Elon Musk, que decidiu suspender temporariamente a compra do Twitter para saber quantos usuários falsos existem na plataforma

Por que usuários falsos incomodam Elon Musk e atrapalham nossas vidas

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Elon Musk, o homem mais rico do mundo, adora aparecer na mídia. Desde o dia 25 de abril, quando formalizou sua proposta de compra do Twitter por US$ 44 bilhões, ele não sai do noticiário. No dia 13, ele acrescentou mais um capítulo nessa novela, dizendo que havia suspendido temporariamente o negócio, até ter certeza sobre a quantidade de usuários falsos na plataforma. Muita gente não vê problemas nisso, mas esses perfis atrapalham os negócios de qualquer rede social e pioram muito a vida de todos nós.

Longe de ser um problema restrito a essas plataformas digitais, os usuários falsos se transformaram em um câncer social, justamente pelo poder de convencimento que elas têm sobre bilhões de pessoas. Suas ações podem literalmente distorcer a realidade, legitimando verdadeiros absurdos.

Portanto, goste-se ou não das ideias de Musk por trás de sua compra do Twitter, esse recuo do bilionário no negócio pode ser educativo.


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“O acordo com o Twitter está suspenso temporariamente aguardando detalhes que sustentem o cálculo de que spams/contas falsas de fato representam menos de 5% dos usuários”, disse Musk em um tuíte.

Essa estimativa é do próprio Twitter, mas especialistas acreditam que essas contas falsas possam chegar a 30% do total da base. O próprio Musk ventilou recentemente a possibilidade de que mais de 90% dos usuários do Twitter sejam contas falsas. Isso seria uma tragédia, mas demonstraria o tamanho do problema.

No primeiro trimestre, o Twitter reportou 229 milhões de usuários ativos diariamente, 15,9% a mais que há um ano. Só que, quanto maior a porcentagem de contas falsas, menos atraente a plataforma fica para anunciantes. Por isso, Musk quer mais detalhes desses números da plataforma. Analistas acreditam que ele possa até pedir um desconto sobre o valor oferecido pela compra.

Por trás dessa preocupação de Musk, existe uma indústria que polui as conversas e atrapalha a vida de quem busca um engajamento honesto nas redes sociais. Ela se divide entre bots (sistemas que controlam perfis como se fossem pessoas) e trabalhadores reais que controlam centenas de contas falsas. As duas modalidades têm o mesmo objetivo: gerar artificialmente uma enorme quantidade de interações para quem os contrata.

Isso é resultado dos algoritmos das redes sociais. Nada faz um assunto, pessoa ou empresa ficar tão popular quanto um alto engajamento (seguir perfis, curtir ou comentar publicações). Por isso, algumas empresas descobriram que poderiam oferecer esse serviço àqueles que desejassem colher frutos de grandes exposições digitais.

A prática é proibida por todas as redes sociais. Elas possuem algoritmos para identificar esses perfis inautênticos, eliminando sumariamente todos que encontra. Até os perfis de quem contrata esses serviços podem ser penalizados, com perda de relevância, suspensão e até bloqueio definitivo.

É por isso que contas falsas controladas por pessoas são mais valorizadas que as por bots. Ainda assim, como esses trabalhadores ganham das “fazendas de cliques” que os contratam apenas milésimos de real por cada interação, eles se veem forçados a operar centenas de contas e automatizar as tarefas, para que tenham um ganho razoável. Isso acaba aumentando o risco para eles mesmos e para quem os contrata.

Portanto, o sucesso desse trabalho passa por criar contas e interações que se pareçam legítimas. Nas próprias redes, há muitas dicas para isso. Existe até um negócio derivado dele, que são empresas dedicadas a criar perfis que se pareçam legítimos.

Uma das dicas que circulam por aí é não usar fotos de pessoas reais, e sim imagens geradas por inteligência artificial, evitando o crime de falsa identidade. Os defensores da prática dizem que assim os perfis não seriam falsos. Mas isso é como dizer que uma nota de R$ 300 é legítima só porque foi impressa em casa, depois de ter sido criada no Photoshop.

 

Distorção da realidade

As redes sociais combatem essa prática porque contraria os interesses de seu negócio. Todas elas faturam milhões entregando publicidade a quem têm grande chance de comprar o produto anunciado. Sua assertividade depende da coleta de informações de cada um de seus usuários, o que é feito pelas interações de todos e pelo cruzamento de dados de usuários.

As contas falsas atrapalham isso porque podem confundir os algoritmos nessa coleta, diminuindo a efetividade dos anúncios. Além disso, contas falsas e bots não compram nada! Por isso, ambos tornam as plataformas menos atraentes para os anunciantes.

Para os usuários, essa turma também provoca pesados prejuízos. Na semana passada, em uma aula sobre fake news que ministrei na pós-graduação em Direito Digital e Compliance da Damásio Educacional, expliquei que os algoritmos das redes sociais tentam nos mostrar conteúdos que consideremos interessantes, para que continuemos usando a plataforma. Mas a ação desses fakes faz com que deixemos de ver aquilo que nos interessaria para ver o que desejam políticos, empresas e qualquer um que queira nos convencer de algo.

Isso é um grande negócio para eles! As plataformas digitais ocupam hoje um espaço tão central em nossas vidas, que a massificação de qualquer ideia em suas páginas transforma em uma aparente verdade mesmo uma completa bobagem. E assim as massas são manipuladas de maneira sem precedentes, colocando em risco a democracia e até a sociedade organizada.

Isso não é pouca coisa, nem algo que possamos ignorar candidamente. Os fakes estão efetivamente tornando nossa vida pior!

Combater isso é, portanto, papel de todos. As redes sociais já fazem isso, até mesmo porque seu negócio está em jogo. Mas elas precisam se esforçar ainda mais!

Por outro lado, quem contrata esses serviços deveria parar de fazer isso. Sim, eu sei que isso seria pedir demais deles! Afinal, entre os principais apoiadores dessa indústria, estão políticos, celebridades, influenciadores digitais e até pequenas empresas. Todos querem aumentar seus negócios pela exposição artificial nas redes. Mas, ao fomentar essa prática, pervertem o próprio funcionamento das plataformas, prejudicando a sociedade.

As agências que contratam influenciadores também têm um papel importante na solução do problema. Hoje privilegiam pessoas com grande quantidade de seguidores e curtidas, ignorando a qualidade não só do que se publica, mas das conversas que podem ser geradas a partir disso. Quase como uma regra, quanto maiores essas “métricas vazias”, piores as conversas e vice-versa. E, para uma marca que busca construir uma boa reputação, boas conversas com seu público são essenciais.

Quanto a nós, os usuários, também podemos colaborar para a construção de uma vida digital melhor para todos. Em primeiro lugar, devemos desenvolver uma desconfiança saudável sobre o que consumimos nas redes.

Se algo lhe provoca emoções muito intensas, verifique se aquilo é verdade antes de curtir e principalmente de compartilhar. Denuncie conteúdos e perfis falsos. Por outro lado, valorize aqueles que se esforçam para construir uma presença verdadeira e propositiva nas redes: esses são os verdadeiros influenciadores!

Ao formalizar seu desejo de comprar o Twitter, Musk disse que a rede seria “a praça digital em que tudo que importa para a humanidade é debatido”. Isso é parcialmente verdade. Do jeito que está, o que aparece ali é movido pelo que importa a uns poucos, que manipulam milhões!

Precisamos resgatar essa “praça”, para voltar a ser um espaço saudável de trocas legítimas, deixando de lado o atual espaço para carnificinas digitais.

 

Colapso das criptomoedas mostra que elas não servem para quem tem coração fraco

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Não há grandes ganhos sem grandes riscos. Essa máxima se aplica perfeitamente às criptomoedas, que têm no Bitcoin sua maior estrela. Mas o colapso desse mercado na semana passada demonstra que o investimento em moedas digitais não funciona para qualquer um.

A cotação do Bitcoin despencou para o valor mais baixo desde 2020. A TerraUSD, outra criptomoeda que se promove como “estável”, entrou em colapso. Quando a poeira baixou, cerca de US$ 300 bilhões (mais que R$ 1,5 trilhão) tinham evaporado em poucos dias.

Portanto, se a essa altura você ainda se pergunta se deve ou não investir em criptomoedas, a resposta provavelmente é não! Mas isso não quer dizer que elas sejam ruins.


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No pânico dos últimos dias, o Bitcoin despencou 60% frente ao que valia em novembro. O Ether, outra criptomoeda popular, perdeu mais de 30% de seu valor na semana.

Grandes ganhos e perdas fazem parte desse jogo. Mas esse tombo foi muito amargo porque agora há muito mais gente investindo nisso. O instituto Pew Research Center calculou que hoje 16% dos americanos têm algum dinheiro empenhado em criptomoedas; em 2015, era apenas 1%. Isso quer dizer que quase 53 milhões de pessoas, isso considerando apenas os EUA, perderam proporcionalmente muito dinheiro na semana passada.

Como qualquer outro investimento de risco, para minimizá-lo, é preciso estar atento a diversos sinais do mercado que podem impactar a confiança no ativo. É por isso que os grandes investidores perdem proporcionalmente menos que os “amadores”, que não podem ou simplesmente não querem ficar se preocupando com isso.

Nesse caso, os sinais foram a inflação acima do normal, o aumento das taxas de juros em vários países e incertezas pela guerra na Ucrânia. Tudo isso fez investidores tirarem dinheiro de investimentos de risco (como ações nas bolsas), correndo para os mais seguros. Consequentemente, o valor de tudo caiu. A situação das criptomoedas foi a mais dramática justamente por serem mais arriscadas que praticamente qualquer outro investimento, pois não são garantidas por nenhum governo ou instituição.

Para entender melhor, esses fatores de risco provocaram uma espécie de efeito dominó no ecossistema das criptomoedas. Ele depende da confiança que as pessoas têm nele: se ela for comprometida, a coisa toda desmorona.

Para aumentar essa confiança, foram criadas algumas criptomoedas que prometem ser mais estáveis, por serem lastreadas (garantidas) por ativos reais e considerados seguros, como dólar, ouro ou títulos do Tesouro Americano. Por isso, elas são conhecidas como “stablecoins” e seu valor não sofre grandes flutuações. Muitos investidores as usam para fazer transações com outras criptomoedas.

Acontece que surgiram algumas “stablecoins” que não são tão estáveis assim. É o caso do TerraUSD. Ao invés de estarem atreladas a um ativo real e seguro, elas usam uma engenharia financeira complexa para manter seus valores estáveis, apoiando-se em outras criptomoedas.

No caso do TerraUSD, ela é vinculada à Luna, cujo valor evaporou no começo da semana. Isso iniciou a reação em cadeia e, a partir daí foi um banho de sangue, motivado pelo pânico dos investidores, que começaram a vender suas criptomoedas!

É como se você dissesse que inventou uma coisa para garantir outra coisa que você inventou: só funciona se todo mundo acreditar o tempo todo.

 

Dinheiro “do nada”

As criptomoedas surgiram em 2009, quando Satoshi Nakamoto lançou o Bitcoin como uma maneira de se realizar transações sem depender do sistema financeiro tradicional, como os bancos. Ao invés disso, todas as transações seriam garantidas por uma tecnologia chamada blockchain, uma espécie de livro-razão digital replicado em milhares de computadores e praticamente a prova de fraudes.

Talvez a maior de todas as ironias é que Satoshi Nakamoto é um pseudônimo. Ninguém sabe ao certo quem é ele. Alguns especulam até que seria um grupo de pessoas.

O fato é que ele atingiu seu objetivo de criar um método de transações totalmente independente. Mas isso trouxe alguns problemas, como ser um dinheiro completamente irrastreável, criando uma incrível ferramenta para, entre outras atividades lícitas, muitos crimes financeiros.

Isso também atraiu o interesse de investidores vorazes, que compram e vendem grandes quantidades das criptomoedas, responsável pela volatilidade gigantesca e sem precedentes em qualquer investimento. Vale lembrar que, por isso mesmo, nenhuma criptomoeda é garantida por governos ou instituições financeiras. Em outras palavras, se o investimento de uma vida de alguém derreter instantaneamente, não terá a quem recorrer.

Os entusiastas das criptomoedas afirmam que não há motivo para pânico, que esse derretimento do mercado é uma prova de que a tecnologia e o próprio conceito funcionam e que as perdas gigantescas serão recuperadas, em algum momento (não definido), por grandes ganhos, como de costume.

