Category Archives: Tecnologia

O segredo do meme de R$ 2,5 milhões

By | Tecnologia | No Comments

Quem pagaria R$ 2,5 milhões por um meme que pode ser baixado gratuitamente da Internet? Isso pode parecer completamente estúpido, mas aconteceu há poucos dias. E acredite: faz sentido!

Memes são imagens que se tornam muito populares nas redes sociais e são usadas fora do seu contexto original para passar mensagens ou fazer piadas. Ninguém pede autorização ao criador da imagem ou a quem aparece nela para usá-las, e nem por isso alguém é processado por violação de direitos autorais.

É natural, portanto, perguntar por que alguém faria essa aparente extravagância de pagar uma fortuna por uma foto que está disponível na rede, e continuará assim. Mais que isso: como alguém pode garantir ser o legítimo dono após comprar uma imagem reproduzida digitalmente milhões de vezes?

A explicação é o NFT, sigla em inglês para “tokens não fungíveis”, uma modalidade de comercialização de arte digital viabilizada por uma interessante combinação de tecnologia e mudança cultural. Ainda que isso garanta a propriedade da obra, é de se pensar como um meme pode chegar a valer R$ 2,5 milhões.


Veja esse artigo em vídeo:


A obra em questão foi batizada de “Disaster Girl”, e possivelmente você já a viu em alguma rede social. Ele traz a foto de uma menina com um sorriso maroto diante de uma casa um chamas ao fundo.

Disaster Girl

“Disaster Girl”, meme que foi vendido por R$ 2,5 milhões

Não se trata de uma montagem: a foto é legítima, tirada em 2005. A menina tem nome: Zoe Roth, que agora está com 21 anos. Ela descobriu o conceito de NFT e, por ser ela a criança retratada em um meme extremamente popular, conseguiu dar a ele o status de obra de arte, e comercializá-lo em um leilão no dia 16 de abril, que lhe rendeu cerca de US$ 473 mil. Na verdade, o pagamento foi feito com uma criptomoeda chamada ether: a obra foi arrematada pelo usuário 3FMusic por 180 ethers.

Tudo isso pode parecer virtualidade demais para muita gente. Mas acredite: é bem real, por mais que tudo aconteça em um espaço digital. E isso começa pela criptomoeda, que, apesar de não ser garantida pelo banco central de nenhum país, tem alta liquidez e pode ser facilmente convertida em praticamente qualquer moeda “convencional” do mundo, inclusive dólares e reais.

A tecnologia que garante quem é o dono de uma obra comercializada como NFT é o blockchain, que ganhou força na última década. Funciona como se fosse um livro-razão digital replicado em milhares de computadores no mundo. Ou seja, é uma maneira bastante confiável de armazenar qualquer informação, pois o blockchain não permite que um dado seja apagado ou alterado, e qualquer mudança em uma informação precisa ser autenticada em todos esses servidores pelo dono dos dados. Aliás, o mesmo blockchain é o que garante as transações com as criptomoedas, que têm no Bitcoin sua maior estrela.

 

“Ninguém é de ninguém?”

Mas nada disso ainda explica como alguém pode ser dono de algo que continua disponível para ser copiado e modificado livremente nas redes. Mais ainda: por que alguém pagaria essa dinheirama toda por algo que qualquer um poderá continuar usando sem pagar.

Essa é a grande mudança de paradigma do NFT. Ao comprar uma obra de arte digital, a pessoa passa a ser reconhecida como sua legítima dona, mas isso não lhe garante nenhum controle ou remuneração por qualquer reprodução do material. Além disso, os direitos autorais continuam sendo do autor da obra.

A melhor maneira de entender isso é mudando o foco da arte digital –que pode ser facilmente reproduzida pela Internet– para uma obra de arte física, como um quadro ou uma escultura. Por mais que ela exista, tenha um dono e esteja exposta em algum lugar, nada impede que ela seja reproduzida, por exemplo, em fotografias.

Pense no caso de um quadro famoso em um museu, como “O Grito”, obra-prima do movimento expressionista. Esse caso é interessante, porque o norueguês Edvard Munch pintou quatro quadros semelhantes com esse título: dois estão no Museu Munch, em Oslo (Noruega), outro na Galeria Nacional de Oslo e o quarto faz parte de uma coleção particular. Aliás, em 2012, esta última tornou-se a pintura mais cara da história, arrematada em um leilão por US$ 119,9 milhões.

Ainda assim, essa obra é reproduzida em pôsteres (que são vendidos), em publicações de todo tipo, em fotos de turistas e até na Internet, incluindo aí (ironicamente) como memes. Os proprietários dos quadros originais não recebem nada por isso, sequer têm qualquer controle sobre essas reproduções. Mas ninguém duvida que eles são os donos dos originais e, se algum dia resolverem vendê-los, serão remunerados por isso.

Com o NFT, a obra de arte digital ganha esse mesmo status. Talvez o que cause mais estranheza é que, nesse caso, as reproduções são cópias fiéis do original, mas elas continuam com o status de “cópia”.

Everydays: The First 5000 Days

“Everydays: The First 5000 Days”, NFT mais caro até agora, leiloado por US$ 69,3 milhões

O recorde de valor de um NFT aconteceu em março. O artista Beeple entrou para a história com sua obra “Everydays: The First 5000 Days” (algo como “Todos os dias: Os Primeiros 5000 Dias”), uma colagem de 5.000 imagens do seu cotidiano. Ela foi leiloada por US$ 69,3 milhões (cerca de R$ 13 milhões), tornando-se a terceira obra mais cara de qualquer artista vivo.

 

A cultura remix

Todo esse movimento, incluindo aí os memes, tangencia outro importante movimento cultural, surgido nos anos 1970, mas amplamente difundido pela tecnologia digital: a cultura remix.

Trata-se da criação de novas obras de arte pela mistura ou mudança de obras de outros autores. Muitas vezes feitas como homenagens de fãs, essas produções são criadas sem autorização prévia (e, às vezes, sem conhecimento) dos criadores dos originais.

Possivelmente o melhor exemplo da cultura remix seja Star Wars, que dá origem a incontáveis filmes, livros, quadrinhos, imagens, eventos e uma infinidade de outras coisas que os fãs da saga espacial criam.

De certa forma, o próprio Star Wars, a obra original, é cultura remix! George Lucas construiu toda a história em cima do conceito da Jornada do Herói, criada pelo grande mitólogo americano Joseph Campbell, em 1949. Ele também usou fortemente cenas de filmes de combates aéreos e tem estruturas de obras do cineasta japonês Akira Kurosawa.

Vale dizer que, quando os fãs começaram a criar tudo isso, a Lucasfilm não gostava da ideia, e chegou a processar vários deles. Mas acabaram percebendo que isso era contraditório, pois todo aquele trabalho acabava alimentando ainda mais a devoção das multidões pelo seu produto. Por isso, a empresa não apenas parou com os processos, como, de certa forma, incentiva essas expressões artísticas.

 

O valor das coisas

Ainda fica a questão: como um simples meme pode valer R$ 2,5 milhões?

Temos que entender que qualquer coisa têm o valor que as pessoas atribuem a ela. Não se pode pensar que Edvard Munch teve muito mais trabalho para pintar seus quadros que Zoe Roth ao ser fotografada no meme: essa não é a medida do valor.

A menina jamais imaginaria que sua foto se tornaria tão conhecida. Da mesma forma, existem muitíssimo mais artistas que permanecem anônimos que aqueles que fazem sucesso.

O valor de qualquer obra, física ou digital, está associada a sua popularidade. É por isso que não se pode achar que qualquer imagem feita no computador vá se tornar uma obra de arte.

Pelo mesmo raciocínio, na Idade Média, as obras sequer eram assinadas pelos seus autores. Elas não eram vistas como um produto. Hoje, muitas tem algum valor, por aspecto histórico. Mas nenhuma vale tanto quanto trabalhos dos grandes nomes do Renascimento, que veio logo depois.

Por isso, antes de procurar qual arquivo no seu computador pode ser vendido como NFT, pense no valor que outras pessoas já atribuem a ele.

Algoritmos criam novas tribos urbanas (às vezes perigosas)

By | Tecnologia | No Comments

Hoje muita gente é membro de alguma tribo urbana e nem se dá conta. Não me refiro necessariamente às “clássicas”, como os punks ou os nerds, mas mesmo quem não faz parte dessas grandes turmas pode ser bastante ativo. E essa pulverização se dá por conta das redes sociais.

As tribos urbanas surgiram como uma maneira de as pessoas integrarem um grupo de amigos com interesses em comum. Elas existem há décadas e são parte indelével da nossa cultura.

Fazer parte de uma dessas tribos sempre exigiu iniciativa do integrante, tanto para entrar, quanto para se manter nela. Ninguém se tornava metaleiro sem querer! Mas, de uns anos para cá, algo mudou.

Vivemos em um tempo em que entramos em tribos praticamente sem perceber, graças aos algoritmos. E isso pode ser bem ruim para nossa vida, pois somos membros inconscientemente ativos, praticamente teleguiados!


Veja esse artigo em vídeo:


Os algoritmos de relevância das redes sociais identificam nossas características e nossos gostos para filtrar a realidade. A partir disso, destacam, a cada um dos bilhões de internautas, fatias do mundo que reforçam seus pontos de vista e lhes apresentam uma enormidade de pessoas que pensam da mesma forma.

Como de costume, as redes sociais não criam nada, apenas fazem o que já existe acontecer de forma mais intensa e mais rápida. Por isso, essas novas tribos que criam –essas tribos digitais– são ótimas para nos manter felizes e confortáveis, anestesiados até!

Mas elas também podem reforçar o que temos de pior, a um ponto de colocar a própria sociedade em risco. Basta ver o número incrivelmente alto de pessoas que insistem em não se vacinar, mesmo diante do recrudescimento da pandemia de Covid-19.

Sim, os “antivacinas” são uma nova tribo urbana bem definida! E eles têm força mesmo diante do consenso de que, enquanto a maior parte da população não estiver imunizada, não conseguiremos retomar uma vida que se aproxime da normalidade.

As tribos urbanas se consolidaram ao longo do século 20. Seus membros apresentam uma grande uniformidade de pensamentos, gostos, comportamentos, linguagem e até maneira de se vestir.

Não são organizações formais ou com uma liderança, estando muitas vezes associadas a fenômenos culturais. Tampouco surgem para ativismo político, o que não quer dizer que sejam sempre alienadas com o mundo a sua volta. Pelo contrário, muitas tribos, como os punks, têm posições sociais bastante críticas, que manifestam em músicas, por exemplo.

O termo “tribo urbana” foi cunhado pelo sociólogo francês Michel Maffesoli, que começou a usá-lo em seus artigos a partir de 1985, mas o conceito já existia há décadas. Outras tribos famosas são os hippies, os geeks, os roqueiros, os skinheads, as patricinhas, os góticos… e por aí vai.

 

Necessidade de pertencimento

Normalmente, as pessoas entram em tribos quando são mais jovens, justamente pela necessidade natural de fazer parte de um grupo. Em muitos casos, as pessoas migram de uma tribo para outra.

É essa mesma característica de querer se associar a pessoas que têm pensamentos semelhantes que permitem que os algoritmos criem essas novas tribos. Porém, ao contrário das tribos urbanas, que não são criadas com objetivo político, muitas tribos digitais surgem exatamente para isso, ou acabam sendo usurpadas para esse fim por grupos de poder.

O próprio movimento contra vacinas é um exemplo.

Quando começou a levar mais a sério a ideia de concorrer à cadeira de presidente dos Estados Unidos, lá pelos idos de 2012, Donald Trump percebeu que uma parcela considerável do público conservador americano tinha dúvidas sobre a eficiência das vacinas. Por isso, começou a fazer uma campanha feroz contra elas nas redes sociais, associando os imunizantes a diferentes doenças e ao autismo.

Muita gente acreditou nisso, e as teorias contra vacinas se espalharam pelo mundo. Como resultado, doenças que estavam praticamente erradicadas em muitos países, como o sarampo, voltaram com força, matando muita gente.

Mas nem Trump podia prever o surgimento da pandemia de Covid-19, cuja saída passa necessariamente pela vacinação em massa. Tanto que o presidente negacionista americano se rendeu aos fatos e comprou todas as vacinas que pôde.

É uma pena que Bolsonaro não tenha feito o mesmo. Pelo contrário, fez campanha aberta contra as vacinas o quanto pôde. O resultado desse negacionismo é que, em dezembro, 22% dos brasileiros diziam categoricamente que não se vacinariam, contra 73% que o fariam. Já no final de fevereiro, com o negacionismo perdendo força diante da doença, 89% já diziam querer se vacinar.

 

Negação como resistência

Os antivacinas não são a única tribo fortemente alimentada pelas redes sociais. Os terraplanistas, as pessoas que afirmam que a Terra é plana e não esférica, se fortaleceram graças principalmente ao YouTube.

Apesar de negarem uma verdade científica amplamente demonstrada, esse grupo tampouco é desprezível. Estima-se que 7% dos brasileiros afirmem que a Terra é um disco e não uma bola, enquanto 3% não têm certeza. Nos Estados Unidos, esses índices são, respectivamente, 2% e 5%. E pesquisas mostram que terraplanistas são mais numerosos entre pessoas mais jovens e entre os menos escolarizados.

Vistos de fora, esses grupos podem parecer um bando de malucos, mas seu crescimento consistente graças às redes sociais não pode ser simplesmente desprezado.

