Paulo Silvestre

O poder do gado pode massacrar nossas convicções

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Somos seres únicos e, como tal, temos a capacidade de ter ideias próprias. Combinamos conhecimento para criar conclusões que nos ajudam a crescer como pessoas e a desenvolver a sociedade. Mas a digitalização de nossas vidas vem tornando essa tarefa mais complicada. Ter autonomia e manter convicções exige cada vez mais energia.

Acontece que também somos seres gregários. Precisamos conviver com outras pessoas para benefício mútuo. Precisamos nos sentir aceitos! O custo disso é ajustar eventualmente o que pensamos ao grupo, para uma convivência harmoniosa e construtiva. No final, esse confronto com pensamentos diferentes acaba nos ajudando a refinar nossa visão de mundo.

O problema é que a pressão do grupo cresce exponencialmente com a exposição às onipresentes redes sociais. Para integrarmos a manada, o gado nos impõe sua visão de mundo, que, em muitos casos, contraria o bom senso, a ciência e pode ameaçar a vida dos membros do rebanho. E, como seus algoritmos insistem em nos manter dentro de “bolhas”, perdemos as referências com a realidade.


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Isso pode parecer exagero, mas não é!

Entre os dias 20 e 27 de abril, o Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação entrevistou 2.031 pessoas para a sua pesquisa “A Cara da Democracia”. Além de conclusões políticas muito interessantes, o estudo demonstrou que 22,2% dos brasileiros acreditam que a Terra é plana. Isso dá quase 50 milhões de pessoas que deliberadamente rejeitam um fato científico largamente explicado e observado.

Anteriormente, em julho de 2019, outro levantamento indicava que “apenas” 7% dos brasileiros então acreditavam nessa barbaridade e outros 3% diziam não saber qual era a forma do mundo. Ou seja, em quase dois anos, a quantidade de brasileiros que cometem esse atentado científico, que já era gigantesco, triplicou!

A pesquisa “A Cara da Democracia” traz ainda outras informações muito preocupantes, e que impactam de maneira mais decisiva nossa vida. Por exemplo, 50,7% dos brasileiros acreditam que o novo coronavírus foi criado pelo governo chinês e 56,4% acreditam que os hospitais são pagos para inflar o número de pacientes mortos pela Covid-19.

Esses últimos dados são gravíssimos pois estão associados à crença em notícias falsas que efetivamente colocam a vida das pessoas em risco, como se recusar a se vacinar, usar máscaras, praticar o distanciamento social, ou acreditar que drogas como cloroquina e ivermectina combatem a Covid-19.

Segundo o instituto, isso escancara como a desinformação cresce de forma galopante no Brasil, especialmente entre aqueles que se informam por redes sociais, mais notadamente Facebook, WhatsApp, Instagram e YouTube. A situação é ainda mais grave entre eleitores de Bolsonaro, pois o presidente é um notório detrator da ciência e de fontes confiáveis de informação, fazendo uso das redes sociais para disseminar todo tipo de notícia errada e teorias da conspiração.

 

A desinformação não escolhe vítimas

Muitos podem argumentar que apenas pessoas ignorantes, com baixa escolaridade acreditam e vivem de acordo com essas coisas estúpidas. Mas não é o caso: entre os negacionistas e os conspiradores contra a ciência, há de tudo, inclusive gente muito estudada. E é por isso que a situação é dramática!

Conheço profissionais da saúde que, a despeito de todas as indicações da comunidade científica e até de fabricantes, continuam acreditando na cloroquina como remédio contra a Covid-19. Outros se negam a se vacinar, afirmando que os imunizantes não funcionam ou até são perigosos! Por outro lado, médicos contrários a esse uso da droga entram na Justiça contra colegas e associações de classe.

Esse “racha” entre os profissionais da saúde piora ainda mais a situação das pessoas, que não sabem em quem acreditar. Nessa semana mesmo, uma amiga, que trabalha em um hospital, me disse que se recusou a tomar a vacina a que tinha direito. Outra, que contraiu a doença, me perguntou se deveria tomar cloroquina ou ivermectina.

É de se perguntar como profissionais da saúde, que deveriam ser os primeiros a abraçar o que a ciência diz, se deixam levar por essas aberrações que apenas atendem a interesses políticos. Não são culpados: é aí que entram as redes sociais, que dão voz tanto a quem constrói o discurso negacionista, quanto ao “gado” que o distribui.

Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha Nazista de Hitler, dizia que uma mentira dita uma vez é apenas uma mentira; já uma mentira dita mil vezes se torna verdade. Mas hoje, com as redes sociais, as mentiras são ditas não mil, mas milhões de vezes!

 

O risco da conformidade

Em uma das cenas mais emblemática do filme “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), o professor Keating, vivido por Robin Williams, faz um interessante exercício com seus alunos para ilustrar os perigos da conformidade, ou seja, os riscos envolvidos quando abandonamos nossas convicções ou até a ciência para fazer parte do grupo.

Ele fez três alunos darem voltas ao redor do pátio. No começo, cada um andava à sua maneira, mas rapidamente todos alinharam seus passos e o estilo. Mais que isso: os demais alunos, que assistiam, começaram a espontaneamente bater palmas, marcando o ritmo das passadas. Ninguém determinou aquilo: aconteceu naturalmente.

Apesar de ser um exercício singelo, ele explica muito bem o que vivemos hoje. Todos querem voltar a ter uma vida “normal”, a trabalhar ou estudar sem medo, a se encontrar com os amigos e a família, a se divertir. Mas a pandemia continua a todo vapor, com números de novos casos e óbitos altíssimos!

Como não temos como controlar o incontrolável, abraçamos qualquer coisa que nos aqueça o coração e justifique fazermos o que quisermos. Infelizmente essa fórmula mágica não virá de cientistas, de profissionais da saúde ou de professores sérios, pois simplesmente não existe. Mas virá de um presidente ou de um tio negacionista no grupo da família no WhatsApp, o que já basta, porque as pessoas acreditam no que elas quiserem ou no que lhes convier.

Elas querem uma saída rápida para seus problemas. Abraçarão tudo e todos que lhes acenarem um caminho e combaterão qualquer um que irritantemente insista na verdade. O problema é que, como vemos diariamente, a saída mágica pode levar o indivíduo ao caixão.

Quando vejo que 50 milhões de brasileiros acreditam que a Terra é plana, temo que estejamos rumando para uma nova Idade das Trevas, em que a verdade será combatida sistematicamente por grupos que se alimentam de mentiras e por uma massa controlada, cuja única preocupação é um ‘”lugar no céu quando morrer”.

Temos que ser “renascentistas” que lutam contra esse mal supremo! Não podemos render nossas convicções, nossa inteligência e nosso senso crítico a quem nega os fatos, a ciência, a vida para garantir seus interesses. E devemos ajudar quem estiver a nossa volta a não cair nesse poço sem fundo.

Caso contrário, se os negacionistas vencerem, jogarão a humanidade para um novo período de obscurantismo e de retrocesso. E já tivemos mil anos disso na Idade Média.

 

O segredo do meme de R$ 2,5 milhões

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Quem pagaria R$ 2,5 milhões por um meme que pode ser baixado gratuitamente da Internet? Isso pode parecer completamente estúpido, mas aconteceu há poucos dias. E acredite: faz sentido!

Memes são imagens que se tornam muito populares nas redes sociais e são usadas fora do seu contexto original para passar mensagens ou fazer piadas. Ninguém pede autorização ao criador da imagem ou a quem aparece nela para usá-las, e nem por isso alguém é processado por violação de direitos autorais.

É natural, portanto, perguntar por que alguém faria essa aparente extravagância de pagar uma fortuna por uma foto que está disponível na rede, e continuará assim. Mais que isso: como alguém pode garantir ser o legítimo dono após comprar uma imagem reproduzida digitalmente milhões de vezes?

A explicação é o NFT, sigla em inglês para “tokens não fungíveis”, uma modalidade de comercialização de arte digital viabilizada por uma interessante combinação de tecnologia e mudança cultural. Ainda que isso garanta a propriedade da obra, é de se pensar como um meme pode chegar a valer R$ 2,5 milhões.


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A obra em questão foi batizada de “Disaster Girl”, e possivelmente você já a viu em alguma rede social. Ele traz a foto de uma menina com um sorriso maroto diante de uma casa um chamas ao fundo.

Disaster Girl

“Disaster Girl”, meme que foi vendido por R$ 2,5 milhões

Não se trata de uma montagem: a foto é legítima, tirada em 2005. A menina tem nome: Zoe Roth, que agora está com 21 anos. Ela descobriu o conceito de NFT e, por ser ela a criança retratada em um meme extremamente popular, conseguiu dar a ele o status de obra de arte, e comercializá-lo em um leilão no dia 16 de abril, que lhe rendeu cerca de US$ 473 mil. Na verdade, o pagamento foi feito com uma criptomoeda chamada ether: a obra foi arrematada pelo usuário 3FMusic por 180 ethers.

Tudo isso pode parecer virtualidade demais para muita gente. Mas acredite: é bem real, por mais que tudo aconteça em um espaço digital. E isso começa pela criptomoeda, que, apesar de não ser garantida pelo banco central de nenhum país, tem alta liquidez e pode ser facilmente convertida em praticamente qualquer moeda “convencional” do mundo, inclusive dólares e reais.

A tecnologia que garante quem é o dono de uma obra comercializada como NFT é o blockchain, que ganhou força na última década. Funciona como se fosse um livro-razão digital replicado em milhares de computadores no mundo. Ou seja, é uma maneira bastante confiável de armazenar qualquer informação, pois o blockchain não permite que um dado seja apagado ou alterado, e qualquer mudança em uma informação precisa ser autenticada em todos esses servidores pelo dono dos dados. Aliás, o mesmo blockchain é o que garante as transações com as criptomoedas, que têm no Bitcoin sua maior estrela.

 

“Ninguém é de ninguém?”

Mas nada disso ainda explica como alguém pode ser dono de algo que continua disponível para ser copiado e modificado livremente nas redes. Mais ainda: por que alguém pagaria essa dinheirama toda por algo que qualquer um poderá continuar usando sem pagar.

Essa é a grande mudança de paradigma do NFT. Ao comprar uma obra de arte digital, a pessoa passa a ser reconhecida como sua legítima dona, mas isso não lhe garante nenhum controle ou remuneração por qualquer reprodução do material. Além disso, os direitos autorais continuam sendo do autor da obra.

A melhor maneira de entender isso é mudando o foco da arte digital –que pode ser facilmente reproduzida pela Internet– para uma obra de arte física, como um quadro ou uma escultura. Por mais que ela exista, tenha um dono e esteja exposta em algum lugar, nada impede que ela seja reproduzida, por exemplo, em fotografias.

Pense no caso de um quadro famoso em um museu, como “O Grito”, obra-prima do movimento expressionista. Esse caso é interessante, porque o norueguês Edvard Munch pintou quatro quadros semelhantes com esse título: dois estão no Museu Munch, em Oslo (Noruega), outro na Galeria Nacional de Oslo e o quarto faz parte de uma coleção particular. Aliás, em 2012, esta última tornou-se a pintura mais cara da história, arrematada em um leilão por US$ 119,9 milhões.

Ainda assim, essa obra é reproduzida em pôsteres (que são vendidos), em publicações de todo tipo, em fotos de turistas e até na Internet, incluindo aí (ironicamente) como memes. Os proprietários dos quadros originais não recebem nada por isso, sequer têm qualquer controle sobre essas reproduções. Mas ninguém duvida que eles são os donos dos originais e, se algum dia resolverem vendê-los, serão remunerados por isso.

Com o NFT, a obra de arte digital ganha esse mesmo status. Talvez o que cause mais estranheza é que, nesse caso, as reproduções são cópias fiéis do original, mas elas continuam com o status de “cópia”.

Everydays: The First 5000 Days

“Everydays: The First 5000 Days”, NFT mais caro até agora, leiloado por US$ 69,3 milhões

O recorde de valor de um NFT aconteceu em março. O artista Beeple entrou para a história com sua obra “Everydays: The First 5000 Days” (algo como “Todos os dias: Os Primeiros 5000 Dias”), uma colagem de 5.000 imagens do seu cotidiano. Ela foi leiloada por US$ 69,3 milhões (cerca de R$ 13 milhões), tornando-se a terceira obra mais cara de qualquer artista vivo.

 

A cultura remix

Todo esse movimento, incluindo aí os memes, tangencia outro importante movimento cultural, surgido nos anos 1970, mas amplamente difundido pela tecnologia digital: a cultura remix.

Trata-se da criação de novas obras de arte pela mistura ou mudança de obras de outros autores. Muitas vezes feitas como homenagens de fãs, essas produções são criadas sem autorização prévia (e, às vezes, sem conhecimento) dos criadores dos originais.

Possivelmente o melhor exemplo da cultura remix seja Star Wars, que dá origem a incontáveis filmes, livros, quadrinhos, imagens, eventos e uma infinidade de outras coisas que os fãs da saga espacial criam.

De certa forma, o próprio Star Wars, a obra original, é cultura remix! George Lucas construiu toda a história em cima do conceito da Jornada do Herói, criada pelo grande mitólogo americano Joseph Campbell, em 1949. Ele também usou fortemente cenas de filmes de combates aéreos e tem estruturas de obras do cineasta japonês Akira Kurosawa.

Vale dizer que, quando os fãs começaram a criar tudo isso, a Lucasfilm não gostava da ideia, e chegou a processar vários deles. Mas acabaram percebendo que isso era contraditório, pois todo aquele trabalho acabava alimentando ainda mais a devoção das multidões pelo seu produto. Por isso, a empresa não apenas parou com os processos, como, de certa forma, incentiva essas expressões artísticas.

