn. Meu mestrado se focou na construção de uma verdadeira reputação digital nele, mas, durante a pandemia, eu me debrucei sobre essas inquietações. Decidi então deixar de produzir para os algoritmos, como um escravizado digital, ou seja, como esses sistemas nos veem.

Já passou da hora de pararmos de nos submetermos aos caprichos desse capitalismo de vigilância e recuperarmos o controle de nossas vidas. No formato atual, as pessoas se afogam em sua ansiedade algorítmica, enquanto trabalham gratuitamente, sem perceber, para as redes sociais.


Veja esse artigo em vídeo:


Mantenho uma produção consistente e cuidadosa no LinkedIn, que me traz contatos qualificados e oportunidades de negócios interessantes. Mas reconheço que, quando parei de criar atendendo as neuroses dos algoritmos, minhas métricas sofreram.

Não escondo isso e, de certa forma, me orgulho desse movimento. Percebi que não precisava impactar, com minhas publicações, dezenas de milhares de pessoas cujos motivos e desejos só os algoritmos conheciam, e que não rendiam nada palpável. Muito melhor é chegar a menos pessoas, mas com as quais possa fazer trocas verdadeiras e produtivas. Outro ganho –tão ou mais importante que essas conexões– é encontrar prazer e leveza em falar com seres humanos, e não com sistemas.

Não é uma tarefa simples. As redes sociais descobriram como reforçar nossa busca por prazeres imediatos, aparentemente exigindo pouco de nós. Afinal, atire a primeira pedra quem nunca publicou algo em uma rede social na expectativa de receber muitas curtidas e, quem sabe, comentários que afagassem seu ego.

Curtidas não pagam contas! Mas relacionamentos qualificados podem ajudar nisso.

A raiz da ansiedade algorítmica está em sabermos que nossas vidas são controladas por esses sistemas, mas não termos conhecimento sobre como eles funcionam. Dependemos deles para conseguirmos trabalho, diversão e até amor, mas seu funcionamento é uma caixa preta que nunca se abre para nós.

Como consequência, estamos sempre tentando descobrir seus segredos para nos dar bem ou, no jargão das redes, “hackear o sistema”. Lemos artigos, fazemos cursos, acreditamos em gurus, mas o fato é que só quem desenvolve os algoritmos sabe da verdade, e esse é o “ouro do bandido”, um segredo tão bem guardado quanto a fórmula da Coca-Cola.

E assim nos viciamos nas microdoses de dopamina que nós mesmos produzimos quando um post tem uma visibilidade maior que nossa própria média (por menor que seja). A partir disso, buscamos sofregamente repetir aquele sucesso fugaz, tentando replicar uma receita que não temos.

 

O mal da falta de transparência

A inteligência artificial reacendeu os debates em torno da importância da transparência nas decisões dos algoritmos, para que entendamos seus motivos, assim como a explicabilidade e a rastreabilidade do que fazem com nossos dados.

Nisso reside um perverso jogo de poder. As redes sociais jamais nos darão essas informações, pois no obscurantismo está seu ganho. A ansiedade que essa nossa ignorância nos causa faz com que atuemos como zumbis teleguiados por seus sistemas. Se soubéssemos de toda a verdade, só publicaríamos o que “dá certo”, e as redes perderiam o controle que têm sobre nós. Isso seria ruim para seus negócios!

Não há a mínima reciprocidade entre os algoritmos e as pessoas: eles sabem tudo sobre nós, mas não sabemos verdadeiramente nada sobre eles. Temos só suposições e lampejos desconexos do seu funcionamento. Por isso, deixamos de representar, em nossas publicações, quem verdadeiramente somos ou o que desejamos. Ao invés disso, tentamos adivinhar e atender o que os outros querem de nós, esperando sua aceitação e aprovação, como se dependêssemos delas.

Essa é uma tarefa inglória e o caminho para a ansiedade e a depressão. Em casos extremos, vemos influenciadores digitais se suicidando, inclusive no Brasil, diante de sua incapacidade de ter o mínimo controle sobre os resultados de seu trabalho.

