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O Decentraland, metaverso em que um “terreno virtual” foi vendido no dia 23 por R$ 13,4 milhões

Por que alguém pagaria R$ 13,4 milhões por um “terreno” que só existe na Internet

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Depois da pandemia, algumas das principais cidades do mundo vivem um “boom imobiliário”. Mas a transação no setor que mais chamou atenção recentemente aconteceu no dia 23, quando um “terreno virtual” foi vendido pelo equivalente a US$ 2,4 milhões (cerca de R$ 13,4 milhões na cotação do dia).

Apesar de ser apenas digital, ele mede 566 m2, o que dá cerca de R$ 24 mil por metro quadrado. Para comparação, esse valor médio de um terreno real em São Paulo gira em torno de R$ 10 mil, custando R$ 16 mil em Buenos Aires, R$ 83 mil em Paris, R$ 90 mil em Nova York e R$ 91 mil em Londres.

Para muita gente, não faz o menor sentido investir tanto dinheiro em algo que sequer se pode tocar. Mas em um mundo cada vez mais digitalizado, um espaço em um metaverso pode ser tão real quanto um pedaço de chão na sua cidade.


Veja esse artigo em vídeo:


Qualquer coisa tem o valor que as pessoas atribuem a ele. Claro que uma casa, um carro ou uma máquina têm um valor intrínseco, derivado do que foi usado para a sua construção, seja matéria-prima, mão de obra e até pesquisa. Mas o que realmente importa é a percepção de valor associado aos benefícios de se ter aquilo. Por exemplo, uma casa em um bairro com segurança e muitos serviços vale mais que uma construção idêntica em uma região violenta e com uma infraestrutura ruim.

Dessa forma, o alto investimento em um “terreno virtual” pode se justificar, dependendo do que será feito com ele e quais os ganhos ele trará a seus donos. Ainda assim, essa é uma lógica que desafia o senso comum.

O “terreno virtual’ mais famoso do mundo fica no metaverso Decentraland, um espaço online onde os usuários entram com seus avatares (suas representações digitais) para interagir com outras pessoas e até mesmo fazer negócios com elas, contratando serviços e comprando produtos que só existem no mundo digital. O pagamento é feito em criptomoedas.

Esses ambientes existem há muitos anos, mas ganharam novamente os holofotes em outubro, quando o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, rebatizou a empresa de Meta e disse que ela estava migrando do negócio de rede sociais para o de metaverso. Entretanto, ainda se viu muito pouco de efetivo vindo dessa mudança.

Antes dela, o metaverso mais famoso era o Second Life, um mundo virtual lançado em 2003. Ele foi revolucionário ao permitir que qualquer usuário entrasse e interagisse naquele mundo digital com outras pessoas e realizasse transações ali, que poderiam ser revertidas em dinheiro de verdade. A diferença fundamental é que o Second Life se parece mais com um game, enquanto a proposta de Zuckerberg visa permitir que o usuário “entre” no ambiente e interaja com elementos ali, graças às realidades virtual e aumentada agora disponíveis.

O dono do terreno milionário no Decentraland é a empresa Tokens.com, especializada em ativos digitais, criptomoedas, NFTs e metaverso. A empresa declarou que pretende usar o espaço para fazer desfiles de moda de roupas virtuais, que serão vendidas a usuários da plataforma para usarem em seus avatares.

Em junho, outra área no Decentraland foi vendida por cerca de US$ 913 mil. Os donos construíram ali um shopping center virtual para vender roupas digitais, mas o espaço costuma estar às moscas.

A Tokens.com teria que vender muita roupinha para os bonecos digitais para pagar os US$ 2,4 milhões investidos ali. Mas esse não é o seu verdadeiro ganho. O maior benefício para a empresa é valorizar suas atividades e os serviços com os quais atua. Dessa forma, os desfiles de moda virtuais soam quase como uma desculpa para encobrir suas verdadeiras motivações.

 

Difícil de entender

A empresa precisa de ações como essa para gerar debate e ajudar potenciais clientes a entender do que se tratam seus serviços.

É o caso dos NFTs (sigla em inglês para tokens não-fungíveis), uma modalidade de comercialização de arte digital viabilizada por uma combinação de tecnologia e mudança cultural. Com ela, ao comprar uma obra de arte digital, a pessoa passa a ser reconhecida como sua legítima dona, mas isso não lhe garante nenhum controle ou remuneração por qualquer reprodução do material. Além disso, os direitos autorais continuam sendo do autor da obra.

Façamos uma comparação com uma obra de arte física, como um quadro. Por mais que ela exista e tenha um dono, nada impede que seja reproduzida. Peguemos como exemplo o “O Grito”, obra-prima do norueguês Edvard Munch. Apesar de existir a original, ela é reproduzida em pôsteres, em publicações, em fotos de turistas e até na Internet. Os proprietários do original não recebem nada por isso, sequer têm qualquer controle sobre essas reproduções. Mas ninguém duvida que eles são os donos da obra e, se algum dia resolverem vendê-la, serão remunerados por isso.

O que dificulta a compreensão do NFT é que o original pode ser algo como um meme, que pode ser facilmente reproduzido por milhões de pessoas, e essas cópias serão idênticas ao original. Além disso, é legítimo perguntar então se qualquer pessoa poderia vender uma foto sua como NFT.

Na verdade, não. Para algo ser classificado como NFT, aquilo precisa ser muito conhecido, como a fotografia em um meme. E o “primeiro dono” precisa, de alguma forma, ter relação com a obra, por exemplo, sendo a pessoa retratada nela.

Vale lembrar que esse mercado não é regulamentado, por isso, esses valores são totalmente voláteis e sem garantias. Ainda assim, as vendas de objetos virtuais atingiram US$ 10 bilhões no terceiro trimestre, segundo a empresa de análise de mercado DappRadar. Já a consultoria Emergen Research calcula que o metaverso pode representar um mercado US$ 829 bilhões em 2028.

Tudo isso chega a transcender os conceitos do livro “Modernidade Líquida” (Editora Zahar, 2001), do filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Para muitos, o metaverso e suas transações são ilusórias, beirando o estelionato. E essa virtualização da vida afastaria as pessoas umas das outras.

Precisamos de algum tempo ainda para validar esses conceitos, o que só será possível quando o metaverso se tornar uma realidade no cotidiano das massas, como aconteceu com as redes sociais. Mas uma coisa é certa: para algo ser real, não precisa ser tocado!

Basta que as pessoas acreditem que seja!

 

Inteligência artificial aparece até nos detalhes do cotidiano e no relacionamento com empresas

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A IA (inteligência artificial) está longe de ser uma novidade, mas ainda existe muita informação incompleta e conceitos distorcidos sobre ela. O maior de todos é o de que essa tecnologia ainda seja algo distante, no campo da ficção, quando na realidade, usamos produtos impulsionados por ela o tempo todo. Ela também invade o mundo corporativo, melhorando processos e o relacionamento com os clientes.

“Todos os minutos que as pessoas pegam o telefone, o que é entregue a elas é parte de um algoritmo de inteligência artificial”, afirma Paulo Manzato, vice-presidente de Vendas para a América Latina da empresa portuguesa Talkdesk, especialista no desenvolvimento de sistemas de atendimento. Segundo ele, o machine learning (ramo da IA que permite que sistemas se tornem mais eficientes a cada interação com o usuário) faz parte da vida das pessoas “da hora que acordam até a hora que vão dormir”.

O executivo explica que IA permite hoje aumentar as potencialidades dos mais diferentes serviços. “Quando eu vejo uma apresentação da inteligência artificial como um produto, conceitualmente isso está equivocado: você constrói sua plataforma alicerçada em inteligência artificial”, explica.

Do ponto de vista das empresas, os sistemas de relacionamento com o cliente estão entre os que mais se beneficiam dessa habilidade da máquina identificar padrões dos consumidores, dos atendentes e dos próprios usos dos produtos. Com isso, consegue melhorar processos para aumentar a eficiência do negócio e reduzir frustrações dos clientes, algo que se torna cada vez mais crítico para qualquer negócio.

Tanto é assim que a empresa Reclame Aqui identificou que 51,2% dos brasileiros não se importam em pagar mais caro por um produto, desde que lhe seja oferecida uma experiência excelente. A conclusão veio a partir de uma pesquisa realizada em março com 13 mil consumidores de todo o país.

Essa experiência precisa ser superior em todos os pontos da “jornada do cliente”, desde quando ele descobre que a marca existe, quando percebe que ela pode lhe solucionar uma necessidade, no uso do produto em si e no suporte. Nesse último, os consumidores cada vez mais preferem resolver um problema interagindo com um sistema, mas não abrem mão de falar com um atendente humano quando o sistema falha nessa tarefa.

“A gente quer muito esse autosserviço, mas, assim que eu me deparo com o primeiro obstáculo do sistema sendo incapaz de me ajudar, eu quero falar com alguém”, afirma Lorelay Lopes, COO da Up, fintech da Embracon. “O grande desafio da inteligência artificial é deixar esse caminho mais fluido, quebrar essa barreira de ‘falar com bot versus com humano’, oferecendo uma experiência do cliente como a gente espera”, explica.

Os dois executivos participarão, na próxima quarta, do debate internacional “Como resolver os grandes desafios do atendimento automatizado”. O evento será online e gratuito, a partir das 11h.

Manzato explica que a inteligência artificial permite extrair informações relevantes para o negócio a partir de uma grande quantidade de dados coletados pela máquina, ao invés de amostras limitadas colhidas por seres humanos. “O dado pelo dado é custo, não diz nada se você não tiver o contexto da informação”, explica. Segundo ele, “uma empresa que decide sem olhar dados com apoio de machine learning perde uma superoportunidade de ser competitiva.”

Uma pesquisa da Talkdesk realizada em março com profissionais de customer experience de 11 países, incluindo o Brasil, apontou que 89% deles acreditam na importância de alavancar a IA na área de atendimento. Apesar disso, apenas 14% das organizações se consideram no nível mais alto de adoção dessa tecnologia, classificadas como “transformadoras”.

Ironicamente, os principais empecilhos para sua adoção resultam justamente de desconhecimento ou de visões distorcidas sobre ela. Por exemplo, 43% dos profissionais entrevistados pela Talkdesk citam o custo das ferramentas, enquanto 30% não querem ficar muito dependentes do departamento de TI nesse setor. Além disso, 26% acreditam que esse investimento levaria “muito tempo para se pagar”. Mas o que se observa no mercado são ferramentas baseadas “na nuvem” (“cloud computing”), com implementação muito rápida, investimentos baixos e resultados praticamente imediatos, sem uma grande curva e aprendizagem pelas equipes de negócios.

 

Máquina e humanos

Um grande medo que as pessoas têm é que as máquinas as substituam em seus postos de trabalho, à medida que fiquem mais inteligentes. Mas o que se observa, em diferentes setores da economia e nas mais diversas áreas da empresa, é que os sistemas de inteligência artificial retiram tarefas repetitivas dos profissionais. “O sistema libera o atendente para tarefas mais nobres”, afirma Lopes.

Isso também aparece na pesquisa da Talkdesk, com profissionais que já têm contato com a IA. Desses, 79% acreditam que a IA fornecerá mais ferramentas aos atendentes, em vez de substituí-los. Entretanto 63% afirmam que seus agentes atualmente não possuem as habilidades necessárias para maximizar o valor dessa tecnologia.

As próprias habilidades dos profissionais da área de atendimento estão mudando. Segundo a empresa, as mais valiosas na área de atendimento hoje são, pela ordem, “solução de problemas”, “atitude positiva”, “conhecimento do produto”, “flexibilidade” e “rapidez”. O estudo prevê que, já em 2025, a lista será encabeçada por “habilidade de trabalhar com IA”, seguida por “solução de problemas”, “capacidade de avaliar ferramentas de IA”, “capacidade de analisar dados gerados por IA” e “flexibilidade”.

Em outras palavras, a máquina se configura como uma parceira dos profissionais, e não como uma concorrente. “A inteligência artificial não vai tirar o emprego de ninguém”, crava Lopes.

Mas é preciso investir na formação profissional para essas e outras habilidades novas. “Existem muito poucos profissionais capacitados para trabalhar com data analytics, com modelos matemáticos”, explica Manzato. Para o executivo, as empresas que tiverem um grupo de profissionais dedicado a isso serão as mais bem sucedidas. “Especializar-se nisso é uma aposta certa para o mercado de trabalho!”

“Não acho que exista hoje algum tipo de atendimento que não possa ser feito dessa forma”, afirma Lopes. Segunda ela, é obrigação dos profissionais da área de tecnologia, de atendimento e de customer experience investir nessa tecnologia, para tornar a experiência do cliente mais eficiente e agradável. “O algoritmo, assim como nós, aprende com as interações, e como o tempo vai ficando cada vez melhor”, explica Manzato.

