Nesta quarta, comemora-se o Dia do Professor no Brasil. Mas, apesar de seu papel decisivo para a construção do país, esses profissionais têm pouco a celebrar, pelas conhecidas condições precárias de trabalho e formação e apoio limitados da sociedade. Ainda assim, persistem em sua nobre tarefa, até mesmo adaptando-se às mudanças tecnológicas na profissão, como as impostas pela inteligência artificial.
Chega a ser surpreendente que, mesmo com tantas condições adversas, os professores brasileiros estejam entre os que mais usam essa tecnologia no seu trabalho. A informação é da pesquisa Talis (sigla em inglês para Pesquisa Internacional de Ensino e Aprendizagem), publicada no dia 6 pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Realizada desde 2008, cerca de 280 mil professores de 54 países participaram dessa edição.
O Brasil aparece em décimo nesse quesito, com 56% dos professores do Ensino Fundamental II usando IA nas suas aulas. Na liderança, empatados com 75%, estão os professores dos Emirados Árabes Unidos e de Cingapura. O país cujos professores menos usam é a França, com apenas 14%. A média dos países da OCDE é de 36%.
Vale notar que a adoção da IA na sala de aula varia bastante entre os países com educação de alta qualidade. Cingapura é o único desses acima do Brasil na Talis. Outras nações com educação de destaque vêm depois, como Coreia do Sul (43%), Dinamarca (36%), Estônia (35%) e Finlândia (27%).
Por isso, precisamos entender as condições em que essa tecnologia é utilizada na escola e o que leva os professores a adotá-la. Um uso sem preparo e sem apoio pode ajudar em tarefas pontuais, mas também prejudicar a própria compreensão da IA.
Já falhamos na educação dos jovens para o uso das redes sociais, levando a problemas graves e diversos. Repetir o erro com a IA pode transformar uma tecnologia poderosa e revolucionária em uma máquina de controle social e limitação cognitiva.
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Há cinco anos, os professores tiveram que se desdobrar para dar aulas a distância durante o período de isolamento social da pandemia de Covid-19. A maioria não teve qualquer treinamento ou apoio e muitos eram até criticados por pais que não gostavam do resultado, o que levou muitos à depressão.
Agora, com a inteligência artificial, não está sendo muito diferente. Segundo a Talis, os professores brasileiros usam essa tecnologia por necessidade prática e improvisação pedagógica, sem o planejamento institucional de outros países.
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Oito em cada dez docentes usam a IA no planejamento de aulas e atividades, para economizar tempo. Além disso, 62,6% usam a tecnologia para aprender mais sobre determinados temas ou para criar resumos, enquanto 35,6% a usam para correção de trabalhos e avaliações. Os robôs ajudam na personalização do ensino em 64,2% dos casos, e auxiliam 53,7% dos estudantes com necessidades especiais. Até na comunicação com pais a IA está sendo usada, por 39,4% dos professores.
Esses números sugerem que os professores estão dominando essa tecnologia. Mas a realidade é bem diferente: 64% dos brasileiros dizem não ter habilidades para usar IA de forma pedagógica e 60% afirmam que suas escolas não têm infraestrutura adequada. Ou seja, a IA vem sendo usada de forma empírica e autodidata, como ferramenta de sobrevivência e improviso, sem apoio institucional, muitas vezes recorrendo a smartphones e redes móveis pessoais para acessar esses recursos.
Um professor preparado otimiza tarefas mecânicas com a IA, liberando tempo para observar cada aluno, mediar conflitos, acolher dúvidas e inspirar curiosidade, tarefas insubstituíveis da docência. Sem preparo, a IA pode levar à automação do que deveria permanecer humano, criando planos de aula genéricos, respostas padronizadas e avaliações que não captam as nuances de cada estudante. Nesse caso, o professor deixa de ser maestro do processo de aprendizagem e vira operador da máquina.
Abismo social e pedagógico
Essa falta de preparo e apoio para uso da inteligência artificial pode, portanto, ampliar desigualdades há muito conhecidas. As melhores escolas privadas já estão atentas a isso. O problema aparece em todo o resto.
Políticas públicas devem priorizar formação continuada específica em IA para os professores, indo muito além da simples distribuição de equipamentos, apostando na capacitação sólida e supervisão ética. Mas deve haver também incentivo!
Por exemplo, o Ministério da Educação oferece um curso de 180 horas sobre aplicação pedagógica da IA para professores e gestores. Isso é positivo, mas poucos professores conseguem dedicar 180 horas para sua formação, com jornadas de trabalho duplas ou triplas. Além disso, as escolas não liberam seus docentes para uma atividade assim, e muitos nem têm acesso à Internet de qualidade. Autoridades da educação deveriam aproveitar o interesse espontâneo que a Talis revelou para construir uma política de formação docente em IA consistente.
Os professores precisam ser formados para entender as limitações e riscos da IA, evitando soluções prontas e situações em que algoritmos reproduzem vieses ou cometem equívocos. Caberá ao educador julgar o que delegará à máquina, pois educar é muito mais do que transmitir informação ou corrigir respostas.
O professor deve formar pensamento crítico, ensinar a fazer boas perguntas e ajudar jovens a desenvolver empatia, criatividade e resiliência. Deve estar presente quando um aluno tem dificuldade não apenas cognitiva, mas emocional. E precisa perceber uma turma em dificuldade, mudando a estratégia no meio da aula.
Tudo isso passa pelo reconhecimento social da docência, ainda muito baixo no Brasil. Segundo a pesquisa, apenas 14% dos professores sentem-se valorizados e só 22% estão satisfeitos com seus salários, enquanto 66% se sentem pressionados pelos resultados de seus alunos.
A IA pode transformar o cotidiano escolar e devolver tempo e propósito ao trabalho docente. Mas, para isso, é indispensável que professores sejam protagonistas do processo, e não apenas usuários de soluções importadas e pouco contextualizadas.
O Brasil tornou-se um laboratório, com inovação sem estrutura, um protagonismo ameaçado e um potencial transformador que só se realizará com aposta clara na valorização humana da educação. O protagonismo docente precisa ser preservado com uma formação continuada, ética digital e autonomia pedagógica.