 

O valor das coisas

Ainda fica a questão: como um simples meme pode valer R$ 2,5 milhões?

Temos que entender que qualquer coisa têm o valor que as pessoas atribuem a ela. Não se pode pensar que Edvard Munch teve muito mais trabalho para pintar seus quadros que Zoe Roth ao ser fotografada no meme: essa não é a medida do valor.

A menina jamais imaginaria que sua foto se tornaria tão conhecida. Da mesma forma, existem muitíssimo mais artistas que permanecem anônimos que aqueles que fazem sucesso.

O valor de qualquer obra, física ou digital, está associada a sua popularidade. É por isso que não se pode achar que qualquer imagem feita no computador vá se tornar uma obra de arte.

Pelo mesmo raciocínio, na Idade Média, as obras sequer eram assinadas pelos seus autores. Elas não eram vistas como um produto. Hoje, muitas tem algum valor, por aspecto histórico. Mas nenhuma vale tanto quanto trabalhos dos grandes nomes do Renascimento, que veio logo depois.

Por isso, antes de procurar qual arquivo no seu computador pode ser vendido como NFT, pense no valor que outras pessoas já atribuem a ele.

Algoritmos criam novas tribos urbanas (às vezes perigosas)

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Hoje muita gente é membro de alguma tribo urbana e nem se dá conta. Não me refiro necessariamente às “clássicas”, como os punks ou os nerds, mas mesmo quem não faz parte dessas grandes turmas pode ser bastante ativo. E essa pulverização se dá por conta das redes sociais.

As tribos urbanas surgiram como uma maneira de as pessoas integrarem um grupo de amigos com interesses em comum. Elas existem há décadas e são parte indelével da nossa cultura.

Fazer parte de uma dessas tribos sempre exigiu iniciativa do integrante, tanto para entrar, quanto para se manter nela. Ninguém se tornava metaleiro sem querer! Mas, de uns anos para cá, algo mudou.

Vivemos em um tempo em que entramos em tribos praticamente sem perceber, graças aos algoritmos. E isso pode ser bem ruim para nossa vida, pois somos membros inconscientemente ativos, praticamente teleguiados!


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Os algoritmos de relevância das redes sociais identificam nossas características e nossos gostos para filtrar a realidade. A partir disso, destacam, a cada um dos bilhões de internautas, fatias do mundo que reforçam seus pontos de vista e lhes apresentam uma enormidade de pessoas que pensam da mesma forma.

Como de costume, as redes sociais não criam nada, apenas fazem o que já existe acontecer de forma mais intensa e mais rápida. Por isso, essas novas tribos que criam –essas tribos digitais– são ótimas para nos manter felizes e confortáveis, anestesiados até!

Mas elas também podem reforçar o que temos de pior, a um ponto de colocar a própria sociedade em risco. Basta ver o número incrivelmente alto de pessoas que insistem em não se vacinar, mesmo diante do recrudescimento da pandemia de Covid-19.

Sim, os “antivacinas” são uma nova tribo urbana bem definida! E eles têm força mesmo diante do consenso de que, enquanto a maior parte da população não estiver imunizada, não conseguiremos retomar uma vida que se aproxime da normalidade.

As tribos urbanas se consolidaram ao longo do século 20. Seus membros apresentam uma grande uniformidade de pensamentos, gostos, comportamentos, linguagem e até maneira de se vestir.

Não são organizações formais ou com uma liderança, estando muitas vezes associadas a fenômenos culturais. Tampouco surgem para ativismo político, o que não quer dizer que sejam sempre alienadas com o mundo a sua volta. Pelo contrário, muitas tribos, como os punks, têm posições sociais bastante críticas, que manifestam em músicas, por exemplo.

O termo “tribo urbana” foi cunhado pelo sociólogo francês Michel Maffesoli, que começou a usá-lo em seus artigos a partir de 1985, mas o conceito já existia há décadas. Outras tribos famosas são os hippies, os geeks, os roqueiros, os skinheads, as patricinhas, os góticos… e por aí vai.

 

Necessidade de pertencimento

Normalmente, as pessoas entram em tribos quando são mais jovens, justamente pela necessidade natural de fazer parte de um grupo. Em muitos casos, as pessoas migram de uma tribo para outra.

É essa mesma característica de querer se associar a pessoas que têm pensamentos semelhantes que permitem que os algoritmos criem essas novas tribos. Porém, ao contrário das tribos urbanas, que não são criadas com objetivo político, muitas tribos digitais surgem exatamente para isso, ou acabam sendo usurpadas para esse fim por grupos de poder.

O próprio movimento contra vacinas é um exemplo.

Quando começou a levar mais a sério a ideia de concorrer à cadeira de presidente dos Estados Unidos, lá pelos idos de 2012, Donald Trump percebeu que uma parcela considerável do público conservador americano tinha dúvidas sobre a eficiência das vacinas. Por isso, começou a fazer uma campanha feroz contra elas nas redes sociais, associando os imunizantes a diferentes doenças e ao autismo.

Muita gente acreditou nisso, e as teorias contra vacinas se espalharam pelo mundo. Como resultado, doenças que estavam praticamente erradicadas em muitos países, como o sarampo, voltaram com força, matando muita gente.

Mas nem Trump podia prever o surgimento da pandemia de Covid-19, cuja saída passa necessariamente pela vacinação em massa. Tanto que o presidente negacionista americano se rendeu aos fatos e comprou todas as vacinas que pôde.

É uma pena que Bolsonaro não tenha feito o mesmo. Pelo contrário, fez campanha aberta contra as vacinas o quanto pôde. O resultado desse negacionismo é que, em dezembro, 22% dos brasileiros diziam categoricamente que não se vacinariam, contra 73% que o fariam. Já no final de fevereiro, com o negacionismo perdendo força diante da doença, 89% já diziam querer se vacinar.

 

Negação como resistência

Os antivacinas não são a única tribo fortemente alimentada pelas redes sociais. Os terraplanistas, as pessoas que afirmam que a Terra é plana e não esférica, se fortaleceram graças principalmente ao YouTube.

Apesar de negarem uma verdade científica amplamente demonstrada, esse grupo tampouco é desprezível. Estima-se que 7% dos brasileiros afirmem que a Terra é um disco e não uma bola, enquanto 3% não têm certeza. Nos Estados Unidos, esses índices são, respectivamente, 2% e 5%. E pesquisas mostram que terraplanistas são mais numerosos entre pessoas mais jovens e entre os menos escolarizados.

Vistos de fora, esses grupos podem parecer um bando de malucos, mas seu crescimento consistente graças às redes sociais não pode ser simplesmente desprezado.

A negação a se vacinar por 10% da população, mesmo diante da maior crise sanitária da história, demonstra o risco que eles representam à sociedade como um todo. E há provavelmente mais antvacinas que hippies, nerds, punks ou qualquer outra tribo urbana “clássica”.

Essas tribos digitais e seu negacionismo à ciência e à cultura podem ser considerados resultado de um movimento de resistência a ideias que vinham guiando a sociedade. Grupos cujos valores eram vistos como inadequados ou ultrapassados –como homofobia, machismo, autoritarismo, xenofobia– ganharam voz, principalmente com a ascensão de políticos de ultradireita nas redes sociais.

Isso explica também a polarização irracional em que o mundo foi jogado. As tribos urbanas, da mesma forma que acolhem seus integrantes, por vezes rejeitam quem é diferente. As tribos digitais, com seus sentimentos exacerbados pelos algoritmos, fazem isso ainda mais, criando divisões que podem descambar em um insano “se você não está comigo, está contra mim”.

De certa forma, isso me lembra as teorias de Zygmunt Bauman (1925 – 2017) e seu “mundo líquido”. Segundo o sociólogo e filósofo polonês, os relacionamentos passaram a ser menos estáveis e definidos mais pelo acúmulo de experiências.

Nas tribos digitais, as pessoas se unem àqueles que podem lhe proporcionar algum benefício imediato, mesmo o simples acolhimento de suas ideias. Mas se aparecer alguém que ofereça mais vantagens ou que saiba manipular os algoritmos melhor, leva todo o rebanho embora.

As pessoas precisam resgatar o controle de seu cotidiano e o apreço por valores inegociáveis, como o direito à vida. Também precisam aguçar seu seno crítico, para que não sejam manipuladas por distorções de outros valores, como o direito á liberdade na boca de vivaldinos.

Fico feliz em ver o crescimento de uma conscientização frente a esses males. Mesmo companhias e lideranças empresariais estão se engajando nisso, até mesmo porque o alinhamento da valores entre marcas e seu público é ótimo para os negócios!

As redes sociais também estão trabalhando nisso, se não pelo amor, pela dor da ameaça de governos conscientes que as responsabilizam pela disseminação de fake news e da criação dessas tribos digitais negacionistas.

Quanto a nós, temos um papel fundamental nessa história. Não há nenhum problema em ser geek, punk ou hippie. Apenas não seja coisas como terraplanista ou antivacina. Precisamos nos unir em torno de ideias que valham a pena e melhorem o mundo.

 

A nova fronteira dos hackers: invadir nosso corpo

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Desde o final do ano passado, estamos nos acostumando a ver na imprensa notícias frequentes sobre megavazamentos de informações pessoais feitos por hackers, que roubaram enormes bancos de dados de empresas. Também vemos diversos relatos de pessoas que são vítimas de delinquentes digitais ao cair em todo tipo de golpe online.

A má notícia é que isso pode piorar de maneiras até então inimagináveis, podendo até colocar nossa vida em risco!

Todos esses crimes são resultado não apenas da eficiência dos bandidos, mas também da crescente digitalização de empresas e de nossas vidas. Isso ganhou ainda um grande impulso adicional com o distanciamento imposto pela pandemia de Covid-19.

Empresas, instituições de qualquer natureza e até governos estão profundamente conectados à Internet. E todos nós seguimos pelo mesmo caminho, não apenas em nossas tarefas cada vez mais realizadas em celulares e computadores. Não é de hoje que até alguns eletrodomésticos coletam informações sobre nós e as transmitem pela Internet. Mais recentemente estamos vestindo dispositivos conectados que nos rastreiam. Agora começamos a ver implantes em nossos corpos que também estão conectados à rede.


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A princípio, esses dispositivos estão online para enviar, por exemplo, informações sobre nossa saúde a nossos médicos e hospitais. Mas especialistas temem que tudo isso possa ser invadido e controlado remotamente, inaugurando um novo tipo de crime, antes visto apenas em filmes sobre futuros distópicos.

Se hoje hackers já invadem computadores e pedem resgate para devolver o acesso às informações em seus discos rígidos, pode chegar um momento em que eles invadam, por exemplo, um marca-passo e exijam dinheiro para não matar seu portador. Ou ainda que realizem atentados desabilitando os freios e acelerando um carro, tudo à distância.

O fato é: tudo que puder ser invadido será!

Em 2014, quando ainda era CEO da Cisco, John Chambers chegou a dizer que existem dois tipos de empresas: as que já foram invadidas e as que ainda não sabem que já foram invadidas. Mas com a onipresença do digital em tudo que fazemos, tais invasões se estendem também aos clientes dessas empresas.

Por exemplo, já não é de hoje que, ao ligar pela primeira vez uma Smart TV recém-comprada, seu feliz proprietário precisa aceitar “termos de uso” do equipamento como parte da rotina de configuração inicial. Nada mais natural: as TVs agora são muito mais que um equipamento que transmite imagens das emissoras. Tornaram-se verdadeiros computadores executando aplicativos online dos mais diversos, transmitindo –mas também coletando– informações: nossas informações.

Algumas TVs no exterior incluem uma pitoresca sugestão em seus “termos de uso”: não façam, diante do aparelho, algo que você possa se arrepender depois. Afinal, muitos desses equipamentos possuem câmeras e microfones incorporados. Essas TVs são computadores com sistema operacional e linguagem de desenvolvimentos conhecidos, sem nenhum antivírus ou firewall para proteção e permanentemente conectados à Internet.

Nada impede que um hacker as invada para gravar aspectos de nossa vida que depois podem ser usados contra nós. Essa ideia foi explorada no episódio “Manda Quem Pode”, o terceiro da terceira temporada da série “Black Mirror”, em que um adolescente é chantageado por criminosos depois de o gravarem pela câmera de seu notebook.

 

Casa e negócios conectados

Observe quantos equipamentos em sua casa estão conectados à Internet nesse momento: você certamente tem pelo menos um deles! Alguns são óbvios, como os celulares, os computadores, relógios inteligentes, a smart TV, os assistentes digitas e o videogame. Outros nem tanto, como aparelhos de som, lâmpadas e até modelos mais recentes de aspiradores de pó robôs. A maioria dele é capaz de coletar alguma informação sobre você ou seu ambiente e transmitir a seu fabricante, incluindo aí o aspirador de pó.

A princípio, tudo isso foi criado para benefício do consumidor, para deixar sua vida mais fácil, produtiva e divertida. Chegamos a um ponto em que nossa imaginação é o limite para conectarmos tudo na rede.

Estudos sugerem que, nesse ano, praticamente metade de todo tráfego de dados na Internet acontecerá entre equipamentos “falando entre si”, sem nenhuma intervenção humana. É o fenômeno da Internet das Coisas. Como comparação, apenas 13% dos dados sairão ou chegarão de nossos celulares e míseros 3% de nossos computadores, que estão prestes a ser superados pelas smart TVs nesse quesito.