Por isso, recomendações automatizadas inteligentes, detecção de erros e fraudes em tempo real, sugestões a partir de grande volume de dados, análise de discurso e a oferta de um autosserviço mais eficiente são apenas alguns dos recursos que a inteligência artificial oferece às empresas, e que acaba impactando o nosso cotidiano, como consumidores.

Sem isso, pode existir uma dissociação crescente entre a oferta da empresa e o desejo dos clientes, o que pode ser fatal para os negócios. “A maioria dos executivos acha que a empresa que eles comandam presta um bom serviço”, diz Manzato, que termina com uma provocação: “mas será que percepção dele é a realidade?”


SERVIÇO: webinar internacional “Como resolver os grandes desafios do atendimento automatizado”, quarta (8 de dezembro) às 11h. Inscrições gratuitas em https://tinyurl.com/atendimento8dez

Para falar, basta ter boca, mas falar algo que preste é outra história

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O vídeo abaixo é a minha “Pílula de Cultura Digital” de número 300 e esse artigo é o de número 416 no “Macaco Elétrico”, meu espaço no Portal Estadão há mais de uma década. No caso do vídeo, que publico semanalmente, ele resulta de um enorme poder de comunicar ideias que as redes sociais concederam a qualquer pessoa. E isso é incrível, mas também pode ser uma maldição!

Depois que palavras são proferidas, não podem ser “desditas”, ainda mais em uma sociedade altamente digitalizada como a nossa. Aproveitamos alegremente esse “paraíso de liberdade de expressão”, sem perceber que falar é fácil, mas que precisamos cuidar do que falamos. Entre os resultados desse despreparo e dessa inconsequência no discurso online, vejo, a todo momento, pessoas destruindo sua reputação, profissionais perdendo o emprego e empresas sendo duramente questionadas por seus clientes.


Veja esse artigo em vídeo:


Não estou sugerindo que usemos menos essa capacidade de comunicação, muito pelo contrário! Mas o que eu vejo nas redes, e não é de hoje, é o domínio do discurso vazio, superficial, de “autopromoção a qualquer custo” ou de polarização política. E isso tem um impacto tão grande, que os valores de nossa sociedade e a nosso desenvolvimento como nação estão indo pelo ralo.

Sim, as redes sociais têm um papel decisivo nessa piora do tecido social. Mas, em última instância, são as pessoas, com mais ou menos consciência, que se deixam levar por esse frenesi. Por exemplo, no dia 21, o Estadão divulgou uma pesquisa interna do Facebook de 2018, que apontava como um grupo proporcionalmente pequeno de usuários brasileiros, chamados de “superprodutores”, criaram uma quantidade gigantesca de publicações de cunho político na rede, e isso teria afetado o engajamento em torno de alguns assuntos, podendo até ter influenciado o resultado das eleições.

Em um famoso discurso em junho de 2015, quando recebeu o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura na Universidade de Turim (Itália), Umberto Eco disse que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” Afirmou ainda que “eles eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Eu me lembro que, na época, discordei publicamente do escritor e filósofo italiano. Achei que havia, em suas palavras, uma certa intolerância e até soberba. Na minha filosofia, em que todos devem ter o direito de falar e que crescemos justamente ao contrapor discordâncias, aquilo estava errado.

Hoje percebo que Umberto Eco viu, lá atrás, o cenário em que vivemos. Parece que fosse em outra vida, mas não faz muito mais que cinco anos: até então, as redes sociais eram um espaço muito mais livre, em que as pessoas se encontravam para troca de amenidades ao invés de ofensas, e em que os algoritmos não eram manipulados para convencer a população a comprar produto ou até uma ideia.

O que nos leva ao tema central dessa conversa: para falar, basta ter boca, mas falar algo que preste é outra história.

 

A necessidade de aparecer

Nesse meio tempo, as redes sociais se tornaram peça fundamental para o sucesso de qualquer negócio e de qualquer carreira. Um exército de “gurus” surgiu dizendo o que as pessoas deveriam fazer, onde clicar, quem seguir, com o que se engajar. Mas eles não são capazes de explicar como fazer isso de uma maneira positiva e construtiva, mesmo por que a maioria não passa de “apertadores de botões”, que não tem muito a dizer.

Some-se a isso a percepção que as pessoas têm sobre o incrível sucesso que as publicações apelativas e polarizadas alcançam nas diferentes redes sociais. Diante de não saber o que falar e desses atalhos aparentemente fáceis, os usuários criaram um círculo vicioso no uso das redes, abandonando o debate de alto nível.

É uma pena, pois eu defendo que todos têm algo construtivo a compartilhar nas plataformas digitais, seja com um vídeo, seja com um singelo post. E, como sempre digo, o nosso cotidiano pode ser a nossa maior fonte de inspiração.

Sempre acontecem coisas em nosso dia a dia que poderiam ser usadas para ensinar algo ao outro. Apenas não estamos preparados para transformar essas ocorrências em ideias inspiradoras e transformadoras. E isso os “gurus” não explicam, porque a maioria deles não sabe como.

Precisamos romper essa necessidade de “aparecer a qualquer custo”, em que as pessoas são levadas a replicar ideias de fácil aceitação que não são delas. Elas vêm sendo enganadas pela manipulação dos algoritmos por alguns grupos, para que seus interesses se tornem dominantes com a ajuda de uma massa incauta.

A valiosíssima oportunidade que temos de expor nossas ideias ao mundo não deve continuar sendo usada para ampliar o ódio e o discurso de segregação ou, pior que isso, praticar crimes e contravenções escudados pelo direito inalienável da liberdade de expressão, que anda muito distorcido nesses tempos sombrios. Isso é um seríssimo risco a uma sociedade organizada que deseja se desenvolver de maneira sustentável!

Quando a massa ganha um poder enorme e inconsequente para expor suas insatisfações, sejam legítimas ou não, pode ser levada a praticar condenações e execuções sumárias, escudadas pelo “efeito manada” do meio digital. E isso é fascismo do século XXI! Mas esses indivíduos se esquecem que os que hoje condenam injustamente amanhã podem morrer do mesmo veneno.

É hora de pararem de usar o meio digital para confirmar que suas ideias são as “certas” e de achar que podem silenciar quem pensa de maneira diferente. A sensação pode parecer muito boa na hora, mas ela envenena a alma.

No lugar disso, precisamos desenvolver a nossa capacidade de unir pelo compartilhamento de ideias positivas, que todos nós somos capazes de desenvolver. É hora de parar de “falar só porque se tem boca” e deixar que o mundo perceba nosso valor pelas nossas virtudes e generosidade.

Quem se atreve a embarcar nisso?

 

As redes metem o dedo em nossas “feridas morais”

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Com os números da vacinação crescendo e os de casos e mortes por Covid-19 diminuindo, a sociedade tenta reencontrar seu caminho para uma vida que se poderia chamar de “normal”. Mas, para algumas pessoas, isso pode ser bem difícil, pois foram “feridas em sua alma”, uma ferida moral, por motivos que vão muito além da pandemia. E o meio digital agrava esse quadro.

Não se trata de depressão (apesar de poderem estar associadas), nem de burnout, um esgotamento causado por trabalhar sem limites. Esses dois problemas de saúde mental explodiram durante os últimos anos, e muito se fala deles. Já as feridas morais são menos debatidas e, por isso mesmo, menos compreendidas. Mas seus efeitos podem ser igualmente perigosos.

As feridas morais surgem quando algo em que a pessoa acredita profundamente, seus valores ou sua visão de mundo são violentados em um nível ou com uma frequência que ela não consegue assimilar. Isso produz sentimentos negativos dolorosos, como impotência, culpa, vergonha, e, em casos mais graves, raiva e desorientação.

Isso pode acontecer quando o indivíduo faz ou deixa de fazer algo muito sério e que considera correto por imposição de regras ou de superiores. Esse dano também pode surgir quando a pessoa convive em um ambiente em que seus valores são atacados continuamente, sem que possa os defender. Justamente nesse segundo caso, as redes sociais podem funcionar como um agravante.

Não se trata de uma psicopatologia, pois a ferida moral vem de uma resposta humana normal a um evento traumático anormal. Em outras palavras, o problema vem de fora, não de dentro.

O termo foi cunhado na década de 1990 pelo psiquiatra americano Jonathan Shay a partir de narrativas apresentadas por veteranos de guerra com percepção de injustiça por negligência de suas lideranças militares. Em 2002, ele definiu “ferida moral” como decorrente da “traição do ‘que é certo’ em uma situação de risco por alguém que detém o poder.” Em 2009, o conceito foi ampliado por outro psiquiatra americano, Brett Litz, que o definiu como “perpetrar, deixar de prevenir ou testemunhar atos que transgridam crenças e expectativas morais profundamente arraigadas, que podem ser deletérios a longo prazo”.

Não é de se estranhar que essas pesquisas tenham surgido entre militares e, posteriormente, entre profissionais da saúde. Afinal, eles precisam lidar continuamente com decisões morais profundas.

Mas vivemos em um mundo polarizado moralmente. Ele é inundado por pessoas com um enorme poder concedido pelas redes para destruir valores sociais sob o falso pretexto da liberdade de expressão. E essas mesmas plataformas lhes permitem angariar multidões barulhentas em torno dessas ideias, tornando a situação de suas vítimas às vezes intolerável.

Sobre isso tudo, vem a pandemia de Covid-19. Literalmente centenas de milhares de famílias precisam enfrentar a dor das mortes de entes queridos por uma doença que “veio do nada” e levou, até agora, mais de 5 milhões de vidas. Há também aqueles que viram seus negócios ou empregos arruinados. Outros tantos desenvolveram depressão ou quadros de burnout.

O mundo que conheciam e sobre o qual construíram suas vidas pareceu ruir sob seus pés. Para agravar o quadro, alguns grupos de poder deflagraram uma guerra ideológica para lucrar com a desinformação. Como resultado, muitos sucumbiram diante da pressão das próprias dores que tinham que enfrentar, combinadas com um grande senso de desorientação moral.

Os especialistas afirmam que uma boa autoestima, resiliência e a crença na hipótese de um mundo justo ajudam a proteger alguém de feridas morais. Mas haja resiliência para enfrentar isso tudo!

 

Uma ferida de todos

Diante desse quadro, as feridas morais extrapolaram os grupos sociais que normalmente afetavam. Hoje virtualmente qualquer pessoa pode desenvolver esse quadro em algum grau. Mas alguns profissionais ficam ainda mais suscetíveis a ele.

A característica do mundo atual de apresentar velozmente às pessoas grande quantidade de informações, muitas vezes sem filtros, além de expor o trabalho desses mesmos indivíduos, torna sua situação bem mais dramática. Muitos desses profissionais vêm desempenhando suas funções sem qualquer rede de proteção e sob ataques crescentes desses mesmos grupos de poder, que inflamam as massas contra eles. É o caso, por exemplo, de profissionais de saúde, jornalistas e professores.

Já mencionei aqui, nesse espaço, quando Pedro Bial entrevistou William Bonner para seu programa. À determinada altura da conversa, que foi ao ar no dia 26 de maio do ano passado, o editor-chefe do Jornal Nacional explicou como tem dificuldade de ir até a uma padaria, não pelo assédio dos fãs, mas pela hostilidade de haters. Morador do Rio de Janeiro, em um passado recente, teve que viajar de carro todos os finais de semana para visitar o pai doente em São Paulo, porque não conseguia mais pegar um avião. E isso tudo é resultado de uma sistemática campanha do governo para atacar o jornalismo profissional.

Isso aparece com mais força no documentário “Cercados”, produzido pelo Globoplay. Ele mostra o cotidiano do trabalho jornalístico (e, em alguns momentos, também o de profissionais de saúde) no auge da pandemia e como, apesar de estarem buscando fazer o certo, eram continuamente atacados por parte das autoridades e da população.

Muitos desses profissionais desenvolveram severas feridas morais. Eles lidavam com a morte cotidianamente, de uma maneira para a qual não haviam sido preparados. E faziam isso justamente para proteger a vida da população. Entretanto, em troca por essa função mais que louvável, recebiam todo tipo de hostilidade, até mesmo vindas da autoridade máxima do país ou em seu nome.

O mesmo se dá com os educadores. Assim como os jornalistas, os professores já vinham sob forte ataque em suas funções muito antes da pandemia. Mas a crise sanitária fez com que eles aumentassem exponencialmente, mesmo tendo que se desdobrar para continuar oferecendo o melhor a seus alunos, normalmente sem qualquer apoio.

As redes sociais têm um papel central nessa crise, pois elas oferecem todas as ferramentas usadas por esses detratores para ampliar a sua voz e os ataques. E, como sugerem os “Facebook Papers”, os milhares de documentos vazados pela ex-gerente do Facebook Frances Haugen, a empresa faz muito menos que pode ou deve.

