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Governos de vários países tentam restringir celulares e redes sociais a crianças e adolescentes – Foto: Pixabay/Creative Commons

Após proibição dos celulares nas escolas, uso de redes sociais e da IA por jovens exige atenção

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No início do ano letivo de 2025, a grande novidade foi a proibição de celulares nas escolas mesmo em intervalos. Agora, com as aulas deste ano prestes a começar, cresce a preocupação sobre a influência das redes sociais e até da inteligência artificial na formação dos mais jovens.

A discussão floresce em vários países. A Austrália baniu, em dezembro, as redes sociais para menores de 16 anos em qualquer ambiente, depois de um longo debate. Leis semelhantes estão sendo discutidas na França, Dinamarca, Reino Unido e Nova Zelândia.

No caso da IA, o think tank americano Centro para Educação Universal da Brookings Institution acaba de divulgar um estudo que indica que os riscos do uso da IA na educação de crianças e jovens superam seus benefícios. Segundo ele, a dependência excessiva dessa tecnologia pode afetar a capacidade dos estudantes de aprender, seu bem-estar social e emocional, suas relações de confiança com professores e colegas, bem como sua segurança e privacidade.

No Brasil, o Insper e a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), duas das principais faculdades particulares do país, começaram 2026 proibindo dispositivos eletrônicos nas aulas de graduação, exceto em atividades acadêmicas. Na primeira, notebooks e tablets ainda são tolerados; na ESPM, nem isso. A justificativa é a grande queda no aprendizado devido à distração causada por esses aparelhos.

Essas iniciativas indicam sociedades incapazes de enfrentar os evidentes problemas que as tecnologias digitais criam na formação dos mais jovens. Mas esses recursos digitais continuam vitimando crianças e adolescentes fora da escola. Diante de uma cínica falta de colaboração das empresas que criam essas plataformas, as restrições acabam sendo necessárias, pois o problema continua existindo em qualquer tela.


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Na França, a Assembleia Nacional aprovou, no dia 26, a proibição das redes sociais para menores de 15 anos. O projeto está agora no Senado e, se aprovado, deve entrar em vigor até 1º de setembro, início do ano letivo no país.

“O cérebro de nossas crianças e de nossos adolescentes não está à venda”, disse o presidente francês, Emmanuel Macron. “As suas emoções não devem ser manipuladas, nem por plataformas americanas, nem por algoritmos chineses”, concluiu.

O estudo da Brookings Institution reconhece que a IA pode ser uma poderosa ferramenta de apoio pedagógico, auxiliando na alfabetização, na aquisição de novos idiomas e no desenvolvimento da escrita. Pode ainda promover a inclusão de alunos com dificuldades e de populações excluídas do ensino formal, enquanto otimiza a rotina docente. Ao automatizar tarefas burocráticas e a criação de materiais, a IA permite que os professores se concentrem na interação direta com os estudantes.

Em contrapartida, o uso excessivo da IA ameaça o desenvolvimento cognitivo, causando uma “atrofia mental”, caso os alunos terceirizem o pensamento crítico e a resolução de problemas para a máquina. A natureza bajuladora dos chatbots prejudica a capacidade de lidar com divergências e reduz a empatia, essencial nas relações humanas. Além disso, o estudo alerta para o risco de ampliação das desigualdades, pois modelos gratuitos são menos precisos, o que levanta preocupações graves sobre a saúde mental e o isolamento social de jovens que buscam companhia em algoritmos.

Segundo o levantamento TIC Educação 2024, divulgado em outubro pelo Cetic.br, ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil, 70% dos estudantes do Ensino Médio usam a IA generativa no país, 37% se incluirmos os do Ensino Fundamental. Mas apenas 32% dos alunos do Ensino Médio receberam orientação dos professores sobre como usá-la em atividades escolares, com o índice desabando para 19% se considerarmos também o Ensino Fundamental.

 

O avanço das big techs

As empresas de tecnologia estão de olho na educação. A edição 2025 do estudo “Nossa vida com IA”, divulgado no dia 14 pelo Google e pela consultoria Ipsos, indicou que 72% dos brasileiros (de todas as idades) usam a IA para aprender, com 75% vendo impacto positivo na educação e 73% afirmando que ela melhora o aprendizado.