Já os críticos aproveitaram para reforçar que os bancos centrais precisam, de alguma maneira, criar regras para regular transações em criptomoedas, para proteger os investidores (especialmente os pequenos) e o próprio sistema financeiro. Afinal, qualquer país entraria em colapso se as pessoas deixassem de acreditar em seu dinheiro e passassem a operar apenas em criptomoedas.

Com tudo isso, não digo que criptomoedas sejam um mau negócio. Da mesma forma, não estou sugerindo que ninguém deva investir nelas ou mesmo usá-las como meio de pagamento.

Meu ponto aqui é que, para a imensa maioria da população, são necessárias informação e ajuda capacitada e ética para se investir em criptomoedas. Sem isso, para essas pessoas, seria como passar da piscina infantil para o surfe mais radical do planeta, achando que isso acrescentaria apenas um pouco mais de emoção ao que se estava acostumado.

Não há salva-vidas nesse mercado!

 

Cassie Kozyrkov, cientista-chefe de decisões do Google, na palestra de abertura do World Summit AI Americas, no dia 4 de maio

Uma inteligência artificial sem ética pode arruinar a sociedade

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Graças a crescente simbiose com sistemas digitais, nossas decisões cotidianas são influenciadas por eles. O que pouca gente sabe é que, da mesma forma, nós influenciamos as máquinas. Na verdade, graças à inteligência artificial cada vez mais disseminada nesses sistemas, elas efetivamente aprendem conosco. Mas será que estamos sendo bons professores?

A pergunta pode parecer sem sentido, mas embasa um dos temas mais quentes hoje para quem trabalha com inteligência artificial: a ética desses sistemas. Plataformas de IA desenvolvidas de maneira displicente podem ser mais suscetíveis a aprender e a perpetuar coisas ruins. A ironia –e possivelmente o grande risco disso– é que, se elas aprenderem isso de gente preconceituosa, passarão adiante o erro para outras pessoas, por sua vez influenciadas por esses sistemas.

Em outras palavras, uma inteligência artificial cheia de vieses e preconceitos pode piorar –e muito– a sociedade.


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Isso obviamente não quer dizer que a inteligência artificial seja ruim ou perigosa. Mas a preocupação da comunidade científica e de desenvolvimento com os vieses na inteligência artificial é tão grande, que foi um dos assuntos que mais ouvi na semana passada, durante minha visita a Montréal (Canadá) para participar do World Summit AI Americas, um dos maiores eventos do setor no mundo. Além do congresso, também fiz trocas muito ricas sobre o assunto em visitas a várias empresas e instituições de pesquisa, organizadas pela Câmara de Comércio Brasil-Canadá e pela Empathy Company.

Na palestra de abertura do Summit, Cassie Kozyrkov, cientista-chefe de decisões do Google, questionou o que faz da inteligência artificial uma tecnologia potencialmente mais perigosa que outras. Segundo ela, “sempre que você fica maior, é mais fácil você pisar nas pessoas a sua volta”. E a IA já está bem grande. “Não seja negligente na escala”, alertou.

Kozyrkov explicou que, ao contrário de uma programação convencional, em que o desenvolvedor determina explicitamente tudo que a máquina deve fazer em incontáveis linhas de código, na inteligência artificial, a plataforma recebe regras amplas para oferecer boas soluções para um problema. Para conseguir isso, ela é alimentada com conjuntos de dados, que servirão para que tome suas decisões.

O problema é que, se esses dados forem ruins, as decisões também serão ruins. Por isso, a plataforma precisa ter outras regras para corrigir o rumo se algo der errado. Segundo a cientista, quando os exemplos apresentados à máquina forem inadequados, sem uma validação de sua qualidade, a plataforma desenvolverá vieses. “Você precisa testar rigorosamente e construir redes de proteção”, sugere.

Podemos fazer uma analogia com a maneira como uma criança aprende. Se ela for constantemente exposta a exemplos ruins, ela aprenderá e reproduzirá isso quando crescer. Por exemplo, se uma criança cresce em uma família racista, existe grande chance de se tornar um adulto racista, pois esse preconceito terá sido normalizado em sua maneira de pensar.

Um dos exemplos mais emblemáticos do problema foi a ferramenta Tay, lançada pela Microsoft em março de 2016. Ela estava por trás de uma conta no Twitter, que simulava uma adolescente criada para conversar com os usuários. Mas a conta ficou no ar por apenas 24 horas! Tudo porque, nesse curto período, depois de conversar com milhares de pessoas (muitas delas mal-intencionadas), ela desenvolveu uma personalidade racista, xenófoba e sexista. Por exemplo, Tay começou a defender Adolf Hitler e seus ideais nazistas, atacar feministas, apoiar propostas do então candidato à presidência americana Donald Trump e se declarar viciada em sexo.

A Microsoft tirou o sistema do ar, mas o perfil no Twitter ainda existe, apesar de ser agora restrito a convidados, não ter mais atualizações e de os piores tuítes terem sido excluídos. Sua manutenção visa promover a reflexão de como sistemas de inteligência artificial podem influenciar pessoas, mas também ser influenciados por elas.

 

IA enviesada nos negócios

A inteligência artificial está presente em dezenas de sistemas que usamos todos os dias, melhorando suas capacidades. Sem ela, os benefícios que nossos smartphones nos oferecem seriam bem mais limitados. Da mesma, forma, ela está presente em plataformas empresariais. E os vieses também podem surgir nesse caso.

Uma das empresas que visitei em Montréal foi o escritório local da agência Thomson Reuters. No encontro, Carter Cousineau, vice-presidente de Data & Model Governance, e Glenda Crisp, líder de Data & Analytics, trouxeram problemas conhecidos da IA nos negócios, como os de sistemas de recrutamento. Ao analisar milhares de currículos para uma vaga, eles podem deixar de fora os melhores profissionais, por vieses que desenvolveram, por exemplo, sobre idade, gênero ou raça dos candidatos.

Para tentar minimizar casos como esse, o Conselho da Cidade de Nova York criou, no fim de 2021, uma lei que exige auditorias externas de algoritmos usados por empresas para contratação ou promoção de funcionários. Também passa a ser obrigatório informar o uso de inteligência artificial nos processos seletivos. Leis semelhantes em diversos países estão sendo criadas, abrangendo também áreas como educação, saúde e habitação.

A adoção da inteligência artificial é um caminho sem volta, que pode trazer grandes resultados para empresas e pessoas. Em outra palestra no Summit, Krish Banerjee, diretor de Data, Analytics & Applied Intelligence da consultoria Accenture, afirmou que 84% dos executivos sabem que precisam investir em IA para atingir seus objetivos e que 75% acreditam que, se não fizerem isso nos próximos cinco anos, podem ser colocados para fora do mercado.

É claro que sim! A inteligência artificial permite a qualquer um ter incrível ganho na velocidade e na qualidade das informações para seu cotidiano. Para indivíduos, isso pode representar uma vida melhor em diferentes aspectos. No caso de empresas, isso pode se refletir em produtos mais alinhados às necessidades do mercado, melhores métodos de produção e clientes mais satisfeitos.

A inteligência artificial precisa, portanto, dos seres humanos! Ela deixa claro a parceria que criamos com as máquinas. Se quisermos que ela nos ajude, precisamos ajudá-la a aprender com bons exemplos, ou seja, dados de qualidade. Nem mesmo a plataforma mais bem desenvolvida será capaz de dar resultados satisfatórios se pessoas não atuarem ativamente na curadoria das informações que a alimenta, eliminando os vieses.

“A inteligência artificial não é mágica, não pode ler sua mente”, provocou Kozyrkov no Summit. Se fizemos a nossa parte nesse acordo, a tecnologia pode nos oferecer grandes ganhos. Mas, se não instruirmos bem essa criança, ela pode arruinar a sociedade.

 

O multibilionário Elon Musk, que comprou o Twitter por US$ 44 bilhões, para, em suas palavras, “restaurar a liberdade da expressão”

O inferno são os outros

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A liberdade nunca esteve tão em alta, pelo menos na boca do povo. Mas paradoxalmente ela nunca foi tão maltratada e usurpada. Quanto mais se apoderam dela, mais as pessoas esquecem seu real significado.

Na semana passada, um dos assuntos mais comentados foi a compra do Twitter por Elon Musk, que pagou US$ 44 bilhões pela plataforma do passarinho azul. A sua principal motivação teria sido, como disse, “restabelecer a liberdade de expressão na rede”. Para o homem mais rico do mundo, isso significa que nada publicado nas redes deve sofrer qualquer tipo de moderação.

Isso seria verdade se vivêssemos em uma sociedade utópica, em que todos aproveitassem desse benefício de maneira responsável e civilizada. Mas estamos muito longe disso, e, aos nossos olhos, a culpa parece ser sempre dos outros.


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Todos nós temos nossas Ideias, nossas vontades, nossos valores. É natural que queiramos que os outros concordem pelo menos com parte disso tudo, seja porque entendemos que isso seria melhor para todos, seja porque exercitamos o nosso egoísmo. Mas isso simplesmente não vai acontecer, porque cada um tem as suas “verdades”, que acabam conflitando com as nossas em algum ponto. É um “beco sem saída filosófico”.

As redes sociais têm um papel determinante nessa incapacidade crescente de lidar de maneira equilibrada e construtiva com as ideias dos outros. Seus algoritmos reforçam nossos valores e até preconceitos, ao nos colocar em contato com muitas pessoas que pensam da mesma forma que nós. Isso faz com que tenhamos uma falsa certeza de que nossa visão de mundo é a correta, tornando-nos intolerantes e até agressivos.

Gostaríamos de não ser incomodados e vivermos de acordo com o que acreditamos. Mas o jornalismo, por exemplo. insiste em nos mostrar que o mundo não dá a mínima para nossas vontades, e que temos que aprender (ou reaprender) a conviver em harmonia dentro da sociedade.

Batemos no peito para dizer que nossa opinião deve ser ouvida, porque ninguém mais seria o “dono da verdade”. Só que isso é mais uma das falácias espalhadas nas redes sociais por aqueles que se beneficiam dessa cacofonia digital infinita.

Sempre existiram “donos da verdade”, que são pessoas, empresas e instituições com grande reputação, construída ao longo de anos e com muito esforço, e uma extensa ficha de serviços prestados à sociedade. E eles continuam existindo! Sua credibilidade não pode ser simplesmente descartada porque afirmam coisas das quais discordamos.

Jornalistas, professores, universidades e muitos outros continuam tendo um papel fundamental para a manutenção da vida. Aqueles que os criticam são os mesmos que, diante de sua incapacidade de produzir Ideias críveis e positivas para a sociedade, precisam destruir todos aqueles que fazem isso, para que criem uma “tabula rasa” sobre a qual imporão suas vontades sobre as massas.

Isso me lembra de quando Umberto Eco recebeu, em junho de 2015, o título de doutor honoris na Universidade de Turim (Itália). Na ocasião, o escritor e filósofo italiano disse que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis” e que “agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel”. Afirmou ainda que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Ele estava certíssimo! Quando a desinformação ainda não havia se transformado em uma ferramenta de controle de massas em escala industrial, ele já antecipou o que estava por vir.

 

As bases da civilização

O historiador israelense Yuval Noah Harari afirma que o ser humano só alcançou a dominância do planeta por ser o único ser vivo com a capacidade de acreditar em desconhecidos para construir algo com eles.

A isso, damos o nome de sociedade! Do jeito que as coisas vão, estamos perdendo esse recurso, colocando, portanto, o próprio conceito de sociedade em risco.

O que se vê é um número crescente de pessoas que confundem liberdade, com libertinagem. Quando todo mundo faz o que bem entende, sem respeitar leis ou regras, e principalmente sem respeitar a liberdade do próximo, a sociedade começa e a derreter, dando espaço a uma anarquia.

Não é um conceito difícil de entender. De fato, isso é algo que aprendemos na escola: “a sua liberdade termina quando começa a liberdade do outro”. Ou, se preferir, “não faça com o outro o que não gostaria que fizessem a você”.

Esse é um conceito basilar em qualquer grupo organizado no mundo, e vinha funcionando bem nos últimos séculos. É claro que sempre houve aqueles que descaradamente desrespeitavam isso em benefício próprio, apropriando-se dos direitos alheios para aumentar os seus. Mas agora as redes sociais permitiram que eles se multiplicassem e se tornassem incrivelmente poderosos.