Muitos profissionais poderiam simplesmente mandar tudo às favas, diante de tamanha ingratidão, e muitos fizeram exatamente isso. Jamais os julgaria por essa decisão, pois a pressão pode se tornar insuportável. Por outro lado, tantos outros persistem heroicamente, pois não conseguem abandonar aquilo que é certo e que pode resgatar seu bairro, o país e o mundo desse período de trevas, mesmo que isso lhes custe muito.

Especialistas afirmam que as feridas morais são curadas quando o indivíduo é ouvido e aceito, reencontrando seu lugar na sociedade. Apesar de a maior parte da literatura se aplicar a ex-combatentes, isso vale para qualquer profissional no atual cenário. Os feridos precisam ser aceitos pelo que fazem, valorizados e respeitado por isso.

No final das contas, um dos melhores tratamentos contra feridas morais consiste em enfrentar persistentemente o pior que a humanidade tem para oferecer. Mas essa tarefa é muito pesada. Empresas, famílias e toda a sociedade precisam se empenhar nisso.

Se profissionais de saúde, jornalistas e professores ficarem demasiadamente feridos, todo a sociedade perecerá, e não por Covid-19, mas de uma dor imobilizante na alma. Não é coincidência que as nações mais desenvolvidas sejam aquelas em que essas carreiras são muito valorizadas e admiradas por todos.

 

Pris e Roy (no filme “Blade Runner”), máquinas que simulam com perfeição seres humanos, mas que se voltam contra seus criadores

Nosso robô doméstico pode nos trair

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Os robôs estão invadindo nossas casas! Não as máquinas que se parecem a nós, como as do filme “Blade Runner”, ou as caricatas, como Rosie, a androide-empregada de “Os Jetsons”. Falo de equipamentos mais simples, como aspiradores de pó inteligentes e assistentes virtuais que ganham corpo e nos seguem pelos cômodos. Entretanto, apesar de bastante úteis em nosso cotidiano, temos que perguntar a quem elas realmente servem.

A princípio, esses robôs fazem exatamente aquilo pelo que pagamos. Mas vivemos no mundo do “capitalismo de vigilância”, em que somos constantemente observados por sistemas que descobrem do que gostamos, para nos oferecer produtos que possamos comprar.

Além disso, cada vez mais coisas –como nossos celulares, relógios, carros, eletrodomésticos e até roupas– coletam nossos dados para esses algoritmos. Portanto, apesar de sermos donos desses robôs, temos que questionar se eles trabalham para nós ou para seus fabricantes.


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Alguns lançamentos nas últimas semanas aqueceram esse debate. Um deles foi o Astro, um pequeno robô da Amazon com uma tela montada sobre o corpo com rodas, e a Alexa, a premiada assistente virtual da empresa, em seu cérebro. Coincidência ou não, ele tem o mesmo nome do cachorro dos Jetsons, mas não se parece em nada com ele, apesar de lembrar, de certa forma, um bichinho.

Com um custo de US$ 1.000 nos EUA, o aparelho tem uma série de recursos interessantes, como executar variados comandos de voz, dar recados e até entregar coisas para pessoas específicas da casa. Isso só é possível porque ele reconhece rostos e vozes de cada morador. Também faz videochamadas em qualquer lugar, a partir de sua tela. Possui ainda recursos para acompanhar pessoas que exigem atenção especial e até animais de estimação, e um curioso sistema de segurança, que faz com que verifique barulhos suspeitos e fique seguindo e gravando imagens de pessoas que não conheça.

A princípio, parece tudo muito bacana! Mas especialistas em privacidade criticam pesadamente um robô que caminha livremente pela nossa cosa, coletando imagens e sons constantemente, para tomar decisões. Sabe-se que Astro é capaz de transmitir informações pela Internet para seu dono. Mas a Amazon não confirma ou nega se algo também é enviado para ela. E a empresa é conhecida pela eficiência em nos oferecer um pouco de tudo com base em quem somos e do que gostamos.

Outro produto lançado recentemente é o Roomba j7+, versão mais recente do popular aspirador de pó doméstico da iRobot. Essa categoria de robô, que já era objeto de desejo para muita gente, ficou ainda mais popular no início do distanciamento promovida pela pandemia.

Sua grande vantagem é limpar cada vez melhor nossa casa, de maneira totalmente autônoma. Isso é possível porque sua inteligência artificial e seus sensores permitem que ele mapeie a planta da residência e a disposição dos móveis, para que seu caminho fique mais eficiente a cada uso.

O j7+, que custa US$ 850 nos EUA, vai além: ele traz uma câmera capaz de reconhecer obstáculos ignorados pelos modelos anteriores, como cocô de cachorro, desviando deles para não espalhar sujeira ao invés de limpar. Ele ainda envia uma foto do “achado” ao celular do dono e para a empresa –se o usuário permitir– para melhorar o reconhecimento das imagens.

Não é a primeira vez que aspiradores-robôs enviam dados das casas dos usuários a seus fabricantes. Por mais que sejam criptografados e anônimos, eles têm grande valor para qualquer um que deseje saber como as pessoas de uma determinada região ocupam suas próprias casas. Isso pode, por exemplo, ajudar nos projetos de futuras moradias.

 

Olha quem está ouvindo

O temor de que nossos equipamentos –especialmente os smartphones– estejam nos ouvindo para funções indesejadas não vem de hoje. Quem nunca pelo menos soube de histórias de usuários que começaram a receber ofertas de produtos sobre os quais haviam acabado de falar com outra pessoa diante de seu celular?

Obviamente esses aparelhos, que são a única coisa que carregamos conosco durante as 24 horas do dia, estão nos ouvindo o tempo todo! Afinal, eles precisam fazer isso para executar nossos comandos de voz.

Apple, Google e Amazon afirmam que as assistentes virtuais presentes em seus aparelhos usam esse recurso apenas para os fins indicados. Suponhamos que isso seja verdade, mas será que as dezenas de aplicativos que instalamos em nossos smartphones são assim tão éticos com o áudio e o vídeo que eles podem capturar sem o nosso conhecimento? Por muito menos, alguns desses programas já roubaram informações sensíveis de seus usuários em troca de alguma gracinha que entregam às pessoas.

Vejo muita gente cancelando suas contas nas redes sociais para não ser rastreado, mas isso é de uma enorme ingenuidade. Somos espionados a toda hora pelos nossos eletrodomésticos e até por câmeras e equipamentos da cidade. Há alguns anos, li os Termos de Uso de uma TV de um grande fabricante que indicava ao usuário para “não fazer diante do aparelho nada que pudesse se arrepender depois”. Afinal, o modelo tinha câmera e microfone embutidos.

Vai saber quem poderia estar ouvindo e vendo!

 

Posso querer que apenas aspirar?

Apesar dessa preocupação legítima de não querer ser rastreado, isso fica cada vez mais difícil de se conseguir.

É um fato que, quando compartilhamos nossos dados, esses sistemas tendem a nos oferecer melhores serviços. Alguns deles, totalmente integrados ao nosso cotidiano, como produtos do Google, do Facebook e da Apple, praticamente só funcionam bem com essa arapongagem!

Nós, por outro lado, passamos por uma profunda mudança cultural nos últimos anos. Aceitamos abrir mão de muito de nossa privacidade para poder usar esses produtos. Parece ser tudo grátis, mas pagamos caro por eles, justamente com nossos dados.

Chegamos assim a uma decisão crítica: será que não há outro caminho para a modernidade a não ser expondo nossas intimidades, ainda que de forma anônima, para essas empresas?

Vale lembrar que, mesmo que os fabricantes deem o melhor tratamento para esses dados, que garantia temos que esses equipamentos não serão hackeados para se tornarem espiões para criminosos? De certa forma, a coleta ilegal de nossas informações por empresas no Facebook para depois nos convencer o que comprar, com quem falar e até em quem votar é exatamente isso. Mas, agora, talvez estejamos correndo o risco de alguém literalmente olhar dentro de nossas casas.

A verdade é que qualquer fabricante pode incluir em seus programas e em seus robôs códigos que nós, como usuários, jamais saberemos. É preciso que se crie algum órgão que garanta que eles nos contem tudo que precisamos saber sobre o que produzem. Mas honestamente acho isso pouco exequível.

Em tempos de Lei Geral de Proteção de Dados, temos o direito de saber tudo o que será coletado de nós e exatamente o que será feito disso e com quem será compartilhado. E aceitar esses pedidos não pode ser uma condição para que o equipamento execute bem a tarefa para qual foi adquirido.

No fim das contas, para limpar nossa casa muito bem e sozinho, o aspirador de pó não precisa contar a ninguém onde estão nossos móveis.

 

Frances Haugen, ex-gerente de integridade cívica do Facebook, depõe no Senada americano sobre acusações nos “Facebook Papers”

A solução para o lixo nas redes passa por cada um de nós

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O Estadão destacou, em sua primeira página nesse sábado, novas informações retiradas dos “Facebook Papers”, como estão sendo chamados os milhares de documentos internos da empresa vazados pela sua ex-gerente Frances Haugen. E essas impactam particularmente os brasileiros: levantamento da plataforma concluiu que o discurso de ódio, a desinformação, a violência explícita e o desencorajamento cívico em suas páginas são bem altos no nosso país.

Qualquer um que navegue pelas redes sociais –e não apenas as de Mark Zuckerberg– sabe disso. Entretanto, o mesmo levantamento demonstra que os brasileiros são os que mais se sentem mal ao se deparar com esses conteúdos tóxicos.

Isso é um aparente paradoxo, pois o sucesso desses conteúdos ruins na rede está intimamente ligado às ações desses mesmos usuários. Por isso, não podemos apenas assumir uma postura passiva ou de vítima diante do problema. Sua solução depende necessariamente de cada um de nós.


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O Facebook fez a pesquisa entre março e abril de 2020 no Brasil, Colômbia, Estados Unidos, Índia, Indonésia, Japão e Reino Unido, com amostras de 5.000 pessoas de cada país. Ela visava saber se seus produtos conseguem manter sua “integridade”, ou seja, evitar conteúdos que violem suas regras. Essas violações são conteúdo cívico inflamatório, desencorajamento cívico, inautenticidade cívica, bullying cívico, conteúdo cívico falso ou enganoso, bullying, desinformação, contas falsas, roubo de identidade, violência explícita, discurso de ódio, nudez, terrorismo, exposição infantil indevida, venda de animais e venda de drogas e profanidade.

O levantamento indica que 37% dos brasileiros entrevistados identificaram publicações assim no Facebook. Nos Estados Unidos, isso chegou a 46%. Já no WhatsApp, esse índice bateu 30% no Brasil, o mais alto entre os países avaliados; nos EUA, foi sentido por apenas 13%. Mas é preciso considerar que apenas 30% dos americanos estão no aplicativo, enquanto, no Brasil, ele é usado por praticamente todas as pessoas online. Também foram analisados o Instagram, o Twitter, o Snapchat, o TikTok e o Line.

Entre os países verificados, os brasileiros são os que consistentemente se sentem pior quando veem esse tipo de conteúdo. Considerando Facebook e WhatsApp, os temas mais sensíveis para os brasileiros são exposição infantil indevida, terrorismo, violência explícita, discurso cívico inflamatório e discurso de ódio. A desinformação é um dos tópicos que menos choca os usuários por aqui.

Todas essas categorias são terríveis, mas o fato de a desinformação se classificar tão mal entre o que causa desconforto entre os brasileiros é emblemático. Isso está associado a aspectos culturais e a uma educação historicamente de baixa qualidade.

Por conta disso, o brasileiro já era proporcionalmente pouco acostumado a investir em informações de fontes de boa reputação. O fortalecimento das redes sociais agravou esse quadro, pois criou-se uma percepção que não era mais preciso pagar para se ter acesso a informações. Isso pode até ser verdade: o problema é o nível do que se encontra nas redes, majoritariamente muito baixo.

E os indivíduos consomem isso alegremente. Pior: divulgam esse material!

As pessoas acreditam no que elas quiserem, e isso é uma característica da nossa humanidade. Tentamos encontrar argumentos para validar aquilo que nos interessa.

Alguns não demoraram a perceber que poderiam combinar isso com os algoritmos das redes sociais, que nos colocam em contato com quem pensa da mesma forma que nós, para obter uma incrível máquina de convencimento para quaisquer que fossem seus objetivos. Assim surgiu uma minoria organizada e extremamente barulhenta no meio digital, que usa a desinformação como ferramenta.

Por exemplo, fiquei estarrecido ao ver publicações que sugerem que o trágico acidente que vitimou a cantora Marília Mendonça e os demais ocupantes do avião na sexta-feira teria sido causado por um mal súbito do piloto, que seria resultado de uma reação à vacina contra Cvoid-19.

Como alguém pode se aproveitar de uma tragédia que comoveu o país para fazer valer uma monstruosa teoria de que o imunizante é prejudicial à saúde?

O cérebro tem mecanismos curiosos. Graças a eles, essa teoria atingirá seu objetivo de desacreditar a vacina com uma quantidade considerável de pessoas, que estão enlutados pela cantora e buscam explicações para sua morte. Essas pessoas, por diferentes motivos, também têm suas próprias reservas à imunização e assim buscam argumentos para não se vacinar. A junção das duas coisas em uma única ideia, por mais bizarra que seja, dispara a sua aceitação.