A negação a se vacinar por 10% da população, mesmo diante da maior crise sanitária da história, demonstra o risco que eles representam à sociedade como um todo. E há provavelmente mais antvacinas que hippies, nerds, punks ou qualquer outra tribo urbana “clássica”.

Essas tribos digitais e seu negacionismo à ciência e à cultura podem ser considerados resultado de um movimento de resistência a ideias que vinham guiando a sociedade. Grupos cujos valores eram vistos como inadequados ou ultrapassados –como homofobia, machismo, autoritarismo, xenofobia– ganharam voz, principalmente com a ascensão de políticos de ultradireita nas redes sociais.

Isso explica também a polarização irracional em que o mundo foi jogado. As tribos urbanas, da mesma forma que acolhem seus integrantes, por vezes rejeitam quem é diferente. As tribos digitais, com seus sentimentos exacerbados pelos algoritmos, fazem isso ainda mais, criando divisões que podem descambar em um insano “se você não está comigo, está contra mim”.

De certa forma, isso me lembra as teorias de Zygmunt Bauman (1925 – 2017) e seu “mundo líquido”. Segundo o sociólogo e filósofo polonês, os relacionamentos passaram a ser menos estáveis e definidos mais pelo acúmulo de experiências.

Nas tribos digitais, as pessoas se unem àqueles que podem lhe proporcionar algum benefício imediato, mesmo o simples acolhimento de suas ideias. Mas se aparecer alguém que ofereça mais vantagens ou que saiba manipular os algoritmos melhor, leva todo o rebanho embora.

As pessoas precisam resgatar o controle de seu cotidiano e o apreço por valores inegociáveis, como o direito à vida. Também precisam aguçar seu seno crítico, para que não sejam manipuladas por distorções de outros valores, como o direito á liberdade na boca de vivaldinos.

Fico feliz em ver o crescimento de uma conscientização frente a esses males. Mesmo companhias e lideranças empresariais estão se engajando nisso, até mesmo porque o alinhamento da valores entre marcas e seu público é ótimo para os negócios!

As redes sociais também estão trabalhando nisso, se não pelo amor, pela dor da ameaça de governos conscientes que as responsabilizam pela disseminação de fake news e da criação dessas tribos digitais negacionistas.

Quanto a nós, temos um papel fundamental nessa história. Não há nenhum problema em ser geek, punk ou hippie. Apenas não seja coisas como terraplanista ou antivacina. Precisamos nos unir em torno de ideias que valham a pena e melhorem o mundo.

 

A nova fronteira dos hackers: invadir nosso corpo

By | Tecnologia | No Comments

Desde o final do ano passado, estamos nos acostumando a ver na imprensa notícias frequentes sobre megavazamentos de informações pessoais feitos por hackers, que roubaram enormes bancos de dados de empresas. Também vemos diversos relatos de pessoas que são vítimas de delinquentes digitais ao cair em todo tipo de golpe online.

A má notícia é que isso pode piorar de maneiras até então inimagináveis, podendo até colocar nossa vida em risco!

Todos esses crimes são resultado não apenas da eficiência dos bandidos, mas também da crescente digitalização de empresas e de nossas vidas. Isso ganhou ainda um grande impulso adicional com o distanciamento imposto pela pandemia de Covid-19.

Empresas, instituições de qualquer natureza e até governos estão profundamente conectados à Internet. E todos nós seguimos pelo mesmo caminho, não apenas em nossas tarefas cada vez mais realizadas em celulares e computadores. Não é de hoje que até alguns eletrodomésticos coletam informações sobre nós e as transmitem pela Internet. Mais recentemente estamos vestindo dispositivos conectados que nos rastreiam. Agora começamos a ver implantes em nossos corpos que também estão conectados à rede.


Veja esse artigo em vídeo:


A princípio, esses dispositivos estão online para enviar, por exemplo, informações sobre nossa saúde a nossos médicos e hospitais. Mas especialistas temem que tudo isso possa ser invadido e controlado remotamente, inaugurando um novo tipo de crime, antes visto apenas em filmes sobre futuros distópicos.

Se hoje hackers já invadem computadores e pedem resgate para devolver o acesso às informações em seus discos rígidos, pode chegar um momento em que eles invadam, por exemplo, um marca-passo e exijam dinheiro para não matar seu portador. Ou ainda que realizem atentados desabilitando os freios e acelerando um carro, tudo à distância.

O fato é: tudo que puder ser invadido será!

Em 2014, quando ainda era CEO da Cisco, John Chambers chegou a dizer que existem dois tipos de empresas: as que já foram invadidas e as que ainda não sabem que já foram invadidas. Mas com a onipresença do digital em tudo que fazemos, tais invasões se estendem também aos clientes dessas empresas.

Por exemplo, já não é de hoje que, ao ligar pela primeira vez uma Smart TV recém-comprada, seu feliz proprietário precisa aceitar “termos de uso” do equipamento como parte da rotina de configuração inicial. Nada mais natural: as TVs agora são muito mais que um equipamento que transmite imagens das emissoras. Tornaram-se verdadeiros computadores executando aplicativos online dos mais diversos, transmitindo –mas também coletando– informações: nossas informações.

Algumas TVs no exterior incluem uma pitoresca sugestão em seus “termos de uso”: não façam, diante do aparelho, algo que você possa se arrepender depois. Afinal, muitos desses equipamentos possuem câmeras e microfones incorporados. Essas TVs são computadores com sistema operacional e linguagem de desenvolvimentos conhecidos, sem nenhum antivírus ou firewall para proteção e permanentemente conectados à Internet.

Nada impede que um hacker as invada para gravar aspectos de nossa vida que depois podem ser usados contra nós. Essa ideia foi explorada no episódio “Manda Quem Pode”, o terceiro da terceira temporada da série “Black Mirror”, em que um adolescente é chantageado por criminosos depois de o gravarem pela câmera de seu notebook.

 

Casa e negócios conectados

Observe quantos equipamentos em sua casa estão conectados à Internet nesse momento: você certamente tem pelo menos um deles! Alguns são óbvios, como os celulares, os computadores, relógios inteligentes, a smart TV, os assistentes digitas e o videogame. Outros nem tanto, como aparelhos de som, lâmpadas e até modelos mais recentes de aspiradores de pó robôs. A maioria dele é capaz de coletar alguma informação sobre você ou seu ambiente e transmitir a seu fabricante, incluindo aí o aspirador de pó.

A princípio, tudo isso foi criado para benefício do consumidor, para deixar sua vida mais fácil, produtiva e divertida. Chegamos a um ponto em que nossa imaginação é o limite para conectarmos tudo na rede.

Estudos sugerem que, nesse ano, praticamente metade de todo tráfego de dados na Internet acontecerá entre equipamentos “falando entre si”, sem nenhuma intervenção humana. É o fenômeno da Internet das Coisas. Como comparação, apenas 13% dos dados sairão ou chegarão de nossos celulares e míseros 3% de nossos computadores, que estão prestes a ser superados pelas smart TVs nesse quesito.

Quem tem em casa assistentes digitais, como Amazon Echo ou Google Home, já pode controlar vários eletrodomésticos com sua voz. Mas a automação digital das casas vai muito além, com geladeiras, cafeteiras, persianas e até banheiras controladas remotamente.

Os carros também estão cada vez mais digitais e conectados. Modelos topo de linha podem ter computadores de bordo online e com mais linhas de código que um sistema operacional para computadores, controlando todos os equipamentos do veículo. Isso permitiu que, em 2015, pesquisadores de segurança invadissem um jipe Cherokee a 16 quilômetros de distância. A partir de comandos em um notebook, diminuíram a potência do veículo, mudaram a estação do rádio a bordo e ligaram o ar-condicionado e o limpador de para-brisa.

No ambiente comercial, acompanhamos o crescimento de lojas sem funcionários, em que o próprio cliente pega o que quer e sai, com a compra sendo automaticamente debitada em seu cartão. Mas também vemos coisas no mínimo inusitadas, como grelhas de lanchonetes com a temperatura controlada de maneira online (para evitar superaquecimentos e incêndios) e até galerias de águas pluviais com sensores (para evitar enchentes).

 

Corpos conectados

Assim como nossas casas, carros e escritórios estão cada vez mais conectados, nossos corpos seguem pelo mesmo caminho, seja pelo que vestimos ou até por implantes em nosso organismo.

O celular é a máquina perfeita de rastreamento, pois é a única coisa na vida da qual não nos afastamos durante todo dia. Além disso, instalamos dezenas de aplicativos nele, alguns de procedência duvidosa, que podem coletar uma enxurrada de dados nossos, repassando-os a criminosos. A simples geolocalização pode ser usada para traçar nosso hábito de movimentação, o que pode ser usado, por exemplo, no planejamento de sequestros.

Além disso, vestimos ou usamos cada vez mais equipamentos online que coletam e transmitem nossos dados. É o caso de relógios inteligentes, capazes de, entre outras coisas, monitorar nossos batimentos cardíacos.

Isso pode ser muito bom, como no caso do jornalista americano Paulo Hutton, que foi salvo pelo seu Apple Watch em 2019. Na época com 48 anos, o aparelho identificou anomalias nos seus batimentos, o que lhe permitiu descobrir que tinha bigeminia ventricular, que foi corrigida antes que algo pior acontecesse. Por outro lado, em mãos erradas, informações tão íntimas de nossa saúde podem permitir usos nefastos.

Vestimos e usamos muito mais dispositivos conectados que coletam nossas informações ou podem ser controlados remotamente: câmeras portáteis, óculos de realidade aumentada ou virtual, medidores de glicemia, roupas com sensores. Há até mesmo vibradores que podem ser controlados à distância, pela Internet!

Essa digitalização da vida é um caminho sem volta. Os benefícios que recebemos são imensos! Por outro lado, não há sistema que não possa ser invadido. Essa é uma corrida de gato e rato, com fabricantes tentando proteger seus produtos e hackers encontrando suas vulnerabilidades.

Diante disso, o ideal é que funções críticas de equipamentos nunca sejam controláveis à distância. Afinal, não podemos deixar que os hackers desliguem marca-passos, provoquem sérios acidentes de carro ou gelem nossa casa com o ar-condicionado.

 

Quem assedia uma assistente virtual?

By | Tecnologia | No Comments

No dia 5, o Bradesco lançou uma nova campanha de marketing. O banco apresentou mudanças no algoritmo da BIA, sua assistente com inteligência artificial. As mudanças se concentram nas respostas que o sistema dá diante de diferentes formas de assédio que a assistente recebe de clientes, que vão desde insultos até importunações sexuais.

Esse comportamento bizarro não é novidade. Mas ainda me pego analisando o que leva alguém a assediar sexualmente um software.

Alguns dizem que se trata apenas de “brincadeira”. Afinal quem vai “passar uma cantada” em um bot? Mas as reações ao comercial do Bradesco mostram que o assunto é sério, problemático e está disseminado em nossa sociedade.

No momento em que estou escrevendo esse texto, a peça já passou de 105 milhões de visualizações no canal oficial do Bradesco no YouTube, em apenas seis dias no ar! Conquistou cerca de 7.000 “gostei” e 25 mil “não gostei”. E entre os mais de 13 mil comentários, a esmagadora maioria traz uma reprovação furiosa ao comercial.

E isso –pelo menos nessa quantidade– me surpreendeu.


Veja esse artigo em vídeo:


O polêmico comercial mostra algumas das cerca de 95 mil mensagens agressivas que a BIA recebeu no ano passado, segundo o Bradesco. Entre elas estão insultos como “BIA, sua imbecil” e “BIA, eu quero uma foto sua de agora” (sic).

Até então, o sistema identificava os comentários condenáveis e dava repostas leves, como “Não entendi, poderia repetir” ou “Foto? Apesar de falar como humana, sou uma inteligência artificial”. Essas respostas foram substituídas por outras, bem mais incisivas, como “Essas palavras são inadequadas, não devem ser usadas comigo e mais ninguém” ou “Para você, pode ser uma brincadeira; para mim, foi violento”.

A iniciativa do banco segue a campanha “Hey update my voice” (“Ei, atualize minha voz”), da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Ela foi criada a partir do estudo “I’d blush if I could” (“Eu ficaria corada, se pudesse”), que descreve o assédio sofrido pelas assistentes virtuais. A partir disso, a Unesco recomenda às empresas atualizações nas respostas de suas assistentes para combater a violência e o preconceito, educando a população para o problema do assédio contra mulheres, muto além das assistentes virtuais.

Segundo a Unesco, 73% das mulheres no mundo já foram vítimas de algum assédio online. No Brasil, pesquisa Datafolha revelou que 42% das mulheres a partir de 16 anos já sofreu assédio sexual. Outro levantamento indicou que 97% já haviam sido vítimas de algum tipo de assédio dentro do transporte público ou privado.

 

Do amor à violência

Para entendermos a raiz do assédio contra assistentes virtuais, temos que voltar uma década no tempo. A Siri, assistente da Apple, lançada em 2011, foi o primeiro sistema do tipo a se tornar um grande sucesso de público. Ela surgiu como parte do iOS 5.0, que controlava o iPhone 4S. Até então, nenhum produto de massa tinha a capacidade de convincentemente entender comandos de voz e dar respostas também por voz.