Espero que esse momento que estejamos vivendo seja apenas mais um desses “desvios de conduta em massa”, e que consigamos, em breve, resgatar uma convivência civilizada e equilibrada. Para isso, precisamos também das redes sociais.

Esse é o motivo de tanta gente estar preocupada com o que Elon Musk realmente fará com o Twitter. Mas, apesar de suas manifestações na própria rede, tudo o que os diferentes grupos ideológicos dizem sobre o tema não passa de especulação. Musk não tomará ações que levem a plataforma à ruína. Além disso, mesmo com o Twitter tornando-se uma empresa de um único dono, ela continuará sendo regulada e pressionada pelos órgãos de justiça do mundo todo, especialmente dos Estados Unidos, onde fica a sua sede. E essas instituições já deixaram claro que a liberdade deve ser preservada, desde que as redes sociais não se tornem uma terra sem lei.

Enquanto não soubermos o que Musk efetivamente fará com o Twitter quando for capaz disso, precisamos fazer a nossa parte para nos salvar de nós mesmos. Não podemos continuar achando que tudo é culpa dos outros e –pior ainda­– que nós estamos sempre certos e que os outros estão sempre errados. De maneira geral, a verdade está sempre em algum ponto no meio do caminho entre os vários extremos.

 

Jack Sparrow, da saga “Piratas do Caribe” (Disney), o pirata mais famoso do cinema

Os desencontros do streaming pavimentam o caminho para uma nova pirataria

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Alguns crimes vêm e vão, ressurgindo em novos formatos, aproveitando oportunidades. É o caso da pirataria de vídeos, que andava em baixa nos últimos anos, mas que vem ganhando força de novo com a guerra comercial das diferentes plataformas de streaming e mudanças impopulares em algumas das principais delas.

Na semana passada, a Netflix, líder dessa indústria, anunciou a primeira redução em sua base de assinantes em quase 11 anos. Justo ela, que teve um papel importante na diminuição da pirataria, fazendo o público trocar os camelôs de DVDs ilegais por um serviço cômodo e de qualidade, a um preço módico.

Com o aumento da concorrência de estúdios que tornam suas produções exclusivas em suas próprias plataformas, o público continua assinando algumas delas, mas não tem dinheiro para todas. Recorre então a métodos ilegais para assistir ao que está por trás dos muros das que não consegue pagar. Em outras palavras: o excesso de produções exclusivas nas diferentes plataformas empurra as pessoas para a pirataria, para conseguirem ver tudo que desejam.


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As ações da Netflix derreteram 35% na quarta passada, depois de ela ter divulgado seus resultados financeiros do primeiro trimestre do ano, no dia anterior. Isso diminuiu seu valor de mercado em cerca de US$ 50 bilhões, arrastando os papeis de concorrentes, como Disney, Warner Bros. Discovery e Paramount.

A empresa perdeu 200 mil contas no período. A expectativa era que aumentasse em, pelo menos, 2,73 milhões. Além disso, a receita do trimestre cresceu 10%, para US$ 7,87 bilhões, mas isso é menos que as previsões de US$ 7,93 bilhões.

Esses números podem ser parcialmente creditados ao encerramento da operação russa, em represália à invasão da Ucrânia, que resultou em uma perda de 700 mil assinantes. A situação só não foi pior porque a empresa conseguiu outros 500 mil no restante do mundo.

A Netflix já disse que as perdas podem chegar a 2 milhões de assinantes nos próximos meses. Além do fim da operação russa, a empresa justificou as perdas pela inflação nos EUA, o aumento da concorrência e o compartilhamento indevido de contas, algo que já anunciou que pretende combater com mais afinco.

Trata-se da prática de uma pessoa assinar o serviço e repassar as suas informações de conexão para amigos que não pagam. De acordo com a assinatura, a Netflix permite conexões simultâneas em duas ou até quatro telas. Mas isso deveria acontecer entre pessoas que moram juntas.

Estima-se que há cerca de 100 milhões de usuários que se valem desse “truque”. Identificar e impedir isso é tarefa tecnicamente simples, mas a Netflix sempre fez “vista grossa” para o problema. Mas em março a empresa anunciou que vai passar a cobrar uma taxa extra para quem compartilhar suas contas, equivalente à metade do preço do plano básico local. A novidade deve entrar em testes no Chile, no Peru e na Costa Rica em breve, sendo depois expandida para outros países.

Com a concorrência crescendo, não dá para continuar abrindo mão dessa receita. E por falar em dinheiro, outra mudança que vem sendo ventilada em vários desses serviços, inclusive na própria Netflix, é a oferta de planos mais baratos (ou até gratuitos) financiados por publicidade, algo que a mesma Netflix ensinou o público a rejeitar fortemente.

Essas são decisões impopulares e polêmicas. Quantos deixarão a base dos serviços de streaming graças a elas?

 

Os piratas agradecem

A gigante baseada em Los Gatos, na Califórnia (EUA), não é a única preocupada. O que aconteceu com ela pode ser um prenúncio de tempos mais difíceis para o mercado de streaming.

A Disney, por exemplo, que vem investindo pesadamente em sua plataforma Disney+ nos últimos anos, divulgará seus números no dia 11. Se eles também decepcionarem o mercado, o alerta pode passar a ser vermelho.

Não faz tanto tempo, as calçadas eram ocupadas por camelôs que vendiam DVDs piratas. A Netflix, com um catálogo englobando produções de vários estúdios a um preço módico, com alta qualidade e fácil acesso, praticamente eliminou aquilo. Agora, com a pulverização de conteúdos em diferentes plataformas, o bolso e a vontade do cliente podem não ser suficientes para pagar por todas elas.

A pirataria não acontece agora com discos: ela também vem pela Internet. E não para de crescer diante dessa guerra das plataformas. Em relatório divulgado em fevereiro, a empresa de cibersegurança Akamai colocou o Brasil como quinto país no mundo em acessos a sites de pirataria, atrás dos EUA, da Rússia, da Índia e da Turquia. Fizemos 4,5 bilhões de streams e downloads não licenciados entre janeiro e setembro de 2021.

Além da pulverização em diversas plataformas, o baixo poder aquisitivo da população e títulos não oferecidos no país favorecem a pirataria. Outro levantamento, esse do Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade, calculou que, em 2020, o mercado ilegal custou R$ 287 bilhões ao Brasil, atingindo principalmente as áreas de música e televisão.

O mercado chega então a um impasse. Os diferentes produtores também têm direito a morder um pedaço dessa torta que a Netflix mostrou sem grande e suculenta. Mas chegamos a um ponto de saturação? Vale a pena ter sua própria plataforma ou continuar distribuindo seu conteúdo na dos outros?

O risco é que a pulverização e o assédio da pirataria reduzam demais a quantidade de assinantes para cada plataforma. Isso comprometeria a capacidade de investimento em novas produções exclusivas, que se tornaram a principal ferramenta de atração. E assim começaria a faltar dinheiro para investimentos, cada vez exigentes.

A Netflix costumava dizer que sua principal concorrência não era de outras plataformas de streaming, mas de outras formas de diversão, como ler e até dormir. Fica cada vez mais difícil sustentar isso!

Os assinantes pulam de um serviço para outro, cancelando suas assinaturas quando sua série preferida acaba, para ver a de outro serviço. E assim sucessivamente! Sobre todos eles, paira uma pirataria ressurgida de maneira mais tecnológica e atraente.

A transformação desses serviços em poderosos estúdios de filmes e de séries gerou uma demanda poderosa no público, a ponto de as pessoas quererem assistir a todos os grandes lançamentos. Mas não é poderosa o suficiente para fazer colocarem a mão no bolso para pagarem por tudo isso.

 

O Brasil sentou-se em uma bomba chamada WhatsApp

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Lá pelos idos do ano 2000, quando eu era gerente de produtos da AOL (America Online) e tinha sob minha responsabilidade as versões brasileiras do Instant Messenger e do ICQ, percebi que a empresa que oferecesse o melhor aplicativo de mensagens conquistaria o coração dos internautas. Duas décadas depois, essa empresa é a Meta, com seu Facebook Messenger e principalmente seu WhatsApp.

Isso é tão verdade que hoje um presidente compra briga com outro poder da República por causa desses programas. Na mais recente bravata, nesse sábado, Jair Bolsonaro disse que não aceitará o acordo da Meta com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que fará com que novos recursos sejam incorporados ao WhatsApp apenas após a eleição desse ano.

Mas, afinal, o que há de tão especial nesse programa a ponto de provocar essa balbúrdia toda?


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O WhatsApp hoje é usado por 120 milhões de brasileiros, o que o coloca muito à frente de qualquer outra forma de comunicação por aqui. Estima-se que esteja instalado em 99% dos smartphones no país. Por isso, as mensagens distribuídas pelas plataformas têm uma incrível capacidade de se disseminar rapidamente.

O comunicador da Meta teve um papel importante nos resultados das eleições de 2018 e 2020: os candidatos que melhor dominaram a plataforma conseguiram muitos votos assim, não raro valendo-se de farta distribuição de notícias falsas. Por isso, o TSE firmou um acordo com as principais plataformas digitais para minimizar o problema com ações em conjunto na campanha desse ano, tentando “desarmar essa bomba” que o aplicativo se tornou. Participam da iniciativa a Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp), o Google (dono do YouTube), o Twitter, o TikTok e o Kwai.

A confusão começou na quinta, quando a Meta anunciou novos recursos do WhatsApp, que serão liberados gradativamente para usuários do mundo todo a partir das próximas semanas. Mas, pelo acordo com o TSE, eles chegarão aos smartphones brasileiros apenas após o segundo turno das eleições.

A principal novidade é o recurso de “comunidades”, que permitirão a união de até dez grupos em um único espaço. Como cada grupo permite hoje até 256 usuários, uma mensagem publicada em uma comunidade poderia atingir imediatamente até 2.560 usuários. A Meta ainda estuda dobrar a capacidade de cada grupo para 512 usuários. No Telegram, concorrente direto do WhatsApp, os grupos podem conter 200 mil usuários.

Outros recursos do pacote de melhorias são a possibilidade de se realizar chamadas de voz com até 32 pessoas simultaneamente e a transferência de arquivos com até 2 GB. Atualmente esse limite é de 16 MB para arquivos no celular e 64 MB no WhatsApp Web.

Todos esses recursos seriam muito úteis em uma campanha eleitoral, sem dúvida. Postergar seu lançamento para depois da eleição é um grande revés para candidatos que usam muito essas plataformas. Isso explica a reação de Bolsonaro, que chamou a decisão de “inadmissível”.

A Meta reforçou que o WhatsApp não deve ser usado para atividade política, mas obviamente nenhum candidato ou seus apoiadores deve respeitar isso.

 

Baixando a guarda

Existem várias explicações para essa incrível capacidade de convencimento pelos aplicativos de mensagens instantâneas. Ao contrário de e-mails, que trazem blocos inteiros de conversas, desestimulando os interlocutores a fazer muitas trocas, os programas como o WhatsApp, com suas mensagens curtas, informais e divertidas, favorecem isso. Essa mistura de serviço de mensagens com rede social torna a comunicação mais fluida, o que é positivo para a troca de ideias, mas faz com que os usuários “baixem a guarda” e acreditem muito mais facilmente no que chega por ali.

Esse é o motivo pelo que o WhatsApp se tornou o canal preferido por criminosos para aplicar diferentes tipos de golpes digitais. Não se trata de falhas técnicas da plataforma: os bandidos se valem justamente dessa vulnerabilidade das pessoas para enganá-las, às vezes com mentiras em que raramente cairiam em outros casos.

Os políticos usam exatamente a mesma estratégia, porém de maneira orquestrada e em escala industrial.

A criação de suas mensagens agrada a sua base de eleitores, essência, aliás, do jogo político. A diferença é que, com as plataformas digitais, essas ideias são distribuídas com uma velocidade avassaladora, inicialmente por robôs, e depois pelos próprios usuários, que gostariam que aquela informação acontecesse, mesmo que seja uma mentira deslavada. Com os aplicativos de mensagens, elas se espalham de maneira exponencial, podendo atingir rapidamente uma porcentagem muito expressiva do eleitorado.

Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolph Hitler, disse que “uma mentira dita uma vez é apenas uma mentira; já uma mentira dita mil vezes se torna verdade”. Foi assim que convenceu os alemães na década de 1930 a apoiarem seu Fürher contra os “inimigos do povo”, levando à Segunda Guerra Mundial e ao Holocausto.