É como se o indivíduo estivesse à beira do precipício, e precisasse apenas de um empurrãozinho…

 

Trabalho profissional

Isso não é uma molecagem, como alguns poderiam pensar. A desinformação se transformou em uma indústria milionária que move a política mundial.

Diversos estudos ajudam a explicar isso. Por exemplo, a pesquisa destacada na capa da revista Science, a mais importante publicação científica do mundo, no dia 9 de março de 2018, demonstra como, a despeito das ações de robôs, são as pessoas as grandes responsáveis pela disseminação das fake news. Isso acontece, em parte, porque a desinformação dispara mecanismos emocionais que induzem ao engajamento com esse material.

Em janeiro, a Universidade de Oxford (Reino Unido) divulgou o estudo “Desinformação industrializada: inventário global de manipulação de mídia social organizada”, que demonstra que essas táticas vêm sendo usadas por cada vez mais governos: em 2020, foram vistas em 81 países! Segundo os autores, no Brasil, as “tropas cibernéticas” (como eles chamam os apoiadores dos governos nas redes) se dedicam principalmente a atacar opositores e aumentar a polarização na sociedade.

Vale notar que os países onde a democracia aparece mais atacada pelas “tropas” são os mesmos em que a população acredita pouco na imprensa, como visto no relatório “Trust Barometer”, publicado em março pela consultoria Edelman. A China é uma exceção: 70% da população acredita na mídia por lá, mas ela é dominada pelo governo, o que reforça a tese de Oxford de que os governos autoritários combatem a imprensa livre.

A essa altura, dizer que a população se tornou massa de manobra dos poderosos graças a essa dominação digital se tornou uma obviedade. Mas precisamos insistir nesse debate, pois a solução do problema passa por rompermos esse quadro!

O Facebook nega oficialmente as acusações feitas a partir dos “Facebook Papers” e afirma que investe bilhões de dólares no combate ao conteúdo tóxico, inclusive a desinformação. O próprio estudo sugere uma preocupação em mapear o problema, colocando o Brasil como um “país de risco”, em que a população é fortemente impactada por esse material, e que precisa ser monitorado com prioridade, com “ações de integridade mais agressivas”.

Melhorar os algoritmos e ampliar equipes treinadas para reduzir ao máximo esses conteúdos são iniciativas fundamentais, mas é preciso investir na educação midiática da sociedade. As pessoas precisam aprender a separar a verdade de absurdos.

Essa não é uma tarefa trivial, e depende fortemente dos veículos de comunicação profissionais, mas também das escolas e até da Justiça. E as plataformas digitais desempenham um papel crítico nisso, pois é graças a elas que a mentira chega à população como uma “versão dos fatos” muito mais suculenta, pronta para ser consumida ser raciocinar.

É difícil resistir e até identificar as fake news. Aos olhos do brasileiro, elas nem encabeçam a lista de preocupações, como indica essa pesquisa do Facebook agora revelada. Perdem até da nudez!

Mas a nudez não pode destruir a sociedade. A desinformação pode, e já fez um estrago enorme.

Mark Zuckerberg, cofundador e CEO do Facebook, demonstra seu metaverso com um avatar de si mesmo

Os benefícios e os riscos do metaverso de Zuckerberg

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A nova fixação de Mark Zuckerberg, criador e CEO do Facebook, é o seu metaverso. Trata-se de um ambiente digital em que as pessoas entrarão usando equipamentos de realidades virtual e aumentada, e farão diversas atividades lá, como trabalhar, estudar ou se divertir. Isso pode representar um grande salto tecnológico, com benefícios incríveis. Mas quais são os riscos que pode embutir?

Parece ficção científica. E, por enquanto, é! Ninguém sabe com certeza quando isso deixará de ser um conceito e passará a ser um produto maduro e acessível às massas. Entretanto precisamos saber se as pessoas estão prontas para viver nessa realidade alternativa. Afinal, se tanto já debatemos sobre os efeitos da exposição exagerada às redes sociais, o metaverso pode potencializar esses problemas.


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Esqueça as videochamadas que se popularizaram na pandemia! O novo mundo de Zuckerberg permitirá que usuários sintam como se estivessem lado a lado, mesmo que, na verdade, estejam em países diferentes. Poderão ter o aspecto que desejarem e o próprio ambiente será construído de acordo com suas necessidades. Todos poderão interagir com o que estiver ali, como se tudo realmente existisse.

Quando vi a proposta, eu me lembrei do Second Life, um mundo virtual lançado em 2003. Apesar de ter pretensões muito menores que as de Zuckerberg, foi revolucionário ao permitir que qualquer usuário criasse um mundo digital em que entrasse e interagisse com outros. A diferença fundamental é que o Second Life continuava sendo algo apenas como um game, enquanto a proposta atual permite que o usuário “entre” no ambiente e interaja com elementos ali, graças às realidades virtual e aumentada agora disponíveis.

Apesar de ainda funcionar, hoje o Second Life tem poucos “residentes”, como seus usuários se autodenominam. O principal motivo para a perda de interesse foi a necessidade de equipamentos poderosos e uma conexão muito rápida para que a experiência fosse boa, e isso estava fora do alcance da maioria das pessoas.

Esse também é um problema do novo mundo de Zuckerberg. Os equipamentos de realidade virtual e aumentada ainda são caros e limitados, e uma boa conexão de banda larga é luxo restrito a poucos. E, se a experiência imersiva não for realmente convincente, a grande vantagem do metaverso cai por terra.

 

Trocando o real pelo virtual

O termo “metaverso” foi cunhado em 1992 por Neal Stephenson, em seu livro “Nevasca”. E, como acontece com muitas ideias da ficção científica, inspirou a realidade. O próprio Second Life é um metaverso.

Mas o conceito nunca teve tanta chance de “virar” como agora, graças à betoneira de dólares e à atenção de Zuckerberg. Tanto que, na quinta passada, durante a conferência anual da empresa, ele anunciou a criação de uma holding que controlará todas as suas empresas. Ela foi batizada de Meta, uma clara referência ao metaverso.

Para se ter uma ideia de quanto isso representa, a empresa já tem mais de dez mil pessoas trabalhando em projetos ligados às realidades virtual e aumentada, que começaram há alguns anos. A Meta pretende dobrar essa equipe e o investimento nesses projetos está na casa de bilhões de dólares

Um metaverso traz benefícios inegáveis, como elevar os ambientes de trabalho e de estudo a distância a um patamar antes inimaginável. Pode ser também um poderoso espaço de relacionamento com o consumidor e de experimentação, barateando o lançamento e a venda de produtos. Até a telemedicina pode ganhar com isso!

Mas nada deve ser tão beneficiado quanto o entretenimento e os aspectos sociais. Imagine a sensação de estar dentro de um filme ou de um game! Ou ainda de se encontrar com amigos a distância, de uma maneira bastante convincente. Há ainda o sexo virtual, que se tornará cada vez mais realista, à medida que novos equipamentos para simular sensações se tornem disponíveis e estejam conectados ao metaverso.

A imaginação é o limite! E isso nos leva a possíveis riscos dessa experiência.

Por muito menos, pessoas descobriram, durante o distanciamento social provocado pela Covid-19, vantagens de se fazer coisas a distância, ao invés de presencialmente. Agora, mesmo com a flexibilização das regras, elas mantiveram esses hábitos online.

Uma realidade virtual poderosa pode diminuir nossa capacidade de distinguir entre o presencial o virtual. Nosso cérebro pode ser “enganado” para acreditarmos que a simulação seja algo real. E reagirmos a isso com nosso corpo.

Isso pode se tornar uma possível fuga das limitações da realidade. De certa forma, as redes sociais já oferecem isso, mas, com o metaverso isso pode ser maximizado pelo seu aspecto imersivo, criando uma distração idealizada dos problemas. E isso pode levar as pessoas a se tornarem mais suscetíveis a ideias e a produtos, pois baixam suas defesas mentais.

Há ainda riscos físicos! Durante uma simulação imersiva, as pessoas podem inadvertidamente se mover em um espaço a sua volta que não condiz com o que seu cérebro acha que está. E o menor dos problemas que podem surgir daí são tropeços.

Do ponto de vista da saúde mental, estudos sugerem que uma exposição prolongada a uma experiência virtual tão profunda pode levar indivíduos a casos de comportamentos antissociais, violência, depressão e, no extremo, suicídio. E justamente por ser algo tão novo e pouco estudado, não se sabe exatamente quais seriam esses efeitos colaterais e como preveni-los.

O que nos leva a um ponto crucial: como isso impactará crianças e adolescentes. Uma das piores acusações contra o Facebook feitas por Frances Haugen, uma ex-gerente da empresa que vem fazendo delações nas últimas semanas, é a de que a companhia sabe que o Instagram, um de seus principais produtos, acentua problemas de saúde mental em adolescentes, especialmente em meninas, e faz muito pouco para prevenir isso.

Com o metaverso, esses problemas na formação dos mais jovens podem se tornar exponencialmente maiores. Como suas capacidades cognitivas ainda estão em formação, a diferença entre realidade e simulação se torna ainda mais difusa. Tanto que empresas que produzem essas tecnologias sugerem que não sejam usadas por quem tiver menos que 13 anos. Mas como garantir isso?

Os jovens são, portanto, ainda mais suscetíveis aos estímulos que recebem em realidade virtual, o que cria preocupações não apenas em questões comerciais, mas também de bullying e até de pedofilia. Para tornar a situação mais dramática, é muito difícil monitorar um ambiente tão dinâmico. E vale destacar que Zuckerberg deseja criar estratégias para atrair e reter o público jovem, algo essencial para seus negócios, que estão ficando envelhecidos e pouco atraentes para os mais novos.

À medida que o metaverso ocupe mais espaço em nossas vidas, todos esses aspectos precisarão ser cuidados. Sem falar que, caso se torne um recurso importante para trabalho e estudo, pode provocar um novo tipo de abismo social, separando aqueles que conseguirão aproveitar a simulação daqueles que não terão como fazer isso.

Não deixa de ser curioso todas essas novidades aparecerem justo quando o Facebook passa pela sua maior crise de reputação, que pode levar à divisão da empresa e até à queda de Zuckerberg do posto de CEO. Se o metaverso der certo, isso pode ampliar ainda mais a dominância que ele tem sobre as pessoas e as empresas no mundo todo, e emergir como um visionário. Mas, se der errado, pode entrar para a história como um vilão que destrói democracias e vicia pessoas. É uma aposta alta!

Do nosso lado, temos que cuidar que o mundo online não se torne mais importante que o real. Os valores que verdadeiramente contam estão aqui, “do lado de fora”, e não devem ser simulados ou sintetizados.

 

Inteligência artificial avança sobre o destino do seu emprego

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O papel da Inteligência Artificial cresce de maneira galopante em todos os segmentos do mercado. A área de Recursos Humanos também se beneficia dela, naturalmente. Já há algum tempo, esses sistemas são usados para fazer a peneira em um oceano de currículos que concorrem a vagas de trabalho. Agora algumas empresas também estão usando esse recurso para decidir quem será demitido.

Se algumas pessoas já questionavam a capacidade de a inteligência artificial escolher os melhores candidatos para uma vaga, essa dúvida tende a ficar ainda mais cruel quando se imagina um frio computador decidindo quem será mandado embora. A máquina será justa na sua análise?

A preocupação é pertinente. Afinal, poucas coisas impactam a vida de alguém como uma contratação ou uma demissão, especialmente em um cenário de desemprego nas alturas, como o que vivemos. Mas precisamos colocar em perspectiva o uso dessa ferramenta: será que ela pode ser “culpada” por suas escolhas, se é que dá para atribuir culpa a uma máquina?


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A demissão por inteligência artificial ganhou manchetes em agosto, depois que a empresa russa de promoção de games Xsolla demitiu 150 de seus 450 colaboradores. A decisão de quem seria mandado embora ficou totalmente a cargo do sistema, com base em critérios de produtividade e comprometimento com os objetivos da empresa.

A repercussão foi tão grande que seu CEO, Alexander Agapitov, explicou à edição russa da revista Forbes que não concordava totalmente com as escolhas do sistema, mas que tinha que aceitá-las por determinação da assembleia de acionistas. Mesmo assim, ele se comprometeu a ajudar os demitidos a encontrar trabalho logo, pois, segundo ele, são “bons profissionais”.

O caso é emblemático, mas não é único. O uso da inteligência artificial em demissões já acontece há alguns anos e vem crescendo. Em alguns casos, o sistema não apenas decide quem será mandado embora, como cuida de tudo. Em outras palavras, nesses casos, não há o envolvimento de profissionais de Recursos Humanos nem na decisão, nem na execução do processo.