Quem tem em casa assistentes digitais, como Amazon Echo ou Google Home, já pode controlar vários eletrodomésticos com sua voz. Mas a automação digital das casas vai muito além, com geladeiras, cafeteiras, persianas e até banheiras controladas remotamente.

Os carros também estão cada vez mais digitais e conectados. Modelos topo de linha podem ter computadores de bordo online e com mais linhas de código que um sistema operacional para computadores, controlando todos os equipamentos do veículo. Isso permitiu que, em 2015, pesquisadores de segurança invadissem um jipe Cherokee a 16 quilômetros de distância. A partir de comandos em um notebook, diminuíram a potência do veículo, mudaram a estação do rádio a bordo e ligaram o ar-condicionado e o limpador de para-brisa.

No ambiente comercial, acompanhamos o crescimento de lojas sem funcionários, em que o próprio cliente pega o que quer e sai, com a compra sendo automaticamente debitada em seu cartão. Mas também vemos coisas no mínimo inusitadas, como grelhas de lanchonetes com a temperatura controlada de maneira online (para evitar superaquecimentos e incêndios) e até galerias de águas pluviais com sensores (para evitar enchentes).

 

Corpos conectados

Assim como nossas casas, carros e escritórios estão cada vez mais conectados, nossos corpos seguem pelo mesmo caminho, seja pelo que vestimos ou até por implantes em nosso organismo.

O celular é a máquina perfeita de rastreamento, pois é a única coisa na vida da qual não nos afastamos durante todo dia. Além disso, instalamos dezenas de aplicativos nele, alguns de procedência duvidosa, que podem coletar uma enxurrada de dados nossos, repassando-os a criminosos. A simples geolocalização pode ser usada para traçar nosso hábito de movimentação, o que pode ser usado, por exemplo, no planejamento de sequestros.

Além disso, vestimos ou usamos cada vez mais equipamentos online que coletam e transmitem nossos dados. É o caso de relógios inteligentes, capazes de, entre outras coisas, monitorar nossos batimentos cardíacos.

Isso pode ser muito bom, como no caso do jornalista americano Paulo Hutton, que foi salvo pelo seu Apple Watch em 2019. Na época com 48 anos, o aparelho identificou anomalias nos seus batimentos, o que lhe permitiu descobrir que tinha bigeminia ventricular, que foi corrigida antes que algo pior acontecesse. Por outro lado, em mãos erradas, informações tão íntimas de nossa saúde podem permitir usos nefastos.

Vestimos e usamos muito mais dispositivos conectados que coletam nossas informações ou podem ser controlados remotamente: câmeras portáteis, óculos de realidade aumentada ou virtual, medidores de glicemia, roupas com sensores. Há até mesmo vibradores que podem ser controlados à distância, pela Internet!

Essa digitalização da vida é um caminho sem volta. Os benefícios que recebemos são imensos! Por outro lado, não há sistema que não possa ser invadido. Essa é uma corrida de gato e rato, com fabricantes tentando proteger seus produtos e hackers encontrando suas vulnerabilidades.

Diante disso, o ideal é que funções críticas de equipamentos nunca sejam controláveis à distância. Afinal, não podemos deixar que os hackers desliguem marca-passos, provoquem sérios acidentes de carro ou gelem nossa casa com o ar-condicionado.

 

Quem assedia uma assistente virtual?

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No dia 5, o Bradesco lançou uma nova campanha de marketing. O banco apresentou mudanças no algoritmo da BIA, sua assistente com inteligência artificial. As mudanças se concentram nas respostas que o sistema dá diante de diferentes formas de assédio que a assistente recebe de clientes, que vão desde insultos até importunações sexuais.

Esse comportamento bizarro não é novidade. Mas ainda me pego analisando o que leva alguém a assediar sexualmente um software.

Alguns dizem que se trata apenas de “brincadeira”. Afinal quem vai “passar uma cantada” em um bot? Mas as reações ao comercial do Bradesco mostram que o assunto é sério, problemático e está disseminado em nossa sociedade.

No momento em que estou escrevendo esse texto, a peça já passou de 105 milhões de visualizações no canal oficial do Bradesco no YouTube, em apenas seis dias no ar! Conquistou cerca de 7.000 “gostei” e 25 mil “não gostei”. E entre os mais de 13 mil comentários, a esmagadora maioria traz uma reprovação furiosa ao comercial.

E isso –pelo menos nessa quantidade– me surpreendeu.


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O polêmico comercial mostra algumas das cerca de 95 mil mensagens agressivas que a BIA recebeu no ano passado, segundo o Bradesco. Entre elas estão insultos como “BIA, sua imbecil” e “BIA, eu quero uma foto sua de agora” (sic).

Até então, o sistema identificava os comentários condenáveis e dava repostas leves, como “Não entendi, poderia repetir” ou “Foto? Apesar de falar como humana, sou uma inteligência artificial”. Essas respostas foram substituídas por outras, bem mais incisivas, como “Essas palavras são inadequadas, não devem ser usadas comigo e mais ninguém” ou “Para você, pode ser uma brincadeira; para mim, foi violento”.

A iniciativa do banco segue a campanha “Hey update my voice” (“Ei, atualize minha voz”), da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Ela foi criada a partir do estudo “I’d blush if I could” (“Eu ficaria corada, se pudesse”), que descreve o assédio sofrido pelas assistentes virtuais. A partir disso, a Unesco recomenda às empresas atualizações nas respostas de suas assistentes para combater a violência e o preconceito, educando a população para o problema do assédio contra mulheres, muto além das assistentes virtuais.

Segundo a Unesco, 73% das mulheres no mundo já foram vítimas de algum assédio online. No Brasil, pesquisa Datafolha revelou que 42% das mulheres a partir de 16 anos já sofreu assédio sexual. Outro levantamento indicou que 97% já haviam sido vítimas de algum tipo de assédio dentro do transporte público ou privado.

 

Do amor à violência

Para entendermos a raiz do assédio contra assistentes virtuais, temos que voltar uma década no tempo. A Siri, assistente da Apple, lançada em 2011, foi o primeiro sistema do tipo a se tornar um grande sucesso de público. Ela surgiu como parte do iOS 5.0, que controlava o iPhone 4S. Até então, nenhum produto de massa tinha a capacidade de convincentemente entender comandos de voz e dar respostas também por voz.

Uma das diversões da época era “desafiar” o sistema com comandos inesperados. Um dos mais populares era dizer “Siri, eu te amo”. Ela dava respostas espirituosas como “eu aposto que você diz isso a todos os produtos da Apple.” A princípio, naquele momento embrionário da tecnologia, ninguém estava “cantando” a assistente, especialmente para quem sabe do relacionamento apaixonado entre os clientes da Apple e a marca e seus produtos.

Infelizmente, à medida que as assistentes se popularizaram em celulares e muitos outros dispositivos, melhorando também a sua capacidade de respostas, aqueles testes quase pueris evoluíram para mensagens agressivas e sexistas.

Isso foi reforçado pelo fato de quase todos esses sistemas incorporaram uma voz e até uma personalidade feminina. É o caso dos principais sistemas internacionais: Siri (Apple), Google Assistente, Cortana (Microsoft) e Alexa (Amazon). Isso se repete em sistemas brasileiros: além da própria BIA (Bradesco), outros exemplos são a Lu (Magazine Luiza) e a Nat (Natura).

Modismos à parte, a origem dessa escolha tem fundamento. Em 2005, Clifford Nass, professor de comunicação da Universidade Stanford (EUA), compilou dez anos de pesquisas psicológicas e de interface de voz, e concluiu que a voz sintética feminina é percebida como capaz de ajudar a resolver problemas, enquanto a masculina representa autoridade e dá respostas. Outro estudo, em 2008, de Karl MacDorman, da Universidade de Indiana (EUA), indicou que vozes sintetizadas femininas eram vistas como mais calorosas e agradáveis.

Segundo a Unesco, 90% da força de trabalho envolvida na criação dos assistentes é masculina. De acordo com o órgão, eles reforçam o imaginário popular de que a voz da mulher é dócil, acolhedora, subserviente e sempre pronta a ajudar. A prática tende a normalizar o assédio.

Seguindo as recomendações da Unesco, a Apple fará com que o usuário escolha o gênero da voz da Siri a partir do iOS 14.5. A voz masculina já está disponível, mas hoje o usuário precisa alterar o padrão feminino nas configurações do sistema.

 

“Mimimi”

Os detratores do novo comercial do Bradesco afirmam que ele exagera e que o banco se aproveita de uma pauta feminista para se promover. Mas muitos dos comentários acabam justamente reforçando os preconceitos e a violência contra mulheres, o que indica que a iniciativa está no caminho certo. Afinal, o debate levantado não é sobre o assédio contra a BIA e sim contra todas as mulheres.

Mas já que o assunto foi tocado, poderíamos debater também se seria legítimo agredir sexualmente um robô, apenas por ser uma máquina. O tema é recorrentemente explorado pela ficção, com sistemas inteligentes que desenvolvem sentimentos e até se apaixonam. Vimos isso, por exemplo, nos filmes “Ela” (2013), de Spike Jonze, e “Blade Runner” (1982), de Ridley Scott, ou no reboot da série “Battlestar Galactica” (2004 a 2010). Portanto, nem os robôs devem ser assediados.

Outra crítica recorrente contra o comercial é que o Bradesco se preocupa mais com a BIA que com as atendentes humanas do banco. Conversei com várias gestoras de call center sobre o caso. De fato, esse é um mercado conhecido por condições de trabalho ruins. Em alguns casos, se um atendente encerra uma ligação, mesmo após ter sido agredido por um cliente, ele pode ser punido administrativamente.

A política dos call centers refletem a da empresa que a contrata. A boa notícia é que, aos poucos, essas regras vêm evoluindo, para proteger esses profissionais contra violências de consumidores. Em muitos casos, os atendentes já são autorizados a reagir aos ataques e até a encerrar a ligação. Em casos menos comuns, a empresa envia uma notificação formal ao cliente, advertindo-o por seu comportamento. Isso acontece inclusive em alguns bancos.

A BIA também está pagando por diversos tipos de insatisfação de clientes com o Bradesco. Se a empresa comete erros (e todas as empresas cometem), eles precisam ser notificados pelo cliente e corrigidos. Mas isso deve ser feito de maneira apropriada, o que nos leva à questão original de combate ao assédio.

A frase de que “o cliente sempre tem razão” é uma falácia. Naturalmente ele deve ser bem atendido, sempre da melhor maneira possível. Mas infelizmente muitos clientes abusam dessa prerrogativa, sem falar daqueles que possuem sérios problemas sociais. A empresa e seus funcionários, mesmo os virtuais, não têm nenhuma obrigação de acolher quem os trata mal. Qualquer forma de relacionamento, mesmo comercial, deve ser pautada pelo respeito mútuo.

Por isso, a nova campanha do Bradesco é mais que oportuna: é necessária! O debato em torno da violência contra uma assistente virtual e a onda de ódio contra a peça explicitam como nossa sociedade ainda tem muito a evoluir.

Estamos nos aproximando de “The Walking Dead”

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Na noite desse domingo, foi ao ar o último episódio da décima temporada da série “The Walking Dead”, a mais vista na TV aberta americana. Apesar de ser uma obra ficção, ela assustadoramente guarda algumas semelhanças com a nossa situação atual, e podemos aprender algo com isso.

A realidade dos episódios é determinada por um vírus que transforma pessoas em zumbis, que coloca a humanidade de joelhos. Mas, assim como se observa em nossos atuais dias sombrios, na história, o que mais assusta não é a doença, e sim a desunião entre os sobreviventes, que pode representar uma ameaça à humanidade ainda maior.

Concordo que um mundo dominado por mortos-vivos comedores de gente pode parecer ainda mais dramático que a destruição real provocada pela Covid-19. Mas, na série, os sobreviventes se organizam em clãs para garantir recursos em detrimento de outros humanos. Por outro lado, o que vivemos é potencialmente muito mais perigoso, com uma determinação crescente de muitos em negar o conhecimento e a verdade para alguns poucos serem beneficiadas às custas das demais.

As narrativas negacionistas começaram com temas que pareciam fanfarronices de um bando de paspalhos, como acreditar piamente que a Terra é plana no século XXI. Mas ela evoluiu para absurdos como pessoas que se negam a tomar qualquer tipo de vacina, por acreditar que fazem mal à saúde. Esse caso específico se tornou dramático diante da pandemia, ao ser cruzado com interesses políticos de grupos no poder, que incendeiam seus seguidores contra o imunizante para atacar adversários e até tentar um desequilíbrio geopolítico mundial.

E as pessoas acreditam neles!


Veja esse artigo em vídeo:


Em “The Walking Dead”, alguns humanos não veem nenhum problema em matar outros sobreviventes para se apropriar de seus recursos. Diante de uma situação de crise extrema, a sociedade e qualquer senso de civismo desaparecem, dando lugar à completa barbárie.

Guardadas as devidas proporções, isso não é muito diferente do que vivemos hoje. Quando um líder ataca vacinas, combate o uso de máscaras e critica abertamente medidas de distanciamento social, ele efetivamente manda milhares de pessoas à morte para garantir seus interesses mesquinhos. E quem acredita nele segue suas ordens, feito zumbis que precisam satisfazer uma necessidade única.

Como se pode ver, isso não se trata de um mero exercício mental.

Há alguns dias, tive acesso ao estudo “Enfrentando as ameaças à tomada de decisão com base em informações em sociedades democráticas”, do grupo de pesquisadores liderado por Elizabeth Seger, da Universidade de Cambridge (Reino Unido). Organizado pelo Programa de Defesa e Segurança do Instituto Alan Turing, o órgão de ciência de dados e inteligência artificial do Reino Unido, o documento demonstra o mecanismo de ataque deliberado à capacidade da população de adquirir conhecimento.