Uma das diversões da época era “desafiar” o sistema com comandos inesperados. Um dos mais populares era dizer “Siri, eu te amo”. Ela dava respostas espirituosas como “eu aposto que você diz isso a todos os produtos da Apple.” A princípio, naquele momento embrionário da tecnologia, ninguém estava “cantando” a assistente, especialmente para quem sabe do relacionamento apaixonado entre os clientes da Apple e a marca e seus produtos.

Infelizmente, à medida que as assistentes se popularizaram em celulares e muitos outros dispositivos, melhorando também a sua capacidade de respostas, aqueles testes quase pueris evoluíram para mensagens agressivas e sexistas.

Isso foi reforçado pelo fato de quase todos esses sistemas incorporaram uma voz e até uma personalidade feminina. É o caso dos principais sistemas internacionais: Siri (Apple), Google Assistente, Cortana (Microsoft) e Alexa (Amazon). Isso se repete em sistemas brasileiros: além da própria BIA (Bradesco), outros exemplos são a Lu (Magazine Luiza) e a Nat (Natura).

Modismos à parte, a origem dessa escolha tem fundamento. Em 2005, Clifford Nass, professor de comunicação da Universidade Stanford (EUA), compilou dez anos de pesquisas psicológicas e de interface de voz, e concluiu que a voz sintética feminina é percebida como capaz de ajudar a resolver problemas, enquanto a masculina representa autoridade e dá respostas. Outro estudo, em 2008, de Karl MacDorman, da Universidade de Indiana (EUA), indicou que vozes sintetizadas femininas eram vistas como mais calorosas e agradáveis.

Segundo a Unesco, 90% da força de trabalho envolvida na criação dos assistentes é masculina. De acordo com o órgão, eles reforçam o imaginário popular de que a voz da mulher é dócil, acolhedora, subserviente e sempre pronta a ajudar. A prática tende a normalizar o assédio.

Seguindo as recomendações da Unesco, a Apple fará com que o usuário escolha o gênero da voz da Siri a partir do iOS 14.5. A voz masculina já está disponível, mas hoje o usuário precisa alterar o padrão feminino nas configurações do sistema.

 

“Mimimi”

Os detratores do novo comercial do Bradesco afirmam que ele exagera e que o banco se aproveita de uma pauta feminista para se promover. Mas muitos dos comentários acabam justamente reforçando os preconceitos e a violência contra mulheres, o que indica que a iniciativa está no caminho certo. Afinal, o debate levantado não é sobre o assédio contra a BIA e sim contra todas as mulheres.

Mas já que o assunto foi tocado, poderíamos debater também se seria legítimo agredir sexualmente um robô, apenas por ser uma máquina. O tema é recorrentemente explorado pela ficção, com sistemas inteligentes que desenvolvem sentimentos e até se apaixonam. Vimos isso, por exemplo, nos filmes “Ela” (2013), de Spike Jonze, e “Blade Runner” (1982), de Ridley Scott, ou no reboot da série “Battlestar Galactica” (2004 a 2010). Portanto, nem os robôs devem ser assediados.

Outra crítica recorrente contra o comercial é que o Bradesco se preocupa mais com a BIA que com as atendentes humanas do banco. Conversei com várias gestoras de call center sobre o caso. De fato, esse é um mercado conhecido por condições de trabalho ruins. Em alguns casos, se um atendente encerra uma ligação, mesmo após ter sido agredido por um cliente, ele pode ser punido administrativamente.

A política dos call centers refletem a da empresa que a contrata. A boa notícia é que, aos poucos, essas regras vêm evoluindo, para proteger esses profissionais contra violências de consumidores. Em muitos casos, os atendentes já são autorizados a reagir aos ataques e até a encerrar a ligação. Em casos menos comuns, a empresa envia uma notificação formal ao cliente, advertindo-o por seu comportamento. Isso acontece inclusive em alguns bancos.

A BIA também está pagando por diversos tipos de insatisfação de clientes com o Bradesco. Se a empresa comete erros (e todas as empresas cometem), eles precisam ser notificados pelo cliente e corrigidos. Mas isso deve ser feito de maneira apropriada, o que nos leva à questão original de combate ao assédio.

A frase de que “o cliente sempre tem razão” é uma falácia. Naturalmente ele deve ser bem atendido, sempre da melhor maneira possível. Mas infelizmente muitos clientes abusam dessa prerrogativa, sem falar daqueles que possuem sérios problemas sociais. A empresa e seus funcionários, mesmo os virtuais, não têm nenhuma obrigação de acolher quem os trata mal. Qualquer forma de relacionamento, mesmo comercial, deve ser pautada pelo respeito mútuo.

Por isso, a nova campanha do Bradesco é mais que oportuna: é necessária! O debato em torno da violência contra uma assistente virtual e a onda de ódio contra a peça explicitam como nossa sociedade ainda tem muito a evoluir.

Reconhecimento facial se tornou uma poderosa ferramenta de negócios

By | Tecnologia | No Comments

Muita gente já se espantou como o Facebook reconhece instantaneamente todas as pessoas que estão nas fotos que carregamos na plataforma, “marcando” seus rostos. Esse recurso, um dos segredos das “viralizações” das imagens nessa rede social, vem dos algoritmos de reconhecimento facial. Mas esse uso chega a ser um “brinquedo” diante do que essa tecnologia já oferece aos negócios.

Apesar de nunca ter se falado tanto disso, ela existe desde os anos 1960. De maneira simplificada, consiste em se criar uma “assinatura digital” (um “código hash”) composta por uma identificação única calculada a partir de distâncias entre pontos-chave do rosto (como o centro da pupila, a ponta do nariz, os limites da boca e assim sucessivamente). Quanto mais pontos forem avaliados, maior a eficiência no reconhecimento, pois essas distâncias variam de pessoa para pessoa.

“Uma coisa que melhorou muito de uns anos para cá foi a acuracidade do reconhecimento facial”, afirma Edgar Nunes, diretor comercial da Nuntius Tecnologia. De fato, até há poucos anos, existia desconfiança com essa tecnologia, por gerar muitos falsos positivos ou negativos.  “Antes as empresas tinham algoritmos que trabalhavam com 96 pontos do rosto, e hoje falamos de pelo menos 300 pontos, chegando a 1.024”, explica.

Tantos pontos permitem que o reconhecimento aconteça com precisão até quando o rosto está parcialmente coberto, por exemplo por óculos escuros ou, como agora é comum, por uma máscara. Os pontos ainda visíveis são suficientes para se fazer a identificação.


Veja a íntegra da entrevista com Edgar Nunes em vídeo:


Portanto a eficiência do reconhecimento facial está intimamente ligada não apenas a melhorias no software, mas também a avanços exponenciais nos computadores e nas próprias câmeras. Todo esse poder de processamento permite que as plataformas identifiquem mais pontos no rosto, em menor tempo e até de várias pessoas na mesma imagem. “Hoje a tecnologia reconhece 512 pessoas simultaneamente, em uma única câmera”, explica Nunes.

Além disso, os sistemas são capazes de identificar indivíduos mesmo que eles não estejam olhando de frente para a câmera, uma exigência dos sistemas mais antigos. A quantidade de pontos e o poder de processamento identificam também os rostos inclinados. Aliás, esse reconhecimento tridimensional pode ser usado para evitar fraudes, como alguém tentando apresentar uma foto e o sistema achar que se trata de um rosto real diante da câmera.

A qualidade nos reconhecimentos depende também da adaptação do sistema para a região onde ele será usado. Não basta, portanto, um algoritmo de qualidade: a plataforma precisa ser “calibrada” para o tipo de rostos da população local, mesmo em um país miscigenado, como o Brasil. É por isso que, se tentarmos usar um bom sistema preparado para o mercado americano em uma país asiático, ele pode não funcionar muito bem, e vice-versa.

Outro ganho das melhorias dos equipamentos é que sistemas locais podem tomar ações sem exigir uma conexão à Internet de banda larga. Esses equipamentos são capazes de armazenar mais de um milhão de “códigos hash” em sua memória (ou seja, as fotos das pessoas não estão ali, apenas essa sua “assinatura digital”). Dessa forma, se a imagem da pessoa diante da câmera não combinar com o respectivo “código hash”, o sistema pode negar a identificação.

Seguindo a mesma lógica, o sistema local pode gerar um “código hash” e enviar apenas essa informação para um servidor, um arquivo muito menor que o de uma foto ou um vídeo capturados. “A gente está falando de transportar apenas alguns kbytes de informação, o que não vai causar nenhum problema de conectividade, não vai ‘engargalar’ nenhuma rede’, explica Nunes.

Isso é particularmente interessante em locais em que a não há conexão com a rede ou em que ela seja limitada, como em um ônibus. O terminal do Bilhete Único (ou equivalente) pode conter os “códigos-hash” dos donos de bilhetes da cidade. Se alguém tentar usar um documento que não combina com a imagem capturada na hora pela câmera, a catraca pode não ser liberada, e a informação de uma possível fraude ou roubo ser enviada a uma central de controle e ao verdadeiro dono do bilhete.

 

Integração a outros sistemas

As plataformas de reconhecimento facial não trabalham mais de maneira isolada. “Antigamente, o reconhecimento facial entregava algo como ‘a pessoa é o Paulo e foi detectado na câmera 2’ e isso era enviado para o centro de controle”, conta Nunes. Agora a informação captada pela plataforma de reconhecimento vai muito além, identificando coisas como gênero, idade aproximada, raça e até estado de humor da pessoa no momento.

Essa informação fica ainda mais valiosa quando integrada a sistemas de gestão, para ajudar a tomar decisões de negócio. Por exemplo, de uma maneira automática, é possível saber que perfil de consumidor um determinado produto atrai, como o fluxo de visitantes em uma loja se comporta e até tomar ações personalizadas para um usuário específico, baseado em um histórico de relacionamento com a empresa ou combinando com perfis de visitantes semelhantes.

Em tempos de pandemia de Covid-19, os terminais de reconhecimento facial também trazem outras vantagens interessantes. A primeira delas é que, além de identificar a pessoa, consegue medir sua temperatura instantaneamente, sem necessitar de caras câmeras térmicas e evitando as filas provocadas pelas leituras com termômetros do tipo “pistola”, que se popularizaram no varejo. O sistema também é capaz de identificar se a pessoa está usando uma máscara. Em caso negativo ou se estiver com febre, uma ação é disparada, como informar a segurança ou a área de recursos humanos.

Nunes acredita que a evolução natural dessas plataformas envolverá ainda mais confiança e velocidade na identificação dos rostos, além de integrações cada vez mais poderosas com outros sistemas. Em um mundo com uso crescente de aplicações “touchless”, em que o usuário não precise encostar em nada, isso é muito bem-vindo.

O digital indica o caminho para o varejo, mesmo nas lojas físicas

By | Tecnologia | No Comments

Na semana passada, o Carrefour anunciou as suas duas primeiras lojas autônomas do país. Sua principal característica é que elas não têm funcionários para ajudar os clientes na seleção de produtos ou sequer nos caixas. Todo o processo é feito pelo consumidor, com seu celular.

O objetivo é oferecer uma experiência eficiente, em que o cliente fique o mínimo de tempo dentro da loja, o que, aliás, é interessante em uma pandemia. Isso também traz uma óbvia economia para o varejista em salários.

Mas há um fator extremamente importante, que pode passar despercebido para muita gente. Lojas autônomas estão em linha com uma mudança cultural em curso no público: o desejo de consumir seja lá o que for com o mínimo de interação humana.

Portanto, o varejo pode tirar grande proveito de recursos digitais, muito além da criação de e-commerce. Além de viabilizar um atendimento em linha com esse inusitado e crescente desejo de autonomia, permite conhecer profundamente seu público, oferecendo um relacionamento mais moderno, um mix de produtos mais adequado para cada loja e ampliando a satisfação do consumidor.


Veja esse artigo em vídeo:


Com a pandemia, o e-commerce cresceu enormemente em todo mundo, inclusive no Brasil. Segundo a 43ª edição do Webshoppers, relatório sobre e-commerce produzido pela Ebit em parceria com a Nielsen, as vendas no e-commerce de 2020 cresceram 41% em relação a 2019, com um aumento de 23% em novos consumidores e 29% naqueles considerados recorrentes.

Ainda assim, o e-commerce representa pouco nas vendas globais do varejo, respondendo, mesmo com esse crescimento, por cerca de apenas 10% de todo o bolo. Ou seja, qualquer investimento para melhorar a experiência do consumidor nas lojas físicas é mais que bem-vindo!

Dentro desse cenário, as novas lojas do Carrefour dão completa autonomia ao cliente. Para entrar na loja, ele deve exibir a um totem o QR code que o identifica, pelo aplicativo do Carrefour em seu celular. Uma vez dentro da loja, ele deve escanear o código de cada produto que deseja comprar, que é acrescentado em um carrinho virtual. Se tiver qualquer dúvida, pode acessar um suporte em tempo real por WhatsApp. Uma vez concluída a compra, ele faz o pagamento pelo próprio aplicativo e apresenta o QR code novamente para sair da loja.

Desde 2018, a rede já usa algo semelhante em 40 de seus pontos de venda. Mas ainda existe um funcionário que confere o que foi pago e o que o consumidor está levando. Nas novas lojas, não há mais essa conferência. O novo formato está sendo testado em pequenos estabelecimentos no centro comercial Cow, em São Paulo, e no condomínio residencial Domo Life e Prime, em São Bernardo do Campo.