A opacidade dos algoritmos os torna mais cruéis quando mudam seus parâmetros continuamente, para que as pessoas não os dominem por muito tempo. Com isso, alguém que estivesse conseguindo ganhos de uma boa visibilidade, poderia subitamente ser descartado, sem explicação ou aviso prévio, gerando mais ansiedade.

As empresas se defendem afirmando que seus algoritmos existem para que as experiências em suas plataformas sejam úteis e divertidas, e não para que viciem os usuários. Dizem ainda que o que nos é empurrado depende de nossas interações na própria rede. Essa explicação, ainda que verdadeira, é tão rasa, que chega a ser hipócrita com quem consome e com quem produz conteúdo praticamente às cegas.

Vale lembrar que, apesar de estarmos falando aqui de algoritmos de redes sociais, eles estão presentes em toda parte, tomando decisões que podem influenciar profundamente nossas vidas. Dois exemplos emblemáticos são as plataformas de recrutamento, que podem definir se conseguiremos um emprego ou não, e os sistemas policiais, que podem decidir se somos criminosos, condenando-nos à cadeia.

Precisamos entender que os algoritmos devem trabalhar para nós, e não o contrário. Mas é inocência acreditar que temos algum controle nessa relação: em maior ou menor escala, somos dominados por esses sistemas, que exercem seu poder impunemente, mesmo quando causam grandes prejuízos aos usuários.

Por isso, o melhor a se fazer é mandar os algoritmos às favas e sermos nós mesmos, como acontecia nos primórdios das redes sociais. Mas você consegue fazer isso hoje?

 

Sameer Samat, diretor de produtos do Android, apresenta novidades de segurança do sistema durante o Google I/O 2024 - Foto: reprodução

Criminalidade brasileira transforma smartphones e inteligência artificial

By | Tecnologia | No Comments

A semana passada foi pródiga em lançamentos na área de tecnologia, fortemente impulsionados pela inteligência artificial. Em meio a tantas novidades, alguns recursos de cibersegurança me chamaram atenção, porque podem ajudar muito no combate à criminalidade digital no Brasil ou até foram explicitamente criados para atender a demandas de usuários de nosso país.

Na terça (14), o Google anunciou, durante seu evento anual Google I/O, um grande pacote de novidades na sua plataforma de inteligência artificial Gemini e no sistema operacional Android. No dia anterior, a OpenAI mostrou o novo cérebro do ChatGPT, o GPT-4o, que se aproxima incrivelmente da capacidade conversacional humana, incluindo reconhecimento em tempo real de texto, áudio e vídeo.

As referidas novidades de segurança fazem parte do novo Android. Uma delas automaticamente travará o smartphone no caso de roubo pelas infames “gangues de bicicleta”, que assombram os brasileiros, especialmente em São Paulo. A outra tentará identificar, em chamadas por voz, possíveis golpes, avisando imediatamente a vítima para que não acredite na mentira. A IA é o motor de ambos os recursos.

Fiquei feliz ao saber dessas funcionalidades! Tristemente, há anos o brasileiro se obriga a limitar o uso de tecnologias revolucionárias pela ação de criminosos. É o caso de restrições ao Pix, de andar com smartphones sem todos os aplicativos e até de não poder usar caixas eletrônicos de madrugada.

Já passa da hora de as big techs se envolverem na solução desses problemas!


Veja esse artigo em vídeo:


O nome do recurso contra as “gangues de bicicleta” é “Bloqueio de Proteção Contra Roubo” (“Theft Protection Lock”). Durante o Google I/O, Sameer Samat, diretor de produtos do Android, disse que esteve no Brasil no ano passado para conversar com a equipe local da empresa e com autoridades sobre essa modalidade de roubo, que faz um número assombroso de vítimas, especialmente para usar aplicativos bancários para desvio de valores e redes sociais para aplicar golpes em nome das vítimas.

Com a novidade, quando a IA do smartphone identificar uma mudança brusca de movimento, seguida de um padrão que indique um deslocamento por bicicleta, o smartphone será bloqueado. Essa identificação acontece por uma combinação de sensores do aparelho, inclusive do seu acelerômetro.