Isso o torna ainda mais doloroso. Em junho do ano passado, a Uninove demitiu cerca de 300 docentes por um pop-up exibido quando eles entraram na plataforma para dar a aula a distância, já que a escola estava fechada por conta da pandemia. Não houve uso de inteligência artificial nesse caso, mas a mensagem extremamente lacônica, sem incluir qualquer justificativa ou explicação, foi chocante para professores e alunos.

A pergunta “por que eu” sempre surge, especialmente entre profissionais que acreditam estar realizando um bom trabalho, dando o melhor de si, comprometidos com a empresa. E talvez estejam mesmo! Mas, no momento de uma demissão, eles serão comparados com todos na mesma situação ou serão considerados critérios que desconhecem ou sobre o qual não têm nenhum controle. E, nesses casos, um sistema de Inteligência Artificial pode ser uma ferramenta poderosa para os gestores, pois justamente tomará a decisão sem qualquer influência emocional.

Para quem está “do lado de cá do balcão”, aspectos como esforço, ética, dignidade têm peso maior que o considerado pelas empresas, mais preocupadas em métricas de produtividade mensuráveis. Mesmo muitos anos de trabalho excelente para a companhia perdem valor diante da necessidade de cortar friamente, por exemplo, quem ganha mais.

Aspectos intangíveis interessam apenas a seres humanos. Em um mundo cada vez mais focado em resultados, eles perdem espaço. Por isso, a “culpa” não é da inteligência artificial: ela apenas reflete como as empresas se reorganizaram no relacionamento com sua força de trabalho.

O “emprego para a vida toda” está em extinção.

 

Contratando e paquerando com IA

Da mesma forma que demite, a inteligência artificial contrata. A versão mais recente da pesquisa State of Artificial Intelligence in Talent Acquisition, publicada pela consultoria americana HR Research Institute em 2019, indica que, naquele ano só 10% das empresas faziam um uso alto ou muito alto de IA no recrutamento, mas que 36% dos gestores esperavam fazer isso em até dois anos.

E isso foi antes da pandemia de Covid-19, que acelerou ainda mais esse processo.

O estudo traz outra importante conclusão: entre os entrevistados, os maiores temores do uso dessa tecnologia são a desumanização do recrutamento e possíveis discriminações no processo, por vieses surgidos por uma programação falha.

As empresas que já usam esses recursos afirmam que eles permitem contratações de melhores candidatos e de maneira muito mais rápida e eficiente. O risco de discriminações seria minimizado por uma inteligência artificial bem construída e por profissionais de RH capacitados, que ensinam à máquina o que realmente importa.

Se extrapolamos esse conceito, percebemos que a inteligência artificial já nos ajuda a escolher muitas coisas em nossa vida, até mesmo parceiros românticos ou sexuais. Diversos sistemas no mercado aprendem com nossas escolhas de quem nos interessa, para que as próximas sugestões sejam mais assertivas.

Esse processo pode ser extremamente complexo, para que os resultados não sofram vieses inconscientemente ensinados pelos próprios usuários. “Hang the DJ”, quarto episódio da quarta temporada da série “Black Mirror” (disponível na Netflix), que sempre traz questões morais envolvendo usos da tecnologia, ilustra isso de maneira inusitada e até inesperada.

É um fato que estamos sendo sempre rastreados. O que fazemos, dizemos, compramos, comemos, onde e com quem andamos, tudo isso será usado para traçar nosso perfil. E sistemas como os das redes sociais têm ficado tão eficientes nesse processo, que fica muito difícil impedir que eles “extraiam nossas verdades”.

Por isso, apesar de recrutadores afirmarem que os candidatos devam criar currículos e páginas em sites de empregos que estejam alinhados com as vagas e as empresas que desejam, esses documentos acabam se tornando apenas mais um elemento no processo de contratação ou de demissão. É possível que um belo artigo publicado no LinkedIn seja o responsável por uma contratação, enquanto uma foto infeliz no Facebook resulte em uma demissão. Ou, quem sabe, na escolha de alguém com quem se dividirá os lençóis em breve.

Isso pode ser aterrorizante para muita gente! Estamos nus e expostos para olhos digitais, que nos fazem praticamente uma “autópsia de pessoa viva”. Por isso, não se deve perder muito tempo em criar personagens que sejam muito diferentes de quem realmente a pessoa é, para objetivos específicos. Talvez seja mais interessante buscar objetivos mais em linha com sua realidade.

Em outras palavras, mentir no currículo nunca foi tão difícil. Por outro lado, para quem está trabalhando, vale prestar atenção se as exigências e o estilo da empresa se alinham com suas crenças. Se não for o caso, é melhor pensar em mudar de emprego antes de ser demitido por uma máquina.

Apesar de tanta eficiência, penso que tudo tem um limite. Lidar com pessoas sempre foi uma tarefa difícil, especialmente em momentos em que se toma uma decisão que impactará fortemente suas vidas. Ignorar isso completamente desumaniza tanto uma contratação e principalmente uma demissão que, na prática, desumaniza o próprio indivíduo. Nem a busca pela eficiência pode reduzir seres humanos a meros “recursos” com o mesmo peso de uma máquina, que será substituída porque ficou obsoleta.

Processos como esses exigem reflexões responsáveis. Se o RH terceirizar não apenas suas decisões, como também a operacionalização dos processos, ele mesmo pode ser substituído com vantagens por um sistema.

Devemos, portanto, nos preocupar menos em humanizar as máquinas e mais em humanizar as pessoas.

 

Nicotina, algoritmos, dopamina, curtidas e outras drogas

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Sinto lhe dizer, mas você provavelmente é um viciado em drogas. Não me refiro às “clássicas”, como crack, heroína, cocaína ou maconha, ou às “drogas legais”, como bebidas alcoólicas ou cigarros. Estou falando de redes sociais, e isso não é um abuso de linguagem.

O que nos faz ficar grudados nas telas é a dopamina que nosso cérebro produz ao sermos bombardeados pelos algoritmos dessas plataformas com conteúdos que nos agradam. Trata-se, portanto, de uma dependência química real.

Esse debate pegou fogo na semana passada, quando a americana Frances Haugen, ex-gerente da equipe de integridade cívica do Facebook, veio a público para dizer que a empresa sabe disso e que não apenas faz pouco para combater esse efeito, como o reforça com seus algoritmos.


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Haugen começou a trabalhar no Facebook em janeiro de 2019. Ela se demitiu em maio deste ano por discordar das diretrizes da companhia. Mas não antes de coletar milhares de documentos que indicariam que a empresa sabe que os conteúdos que geram mais engajamento –e mais lucros– são os que, segundo ela, “fazem mal às crianças, alimentam a divisão e enfraquecem a nossa democracia”.

Ela já vinha informando, de maneira anônima, o jornal americano The Wall Street Journal, que publicou, em setembro, várias reportagens expondo essa gestão da empresa de Mark Zuckerberg. Com sua repercussão, o Congresso dos Estados Unidos decidiu investigar a companhia.

No dia 3, Haugen decidiu mostrar o rosto no programa 60 Minutes, da emissora CBS. Dois dias depois, falou ao Congresso americano. Deixou claro que o Facebook priorizou o lucro às custas da dependência e da saúde mental de seus usuários. Ao 60 Minutes, disse que “o Facebook percebeu que, se mudar o algoritmo para ser mais seguro, as pessoas vão passar menos tempo no site, vão clicar em menos anúncios e eles vão ganhar menos dinheiro”.

As acusações são gravíssimas e precisam ser naturalmente verificadas. Mesmo assim, já na segunda, as ações da empresa despencaram cerca de 5%. Zuckerberg veio a público negar tudo e dizer que seria “ilógico” promover conteúdo que criasse polarização social, e que o Facebook trabalha ativamente pelo bem-estar de seus usuários.

Mas, como diz o professor da Universidade de Yale (EUA) Edward Tufte, “existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários: a de drogas e a de software”.

 

O dilema da rede

No sábado, um dia após ganhar o Prêmio Nobel da Paz, a jornalista filipina Maria Ressa acusou o Facebook de ser uma ameaça à democracia, justamente porque ele falha em proteger seus usuários contra a disseminação do ódio e da desinformação.

Passamos cada vez mais tempo nas redes sociais. Segundo o mais recente relatório “Digital Global Overview”, publicado pela Hootsuite e pela We Are Social, o brasileiro fica, em média, 3 horas e 42 minutos por dia nas redes sociais, atrás apenas dos filipinos e dos colombianos.

Haugen não disse nada que já não se soubesse ou pelo menos suspeitasse. O documentário “O Dilema das Redes”, lançado em setembro de 2020 pela Netflix, explicou tudo isso de maneira bastante didática. A novidade agora é uma informante tão bem documentada “colocando o dedo na ferida” de maneira pública.

Não é o primeiro grande escândalo envolvendo o Facebook. Em março de 2018, explodiu o da empresa britânica de marketing político Cambridge Analytica, que usou os recursos da plataforma para roubar os dados de 87 milhões de usuários, para manipulá-los em favor da eleição de Donald Trump em 2016. Em um primeiro momento, Zuckerberg se colocou como vítima, mas, diante da pressão do governo americano, disparou iniciativas para proteger os usuários.

Haugen diz agora que propositalmente ele faz pouco!

Isso me lembra de outro escândalo gigantesco, esse da indústria do cigarro. Em 1996, o mesmo 60 Minutes divulgou uma entrevista-bomba com Jeffrey Wigand, ex-diretor de pesquisa da Brown & Williamson, então a terceira maior empresa do setor no país.

“Somos uma empresa de entrega de nicotina”, ele disse na época. O executivo, que teve a vida devastada pelas revelações, deixou claro que os fabricantes sabiam que os cigarros faziam mal à saúde das pessoas e que eram altamente viciantes. E o que é pior: deliberadamente incluíam produtos para aumentar o vício. O caso foi retratado no filme “O Informante” (1999), com Al Pacino e Russell Crowe.

Isso provocou profundas mudanças na indústria, que ficou muito mais regulamentada no mundo todo. De maneira geral, toda sua publicidade foi proibida, a venda ficou mais controlada e intensas campanhas de conscientização foram feitas. O resultado é que a quantidade de fumantes diminuiu, especialmente entre os mais jovens.

Ainda assim, a indústria do cigarro continua ativa. De uns anos para cá, tenta uma nova roupagem com os “cigarros eletrônicos”, que fazem sucesso justamente com adolescentes.

 

O que pode ser feito

Pelo que Haugen sugere, Zuckerberg quer solucionar o problema, desde que não atrapalhe os negócios do Facebook. Mas eles (pelo menos na atual forma) são o problema! E sua dominância rendeu US$ 86 bilhões de receitas em 2020 à empresa.

Muita gente acha que a solução seria forçar a divisão do império em empresas menores concorrentes, a exemplo do que foi feito em 1982 na telefonia americana, com a AT&T, que acabou dividida em sete empresas, conhecidas como “Baby Bells”. Vale dizer que isso já foi sugerido há alguns anos com a Microsoft e o Google, sem sucesso.

Haugen acha que isso não funciona. Ela sugere que o caminho seria os algoritmos se tornarem totalmente transparentes, e a criação de uma agência para supervisionar as plataformas digitais, além de aumentar a idade mínima dos usuários.

Tudo isso é bem-vindo, mas não deve ser suficiente. A inteligência artificial precisa ser refinada para limitar conteúdos potencialmente perigosos, e usuários reconhecidamente nocivos à sociedade precisam ser banidos. Por fim, a “tirania das curtidas”, que faz com que as pessoas prefiram conteúdos “de gosto fácil” àqueles e alta qualidade, precisa ser impedida.

O usuário é o elo frágil da corrente. Como nas drogas, não consegue sair de seu vício, por mais que lhe faça mal. Por isso, provavelmente as redes sociais precisem sofrer um controle severo como o que foi imposto à indústria tabagista.

O que não é possível é não se fazer nada. A situação dramática pela qual o mundo passa, com uma polarização que cria uma ameaça real à manutenção da sociedade e da democracia, cresceu graças a essas plataformas. O negacionismo científico, que ceifou centenas de milhares de vidas pelo mundo na pandemia de Covid-19, e a radicalização política são apenas os destaques.

As redes sociais podem ser um ambiente incrível de trocas de ideias. Mas seus usuários precisam de ajuda para vencer esse vício.

 

Steve Jobs, cuja morte completa dez anos nesta terça, ainda pode ensinar muito a um mundo que parece ter se perdido

O que o mundo perdeu em uma década sem Steve Jobs

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Pouquíssimas pessoas podem dizer que mudaram o mundo uma vez com suas ideias ou suas ações. Steve Jobs fez isso três vezes!

Nesta terça, sua morte completa dez anos. Mas seu legado continua em nosso cotidiano e seu pensamento inspira novas gerações de empreendedores, inventores e executivos. Isso não deixa de ser curioso, pois Jobs não era um gênio da tecnologia ou sequer um bom gestor de pessoas.