Apesar de estar sendo apresentado como algo inspirado na Amazon Go, as lojas físicas da gigante americana do varejo têm uma tecnologia ainda mais disruptiva. Nelas, o consumidor libera sua entrada na loja com o aplicativo, da mesma forma que no caso do Carrefour. Mas quando pega um produto para comprar, ele não precisa ser escaneado pelo celular: basta guardá-lo em uma sacola ou até no seu bolso. Um sofisticado sistema de câmeras e sensores permite que a loja saiba quais produtos foram pegos e a quantidade, o que diminui enormemente as fraudes e furtos. No sistema da Amazon, o pagamento também é mais simples: basta o cliente sair da loja com os produtos, que serão debitados automaticamente de seu cartão de crédito cadastrado.

Em São Paulo, a Zaitt oferece uma experiência bastante semelhante ao da Amazon Go. Nas outras lojas da sua rede, o funcionamento se parece ao das novas lojas do Carrefour.

 

Sem contato com ninguém

Como se pode ver, a tecnologia digital está no centro do processo, mesmo se tratando de lojas físicas. Ela é usada para identificar o cliente, os produtos que ele adquire e fazer o pagamento, dispensando a interação com funcionários.

Por mais estranho que isso possa parecer para muitos, essa “liberdade de fazer tudo sozinho”, sem ter que interagir com outras pessoas, cresce nos mais diversos setores do mercado. É um reflexo do enorme poder que os consumidores ganharam com o meio digital, especialmente com o advento dos smartphones. Não se trata apenas de ter mais escolha (e agora ela é imensa). As pessoas querem que tudo seja feito do seu jeito e a seu tempo, com uma experiência personalizada e com grande autonomia, centrada no seu smartphone, que se transformou em uma espécie de “painel de controle da vida”.

Isso explica, ainda que parcialmente, o sucesso de aplicativos como o iFood, para o delivery de comida, ou o Uber, para transporte. Segundo vários ex-alunos meus que trabalham no iFood, muitas pessoas preferem pedir comida interagindo com o aplicativo a ter que ligar para o restaurante, pois a experiência seria melhor com a tela que com o atendente humano, segundo eles.

Esses aplicativos não ameaçam os restaurantes físicos, pois a comida continua vindo deles. Apenas o canal para se fazer o pedido mudou. Mas o varejo físico precisa necessariamente estar atento a essas mudanças no comportamento do consumidor, para se manter relevante e evitar o pior.

Há muitos anos, já se fala do “apocalipse do varejo”, que vem fechando milhares de lojas físicas nos Estados Unidos desde 2010. A principal causa é a migração de consumidores para o e-commerce. Estudo do Credit Suisse previu que de 20% a 25% dos shoppings centers americanos fechariam as portas nos próximos anos.

Como eu digo sempre, não é uma tecnologia que põe uma empresa para fora do mercado. Quem faz isso é seu consumidor, quando encontra uma alternativa mais vantajosa. Pelo contrário, a tecnologia pode ser uma poderosa aliada para manter a empresa relevante a seu público!

 

Coletando dados

Um outro importantíssimo uso da tecnologia para fortalecer qualquer negócio é a coleta de dados dos usuários. Iniciativas como a do Carrefour, da Amazon e do Zaitt permitem que os varejistas saibam exatamente o que cada consumidor compra, quando e como. Essa informação é valiosíssima, não apenas para melhorar o mix de produtos de cada loja, para que ela tenha sempre aquilo que os clientes desejam, de maneira independente de outros pontos de venda, mas também para personalizar a experiência de cada consumidor, mesmo que sejam milhões em sua base.

O Pão de Açúcar vem fazendo isso muito bem desde 2017, quando ele lançou um novo aplicativo. Usando o perfil de compras de cada um dos milhões de clientes de sua plataforma de relacionamento “Pão de Açúcar Mais”, a empresa consegue oferecer descontos que podem chegar a 50%. Porém o mais interessante é que esses descontos são oferecidos naquilo que o consumidor realmente quer, atendendo a interesses também de seus fornecedores, que usam tais descontos personalizados como uma eficiente ferramenta de marketing. Ou seja, ganha o consumidor, o fornecedor e o varejista.

Em um tempo de tantos desafios impostos pela pandemia, o relacionamento do varejo com seus clientes se transformou profundamente, não apenas na comunicação, mas no próprio processo de venda, além da captação e da fidelização de consumidores.

Não dá mais para ficar esperando os clientes entrarem pela porta da loja para oferecer um caloroso sorriso e iniciar a venda. Se não estiver de maneira inteligente na vida digital da pessoa, talvez ela nunca mais entre pela sua porta. E, se entrar, talvez nem queira o sorriso, e sim uma experiência de autosserviço realmente inovadora.

 

O que há por trás do crime do momento

By | Tecnologia | No Comments

Na manhã de sexta (19), a Polícia Federal prendeu dois hackers em Uberlândia (MG) e Petrolina (PE), acusados de serem responsáveis pelo roubo e vazamento de dados de 223 milhões de pessoas e de 40 milhões de empresas em janeiro. Mas assistindo às imagens divulgadas pelas próprias autoridades, percebe-se que algo não bate nessa história: extremamente modestos, a casa e o computador de um deles não combinam com alguém que comercializaria uma base de CPFs e CNPJs por 40 mil euros, o que dá mais de R$ 260 mil.

O Brasil se transformou no paraíso dos vazamentos de informações pessoais. Desde o ano passado, várias bases de dados enormes, de diferentes fontes, são oferecidas na Deep Web, uma parte da Internet que não pode ser acessada com navegadores comuns e não é indexada em buscadores, muito usada por delinquentes.

Em um primeiro momento, tudo isso parece envolver grandes ações criminosas, com a participação da máfia russa ou outra organização internacional. Entretanto, é mais provável que os esquemas sejam locais e que o dinheiro não seja a única motivação.

Além disso, a vida dos bandidos está fácil. Empresas, organizações e até o governo brasileiro precisam melhorar muito a segurança de seus servidores. E os usuários, sejam corporativos, sejam qualquer um de nós, precisam ser mais cuidadosos: a maior parte dos roubos acontece graças à inocência das pessoas, que caem em golpes muito básicos.


Veja esse artigo em vídeo:


Obviamente os dois hackers presos na sexta não trabalham sozinhos. Isso explicaria a casa e o equipamento bastante simples do hacker de Uberlândia, algo completamente incompatível com um esquema que já deve ter movimentado milhões de reais.

Vale notar que ele já vinha sendo investigado pela possível participação em outras invasões semelhantes, como o roubo de dados do Tribunal Superior Eleitoral. Esse vazamento foi divulgado justamente no primeiro turno das eleições de 2020, ao que tudo indica para aumentar a desconfiança da população no sistema eleitoral brasileiro, atendendo a interesses de quem questiona as urnas eletrônicas, por exemplo.

Não precisa ser um gênio, portanto, para perceber que os dois presos são apenas peões de um grupo criminoso que usa invasões para obter ganhos financeiros e políticos. Se os dois forem os únicos encarcerados, será uma vergonha! Como em tantos crimes no Brasil, condena-se quem puxa o gatilho, mas o mandante continua solto para cometer outros atos ilícitos.

Com a digitalização galopante de nossas vidas, os crimes eletrônicos se transformaram nos mais devastadores e que causam mais prejuízos à sociedade. Pessoas, empresas e organizações não estão preparadas para lidar com a criatividade e a eficiência dos delinquentes digitais. Eles conhecem profundamente a tecnologia, mas também são especialistas em ludibriar e manipular a população.

O mais nocivo dos crimes digitais atualmente são as fake news, porque elas conseguem de abalar a sociedade. Basta ver o crescimento exponencial da crise de saúde que o Brasil vive com a Covid-19. Sem as infames notícias falsas, o número de mortes seria muito menor e os negócios voltariam a funcionar mais rapidamente, pois as pessoas agiriam de acordo com o que a ciência e os especialistas de saúde determinam. Mas, graças a elas, acreditam em qualquer bobagem messiânica, que não os protege de nada, apenas atende a interesses de grupos específicos de poder.

 

Crime no atacado e no varejo

Assaltos a indivíduos e empresas são substituídos por golpes em redes sociais, comunicadores como WhatsApp e invasões em computadores. Sem sair da cadeira, os bandidos fazem mais vítimas, com ganhos muito maiores e sem risco de morte, raramente sendo pegos.

Apesar de os prejuízos para as vítimas serem expressivos, aos olhos do crime organizado, isso não é tanto: é o crime digital “no varejo”.

O “crime no atacado” vem com esses grandes roubos. E aqui a vida dos criminosos também está fácil, pois as empresas e até o governo ficam a desejar na segurança.

Um bom exemplo é o Ministério da Saúde, que foi invadido em dezembro devido a uma falha muito básica, que permitiu que hackers baixassem dados de todas as pessoas cadastradas no SUS (Sistema Único de Saúde) ou com um plano de saúde, um total de 243 milhões de indivíduos. Depois disso, o site do ministério já foi invadido diversas outras vezes, sendo “pichado” com insultos para expor sua vulnerabilidade.

As grandes bases de dados colocadas à venda nos últimos meses parecem ser uma composição de invasões a sistemas de diferentes fontes, o que indica que as falhas de segurança são muito mais comuns que deveriam.

Os bancos são empresas com bons sistemas de segurança. Eles investem milhões nisso. Afinal, está na essência do seu negócio, seja com sistemas de invasão dificílima, seja com as infames portas com detectores de metal nas agências. Mas outras empresas, mesmo algumas que manipulam grande quantidade de dados de seus clientes, incluindo informações sensíveis, não cuidam tão bem de seus sistemas. E estou falando aqui de grandes empresas. Quando pensamos em pequenas e médias, encontramos verdadeiros shows de horror!

Em uma sociedade totalmente digital, ninguém é pequeno demais para não se preocupar fortemente com a segurança da informação em seus servidores, seja dos clientes, seja do próprio negócio.  E ninguém é grande demais para não correr o risco de ser colocado para fora do mercado no caso de um grande roubo de dados.

 

O desdém pela informação alheia

Há um outro aspecto a ser considerado, muito mais cultural que tecnológico: a falta de respeito com a informação dos outros.

Dados pessoais são indubitavelmente o recurso mais valioso do mundo hoje. Isso foi detalhado na icônica reportagem de capa da revista “The Economist” de 6 de maio de 2017.

O Brasil tem uma boa legislação nessa área: a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), sancionada ainda no governo Temer, em agosto de 2018. As empresas tiveram dois anos para se adaptar à legislação e ainda as multas não estão sendo cobradas de quem infringir suas determinações.

Entre elas, está o fato de as companhias serem responsáveis pelos dados de consumidores sob sua guarda, não importando se elas foram invadidas. Além disso, as empresas devem dizer exatamente que dados serão coletados, o que farão com eles e com quem os compartilharão. O cliente deve autorizar explicitamente tudo isso.

Mas essa prática está longe de acontecer. Somos rastreados o tempo todo, sem saber que informações nossas estão sendo coletadas e o que será feito delas. Isso acontece nas redes sociais, em nossos smartphones e até em eletrodomésticos, como aspiradores de pó robôs, que mapeiam nossas casas e enviam essa informação a seus fabricantes. Mas também somos rastreados em farmácias que associam nossas compras de medicamentos a nossos CPFs, a lojas que nos identificam por suas redes e até a câmeras nas ruas que contam a governos onde estamos por reconhecimento facial.

Não autorizamos nada disso e não temos a mínima noção do que está acontecendo com nossos dados. Diante da ação de criminosos mais perigosos, de empresas que não fazem os investimentos necessários em segurança da informação e de uma sociedade que desrespeita sistematicamente o direito aos dados dos cidadãos, estamos cada vez mais à mercê de um mundo tecnocrático que facilita o crime organizado e viabiliza um estado policialesco.

Ironicamente, no mês passado, o diretor-presidente da ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados), Waldemar Gonçalves Ortunho Júnior, falou sobre esses vazamentos em um evento. Segundo ele, “a investigação e o poder de polícia, não nos cabe”. Concordo com isso, mas eles são responsáveis por fazer valer a LGPD, usando todos recursos necessários. E isso vai indo muito mal em nosso país.

Sem melhorias consistentes na área, continuaremos sendo o paraíso dos hackers, das fake news e de todo tipo de criminoso que usa o mundo digital para ter ganhos em cima da nossa miséria.

Sinto informar, mas o mundo não existe para lhe servir

By | Tecnologia | No Comments

O meio digital nos deu poderes com os quais talvez não estejamos prontos para lidar, e isso pode estar destruindo nossa humanidade!

Costumo dizer que quando algo aparece em novelas ou reality shows, a coisa definitivamente já está integrada na vida da maioria da população. E uma coisa que vejo representado nesses programas, nos últimos anos, é o poder de observar, influenciar e até destruir a vida alheia com as redes sociais.

Vivemos uma época de crescente tirania digital, em que muitos acham que o mundo tem a obrigação de lhes agradar. Caso contrário, agem como se tivessem o direito de punir severamente quem quisessem.


Veja esse artigo em vídeo:


No Big Brother Brasil, maior reality show do país, a presença nas redes já é critério de escolha dos participantes há algumas edições. Na que está acontecendo agora, uma palavra não sai da boca de alguns deles: “cancelamento”, esse comportamento nefasto de uma multidão abandonar e criticar pesadamente alguém nas redes ao mesmo tempo, na tentativa de calar suas ideias.