Hoje a mentira é dita aos milhões, e esse recurso é usado por políticos no mundo todo! No ano passado, a Universidade de Oxford (Reino Unido) divulgou um estudo que indica a disseminação dessas táticas. Segundo os autores, no Brasil, as “tropas cibernéticas” se dedicam principalmente a atacar opositores e aumentar a polarização na sociedade, que lhes é benéfica.

Os aplicativos de mensagens se constituíram na ferramenta perfeita de disseminação de mentira, mas um ponto que não pode ser desprezado é que as pessoas acreditam no que lhes for mais conveniente.

Outro estudo demonstra isso claramente. Publicado na capa da revista Science, a mais importante publicação científica do mundo, no dia 9 de março de 2018, ele mostra que, a despeito das ações de robôs, são as pessoas as grandes responsáveis pela disseminação das fake news. Isso acontece, em parte, porque a desinformação dispara mecanismos emocionais que induzem ao engajamento com esse material.

Bons tempos aqueles do AIM, do ICQ e do MSN Messenger, em que esses aplicativos de mensagens eram usados apenas por pessoas querendo conversar alegremente com seus amigos. A inclusão desses recursos de disseminação em massa de mensagens, ainda que bem intencionada, transformou essas plataformas em “bombas” que colocam em risco o próprio conceito de sociedade organizada.

Como nós, os usuários, somos o elo frágil nessa corrente, acreditando em muito do que nos chega por esse canal, cabe à Justiça e aos próprios desenvolvedores desses produtos cuidarem desse incrível espaço de comunicação. Não se pode encarar inocentemente todo esse poder de convencimento, ou a população corre o risco de ser convertida em um bando de robôs teleguiados.

 

O rapper americano Bandman Kevo, que alia sua carreira musical com a de palestrante motivacional e guru online

Rapper ganha US$ 1 milhão por mês falando de investimentos em site de conteúdo adulto

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O rapper americano Kevin Ford, mais conhecido como Bandman Kevo, reúne 20 mil assinantes que pagam US$ 50 por mês pelo seu conteúdo online. Ele não fala sobre música, mas sobre investimentos, o que chega a ser inusitado. Mas o que torna a história mais curiosa é que seus vídeos estão no OnlyFans, famoso por hospedar conteúdo adulto explícito de seus usuários.

Por que tanta gente paga para ouvir um músico falando de dinheiro em uma plataforma de pornografia? A resposta: porque isso faz sentido para essas pessoas! E isso é a cara da cultura de criação de conteúdo em que vivemos.

Hoje qualquer um pode fazer publicações para alavancar o seu negócio ou até fazer disso o próprio negócio! Mas esse oceano de posts, cuja maioria tem qualidade no máximo questionável, dilui o valor da informação. Para piorar, as plataformas digitais destacam o que é ruim (mas popular), jogando para escanteio quem faz um bom trabalho.


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Os fãs de Ford afirmam que o conteúdo de seu canal no OnlyFans é valioso, ajudando-os a ganhar dinheiro. De fato, não é fácil fazer alguém pagar US$ 50 por mês para ouvir dicas de investimentos, especialmente para pessoas mais jovens, que compõem a maioria do público do rapper. Se fazem isso, algo que consideram valioso deve estar sendo entregue a elas.

Vale notar que o Ford não tem formação acadêmica na área. Na verdade, ele falsificou seu certificado do equivalente ao Ensino Médio. Em 2014, quando tinha 24 anos, foi preso por fraudes com cartões de crédito que passaram de US$ 600 mil. Quando foi solto, em 2019, decidiu aliar sua carreira musical com a de palestrante motivacional e guru online.

Deu certo!

Os puristas podem torcer o nariz para seu sucesso. Mas o rapper fez uma leitura correta de conteúdo, linguagem e recursos digitais, criando um produto consistente para um público específico. Até a escolha do OnlyFans demonstra ousadia. Por isso, seus ganhos estão muito além dos auferidos pela imensa maioria dos economistas, que fazem seu trabalho da maneira como aprenderam nas faculdades. E, por isso, não conseguem se diferenciar um do outro.

Ford surfa em um fenômeno derivado da chamada “economia criativa”, em que o valor econômico vem de ações criativas, culturais e intelectuais. Quem atua no setor sabe as necessidades dos consumidores, onde eles estão, o que eles pensam e suas características. Por isso, agradar o cliente é uma busca constante, promovendo mudanças permanentes no produto, que geram benefícios reconhecidos pela sociedade.

Apesar de as origens da economia criativa remontarem à década de 1980, ela floresceu com o poder que a tecnologia digital concedeu às pessoas, facilitando e barateando enormemente a criação de novos produtos. Com as redes sociais, isso atingiu um patamar incrível, permitindo que produtos intelectuais rentáveis fossem criados praticamente sem investimento. É o caso do canal de Ford no OnlyFans.

Graças a essa facilidade, a produção de conteúdo de qualquer natureza se tornou o trabalho de muita gente. Com a pandemia e o distanciamento social que ela provocou, a prática se tornou essencial para muitos profissionais e muitas empresas continuarem operando no momento de restrições mais severas. Após o fim do distanciamento, essa prática se perpetuou.

Infelizmente a esmagadora maioria desses produtores não tem os elementos necessários para criar um bom produto. Tampouco possui a capacidade de Ford, de fazer uma leitura assertiva do mercado, para entregar algo que atenda a demandas específicas. O resultado é muito ruído, que acaba “escondendo” dos usuários conteúdos que realmente poderiam lhes ser úteis.

 

Sensacionalismo

Há um outro aspecto importante a ser considerado nessa cacofonia informacional. Grandes empresas de comunicação competem hoje com ilustres desconhecidos pela atenção do público nas plataformas digitais. Aprecem mais aqueles que entendem as regras de promoção dessas plataformas, criando conteúdos que atraem não só as pessoas, mas também seus algoritmos.

Como resultado, no Brasil e no mundo, sites sensacionalistas ou que promovem explicitamente a desinformação chegam a superar em audiência veículos de comunicação sérios. Isso gera um preocupante círculo vicioso: como as pessoas clicam muito em títulos escandalosamente apelativos, eles são muito promovidos pelo Google e pelo Facebook, o que faz com que mais pessoas ainda cliquem neles. Chega-se a um ponto em que esses sites inundam as plataformas digitais, enquanto o jornalismo sério fica praticamente escondido.

Isso enche os cofres desses sites com conteúdo no mínimo questionável, enquanto esvazia os dos veículos que investem tempo e dinheiro na produção de bom conteúdo. E as mesmas plataformas digitais que despejam hordas de usuários nos sites apelativos são as mesmas que lhes remuneram pela alta audiência, pois seus anúncios acabam sendo veiculados ali.

O assunto ganhou destaque no Brasil nos últimos dias, com as discussões em torno do projeto de lei 2.630, conhecido como “lei das fake news”, que tramita na Câmara dos Deputados. Ele determina que as plataformas digitais remunerem empresas jornalísticas, em uma tentativa de incentivar quem produz conteúdo de qualidade para fazer frente à desinformação.

Entretanto, o texto, na forma atual, falha ao definir, de maneira clara, o que seria conteúdo jornalístico. Por isso, os sites de fofocas, os sensacionalistas e até alguns que escandalosamente copiam conteúdos alheios sem sequer dar crédito ao autor que investiu tempo e dinheiro na apuração poderão, em tese, ser classificados como “jornalísticos” e, dessa forma, serem remunerados pelas plataformas digitais.

Quem faz conteúdo sério –sejam empresas de comunicação, sejam profissionais autônomos– podem aprender algo com Ford: é preciso entregar um produto em que o público veja valor. Em um mundo em que a realidade se tornou um constante espetáculo, quem trabalha com jornalismo tem aí uma tarefa ingrata, pois dispõe “apenas” da verdade para trabalhar, e ela nem sempre é sedutora. Por outro lado, os sensacionalistas e os que vivem de “fake news” podem distorcer os fatos alegremente, para que se tornem mais atraentes para as pessoas.

Mas há esperança. The New York Times, um dos jornais mais tradicionais e importantes do mundo, com 171 anos de estrada, acaba de atingir a impressionante marca de 10 milhões de assinantes, somando impresso e digital, algo inédito. A empresa esperava atingir essa marca apenas em 2025, mas ela chegou antes em parte graças à aquisição de publicações de segmentos específicos e diversos serviços, inclusive jogos online. Talvez muitos assinem The New York Times por causa desses “agregados”, mas a alta qualidade de tudo que a empresa oferece e esse modelo de negócios moderno abrem espaço para um futuro promissor, enquanto a maioria de seus concorrentes se debate para continuar respirando.

Lição para a vida de todo mundo: não adianta querer continuar fazendo algo de um jeito só porque sempre deu certo assim anteriormente. Como muitos dizem na indústria de mídia, “o conteúdo é rei”, mas não mais como eles pensam. No atual momento da economia criativa, ele tem um valor inestimável como um produto em si ou para atrair pessoas para outros negócios da empresa. Mas só trará resultados se estiver alinhado a necessidades reais do público, e não ao desejo de seus editores.

Fazer alguém colocar a mão no bolso para comprar nosso produto nunca foi tão complicado, pois hoje tudo concorre com tudo. E o bolso do consumidor é um só.

 

O Congresso Nacional, onde está sendo tramitado o projeto de lei 2.630, conhecido como “Lei das Fake News”

Ninguém vigia o vigilante na guerra pela “verdade”

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Em um mundo em que a verdade é relativizada e distorcida escandalosamente, sucumbimos diante de mentiras bem contadas que moldam a sociedade pelos interesses de uns poucos. Com isso, até iniciativas bem intencionadas podem ser pervertidas. É o caso do projeto de lei 2.630, conhecido como “Lei das Fake News”, que já foi aprovado pelo Senado e pode ser votado na Câmara dos Deputados a qualquer momento.

Criado com o louvável objetivo de combater a desinformação no meio digital, o texto possui falhas críticas, como não definir, de maneira inequívoca, o que seria uma “notícia falsa” e inocentar previamente alguns dos maiores agentes da desinformação no país. Se aprovado dessa forma, corre o risco de se transformar em um mecanismo de controle e de censura.


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Definir o que é verdadeiro nem sempre é uma tarefa trivial. Em muitas ocasiões, depende da combinação de elementos a que nem todos têm acesso. Consequentemente, definir o que é falso padece do mesmo dilema. Ainda assim, seria de se esperar que um projeto de lei que se presta exatamente a isso se esforçasse mais que o visto no texto em tramitação.

O projeto ainda aborda dois outros conceitos fundamentais na guerra pela “verdade”. O primeiro é o de “conteúdo jornalístico”, também apresentado sem qualquer definição mais precisa, que supostamente indicaria algo produzido com rigor na apuração e promoção. O outro é a “liberdade de expressão”, direito constitucional preferido entre os disseminadores de “fake news”, que se valem dela para tentar justificar todo tipo de mentira ou crime, como se aquilo fosse apenas uma inocente opinião pessoal.

Para um projeto que se propõe a criar a chamada Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, falhar em algo tão básico abre espaço para enormes preocupações. Com nossas vidas altamente interligadas e dependentes das mais diversas ferramentas digitais, uma legislação como essa tem o potencial não apenas de piorar os serviços online, como ainda de criar uma nefasta ferramenta de controle do cidadão, das plataformas digitais e da imprensa.

Quanto mais brechas uma lei deixa, mais as “autoridades” (ou seja, qualquer um investido de algum poder) se sentirão à vontade para interpretar suas regras para fazer valer seus interesses. O cidadão fica indefeso diante de ataques daqueles que o deveriam defender, um caso clássico de “quis custodiet ipsos custodes?” A frase em latim, atribuída a Juvenal, um poeta romano do início da era cristã, é normalmente traduzida como “quem vigia os vigilantes” e se refere à dificuldade de controle das ações de quem está no poder.

Essa é exatamente a situação que pode estar sendo construída aqui. O que nos leva a uma outra grande lacuna do projeto, que vem sendo bem mais discutida nos últimos dias: um verdadeiro salvo-conduto para que parlamentares disseminem “fake news”.

 

Imunidade parlamentar

O PL 2.630 é de autoria do senador Alessandro Vieira (Cidadania/SE). Seu texto-base foi aprovado pelo Senado em junho de 2020. O deputado Orlando Silva (PCdoB/SP) é o relator da nova redação do texto, que pode ser votado em breve na Câmara dos Deputados.