“A pandemia de Covid-19 deixou uma coisa clara: é muito difícil coordenar o comportamento de uma sociedade inteira, mesmo quando se trata de uma questão de vida ou morte”, explicou Seger em artigo publicado na BBC. Ela cita justamente a recusa de uma parte considerável da população a se vacinar como algo que coloca em risco a vida até dos vacinados e a própria manutenção da sociedade.

Segundo ela, “mesmo que estivesse claro como salvar o mundo, um ecossistema de informações degradado e não confiável poderia impedir que isso acontecesse”. A equipe de pesquisadores usou o termo “segurança epistêmica” para definir a capacidade não apenas de garantir a segurança do conhecimento, mas também de adquirir informações de qualidade.

 

Os ataques ao conhecimento

A equipe liderada por Seger definiu quatro principais ameaças à segurança epistêmica. E nenhum deles pode ser creditada ao acaso.

A primeira é a ação das pessoas a que chamaram de “adversários” e “trapalhões”. Eles podem interferir nos processos de tomada de decisão pela desinformação ou outras ações. Os primeiros são indivíduos que deliberadamente manipulam informações, promovem ataques ou incitam seus seguidores para confundir ou enganar a população para atingir seus objetivos. Já os “trapalhões” são aqueles que, de maneira inocente e até bem-intencionada, espalham essas bobagens, como aquela turma no grupo da família no WhatsApp.

Outro problema é o excesso de informação a que somos submetidos, nem todas elas confiáveis. Essa abundância faz com que nossa atenção fique dispersa, tornando mais difícil garantir que as informações essenciais cheguem a quem precisa. O modelo de negócios da “economia da atenção”, usado pelas redes sociais, que direcionam nosso olhar ao que lhes interessa, torna isso ainda mais dramático. Nossa capacidade limitada de concentração dificulta separar uma verdade de uma porcaria. E os produtores de fake news se valem disso.

As pessoas também se acostumaram a rejeitar informações que desafiam seus pontos de vista. E, se houver uma forte identidade no grupo, ela leva a uma maior polarização e negacionismo. Diante da sobrecarga de informações, prestamos mais atenção a quem pensa igual a nós. Isso cria o que os pesquisadores chamaram de “racionalidade limitada”, pois só crescemos quando somos expostos justamente a pensamentos conflitantes.

Por fim, as tecnologias de mediação e produção de informação tornam mais difícil avaliar a confiabilidade das fontes. Tendemos a confiar mais em alguém da nossa comunidade ou em quem muitas pessoas confiam. Com as redes sociais, esses mecanismos perdem força diante das manipulações dos algoritmos feitos por grupos de poder.

 

Resgatando a verdade

Os pesquisadores afirmam que os ataques à segurança epistêmica não podem ser combatidos com iniciativas pontuais, pois as causas estão disseminadas pelas mentes da população. Por isso, esse esforço precisa ser multidisciplinar e ter um caráter “holístico”, totalmente abrangente e interligado.

Para eles, esse resgate passa por desenvolver métodos para dificultar as ações de “adversários” e de “trapalhões”, enquanto se ajuda as pessoas a identificar mais facilmente fontes de informação confiáveis. Da mesma forma, essas boas fontes devem receber apoio da comunidade.

O documento explica que os “adversários” são capazes de mudar suas estratégias rapidamente e que, por isso, devem estar sempre sendo monitorados e combatidos com iniciativas atualizadas contra suas ações nocivas. Elas precisam necessariamente ser conduzidas por profissionais de diferentes áreas do conhecimento.

Há alguns dias, enquanto revia a montagem de Andrew Lloyd Webber de “O Fantasma da Ópera”, alguns versos da canção “A música da noite” me saltaram aos ouvidos. Neles, o personagem do Fantasma dizia o seguinte:


Feche seus olhos
Pois seus olhos só dirão a verdade
E a verdade não é o que você quer ver.
No escuro é fácil fingir
Que a verdade é o que deveria ser.

Sinto que essa é a realidade que grande parte de nossa sociedade vive. Precisamos lutar pela segurança epistêmica de todos nós, com todos os recursos que tivermos.

Como estão os seus olhos: abertos ou fechados?

 

Reconhecimento facial se tornou uma poderosa ferramenta de negócios

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Muita gente já se espantou como o Facebook reconhece instantaneamente todas as pessoas que estão nas fotos que carregamos na plataforma, “marcando” seus rostos. Esse recurso, um dos segredos das “viralizações” das imagens nessa rede social, vem dos algoritmos de reconhecimento facial. Mas esse uso chega a ser um “brinquedo” diante do que essa tecnologia já oferece aos negócios.

Apesar de nunca ter se falado tanto disso, ela existe desde os anos 1960. De maneira simplificada, consiste em se criar uma “assinatura digital” (um “código hash”) composta por uma identificação única calculada a partir de distâncias entre pontos-chave do rosto (como o centro da pupila, a ponta do nariz, os limites da boca e assim sucessivamente). Quanto mais pontos forem avaliados, maior a eficiência no reconhecimento, pois essas distâncias variam de pessoa para pessoa.

“Uma coisa que melhorou muito de uns anos para cá foi a acuracidade do reconhecimento facial”, afirma Edgar Nunes, diretor comercial da Nuntius Tecnologia. De fato, até há poucos anos, existia desconfiança com essa tecnologia, por gerar muitos falsos positivos ou negativos.  “Antes as empresas tinham algoritmos que trabalhavam com 96 pontos do rosto, e hoje falamos de pelo menos 300 pontos, chegando a 1.024”, explica.

Tantos pontos permitem que o reconhecimento aconteça com precisão até quando o rosto está parcialmente coberto, por exemplo por óculos escuros ou, como agora é comum, por uma máscara. Os pontos ainda visíveis são suficientes para se fazer a identificação.


Veja a íntegra da entrevista com Edgar Nunes em vídeo:


Portanto a eficiência do reconhecimento facial está intimamente ligada não apenas a melhorias no software, mas também a avanços exponenciais nos computadores e nas próprias câmeras. Todo esse poder de processamento permite que as plataformas identifiquem mais pontos no rosto, em menor tempo e até de várias pessoas na mesma imagem. “Hoje a tecnologia reconhece 512 pessoas simultaneamente, em uma única câmera”, explica Nunes.

Além disso, os sistemas são capazes de identificar indivíduos mesmo que eles não estejam olhando de frente para a câmera, uma exigência dos sistemas mais antigos. A quantidade de pontos e o poder de processamento identificam também os rostos inclinados. Aliás, esse reconhecimento tridimensional pode ser usado para evitar fraudes, como alguém tentando apresentar uma foto e o sistema achar que se trata de um rosto real diante da câmera.

A qualidade nos reconhecimentos depende também da adaptação do sistema para a região onde ele será usado. Não basta, portanto, um algoritmo de qualidade: a plataforma precisa ser “calibrada” para o tipo de rostos da população local, mesmo em um país miscigenado, como o Brasil. É por isso que, se tentarmos usar um bom sistema preparado para o mercado americano em uma país asiático, ele pode não funcionar muito bem, e vice-versa.

Outro ganho das melhorias dos equipamentos é que sistemas locais podem tomar ações sem exigir uma conexão à Internet de banda larga. Esses equipamentos são capazes de armazenar mais de um milhão de “códigos hash” em sua memória (ou seja, as fotos das pessoas não estão ali, apenas essa sua “assinatura digital”). Dessa forma, se a imagem da pessoa diante da câmera não combinar com o respectivo “código hash”, o sistema pode negar a identificação.

Seguindo a mesma lógica, o sistema local pode gerar um “código hash” e enviar apenas essa informação para um servidor, um arquivo muito menor que o de uma foto ou um vídeo capturados. “A gente está falando de transportar apenas alguns kbytes de informação, o que não vai causar nenhum problema de conectividade, não vai ‘engargalar’ nenhuma rede’, explica Nunes.

Isso é particularmente interessante em locais em que a não há conexão com a rede ou em que ela seja limitada, como em um ônibus. O terminal do Bilhete Único (ou equivalente) pode conter os “códigos-hash” dos donos de bilhetes da cidade. Se alguém tentar usar um documento que não combina com a imagem capturada na hora pela câmera, a catraca pode não ser liberada, e a informação de uma possível fraude ou roubo ser enviada a uma central de controle e ao verdadeiro dono do bilhete.

 

Integração a outros sistemas

As plataformas de reconhecimento facial não trabalham mais de maneira isolada. “Antigamente, o reconhecimento facial entregava algo como ‘a pessoa é o Paulo e foi detectado na câmera 2’ e isso era enviado para o centro de controle”, conta Nunes. Agora a informação captada pela plataforma de reconhecimento vai muito além, identificando coisas como gênero, idade aproximada, raça e até estado de humor da pessoa no momento.

Essa informação fica ainda mais valiosa quando integrada a sistemas de gestão, para ajudar a tomar decisões de negócio. Por exemplo, de uma maneira automática, é possível saber que perfil de consumidor um determinado produto atrai, como o fluxo de visitantes em uma loja se comporta e até tomar ações personalizadas para um usuário específico, baseado em um histórico de relacionamento com a empresa ou combinando com perfis de visitantes semelhantes.

Em tempos de pandemia de Covid-19, os terminais de reconhecimento facial também trazem outras vantagens interessantes. A primeira delas é que, além de identificar a pessoa, consegue medir sua temperatura instantaneamente, sem necessitar de caras câmeras térmicas e evitando as filas provocadas pelas leituras com termômetros do tipo “pistola”, que se popularizaram no varejo. O sistema também é capaz de identificar se a pessoa está usando uma máscara. Em caso negativo ou se estiver com febre, uma ação é disparada, como informar a segurança ou a área de recursos humanos.

Nunes acredita que a evolução natural dessas plataformas envolverá ainda mais confiança e velocidade na identificação dos rostos, além de integrações cada vez mais poderosas com outros sistemas. Em um mundo com uso crescente de aplicações “touchless”, em que o usuário não precise encostar em nada, isso é muito bem-vindo.

O digital indica o caminho para o varejo, mesmo nas lojas físicas

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Na semana passada, o Carrefour anunciou as suas duas primeiras lojas autônomas do país. Sua principal característica é que elas não têm funcionários para ajudar os clientes na seleção de produtos ou sequer nos caixas. Todo o processo é feito pelo consumidor, com seu celular.

O objetivo é oferecer uma experiência eficiente, em que o cliente fique o mínimo de tempo dentro da loja, o que, aliás, é interessante em uma pandemia. Isso também traz uma óbvia economia para o varejista em salários.

Mas há um fator extremamente importante, que pode passar despercebido para muita gente. Lojas autônomas estão em linha com uma mudança cultural em curso no público: o desejo de consumir seja lá o que for com o mínimo de interação humana.

Portanto, o varejo pode tirar grande proveito de recursos digitais, muito além da criação de e-commerce. Além de viabilizar um atendimento em linha com esse inusitado e crescente desejo de autonomia, permite conhecer profundamente seu público, oferecendo um relacionamento mais moderno, um mix de produtos mais adequado para cada loja e ampliando a satisfação do consumidor.


Veja esse artigo em vídeo:


Com a pandemia, o e-commerce cresceu enormemente em todo mundo, inclusive no Brasil. Segundo a 43ª edição do Webshoppers, relatório sobre e-commerce produzido pela Ebit em parceria com a Nielsen, as vendas no e-commerce de 2020 cresceram 41% em relação a 2019, com um aumento de 23% em novos consumidores e 29% naqueles considerados recorrentes.

Ainda assim, o e-commerce representa pouco nas vendas globais do varejo, respondendo, mesmo com esse crescimento, por cerca de apenas 10% de todo o bolo. Ou seja, qualquer investimento para melhorar a experiência do consumidor nas lojas físicas é mais que bem-vindo!

Dentro desse cenário, as novas lojas do Carrefour dão completa autonomia ao cliente. Para entrar na loja, ele deve exibir a um totem o QR code que o identifica, pelo aplicativo do Carrefour em seu celular. Uma vez dentro da loja, ele deve escanear o código de cada produto que deseja comprar, que é acrescentado em um carrinho virtual. Se tiver qualquer dúvida, pode acessar um suporte em tempo real por WhatsApp. Uma vez concluída a compra, ele faz o pagamento pelo próprio aplicativo e apresenta o QR code novamente para sair da loja.

Desde 2018, a rede já usa algo semelhante em 40 de seus pontos de venda. Mas ainda existe um funcionário que confere o que foi pago e o que o consumidor está levando. Nas novas lojas, não há mais essa conferência. O novo formato está sendo testado em pequenos estabelecimentos no centro comercial Cow, em São Paulo, e no condomínio residencial Domo Life e Prime, em São Bernardo do Campo.

Apesar de estar sendo apresentado como algo inspirado na Amazon Go, as lojas físicas da gigante americana do varejo têm uma tecnologia ainda mais disruptiva. Nelas, o consumidor libera sua entrada na loja com o aplicativo, da mesma forma que no caso do Carrefour. Mas quando pega um produto para comprar, ele não precisa ser escaneado pelo celular: basta guardá-lo em uma sacola ou até no seu bolso. Um sofisticado sistema de câmeras e sensores permite que a loja saiba quais produtos foram pegos e a quantidade, o que diminui enormemente as fraudes e furtos. No sistema da Amazon, o pagamento também é mais simples: basta o cliente sair da loja com os produtos, que serão debitados automaticamente de seu cartão de crédito cadastrado.