Oras, como alguém entra no BBB, o ambiente de maior exposição do país, com medo de ser “cancelado”? Até mesmo porque uma coisa é certa: ninguém agrada todo mundo!

Por outro lado, será que alguém merece ser “cancelado” ou qualquer coisa do tipo? Essa punição me parece severa demais, especialmente porque a condenação vem sempre da cabeça de uma pessoa ou de um grupo, que pode estar errado. Mais que isso: uma ação impensada e às vezes até gratuita dessas pode destruir a vida de alguém! E, se hoje o indivíduo é algoz, amanhã mesmo pode se tornar vítima.

Para entendermos de onde veio essa aberração comportamental, precisamos conhecer a história dos relacionamentos on line.

 

A origem das conversas on line

Quando surgiram os primeiros serviços na Web, existiam apenas as salas de bate-papo dos portais para conhecermos outras pessoas, e aquilo já parecia incrível: a chance de falar com muitas pessoas ao mesmo tempo, onde quer que estivessem, era inebriante! Depois vieram os sites de namoro, cada vez mais segmentados, e finalmente os aplicativos “de pegação”.

Lá atrás, existia a falsa ideia de que a vida on line e a off line eram separadas. Isso era parcialmente explicado por que a tecnologia era precária: até para nos conectarmos, tínhamos que estar diante de um computador, on line por uma lenta conexão telefônica. Esse ritual criava uma ruptura que sugeria que nossa presença nas redes era dissociada de quem somos.

Para quem procurava conhecer novas pessoas ou até explorar novas possibilidades, isso era muito interessante: o aparente anonimato digital permitia que fôssemos quem quiséssemos! Além disso, se algo não saísse como planejado, bastava deixar de falar com a outra pessoa. Eventuais danos ficariam restritos àquele caso.

Entendo que o fim de um relacionamento pode ser doloroso, não desprezo isso. Mas infelizmente isso evoluiu para algo muito mais abrangente e pior, à medida que nossa vida se tornou cada vez mais ligada e dependente do meu digital. Com os smartphones, estamos permanentemente on line e muitas, muitas coisas que fazemos passam pela Internet, seja trabalho, lazer, estudos, compras e até relacionamentos.

Aquele mecanismo pueril de que, se algo não desse certo, bastaria excluir o outro também evoluiu e ficou mais poderoso, resultando nos infames “cancelamentos”, com seus danos crescendo na mesma escada. Nesse ponto, surgem os tiranos digitais, que podem ser restritos ao grupo da família no WhatsApp ou atingir escala global. Em qualquer caso, “brincam de deus”, exercitando alguns de seus piores sentimentos.

Sua humanidade desce pelo ralo quando são incapazes de demonstrar o menor sinal de empatia com o outro: se não me servir, não fizer o que desejo ou simplesmente pensar de maneira diferente, então se decreta que deve ser varrido de sua própria existência ou que, pelo menos, sofra muito.

Essa ilusão de onipotência chega às raias da loucura ao se manter pessoas em “cativeiros digitais”: quando não se quer falar com o outro, ele é bloqueado. Quando, por qualquer motivo, precisa-se dele novamente, o bloqueio é desfeito.

Isso é insano! A outra pessoa também tem sentimentos, desejos, uma vida, enfim. Não está nesse mundo para servir a ninguém. Insistir nessas ações pode indicar uma psicose que nos foi “presenteada” pelo meio digital.

 

Devastando a psique

O que mais me preocupa é que não há indícios de que as pessoas possam melhorar nesse ponto. Pelo contrário, vejo cada vez mais gente disposta a brincar em seu fantasioso “Olimpo digital”.

Temo que cheguemos a um cenário de exclusão digital como o visto no episódio “Natal”, da série “Black Mirror”, disponível na Netflix. A exemplo do que se faz hoje nas redes sociais, nessa história, os indivíduos podem efetivamente bloquear outros na sua realidade. Graças a sinistros implantes que todas as pessoas lá têm, ao se bloquear um indivíduo, ele não será mais capaz de ver ou ouvir quem o bloqueou (e vice-versa), mesmo que estejam frente a frente. Sua imagem será substituída por uma silhueta animada cinza e sua voz ficará incompreensível.

Se essa tecnologia já estivesse disponível, receio que muita gente a adotaria alegremente. O problema é que, quando existe uma grande demanda reprimida no mercado, eventualmente um produto acaba se tornando realidade.

Quando teremos algo assim? Apesar do que acabei de dizer, espero que nunca!

Isso não é engraçado e muito menos inofensivo. “Apagar alguém da existência” de outras pessoas a seu redor pode ter efeitos psicológicos devastadores para a vítima. Quem me conhece sabe que sou um entusiasta e um grande defensor no mundo digital, mas isso não pode jamais matar a nossa humanidade.

Infelizmente, aqueles sistemas primitivos e quase inocentes de relacionamento dos anos 1990 foram a semente para esse comportamento nocivo que temos hoje. As pessoas se tornaram brutalmente intolerantes. Não aguentam frustrações em qualquer área de sua vida. Estão prontos a “cancelar” quem quer que seja por questões sentimentais, sexuais, políticas, religiosas e até esportivas.

Isso precisa ser revertido o quanto antes! Infelizmente parece que o mundo caminha justamente rumo ao que se vê naquele episódio, pois muitos indivíduos e grupos descobriram que manipular o outro pode ser um grande negócio. E, usando outra referência a séries, no caso “The Boys”, disponível no Amazon Prime Video, muitos percebem que manipular o ódio das multidões pode trazer mais dividendos que manipular seu amor.

Corremos o risco de estagnar no nosso desenvolvimento como espécie. Crescemos quando somos confrontados com as diferenças e a sociedade só se desenvolve com o trabalho conjunto para o bem de todos, e não de apenas um grupo.

Se não se gosta de alguém ou de algo, basta não comprar aquilo. Não é preciso destruí-lo para que ninguém mais o consuma.

O mundo não existe para nos servir: vivemos em constantes trocas. Sempre foi assim e sempre será! As pessoas devem reaprender que não são o centro do universo e que precisam do outro.

A difícil arte de ser verdadeiro e não agradar

By | Tecnologia | No Comments

Há uma piada que circula pelas redes sociais que diz que ninguém é tão popular quanto parece ser no Facebook, nem tão bonito quanto no Instagram, tão bem-sucedido quanto no LinkedIn ou tão sucinto quanto no Twitter. Brincadeiras à parte, você tem a sensação que as postagens nas redes sociais estão ficando muito parecidas umas com as outras?

Não é só pela ação do algoritmo de relevância, que joga na nossa cara apenas aquilo que se parece conosco. Isso é resultado de um fenômeno em que as pessoas querem agradar o outro a qualquer custo. Fazem isso para conseguir um emprego novo ou mais clientes, para brilhar no seu grupo de amigos ou pela necessidade da gratificação fugaz e às vezes patológica de receber “curtidas”.

Fica difícil ser feliz com essa compulsão em agradar, mesmo que, para isso, tenhamos que mentir sobre nós mesmos. E isso se manifesta com ainda mais força nas redes sociais, que premiam quem é raso, porém alinhado com a massa. Viramos marionetes de uma sociedade de pensamentos únicos, em que, para ser aceito, é preciso “mugir no mesmo tom da manada”.

Até onde vai essa loucura?


Veja esse artigo em vídeo:


Por exemplo, em outubro, a organização internacional Artigo 19 divulgou relatório que demonstra que o Brasil teve a maior queda no mundo na liberdade de expressão. Em 2009, o país somava 89 pontos em uma escala de 0 a 100 em liberdade de expressão. Em 2020, somamos apenas 46 pontos!

Com isso, ocupamos a modesta 94ª posição, entre 161 países avaliados, e deixamos de fazer parte do grupo de países classificados como “abertos”. Estamos praticamente empatados com as Filipinas, e abaixo da Hungria e do Haiti. Também estamos atrás de todos os países da América do Sul, exceto a Venezuela.

Algumas pessoas podem contestar esse número, dizendo que, no Brasil, nunca ouve tanta liberdade de expressão, graças às manifestações nas redes sociais. É preciso então explicar o que esse termo significa.

De fato, nunca tanta gente colocou seus pensamentos nas redes sociais. Mas isso não é suficiente para configurar liberdade de expressão. Na verdade, acaba sendo o contrário!

Primeiramente porque grande parte do que propagam são ataques baratos que visam destruir a imagem de outras pessoas, empresas e instituições. Isso pode ser enquadrado em vários crimes, o que, por si só, já contraria o conceito de liberdade de expressão. Além disso, o que essas pessoas falam não são suas ideias: servem apenas de caixa de ressonância para palavras de ordem de grupos específicos, prestando-se a viabilizar seus objetivos. Fazem isso por se alinharem com as ideias desse grupo ou para se sentir parte dele.

Como canta Caetano Veloso, “Narciso acha feio o que não é espelho” As pessoas não querem ser confrontadas com o que lhes incomoda. Por isso, se tornam presas fáceis de quem lhes agrada, mesmo que seja com a mais rotunda mentira!

Precisamos romper esse ciclo destrutivo!

 

Todos podem fazer sua parte

Todos os seres humanos são importantes para a sociedade e têm algo a contribuir. Infelizmente, às vezes essa contribuição pode desagradar alguns, pelo simples fato de os tirar de sua zona de conforto. Porém, se ela for construtiva e não ferir leis, deve ser dita.

É por isso que gênios não se preocupam em agradar ninguém: apenas fazem o que deve ser feito, desde que seja certo. Por outro lado, os inseguros, os que estão encharcados de ódio e aqueles que simplesmente não conseguem sustentar suas ideias sentem que lhes resta recorrer a essas fórmulas fáceis.

Não caiam nessa armadilha!

Fazer parte de uma comunidade é crítico para todos os seres humanos. Mas isso não significa apenas usufruir do que ela tem de bom a nos oferecer. Tampouco significa viver uma existência baseada em atender as expectativas dos outros e muito menos manipular a narrativa para ser servido por eles. É também genuinamente trabalhar para construir e oferecer algo de bom ao outro, mesmo a um desconhecido.

Essa realidade em que vivemos me lembra o roteiro do episódio “Queda Livre”, o primeiro da terceira temporada da série “Black Mirror”. Ele mostra uma sociedade em que as ações de todos podem ser avaliadas pelas pessoas à sua volta ou nas redes sociais. Tais avaliações alimentam uma espécie de placar individual acessível a todo mundo, que influencia decisivamente a vida em sociedade. Por isso, nesse episódio, as pessoas vivem vidas cheias de mentiras e aparências, apenas para ganhar mais estrelas de seus pares.

Aquilo é uma enorme distorção do que deveria ser uma vida saudável em sociedade. Mas eu pergunto: quanta falta para que cheguemos àquilo em nosso cotidiano?

 

Não dá para agradar todo mundo

Precisamos reaprender a ser verdadeiros e solidários, mesmo que isso possa desagradar alguns. Se tentamos agradar a todos, não conseguiremos ser verdadeiros. Corremos o risco de desagradar mais que agradar. Por sempre se ajustar aos desejos alheios, há o risco de se criar uma legião de eternos insatisfeitos, que sempre vai querer mais.

Portanto, ao invés de buscar competição por “estrelinhas” em nosso cotidiano, devemos procurar a evolução de nós mesmos. Ao mudarmos para melhor, o mundo muda junto.

Temos que dar um basta nesse comportamento de “mentiras agradáveis”! Esse é um dos grandes males da atualidade.

Para isso, não se deixar abater pelo que o outro pensa. Não espere e nem tente fazer com que todos gostem de você. Nenhuma das duas coisas é possível!

Quem entende que não é o centro do mundo vê sua percepção se tornando mais positiva. Assim suas atitudes tendem a melhorar. A beleza do mundo floresce quando cada um busca viver sua vida de maneira construtiva dentro da sociedade.

Seja verdadeiro e pratique continuamente o bem, para termos uma sociedade melhor para todos. Talvez até deixe de “ganhar estrelinhas” de algumas pessoas, mas sua vida será mais plena e feliz.

 

Vale a pena ter um carro elétrico no Brasil?

By | Tecnologia | No Comments

Na segunda passada, a Ford surpreendeu todo mundo, anunciando que deixará de produzir automóveis no Brasil, interrompendo uma história de mais de cem anos no país. Políticos reclamaram e analistas tentaram justificar a decisão. Mas a resposta é simples: o Brasil deixou de ser interessante para a Ford.

Aliás, não só para ela! A manchete do Estadão desse domingo mostra que o Brasil perdeu 36,6 mil fábricas entre 2015 e 2020, o que dá uma média de 17 fábricas por dia.

A forte desindustrialização, que recentemente também vitimou a produção nacional de eletrônicos da Sony e de carros da Mercedes, é resultado de fatores como o infame “custo Brasil”, a falta de incentivo à inovação, o ambiente empresarial hostil, a baixa produtividade e o próprio mercado retraído. Além disso, o produto brasileiro ficou menos competitivo internacionalmente.

A Ford, por sua vez, tem seus motivos particulares. Um deles é se concentrar em SUVs, veículos que oferecem uma melhor margem de lucro, mas que infelizmente vendem proporcionalmente pouco no Brasil. A outra coisa é seu direcionamento para veículos elétricos. Só que o Brasil ainda patina vergonhosamente nessa tecnologia, enquanto outros países já têm metas aprovadas para eliminação de motores a combustão em veículos novos daqui a alguns anos.