Pelo contrário, sua personalidade colérica e sua absoluta falta de tato são amplamente conhecidas e suas habilidades técnicas eram bem comuns. É de se perguntar, então, como ele conseguiu fazer tudo que fez a despeito dessas aparentes limitações, e por que pessoas muito mais preparadas não chegam nem aos pés disso.

A resposta passa por uma frase dele que fica ainda mais emblemática nessa data: “lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que conheço de evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder.”


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Muitos diriam que Jobs tinha muito a perder, sim! Afinal, ele havia criado a Apple em 1977, uma empresa bilionária a partir de um invento de seu brilhante amigo Steve Wozniak, construído na garagem de seus pais. Para quase todo mundo, esse já seria o sonho de uma vida, e fariam de tudo para evitar riscos que pudessem ameaçar essa posição.

O invento em questão resultou no Apple II, primeiro produto da empresa. Wozniak o construiu como um hobby de eletrônica. Mas quando Jobs conheceu a máquina, enxergou nela a possibilidade de levar a informática para dentro das casas e das pequenas empresas.

Ou seja, viu muito além da tecnologia e do produto: viu a chance de mudar o mundo! E fez exatamente isso.

Jobs não deixava de correr riscos, apesar de já ter “vencido na vida”. Para ele, a inovação distinguia um líder de um seguidor. Mesmo com o sucesso estrondoso do Apple II, ele queria que a tecnologia fosse ainda mais democrática, mais fácil para o cidadão comum.

Por isso, quando soube dos desenvolvimentos de engenheiros da Xerox no icônico Laboratório de Pesquisa de Palo Alto (Califórnia, EUA), ficou alucinado. Eles haviam construído um computador que podia ser operada por uma interface gráfica, e não mais por comandos pouco intuitivos em uma tela de texto verde. Ironicamente, os diretores da Xerox não viram valor comercial naquilo, e concordaram em ceder a tecnologia para a Apple.

Com a interface gráfica e uma grande inovação da época, o mouse, Jobs lançou o Apple Lisa (1983) e o Macintosh (1984). E, com esse último, mudou novamente o mundo, ao tornar a informática algo fácil de usar por qualquer um.

 

Céu e inferno

Apesar de estar no seu auge, em 1985 Jobs acabou escorraçado da empresa que fundou pelo CEO que havia contratado pouco tempo antes: John Sculley. Vindo da Pepsi, o executivo não concordava com os riscos e com o estilo de Jobs.

Entretanto, sob a administração de Sculley e de seu sucessor, Gil Amelio, a Apple entrou em profundo declínio, chegando à beira da falência. A empresa começou a se ver apenas como mais um fabricante de computadores e, com isso, não conseguia fazer frente a concorrentes como a IBM ou a Compaq.

Por uma incrível sucessão de fatos, Jobs acabou voltando à empresa em 1997. Depois de se livrar de todos seus desafetos, ele praticamente recriou a Apple, uma vez mais com o foco na inovação. Novamente não bastava que seus produtos fossem inovadores: eles precisavam transformar a vida das pessoas.

O primeiro resultado disso foi o iMac, lançado em 1998. Mas depois vieram muitas outras inovações maiúsculas: o iPod (2001), o iPhone (2007) e o iPad (2010). Como produtos, todos eles representaram sucessos estrondosos, mas foi com o iPhone que Jobs mudou o mundo pela terceira vez: as pessoas passaram a ter, literalmente nas palmas de suas mãos, um computador incrivelmente poderoso, muito fácil de usar e constantemente conectado à Internet. E isso mudou a maneira como fazemos tudo!

Olhando para trás, nada disso parece assim tão incrível. Mas essa percepção vem do fato de que tudo isso está absolutamente disseminado em nossas vidas. Como Jobs disse em seu memorável discurso aos formandos da Universidade de Stanford em 2005, “Você não pode conectar os pontos olhando para a frente; você só pode conectá-los olhando para trás. Portanto, você tem que confiar que os pontos se conectarão de alguma forma no seu futuro.”

Pouco antes de morrer, Jobs escolheu Tim Cook para sucedê-lo como CEO da Apple. Apesar de ele ser muito competente e fiel às ideias de Jobs, e de a Apple não parar de crescer, muita gente acha que a empresa perdeu a capacidade de realmente mudar a vida das pessoas. E, de fato, tudo que foi lançado nessa década pela Apple acaba sendo versões melhoradas do que já existia.

Sem querer incensar os feitos do falecido, a Apple –e, de certa forma, o mundo– carece de pessoas capazes de olhar além de seus objetivos, de suas empresas, de seus produtos, de suas tecnologias. Mesmo com seu egocentrismo, Jobs olhava para os clientes, as pessoas e o mundo.

 

Pense diferente

Tanto é assim que, quando Jobs voltou à Apple, a empresa lançou a campanha de marketing “Think Different” (ou “Pense Diferente”). O comercial trazia imagens com personalidades do século XX, como Albert Einstein, Bob Dylan, Martin Luther King Jr., John Lennon, Mahatma Gandhi e Pablo Picasso.

O narrador dá a entender que todos eles, cada um a sua maneira, viveram suas vidas sem se preocupar em seguir as regras ou agradar os outros. Por isso, dava para gostar deles ou criticá-los, mas era impossível ignorá-los, pois eles empurraram a raça humana para frente. E terminava dizendo: “Enquanto alguns os veem como loucos, nós vemos gênios. Porque as pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo são as que, de fato, mudam.”

Essa mensagem pode definir a cabeça de Steve Jobs e por que, afinal ele era tão especial, apesar de todos seus problemas. Mudanças verdadeiras exigem que façamos movimentos ousados, inclusive –e talvez principalmente– aqueles que as pessoas a nossa volta considerariam loucura.

De volta ao discurso de 2005 em Stanford, Jobs conclui sua fala citando uma frase da última edição do “Catálogo do Mundo Inteiro”, uma publicação de contracultura, que circulou entre 1968 e 1972. Ela dizia: “Permaneça faminto. Permaneça tolo.”

Em um mundo que parece que se perdeu de valores que realmente importam, em que o egoísmo está em alta e onde as pessoas não sabem para onde seguir, essas palavras que conclamam a continuar buscando insaciavelmente pelo novo, mesmo quando parece tolice, se tornam ainda mais importantes.

Ainda há o que aprender com Steve Jobs.

 

Marissa Meizz (em primeiro plano), figurinista americana que usou uma decepção online para criar vários encontros presenciais para pessoas se conhecerem

Fuja do limbo entre sua “vida real” e o mundo online

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Sou um apaixonado pela alma humana. Ela se manifesta de maneiras inesperadas e até inusitadas. Já há um bom tempo, isso se dá de forma crescente no meio online. Às vezes, temo que isso esteja indo longe demais e estejamos nos perdendo nessa virtualidade, embebidos por esse “éter digital” e desprezando o valor de atividades presenciais.

A pandemia acelerou esse processo. O distanciamento social por meses mudou algo na cabeça de muita gente. Por exemplo, mesmo com os escritórios autorizados a funcionar a plena capacidade, cresce o número de brasileiros que querem continuar no home office.

Somos seres gregários: precisamos do contato com o outro! Não podemos ir contra nossa natureza. O digital pode nos ajudar nisso, mas não pode nos sugar para dentro das telas.


Veja esse artigo em vídeo:


No mês passado, uma pesquisa da FIA (Fundação Instituto de Administração) e da FEA (Faculdade de Economia e Administração) da USP indicou que 78% dos trabalhadores brasileiros querem manter o home office, ainda que parcialmente. Já o número dos que querem voltar aos escritórios diariamente caiu de 19% para 14% desde o ano passado. Para completar, 81% dos entrevistados afirmaram que a produtividade em casa é maior ou igual à conseguida na empresa.

O que torna esse número mais emblemático é surgir nesse momento de escritórios reabertos, e tendo crescido oito pontos percentuais em um ano. Há colegas que interagem diariamente e nunca se encontraram, pois foram contratados durante a pandemia.

A audiência de plataformas digitais para conhecer outras pessoas também explodiu nesse período. No auge do distanciamento social, muitos desses encontros aconteciam apenas online. Com o relaxamento dessas regras, as pessoas estão “tirando o atraso”.

Isso me faz pensar no “Amor Líquido”, de Zygmunt Bauman (editora Zahar, 2004). Para o filósofo e sociólogo polonês, falecido em 2017, quando a qualidade das relações diminui demais, isso é compensado por uma quantidade enorme de parceiros. “Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar”, escreveu.

Dessa forma, a relação social construída com uma responsabilidade mútua é trocada pelo que Bauman chama de “conexão”. Ele explica que o grande apelo dessas plataformas digitais está na facilidade de se esquecer o outro, de se “desconectar”. Essa seria a forma de se relacionar na “modernidade líquida”: troca-se, sem qualquer remorso, os parceiros por outros “melhores”.

Isso nunca foi tão verdadeiro!

 

“Desvirtualizando”

Nesses 20 meses de pandemia, já propus a várias pessoas e grupos que, assim que possível, “desvirtualizemos”. Em outras palavras, devemos nos encontrar para levar nosso relacionamento a um novo patamar, especialmente para aqueles com quem me encontrei apenas digitalmente.

Esse processo acontece também de maneiras imprevisíveis. Foi o caso da figurinista Marissa Meizz. Em maio, ela soube que o vídeo de um desconhecido que a procurava já tinha alcançado 14 milhões de visualizações no TikTok. O homem havia descoberto que amigos dela dariam uma festa em um fim de semana em que viajaria, para que ela não participasse.

Obviamente isso magoou Meizz. Entretanto, ao invés de “curtir uma fossa” sozinha, essa americana de 23 anos decidiu contar sua história na mesma rede social, e se tornou uma celebridade instantânea. Graças a isso, passou a organizar eventos ao ar livre para que pessoas se tornassem amigas. E eles têm reunido centenas delas em várias cidades dos EUA.

Essa história traz duas das características essenciais dos relacionamentos online: instantaneidade e abrangência. Qualquer coisa que fizermos pode impactar grande quantidade de pessoas, de uma maneira inexplicável pelo senso comum. Mas a esmagadora maioria desses “amigos de Facebook” é, na melhor das hipóteses, as “conexões” descritas por Bauman.

Ironicamente esse tipo de relacionamento pode trazer muitos benefícios comerciais. Afinal, uma boa exposição pode ser excelente para, por exemplo, vender qualquer tipo de produto ou serviço.

O problema é que a fugacidade e a descartabilidade desses “relacionamentos líquidos” tiram de nossas mãos qualquer forma de controle sobre eles. Ficamos à mercê dos algoritmos das redes sociais, que, da mesma forma que podem levar alguém ao estrelato digital, pode reduzir o indivíduo a uma posição obscura com a mesma velocidade. Isso exige muita maturidade emocional, tanto para lidar com o sucesso, quanto com o fracasso repentinos.

Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e autora dos livros “Alone Together” (“Sozinhos Juntos”, em uma tradução livre, Basic Books, 2017) e “Life On The Screen” (ou “A Vida na Tela”, Simon & Schuster, 2011), afirma que, à medida que a conexão digital com as pessoas aumenta, nossas vidas emocionais diminuem. Seu argumento é que, apesar de estarmos constantemente nos comunicando com outras pessoas pelas redes sociais, essas trocas acabam não sendo autênticas e nos levam à solidão.

Segundo ela, com a imposição do distanciamento social, percebemos quanto os contatos presenciais são importantes. Por isso, quando finalmente conseguem se reencontrar, as pessoas apreciam muito mais a presença do outro.

Em “Amor Líquido”, Bauman escreveu que “amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama.” E continuou: “no amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado para o mundo.”

Dessa forma, temos que naturalmente aproveitar todos os recursos que o meio digital nos oferece. Os aprendizados da pandemia, adquiridos a um custo tão alto, permanecerão, trazendo ganhos a tudo que fizermos e nos colocando em contato com pessoas antes inimagináveis.

Mas não podemos deixar que isso subjugue a importância do contato físico e de relacionamentos mais profundos e verdadeiros. Ainda segundo Bauman, apenas quando nos damos conta de que nossa voz é ouvida e de que nossa presença é sentida, entendemos que somos únicos e dignos de amor.

Precisamos do outro em um contato de qualidade para nos fazer perceber isso. Usemos, então, os recursos digitais com inteligência!

O Palácio do Planalto, sede do Executivo federal, em tempos de tempestade

Os reis de seus pequenos castelos digitais

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Na última quarta, dia 15, foi o Dia da Democracia. Mas infelizmente não houve muito a se comemorar. Desde o fim da ditadura, a democracia brasileira nunca esteve sob ataque tão cerrado. Ironicamente, quem perpetra esses ataques não são aqueles que querem chegar ao poder, e sim os grupos que já estão nele. E esse campo de batalha se dá nas redes sociais.