Já a ferramenta contra golpes telefônicos funciona com a inteligência artificial monitorando continuamente as conversas do usuário com alguém ligando de um número desconhecido, procurando por frases suspeitas. No palco do Google I/O, Dave Burke, vice-presidente de engenharia do Android, simulou uma conversa em que o interlocutor dizia ser funcionário do seu banco, sugerindo que ele transferisse seu dinheiro para outra conta por supostas atividades suspeitas na sua. Nesse momento, o aparelho tocou um alerta sonoro e a tela exibiu uma mensagem que dizia que “bancos nunca pedirão para transferir seu dinheiro para sua segurança.”

Outro recurso de segurança apresentado oculta mensagens e notificações com informações sensíveis, senhas ou autenticações em dois fatores. O objetivo é evitar que, no caso de o smartphone ser clonado ou de sua tela estar espelhada em outros dispositivos, criminosos tenham acesso a essas informações confidenciais.

Burke disse que as pessoas perderam mais de US$ 1 trilhão em golpes digitais no ano passado, em todo o mundo. Esse número astronômico faz sentido: apesar de os bandidos ainda poderem ser presos eventualmente, a chance de isso acontecer é muito menor que em assaltos a bancos, além de muito menos arriscados.

Esses novos recursos de segurança farão parte da versão 15 do sistema operacional Android, que deve ser lançada no final do ano, mas também devem chegar a smartphones com Android a partir da versão 10. Ainda não foi definida a data para essa atualização.

 

Proteção pela IA

Os golpes digitais crescem a olhos vistos: a toda hora, surge uma nova modalidade, aproveitando-se de falhas dos sistemas e especialmente da inocência e inexperiência dos usuários. E os smartphones são o principal canal para sua execução.

Os bancos ficam em uma situação bastante cômoda diante desse gravíssimo problema. Argumentam que a culpa é do seu cliente e raramente ressarcem os valores. Na verdade, a pessoa é a vítima e os aplicativos dos bancos fazem pouco para protegê-la. Essa postura se assemelha a dizer que o correntista seria culpado por fazer um saque no caixa em uma agência com um bandido lhe apontando uma arma para sua cabeça.

As autoridades tratam o problema como caso de polícia, mas isso é insuficiente para eliminá-lo pelo absurdo volume de ocorrências. Adotam também medidas paliativas, como impedir o uso de caixas eletrônicos de madrugada, pelos sequestros-relâmpago.

As big techs, particularmente o Google e a Apple, criadoras dos sistemas operacionais de todos os smartphones do mundo, há anos lançam recursos para minimizar o problema, mas eles também são claramente insuficientes. Os cibercriminosos conseguem superar muitas dessas barreiras tecnológicas, o que chega a ser assustador, considerando os milhões de dólares investidos no seu desenvolvimento desses recursos.

Agora a inteligência artificial desponta como uma esperança para equilibrar essa balança. De fato, ela consegue oferecer aos smartphones habilidades até então inimagináveis, em diversas atividades.

As big techs desempenham um papel absolutamente central na solução do cibercrime, pois ele acontece usando suas tecnologias e plataformas. Mas isso não desobriga as autoridades e os bancos de se empenharem muito mais na busca por saídas, assumindo a responsabilidade que têm na segurança do cidadão e dos próprios clientes. Jogar a culpa no outro é uma atitude preguiçosa e vergonhosa!

Já não é de hoje que os smartphones se tornaram o centro de nossas vidas, pois fazemos uma grande quantidade de atividades com eles. Sem segurança, todas essas ferramentas ficam comprometidas. Por isso, esses recursos agora anunciados são muito bem-vindos. Esperamos apenas que os cibercriminosas não consigam superar também essas proteções.

 

Matt Hicks, CEO da Red Hat, explica a integração entre inteligência artificial e open source - Foto: Paulo Silvestre

Open source fortalece confiança e pode popularizar inteligência artificial

By | Tecnologia | No Comments

A corrida pela inteligência artificial acontece não apenas entre as big techs, que buscam estabelecer a dominância nesse mercado bilionário, mas também entre profissionais e empresas que querem construir uma vantagem sobre seus concorrentes, pelo uso dessa tecnologia. Agora o open source, modelo de produção e distribuição em que qualquer um pode propor melhorias em softwares, chega com ideias que podem tornar a IA mais segura, fácil e profissional.