Nessa nova versão, um singelo trecho incluído vem causando grande tumulto. Trata-se do parágrafo 5º do inciso VII do artigo 22, que diz: “A imunidade parlamentar material estende-se às plataformas mantidas pelos provedores de aplicação de redes sociais.”

Em outras palavras, qualquer “fake news”, por mais grotesca que seja, estará protegida, se for distribuída por um senador, deputado federal ou estadual ou vereador. O problema é que esses servidores públicos estão entre os mais conhecidos agentes da desinformação do país, nas esferas federal, estadual e municipal.

Na prática, cria-se um escudo que impediria as redes sociais de eliminar (ou pelo menos limitar) conteúdos notoriamente nocivos, como aqueles que incitam o ódio ou combatem vacinas, temas infelizmente comuns nos perfis de muitos parlamentares.

As plataformas digitais vêm refinando esse mecanismo de gestão de conteúdo com a Justiça há anos. Se ainda não é perfeito, já apresenta alguns resultados bem interessantes.

Orlando Silva afirma que esse parágrafo é inofensivo, pois a imunidade parlamentar está prevista na Constituição, e isso seria suficiente para proteger as ideias dos parlamentares, mesmo as mais bizarras e condenáveis. Mas não é bem assim!

A imunidade protegeria falas e opiniões, mas a Constituição não podia prever, em 1988, um mecanismo digital que amplificasse (inclusive mediante pagamento) manifestações de quem quer que fosse. Ademais, ao tornar explícita essa prerrogativa para qualquer parlamentar distribuir “fake news”, o projeto joga luz sobre o tema, praticamente inviabilizando os controles construídos pelas plataformas com a Justiça. Dessa forma, sempre que for necessário remover um desses conteúdos, a Corte Constitucional do país –ou seja, o Supremo Tribunal Federal– precisará ser acionado, o que é inviável dado o volume de porcaria dessa natureza que já transita nas redes.

A manchete do Estadão desse domingo trouxe uma reportagem sobre como, apesar de alguns avanços bem-vindos no combate à desinformação, o acordo firmado em fevereiro entre o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e as plataformas digitais ainda deixa muitas brechas. Isso quer dizer que políticos e seus apoiadores conseguirão transformar as redes sociais em um verdadeiro inferno desinformacional nesse ano de eleições.

Nós, os eleitores, somos os principais prejudicados com isso. Diante de uma enxurrada de mentiras incrivelmente bem contadas e de um verdadeiro banho de sangue entre candidatos, ficará muito difícil separar a verdade da mentira, para que possamos fazer uma escolha consciente dos melhores para governar o país pelos próximos quatro anos.

As plataformas digitais entenderam que são essenciais em qualquer processo eleitoral no mundo. Abandonaram o discurso de que eram meros veículos das opiniões de seus usuários, e entenderam que seus algoritmos podem convencer qualquer um sobre qualquer coisa. Dessa forma, precisam estreitar ainda mais os laços com a Justiça.

O projeto de lei 2.630 pode ser um grande aliado nessa tarefa fundamental para a manutenção da democracia. Mas isso jamais acontecerá enquanto criar uma categoria de cidadãos capazes de mentir deliberada e livremente. Da mesma forma, precisa definir, sem sombra de dúvidas, o que é conteúdo jornalístico, até mesmo para que jornalismo verdadeiro não seja rotulado como “fake news”, com o único objetivo de ser retirado do ar a mando de “autoridades”. Além disso, a liberdade de expressão precisa ser claramente separada de mentiras, crimes e desinformação. E isso tem que valer para todos!

Para um projeto que visa criar uma lei com a palavra “transparência” em seu nome, esses pontos obscuros precisam ser eliminados!

 

Desigualdade digital escancara uma perversa exclusão no Brasil

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Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre a importância maiúscula da Internet em nossas vidas, a pandemia de Covid-19 acabou com ela. Especialmente no período de mais distanciamento social, trabalhar, estudar, comprar e até se divertir dependiam dela. Mesmo agora, com tudo reaberto, muitas práticas online que desenvolvemos naquele momento permanecem, pois descobrimos enormes ganhos. Mas isso também jogou luz sobre a profunda desigualdade digital na população brasileira.

A pesquisa “O abismo digital no Brasil”, publicada recentemente pela consultoria PwC e pelo Instituto Locomotiva, coloca isso em números. De um lado, temos 29% dos brasileiros “plenamente conectados”; do outro, 20% sem conexão alguma. Isso traz enormes prejuízos às pessoas e ao país, criando “cidadãos de segunda categoria”.


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O acesso à Internet se transformou em um item essencial de infraestrutura, assim como energia elétrica, água, saneamento básico e telefonia. Pessoas com acesso a esses serviços com boa qualidade desenvolvem uma enorme vantagem. Além disso, quanto mais cidadãos assim, mas um país se torna competitivo internacionalmente.

Mas não se trata apenas disso. A guerra na Ucrânia, cuja infraestrutura vem sendo arrasada pela Rússia, mostrou ao mundo como o acesso à Internet pode desenterrar verdades inconvenientes e incomodar poderosos, de maneira que a vida de pessoas pode chegar a depender disso. Tanto que o bilionário Elon Musk, dono da Tesla e da SpaceX, liberou na Ucrânia o acesso à Internet a partir de sua rede de satélites Starlink.

O estudo identifica, entre os 29% “plenamente conectados”, mais moradores das regiões Sul e Sudeste, com celular pós-pago, acesso por notebook, bem escolarizados, integrantes das classes A e B e brancos. Do outro lado, os 20% “desconectados” são compostos principalmente por homens, idosos, não-alfabetizados, das classes C, D e E. Entre eles, estão os 26% “parcialmente conectados”, que são majoritariamente do Sudeste, negros, menos escolarizados e das classes C, D e E, e os 25% “subconectados”, principalmente do Norte e do Nordeste, com celular pré-pago, negros, menos escolarizados e das classes D e E.

Isso desenha um panorama sombrio para o Brasil nos próximos anos. O estudo demonstra que profissões tradicionais, que respondiam por 15,4% da força de trabalho em 2020, encolherão para 9% até 2025. Já as ligadas à tecnologia passarão de 7,8% a 13,5%. E isso é algo que já sentimos em nosso país. O setor de tecnologia demandará 800 mil profissionais de 2021 a 2025, mas o déficit deve ficar em 530 mil vagas não preenchidas. Isso em um cenário de desemprego explosivo!

Outro estudo, feito pela escola de negócios francesa Insead, coloca o Brasil como 75º no ranking de competitividade global de talentos, entre 134 países. Ele se baseia na capacidade de os países desenvolverem pessoas para o mercado e de atrair e reter os melhores profissionais. Na América Latina, estamos na 9ª posição.

O Brasil precisa dar recursos para que os jovens adquiram as habilidades exigidas, e isso passa necessariamente por um bom acesso ao meio digital. Hoje, 81% da população com 10 anos ou mais usam a internet, mas só 20% têm acesso de qualidade.

 

Reflexos na educação e no trabalho

Durante a fase mais aguda do distanciamento pela pandemia, vimos diversos casos de profissionais que foram enviados para trabalhar de casa, mas não conseguiram exercer adequadamente suas tarefas: sua Internet era ruim, sendo que a empresa não lhes ofereceu um plano de dados decente e às vezes nem computador, ficando restritos ao smartphone.

Mais grave ainda foi o observado entre os estudantes. Com acesso precário ou nulo e restritos muitas vezes a um único celular na casa, muitas crianças ficaram sem estudar por quase dois anos. O estudo informa que 21% dos alunos das redes municipais e estaduais estão em escolas sem acesso à banda larga. Isso se reflete em uma pesquisa da organização Todos pela Educação divulgada em fevereiro, que mostrou que o número de crianças entre 6 e 7 anos que não sabia ler ou escrever no Brasil saltou de 25,1% em 2019 para 40,8% em 2021.

Não é de se estranhar, portanto, que o Brasil tenha um dos dez piores desempenhos do mundo em matemática e um fraco resultado em leitura no Pisa, a avaliação feita pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre a educação em 79 países. Com isso, 67% dos nossos estudantes de 15 anos não conseguem diferenciar fatos de opiniões na leitura de textos, algo particularmente problemático em um país em que as pessoas adoram se “informar” por redes sociais.

Segundo a PwC, os principais causadores desse abismo digital são deficiências da infraestrutura de conexão (e aqui entram a qualidade do sinal e custos), limitações de acesso a equipamentos e deficiências do sistema educacional. São problemas profundamente enraizados em nosso país, mas que precisam ser resolvidos, sob risco de termos cada vez mais informalidade do mercado de trabalho, redução da já baixa produtividade do país, atraso no desenvolvimento das pessoas e redução do acesso a serviços públicos.

Para reverter essa situação dramática, a PwC e o Fórum Econômico Mundial sugerem a atuação coordenada de governos, educadores e empresas, com papéis e responsabilidades bem definidos para fortalecer as competências digitais da população.

O governo tem um papel fundamental no processo, com a criação de políticas para impulsionar as iniciativas nacionais de qualificação digital, trabalhando junto com a sociedade civil. As empresas, por sua parte, precisam adotar a capacitação digital da força de trabalho como princípios fundamentais do seu negócio, enquanto as instituições de ensino devem repensar as iniciativas de qualificação profissional, com o conceito de aprendizagem ao longo da vida.

A desigualdade de acesso à Internet vem da desigualdade socioeconômica, e a reforça! Em um mundo hiperconectado, uma nação não pode se dar ao luxo de ter cidadãos desprovidos dos meios necessários para seu desenvolvimento digital, pois dele derivam os demais.

O problema é estrutural e não será resolvido com medidas paliativas, pontuais ou desestruturadas. Trata-se de um gravíssimo problema social, que já impacta pesadamente nossa população. E, se tudo continuar como está, o problema se tornará cada vez maior, empurrando o Brasil para o fosso das nações irrelevantes.

 

Códigos QR da ConstruCode espalhados pelos canteiros de obras permitem às equipes ter acesso a plantas sempre atualizadas

Digitalização moderniza o conservadorismo da construção civil

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A transformação digital vem dando passos importantes em um dos setores mais conservadores na adoção de tecnologia: o da construção civil. Ideias simples e bem executadas podem trazer ganhos expressivos em obras, com a redução de custos e tempo de conclusão. Além disso, a comunicação entre as diversas áreas fica mais fluida, evitando retrabalho.

As construtechs –como são chamadas as startups desse segmento– puxam as novidades. Uma delas é a Agilean, criada em 2013 em Fortaleza. A empresa desenvolveu uma plataforma que automatiza toda a gestão de obras, baseada na metodologia lean. Por esse trabalho, acaba de ser uma das 87 escolhidas para programa de aceleração das empresas Scale-Up, da Endeavor.

Essa metodologia propõe melhorar os resultados de negócios, otimizando processos e evitando desperdícios. No caso da plataforma da Agilean, a digitalização de todos os processos relacionados às obras e coletas nos canteiros facilitadas pelo uso de aplicativos diminuem o tempo de tomadas de decisões, pois as informações ficam disponíveis em tempo real a todos que precisam delas.

André Quinderé, CEO da empresa, explica que a ideia da plataforma veio da observação de relatórios de obras que estavam corretos, mas, quando ficavam disponíveis, já estavam desatualizados. “Tinha a impressão de que o gestor tomava decisão olhando no retrovisor”, afirma. Como resultado, os responsáveis fazem muitas escolhas erradas. Segundo ele, 10% dos custos da construção civil se devem a retrabalho.

O desalinhamento entre as obras e os escritórios de projeto e informações desatualizadas entre os dois lados podem causar inúmeros problemas e desperdícios. Essa é uma dor histórica do setor que outra construtech, a ConstruCode, tenta resolver. “O desempenho produtivo grita por digitalização de canteiros, é lá que temos os maiores lucros ou prejuízos”, afirma Diego Mendes, engenheiro civil e CEO da ConstruCode.

Com uma solução engenhosa, baseada em códigos QR espalhados por todos os locais dos canteiros de obras, ela garante que a equipe tenha sempre uma planta atualizada para guiar os trabalhos. Um leigo pode achar que existe uma única planta, mas são feitas constantes atualizações. Isso exige incontáveis reimpressões, além do risco de a equipe estar construindo com uma planta desatualizada.

Isso é possível porque qualquer pessoa da obra pode usar um celular ou tablet para escanear os códigos espalhados por toda obra para baixar instantaneamente os diferentes tipos de documentos com a garantia de que são atualizados. Com isso, segundo Mendes, a redução de gasto com projetos impressos chega a superar 90%. Pelos seus cálculos, uma única obra pode gerar mais de 120 mil impressos. “Até quando a maior das indústrias, com 13% do PIB global, continuará construindo igual”, questiona.