Em São Paulo, a Zaitt oferece uma experiência bastante semelhante ao da Amazon Go. Nas outras lojas da sua rede, o funcionamento se parece ao das novas lojas do Carrefour.

 

Sem contato com ninguém

Como se pode ver, a tecnologia digital está no centro do processo, mesmo se tratando de lojas físicas. Ela é usada para identificar o cliente, os produtos que ele adquire e fazer o pagamento, dispensando a interação com funcionários.

Por mais estranho que isso possa parecer para muitos, essa “liberdade de fazer tudo sozinho”, sem ter que interagir com outras pessoas, cresce nos mais diversos setores do mercado. É um reflexo do enorme poder que os consumidores ganharam com o meio digital, especialmente com o advento dos smartphones. Não se trata apenas de ter mais escolha (e agora ela é imensa). As pessoas querem que tudo seja feito do seu jeito e a seu tempo, com uma experiência personalizada e com grande autonomia, centrada no seu smartphone, que se transformou em uma espécie de “painel de controle da vida”.

Isso explica, ainda que parcialmente, o sucesso de aplicativos como o iFood, para o delivery de comida, ou o Uber, para transporte. Segundo vários ex-alunos meus que trabalham no iFood, muitas pessoas preferem pedir comida interagindo com o aplicativo a ter que ligar para o restaurante, pois a experiência seria melhor com a tela que com o atendente humano, segundo eles.

Esses aplicativos não ameaçam os restaurantes físicos, pois a comida continua vindo deles. Apenas o canal para se fazer o pedido mudou. Mas o varejo físico precisa necessariamente estar atento a essas mudanças no comportamento do consumidor, para se manter relevante e evitar o pior.

Há muitos anos, já se fala do “apocalipse do varejo”, que vem fechando milhares de lojas físicas nos Estados Unidos desde 2010. A principal causa é a migração de consumidores para o e-commerce. Estudo do Credit Suisse previu que de 20% a 25% dos shoppings centers americanos fechariam as portas nos próximos anos.

Como eu digo sempre, não é uma tecnologia que põe uma empresa para fora do mercado. Quem faz isso é seu consumidor, quando encontra uma alternativa mais vantajosa. Pelo contrário, a tecnologia pode ser uma poderosa aliada para manter a empresa relevante a seu público!

 

Coletando dados

Um outro importantíssimo uso da tecnologia para fortalecer qualquer negócio é a coleta de dados dos usuários. Iniciativas como a do Carrefour, da Amazon e do Zaitt permitem que os varejistas saibam exatamente o que cada consumidor compra, quando e como. Essa informação é valiosíssima, não apenas para melhorar o mix de produtos de cada loja, para que ela tenha sempre aquilo que os clientes desejam, de maneira independente de outros pontos de venda, mas também para personalizar a experiência de cada consumidor, mesmo que sejam milhões em sua base.

O Pão de Açúcar vem fazendo isso muito bem desde 2017, quando ele lançou um novo aplicativo. Usando o perfil de compras de cada um dos milhões de clientes de sua plataforma de relacionamento “Pão de Açúcar Mais”, a empresa consegue oferecer descontos que podem chegar a 50%. Porém o mais interessante é que esses descontos são oferecidos naquilo que o consumidor realmente quer, atendendo a interesses também de seus fornecedores, que usam tais descontos personalizados como uma eficiente ferramenta de marketing. Ou seja, ganha o consumidor, o fornecedor e o varejista.

Em um tempo de tantos desafios impostos pela pandemia, o relacionamento do varejo com seus clientes se transformou profundamente, não apenas na comunicação, mas no próprio processo de venda, além da captação e da fidelização de consumidores.

Não dá mais para ficar esperando os clientes entrarem pela porta da loja para oferecer um caloroso sorriso e iniciar a venda. Se não estiver de maneira inteligente na vida digital da pessoa, talvez ela nunca mais entre pela sua porta. E, se entrar, talvez nem queira o sorriso, e sim uma experiência de autosserviço realmente inovadora.

 

O maior desafio do jornalismo na pandemia é seguir fazendo jornalismo

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Qual é a melhor profissão do mundo?

Naturalmente, não há resposta definitiva a essa pergunta. Todo profissional apaixonado pelo que faz dirá que seu ofício é o melhor, e filosoficamente estará certo nisso. Mas toda profissão tem (ou deveria ter) uma função social. Portanto, aquelas que promovem mais impacto na sociedade estariam mais próximas de receber esse título.

Para Gabriel García Márquez, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura e jornalista (cuja foto ilustra esse artigo), o jornalismo é essa profissão. Em um histórico discurso na assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa, em 1996, Gabo (como era chamado) explicou que “o jornalismo é uma paixão insaciável que só pode ser digerida e humanizada por sua confrontação visceral com a realidade”.

A explicação genial em suas palavras vem sendo posta à prova nos últimos anos, em vários locais do mundo. Uma parcela considerável da população acredita pouco na imprensa e esse índice vem piorando, como demonstra o mais recente relatório Trust Barometer, da consultoria americana Edelman. O mesmo documento demonstra que essa desconfiança é maior entre eleitores de governantes autoritários, que se especializaram em atacar jornalistas, pois a verdade os incomoda. Isso acontece sistematicamente desde a Alemanha nazista, em que Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Adolf Hitler, calava todas as vozes dissonantes do Fürher.

No Brasil, isso não é diferente. Cresci vendo jornalistas sendo respeitados na sociedade pelo seu trabalho de trazer e contextualizar as notícias para todos nós. Essa foi a realidade em nosso país até pouco tempo, quando os ventos políticos mudaram e os jornalistas passaram a ser perseguidos, censurados, agredidos moral e fisicamente por autoridades e até pelo cidadão médio, inflamado pelo discurso de ódio de seus líderes.

Por que tanta gente detesta profissionais que se esforçam para os informar da melhor maneira possível, às vezes colocando a própria vida em risco?

É verdade que o mundo mudou, e não apenas no balanço político. A gigantesca digitalização de nossas vidas transformou a maneira como consumimos e produzimos conteúdo de toda natureza, inclusive jornalístico. As empresas de comunicação tradicionais deixaram de ser as únicas fontes disponíveis, competindo com pequenos veículos independentes que fazem um ótimo trabalho e com aqueles que se resumem a publicar um conteúdo raso ou deliberadamente atuam na desinformação, cada vez mais convincente e suculenta com suas mentiras.

Com a pandemia de Covid-19, que nos assola desde março de 2020, o ódio à imprensa se uniu às hostes negacionistas, jogando o país no caos. O grande desafio desses profissionais passou a ser insistir em se fazer jornalismo de qualidade. Esse foi o tema que apresentei no evento “Desafios para o jornalismo na pandemídia”, ao lado de Fábio de Paula, Magaly Prado e Marcelo Salgado, que aconteceu no dia 12, a convite da professora Maria Collier de Mendonça, no curso de jornalismo na UFPE. Todos são colegas do Sociotramas, grupo de pesquisa em temas ligados a redes sociais na PUC-SP.

Mas a pandemia criou um interessante efeito na busca pela verdade na maioria da população. Afinal, diante do desconhecido e do medo trazidos pelo vírus, era necessário buscar informações confiáveis para se proteger da doença, e as pessoas se voltaram para o jornalismo profissional. Isso pode ser comprovado pelo aumento na audiência de todos os veículos de comunicação sérios nesse período.

O jornalismo é um trabalho de persistência. Diante das piores adversidades, surgem os melhores profissionais, que se esforçam para trazer a informação mais confiável. Não se trata de verdade absoluta, pois ela é conceitualmente inatingível. Mas o jornalismo se esforça para se aproximar ao máximo dela, com muito suor, técnica e ética.

A essa altura, alguns podem estar torcendo o nariz, discordando de mim. Faz parte do trabalho! Não podemos agradar a todos, até mesmo porque o bom jornalismo também é aquele que apresenta os fatos inconvenientes para muitos. Por outro lado, não tem a pretensão de ser perfeito, até pela natureza humana falível de todos os profissionais, mas se busca sempre a melhor informação para o público.

É por isso que, mesmo aqueles que discordam da imprensa se beneficiam, em algum momento, de seu trabalho. No caso particular da pandemia, se não fosse a persistência incansável desses profissionais, não estaríamos agora na macabra marca de 300 mil mortos pela doença, e sim possivelmente na casa dos 500 mil óbitos. A educação da comunidade pelo noticiário evitou uma tragédia ainda maior, beneficiando a todos, mesmo àqueles que preferem acreditar em mitos.

As dificuldades e os ataques que jornalistas sofrem agora são resultados dos tempos de trevas em que vivemos. Mas, como diz o ditado, “depois da tempestade, vem a bonança”. Quando isso acontecer, bons jornalistas, contadores de histórias da vida real, estarão lá para dizer como tudo aconteceu.

Naquele seu genial discurso, Gabo concluiu: “Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir em uma profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra acaba depois de cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não garante um instante de paz até que recomece com mais ardor que nunca no minuto seguinte.”

Não poderia concordar mais com ele: essa profissão é uma paixão de entrega ao próximo! É necessária para o desenvolvimento de qualquer nação, mesmo quando as verdades são inconvenientes. Por isso, nasci jornalista. E persisto!

 

Esse artigo foi publicado originalmente no blog do grupo de pesquisa Sociotramas, do qual faço parte, na PUC-SP. Com profissionais de diferentes áreas e de várias universidades brasileiras, estudamos os impactos do meio digital e das redes sociais na comunidade.

 

O que há por trás do crime do momento

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Na manhã de sexta (19), a Polícia Federal prendeu dois hackers em Uberlândia (MG) e Petrolina (PE), acusados de serem responsáveis pelo roubo e vazamento de dados de 223 milhões de pessoas e de 40 milhões de empresas em janeiro. Mas assistindo às imagens divulgadas pelas próprias autoridades, percebe-se que algo não bate nessa história: extremamente modestos, a casa e o computador de um deles não combinam com alguém que comercializaria uma base de CPFs e CNPJs por 40 mil euros, o que dá mais de R$ 260 mil.

O Brasil se transformou no paraíso dos vazamentos de informações pessoais. Desde o ano passado, várias bases de dados enormes, de diferentes fontes, são oferecidas na Deep Web, uma parte da Internet que não pode ser acessada com navegadores comuns e não é indexada em buscadores, muito usada por delinquentes.

Em um primeiro momento, tudo isso parece envolver grandes ações criminosas, com a participação da máfia russa ou outra organização internacional. Entretanto, é mais provável que os esquemas sejam locais e que o dinheiro não seja a única motivação.

Além disso, a vida dos bandidos está fácil. Empresas, organizações e até o governo brasileiro precisam melhorar muito a segurança de seus servidores. E os usuários, sejam corporativos, sejam qualquer um de nós, precisam ser mais cuidadosos: a maior parte dos roubos acontece graças à inocência das pessoas, que caem em golpes muito básicos.


Veja esse artigo em vídeo:


Obviamente os dois hackers presos na sexta não trabalham sozinhos. Isso explicaria a casa e o equipamento bastante simples do hacker de Uberlândia, algo completamente incompatível com um esquema que já deve ter movimentado milhões de reais.

Vale notar que ele já vinha sendo investigado pela possível participação em outras invasões semelhantes, como o roubo de dados do Tribunal Superior Eleitoral. Esse vazamento foi divulgado justamente no primeiro turno das eleições de 2020, ao que tudo indica para aumentar a desconfiança da população no sistema eleitoral brasileiro, atendendo a interesses de quem questiona as urnas eletrônicas, por exemplo.

Não precisa ser um gênio, portanto, para perceber que os dois presos são apenas peões de um grupo criminoso que usa invasões para obter ganhos financeiros e políticos. Se os dois forem os únicos encarcerados, será uma vergonha! Como em tantos crimes no Brasil, condena-se quem puxa o gatilho, mas o mandante continua solto para cometer outros atos ilícitos.

Com a digitalização galopante de nossas vidas, os crimes eletrônicos se transformaram nos mais devastadores e que causam mais prejuízos à sociedade. Pessoas, empresas e organizações não estão preparadas para lidar com a criatividade e a eficiência dos delinquentes digitais. Eles conhecem profundamente a tecnologia, mas também são especialistas em ludibriar e manipular a população.

O mais nocivo dos crimes digitais atualmente são as fake news, porque elas conseguem de abalar a sociedade. Basta ver o crescimento exponencial da crise de saúde que o Brasil vive com a Covid-19. Sem as infames notícias falsas, o número de mortes seria muito menor e os negócios voltariam a funcionar mais rapidamente, pois as pessoas agiriam de acordo com o que a ciência e os especialistas de saúde determinam. Mas, graças a elas, acreditam em qualquer bobagem messiânica, que não os protege de nada, apenas atende a interesses de grupos específicos de poder.

 

Crime no atacado e no varejo

Assaltos a indivíduos e empresas são substituídos por golpes em redes sociais, comunicadores como WhatsApp e invasões em computadores. Sem sair da cadeira, os bandidos fazem mais vítimas, com ganhos muito maiores e sem risco de morte, raramente sendo pegos.

Apesar de os prejuízos para as vítimas serem expressivos, aos olhos do crime organizado, isso não é tanto: é o crime digital “no varejo”.

O “crime no atacado” vem com esses grandes roubos. E aqui a vida dos criminosos também está fácil, pois as empresas e até o governo ficam a desejar na segurança.

Um bom exemplo é o Ministério da Saúde, que foi invadido em dezembro devido a uma falha muito básica, que permitiu que hackers baixassem dados de todas as pessoas cadastradas no SUS (Sistema Único de Saúde) ou com um plano de saúde, um total de 243 milhões de indivíduos. Depois disso, o site do ministério já foi invadido diversas outras vezes, sendo “pichado” com insultos para expor sua vulnerabilidade.