Desde que o ChatGPT a apresentou às massas há 18 meses, seu avanço acontece a passos largos. Mas apesar de algumas aplicações disponíveis parecerem mágicas em seus resultados, a IA ainda está engatinhando. Muitos dos usos que vêm sendo feitos dela são poucos profissionais e podem até expor dados sigilosos.

Em grande parte, isso acontece porque as pessoas usam ferramentas genéricas, construídas para respostas sobre qualquer assunto, como o próprio ChatGPT. O amadurecimento desse mercado passa, portanto, pela oferta de plataformas que permitam que as empresas criem e ajustem seus próprios modelos, adequados a necessidades específicas e com suas informações usadas de maneira segura.

Durante o Red Hat Summit, maior evento de open source do mundo, que aconteceu em Denver (EUA) na semana passada, a Red Hat, líder global de soluções nesse formato, apresentou o InstructLab, plataforma que propõe solucionar esses problemas. Ela permite que qualquer pessoa, mesmo sem conhecimento técnico, contribua com o desenvolvimento de modelos de IA para seus negócios.


Veja esse artigo em vídeo:


Construído sobre o LLM (modelo de linguagem ampla) Granite, da IBM, a plataforma sintetiza dados a partir de informações do cliente, mesmo em pequenas quantidades, tentando vencer um problema atual dos grandes LLMs, que exigem volumes colossais de informação para seu treinamento, e estão esbarrando na falta de novo conteúdo. Com a ação dos usuários, esse modelo sintético tende a ficar melhor por uma fração dos custos de um desenvolvimento tradicional, para aplicações específicas.

“Isso permite que comunidades de pessoas ensinem os LLMs a aprender da mesma forma que os humanos aprendem”, explica Matt Hicks, CEO da Red Hat. “Ao permitir a qualquer pessoa que contribua para um modelo e ajustá-lo de novas maneiras, podemos realmente desbloquear o potencial da especialização em um assunto.”

“Talvez seja isso que de fato popularizará nas empresas esse modelo que a população experimentou, mas aplicado ao seu negócio, combinado com seus dados, com as suas informações”, sugere Gilson Magalhães, presidente da Red Hat Brasil. “Isso é revolucionário!”

Explicando de maneira mais simples, as empresas continuam se beneficiando das informações e da capacidade de produção dos grandes LLMs, mas agora podem construir modelos especializados para suas necessidades, a partir de seus dados e das habilidades e do conhecimento de sua equipe. “A tecnologia entra, mas sem os talentos, sem as pessoas, jamais se alcançará a transformação como ela deve ser feita”, afirma Paulo Bonucci, diretor-geral da Red Hat Latin America.

“O mundo não será composto por um único modelo, e sim, cada vez mais, por modelos especializados”, explica Thiago Araki, diretor de tecnologia da Red Hat Latin America. “Ao invés de usar um modelo de forma genérica, para qualquer caso, teremos modelos pequenos para usos específicos, para cada negócio.”

O amadurecimento do mercado implica também nas empresas entenderem que são responsáveis ao usar decisões tomadas pela IA. “Já existem ferramentas que ajudam nessa auditoria, mas trabalhar com código aberto permite identificar como e por que essas decisões foram tomadas e com quais dados”, detalha Victoria Martínez Suárez, líder em inteligência artificial da Red Hat Latin America.

 

Questões regulatórias

Todos esses executivos, com quem conversei em Denver, afirmam ser necessária alguma forma de regulamentação da tecnologia, naturalmente em um sentido que não prejudique seu desenvolvimento, mas para proteger os usuários de abusos econômicos das big techs e para dar segurança jurídica ao mercado.