Em julho, a OpenAI, a Microsoft e a Anthropic anunciaram um investimento de US$ 23 milhões para levar mais IA ao Ensino Básico nos EUA. Obviamente isso não foi movido só por boas intenções. Elas são donas de algumas das maiores plataformas de IA, e querem que sejam muito usadas desde os primeiros anos escolares, o que potencializa os benefícios e os riscos já citados. Por isso, muitos professores americanos resistem a uma adoção massificada.

No fim do ano passado, a OpenAI lançou o “Modo de Estudo” do ChatGPT, com o objetivo de criar um ambiente em que a IA atua como um tutor, incentivando a reflexão em vez de fornecer respostas prontas. Mas, apesar de interessante, especialistas criticam o recurso por não distinguir informações corretas de erradas.

A sociedade precisa se organizar para melhorar o uso não só da IA, mas das diferentes tecnologias digitais na sala de aula. Essa integração deve ter regras claras e foco no desenvolvimento humano, não apenas na execução de tarefas. As práticas escolares devem ser repensadas para valorizar curiosidade e engajamento, e é preciso treinar professores e alunos em alfabetização digital. No caso de IA, as ferramentas devem ser menos “bajuladoras”, desafiando os estudantes a pensar criticamente.

Precisamos de políticas públicas e regulamentações que protejam a saúde cognitiva, emocional e a privacidade das crianças e dos adolescentes. Governos, educadores e pais devem assegurar que essas tecnologias digitais não amplifiquem desigualdades.

A digitalização da sociedade é irreversível, mas isso não quer dizer que ela deva acontecer de maneira descuidada, especialmente com crianças e adolescentes. Dentro da sala de aula, ela jamais pode substituir os professores, devendo estar subordinada aos educadores, que precisam ser envolvidos na busca por soluções.

Fora da escola, os pais têm um papel decisivo para apoiar um uso seguro e construtivo dos serviços digitais por seus filhos. É uma tarefa ingrata, pois eles mesmos são vítimas dos abusos nessas plataformas. Infelizmente, as big techs dão repetidas mostras de não estar interessadas em fazer movimentos necessários para soluções sustentáveis e eficientes se isso ameaçar seus ganhos bilionários.

 

Professora ajuda aluna a usar tablet em sala de aula -Foto: Freepik/Creative Commons

Mesmo com formação e apoio limitados, professores brasileiros usam muito a IA

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Nesta quarta, comemora-se o Dia do Professor no Brasil. Mas, apesar de seu papel decisivo para a construção do país, esses profissionais têm pouco a celebrar, pelas conhecidas condições precárias de trabalho e formação e apoio limitados da sociedade. Ainda assim, persistem em sua nobre tarefa, até mesmo adaptando-se às mudanças tecnológicas na profissão, como as impostas pela inteligência artificial.

Chega a ser surpreendente que, mesmo com tantas condições adversas, os professores brasileiros estejam entre os que mais usam essa tecnologia no seu trabalho. A informação é da pesquisa Talis (sigla em inglês para Pesquisa Internacional de Ensino e Aprendizagem), publicada no dia 6 pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Realizada desde 2008, cerca de 280 mil professores de 54 países participaram dessa edição.

O Brasil aparece em décimo nesse quesito, com 56% dos professores do Ensino Fundamental II usando IA nas suas aulas. Na liderança, empatados com 75%, estão os professores dos Emirados Árabes Unidos e de Cingapura. O país cujos professores menos usam é a França, com apenas 14%. A média dos países da OCDE é de 36%.

Vale notar que a adoção da IA na sala de aula varia bastante entre os países com educação de alta qualidade. Cingapura é o único desses acima do Brasil na Talis. Outras nações com educação de destaque vêm depois, como Coreia do Sul (43%), Dinamarca (36%), Estônia (35%) e Finlândia (27%).

Por isso, precisamos entender as condições em que essa tecnologia é utilizada na escola e o que leva os professores a adotá-la. Um uso sem preparo e sem apoio pode ajudar em tarefas pontuais, mas também prejudicar a própria compreensão da IA.

Já falhamos na educação dos jovens para o uso das redes sociais, levando a problemas graves e diversos. Repetir o erro com a IA pode transformar uma tecnologia poderosa e revolucionária em uma máquina de controle social e limitação cognitiva.