As grandes bases de dados colocadas à venda nos últimos meses parecem ser uma composição de invasões a sistemas de diferentes fontes, o que indica que as falhas de segurança são muito mais comuns que deveriam.

Os bancos são empresas com bons sistemas de segurança. Eles investem milhões nisso. Afinal, está na essência do seu negócio, seja com sistemas de invasão dificílima, seja com as infames portas com detectores de metal nas agências. Mas outras empresas, mesmo algumas que manipulam grande quantidade de dados de seus clientes, incluindo informações sensíveis, não cuidam tão bem de seus sistemas. E estou falando aqui de grandes empresas. Quando pensamos em pequenas e médias, encontramos verdadeiros shows de horror!

Em uma sociedade totalmente digital, ninguém é pequeno demais para não se preocupar fortemente com a segurança da informação em seus servidores, seja dos clientes, seja do próprio negócio.  E ninguém é grande demais para não correr o risco de ser colocado para fora do mercado no caso de um grande roubo de dados.

 

O desdém pela informação alheia

Há um outro aspecto a ser considerado, muito mais cultural que tecnológico: a falta de respeito com a informação dos outros.

Dados pessoais são indubitavelmente o recurso mais valioso do mundo hoje. Isso foi detalhado na icônica reportagem de capa da revista “The Economist” de 6 de maio de 2017.

O Brasil tem uma boa legislação nessa área: a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), sancionada ainda no governo Temer, em agosto de 2018. As empresas tiveram dois anos para se adaptar à legislação e ainda as multas não estão sendo cobradas de quem infringir suas determinações.

Entre elas, está o fato de as companhias serem responsáveis pelos dados de consumidores sob sua guarda, não importando se elas foram invadidas. Além disso, as empresas devem dizer exatamente que dados serão coletados, o que farão com eles e com quem os compartilharão. O cliente deve autorizar explicitamente tudo isso.

Mas essa prática está longe de acontecer. Somos rastreados o tempo todo, sem saber que informações nossas estão sendo coletadas e o que será feito delas. Isso acontece nas redes sociais, em nossos smartphones e até em eletrodomésticos, como aspiradores de pó robôs, que mapeiam nossas casas e enviam essa informação a seus fabricantes. Mas também somos rastreados em farmácias que associam nossas compras de medicamentos a nossos CPFs, a lojas que nos identificam por suas redes e até a câmeras nas ruas que contam a governos onde estamos por reconhecimento facial.

Não autorizamos nada disso e não temos a mínima noção do que está acontecendo com nossos dados. Diante da ação de criminosos mais perigosos, de empresas que não fazem os investimentos necessários em segurança da informação e de uma sociedade que desrespeita sistematicamente o direito aos dados dos cidadãos, estamos cada vez mais à mercê de um mundo tecnocrático que facilita o crime organizado e viabiliza um estado policialesco.

Ironicamente, no mês passado, o diretor-presidente da ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados), Waldemar Gonçalves Ortunho Júnior, falou sobre esses vazamentos em um evento. Segundo ele, “a investigação e o poder de polícia, não nos cabe”. Concordo com isso, mas eles são responsáveis por fazer valer a LGPD, usando todos recursos necessários. E isso vai indo muito mal em nosso país.

Sem melhorias consistentes na área, continuaremos sendo o paraíso dos hackers, das fake news e de todo tipo de criminoso que usa o mundo digital para ter ganhos em cima da nossa miséria.

A origem do negacionismo

By | Educação | No Comments

No mundo todo, a educação sofre há um ano com a Covid-19. No Brasil, com o avanço galopante da doença, governadores e prefeitos vêm adotando medidas mais severas para conter o vírus, incluindo fechar as escolas. O impacto na formação de crianças e jovens é inevitável. Mas a educação sofre muitíssimo no nosso país desde muito antes da pandemia. De certa forma, grande parte do caos que vivemos se explica pelo desprezo histórico que o Brasil tem pela educação.

Basta ver que esse debate atinge basicamente educadores e pais de alunos. O resto da população passa ao largo do tema. Mas o fechamento de bares causa comoção nacional!

É sabido que cidadãos bem educados fazem valer seus direitos e igualmente cumprem seus deveres. Não ficam esperando que o governo os “salve de suas próprias vidas”. É assim em sociedades desenvolvidas. Por outro lado, os menos educados criam uma zona de conforto em torno de um pacto pela mediocridade: “se você me der o mínimo que preciso, eu não incomodo você, e vou levando minha vidinha”.

Como não somos bem educados, diante de algo muito maior que nós (como uma pandemia), procuramos uma “solução mágica”. Como isso não existe, negamos os fatos. Afinal, o que os olhos não veem o coração não sente, certo?

Errado!


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A nossa má educação é, portanto, a principal causa desse negacionismo que jogou o Brasil nas mais profundas trevas, que, para nossa desgraça, foram ampliadas pela pandemia. Não dá nem para dizer que foi azar: plantamos isso.

Não é de se estranhar que o nível da educação no Brasil caia gradativamente desde o tempo da ditadura militar. Um povo mal educado é um povo mais dócil e facilmente manipulável. Mas, com isso, jogamos tudo no colo do Estado ou damos um jeito de responsabilizar o outro quando algo dá errado. Esperamos que o mundo nos sirva e nos salve, mas damos muito pouco em troca. Ao fazer isso, cada um de nós, individualmente, e o Brasil, como sociedade, afundamos ainda mais no lamaçal.

Para completar a tragédia, o caminho para sairmos disso, que é a busca pelo conhecimento e a ciência, é banalizado, desvalorizado, ridicularizado até por governantes e seus seguidores. Quem estuda, quem pesquisa e quem ensina no Brasil não tem valor.

Para compensar essa gravíssima falha, nós nos apoiamos, até para afagar nosso ego, na crença de que somos um povo criativo e “esperto”, que consegue “sair de qualquer buraco”. A verdade é que essa “esperteza” está muito mais para malandragem burra. Trabalhamos muitas horas, mais que outros povos, porque somos profissionais de baixa produtividade e baixa inventividade.

Dói dizer isso! Mas temos que encarar o problema de frente se quisermos corrigi-lo.

Somos ótimos seguidores de ordens, com pouca iniciativa. Fomos educados assim! Além disso, trabalhamos mal em equipe. Basta ver a enorme quantidade de chefes tóxicos e as “puxadas de tapete” na própria equipe que ainda temos em pleno ano de 2021.

Que fique claro: ao dizer tudo isso, não estou afirmando que somos um povo “sem jeito” ou condenado. Muito pelo contrário! Mas estamos indo por um caminho muito errado há décadas, sem nenhuma perspectiva de melhora. Basta ver o Ministério da Educação, que está em coma desde que Bolsonaro assumiu o poder.

 

Brasil X Coreia do Sul

Em novembro, pesquisadores da FGV (Fundação Getúlio Vargas) divulgaram um estudo apontando que, se o Brasil investisse, a cada ano, 1% a mais do seu Produto Interno Bruto em ensino básico, o padrão de vida médio da população aumentaria até 26% nos próximos 50 anos. Em 2050, a população brasileira poderia atingir o mesmo padrão de vida da portuguesa. Além disso, investir (bem) na educação 2% do que o país produz levaria a um aumento de quase 32% na produtividade do trabalhador.

Um dos reflexos do nosso terrível fracasso nisso é que, apesar do altíssimo desemprego por aqui, as empresas não conseguem preencher vagas que exigem qualificação profissional e competências específicas, por causa da baixa qualificação média do brasileiro.

É possível mudar esse quadro, mas isso exige trabalho sério e consistente, investimento e tempo. Podemos pegar, como exemplo, a evolução da Coreia do Sul.

Antes da Guerra da Coreia, que durou de 1950 a 1953, o país era um dos mais pobres do mundo, muito mais que o próprio Brasil da época. Após o conflito, o sul capitalista criou um plano de longo prazo de industrialização do país (a partir de tecnologia estrangeira) e de educação de alta qualidade para todos.

O resultado é que, depois de cerca de 30 anos, a Coreia do Sul passou da sua antiga situação miserável para ser um dos Tigres Asiáticos. Não por coincidência, na pandemia de Covid-19, o país ostenta um dos melhores resultados do mundo.

 

Para que estudamos?

A educação certamente tem uma função utilitária, crítica para o desenvolvimento de uma nação. Estudamos para aprender a fazer coisas e, dessa forma, melhorar de vida.

Mas não pode ser apenas isso! A educação também tem o papel de desenvolver em nós o amor pelo conhecimento, transcendendo seu aspecto prático. Apenas alguém que goste de aprender coisas novas impulsiona a sociedade para um estágio superior, pois tem uma mente flexível e aberta à inovação. Infelizmente, o Brasil investe pouco em ciência, e o que se investe vai quase tudo para a ciência aplicada, ficando quase nada para a ciência de base.

No início da minha carreira, eu sempre ouvia que mestrados e doutorados só serviam para quem queria “dar aula”, que era muito melhor fazer um MBA para subir na carreira. De tanto ouvir isso, acabei fazendo primeiro o MBA na FIA, que de fato foi incrível! Mas, quando fiz meu mestrado na PUC-SP alguns anos depois, minha mente se expandiu a um outro nível. Por isso, afirmo que todos deveriam ter a oportunidade de seguir esse caminho: não é “só para dar aula”, mas sim para criar cidadãos e profissionais melhores!

Precisamos plantar em nossas mentes, desde a mais tenra idade, o amor pelo aprendizado. Vejo com tristeza crianças e adolescentes reclamando “por que estudar isso, se nunca será usado”. Tudo que estudamos serve para entendermos melhor o mundo em que vivemos e nos ajudará, quando necessário, a nos posicionarmos melhor nele.

Apesar de ser um profissional da área de Humanidades, quando cursava ainda o Colégio Mackenzie, minha matéria preferida era Física. Isso porque eu tive a sorte de ter bons professores que não se resumiam apenas a “dar a matéria”, como alguns inimigos da educação exigem hoje. Um bom professor vai muito além e contextualiza o conhecimento na vida do aluno e na sociedade.

No mundo ideal, os alunos estudariam para aprender e não para tirar nota na prova, um instrumento de avaliação falho que perpetua essa distorção no objetivo do ensino. Nesse mundo, entenderiam que Língua Portuguesa e Matemática são ferramentas para fazer melhor qualquer coisa na vida e que todas as outras disciplinas, de Química a Filosofia, servem para se desenvolverem mentes livres e se tornarem cidadãos conscientes de seus direitos e deveres.

Todos nós –e não apenas os educadores– precisamos nos engajar pela melhora da educação. Precisamos ser parceiros das escolas e dos professores, resgatando seu valor e sua autonomia, e dando a eles condições para realizar um bom trabalho.

Sem isso, nunca seremos como a Coreia do Sul ou qualquer outra nação desenvolvida. Nossa sociedade permanecerá estagnada e continuaremos sendo indivíduos que produzem pouco e produzem mal. E agora, pelo nosso negacionismo, nem somos aceitos nos aeroportos do mundo.

É isso que queremos para nós e para nossos filhos?

O valor da notícia que informa você

By | Jornalismo | No Comments

Na semana em que o Brasil teve mais de dez mil mortos pela Covid-19, Bolsonaro disse para a população “parar de mimimi” e questionou “até quando as pessoas vão continuar chorando”, ao invés de “enfrentar o problema de peito aberto” e sem “frescura”. Para a maioria das pessoas, essas bravatas são um ataque frontal à vida. Mas há uma fatia considerável da sociedade que não apenas concorda com ele, como o defende.

Como explicar essa polarização em um caso tão extremo e literalmente de vida ou morte?

A resposta passa por outra doença crônica do nosso país, que também se agrava: a maneira ruim como as pessoas se informam. Isso se deve não apenas pela escolha de fontes questionáveis de notícias, mas também como elas chegam até nós, o que hoje acontece majoritariamente pelas plataformas digitais. As duas coisas desempenham igualmente um papel crítico na guerra da desinformação.

Para “combater esse bom combate”, existem, portanto, três atores principais: os veículos de comunicação, as big techs e nós mesmos, o público. Cada um tem seu papel e seus interesses nesse cenário, mas inimigos em comum: a desinformação e as fake news. Para vencê-las, é preciso que os três trabalhem em conjunto, fazendo adaptações e concessões.


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Quando isso não acontece, surgem os efeitos nefastos, como os que estamos vivendo. Não se engane: a qualidade da informação que você consome tem um efeito decisivo na sua vida. Essa afirmação pode soar óbvia, mas, às vezes, o óbvio precisa ser reforçado.

A desinformação não é naturalmente um fenômeno exclusivo do Brasil, mas o fato de ser muito forte aqui explica, ao menos em parte, o fato de estarmos na contramão do mundo no combate à pandemia. Como mostrou a manchete do Estadão desse domingo, dos dez países com mais mortes pela Covid-19, oito registram queda na média móvel de novos óbitos e um, a Índia, tem alta de 8,9%, enquanto, por aqui, esse indicador subiu 30,5%.

Isso acontece porque o tripé entres produtores, distribuidores e consumidores de notícias está desequilibrado. Enquanto as empresas de comunicação sérias se esforçam para produzir um conteúdo de alta qualidade, mas sofrem para impactar uma parcela grande da população, as plataformas digitais atingem virtualmente todo mundo, mas distribuem uma enorme quantidade de porcaria. O público, por sua vez, consome qualquer coisa que lhe é apresentada, tornando-se presa fácil da desinformação.