Veja esse artigo em vídeo:


Por que o mercado de carros elétricos não acelera no Brasil? Vale a pena ter um carro elétrico aqui?

John Rockefeller, magnata americano da indústria petrolífera, dizia que “o melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo bem administrada; o segundo melhor é uma empresa de petróleo mal administrada”. Um século depois, essa frase começa a deixar de ser verdade.

Em novembro, o Reino Unido antecipou de 2035 para 2030 a proibição de carros novos movidos a gasolina ou a diesel, portanto daqui a apenas nove anos. Dois meses antes, o Estado americano da Califórnia já tinha publicado a mesma restrição valendo a partir de 2035. O Japão deve firmar sua data limite para 2030. E a China, o país mais poluente do mundo, deve ter uma regra assim para 2035.

Isso vem se refletindo nas empresas automotivas, claro. Na sexta-feira, o valor de mercado da americana Tesla, maior expoente em carros elétricos, era de incríveis US$ 783 bilhões. Isso é mais do que o valor somado da Toyota, da Volkswagen, da GM, da Ford e da Fiat Chrysler, empresas centenárias, que vendem muitíssimo mais veículos, mas quase tudo ainda movido a combustíveis fósseis.

Isso fez com que Elon Musk, fundador e CEO da Tesla se tornasse o homem mais rico do mundo há 11 dias, tirando a coroa que Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, detinha desde outubro de 2017.

Segundo a consultoria Boston Consulting Group, as vendas globais de modelos elétricos e híbridos passarão dos atuais 10% para 51% em uma década. Isso se as restrições aos combustíveis fósseis e os incentivos à eletrificação se mantiverem, e prevendo o crescimento nas vendas e a queda nos preços dos modelos.

 

Gasolina e diesel resistem

Claro que os postos de gasolina continuarão ocupando as esquinas das cidades por muito tempo. Especialistas estimam que será assim, no mínimo, até 2050, especialmente em países em desenvolvimento, que não incentivam a eletrificação e permanecerão com o legado de uma frota envelhecida e movida a gasolina. É o caso do Brasil.

Tampouco podemos ignorar o lobby da ainda poderosíssima indústria petrolífera, que obviamente não tem nenhuma pressa em ver a frota de veículos se eletrificando.

Por aqui, quem puxa esse cordão é a Petrobrás. A empresa ainda olha de longe a produção de energias renováveis, ao contrário de muitos de seus concorrentes. Ela tem seus motivos, como reservas gigantescas de petróleo e a tranquilidade de que os carros brasileiros continuarão queimando gasolina ainda por décadas. Além disso, a empresa está endividada, o que atrapalha investimentos na diversificação de suas operações. Pelo contrário, a Petrobrás vem se desfazendo de tudo que não seja petróleo e gás.

Faz sentido! Gasolina e diesel representam uma fatia essencial nos ganhos das petroleiras. Metade da produção atual da Petrobrás, por exemplo, é de gasolina e diesel para transporte rodoviário.

Outra coisa que ajuda a manter essa indústria é a melhora na eficiência dos carros atuais, com motores a combustão menores e mais econômicos, sem sacrificar a performance. A indústria petrolífera, por sua vez, melhora a qualidade de seus combustíveis, tornando-os menos poluentes.

Apesar de tudo isso, os carros elétricos vão conquistando seu espaço no Brasil, lentamente.

Temos que pensar também que as matrizes das montadoras aqui instaladas estão migrando para o carro elétrico. Como trabalham com modelos mundiais, fará cada vez menos sentido manter modelos e tecnologias defasadas que não combinem com as dos seus principais mercados.

O brasileiro já tem a sua disposição modelos elétricos das montadoras Audi, BMW, BYD, Chery, Chevrolet, JAC, Jaguar, Mercedes, Nissan, Porsche, Renault e Tesla. O mais barato é o pequeno hatch JAC iEV20, que custa R$ 140 mil. Os modelos mais caros passam de meio milhão de reais.

Ou seja, dá para se ver que o preço é uma fortíssima barreira de popularização dos carros elétricos.

Ainda no governo Temer, a alíquota do IPI (o Imposto sobre Produtos Industrializados) para os veículos elétricos foi reduzida de 25% para uma faixa entre 7% e 20%. Mesmo assim, impostos sobre qualquer carro são muito altos por aqui.

No mercado internacional, o equilíbrio entre os preços de carros elétricos e equivalentes a combustão deve ser atingido em até dez anos. Por isso, incentivos para o comprador também seriam bem-vindos e justificados pelos ganhos ambientais dos veículos elétricos. Na China, por exemplo, quem compra um carro elétrico recebe um incentivo do governo que pode chegar a US$ 10 mil para abater no valor do veículo.

Um outro ponto que precisa ser melhorado é a ampliação de pontos de carregamento rápido em locais públicos e prédios residenciais e comerciais. O carregamento em tomadas comuns é muito lento e caro, o que desestimula a aquisição de um carro elétrico.

Um bom exemplo veio da cidade de São Paulo. Em março passado, foi sancionada uma lei municipal que exige que os novos edifícios residenciais e comerciais prevejam soluções para recarga de veículos. Isso precisa se espalhar para outras cidades, e aos poucos incorporar também imóveis já existentes.

 

Elétrico ou a combustão?

Mas, afinal, vale a pena ter um carro elétrico?

Se você tiver “bala na agulha” para fazer o investimento inicial, a resposta tende a ser positiva, mesmo no Brasil, especialmente se você roda bastante.

O principal ponto favorável certamente é ambiental. Isso se reflete até na saúda da população. Especialistas estimam que a expectativa de vida média do americano deve aumentar em 14 meses pela simples eletrificação da frota automobilística, graças à diminuição dos poluentes no ar que respiramos.

A redução na emissão de gases de efeito-estufa também colabora com a queda da temperatura média global. Vale lembrar que 2020 foi o ano mais quente da história, empatando com 2016!

Outra vantagem é que, apesar de os carros serem mais caros que os equivalentes a combustão, há uma economia a médio prazo. E ela não acontece apenas por deixar de visitar os postos de gasolina: a manutenção dos carros elétricos tende a ser mais barata, pois seus motores são mais simples e não têm componentes de alto desgaste dos motores à combustão.

O silêncio também impressiona. Os ruídos a bordo e externos são muito menores que os de um carro convencional. Isso se deve pela ausência do próprio motor a combustão e sua exaustão, além de outras peças barulhentas.

Essa é, portanto, uma escolha ainda bem pessoal. Tem que rodar muito para que as economias dessa tecnologia paguem a diferença no custo do veículo. Mas temos também que levar em consideração os outros ganhos, não-financeiros, na decisão.

Quanto ao governo, precisa fazer da sua parte para diminuir mais esse abismo tecnológico que temos com os países desenvolvidos. Caso contrário, isso e todos os outros problemas mencionados no começo desse artigo podem mandar embora outras Fords nos próximos anos.

A responsabilidade das redes sociais nos ataques à democracia

By | Tecnologia | No Comments

O mundo assistiu horrorizado, na quarta passada, ao Congresso americano sendo invadido e depredado por apoiadores do (ainda) presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O ato, sem precedentes na história do país, se torna ainda mais emblemático porque foi incentivado pelo próprio mandatário, que incendiou a turba, gritando palavras de ordem em frente à Casa Branca, protegido por um vidro blindado.

Mas isso não aconteceu de uma hora para a outra. Foi o dramático clímax de um movimento que se constrói há uma década, com uma hábil combinação de neurolinguagem, observação política, oportunismo e domínio de plataformas digitais.

No centro disso tudo, como principal ferramenta, estão as redes sociais. Tanto que, depois do ataque, Mark Zuckerberg suspendeu as contas de Trump no Facebook e no Instagram até pelo menos a posse de seu sucessor, Joe Biden, no dia 20. Já o Twitter baniu Trump de sua plataforma para sempre. As empresas justificaram as medidas como necessárias para evitar uma escalada ainda maior da violência provocada por Trump.

Mas tais ações pontuais são suficientes? Por que não foram tomadas antes? E ainda outra pergunta que não pode ficar para trás: as redes sociais sairão limpas dessa história?


Veja esse artigo em vídeo:


Trump sabia exatamente o que estava fazendo, mas para sorte da democracia, seu objetivo fracassou. Infelizmente não sem antes deixar um rastro de destruição e cinco mortos, incluindo um policial.

A pergunta que surge imediatamente nas mentes que separam o certo do errado é: como isso pôde acontecer na autoproclamada maior democracia do mundo e na incontestável maior potência militar da Terra?

Empresas, políticos e grupos de toda natureza descobriram nas redes sociais uma caixa de ressonância para fazer valer suas ideias, mesmo as mais grotescas. Potencializaram o risco de aglutinar um grande grupo de pessoas descontentes ou com necessidades não atendidas, e muito ódio para fazer valer suas pautas.

Trump soube identificar esses elementos no povo americano. Aproveitou-se do fato de os algoritmos de relevância das redes falarem diretamente com as camadas mais primitivas de nosso cérebro, responsáveis pela nossa autopreservação sem recorrer à racionalidade. Com isso, milhões de pessoas passaram a se recusar a ver as verdades que não lhe convinham e a combater qualquer um que dissesse o contrário, a todo custo.

O congressista republicano Mike Gallagher, que apoia Trump, descreveu bem o resultado. Segundo ele, o incidente no Capitólio (como é chamado o Congresso americano) transformou os Estados Unidos em uma “república de bananas”.

Trump digitalizou uma fórmula de dominação de massas há muito conhecida. Trata-se da cartilha escrita por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolph Hitler, usada para legitimar as atrocidades do Fürher. Foi dessa maneira que o povo alemão da época apoiou a política de conquista de outros países, a expropriação de bens dos “inimigos do povo” e o confinamento e posterior extermínio de judeus e outros grupos. Isso parece monstruoso a nossos olhos, mas o que se vê hoje é a mesma coisa, apenas em uma etapa anterior; Por outro lado, atinge escala planetária, graças às redes sociais.

 

Enfrentado o homem mais poderoso do mundo

Bater de frente com o presidente dos Estados Unidos não é tarefa fácil. Agora que Trump dá suas últimas baforadas na Casa Branca, parece que os gigantes do Vale do Silício finalmente resolveram agir.

Ele se faz de vítima, dizendo que está sendo perseguido, que o querem calar. É exatamente isso, mas pelas barbáries que promoveu. E não foi sem lhe emitir diversos avisos prévios.

Trump disse na sexta que criará a sua própria rede social. Ninguém pode impedir uma pessoa de fazer isso, ainda mais um milionário. Mas dificilmente ele repetirá o sucesso que teve nas plataformas globais, com centenas de milhões de usuários.

Além disso, o Vale do Silício resolveu agir também contra os seguidores e contra o próprio discurso de ódio. Por exemplo, no sábado, a Apple e o Google tiraram de suas lojas o aplicativo da rede social Parler. A Amazon, por sua vez, suspendeu a hospedagem do serviço em seus servidores na AWS (Amazon Web Services).

O Parler é uma plataforma que diz se basear na “liberdade de expressão”. Ele se tornou o destino de apoiadores de Trump banidos do Twitter e do Facebook, onde destilam o pior de seu veneno. Além disso, aparentemente a “liberdade de expressão” só existe nele para usuários conservadores. Os progressistas são banidos da plataforma.

Isso não é liberdade de expressão!

É verdade que, para falar, basta te boca. Mas existem leis, e grande parte do discurso desses usuários pode ser facilmente enquadrado em crimes de intolerância, calúnia, difamação, injúria entre outros. Portanto, a liberdade de expressão não dá direito a alguém falar o que bem entender impunemente.

Trump abusou disso, mesmo antes de se tornar presidente. Criou essa máquina de desinformação, que provocou um “travamento cerebral” em grande parte da população. Isso acabou o levando à Casa Branca, onde seus danos foram multiplicados pelo poder natural do cargo.

É verdade que o contexto importa e faz toda a diferença. A invasão do Capitólio fez com que as plataformas se posicionassem diante de algo que elas sempre deixaram passar, apesar de saber que estavam alimentando um enorme monstro, que feria repetidamente seus termos de uso.

Resta agora saber se elas serão coerentes e terão o mesmo comportamento com outras autoridades do mundo que seguem a cartilha trompista, ou se continuarão alimentando esses “monstros regionais”.

O bode está na sala, com seu cheiro insuportável e mastigando o sofá.

 

A responsabilidade pelo que se diz

Todos nós, inclusive presidentes, somos responsáveis pelo que dizemos, pelo que propagamos. Essa é uma responsabilidade que sempre tivemos, mas da qual muitos andaram se esquecendo por influência do falso véu do anonimato das redes sociais e do “efeito manada”.

Se a verdade absoluta é difícil de ser encontrada, temos que, pelo menos, identificar o que é legítimo. E isso se define pela defesa de valores inegociáveis, como o direito à vida, à liberdade, à igualdade e a democracia.

Trump sempre atuou no extremo oposto. Ele chegou a desenvolver uma linguagem própria, que foi mapeada pela linguista francesa Bérengère Viennot. Ela analisou centena de discursos, entrevistas e tuítes de Trump, para escrever o livro “A Língua de Trump”.