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Há cinco anos, os professores tiveram que se desdobrar para dar aulas a distância durante o período de isolamento social da pandemia de Covid-19. A maioria não teve qualquer treinamento ou apoio e muitos eram até criticados por pais que não gostavam do resultado, o que levou muitos à depressão.

Agora, com a inteligência artificial, não está sendo muito diferente. Segundo a Talis, os professores brasileiros usam essa tecnologia por necessidade prática e improvisação pedagógica, sem o planejamento institucional de outros países.

Oito em cada dez docentes usam a IA no planejamento de aulas e atividades, para economizar tempo. Além disso, 62,6% usam a tecnologia para aprender mais sobre determinados temas ou para criar resumos, enquanto 35,6% a usam para correção de trabalhos e avaliações. Os robôs ajudam na personalização do ensino em 64,2% dos casos, e auxiliam 53,7% dos estudantes com necessidades especiais. Até na comunicação com pais a IA está sendo usada, por 39,4% dos professores.

Esses números sugerem que os professores estão dominando essa tecnologia. Mas a realidade é bem diferente: 64% dos brasileiros dizem não ter habilidades para usar IA de forma pedagógica e 60% afirmam que suas escolas não têm infraestrutura adequada. Ou seja, a IA vem sendo usada de forma empírica e autodidata, como ferramenta de sobrevivência e improviso, sem apoio institucional, muitas vezes recorrendo a smartphones e redes móveis pessoais para acessar esses recursos.

Um professor preparado otimiza tarefas mecânicas com a IA, liberando tempo para observar cada aluno, mediar conflitos, acolher dúvidas e inspirar curiosidade, tarefas insubstituíveis da docência. Sem preparo, a IA pode levar à automação do que deveria permanecer humano, criando planos de aula genéricos, respostas padronizadas e avaliações que não captam as nuances de cada estudante. Nesse caso, o professor deixa de ser maestro do processo de aprendizagem e vira operador da máquina.

 

Abismo social e pedagógico

Essa falta de preparo e apoio para uso da inteligência artificial pode, portanto, ampliar desigualdades há muito conhecidas. As melhores escolas privadas já estão atentas a isso. O problema aparece em todo o resto.

Políticas públicas devem priorizar formação continuada específica em IA para os professores, indo muito além da simples distribuição de equipamentos, apostando na capacitação sólida e supervisão ética. Mas deve haver também incentivo!

Por exemplo, o Ministério da Educação oferece um curso de 180 horas sobre aplicação pedagógica da IA para professores e gestores. Isso é positivo, mas poucos professores conseguem dedicar 180 horas para sua formação, com jornadas de trabalho duplas ou triplas. Além disso, as escolas não liberam seus docentes para uma atividade assim, e muitos nem têm acesso à Internet de qualidade. Autoridades da educação deveriam aproveitar o interesse espontâneo que a Talis revelou para construir uma política de formação docente em IA consistente.

Os professores precisam ser formados para entender as limitações e riscos da IA, evitando soluções prontas e situações em que algoritmos reproduzem vieses ou cometem equívocos. Caberá ao educador julgar o que delegará à máquina, pois educar é muito mais do que transmitir informação ou corrigir respostas.

O professor deve formar pensamento crítico, ensinar a fazer boas perguntas e ajudar jovens a desenvolver empatia, criatividade e resiliência. Deve estar presente quando um aluno tem dificuldade não apenas cognitiva, mas emocional. E precisa perceber uma turma em dificuldade, mudando a estratégia no meio da aula.

Tudo isso passa pelo reconhecimento social da docência, ainda muito baixo no Brasil. Segundo a pesquisa, apenas 14% dos professores sentem-se valorizados e só 22% estão satisfeitos com seus salários, enquanto 66% se sentem pressionados pelos resultados de seus alunos.

A IA pode transformar o cotidiano escolar e devolver tempo e propósito ao trabalho docente. Mas, para isso, é indispensável que professores sejam protagonistas do processo, e não apenas usuários de soluções importadas e pouco contextualizadas.

O Brasil tornou-se um laboratório, com inovação sem estrutura, um protagonismo ameaçado e um potencial transformador que só se realizará com aposta clara na valorização humana da educação. O protagonismo docente precisa ser preservado com uma formação continuada, ética digital e autonomia pedagógica.