As empresas de comunicação e as plataformas digitais são um tipo especial de empresa, pois suas atividades influenciam profundamente a vida das pessoas. Portanto, precisam assumir com seriedade seu papel social. Claro que, como qualquer empresa, têm seus objetivos comerciais, mas eles não deveriam jamais se sobrepor ao que melhora a sociedade.

 

Simbiose informativa

Isso nos leva a um intenso debate sobre a eventual obrigação das redes sociais e de buscadores remunerarem as empresas de comunicação por usarem os conteúdos jornalísticos nas páginas dessas plataformas.

A origem desse debate remonta à criação do Google Notícias, serviço noticioso do buscador, lançado em 2002. A partir das notícias de veículos do mundo todo, ele cria um “jornal digital” personalizado para cada usuário.

Os produtores de informações sempre reclamaram que o Google criou um produto com seu conteúdo, sem pagar nada por isso. Ele, por sua vez, se defende dizendo que não tem nenhum ganho direto com a plataforma e que, na verdade, aumenta a audiência dos veículos, pois, se alguém clica em uma notícia, cai direto nela, no site ou aplicativo do produtor.

Com o tempo, essa cisma se expandiu também para as redes sociais, pois seus feeds são inundados de posts com notícias, criados pelos próprios usuários ou pelos veículos. Assim como o Google, Facebook e afins se defendem dizendo que não lucram diretamente com esses links, e que ainda aumentam a audiência dos produtores do conteúdo.

Mas a coisa não é tão simples assim.

O físico britânico Tim Berners-Lee, que criou a Web há 30 anos, já afirmou que um link não carrega em si conteúdo ou valor autoral, pois ele simplesmente leva o usuário de uma página para outra. Isso reforça os argumentos de defesa das plataformas digitais.

Por outro lado, dizer que não ganham nada com essas chamadas de conteúdo alheio é uma falácia! Podem até não ter ganho direto dali, mas elas aumentam a percepção de valor de toda a plataforma pelos usuários, aumentando até mesmo o valor dessas marcas bilionárias.

Há alguns anos, a organização Pew Research Center publicou um estudo que demonstrava que a maioria das pessoas não entra no Facebook para consumir notícias, porém, quanto mais tempo elas ficam nele, mais notícias consomem. Mais que isso: elas se engajam mais com notícias vistas a partir da rede social. Trata-se, portanto, de uma relação simbiótica, de ganho mútuo. E, como tal, todos os envolvidos precisam colaborar entre si.

Há ainda um outro fator a se considerar nesse embate. Os veículos de informação tradicionalmente tinham duas formas de financiamento: a assinatura de seus produtos e a publicidade. As plataformas digitais praticamente acabaram com esse modelo de negócio.

Do ponto de vista da publicidade, muitos anunciantes preferem agora colocar seu dinheiro nas redes sociais e nos buscadores, que custam menos e podem trazer melhores resultados, se bem usados. Quanto às assinaturas, muitas pessoas não se sentem mais atraídas a pagar pela informação, pois o meio digital inundou suas vidas com conteúdo, por mais que a maioria seja ruim.

 

Quem paga a conta?

Diante disso, as big techs vêm sofrendo pressões de conglomerados de mídia e de governos para remunerar os produtores de conteúdo. E, a contragosto, têm se rendido a elas.

No mês passado, um episódio foi emblemático. Depois de o governo australiano introduzir um projeto de lei que obrigaria o Facebook a pagar por todos os posts noticiosos em suas páginas no país, a empresa bloqueou a exibição de qualquer material jornalístico a usuários australianos. Além disso, usuários do mundo todo deixaram de ver material de veículos daquele país. Quatro dias depois, o bloqueio acabou após o governo fazer concessões à empresa de Mark Zuckerberg. O Facebook, por outro lado, se comprometeu a remunerar produtores no mundo todo, anunciando que investirá US$ 1 bilhão no setor jornalístico nos próximos três anos.

A Alphabet, controladora do Google, enfrenta pressões semelhantes e também chegou a ameaçar interromper seus serviços na Austrália pelo mesmo motivo. Mas, assim como o Facebook, a empresa também fechou um acordo de pagamento pelo conteúdo, como vem negociando no mundo todo, inclusive no Brasil. Também no mês passado, ela anunciou um grande acordo com o conglomerado de mídia News Corporation, do magnata Rupert Murdoch, para usar o conteúdo de seus diversos veículos, entre eles “The Wall Street Journal”, “The Times” e “The Sunday Times”. Vale dizer que Murdoch sempre foi um ferrenho crítico do meio digital, como algo que destruía o valor de seus negócios.

As empresas de comunicação, por sua vez, precisam abandonar o papel de vítima, que não lhes cai bem. Em parte, estão nessa situação porque, quando o meio digital ainda se consolidava, se recusaram a adaptar seus modelos de negócios a um público em rápida transformação. Agora “perderam esse bonde” e dependem umbilicalmente das plataformas para que seu conteúdo de qualidade chegue ao público. Basta observar que a audiência de suas home pages desaba há anos, pois as pessoas chegam diretamente às notícias a partir de buscadores e redes sociais.

Sei que em um ambiente de capitalismo selvagem, as boas intenções costumam ser colocadas de lado e até ridicularizadas. Mas, como disse antes, essas empresas têm um papel social que está na essência de seus negócios e podem se beneficiar mutuamente do trabalho umas das outras. Portanto, precisam aprender a colaborar mais.

Quanto a nós, o público de todo esse conteúdo, cabe escolher e incentivar aqueles que realmente produzem bom jornalismo. Apesar de estar “fora de moda”, assinar uma ou mais publicações melhorará nossa visão de mundo e ajudará quem trabalha contra a desinformação. Do lado das plataformas digitais, como inevitavelmente continuaremos consumindo conteúdo por elas, precisamos reforçar o nosso senso crítico, para não acreditarmos em qualquer porcaria ali.

Caso contrário, se nenhum desse atores fizer a sua parte, continuaremos vendo pessoas apoiando a morte e se negando a tomar vacinas, temendo virar jacaré.

Pode ter menos pão, desde que tenha muito circo

By | Educação | No Comments

Um ano e 250 mil mortos depois do início da pandemia de Covid-19 por aqui, os brasileiros arranham caminhos para continuar tocando a vida. Diante da ausência de um norte consistente e seguro indicado pelas autoridades, buscamos garantir nossas necessidades básicas em meios ao caos.

Tradicionalmente tais necessidades são garantidas pelo Estado, até para sua própria manutenção. Na antiga República e no Império Romano, os governantes descobriram que era preciso garantir às pessoas duas coisas: o pão e o circo. O primeiro atendia parte do sustento, enquanto o segundo garantia a diversão, para diminuir as tensões do cotidiano.

Passados 2.500 anos, o panem et circenses, como era chamada essa política, continua valendo na relação entre governantes e governados, e invadiu também outras áreas, como o mundo do trabalho e até nossas relações pessoais. Além disso, o pão e o circo são representados de maneiras cada vez mais subjetivas e muito ligadas às redes sociais.

Uma coisa, entretanto, não mudou: se o pão diminui, é preciso caprichar no circo!


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Políticos jogam muito bem esse jogo, mas eles não estão mais sozinhos nesse tabuleiro. Graças aos meios que as redes sociais oferecem para se ganhar muita visibilidade, empresas e até indivíduos criam seus circos para ganhar o próprio pão.

A princípio, não há nada de errado em usar criativamente os recursos digitais, muito pelo contrário! O problema surge quando se ultrapassa o limite da ética ao se enganar os mais diferentes públicos, em uma espécie de estelionato ideológico.

O circo romano tem um aspecto muito perverso. Ao apresentar ao cidadão alguém que sofre muito mais que ele, seus problemas parecem ficar menores. Por isso, a plateia urrava em êxtase diante de gladiadores obrigados a lutar até a morte ou ao ver inimigos do Estado sendo entregues a leões. Qualquer problema fica menor diante do sangue jorrado na arena, pelo simples fato de quem assiste continuar vivo e estar sentado ao lado do governante, que promove a carnificina.

A lógica permanece até hoje, mas ganha novos recursos e novos promotores do espetáculo.

As autoridades continuam sendo soberanas em momentos de circo sem pão, e o nosso governo atual se destaca nisso. Diante de sua incompetência de solucionar as crises da saúde, do trabalho, da economia estagnada, da educação, entre muitas outras, abusa de bravatas vazias contra inimigos reais ou imaginários, para manter sua base de apoio incendiada. Com isso, cria uma densa cortina de fumaça que tira da população o foco nos problemas verdadeiros, mantendo aqueles que o apoiam anestesiados em uma fantasia grotesca.

Mas os políticos não estão sozinhos: reality shows também são um incrível exemplo de um circo romano moderno.

 

A vilã de uma nação

Sem dúvida, o melhor exemplo para entender esse fenômeno é o “Big Brother Brasil”. E um acontecimento da semana passada foi emblemático: a cantora Karol Conká foi eliminada do programa com uma rejeição recorde do público de 97,17%. Quando isso anunciado, pessoas gritaram nas janelas da minha vizinhança, algo que normalmente só acontece em partidas decisivas de futebol e em recentes manifestações políticas.

Karol foi alçada ao posto de supervilã do BBB 21 porque, segundo o jargão do programa, “jogou mal”. Foi arrogante, preconceituosa, agressiva, o que culminou na inédita saída espontânea de outro participante, Lucas Penteado.

Quando deixou a casa, ela descobriu que tinha perdido algo como 40% de seus seguidores nas redes sociais e contratos de trabalho que chegariam a R$ 5 milhões. Mas será que ela merecia tamanha punição, mesmo diante de seus comportamentos reprováveis no programa? Afinal, aquela casa costuma ser lar de muitas intrigas e muito veneno entre os participantes.

Mas, na lógica do circo, essa pergunta é irrelevante. A partir do momento que recebeu o selo de “pessoa má da história”, a audiência decretou que ela deveria ser imolada publicamente. O fato de ela ser famosa potencializou o sentimento. E a possibilidade de seu destino ser decidido por cada um de nós, impondo uma humilhante votação praticamente unânime pela sua saída, é um dos segredos do sucesso desse tipo de programa.

Cada um de nós se torna um pequeno imperador romano que, com o polegar para baixo, determina a morte do perdedor.

 

O circo nosso de cada dia

No mundo atual, não é preciso ser uma grande emissora de TV ou um presidente da República para armar um circo. Com as redes sociais, qualquer um pode ser dono de um picadeiro, apresentador e artista.

Infelizmente, a maioria dessas apresentações é de baixíssima qualidade. Em uma sociedade cada vez mais dependente de espetáculos, de atos teatrais, de bufões e de fanfarronices, quanto pior, melhor.

Isso explica a ascensão e queda das diferentes redes sociais. Quem aqui se lembra do Orkut, que nasceu como um interessante experimento social e terminou com um nível baixíssimo das publicações? O mesmo aconteceu com o Facebook, que cresceu diante do declínio daquele concorrente, mas, há muitos anos, vem sofrendo com a piora das conversas ali. Criou-se até o neologismo que diz que o Facebook foi “orkutizado”. O mesmo aconteceu com o Twitter, o Instagram e até o LinkedIn, uma rede que até o início de 2018 resistia a esse processo.

Esse raciocínio pode parecer elitista e, de certa forma, é mesmo. Quanto mais sucesso uma plataforma digital faz, mais ela se parece à população que representa. Oras, se essa população aprecia ver o sangue de quem não gosta ou prefere conversas com a profundidade de um pires, para poder esquecer de seus próprios problemas, aos poucos as redes passarão a oferecer isso.

Isso é uma tragédia anunciada! Quando as pessoas não saem do mundo digital, sendo profundamente influenciadas pelo que veem ali, o discurso raso anestesia todo mundo, fazendo com que deixem seus problemas para lá (sem resolvê-los), dedicando-se apenas à “diversão”.

O circo se torna muito mais importante que o pão!

São nessas horas que os grupos de poder deitam e rolam! Enquanto a massa cega se diverte, eles podem fazer o que quiserem, até mesmo se preocupar menos em dar o pão.

Precisamos resgatar o nosso senso crítico, autoestima e coletividade. Sem eles, logo seremos nós mesmos a alimentar os leões, para o deleite dos que sobrarem.

A hora das empresas mostrarem seu valor

By | Educação | No Comments

Estamos completando um ano de pandemia de Covid-19, que jogou empresas, profissionais e clientes em um turbilhão que pôs em xeque fórmulas consagradas de relacionamento entre esses grupos. Isso deixou um vazio que agora todos tentam preencher com um marketing reformulado para esses novos tempos.

Surge então uma pergunta com ares quase freudianos: o que, afinal, as pessoas querem?

Essa não é uma pergunta retórica. Alguém ainda duvida que o mundo é muito diferente do que há apenas 12 meses? Mesmo para aqueles que já voltaram a suas atividades normais (ou talvez nunca as tenham abandonado), as transformações foram grandes. As pessoas agora se preocupam consideravelmente com novos valores e esperam que as companhias estejam juntas a elas nisso.

Empresas e profissionais precisam identificar e abraçar tais mudanças, para seu posicionamento. Mas a grande transformação é que essas informações não devem ser usadas em modelos tradicionais de marketing e muito menos com as irritantes e acefálicas “formulinhas de lançamento” que inundam as redes sociais. Isso precisa nutrir transformações reais no negócio para que ele genuinamente se aproxime dos valores do consumidor.


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Não é pouca coisa! A edição mais recente do “Trust Barometer”, aponta que as pessoas esperam que as empresas se engajem e solucionem temas sociais, que, a princípio, não seriam de sua responsabilidade. Essa pesquisa, feita pela consultoria americana de marketing Edelman há 20 anos, mede o índice de confiança do público em empresas, governo, mídia e ONGs.