A solução da ConstruCode também traz um outro ganho que não costuma ser visto nos poucos softwares do setor: a inclusão digital de mestre de obra e suas equipes. “Lembro de ter escutado de muitos gestores de grandes empresas que as equipes de obra dele não eram capazes de usar um aplicativo para ler projetos no celular ou tablet”, conta Mendes.

Essa afirmação lhe parecia estranha em um país com dois celulares por habitante. Como entendeu que o sucesso do projeto dependia de sua utilização por todos, o executivo ouviu as demandas desse grupo, para criar uma interface adequada a sua visão da obra, as condições em que ela acontece e aos equipamentos disponíveis.

 

Pessoas no centro

Quinderé reforça isso, explicando que a transformação digital envolve pessoas, processos e tecnologia. Nenhum deles pode ser preterido. Para ele, a construção civil é um setor muito tradicional, com um produto com uma vida útil longa. Por isso, as empresas têm muito medo de a inovação gerar problemas novos.

Mas não dá mais para continuar assim. “Temos uma nova conjuntura do nosso mercado, uma pressão de custos, de melhorar a produtividade, um momento de alta inflação do nosso setor”, justifica. “As empresas, para manter sua margem, precisam fazer diferente: a inovação deixou de ser acessório e passou a ser essencial.”

A resistência à inovação em setores muito consolidados sempre existiu. Quanto mais tradicional o segmento, menos tolerante a falhas. Mas, para o guru da administração americano Tom Peters, “o fracasso é ingrediente do sucesso”. Segundo ele, à medida que um ambiente se torna mais competitivo, a inovação fica mais necessária. Fazer as coisas de maneira diferente, traz, entretanto, riscos. Dessa forma, aqueles que não querem correr riscos não tentam algo novo, mas a única maneira de se manter competitivo hoje é justamente tentando. É por isso que as empresas precisam de ferramentas e metodologias que lhes permitam inovar com riscos menores.

Nesse sentido, Mendes sugere focar esforços nos problemas que realmente podem ser dominados, “não mais fazendo ajustes pontuais em tarefas repetitivas, mas eliminando-as definitivamente, através de processos e tecnologias que incluem os canteiros de obras em uma rota de produtividade alavancada.” Para Quinderé, as construtoras chegaram em um momento em que não podem repassar mais preços ao mercado. “Para manter a minha margem, eu tenho que ser mais eficiente, e um caminho é digitalizado a gestão”, explica.

Os números das duas empresas indicam que, apesar do conservadorismo, esse mercado começa a inovar. A Agilean, por exemplo, já digitalizou mais de 6 milhões de metros quadrados em obras de todo o país. Já a ConstruCode está presente em mais de 1.400 obras no país.

Para Mendes, a conta é simples. “A transformação digital é uma realidade superacessível, e, dado ao seu alto retorno, caro mesmo é permanecer repetindo processos manuais.”

 

O presidente russo, Vladimir Putin, discursou em um estádio lotado de apoiadores na sexta sobre sua visão do que é certo e verdadeiro

O nosso papel na guerra de Putin e na Terra Plana

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Nessa sexta, o presidente russo, Vladimir Putin, discursou em um Estádio Lujniki lotado de apoiadores, em comemoração ao oitavo aniversário da anexação da Crimeia pela Rússia. Muitos se perguntam indignados como ele consegue encher o palco da final da Copa do Mundo de 2018 com um discurso ultranacionalista, enquanto o mundo assiste aterrorizado à destruição da Ucrânia.

Cada um de nós participa um pouco dessa resposta. Ela contém os mesmos elementos que fazem com que parcelas significativas da população sejam contrárias a vacinas e até mesmo acreditem que a Terra seja plana.

Os que se sentem ultrajados com o “sucesso” de Putin zombam dos terraplanistas sem perceber que se trata do mesmo mecanismo de distorção da realidade e sem fazer nada para combatê-lo. E aí reside um dos grandes riscos atuais para a humanidade.


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Putin falou da guerra na Ucrânia, que ele insiste em chamar de “operação militar especial”, e prometeu que continuará até atingir seus objetivos. Mas escondeu da população o que realmente quer e principalmente que está enfrentando grandes revezes na invasão. Enquanto isso, protestos contra a guerra continuam em várias cidades, inclusive na capital Moscou, resultando em quase 20 mil pessoas já presas. Pode parecer muito, mas a imensa maioria dos russos continua alheia ao que realmente acontece e, assim, apoiam Putin.

Claro que essa é uma situação extrema: uma guerra em que o agressor é uma potência militar, dona do maior arsenal nuclear do mundo. Existe também uma força bruta de manipulação do governo, que asfixia os veículos de comunicação independentes e censura as redes sociais.

Mas a distorção da realidade permeia o nosso cotidiano em coisas aparentemente inofensivas e até divertidas. Muitas vezes, ela começa como uma brincadeira ou uma bravata de um grupo. Mas o meio digital tem o poder de transformar mesmo a mais completa loucura em uma bandeira para muita gente. E aqueles que percebem o problema acabam sendo parte dele, quando não se posicionam adequadamente.

Foi assim que a ideia de que a Terra é plana ficou tão forte. Ela contraria um fato científico fartamente demonstrado e observado. Ainda assim, 2% dos americanos afirmam que a Terra é um disco, enquanto outros 5% não têm certeza do formato.

No Brasil, a situação é ainda mais dramática: em 2019, 7% dos brasileiros afirmavam que a Terra era plana, e 3% não tinham certeza. Apenas dois anos depois, uma pesquisa do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação constatou que os terraplanistas brasileiros haviam saltado para 22,2% da população, quase 50 milhões de pessoas!

A despeito da histórica baixa qualidade de educação brasileira, não se pode creditar apenas a ela essa aberração social, mesmo porque muitos terraplanistas cursaram faculdades. O ser humano tem uma tendência a acreditar e apoiar aquilo que mais lhe convier, mesmo que seja uma estupidez. Mas, de uns anos para cá, observa-se o uso das redes sociais para legitimar qualquer ideia, com grande apoio popular. Entre elas, estão racismo, homofobia e machismo.

 

O poder do “based”

Qualquer um pode lançar uma dessas teorias nas redes. Quanto mais alicerçadas em fortes convicções, preferencialmente se se contrapuserem ao pensamento dominante científico, progressista e politicamente correto, mais chance de atingirem sucesso. Criou-se até um gíria para definir essa capacidade de defender cegamente uma ideia, sem se preocupar com o que outras pessoas pensarão: “based”, que não é traduzida nem em publicações em português.

Essa postura ficou muito popular entre jovens em comunidades online e se espalhou para diversos temas. O domínio da linguagem e das plataformas digitais promoveu essas pessoas, que se apresentam como “genuínas” e que falam sem medo aquilo que consideram certo, ignorando quem pense de maneira divergente. Disso vem o combustível do terraplanismo e movimentos contrários a vacinas. E muitos políticos perceberam o incrível poder de convencimento e adotaram uma postura “based”.

Outro estudo de 2021 detalhou muito bem como uma sociedade pode tomar decisões que coloquem em risco sua sobrevivência, citando, como exemplo, a resistência às vacinas. Organizado pelo Instituto Alan Turing, órgão de ciência de dados e inteligência artificial do Reino Unido, explica o ataque deliberado à capacidade de se adquirir conhecimento. Para a líder do estudo, Elizabeth Seger, da Universidade de Cambridge, “mesmo que estivesse claro como salvar o mundo, um ecossistema de informações degradado e não confiável poderia impedir que isso acontecesse”.

Segundo a pesquisa, existem quatro principais ameaças nesse cenário, e nenhuma delas acontece ao acaso. A primeira são pessoas que atrapalham as tomadas de decisão, usando a desinformação. E nisso algumas pessoas agem de maneira consciente, enquanto outras espalham mentiras de forma inocente. Há ainda o excesso de informação a que somos submetidos, que sobrecarrega nossa capacidade limitada de concentração, dificultando separar verdades de mentiras. As pessoas também se acostumaram a rejeitar informações que desafiam seus pontos de vista, particularmente se houver uma forte identidade no grupo, criando o que os pesquisadores chamaram de “racionalidade limitada”. E, por fim, as redes sociais tornaram mais difícil avaliar a confiabilidade das fontes.

Em outras palavras, quando não sabemos em quem confiar, confiamos naquilo que nos mostra o mundo como gostaríamos que fosse. E isso nos leva a outro termo dessas comunidades: “red pill”, uma referência ao filme “Matrix” (1999), que desnudava, a quem a tomasse, o mundo como ele realmente era, e não como o “sistema” mostrava. Isso esconde uma incrível ironia, pois os autodenominados “redpillados” querem forçar um mundo como gostariam que fosse, e não a realidade.

Não se pode deixar de relacionar tudo isso com aquele que deve ser um dos temas mais quentes dessa semana: as consequências do pedido de bloqueio do Telegram pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que acabou caindo nesse domingo, depois que o aplicativo resolveu acatar os pedidos da Justiça. Por sua política de tradicionalmente não interferir nas conversas de seus usuários e de não colaborar com autoridades, a plataforma se transformou no destino preferido de pessoas adeptas a teorias da conspiração e crimes, apesar de obviamente a imensa maioria de seus usuários ser composta de pessoas decentes.

A motivação da corte é combater a desinformação, que pode causar enormes danos ao Brasil, especialmente em um ano eleitoral. Mas combater as fake news, apesar de necessário, é apenas cuidar do sintoma, deixando a causa intocada. Enquanto novas pessoas forem aliciadas para as colunas das realidades distorcidas, sempre haverá novas formas para retroalimentar suas teorias e se atingir os mais nefastos objetivos.

E que fique claro: essas pessoas não são “um bando de ignorantes” ou “palhaços inofensivos”. Muito menos são inimigos! Não devem ser ridicularizados e, em hipótese alguma, desprezados. Precisam ser trazidas para o debate para que lhes seja explicado, com termos que entendam e analisando seus valores, por que aquelas ideias são nocivas para a sociedade e como aquilo lhes prejudicará a longo prazo.

E isso é algo que todos nós podemos e devemos fazer.

Pode parecer uma tarefa inglória, que exige uma energia e uma paciência quase infinitas. Mas não se pode desistir, pois a vitória desses grupos significaria a ruína da civilização. E, se serve de modelo, pode-se olhar para a Alemanha, berço do nazismo e hoje um país que combate fortemente aqueles valores, que nas décadas de 1930 e 1940 foram abraçados pela população: tudo em nome de um líder “based”.

 

Mark Zuckerberg, CEO da Meta: e-mails vazados da empresa propunham aceitar ações violentas contra russos durante a guerra

Como seria nossa vida sem as redes sociais

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Não é exagero afirmar que as redes sociais estão entre os produtos de maior sucesso da história. Poucas criações foram usadas por tanta gente, ocupando um espaço tão relevante em suas vidas. O que aconteceria então se, de repente, essas plataformas digitais fossem sumariamente tiradas de nós?

De certa forma, é o que os russos estão descobrindo agora. A combinação da censura imposta por Vladimir Putin com o posicionamento das próprias empresas contra a guerra na Ucrânia está bloqueando parcial ou completamente o acesso a redes no país. Por exemplo, desde esta segunda, a Rússia restringe o acesso ao Instagram, como já vem fazendo com o Facebook e com o Twitter há dez dias.

A guerra não acontece apenas no campo de batalha. Mas agora, os mecanismos para o domínio da narrativa, que sempre foram importantes em qualquer conflito, afetam diretamente o cotidiano digital de pessoas e empresas.


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Uma polêmica decisão da Meta, empresa dona do Facebook, jogou lenha nessa fogueira: e-mails internos vazados na semana passada indicavam que a companhia decidiu permitir que usuários em alguns países, incluindo Ucrânia e a própria Rússia, defendam atos de violência contra russos no contexto da guerra. Contrariando suas próprias políticas também aceitará temporariamente publicações que defendam a morte do presidente da Rússia, Vladimir Putin, ou de Belarus, Alexander Lukashenko.

A Meta não comentou o assunto até o momento.

Isso fez o Kremlin classificar a empresa como uma “organização extremista”, bloqueando o Instagram. Facebook e Twitter já vinham sendo restritos desde o dia 4, por estarem limitando o acesso a veículos de comunicação governamentais russos, além de marcar alguns de seus conteúdos como “fake news”.

