A OpenAI confirmou que passará a exibir anúncios ao longo das conversas do ChatGPT com seus usuários no Brasil, nas próximas semanas. Parte do mercado anseia embevecido por esse inventário virtualmente infinito e com poder de convencimento sem precedentes. Mas a novidade pode transformar uma plataforma vista como neutra em um vendedor opaco, capaz de se valer de trocas íntimas para influenciar escolhas decisivamente, sem que o usuário perceba.
Naturalmente, empresas devem aumentar suas receitas, especialmente quando são muito deficitárias, como é o caso dessas grandes plataformas de inteligência artificial. Ainda assim, a ética propõe que nem tudo que possa ser feito deva ser feito.
Indicar o que é publicidade resolve um problema de formalização, mas trai a confiança que a própria interface conversacional criou antes de qualquer anúncio aparecer. Quando a resposta chega em primeira pessoa, articulada como julgamento de uma voz que parece pensar com o usuário, a autoridade já está formada quando a peça surge logo abaixo, ainda contaminada por essa proximidade.
O ChatGPT acabou de atingir 1 bilhão de usuários no mundo. Os anúncios na plataforma foram lançados nos EUA em fevereiro, e depois expandidos para Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Agora, usuários do Brasil, México, Reino Unido, Japão e Coreia do Sul também verão anúncios nos planos gratuito e Go (o mais barato).
Com a IA generativa, as big techs estão levando a humanidade a um novo patamar de produtividade e desenvolvimento, o que merece aplausos. Mas nem esse feito lhes dá carta branca para fazerem o que bem entenderem. É no mínimo hipócrita ignorar os evidentes riscos de manipulação nesse lançamento.
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Por enquanto, a OpenAI adota uma política bastante restritiva. Os anúncios são limitados a categorias como bens de consumo, serviços locais, viagens, entretenimento, educação e produtos digitais. Setores sensíveis, como saúde, política, apostas, álcool, tabaco, drogas recreativas e conteúdo adulto permanecem proibidos. A própria empresa afirma, porém, que essas categorias “podem se expandir ao longo do tempo”, à medida que seus sistemas de revisão e conformidade amadureçam.
Essa ressalva merece atenção. As grandes plataformas digitais costumam flexibilizar limites diante de oportunidades de crescimento da receita. Não há evidências de que a OpenAI seguirá esse caminho, mas tampouco há garantias de que as restrições atuais permanecerão. Diante do histórico de outras big techs, que repetidamente ampliaram a exploração comercial de seus serviços em detrimento da experiência dos usuários, o ônus da prova recai sobre quem promete que, desta vez, será diferente.
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O ChatGPT exibe anúncios claramente identificados ao final de algumas respostas. A seleção leva em conta contexto da interação e alguns sinais de uso da plataforma, sem compartilhar conversas ou dados pessoais com os anunciantes. A empresa vem ampliando gradualmente os formatos e as ferramentas para as agências.
A recepção dos anunciantes tem sido cautelosamente entusiasmada. Há interesse porque o ChatGPT concentra intenção alta e contexto de compra, mas ainda existe hesitação por falta de histórico, transparência limitada e dúvidas sobre mensuração e conversão real. Apesar do apetite que o canal desperta, o mercado vem tratando os primeiros testes como experimento, não como mídia já madura.
Entre os usuários, muitos temem que a publicidade comprometa a confiança em uma ferramenta de decisões pessoais e profissionais. Já reguladores, especialmente na Europa e no Canadá, acompanham de perto os impactos sobre privacidade, transparência e concorrência, exigindo garantias de que a segmentação comercial não amplie riscos ao tratamento de dados nem reduza a autonomia dos usuários.
Mudança profunda na publicidade
Ainda há poucos estudos acadêmicos que tratem do tema, pelo seu ineditismo.
Um dos mais interessantes foi publicado em maio por Jingyi Qiu e Qiaozhu Mei, da Universidade de Michigan (EUA). Eles argumentam que a publicidade em plataformas de IA representa uma mudança estrutural na relação entre empresas e consumidores. Em vez de simplesmente exibir anúncios, a IA pode incorporar interesses comerciais ao próprio processo de construção das respostas, influenciando recomendações de forma sutil e personalizada. Para os autores, o debate deixa de ser se há anúncios e passa a ser como garantir que incentivos econômicos não passem a moldar, de maneira invisível, os critérios usados pela IA para orientar as decisões dos usuários.
Outro estudo da mesma universidade, publicado por Brian Jay Tang e colegas em dezembro, mostra que a publicidade em interfaces conversacionais se beneficia da relação de confiança construída ao longo do diálogo com a IA. Em experimentos com usuários, os pesquisadores observaram que a conversa contínua reduz o distanciamento crítico normalmente aplicado à publicidade, tornando anúncios personalizados mais persuasivos e, muitas vezes, menos perceptíveis, mesmo quando são claramente identificados como conteúdo patrocinado, como faz o ChatGPT.
Por fim, Addison Wu e colegas das universidades americanas de Princeton e de Washington publicaram em abril um artigo em que argumentam que o maior risco da publicidade em plataformas de IA não é a existência de anúncios, mas a possibilidade de interesses comerciais influenciarem recomendações aparentemente neutras. Os autores observaram que incentivos econômicos podem alterar respostas mesmo sem misturar anúncios ao texto principal, o que relativiza a ideia da OpenAI de separar publicidade das respostas. O estudo reforça a necessidade de mecanismos de transparência, auditabilidade e fiscalização capazes de verificar quando uma recomendação continua sendo técnica e quando passa a ser comercial.
A decisão de o ChatGPT ou qualquer outra plataforma de IA exibir anúncios é prerrogativa exclusiva de seus desenvolvedores. Mas a sociedade precisa de garantias de que uma tecnologia cada vez mais usada para estudar, trabalhar, consumir e tomar decisões preserve a independência de suas recomendações quando seu modelo de negócios passa a depender justamente da influência sobre essas decisões. Essa discussão precisa começar antes que a prática se torne irreversível.
Há pelo menos 20 anos, tentamos identificar publicidade disfarçada de conteúdo. Agora precisaremos aprender a reconhecer quando interesses comerciais tentam influenciar aquilo que uma inteligência artificial recomenda. Se falharmos nessa tarefa, talvez descubramos tarde demais que o principal produto vendido por essas plataformas nunca foram anúncios, mas a nossa confiança.