 

Painel sobre uso da IA na educação, no evento AI Summit Brasil, que aconteceu em São Paulo, na semana passada - Foto: divulgação

Modismos podem afastar as escolas de bons usos da inteligência artificial

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Nos últimos dias, a proposta de uma escola americana que trocou professores por plataformas de inteligência artificial ganhou destaque no noticiário. Mas apesar de seduzir famílias interessadas em inovação e dispostas a pagar uma mensalidade equivalente a R$ 18 mil, a ideia promove um profundo desserviço para a educação.

Criada pela influenciadora MacKenzie Price em Austin e já presente em outras dez cidades no país, a Alpha School dedica apenas duas horas diárias a disciplinas tradicionais, como linguagem e matemática. Para ela, “as salas de aula são o novo campo de batalha global”. Todo o processo de aprendizagem é conduzido por sistemas de IA, que prometem ajustar o progresso ao desempenho individual dos estudantes, que não são divididos em séries.

O restante do tempo na escola serve para socialização, oficinas e projetos em temas como empreendedorismo, oratória, liderança e educação financeira, baseados em metas e recompensas. Para essas atividades, os alunos são auxiliados por “guias” (que não são professores), também orientados por IA.

Esse verniz de modernidade parece uma ótima ideia. Mas quem propôs isso não sabe o que é a inteligência artificial e muito menos o que é educação.

O tema foi debatido no painel de IA na educação no AI Summit Brasil, que aconteceu na semana passada em São Paulo, do qual participei. A conclusão foi que a IA pode e deve ser usada na escola, mas só trará resultados positivos se for implantada sob orientação de educadores, fugindo de modismos e de propostas espalhafatosas.


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Aqui mesmo, no Brasil, já vemos usos positivos dessa tecnologia na sala de aula, nos conhecidos centros de elite educacional. Neles, a tecnologia ajuda a tirar dúvidas dos alunos, personalizar conteúdos e atividades para cada um e cuidar de atividades que tomam muito tempo dos professores, permitindo que invistam mais na experiência dos estudantes. Em todos os casos, os docentes continuam no centro do processo.

“É importante desenvolver nos alunos a consciência de que a IA é uma ferramenta, e não uma fonte absoluta de verdade”, explica o professor Pedro Teberga, especialista em negócios digitais. “O uso responsável da IA passa também por saber quando não a usar, valorizando o esforço cognitivo e a criatividade humana”, acrescenta.

Quando o ChatGPT foi lançado, no fim de 2022, tocou em cheio a educação. Os professores ficaram com medo de não conseguir mais avaliar seus alunos e de que perderiam seus empregos para máquinas. Passados 33 meses, esses temores não se concretizaram, mas estão criando mudanças na avaliação, no ensino e na profissão.

A IA pode estimular debates, gerar hipóteses, simular dilemas e dar respostas em tempo real. Com ela, o professor não se limita a apenas transmitir conteúdo, passando a elaborar experiências que orientam e desafiam os alunos que, por sua vez, tendem a ficar mais engajados com o uso consciente da tecnologia, sem criar dependência dela.

Apesar de todos esses benefícios, a IA está muito longe de poder conduzir sozinha uma sala de aula. “O maior erro seria tratar isso como um tema puramente técnico, pois é, antes de tudo, pedagógico”, afirma Teberga. Esse descuido poderia levar à superficialidade na aprendizagem, uso irrefletido da tecnologia, dependência cognitiva e até a perpetuação de vieses da IA. Segundo ele, “o problema não é a IA em si, mas a forma como ela é integrada ao processo pedagógico”.

 

Criando regras

Promulgado no ano passado, o AI Act, a lei europeia de inteligência artificial, classifica seu uso na educação como de “alto risco”. Por isso, exige mecanismos de segurança, transparência e prevenção de discriminação. E ainda proíbe seu uso em práticas invasivas, como reconhecimento de emoções e pontuação social.

No Brasil, o Conselho Nacional de Educação está elaborando diretrizes para o uso da IA nas escolas, buscando uma aplicação ética, segura e pedagógica. A proposta prevê incluir o ensino da IA na formação de professores, preparando-os para utilizá-la como apoio à aprendizagem, sem substituir seu papel de educador. O CNE enfatiza a importância da mediação humana no uso da IA, o respeito à privacidade e a promoção da equidade, além de incentivar inovação e inclusão educacional.