Nessa edição, foram ouvidas 33 mil pessoas de 28 países, inclusive o Brasil, de 19 de outubro a 18 de novembro de 2020. Ela aponta que, dessas instituições, as empresas são as únicas em que o público deposita mais confiança no momento. E, no Brasil, esse traço é ainda mais forte.

O relatório indica que 86% dos entrevistados no mundo esperam que marcas solucionem problemas sociais. No Brasil, esse índice bate incríveis 97%! Isso acontece porque a população quer que as empresas atuem onde o governo falha, e a percepção que o governo vem falhando aumentou muito em 2020 no Brasil, especialmente em questões sociais.

Isso se explica, pelo menos em parte, porque as pessoas passaram a viver e fazer mais coisas em casa: ela ganhou muita importância frente ao mundo externo. Por isso, necessidades pessoais e da família se sobrepõem agora a status e imagem externa.

Globalmente, as maiores preocupações são o sistema de saúde (mencionado por 62% dos entrevistados), a pobreza (53%), a educação (53%), as mudanças climáticas (51%) e as fake news (50%).  No Brasil, a pobreza aparece em primeiro lugar (indicada por 58% dos respondentes), seguida por questões trabalhistas (52%), mudanças climáticas (51%) e racismo estrutural (51%).

 

Confiança se transforma em vendas

Como já dito, segundo o “Trust Barometer”, praticamente todos os brasileiros esperam que companhias solucionem problemas sociais. No vácuo deixado pela inoperância governamental, 72% almejam que as empresas tomem medidas para ajudar comunidades em tempos de crise.

Uma pergunta que muitos gestores podem se fazer nesse momento é: “o que eu ganho fazendo isso?” E, de uma maneira bastante simples, a resposta é: mais clientes e mais vendas.

As pessoas estão crescentemente atentas ao que as empresas pregam e também ao que elas fazem. É necessário que o discurso seja corroborado por ações. No Brasil, ainda há um grande espaço a ser ocupado nisso, o que representa uma incrível oportunidade para empresas que estejam dispostas a sair de sua zona de conforto.

A pesquisa mundial indica que os consumidores com alta confiança na marca são mais fiéis (75%) e mais engajados, o que implica em compartilhar seus dados (60%) e até defender e recomendar a marca (78%). Mas apenas 37% dos brasileiros acham que as marcas que usam estão fazendo um excelente trabalho em ajudar o país e o povo a enfrentar os desafios atuais.

Para obter essa confiança, palavras não bastam. Na verdade, se elas não forem verdadeiras, isso pode trazer enorme prejuízo à marca, pois a decepção pode significar a fuga dos clientes.

No Brasil, 72% dos entrevistados afirmam ser mais efetivo a empresa tomar medidas para ajudar trabalhadores e comunidades locais em tempos de crise, contra 28% que acreditam que isso acontece quando ela assume o compromisso publicamente. E, para demonstrar como as companhias por aqui ainda têm um longo caminho para fazer isso direito, 62% dos brasileiros afirmam que as marcas usam questões sociais e políticas importantes apenas como manobra para vender mais produtos.

Isso é um tiro no pé! Tanto que 64% dos entrevistados no Brasil afirmam que as marcas devem pensar primeiro na segurança do público, tendo cuidado ao encorajar as pessoas a voltar a lojas, restaurantes e outros locais públicos.

 

A vez das empresas

Todos nós queremos retomar a economia. O fim do auxílio emergencial em dezembro e a incapacidade do governo de encontrar uma maneira de reeditá-lo abre uma crise humanitária que jogará milhões de brasileiros para baixo da linha da pobreza. A crise das vacinas, também decorrente da crônica inoperância de Brasília no tema, piora ainda mais a situação.

Com isso, o país “trava nas quatro rodas”. A volta a uma “vida normal” é desejo de todos. Mas a discussão do “novo normal”, que, a essa altura, já parece velha, passa necessariamente por resolver esses e outros problemas sociais com a máxima urgência. A economia simplesmente não reagirá sem isso.

Diante de um poder público claudicante, a população espera que as empresas ocupem esse espaço. Felizmente temos visto alguns bons exemplos, que podem inspirar outros.

No início da pandemia, quando tudo estava ainda mais desestruturado que hoje, empresas produziram itens urgentemente necessários. A Ambev, por exemplo, produziu álcool em gel para ser doado a hospitais. Outras empresas produziram máscaras de pano e face shields para profissionais da saúde e a população em geral.

O Magazine Luiza vem se destacando em ações concretas que demonstram o alinhamento de seus valores aos da maioria da população. Há duas semanas, a empresa liderou a ação “Unidos Pela Vacina”, que visa incentivar a imunização, ajudar (e pressionar) o governo e até trabalhar na logística de distribuição das doses. Algumas ações chegam a criar polêmica, como o programa de trainees apenas para negros, uma ação afirmativa lançada em setembro passado e criticada por muita gente. Nem por isso, a empresa voltou atrás com o que precisa ser feito.

Essas ações estão diretamente ligadas à liderança de Luiza Trajano, presidente do conselho do Magalu. E isso é algo que também precisa ser mencionado. Essas decisões devem ser abraçadas por todos na organização e dependem do apoio dos gestores. Caso contrário, podem se reduzir a meras ações midiáticas vazias, exatamente o que as pessoas condenam.

É importante que fique claro que não são apenas ações grandiosas que funcionam aqui. Ações simples e bem intencionadas, mesmo de empresas pequenas ou profissionais autônomos, podem produzir resultados expressivos dentro de sua esfera de influência, e são igualmente bem-vindas.

Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, disse que o “lucro não é a explicação, causa ou razão de comportamento de negócios e decisões de negócios, mas o teste de sua validade.” Apesar de essa frase ter mais ou menos meio século, ela serve perfeitamente para esse momento. Afinal, a empresa que trabalha apenas para ter lucro eventualmente chega lá. Por outro lado, as companhias que entendem que são entidades ativas dentro de uma sociedade e percebem que trabalham para a melhoria dela tendem a ter um lucro maior e a colher benefícios que as primeiras nem imaginam existir.

Portanto, se você é um gestor de uma empresa ou de sua própria carreira solo, preste atenção no que você está fazendo para a sociedade, de uma maneira genuína. Por outro lado, se você é um cliente, não tenha dúvida em exercitar seus direitos ao escolher produtos e serviços daqueles que efetivamente estão trabalhando para melhorar toda a sociedade.

Essa não é uma visão dourada ou irreal do mundo. É o caminho mais moderno para ser bem sucedido nos negócios.

Sinto informar, mas o mundo não existe para lhe servir

By | Tecnologia | No Comments

O meio digital nos deu poderes com os quais talvez não estejamos prontos para lidar, e isso pode estar destruindo nossa humanidade!

Costumo dizer que quando algo aparece em novelas ou reality shows, a coisa definitivamente já está integrada na vida da maioria da população. E uma coisa que vejo representado nesses programas, nos últimos anos, é o poder de observar, influenciar e até destruir a vida alheia com as redes sociais.

Vivemos uma época de crescente tirania digital, em que muitos acham que o mundo tem a obrigação de lhes agradar. Caso contrário, agem como se tivessem o direito de punir severamente quem quisessem.


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No Big Brother Brasil, maior reality show do país, a presença nas redes já é critério de escolha dos participantes há algumas edições. Na que está acontecendo agora, uma palavra não sai da boca de alguns deles: “cancelamento”, esse comportamento nefasto de uma multidão abandonar e criticar pesadamente alguém nas redes ao mesmo tempo, na tentativa de calar suas ideias.

Oras, como alguém entra no BBB, o ambiente de maior exposição do país, com medo de ser “cancelado”? Até mesmo porque uma coisa é certa: ninguém agrada todo mundo!

Por outro lado, será que alguém merece ser “cancelado” ou qualquer coisa do tipo? Essa punição me parece severa demais, especialmente porque a condenação vem sempre da cabeça de uma pessoa ou de um grupo, que pode estar errado. Mais que isso: uma ação impensada e às vezes até gratuita dessas pode destruir a vida de alguém! E, se hoje o indivíduo é algoz, amanhã mesmo pode se tornar vítima.

Para entendermos de onde veio essa aberração comportamental, precisamos conhecer a história dos relacionamentos on line.

 

A origem das conversas on line

Quando surgiram os primeiros serviços na Web, existiam apenas as salas de bate-papo dos portais para conhecermos outras pessoas, e aquilo já parecia incrível: a chance de falar com muitas pessoas ao mesmo tempo, onde quer que estivessem, era inebriante! Depois vieram os sites de namoro, cada vez mais segmentados, e finalmente os aplicativos “de pegação”.

Lá atrás, existia a falsa ideia de que a vida on line e a off line eram separadas. Isso era parcialmente explicado por que a tecnologia era precária: até para nos conectarmos, tínhamos que estar diante de um computador, on line por uma lenta conexão telefônica. Esse ritual criava uma ruptura que sugeria que nossa presença nas redes era dissociada de quem somos.

Para quem procurava conhecer novas pessoas ou até explorar novas possibilidades, isso era muito interessante: o aparente anonimato digital permitia que fôssemos quem quiséssemos! Além disso, se algo não saísse como planejado, bastava deixar de falar com a outra pessoa. Eventuais danos ficariam restritos àquele caso.

Entendo que o fim de um relacionamento pode ser doloroso, não desprezo isso. Mas infelizmente isso evoluiu para algo muito mais abrangente e pior, à medida que nossa vida se tornou cada vez mais ligada e dependente do meu digital. Com os smartphones, estamos permanentemente on line e muitas, muitas coisas que fazemos passam pela Internet, seja trabalho, lazer, estudos, compras e até relacionamentos.

Aquele mecanismo pueril de que, se algo não desse certo, bastaria excluir o outro também evoluiu e ficou mais poderoso, resultando nos infames “cancelamentos”, com seus danos crescendo na mesma escada. Nesse ponto, surgem os tiranos digitais, que podem ser restritos ao grupo da família no WhatsApp ou atingir escala global. Em qualquer caso, “brincam de deus”, exercitando alguns de seus piores sentimentos.

Sua humanidade desce pelo ralo quando são incapazes de demonstrar o menor sinal de empatia com o outro: se não me servir, não fizer o que desejo ou simplesmente pensar de maneira diferente, então se decreta que deve ser varrido de sua própria existência ou que, pelo menos, sofra muito.

Essa ilusão de onipotência chega às raias da loucura ao se manter pessoas em “cativeiros digitais”: quando não se quer falar com o outro, ele é bloqueado. Quando, por qualquer motivo, precisa-se dele novamente, o bloqueio é desfeito.

Isso é insano! A outra pessoa também tem sentimentos, desejos, uma vida, enfim. Não está nesse mundo para servir a ninguém. Insistir nessas ações pode indicar uma psicose que nos foi “presenteada” pelo meio digital.

 

Devastando a psique

O que mais me preocupa é que não há indícios de que as pessoas possam melhorar nesse ponto. Pelo contrário, vejo cada vez mais gente disposta a brincar em seu fantasioso “Olimpo digital”.

Temo que cheguemos a um cenário de exclusão digital como o visto no episódio “Natal”, da série “Black Mirror”, disponível na Netflix. A exemplo do que se faz hoje nas redes sociais, nessa história, os indivíduos podem efetivamente bloquear outros na sua realidade. Graças a sinistros implantes que todas as pessoas lá têm, ao se bloquear um indivíduo, ele não será mais capaz de ver ou ouvir quem o bloqueou (e vice-versa), mesmo que estejam frente a frente. Sua imagem será substituída por uma silhueta animada cinza e sua voz ficará incompreensível.

Se essa tecnologia já estivesse disponível, receio que muita gente a adotaria alegremente. O problema é que, quando existe uma grande demanda reprimida no mercado, eventualmente um produto acaba se tornando realidade.

Quando teremos algo assim? Apesar do que acabei de dizer, espero que nunca!

Isso não é engraçado e muito menos inofensivo. “Apagar alguém da existência” de outras pessoas a seu redor pode ter efeitos psicológicos devastadores para a vítima. Quem me conhece sabe que sou um entusiasta e um grande defensor no mundo digital, mas isso não pode jamais matar a nossa humanidade.

Infelizmente, aqueles sistemas primitivos e quase inocentes de relacionamento dos anos 1990 foram a semente para esse comportamento nocivo que temos hoje. As pessoas se tornaram brutalmente intolerantes. Não aguentam frustrações em qualquer área de sua vida. Estão prontos a “cancelar” quem quer que seja por questões sentimentais, sexuais, políticas, religiosas e até esportivas.

Isso precisa ser revertido o quanto antes! Infelizmente parece que o mundo caminha justamente rumo ao que se vê naquele episódio, pois muitos indivíduos e grupos descobriram que manipular o outro pode ser um grande negócio. E, usando outra referência a séries, no caso “The Boys”, disponível no Amazon Prime Video, muitos percebem que manipular o ódio das multidões pode trazer mais dividendos que manipular seu amor.

Corremos o risco de estagnar no nosso desenvolvimento como espécie. Crescemos quando somos confrontados com as diferenças e a sociedade só se desenvolve com o trabalho conjunto para o bem de todos, e não de apenas um grupo.

Se não se gosta de alguém ou de algo, basta não comprar aquilo. Não é preciso destruí-lo para que ninguém mais o consuma.

O mundo não existe para nos servir: vivemos em constantes trocas. Sempre foi assim e sempre será! As pessoas devem reaprender que não são o centro do universo e que precisam do outro.