Goste-se ou não do atual governo, é inegável que se trata de um case de sucesso global no uso dessas plataformas para atingir seus objetivos. Pela primeira vez desde a redemocratização, um grupo chegou ao poder sem depender do Horário Eleitoral Gratuito. Até então, quem tinha mais tempo na TV e no rádio ia pelo menos ao segundo turno, o que não aconteceu na última eleição presidencial.

O governo nada de braçada em algo que quase todas as pessoas e empresas apenas molham os pés: o uso do meio digital para apresentar suas ideias e conseguir clientes (no caso, eleitores). De fato, os algoritmos dessas redes têm o poder supremo de decidir quem vai se tornar o rei de um pequeno castelo digital e quem vai se afogar no raso. Dominá-los se tornou essencial!

Mas há um outro fator normalmente negligenciado pela maioria. Pode-se usar uma grande quantidade de robôs ou as técnicas mais eficientes para se colocar os algoritmos de joelhos. Mas de nada adiantarão se não se oferece algo que agrade uma massa crítica de pessoas.

No final das contas, nenhum rei se mantém no trono sem súditos.


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O atual governo executa as duas coisas muito bem, daí seu sucesso. Aprendeu, desde antes da eleição, como usar a seu favor algoritmos criados pelas redes sociais para vender todo tipo de quinquilharia. Assumiu, sem pudor, que é um “produto” e que, como tal, deve ser embalado seguindo os desejos de seus “consumidores”.

Bastava identificar uma demanda fortíssima de uma grande quantidade de pessoas. No caso, foi o repúdio ao governo anterior. Massacrou então os algoritmos com a ideia do “salvador do antipetismo”, usando robôs, muito dinheiro e um uso eficiente dessas plataformas. A partir daí, os algoritmos fizeram o trabalho sujo de impregnar as mentes da massa crítica popular suficiente para vencer a eleição. Uma vez eleito, a mesma tática é usada para se manter no seu castelo.

Em janeiro, a Universidade de Oxford (Reino Unido) divulgou o estudo “Desinformação industrializada: inventário global de manipulação de mídia social organizada”. A partir de dados de 2020, concluiu que essas táticas vêm sendo usadas por cada vez mais governos: em 2019, foram 70 países; no ano seguinte, já eram 81.

O Brasil ocupa o grupo intermediário na desinformação, segundo o estudo. No país, as “tropas cibernéticas” (como os autores chamam os apoiadores dos grupos de poder nas redes) se dedicam principalmente a atacar opositores do governo e aumentar a polarização na sociedade. E seu principal recurso são as fake news.

Esse grupo intermediário é formado por 37 países. Conosco também estão, por exemplo, Austrália, Bolívia, Cuba, Hungria, Polônia, México, Síria e Turquia. No grupo de 17 países com “alta capacidade de desinformar”, estão grandes potências, como Estados Unidos, China, Reino Unido e Rússia, ao lado de nações que tradicionalmente combatem a democracia, como Venezuela, Irã e Iraque.

Vale notar que os países onde a democracia aparece mais atacada pelas “tropas cibernéticas” no estudo de Oxford são os mesmos em que a população acredita pouco na imprensa, apontados no relatório “Trust Barometer”, divulgado em março pela consultoria Edelman. A única exceção é a China, em que 70% da população acredita na mídia, mas ela é fortemente controlada pelo governo, o que reforça a tese de Oxford que os governos autoritários combatem a imprensa livre.

 

Empresas e profissionais

Os algoritmos das redes sociais não são necessariamente maquiavélicos, a serviço do mau. Apesar de serem frequentemente associados à manipulação política e comercial, como qualquer ferramenta, dependem do uso que se faz deles.

Como expliquei nesse mesmo espaço há duas semanas, cabe às empresas que são donas dessas plataformas criarem mecanismos para evitar que esses recursos sejam usados como aparecem no estudo de Oxford. Elas vêm investindo bastante nisso, mas ainda falham, em parte porque a essência do seu negócio passa por essa manipulação para se vender anúncios assertivos.

Qualquer profissional ou empresa pode se beneficiar desses sistemas se entender seu funcionamento e, a partir disso, oferecer um conteúdo que atenda a demandas do seu público. E isso passa pelo alinhamento dos valores da empresa com os dos seus clientes. Quem fizer isso pode subitamente experimentar uma grande exposição nas redes sociais, positivas para qualquer negócio.

O risco de se conseguir esse sucesso repentino é ficar muito dependente dele. Da mesma maneira que ele vem “do nada”, pode desaparecer sem explicação aparente.

Isso acontece porque as plataformas digitais estão continuamente alterando as regras do que privilegiam em seus algoritmos de relevância. Por isso, uma atuação nas redes sociais que funciona muito bem hoje pode falhar amanhã.

Foi o caso de um grande grupo editorial brasileiro que viu, em 2018, sua audiência desabar 70% literalmente da noite para o dia! Eles tinham uma grande visitação por terem “dominado” o algoritmo do Google. No dia em que o buscador fez uma mudança em seus códigos, toda aquela “mágica” se perdeu, e a empresa precisou reaprender como aparecer bem nas respostas.

No final das contas, buscar uma grande exposição digital é mais que bem-vinda: tornou-se necessária nesse mundo em que negócios se constroem de maneira cada vez mais digital. Mas não se pode apostar todas as fichas nesse meio. Da mesma forma que as plataformas colocam um rei no seu pequeno castelo, elas podem derrubá-lo do trono!

 

Cortina de fumaça

Cada um de nós, como eleitores e como consumidores, precisa aprender a identificar e compreender o que as redes sociais nos jogam na cara. Em parte, a eficiência do controle dos algoritmos sobre nós se dá por não percebermos o que acontece.

“Como essas medidas são levadas a cabo gradativamente e com aparência de legalidade, a deriva para o autoritarismo nem sempre dispara as sirenes de alarme”, explica o professor de Harvard Steven Levitsky, em seu best-seller “Como as Democracias Morrem”. Segundo ele, “os cidadãos muitas vezes demoram a compreender que sua democracia está sendo desmantelada, mesmo que isso esteja acontecendo bem debaixo do seu nariz.”

É isso que não podemos deixar acontecer! Os algoritmos nos controlam apenas se permitirmos isso. Precisamos exercitar nosso senso crítico para não comprarmos qualquer coisa, seja um produto, seja um político, só porque a embalagem nos agrada e porque o mundo inteiro parece dizer que aquilo é bom.

Não é! E, ao contrário do que parece, só uma parte das pessoas afirma aquilo.

 

Tecnologia melhora a experiência do cliente, mas planejamento e empatia são críticos

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Qualquer empresa pode –e deve– oferecer uma boa experiência ao cliente, e esse é o diferencial no mercado de hipercompetição em que vivemos. Elizabeth Almeida, vice-presidente de experiência do cliente da Abrarec (Associação Brasileira das Relações Empresa-Cliente) é categórica ao afirmar isso. “A experiência do cliente é simples, se você olhar para ele com a empatia que precisa.”

Para ela, a tecnologia dá o suporte necessário para se fazer isso mais e melhor, ideia corroborada por Paulo Manzato, vice-presidente de Vendas da empresa portuguesa Talkdesk, desenvolvedora de software para atendimento a clientes. “Sem dúvida, a tecnologia democratiza, existem produtos para todo tipo de empresa”, diz o executivo, que explica que mesmo pequenos negócios podem se beneficiar de plataformas adequadas a suas necessidades.

“O digital traz escala, para sabermos, em tempo real, o que está acontecendo com o público”, destaca Cristiane Almeida Machado, gerente de experiência do parceiro no iFood. “Assim, conseguimos vencer a barreira que o consumidor tinha sobre segurança, demonstrando muita confiabilidade nos dados e na entrega de uma compra pela Internet”.

Os três executivos participarão, na próxima terça, do debate internacional “Customer Experience Brasil-Portugal”, cuja inscrição é gratuita. O evento, organizado pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira e pela LabStarts, buscará demonstrar as diferenças e as semelhanças nas práticas de customer experience (ou simplesmente CX) em diferentes países. Tanto que Manzato falará dos EUA, Almeida estará em Portugal e Machado participará do Brasil. O debate contará ainda com André Trancoso Rodrigues, coordenador da Sonae, maior grupo empresarial português.

Almeida explica que CX deve fazer parte do plano de negócios da empresa: “não dá para deixar isso para a sorte”. Caso contrário, mesmo com um bom produto, e experiência geral pode ser prejudicada.

Isso se tornou essencial para qualquer empresa. “Claramente existe uma correlação entre CX e receita”, afirma Manzato. O executivo da Talkedsk explica que cada cliente conquistado tem um custo, mas seu ganho se perde se ele for embora. Ele faz uma analogia: “não adianta ter a torneira enchendo seu pote se ele tiver muitos furos.”

 

Não é tão fácil

A experiência do cliente sempre foi importante, mas vem ganhando destaque nos últimos. Isso não se faz com “achismos”: informação e inteligência são essenciais, assim como querer resolver as necessidades do cliente.

“Todo mundo quer prestar um bom serviço”, afirma Manzato. “Daí você entra em decisões de budget, concorrência com outras prioridades, que vão competir com a maneira como você implementa sua CX”.

“Por muito tempo, isso foi visto como uma área de custo, focada nos interesses da própria empresa”, diz Machado. Agora a coisa mudou. Segundo ela, “estamos em uma outra era, focados no consumidor, para oferecer melhores serviços e não ‘empurrar serviços’.” Todos ganham com isso! “Se for bom, não apenas o cliente compra mais, como recomenda”, justifica Almeida.

Quando se pensa em canais de atendimento, a tecnologia digital se torna crítica, seja como ferramenta para um atendimento de excelência em canais tradicionais, seja como o canal em si. Manzato e Almeida afirmam que o telefone ainda é o canal preferido, especialmente quando o cliente quer resolver um problema. Já o e-mail funciona bem como canal informativo. Em todos os casos, o digital ajuda a tomar as decisões mais assertivas e de maneira mais rápida, inclusiva com o apoio crescente da inteligência artificial.

No caso do iFood, a interação se dá toda pelo próprio aplicativo, tanto do cliente com a plataforma ou com o restaurante, quanto do iFood com os restaurantes e entregadores. Mesmo quando o cliente decide ligar ao restaurante durante a execução de um pedido, isso se dá pelo app.

Um serviço se destaca nesse cenário: o WhatsApp, especialmente no Brasil, se tornou um canal de atendimento e de vendas, e isso ficou ainda mais forte durante a pandemia. “É uma ferramenta que não pode ser comparada com nenhuma outra”, afirma Almeida. Para Machado, ele viabilizou o surgimento de vários empreendedores, e até grandes lojas, construíram um novo tipo de relacionamento com seus clientes a partir dele.

Curiosamente, nos EUA, onde o aplicativo foi criado, ele não é o líder. “O SMS é o principal canal, depois o Facebook Messenger e só então o WhatsApp”, explica Manzato. Cada mercado tem suas particularidades.

 

Diferenças entre os países

A pandemia mudou os comportamentos do consumidor dos dois lados do Atlântico. Por exemplo, o brasileiro sempre pediu muito comida por delivery; já os portugueses, nem tanto. Esses, por sua vez, eram mais adeptos ao supermercado remoto que os brasileiros. Com a pandemia, as duas coisas mais ou menos se nivelaram nos dois países.

Segundo Machado, em março, o iFood registrou 60 milhões de pedidos. “Tem a questão da mudança de hábito do consumidor”, afirma. E a diversidade de negócios que entraram na plataforma, como mercados, farmácias e pet shops justifica esse aumento.

O nível de exigência dos clientes com as empresas também varia de acordo com o país. Manzato acredita que o americano seja mais exigente, porém mais paciente dentro do combinado: “mas, se passar do dia, aí você vê a exigência do americano”. Já o latino-americano é mais flexível, segundo ele.

Almeida traz uma particularidade interessante sobre os europeus. “Eles são menos exigentes que o brasileiro quanto à qualidade de serviço, mas, quando é bem atendido, sabe reconhecer”. Para ela, o brasileiro acha que isso é “obrigação da empresa”.

Machado concorda. “Pesquisas mostram que o brasileiro é um dos mais exigentes do mundo, em serviços de qualidade, bom atendimento, facilidade e plataformas mais intuitivas”.

As empresas precisam estar atentas a essas particularidades de cada mercado, ajustando-se aos públicos locais. “Há muita oportunidade de avançar na experiencia do cliente”, afirma Almeida. “Existem empresas que fazem isso brilhantemente e precisam ser vistas como referência.”

“Ou você faz ou deixará de existir em pouco tempo”, crava Machado. Segundo ela, isso pode ser sentido em um mercado de trabalho extremamente aquecido. “O profissional de customer experience está ajudando a empresa a crescer, a se manter competitiva”, conclui.