Isso está em linha com a proposta da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Outros países, como Estônia, Singapura e Canadá, já adotam políticas que integram infraestrutura digital, capacitação e desenvolvimento dessas competências. Nos EUA, universidades como Harvard e Stanford já estabeleceram orientações claras sobre o uso da IA nas salas de aula.

Leis como essas são necessárias, mas não suficientes. É preciso capacitação dos docentes e conscientização das famílias, que devem atuar em parceria com as escolas.

É importante ficar claro que o professor não precisa dominar profundamente a IA para usá-la bem. Mas as escolas devem orientá-lo e apoiá-lo continuamente nisso, além de elaborar políticas que garantam liberdade pedagógica com responsabilidade. Não pode haver nem tecnofobia, nem tecnolatria.

Costumo dizer que uma das coisas mais interessantes de se pesquisar a inteligência artificial é ser obrigado a olhar mais para nossa humanidade. Ela é o nosso diferencial em um mundo em que a máquina ilusoriamente parece ser capaz de fazer tudo, e isso é particularmente importante na educação.

Sobre a Alpha School, Teberga alerta que ela minimiza aspectos essenciais da educação, como a mediação docente e o desenvolvimento emocional e social dos alunos, especialmente dos menos motivados. “O risco é transformar o ensino em um produto técnico e desumanizado, quando o que precisamos é justamente o oposto, com uma educação crítica, inclusiva e centrada nas pessoas”, conclui.

A escola precisa ser um espaço seguro, focado nos indivíduos. A educação vai além da transmissão de conhecimento, envolvendo mediação humana, desenvolvimento crítico, estímulo à criatividade e suporte emocional. A IA não tem empatia, capacidade de interpretar nuances individuais ou habilidade para promover debates que formem cidadãos conscientes. Por isso, antes de abraçarem propostas “modernosas”, as famílias devem se preocupar com que tipo de adultos seus filhos se tornarão.

 

Felca entrevista a psicóloga Ana Beatriz Chamat no seu vídeo “Adultização” - Foto: reprodução

Mais que criminosos, Felca denunciou uma sociedade que vive de barbaridades

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O Brasil está em polvorosa desde que Felipe Bressanim Pereira, o Felca, denunciou a pedofilia nas redes sociais em seu vídeo “Adultização”, publicado no dia 6. Mais do que bem-vindo, o movimento é essencial para resgatarmos uma sociedade civilizada, que proteja crianças e adolescentes. Mas corremos o risco de que o problema seja tratado de maneira superficial e –pior ainda– que acabe em uma escandalosa pizza.

O influenciador apontou os responsáveis mais evidentes, como personalidades digitais que exploram a erotização de crianças, os pedófilos que inundam as redes sociais e até pais e mães que, por ação, omissão ou ignorância, colocam os próprios filhos em risco. Mas essa situação também resulta de uma sociedade que, nos últimos 15 anos, se acostumou com todo tipo de barbaridade e até se beneficia delas.

O maior exemplo é a classe política. Apesar desses abusos contra os mais jovens serem conhecidos e debatidos há anos, bastou a comoção criada por Felca para o surgimento de dezenas de projetos de lei para combater esse delito. Porém mais grave ainda são os parlamentares que querem impedir que uma solução avance.

É o caso também das plataformas digitais, que apresentam um discurso de proteção a crianças e adolescentes, mas que se beneficiam largamente dessas práticas criminosas, que acontecem de maneira explícita em suas páginas, em perfis com milhões de seguidores. Em vez de combaterem a prática, elas desmantelaram suas próprias estruturas de moderação de conteúdo e de proteção. Em seu lugar, montaram poderosos esforços de lobby para convencer políticos a defenderem seus interesses. Não satisfeitas, associaram-se ao presidente americano, Donald Trump, para usar o poder dos EUA para achacar países que buscam soluções.

Além de combater os criminosos óbvios, a sociedade precisa, portanto, enquadrar aqueles que sustentam a estrutura para essas atrocidades.


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O oportunismo faz parte do jogo político. Diante do vídeo do Felca, parlamentares já apresentaram mais de 30 propostas para proteger crianças e adolescentes nas redes sociais, proibindo a monetização de conteúdos de menores, criminalizando a “adultização” e a sexualização infantil, responsabilizando pais e plataformas digitais e bloqueando perfis de infratores. Uma CPI sobre o assunto também pode acontecer.