A pesquisadora identificou que, para facilitar a compreensão por qualquer um, as falas de Trump têm sintaxe truncada, vocabulário muito raso e repetições incansáveis das mesmas palavras. São carregadas de agressividade, ameaças, ataques à reputação, sexismo e cinismo. E ele nunca se arrepende ou pede desculpas por nada. Do ponto de vista de forma, abusa de aspas, pontuações descontextualizadas e palavras e frases inteiras grafadas em maiúsculas.

Por fim, Trump é seu próprio referente. Ou seja, a única realidade é a dele e quem disser o contrário está automaticamente mentindo, especialmente se for a mídia.

Segundo o Washington Post, depois do ataque ao Capitólio, centenas de funcionários do Twitter exigiram que seus executivos suspendessem Trump permanentemente, classificando as ações da empresa até então como “insuficientes“. Os funcionários também solicitaram uma investigação sobre os últimos anos de ações do Twitter, que culminaram no ataque.

As redes sociais devem mesmo ser responsabilizadas pelo que está acontecendo. Trump as utiliza há uma década para promover o ódio, a segregação, o ataque a instituições democráticas e à ciência.

Seu legado é o de muita gente achar que pode fazer qualquer coisa, porque seriam “ungidas” por um suposto direito que as colocaria acima de tudo e de todos, e que suas ideias e suas vontades seriam mais importantes que as do próximo. Mais que isso: qualquer coisa que fizerem estaria automaticamente perdoado pelo usurpado conceito de “liberdade de expressão”.

A sociedade e a democracia se enfraqueceram. O Capitólio depredado não é causa, e sem sintoma desse processo, para não deixar nenhuma dúvida do caminho que infelizmente a humanidade está tomando.

Somos seres viáveis apenas enquanto nos organizarmos em uma sociedade construtiva, colaborativa e tolerante.

Trump deve ser apeado do poder por mecanismos legítimos, mesmo que isso lhe abrevie em apenas um dia seu mandato. Será um importantíssimo símbolo de que ninguém está acima da lei e nem pode fazer tudo, nem os presidentes.

Quanto às redes sociais, devem indubitavelmente arcar com o seu quinhão nesse ataque à democracia.

O cinema precisa da sua maior reinvenção desde o VHS

By | Tecnologia | No Comments

A recente estreia de “Mulher Maravilha 1984” pode ser um marco para o cinema. Não pela qualidade do filme, mas por ser o primeiro blockbuster a abraçar um formato de distribuição nascido pelos efeitos da pandemia que pode continuar depois dela.

Nos Estados Unidos, maior mercado cinematográfico do mundo, o filme protagonizado por Gal Gadot estreou no Natal nas salas de cinema ao mesmo tempo que na plataforma de streaming HBO Max. E isso provocou muita gritaria!

Afinal, será que os próprios estúdios estão fomentando uma alternativa que poderia, a longo prazo, acabar com as salas de exibição?

Sem trocadilhos, eu já vi esse filme antes. E os cinemas sobreviveram. Mas não sem passar por uma profunda reinvenção, que deixou muitos mortos pelo caminho.


Veja esse artigo em vídeo:


Novamente a TV se torna uma ameaça real às salas de cinema. E uma vez mais os estúdios podem jogar gasolina nessa fogueira.

As televisões estão cada vez maiores, melhores e, paradoxalmente, mais baratas: telas de até 85 polegadas, imagem brilhante, som cristalino, finas como nosso dedo! E não precisamos mais vender um rim para ter uma em casa.

Do lado do conteúdo na equação, com as salas fechadas por meses, Netflix, Amazon Prime Video, Disney+, Globoplay e afins ocuparam um espaço ainda maior em nossas vidas. Eles oferecem acervos cada vez maiores e melhores. Além disso, se tornaram incríveis estúdios, como ótima produção de séries e também de filmes próprios. Vale lembrar que, em 2019, “Roma”, produção da Netflix, foi indicada a dez categorias no Oscar, incluindo Melhor Filme, e ganhou em três, entre elas a de Melhor Diretor, com Alfonso Cuarón.

Entretanto, faltava uma coisa a esses serviços: terem, em seu portfólio, filmes de ponta junto com o cinema. Quem quisesse ver os lançamentos, necessariamente tinha que sair de casa.

 

Disney e Warner mudam o jogo

Entra em cena a Covid-19, fechando tudo e cancelando as estreias, incluindo algumas produções milionárias.

Diante disso, a Disney fez uma aposta ousada, lançando o live action de “Mulan”, que custou US$ 200 milhões, na sua plataforma Disney+ em setembro, “pulando” as salas de cinema.

Um detalhe: para assistir ao filme, além da assinatura da Disney+, que custa US$ 7 nos Estados Unidos, foi preciso desembolsar outros US$ 30. Resultado: apesar de o Disney+ não divulgar cifras individuais, o mercado estima que a estratégia tenha rendido cerca de US$ 260 milhões no lançamento, além de alavancar o download do aplicativo em 68%.

Como comparação, na mesma época, o filme foi lançado nas salas de cinema chinesas. Apesar de ser o segundo maior mercado cinematográfico do mundo e de, por lá, a pandemia estar controlada, o filme rendeu “apenas” US$ 23 milhões na estreia, considerado pouco.

Corte para a segunda quinzena de dezembro!

Estreia nos cinemas a aguardada sequência “Mulher Maravilha 1984”, depois de vários adiamentos. No Brasil, começou no dia 17.

Mas a grande novidade foi nos Estados Unidos, em que o filme foi lançado no Natal simultaneamente nas salas e na plataforma de streaming HBO Max, sem custo adicional aos assinantes por 31 dias (no resto do mundo, como não há o serviço ainda, fica só nas salas mesmo). A Warner já disse que fará isso com todos seus filmes a serem lançados em 2021, incluindo os aguardados “Matrix 4” e o remake de “Duna”.

Isso enfureceu muita gente, incluindo os artistas e –naturalmente– os distribuidores e os exibidores. Christopher Nolan, diretor do filme “Tenet”, que custou US$ 205 milhões, lançado apenas nas salas e cujos resultados decepcionaram, classificou a ideia como desleal com toda a cadeia, e uma grande perda de dinheiro.

Vale dizer que, em muitos casos, parte dos ganhos de diretores e atores vêm de uma porcentagem das bilheterias. Mas, se não há bilheteria, como eles ficam?

O estúdio, por sua vez, antecipa que 2021 ainda será duro para as salas de exibição. Então quer minimizar os prejuízos, a exemplo do que fez a Disney com “Mulan”: já está decidido!

Para deixar a situação de distribuidores e exibidores ainda mais desesperadora, em agosto, um juiz federal dos Estados Unidos anulou uma lei antitruste que vigorava desde os anos 1940. Ela proibia que estúdios de Hollywood tivessem seus próprios cinemas, para que não controlassem completamente a produção e a distribuição dos filmes. Além disso, em julho, a Universal e a rede de cinemas AMC anunciaram que o intervalo para que um filme chegasse ao streaming após o lançamento em cinemas, a chamada “janela de exibição”, cairia de 75 para apenas 17 dias.

 

Favor rebobinar a fita

Como disse antes, não é a primeira vez que as salas de cinema passam por um desafio assim. Nos anos 1980, não havia Covid-19, nem plataformas de streaming. Naquele caso, a ameaça respondeu por três letras: VHS.

Quem tem mais de 40 anos deve se lembrar do mercado sendo inundado por filmes distribuídos em fitas para videocassetes. Isso, aliás, viabilizou o surgimento de outra indústria milionária que foi enterrada pelo streaming: a das videolocadoras, cujo maior expoente foi a Blockbuster.

O fato é que, na época, muita gente achava mais interessante alugar vários filmes no fim de semana para ver com a família, pelo preço de um ingresso nos cinemas. E as salas começaram a esvaziar!

É preciso deixar claro que a experiência do VHS não era boa: imagem e som ruins em uma tela que, quando muito, tinha apenas 20 polegadas.

Mas a experiência dos cinemas também era ruim: salas pequenas, às vezes mal cheirosas, projeção escuras, sons abafados, poltronas desconfortáveis. Nem a pipoca salvava!

Oras, para ter uma experiência ruim, melhor ter em casa, pagando menos!

Os cinemas tiveram que se reinventar. Dessa época, surgiram os “Cinemarks e os UCIs da vida”, com suas salas incríveis. Muto mais que antes, ir ao cinema voltou a ser algo além de ver um filme: era uma experiência arrebatadora!

Agora estamos vendo um remake daquele filme. A transformação digital de equipamentos e de modelos de negócios trouxe o cinema para casa.

É claro que não é a mesma experiência de ir às salas! Mas, como aconteceu na época do VHS, a experiência doméstica pode ser boa o suficiente para as pessoas não quererem sair de casa.

As salas de cinema terão que se reinventar de novo. Criar algo que definitivamente não se possa ter em casa. Do contrário, correm o risco de virarem um programa apenas para entusiastas. E ninguém dura muito tempo assim.

Resta saber o que farão para que voltem a ser um local de experiência única e sensacional.

Como vencer nosso “vício” em tecnologia

By | Tecnologia | No Comments

Pouco antes das 9h da segunda passada, vários produtos do Google pararam de funcionar. Gmail, YouTube, Meet, Drive e até a “lojinha de aplicativos” Play Store haviam caído.

Imediatamente começaram a pipocar nas redes sociais mensagens de usuários preocupados com o problema, pois não conseguiam realizar as suas tarefas cotidianas, que dependem de alguns desses produtos.

Alguns demonstravam até mesmo angústia! Afinal, seu cotidiano está intimamente ligado a serviços do Google ou de algumas outras empresas. Os sintomas eram quase de uma síndrome de abstinência, de um usuário viciado em alguma substância, que, de repente, é privado dela!

Será que é para tanto? Estamos mesmo viciados em tecnologia?


Veja esse artigo em vídeo:


Fiquei pensando em quais são as empresas das quais mais dependo tecnologicamente. E o Google, de fato, lidera essa lista. A começar porque meu smartphone funciona com o Android, o sistema operacional da empresa, que já há alguns anos desbancou o Windows como o sistema operacional mais usado no mundo. Afinal, os celulares se tornaram mais importantes em nosso cotidiano que o PC.

Além disso, tenho conta no Gmail, uso o Meet para mentorias, consultorias, aulas e palestras, armazeno e transfiro arquivos pelo Drive, publico e assisto vídeos no YouTube, fico informado pelo Notícias e armazeno imagens no Fotos. Isso só considerando os serviços que uso todos os dias! Há outros que não uso tão frequentemente, mas que facilitam a minha vida, como o Maps, o Waze, o Tradutor e vários outros. Sem falar, obviamente, no buscador do Google, que uso tanto, que nem saberia dizer quantas vezes por dia recorro a ele.

Logo na sequência, vem a Microsoft. Além do Windows, tem o Office, do qual uso, todos os dias, o Outlook, o Word e o Powerpoint. Tenho e-mail e agenda no Outlook, e armazeno arquivos no OneDrive. Sem falar do LinkedIn, onde sou TopVoice e é a minha principal rede social.

Tem também o Facebook e, em menor escala, a Adobe.

Esses são apenas os produtos dessas empresas que eu uso todos os dias! Qualquer uma delas que fique indisponível, gerará um baita transtorno!

Para algumas, eu pago regularmente assinaturas. Nas outras, o pagamento se dá com o compartilhamento de minhas “pegadas digitais”, que são usadas pelas empresas para nos entregar a seus verdadeiros clientes: os anunciantes. A maioria das pessoas “paga” essas empresas assim, com os seus dados.

Você já pensou o quanto depende delas? Faça esse mesmo exercício e o resultado pode ser surpreendente.

Isso explica por que, quando o Google sai do ar ou quando o WhatsApp é bloqueado por determinação de algum juiz inconsequente (como já aconteceu algumas vezes aqui no Brasil(, as pessoas enlouquecem!

Imagine quem depende umbilicalmente do WhatsApp para trabalhar ou vender, e subitamente o sistema para de funcionar. É uma sensação de completo desamparo, pois não há a quem recorrer!

 

Falta de alternativas

Isso acontece porque colocamos todos os nossos ovos em uma única cesta!

Na nossa vida, temos que ter alternativas para tudo –ou quase. Especialmente para as coisas mais importantes.

No caso da tecnologia, ela se tornou algo absolutamente central. Essas empresas ficaram tão eficientes e tão poderosas, que é quase impossível não dependermos delas em algum momento.

É interessante que nem sempre foi assim. Até o início dos anos 1990, a indústria digital era muito mais pulverizada. Muitas empresas nem eram tão grandes, mas conseguiam um relativo sucesso.

Só que, à medida que algumas foram obtendo mais sucesso, começaram a engolir as menores. Por exemplo, eu me lembro, quando estava no primeiro ano de Engenharia, na Escola Politécnica da USP, que havia um debate entre meus amigos sobre qual plataforma era a melhor: o Windows 3.0 ou o Desqview.

Nunca ouviu falar do Desqview?

Era uma plataforma que permitia rodar mais de um programa ao mesmo tempo, alternando entre eles. Isso parece a coisa mais ridícula, mas, no início dos anos 1990, quando não existia celulares e os computadores ainda eram dominados pelo MS-DOS, isso era um grande feito!

Onde está o Desqview hoje? Sua produtora, a Quarterdeck, foi engolida pela Symantec em 1998.

Alguns poderiam dizer que as coisas são assim mesmo, que esse é o jeito de funcionar do Capitalismo, em que empresas mais bem sucedidas acabam comprando as menores. O problema é quando algumas se tornam realmente grandes demais, e seus tentáculos nos envolvem de uma maneira que não conseguimos escapar. Mais que isso: nós nem queremos escapar!