SERVIÇO: As inscrições gratuitas para o debate “Customer Experience Brasil-Portugal” podem ser feitas em https://bit.ly/38oLyeo

 

Tim Cook, CEO da Apple: a empresa terá que enfrentar mais uma ação por possível quebra de privacidade de usuários

Privacidade virou artigo de luxo

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Quem nunca teve uma conversa interrompida quando a assistente virtual do celular se intrometeu sem ser chamada, falando qualquer coisa fora de contexto? Ou começou a ser bombardeado por anúncios de um produto sobre o qual falou diante do smartphone com alguém? Até parece que o aparelho estivesse nos escutando o tempo todo.

É claro que está!

As principais assistentes virtuais do mercado são a Siri (dos iPhones), o Google Assistente (dos Androids) e a Alexa (de dispositivos da Amazon), que estão sempre à espreita para atender nossos comandos de voz. Para isso, os microfones estão continuamente monitorando todos os sons do ambiente. Caso contrário, não conseguiriam saber quando são chamadas.

O problema é que elas se confundem às vezes com o que escutam. Todas possuem “palavras de ativação” (“e aí, Siri?”, “Ok, Google” e “Alexa”), mas acabam se manifestando quando ninguém disse nenhuma delas (mas o sistema acha que sim). A partir daí, começam a captar e registrar tudo que é falado para tentar atender um pedido ou executar um comando.

A situação fica ainda mais grave quando essas informações parecem ser acessadas por outras empresas, normalmente para nos vender algo. Apple, Google e Amazon negam veementemente que compartilhem esses áudios com terceiros.

Mas então por que tanta gente reclama exatamente disso?


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Há muito mais coisa acontecendo nos bastidores de nossos smartphones que podemos imaginar. E, com a crescente digitalização de nossas vidas, isso acontece também com muitos outros aparelhos de nossos cotidianos, como TVs.

Elas deixaram de ser meros reprodutores de imagens captadas pela antena, enviadas de maneira indiferenciada para todos os telespectadores. Tornaram-se computadores poderosos, continuamente conectados à Internet, muitas delas com microfone e câmeras embutidos, podendo ser controladas por essas mesmas assistentes virtuais. E, em muitos casos, quando o usuário desliga a TV, isso acontece apenas com a tela: o sistema continua ativo, monitorando o ambiente à espera de um comando.

Sem falar nos cada vez mais comuns alto-falantes inteligentes, como o Amazon Echo e o Google Home. Esses dispositivos também estão sempre alertas para captar comandos de seus usuários.

Seria ótimo se pudéssemos dar um comando como “ei, Siri, tape os ouvidos pelas próximas duas horas”.

 

Violações de privacidade

Essas empresas negam categoricamente que usem o áudio captado dos usuários para qualquer fim que não seja executar os comandos previstos, afirmando que respeitam profundamente a privacidade de seus usuários. Mas todas enfrentam processos ou estão sendo escrutinadas por diferentes governos por violações de privacidade ou práticas anticompetitivas.

No começo do mês, o juiz Jeffrey White, do tribunal de Oakland, na Califórnia, deu prosseguimento a uma ação coletiva que acusa a Apple de gravar conversas captadas pela Siri sem ser chamada e repassar informações para outras empresas, violando a privacidade dos usuários. Em outros processos, Google e Amazon são acusados de armazenar e registrar áudios capturados, mesmo quando as assistentes são acionadas por engano.

Em nome do benefício da dúvida, suponhamos que as empresas realmente não estejam violando a privacidade de seus usuários, ao armazenar indevidamente áudios captados ou repassando informações a terceiros. Mas, mesmo nesse caso, fica claro que todos precisam melhorar o reconhecimento das suas palavras de ativação, para diminuir invocações indevidas.

Não há como negar que isso acontece. Algumas falhas se tornam famosas, algumas por serem engraçadas, outras por serem emblemáticas. É o caso de quando uma Amazon Echo ligou para a polícia enquanto um homem espancava e ameaçava de morte sua namorada no estado americano do Novo México, em 2017. No meio das agressões, ele perguntou a ela se ela tinha “chamado o xerife”, o que foi entendido pelo aparelho como um comando para ligar para a polícia. O atendente do outro lado da linha ouviu o que estava acontecendo pela Echo e mandou uma equipe para o local.

O homem acabou preso e a mulher foi salva.

 

Será que vale a pena?

É preciso lembrar que as assistentes virtuais não são as únicas coisas que nos ouvem a partir de nossos smartphones e outros dispositivos.

É comum termos dezenas de aplicativos instalados nesses aparelhos, muitos deles com acesso ao microfone e, portanto, habilitados a captar áudios do ambiente. Alguns deles são aplicações legítimas e que fazem um bom uso desse recurso. Outros tem uma “moral mais frouxa”, digamos assim.

Tanto iPhones quanto celulares Android permitem que o usuário desabilite a palavra de ativação, o que evitaria, por exemplo, que as assistentes surgissem sem serem chamadas. Mas além disso, é possível o usuário ver todos os aplicativos que usam o microfone, revogando o acesso daqueles com que não concorde.

É preciso ficar claro que, ao fazer isso, alguns recursos podem parar de funcionar, como a chance de gravar lives no Facebook ou no Instagram, por exemplo. Então essa configuração deve ser usada com cuidado.

Por outro lado, esse exercício pode trazer algumas surpresas, como descobrir que aplicativos que simplesmente não deveriam captar áudios para seu funcionamento têm acesso irrestrito ao microfone. Nesse caso, isso deve ser revogado ou até –quem sabe?– o aplicativo ser desinstalado, pois captar áudios sem que isso traga benefícios ao usuário é, no mínimo questionável.

Qualquer que seja a decisão, uma coisa é certa: a nossa privacidade, pelo menos como a conhecíamos até há alguns anos, já era! Vivemos em um mundo de permanente arapongagem, em que somos monitorados de todas as formas possíveis, muitas delas sem que tenhamos o menor conhecimento. Não há como escapar disso completamente, a menos que passe a viver em uma caverna, sem qualquer dispositivo eletrônico.

Isso não quer dizer que vivamos no meio de uma bagunça. Legislações como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados brasileira) ajudam a nos proteger de abusos de empresas. Mas muitas delas simplesmente passam por cima da lei, na expectativa de nunca serem pegas.

Cabe a nós, como usuários, estarmos atentos ao que está a nossa volta e fazer valer nossos direitos. A tecnologia tem que trabalhar a nosso favor, e não o contrário.

O fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, durante depoimento no Congresso americano, em 2018

Redes sociais fogem do seu papel nos ataques à democracia

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O Brasil chegou à semana do Dia da Independência com um clima tão denso, que dá para ser cortado com uma faca, feito doce de leite cozido além do ponto. Ainda que tudo leve a crer que isso não passe de uma fumaça espessa, diz o ditado que onde ela existe, também há fogo. E o combustível para essas labaredas são as redes sociais, particularmente o pouco que elas vêm fazendo para tentar corrigir seu papel decisivo no ataque crescente à sociedade organizada.

Para quem viveu praticamente toda sua vida em um Brasil redemocratizado com o fim da ditadura militar, é inacreditável e assustador ver essa escalada da insanidade e da violência. Ela acontece porque grupos políticos usam essas plataformas digitais e o incrível poder de convencimento de seus algoritmos para incutir, em uma parcela considerável da população, a falsa ideia de que podem pensar, dizer e fazer o que bem entenderem em nome da liberdade de expressão.

Isso é uma falácia! Quando todos têm razão, ninguém tem razão! Mas o fato de as redes sociais nos colocarem em contato apenas com quem pensa como nós acaba legitimando mesmo a mais absurda porcaria.


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Possivelmente o exemplo mais emblemático desse momento é o motim de grupos expressivos de polícias militares pelo Brasil, abarcando de soldados a coronéis. Em nome desse suposto direito de se expressar, vêm transgredindo, de forma despudorada, seu próprio regulamento e atacando explicitamente instituições democráticas. A insubordinação é alimentada pelos grupos de poder nas redes sociais, transformando os militares em marionetes.

A gênese desse comportamento são diversas insatisfações das tropas, especialmente quanto a salários. Mas a prolongada e aguda crise política e econômica do Brasil atinge todas as categorias da sociedade. Os policiais não podem se atribuir mais direitos que qualquer outra categoria, e muito menos, para conseguir o que querem, usar a força que a sociedade lhes confere para ameaçar a mesma sociedade. Caso contrário, quem nos protegerá de quem deve nos proteger?

Winston Churchill disse em 1947 uma de suas célebres frases: “Ninguém espera que a democracia seja perfeita ou infalível. Na verdade, tem sido dito que a democracia é a pior forma de governo, excetuando-se todas as demais formas.” O ex-primeiro-ministro do Reino Unido, considerado um dos maiores estadistas da história, sabia que a democracia só funciona bem pela contraposição de ideias.

Ele deve estar se revirando no túmulo agora ao ver o que oportunistas fizeram da democracia com a ajuda das redes sociais, ao eliminar tal contraposição.

 

Poder desmedido

Não seria absurdo afirmar que nunca existiram empresas tão poderosas no sentido de transformar a sociedade, para o bem ou para o mal. As redes sociais, que surgiram como espaço lúdico para encontrar amigos e compartilhar trivialidades, se transformaram em plataformas que definem o que compramos (seu grande negócio), com quem andamos e até o que pensamos.

Suas equipes conscientemente constroem sistemas que atuam nas camadas mais primitivas de nosso cérebro. Isso é fartamente explicado no documentário “O Dilema das Redes”, disponível na Netflix. Também foi descrito cientificamente em um estudo liderado por Adam Kramer, então cientista de dados do Facebook, publicado em 2014 na prestigiosa revista Proceedings of the National Academy of Sciences, assim como em outra pesquisa, que ganhou a capa da Science, a mais importante revista científica do mundo, em 2018.

Nunca nada ou ninguém sequer rivalizou com essa capacidade de persuadir as pessoas. Trata-se de uma virtual onipotência, que é usada o tempo todo. Assim como a indústria tabagista sabia que o cigarro fazia mal e viciava os consumidores e, mesmo assim, investia em ingredientes que ampliavam a dependência, as redes sociais persistem nesse seu caminho.

Justiça seja feita, algumas dessas plataformas, inclusive o Facebook, vêm tomando ações para minimizar os pesados efeitos colaterais provocados por suas atividades. Mas isso está longe de ser eficaz, principalmente porque essas companhias ainda não assumem a verdadeira extensão desse dano.

Além disso, as ações acontecem principalmente porque elas vêm sendo pressionadas por governos ao redor do mundo, especialmente depois que explodiu o escândalo da Cambridge Analytica em 2018. Como explica outro documentário da Netflix, “Privacidade Hackeada”, essa empresa britânica de marketing político usou o Facebook para manipular milhões de pessoas favorecendo a eleição de Donald Trump para presidente dos EUA em 2016, e o Brexit, que tirou o Reino Unido da União Europeia.

E pensar que tudo isso começou com conversas inocentes de amigos.

 

A alegria na ignorância

A maioria das pessoas gostaria apenas de seguir sua vida de maneira produtiva e em paz. Mas a onipresença das plataformas digitais acaba nos arrastando para esse turbilhão.

Governos totalitários adoram isso: o pensamento único lhes favorece. Por isso, investem tanto nas redes sociais.

Isso me faz lembrar do filme “O Doador de Memórias” (2014), que retrata uma sociedade em que não há tristeza, doença ou pobreza. Mas o custo dessa harmonia é a eliminação de todas as emoções (mesmo do amor) e da liberdade. As pessoas sequer têm memórias do seu passado e veem o mundo sem cores (literalmente).

Para a governante vivida por Meryl Streep, “quando as pessoas têm a liberdade de escolher, elas escolhem errado”. Assim o governo determina até o que cada pessoa deve fazer e como deve pensar. E, para conter qualquer rebelião, todos devem tomar diariamente uma espécie de droga.

Começo a achar que as redes sociais são essa droga em nossa realidade. Muita gente topa aparentemente eliminar toda a dor e a discordância, mesmo que o custo disso seja sua liberdade, sua autonomia e seu senso crítico. Precisam apenas de alguém que os guie para esse mundo do pensamento único.

Bem, isso agora existe e está sendo implantado. Mas não dá para viver assim!

Precisamos de paz e de liberdade! Ninguém se desenvolve em um uma vida de constante incerteza e conflito, ou sendo dominado socialmente (ainda que não perceba essa dominação).

Sou progressista e liberal (ao contrário do que muitos pensam, esses conceitos não são antagônicos). Entendo que empresas não podem atuar livremente apenas para garantir seus próprios interesses. Como integrantes de uma sociedade, suas ações têm impacto na vida das pessoas e devem ser responsabilizadas quando algo que fizerem prejudicar a população.

Por isso, devemos usar as redes sociais no que elas têm de bom –e são muitas coisas! Mas não podemos deixar que elas se prestem aos objetivos nefastos de alguns grupos. O espaço que elas já ocuparam em nossas vidas não pode colocar em risco a democracia e nosso bem-estar.

Nós também somos responsáveis por tudo isso!