Bonucci acredita que a legislação ideal deveria ficar entre a Lei da Inteligência Artificial, aprovada no mês passada pela União Europeia, e a proposta americana. A primeira é um documento extenso e detalhado, construído principalmente sobre os diferentes níveis de risco que a inteligência artificial pode oferecer às pessoas, orientando seu uso. Já o modelo dos EUA delega a decisão sobre o que pode ou não ser feito às diferentes agências regulatórias já existentes.

“A rastreabilidade e a transparência são exigidas em alguns setores, em outros são recomendadas”, explica Martínez. “Ter isso claro é bom porque, em algum momento, essas informações podem ser solicitadas para qualquer problema que ocorra.”

No momento, o Congresso Nacional analisa o Projeto de Lei 2338/23, que guarda muita semelhança com a lei europeia. Os legisladores brasileiros têm o desafio de criar regras claras para evitar que se repita na IA o que se vê nas redes sociais, que gostam de não dar satisfações, e com isso vêm causando muitos danos a usuários e à sociedade como um todo. “A regulação é um princípio ocidental muito útil para garantir que empresas e pessoas não sejam massacradas por qualquer que seja o domínio”, afirma Magalhães. “Mas ela tem que ser sábia para proteger, sem inibir”.

Tudo isso se faz necessário para que essa tecnologia, que evolui de forma exponencial, deixe de ser uma curiosidade e passe a trazer benefícios claros para pessoas e companhias. Por mais que esteja ainda em seus estágios incipientes, precisamos compreender seu funcionamento e recursos.

“A proposta é trabalhar não tecnologia por tecnologia, e sim algo que vai trazer impacto ao negócio”, acrescenta Araki. “Não devemos usar IA generativa só porque está na moda, e sim fazer o uso disso quando tem algum sentido para o negócio.”

É incrível pensar que, há apenas 18 meses, quase ninguém falava de inteligência artificial. No ano passado, ficamos deslumbrados com suas possibilidades. Agora estamos encontrando novas formas de nos apropriarmos dela. Assim, para que, no ano que vem, ela nos traga ainda mais benefícios, esse debate precisa ser ampliado.


Clique nos links para assistir à íntegra em vídeo das entrevistas com os executivos acima:

 

Sam Altman, CEO da OpenAI, líder global no desenvolvimento da inteligência artificial, no Fórum Econômico Mundial – Foto: reprodução

Sociedade exige da IA uma transparência que ela mesmo não pratica

By | Tecnologia | No Comments

Muito além do aquecido debate sobre legislações que organizem o uso da inteligência artificial, começa a se formar um consenso sobre alguns valores em torno dessa tecnologia, como uso e desenvolvimento responsáveis, decisões rastreáveis e dois conceitos que se confundem e são pouco conhecidos: transparência e explicabilidade. Todos são essenciais para que os impactos da IA sejam positivos. Mas a sociedade está exigindo algo dessas plataformas que ela mesma não pratica.

Se fizermos uma autoanálise, perceberemos que conscientemente não somos transparentes em muitas coisas de nosso cotidiano, assim como tampouco são empresas e instituições. Como exemplo, uma das maiores falhas das redes sociais, que levou à insana polarização da sociedade e a problemas de saúde mental de seus usuários, é a completa falta de transparência das decisões de seus algoritmos.

Diante disso, alguns especialistas afirmam que exigir esse nível de responsabilidade e transparência das plataformas de IA é um exagero e até, de certa forma, hipocrisia.

Talvez… Mas o fato de cultivarmos esses maus hábitos não pode ser usado para desestimular a busca desses objetivos nessa tecnologia com potencial de ofuscar a transformação que as redes sociais fizeram, que, por sua vez, deixou pequena as mudanças promovidas pela mídia tradicional anteriormente.

Se não tomarmos as devidas precauções, a inteligência artificial pode causar graves consequências para a humanidade pelas ações de grupos que buscam o poder de forma inconsequente. Por isso, ela precisa ser organizada para florescer como uma tecnologia que ampliará nossas capacidades criativas e de produção.

Sem esses pilares éticos, sequer confiaremos no que a IA nos disser, e então tudo irá por água abaixo.