Outras redes digitais, como o YouTube, estão impedindo que canais que apoiem Putin possam ganhar dinheiro com suas publicações nessas plataformas. O TikTok, por sua vez, está proibindo que usuários na Rússia façam publicações, pois o governo ameaça com prisões de até 15 anos a quem publicar conteúdo que o Kremlin considere como falsas. Ainda assim, YouTube e TikTok continuam acessíveis na Rússia até agora.

É incrível ver como o poder dessas empresas chega a rivalizar com o de governos, inclusive o da maior nação do mundo, dono do principal arsenal nuclear do planeta. E quem lhes garante isso somos nós mesmos, com nosso uso incessante de seus produtos, que supostamente deixam nossas vidas mais divertidas e mais fáceis. De fato, muitos profissionais e empresas dependem hoje umbilicalmente desses recursos para a manutenção de seus negócios.

Não é pouca coisa: segundo o relatório Digital 2022 Global Overview, publicada pelas consultorias Hootsuite e We Are Social, o mundo terminou 2021 com 4,62 bilhões de usuários de redes sociais, que ficam, em média, 2 horas e 27 minutos nessas plataformas todos os dias. No Brasil, usamos ainda mais: 3 horas e 41 minutos em média!

Vale notar que a Internet russa sempre foi bastante livre, apesar do caráter autoritário de Putin. Isso é muito diferente do que se vê em uma de suas principais aliadas: a China. Lá o governo sempre controlou a rede com mão de ferro. Tanto que as grandes plataformas digitais sempre foram restritas no país. Os chineses têm que se contentar com produtos locais, que são censurados e adaptados à sua cultura.

Portanto, cabe uma pergunta: e se o Brasil, de repente, banisse o Facebook, o Instagram, o WhatsApp, o Twitter, o YouTube e o Google, como ficaria sua vida?

 

Censura ou proteção?

O WhatsApp já foi bloqueado quatro vezes no Brasil, por determinação da Justiça: duas em 2015 e duas em 2016. De lá para cá, o relacionamento da Meta com a Justiça brasileira melhorou. Hoje ela faz parte de um acordo contra a desinformação, especialmente em um cenário eleitoral, uma iniciativa que também conta com outras empresas, como Google, Twitter e TikTok.

Desde o ano passado, o Telegram está sob os holofotes por se recusar a colaborar nesse sentido, o que o deixa em risco de ser bloqueado no Brasil. Com sua política de não interferir nas publicações de seus usuários, tornou-se a principal ferramenta de desinformação no mundo. Assim muita gente ficou surpresa quando a plataforma suspendeu a conta do blogueiro Allan dos Santos no último dia 26, atendendo a pedido do STF (Supremo Tribunal Federal) no seu combate às fake news.

Muitos questionam qual a diferença de um eventual bloqueio do Telegram no Brasil do que se pratica agora na Rússia. Afinal, os mecanismos pareceriam os mesmos, executados pelos poderes centrais de cada país. Mas existe uma diferença essencial: na Rússia, o bloqueio está sendo feito para permitir que o governo continue disseminando sua desinformação; aqui, o bloqueio aconteceria para justamente evitar a desinformação.

A legislação brasileira oferece bons recursos para esse combate: precisam apenas ser aplicados. O Marco Civil da Internet é um ótimo exemplo: equilibrado e construído a partir de um debate amplo com a sociedade. Por outro lado, vemos iniciativas para novas leis, que, apesar de bem intencionadas, estão sendo feitas sem o devido debate, deixando brechas que podem levar a censura de conteúdos legítimos que desagradem o governo e à liberação do que lhe interesse, mesmo que ruim. É o caso do Projeto de Lei 2630/2020, conhecido como o “Projeto de Lei das Fake News”.

A “virtualização” de nossas vidas acontece com força desde que a Internet comercial foi lançada, em 1994. A popularização dos smartphones, há uma década, acelerou muito esse processo e a pandemia reforçou isso ainda mais.

No momento de distanciamento social mais severo, no primeiro semestre de 2020, muitas pessoas e muitas empresas só conseguiram continuar operando graças às redes sociais. Apesar da grande dor que isso causou inicialmente, muitas desenvolveram novos e poderosos recursos de relacionamento com seu público. Tanto que hoje, com tudo já reaberto, continuam com essas boas práticas.

Fica difícil imaginar alguém completamente fora do mundo digital hoje. É possível não se gostar de uma ou outra plataforma, mas sempre existe aquela que combina mais com cada um de nós, trazendo benefícios reais a nossas vidas. Por isso, estar completamente off line, faz de alguém quase um “cidadão de segunda categoria”, pelos recursos que deixa de usufruir.

Temos que usar o que essas plataformas nos oferecem, e ficar atentos aos riscos associados a elas. Da mesma forma, temos que cuidar para não abusar dos poderes que elas nos dão, que poderia causar restrições evitáveis por serem transformadas em armas para se atacar os direitos alheios.

As redes sociais são um caminho sem volta! Usemos, então, seus recursos com inteligência.

O negócio agora é matar o mensageiro

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Alguns acontecimentos recentes demonstram que muita gente, diante da incapacidade de resolver problemas ou do simples desejo de manter as coisas como estão, prefere que a verdade não apareça. Esse comportamento reflete um retrocesso social, em que alguns grupos entendem que podem impor sua visão de mundo sem diálogo.

O primeiro foi o endurecimento da censura do governo russo. Veículos de comunicação foram proibidos de trazer notícias sobre a guerra, e o Facebook e o Twitter foram bloqueados na Rússia. Enquanto isso, na Ucrânia, jornalistas ingleses foram baleados por milicianos russos.

Mas se engana quem acha que isso acontece apenas em terras distantes e por causa da guerra. Na quarta, uma equipe da Rede Globo foi agredida por um homem em São Paulo, que os atacou gratuitamente com uma corrente.


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A expressão “não mate o mensageiro” se aplica perfeitamente a tudo isso. Ela vem do provérbio latino “ne nuntium necare”, que teria sido criado a partir do ato intempestivo do rei da Pérsia Dario III, que, em 331 a.C., mandou executar o mensageiro que lhe havia trazido a notícia de que seu exército havia sido derrotado pelo de Alexandre, o Grande. Criou-se um código de honra em que o mensageiro, mesmo enviado pelo inimigo, deveria ser preservado.

Matar o portador de más notícias não faz com que elas desapareçam, mas pode fazer bem ao ego ferido do governante. Além disso, se a informação negativa for silenciada antes que se espalhe, isso pode permitir que ele continue distorcendo a realidade segundo seus interesses.

Trazendo para um contexto atual, “matar o mensageiro” seria silenciar, a qualquer custo, a imprensa livre e, mais recentemente as redes sociais. E é exatamente o que se observa hoje, inclusive nos exemplos citados.

Na sexta, o parlamento russo aprovou leis que, na prática, criminalizam a cobertura da guerra na Ucrânia, com penas de 1 a 15 anos de prisão e interrupção de atividades de veículos. Não é permitido sequer usar os termos “guerra” ou “invasão” ou mencionar o total de civis mortos.

Como consequência, Facebook e Twitter, que vinham restringindo os canais oficiais russos, foram banidos do país. O mesmo deve acontecer com outras redes sociais, cujos usuários mostram os horrores da guerra, até mesmo de dentro da Ucrânia.

A rede britânica BBC, que vinha sendo restrita na Rússia, encerrou suas operações no país para salvaguardar seus profissionais. Ela foi seguida pelas americanas CNN e Bloomberg, a espanhola Efe, a italiana RAI e a canadense CBC. O jornal russo Novaya Gazeta –de Dmitri Muratov, ganhador do Nobel da Paz em 2021– e o canal alemão Deutsche Welle foram bloqueados pelo governo.

Suas coberturas da guerra continuarão normalmente fora da Rússia. Não se sabe como essa censura impactará os movimentos que combatem a guerra no quintal do presidente Vladimir Putin, mas ele já deixou claro que não vai facilitar a vida dos mensageiros.

 

A verdade como inimiga

Que ninguém duvide da disposição de autocratas como Putin de impor seus desejos sobre a verdade. É um movimento semelhante ao visto em ditadores e se transformou em ferramenta de governos autoritários no mundo todo.

A prisão, o fechamento de veículos de comunicação e a violência moral e física –incluindo assassinato– são os mecanismos usados. Mas uma das facetas mais assustadoras é que eles não são aplicados apenas por agentes repressores do Estado. Incentivados por governantes que atacam abertamente a imprensa, muitas pessoas aliadas ideologicamente a eles se investem do “dever” de calar as vozes dissonantes.

Foi o que aconteceu na sexta com uma equipe de cinco pessoas da TV britânica Sky News, cujo carro foi alvejado por uma milícia russa na Ucrânia. Apesar de gritarem que eram jornalistas para que os agressores parassem de atirar, o correspondente Stuart Ramsay foi atingido na parte inferior das costas, enquanto o operador de câmera Richie Mockler levou dois tiros em seu colete à prova de balas.

Aqui no Brasil, o exemplo mais recente aconteceu na quarta passada, quando os repórteres da Rede Globo Renato Biazzi e Ronaldo de Souza foram agredidos enquanto gravavam uma reportagem na região do Brás, em São Paulo. Um homem que segurava um cachorro preso por uma corrente se aproximou dos dois e começou a xingá-los, sem nenhum motivo aparente. Depois atacou os jornalistas com a corrente. Souza foi atingido na mão e terá que fazer uma cirurgia por isso.

A narrativa dominante sempre foi incrivelmente importante para qualquer grupo de poder. Não é à toa que a imprensa é uma das primeiras coisas atacadas por qualquer governo autoritário, seja qual for sua ideologia. Ter o povo a seu lado aumenta o poder de qualquer um. Mas a verdade acaba se sobrepondo em algum momento, por mais eficiente que seja a história.

Por exemplo, quem tem mais de 40 anos talvez se lembre dos “fiscais do Sarney”, cidadãos comuns que, a pedido do então presidente, procuravam estabelecimentos que estariam aumentando seus preços em uma época de congelamento. Alguns chegavam a baixar a porta de lojas, como se tivessem autoridade para isso. Mas todos os malfadados planos econômicos daquele governo terminaram catastroficamente.

De lá para cá, todos os presidentes brasileiros abusaram desse recurso, uns mais, outros menos. E, de 20 anos para cá, tenta-se criar por aqui o controle da imprensa como política de Estado, com eufemismos como “controle social da mídia” ou com agressões explícitas partindo do próprio presidente da República.

É uma pena observar que o poder seja usado para turvar a verdade, com o único objetivo de se ampliar o próprio poder, mesmo às custas de diminuição da qualidade de vida, de sofrimento e até da morte de inocentes. E é ainda mais triste observar como isso eficientemente convence parcelas significativas da população, seja com uma censura marcial, seja com pregações ideológicas.

Quando temos uma sociedade em que cada indivíduo tenta impor suas ideias sobre todos os demais, temos o caos. Por outro lado, quando um grupo usa da força para calar pensamentos diferentes e institucionalizar suas visões de mundo, temos um regime de natureza fascista. Os dois casos não se sustentam a longo prazo e levam a sociedade à ruína. O ditador italiano Benito Mussolini, pai do fascismo, que o diga.

Precisamos da verdade chegando livremente a todos para não rumarmos a esse abismo social. O mensageiro deve ser salvo, para que ela prevaleça.

O desafio de se manter bem informado em tempos de guerra

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Alguém saberia dizer o que fez Vladimir Putin invadir a Ucrânia? Para muitos, a resposta parece óbvia, e pessoas que se informam por veículos de comunicação profissionais e independentes seriam capazes de enumerar vários motivos.

Mas quem pode garantir com certeza o que se passa na cabeça do presidente russo?

Existe uma máxima que diz que, “em uma guerra, a primeira vítima é a verdade”. Afinal, todo mundo recebe necessariamente mais informações de um dos lados do conflito, e elas são filtradas, até mesmo porque nem sempre jornalistas conseguem chegar ao front para apurar melhor os fatos.

Mas o atual conflito na Ucrânia consolidou um novo tipo de guerra, que, ao lado de tanques e aviões no campo de batalha, acontece nas plataformas digitais. Ela foi criada para conquistar corações, mesmo entre os inimigos. E todos nós estamos sendo alvejados por essa artilharia.