Da mesma forma, apesar da urgência do tema, um grupo de parlamentares se aproveita destes holofotes para afirmar suas pautas de que tudo não passa de um complô do governo para calar a oposição, e que o objetivo é limitar a liberdade de expressão.

“Na lei brasileira, o Norte é o melhor interesse da criança e do adolescente”, afirma Marcelo Crespo, coordenador do curso de graduação de Direito da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Ele explica que, “em ambiente digital, o teste do melhor interesse implica zero sexualização, nada de humilhação, nada de exploração comercial desproporcional, mínima coleta de dados e rotina compatível com a idade”.

Mas passadas duas semanas, a Agência Lupa constatou que as redes sociais continuam promovendo conteúdos que erotizam crianças e atraem pedófilos. Em julho, já havia revelado que o Facebook e o Telegram permitem a venda de imagens criadas por inteligência artificial de influenciadoras nuas, incluindo menores de idade. Alguns anúncios prometem vídeos com “novinhas”, “incestos” e “conteúdo banido no Brasil”.

Em outubro de 2024, a organização americana Aliança para Combater o Crime Digital (ACCO, em inglês) divulgou um relatório que conclui que a Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, viola sistematicamente a Lei de Serviços Digitais europeia (DSA). Ela pede que as autoridades imponham sanções contra a empresa “por hospedar esse vasto ecossistema de infratores que compartilham conteúdo violador”.

“Essas plataformas assumem um papel ativo na formatação do ambiente informacional e, portanto, devem implementar medidas efetivas para evitar que sua infraestrutura seja utilizada para fins ilícitos ou prejudiciais”, explica Marcelo Cárgano, advogado especialista em direito digital e proteção de dados do escritório Abe Advogados. Segundo ele, “o STF considerou que os mesmos mecanismos tecnológicos usados para direcionar anúncios com alto grau de precisão poderiam ser aplicados para identificar, bloquear e remover rapidamente tais conteúdos”.

 

Hipocrisia online

Quando confrontadas com esses crimes em suas páginas, as big techs se defendem com um discurso padrão de que não toleram essas práticas e que removem esse tipo de conteúdo. Mas os fatos demonstram o contrário.

No dia 14, a Reuters divulgou uma análise de um documento interno da Meta que indica que sua inteligência artificial deliberadamente pode manter conversas românticas e sensuais com crianças e promover racismo e informações médicas incorretas. A dona do Facebook admitiu a veracidade do documento, mas disse que retirou a permissão para as conversas de teor sexual com crianças pela sua IA.

Só que esse é um problema recorrente. Em outubro de 2021, por exemplo, Frances Haugen, ex-gerente do setor de integridade cívica do Facebook, divulgou milhares de documentos internos da empresa que revelavam como a plataforma priorizava seus lucros frente a práticas que causavam danos à sociedade, à democracia e à saúde mental dos jovens.

Quando a sociedade falha ao encontrar mecanismos razoáveis para esses abusos, podem surgir medidas extremas. É o caso da lei australiana que sumariamente proíbe o uso de qualquer rede social por menores de 16 anos. Aprovada em novembro de 2024, entra plenamente em vigor em 10 de dezembro desse ano, determinando que as plataformas impeçam esse uso, sob pena de multas equivalentes a R$ 175 milhões.

O cinismo das big techs e a inoperância dos parlamentares podem levar a indesejados extremos como esse. Enquanto isso, vemos o governo americano atacando o Brasil, a União Europeia e outros países para proteger os interesses dessas empresas.

No final, caímos de novo no surrado debate de defesa da liberdade de expressão, usurpada para defender interesses inconfessáveis. O mesmo artigo da Constituição que a garante também veda o anonimato, pois ela não é absoluta.

Mecanismos que garantem outros direitos individuais não ameaçam a liberdade de expressão, e sim criam uma sociedade segura, para uma coexistência pacífica e saudável. Posicionar-se contra isso demonstra uma profunda distorção cívica. O debate criado por Felca nos dá mais uma chance de fazermos o que é certo.