O segredo do sucesso dessas empresas, de uma década para cá, é seu modelo de negócios. Justamente esse em que podemos usar quase tudo aparentemente de graça, apenas entregando graciosamente as nossas informações e aceitando receber anúncios.

É difícil resistir a isso! Essas empresas nos facilitam muito a vida! E o que nos pedem em troca é visto como justo por quase todo mundo!

É por isso que, quando o cidadão não consegue se defender sozinho, precisa dos órgãos reguladores. O governo americano tem o Google, o Facebook, a Apple e a Amazon na berlinda! Nas últimas semanas, os dois primeiros foram alvos de vários processos, que pedem a venda de alguns de seus produtos-chave, para que fiquem menos poderosos.

 

Dependência química

Mas e quanto a nós? Não podemos fazer nada? Somos mesmo viciados em tecnologia?

Somos –isso sim– incrivelmente dependentes dela como ferramenta de produtividade.

No caso de redes sociais, podemos argumentar que acabamos sendo viciados na dopamina que os microprazeres proporcionados por essas plataformas nos oferecem o tempo todo. Isso eu posso até concordar. É difícil se desvencilhar disso, pois há um processo químico envolvido, mas podemos fazer algumas coisas, sim, para minimizar essa dependência.

Primeiramente, quando algo não funciona, “muita calma nessa hora”! O mundo não vai acabar! Precisamos exercitar a resiliência e a paciência, habilidades que andam meio em baixa há muitos anos.

Há que se buscar alternativas! Aliás, devemos ter essas alternativas definidas antes de termos um problema: o famoso “plano B”.

As pessoas precisam entender também que, às vezes, problemas acontecem fora do nosso controle. Por exemplo, imagine o caso de um vendedor que visita regularmente seus clientes e um dia seu carro não liga de manhã.

É preciso que exista também compreensão e colaboração das pessoas com quem nos relacionamos. Se não pudermos entregar algo porque uma ferramenta essencial está indisponível, um novo prazo deve ser negociado.

A diferença é que, ficando no exemplo de um carro que não pega, quando acontece algo como o que houve como Google na segunda passada, é como se todos os carros da Volkswagen do mundo parassem de funcionar ao mesmo tempo!

Mesmo assim, a vida não vai parar se não conseguirmos fazer log in no Google. Essa dependência está em nossa cabeça e em relações de intolerância entre as pessoas e as empresas.

Se dependemos tanto da tecnologia digital hoje –e isso não vai mudar– precisamos alinhar as nossas expectativas, sermos mais resilientes, mais tolerantes e termos sempre uma alternativa na manga.

Mesmo que seja de outra gigante digital.

Blockchain vai muito além de criptomoedas e pode até ajudar a combater “fake news”

By | Tecnologia | No Comments

“Vai falar de Bitcoin?”

A provocação de José Luiz Goldfarb, diretor da EDUC (Editora da PUC-SP), reflete a visão limitada que a população tem sobre a tecnologia blockchain. Isto, quando se tem qualquer noção sobre ela!

É verdade que, de longe, o uso mais popular do blockchain recai sobre as chamadas “criptomoedas”, métodos de troca de valores descentralizados, cujo maior expoente é o Bitcoin. Mas, como ficou claro na transmissão moderada por Goldfarb no dia 15, essa tecnologia possui muitas outras aplicações, tão ou mais interessantes que essas moedas digitais.

O evento marcou o lançamento do livro “A Expansão Social do Blockchain” pela EDUC. A obra foi organizada por Lucia Santaella, coordenadora do programa de pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP.

“Embora o tema seja jovem, penetrar em seus meandros se torna imperativo, quando seus efeitos começam a se fazer sentir na vida”, justificou Santaella. “A expectativa era que essa tecnologia fosse capaz de criar um novo modelo de internet, porque esse que está aí, principalmente no que diz respeito a redes sociais, fracassou”, explicou.

A obra aborda usos do blockchain em áreas como a crise de confiança da sociedade, “fake news”, integridade de dados pessoais nas redes, aprendizagem e –claro– criptomoedas e meios de pagamento digitais. Trata-se de uma compilação de artigos dos membros do grupo Sociotramas, organizado por Santaella, que reúne pesquisadores de diferentes áreas e instituições para discutir temas ligados a redes sociais (conheça aqui os coautores e detalhes da publicação).

Quatro dos coautores participaram da transmissão, abordando o tema de seus respectivos artigos. Magaly Prado, por exemplo, falou sobre como o blockchain pode ser usado para combater as “fake news”, as infames notícias falsas. “Uma plataforma descentralizada visando usar a tecnologia blockchain em nome do jornalismo é louvável e torna as informações de uma rede independente de redações mais confiáveis, preponderante em tempos de reputação baixa por conta da desinformação desembestada”, explicou.

 

Confiança, “fake news” e integridade

Marcelo de Mattos Salgado trouxe uma análise sobre a crise de confiança que afeta, de modo geral, o mundo ocidental –e como o blockchain se encaixaria neste cenário. Segundo ele, “talvez a crise de confiança seja movida, pelo menos em parte, pela referida automatização dos processos de segurança, como o blockchain, que efetivamente substitui os elos de confiabilidade, tão humanos”.

O combate às “fake news” também foi abordado por Kalynka Cruz-Stefani. “O meu trabalho tem uma visão analítica sobre esse sistema de propagação de ‘fake news’”, explicou. “Estudos mostram que, a partir de 2023, 30% delas serão descobertas e combatidas pelo blockchain”,

Por fim, Paulo Silvestre esclareceu como essa tecnologia pode ajudar na integridade de informações pessoais nas redes, hoje totalmente pulverizadas e controladas por grandes empresas e instituições. “Nós garantimos, usando o blockchain, não só a integridade dos dados, como também que temos o controle de nossa própria informação”, explicou. Além disso, usos criativos fazem com que isso esteja de acordo com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), que entrou em vigor no Brasil em setembro.

O livro já está disponível como e-book ou para ser lido no leitor eletrônico Kindle. A versão impressa estará disponível a partir de janeiro, pela EDUC.

“A inteligência humana tem caminhos misteriosos”, disse Santaella. Em linha com os outros autores, ela acrescentou que “o grande afetado pelas redes sociais, “fake news” e pós-verdade é o jornalismo, e nós não podemos viver sem jornalismo”. A professora concluiu dizendo que “quando nós perdemos a confiança nele, o que nos resta para conhecer o que de fato aconteceu?”

Você pode acompanhar a íntegra em vídeo do lançamento do livro “A Expansão Social do Blockchain” na TV PUC. Ainda, saiba como foi a apresentação de Maria Collier de Mendonça sobre o livro no XIII Simpósio Nacional da ABCiber.


* colaborou Marcelo de Mattos Salgado

Chegará a hora que dependeremos de robôs para nos apaixonar?

By | Tecnologia | No Comments

O que faz alguém se apaixonar por outra pessoa?

Essa não é uma pergunta simples de se responder.

Certa vez, disseram para mim que a paixão é um truque da natureza para que continuemos nos reproduzindo. Achei graça na hora, mas, a cada dia que passa, vejo que há alguma verdade nessa frase.

A partir disso, será que dá para automatizar os mecanismos da paixão? O governo japonês acha que sim e está investindo pesado nisso, justamente para aumentar a população do país.

Isso é emblemático! Independentemente da eficiência dessa proposta, será que chegamos ao ponto de precisarmos de um sistema para encontrar a pessoa certa e nos apaixonar? Estamos perdendo a nossa capacidade de gostar de outra pessoa naturalmente?


Veja esse artigo em vídeo:


No Japão, o número de nascimentos caiu 5,8% em 2019, para cerca de 865 mil. É o menor número da história! Entre as explicações para isso, estão a diminuição de casamentos e um aumento na idade que as pessoas se casam.

Para tentar reverter esse quadro preocupante, os governos nacional e regionais preparam um investimento de 2 bilhões de ienes (cerca de R$ 97 milhões) para desenvolver sistemas de inteligência artificial para criar casais compatíveis, transcendendo as combinações mais óbvias dos sites e aplicativos de relacionamento.

De fato, os sistemas atuais não vão muito além de combinar gostos e características. Mas gostar das mesmas coisas está longe de ser suficiente par alguém se apaixonar pelo outro. Na verdade, muitos relacionamentos em que ambos gostam das mesmas coisas simplesmente não evoluem, por isso mesmo!

Há também os “aplicativos de pegação”, cujo maior expoente é o Tinder. Mas a sua proposta é outra. Não digo que pessoas não possam se apaixonar a partir de encontros patrocinados por eles, mas essa não é a ideia a princípio. A “química” entre duas pessoas surge de fatores imponderáveis, combinando elementos aparentemente desconexos.

É muito mais provável o Facebook, com seus algoritmos de relevância criados para nos sugerir conteúdo e vender todo tipo de quinquilharia, descobrir a nossa alma gêmea. Afinal, ele se vale de tecnologias como machine learning, Internet das Coisas, big data, análises preditivas e linguagem natural para “escavar nossas verdades” mais profundas a partir das incontáveis interações no mundo digital.

É curioso que sistemas para encontrar alguém existem desde o começo da Internet comercial. Eu me lembro, lá no grupo pioneiro que criou o Universo Online, em 1996, de participar das discussões para o desenvolvimento do serviço Almas Gêmeas, o avô de todos esses sites. Quatro anos depois, fui o gerente de projetos da versão brasileira do Amor@AOL, da America Online.

Eram sistemas muito, muito simples, que apenas faziam as combinações óbvias. Mas precisamos entender que, naquela época, isso tudo era uma grande novidade. Tanto que, também em 1996, um casal que se conheceu no Bate-Papo do UOL e acabou se casando virou notícia nos jornais: pessoas que se conheceram pela Internet se casam!

Na época, isso era visto até com desconfiança. Hoje estranho é não conhece ninguém online!

É absolutamente comum que se use esses sites e aplicativos para queimar etapas e encontrar rapidamente alguém para o que quiserem. Além disso, eles oferecem uma sensação de que diminuem a frustração de ser rejeitado em uma balada ou no bar.

É uma falsa sensação (vlaro), pois as pessoas continuam sendo rejeitadas, aliás, agora muito mais! Mas, como se tenta a sorte com dezenas de pessoas ao mesmo tempo, mesmo que a maioria diga “não”, alguém acabará dizendo “sim”.

 

A vida imita a arte

Se os sistemas baseados em inteligência artificial entregarem o que prometem, isso pode ser um salto para um patamar muito superior a esses “cardápios de gente”.

A ficção já explora isso há bastante tempo. O episódio “Hang the DJ”, o quarto da quarta temporada da série “Black Mirror”, por exemplo, demonstra o funcionamento surpreendente de um aplicativo de namoro.

Impossível não citar também o filme “Ela” (“Her”, 2013), em que o protagonista Theodore, vivido por Joaquin Phoenix, se apaixona pelo sistema operacional inteligente de seu computador e de seu celular, a Samantha, personificado pela voz de Scarlett Johansson. O que faz Theodore se apaixonar por Samantha não é sua carência, e sim o fato de que o sistema sabe tudo sobre ele, pois acessa todas as suas pegadas digitais. Os dois sempre conversam, e Samantha aprende continuamente do que ele gosta.

Resultado: ela sempre oferece o que ele precisa, mesmo coisas inesperadas. Dá quase para se apaixonar por Samantha só de assistir ao filme, por mais que pareça louco isso. Mas, como diz uma amiga do protagonista, “apaixonar-se é uma coisa louca: é uma forma de insanidade socialmente aceitável.”

Trazendo para a nossa realidade, e se o sistema usasse toda essa inteligência para combinar pessoas?

Pode dar certo mesmo: os sistemas já estão aí disponíveis!

Não é de se admirar que o Facebook tenha lançado, no ano passado, um recurso de Namoro em sua plataforma, ainda que timidamente.

Do jeito que a coisa anda, talvez comecemos a ver sugestões de par ideal em nosso WhatsApp e Instagram, da mesma forma que vemos os stories. Isso se a empresa não for obrigada a vender as duas plataformas, como o governo dos Estados Unidos quer, justamente para diminuir o poder que o Facebook tem sobre os usuários e permitir uma concorrência mais saudável

No final das contas, talvez esses serviços digitais queiram resolver um problema que foi criado, ainda que parcialmente, por eles mesmos. Com tanta velocidade, com tanta oferta, com tantos estímulos o tempo todo e em qualquer lugar, talvez estejamos perdendo algumas capacidades essenciais de nossa humanidade.

Como disse certa vez o filósofo polonês Zygmunt Bauman, “tudo é mais fácil na vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade”. Vivemos na época do que ele chamou de “amor líquido”.

Todos esses recursos digitais onipresentes nos ajudam a encontrar o que buscamos, mas podem nos levar a nos perder em uma sociedade sem rosto, homogeneizada, controlada, viciada em dopamina ao ser exposta apenas ao que cada um gosta. Perdemos nosso senso crítico, porque acreditamos piamente no que dizem ser o certo, sem sequer entendermos do que estão falando.

Com isso, nossa empatia se esvai, assim como a capacidade de identificar o bom e o mau.

E, sem esses recursos, talvez estejamos perdendo os nossos melhores recursos para nos apaixonar, pelo menos de fazer isso sem ajuda.

Que bom que temos a inteligência artificial para nos salvar!