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As razões de Putin estariam mais claras se as pessoas recorressem regularmente a um bom jornalismo para se informar, ao invés das redes sociais. Assim como os músculos, o senso crítico precisa ser continuamente exercitado, e nossa mente precisa ser alimentada com boas informações.

Mas muita gente vem sendo convencida que toda imprensa é ruim, restringindo sua “dieta informativa” ao pão mofado servido mas redes sociais, normalmente por seus políticos de estimação. E isso abre caminho para essa guerra digital, que, não por acaso, tem na Rússia seu maior expoente, que busca apoio para qualquer causa ou ideia, mesmo as mais estapafúrdias.

Por exemplo, uma parcela expressiva da sociedade americana defende as ações russas e o próprio ataque à Ucrânia, algo inimaginável poucos anos atrás. Muitos dizem até confiar mais em Putin que no próprio presidente, Joe Biden.

Misturando opinião com fatos distorcidos e mentiras deliberadas, as narrativas de apoio à Rússia se disseminam em plataformas digitais e em parte da mídia dada a teorias da conspiração, muitas “plantadas” por agentes russos. Por exemplo, desde o início da invasão, circula a ideia de que ela seria legítima porque a Otan (a aliança militar do Ocidente) teria violado acordos territoriais com a Rússia, que não existem.

Mas, como toda guerra, a que acontece nas plataformas digitais tem dois lados, e os opositores a Putin também usam esses recursos para se fortalecer, mesmo dentro da “Mãe Rússia”. O mandatário está tendo que enfrentar protestos em diversas cidades russas e em outros países, que pedem pelo fim da invasão. No caso das manifestações em seu próprio país, Putin as reprime com violência e prisões.

Ele quer agora bloquear qualquer visão contrária a sua. No sábado, o órgão de controle das comunicações da Rússia determinou que a imprensa pare de chamar o conflito de “guerra”, “invasão” ou “ofensiva”. O permitido é “operação militar especial em Donbass, destinada a manter a paz”. Também fica proibido dizer que a Rússia ataca cidades ucranianas ou qualquer referência a civis mortos. Quem não cumprir a regra, pode ter o veículo fechado.

O Kremlin também resolveu mostrar os dentes para empresas de tecnologia globais, como Google, Meta e Apple, cruciais nessa batalha. Elas devem se submeter imediatamente a uma nova legislação que dá poder ao governo russo para censurar conteúdos contrários aos seus interesses. As que não concordarem podem ser multadas, seus funcionários podem ser presos e suas operações impedidas no país.

Putin deseja ter o controle da Internet como acontece na ditadura chinesa, em que as empresas devem se submeter aos caprichos do governo, se quiserem operar no maior mercado do mundo. É por isso que lá praticamente não existe Google, Facebook, Instagram, Wikipedia e até Netflix, substituídos por produtos locais censurados.

Fica claro que a verdade está cada vez mais distante das plataformas digitais, restando ao jornalismo profissional encontrá-la onde quer que esteja.

 

“Não me morra!”

A principal ferramenta para isso é a reportagem, principalmente aquela feita no local dos fatos. Em uma guerra, tudo isso fica muito mais complicado, pois o teatro das operações é literalmente mortífero. Por isso, poucos veículos mandaram repórteres para cobrir a guerra na Ucrânia de perto, menos ainda são os que têm pessoal no país. O Estadão, por exemplo, enviou o jornalista Eduardo Gayer, que está na capital Kiev.

Esses jornalistas seguem um caminho aberto por Joel Silveira, primeiro correspondente de guerra brasileiro, enviado à Itália em 1944 para cobrir a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Antes de despachá-lo, seu patrão, Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, fez a seguinte recomendação: “O senhor vai pra guerra, seu Silveira, vai matar alemão! Só lhe peço uma coisa: não me morra, repórter é pra mandar notícia, não é pra morrer!”

É verdade! Nesses dias, vi repórteres brasileiros e de outras nacionalidades mostrando o que está acontecendo na Ucrânia e nos países vizinhos, conversando com pessoas. Apesar de se comoverem com as vítimas da guerra, mantiveram-se firmes em seu trabalho, algo que nenhum “comentarista de rede social” sequer imagina.

Aprendemos que precisamos ouvir diversos lados de um fato para nos aproximarmos da verdade. Essa premissa –uma das bases do bom jornalismo– continua valendo. Mas cada um de nós tem que tomar muito cuidado com esses tipos que crescem nos últimos anos feito ervas daninhas, que manipulam as plataformas digitais e usurpam a liberdade para destruir a própria liberdade.

Não tenho amigos ucranianos ou russos, e muito menos conheço os presidentes Volodimir Zelenski ou Vladimir Putin. Mas, nessa situação absolutamente extrema, podemos sempre nos fiar em valores inegociáveis e imutáveis, como o direito à vida.

Partindo desse princípio, não dá para justificar o ataque militar de grandes proporções que hoje destrói um país e ceifa incontáveis vidas, muito menos em nome de ameaças hipotéticas contas a segurança nacional. Assim, não há dúvida de quem está do lado errado nesse conflito, de quem é o agressor.

Essa guerra já respinga em nós e isso aumentará, não apenas pela subida dos preços de commodities, como petróleo, gás e trigo, mas também pela crescente desinformação, que carcome nossa sociedade, como cupins.

Temos que fazer a nossa parte, combatendo essa última. Não dá para continuar se informando por redes sociais. Elas devem ser usadas principalmente para amenidades e até promoções, coisas para as quais foram criadas. Se, em tempo de paz, devemos buscar a notícia entre aqueles que vão até ela com uma apuração séria e profissional, em tempos de guerra, isso pode se tornar caso de vida ou morte.

Pais que ficam online demais criam filhos com o mesmo problema

By | Educação | No Comments

Em nosso mundo hiperconectado, uma queixa comum de muitos pais é que seus filhos ficam tempo demais nos seus celulares e videogames, que estariam “viciados” no digital. Mas pelo menos parte desse problema se deve ao fato de que esses mesmos pais usam a tecnologia de maneira excessiva.

Pesquisa recente da empresa de cibersegurança Kaspersky deixa clara a relação direta entre o tempo de uso de aparelhos digitais pelos pais e por seus filhos. O levantamento ainda aponta que os primeiros têm dificuldade de seguir os limites que eles mesmos determinam aos pequenos.

Mas atire a primeira pedra quem nunca ficou nas redes sociais mais tempo que deveria! O que deve ser entendido é que isso pode causar prejuízos a adultos e crianças, mas que é possível usar o mundo digital sem extrapolar os limites.


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A pesquisa foi realizada no segundo semestre do ano passado, com mais de 11 mil adultos que moram com crianças de 7 a 12 anos. Foram entrevistadas pessoas de 19 países, inclusive do Brasil. O objetivo foi verificar como hábitos digitais dos adultos podem influenciar as crianças e vice-versa.

Dos entrevistados, 60% temem que seus filhos fiquem viciados em jogos, mesma porcentagem dos que se preocupam com privacidade e segurança e como esses equipamentos afetarão mental, física e socialmente os pequenos. Mas contraditoriamente 61% das crianças ganham seus primeiros dispositivos digitais entre 8 e 12 anos, sendo que 11% têm acesso antes de completar 5 anos.

“Muitos pais dão esses aparelhos a seus filhos, mesmo em tenra idade, para que eles ‘fiquem quietos’”, explica Katty Zúñiga, psicóloga integrante do Janus, o Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e Comunicação da PUC-SP, que explica que, mais importante que palavras, são os comportamentos dos próprios pais. “Não adianta os pais reclamarem que as crianças usam aparelhos eletrônicos durante as refeições, se eles mesmos fazem isso.”

De fato, a pesquisa mostra que, nas famílias cujos pais usam seus celulares enquanto estão à mesa, os filhos ficam 39 minutos online a mais que a média. Em nota, Fabiano Tricarico, diretor de consumo da Kaspersky na América Latina, explica que “a educação infantil deve começar com uma autoavaliação e uma reflexão sobre que tipo de ser humano nós, como pais, queremos formar e o que nós mesmos fazemos para sermos desta forma”. Segundo o executivo, os adultos precisam ver o ambiente digital como uma extensão de nossas vidas, e não como um espaço à parte.

Pelo levantamento global, 61% dos pais acham que nem sempre são um bom modelo em hábitos digitais. Entre os brasileiros, 58% acham difícil serem a inspiração para as crianças. Por exemplo, 72% dos pais de todo mundo relatam que enviam mensagens de texto durante as conversas, mas só 10% aceitam isso em seus filhos. Ainda assim, 95% dos pais dizem pelo menos incentivar comportamentos positivos em sua casa, como não permitir que equipamentos digitais sejam levados para a cama, adotado por 55%. Além disso, 54% dizem estabelecer regras que se aplicam não apenas às crianças, mas a toda a família (47% no Brasil).

Uma de suas conclusões mais importantes é a correlação entre o tempo de uso de dispositivos digitais entre pais e filhos. Os 18% dos pais que usam os aparelhos menos de duas horas por dia inspiram 29% dos filhos a fazer o mesmo. O grupo mais numeroso é o das pessoas que os usam de três a cinco horas por dia, respondendo por 48% dos pais e também dos filhos. Entre os que usam entre seis e oito horas diárias, estão 23% dos pais e 17% dos filhos.

Nada disso chega a ser uma surpresa. Crianças aprendem por imitação e os pais são seus principais modelos. Logo, o comportamento online das crianças deriva do dos adultos.

 

A sedução das redes sociais

Um ponto crucial é, portanto, entender por que os adultos estão ficando tanto online. Mesmo quem trabalha com o meio digital e entende os mecanismos dos algoritmos acaba às vezes “passando do ponto”.

“Quando não controlo racionalmente o que estou fazendo, no impulso eu vou para a rede, e isso me assusta um pouco”, explica Fernanda Nascimento, diretora da agência Stratlab Inteligência Digital. Ela sente que as redes estão ocupando seu tempo livre mais do que gostaria. “Quanto mais a gente consome, mais a gente quer consumir.”

Segundo a edição 2022 da pesquisa Global Digital Report, organizada pelas consultorias Hootsuite e We Are Social, o brasileiro é um dos povos que fica mais tempo em redes sociais no mundo. São 3 horas e 41 minutos todos os dias, contra uma média global de 2 horas e 27 minutos.

Zúñiga explica que a medida do “excesso” se dá quando estar nas redes sociais começa a atrapalhar outras atividades do cotidiano. Segundo ela, a Internet é sedutora. “As redes sociais foram feitas para estimular a produção de dopamina pelas pessoas, para nos dar prazer”, explica. “É por isso que a gente usa cada vez mais, e pode causar uma dependência se a pessoa não se policiar.”

Nascimento concorda: “Ali eu estou dentro de um espaço que eu conheço. Talvez ele faça sentir algum tipo de segurança que eu não reconheça racionalmente, mas que emocionalmente está instalado.”

Se esse uso excessivo pode ser angustiante para um adulto, nas crianças pode até impactar o seu rendimento escolar. Zúñiga diz que elas podem ainda se tornar irritadas, impacientes e até querer sair menos de casa e interagir com outras crianças de maneira presencial, preferindo fazer isso online.

Ela explica que não adianta simplesmente proibir o uso de recursos digitais pelas crianças, pois elas encontrarão uma maneira de burlar restrições muito estritas. Ao invés disso, os pais devem passar mais tempo com os pequenos, também acompanhando o que eles fazem no mundo digital e mostrando que há opções interessantes fora dele. “Eles devem convidar seus filhos a fazer atividades ao ar livre, ler um livro juntos, coisas que os estimulem a perceber que isso também dá prazer”, explica.

Os próprios adultos devem fazer mais atividades concretas para não perder o controle diante das redes digitais. Zúñiga diz que não adianta simplesmente desligar os aparelhos, pois isso pode resultar em uma sensação de se estar deixando de saber “algo importante”, uma síndrome conhecida pela sigla em inglês FOMO (em português, o “medo de estar perdendo algo”).

Contra isso, a pessoa deve resgatar aquilo que gosta, como trabalhos manuais, caminhar, cozinhar ou praticar esportes, “algo que ela goste de fazer e se sinta imersa naquilo”, explica a psicóloga. “Quando a gente está focado no que gosta, deixa de lado outras coisas, até mesmo a necessidade premente de estar nas redes sociais.”

Nessa semana, Nascimento prestou mais atenção para ficar menos nas redes sociais e conseguiu. “E eu fiquei bem melhor, menos estressada, menos nervosa, menos cansada”, conclui.