Veja esse artigo em vídeo:


No momento, as plataformas de inteligência artificial funcionam como caixas pretas: colocamos nossos dados e fazemos nossos pedidos de um lado, e nos deslumbramos com os resultados do outro, sem saber como aquela “mágica” foi feita. Apenas quem está dentro das big techs que produzem esses sistemas sabe como aquilo funciona, mas até eles se surpreendem com alguns resultados das suas criaturas, como quando desenvolvem sozinhas habilidades para as quais não foram programadas.

Quando se cria algo que promove profundas mudanças na sociedade, mas não se conhecem seu funcionamento e objetivos, isso pode colocar em risco a própria democracia, não porque exista algo maquiavélico na sua confecção, mas justamente por esse desconhecimento. Não é à toa que legislações para a inteligência artificial ao redor do mundo, com o brasileiro Projeto de Lei 2338/23 e a europeia Lei da Inteligência Artificial, tentem definir rastreabilidade, transparência e explicabilidade.

A rastreabilidade é a capacidade de identificar e acompanhar as ações de um sistema de IA, saber quais dados foram usados para treiná-lo e seus algoritmos, manter registros sobre como chegou a uma determinada decisão e qual foi seu impacto. Isso permite que suas escolhas sejam auditadas e que vieses sejam corrigidos.

Já a transparência se refere às pessoas poderem ser capazes de entender como o sistema de IA funciona, quais dados ele usa e como ele toma decisões. Isso visa garantir que ele seja usado de forma justa e ética, aumentando sua aceitação pública.

Por fim, a explicabilidade se traduz na capacidade de um ser humano compreender as razões complexas pelas quais um sistema de IA toma uma determinada decisão, que fatores contribuíram e como foram ponderados. Ela é importante para identificar erros, prever resultados e garantir a conformidade com padrões éticos e legais.

Se não é fácil entender, mais difícil ainda é entregar esses valores. Os algoritmos mais eficientes são justamente os mais complexos, e uma simples documentação pode não ser suficiente. Ainda assim, o desafio dessa conformidade permanece.

 

Temos que entender

Como exemplo da importância de se entender essas plataformas, podemos pensar na exigência do artigo 20 da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que determina que o cidadão pode “solicitar a revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado de dados pessoais que afetem seus interesses”. Mas como ele fará isso se nem compreende como a decisão foi tomada? Da mesma forma, como a empresa revisará a decisão, se tampouco a compreende?

Considerando que a IA estará cada vez mais presente e determinante em nossas vidas, sua compreensão deve ser ensinada até nas escolas, desde a infância, de maneira crescente. Não quer dizer que todos precisem dominar plenamente seu funcionamento: apenas o suficiente para suas necessidades. Fazendo uma comparação com um carro, existe sobre ele os conhecimentos de um projetista, de um mecânico, de um motorista e de um passageiro. E todos usam o carro à sua maneira!

Ao contrário do que alguns dizem, a exigência de que plataformas de inteligência artificial sigam esses preceitos éticos não pode ser visto como ameaça ao seu desenvolvimento e inovação. Pelo contrário, são condições que devem integrar sua própria concepção. A população precisa disso para confiar na inteligência artificial, ou, passada essa fase inicial de deslumbramento, ela poderá deixar de ser considerada como a incrível ferramenta de produtividade que é.

Entendo que as dificuldades para isso sejam imensas. Sei também que nós mesmos não somos transparentes em nosso cotidiano, como já disse. Mas nada disso pode servir como desculpa para se esquivar dessa tarefa. Tampouco é hipocrisia exigir que os desenvolvedores se esmerem para cumprir essas determinações.

Não podemos incorrer no mesmo erro cometido com as redes sociais, que até hoje atuam de maneira inconsequente e sem responsabilidade pelos eventuais efeitos muito nocivos de suas ações. A inteligência artificial já está transformando a sociedade de maneira determinante.

Seríamos inocentes se acreditássemos que essas empresas se autorregularão: seus interesses sempre falarão mais alto nesse caso. Precisamos de regulamentações claras, não para coibir o progresso, mas para dar um norte de bons princípios, para que a inteligência artificial beneficie a todos, e não apenas grupos tecnocratas.