 

Jovens prestam vestibular: medo e pressão atrapalham a escolha da carreira na Geração Z – Ilustração: Paulo Silvestre

Custos, retorno menor, desigualdade e inteligência artificial ameaçam valor da universidade

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Historicamente, o diploma de um curso superior era o passaporte para um emprego bem remunerado, que garantia um padrão de vida alto. Porém, mudanças no mercado de trabalho, novos interesses dos jovens e o avanço da inteligência artificial estão provocando questionamentos inéditos sobre dedicar anos à universidade.

Esse é um fenômeno global, mas com nuances locais. No Brasil, a universidade ainda guarda um forte valor simbólico e prático de ascensão social e profissional. Mas uma pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie revelou que o ensino superior precisa mudar para manter isso diante de jovens que buscam formações alinhadas a seus valores e conectadas às transformações sociais, culturais e tecnológicas.

Nos Estados Unidos, a situação é mais dramática. Um levantamento da plataforma de empregos Indeed indicou que 51% dos jovens da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) consideram a universidade um “desperdício de dinheiro”, contra 41% dos millennials (entre 1981 e 1996) e 20% dos baby boomers (entre 1946 e 1964).

Não é para menos. Os custos dos cursos universitários na terra do Tio Sam dobraram desde o ano 2000, enquanto os salários cresceram muito menos. Muitos profissionais precisam trabalhar até 20 anos para pagar pela sua formação. E por lá, a diferença entre a média dos salários das pessoas com e sem ensino superior não para de cair.

A explosão da inteligência artificial generativa ampliou esse dilema. Cada vez mais profissionais acham que saber operar bem essa tecnologia pode dispensá-los de fazer uma faculdade. Por outro lado, empresas estão contratando menos profissionais recém-formados, pois os gestores acreditam que a IA pode fazer tudo que eles fariam.

Essa “tempestade perfeita” pode levar a uma sociedade cada vez menos crítica, com profissionais incapazes de descobrir algo novo e dependentes da IA. Mas há esperança, e ela passa justamente pela transformação das universidades.


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Para Ana Lúcia de Souza Lopes, pesquisadora do programa de Educação, Arte e História da Cultura, que participou da pesquisa do Mackenzie, muitos jovens da geração Z, que cresceram vendo a tecnologia desconstruindo profissões tradicionais, preferem ser influencers ou gamers, que não exigem longas formações. “Uma das coisas que nos chamou muita atenção é a questão do medo, da pressão, da confusão sobre o processo de aquisição de conhecimento e até de pensar em uma carreira”, explica.

A pressão por decidir o futuro ainda no Ensino Médio se choca com uma geração emocionalmente frágil, bombardeada por narrativas instantâneas e espetaculares nas redes sociais. Isso reforça os “nem-nem”, jovens que não estudam nem trabalham. No Brasil, esse grupo se amplia em ritmo preocupante, refletindo uma realidade global de desalento profissional precoce.

A reforma do Ensino Médio, já em sua terceira versão, ampliou o abismo entre alunos das redes pública e privada. Enquanto escolas particulares focam no vestibular, a educação pública foi fragmentada em itinerários formativos que deixaram alunos menos preparados para o ensino superior.

Com isso, temos jovens privilegiados que fazem múltiplas graduações, buscando formação interdisciplinar. Por outro lado, cresce uma massa que busca alternativas em cursos técnicos, certificações digitais ou simplesmente desiste.

A substituição de recém-formados pela inteligência artificial cria um perigoso paradoxo profissional. Afinal, para se tirar bom proveito dela, é preciso saber o que e como lhe pedir, algo que se aprende na universidade e com experiência profissional. Mas se as empresas não contratam mais esses jovens, como esperam ter profissionais experientes no futuro, para operar a IA? Ninguém nasce sabendo!

É mais uma miopia que engrossa esse caldo, ameaçando a trajetória das pessoas, a sobrevivência das empresas e o desenvolvimento da sociedade. Com isso, corremos o risco de ter, em alguns anos, não mais uma massa de desempregados, mas de “inempregáveis”, pessoas que não terão habilidades para realizar qualquer trabalho.

 

Para que serve a universidade

Lopes reforça o risco de se olhar para a universidade de forma apenas utilitarista. A sociedade está reduzindo a educação a uma transação comercial, em que se investe tempo e dinheiro para se receber um emprego. Mas quando essa equação não se sustenta, o sistema entra em colapso.

“A universidade tem toda uma dinâmica de vivência que contribui para a formação de quem é esse profissional”, afirma a pesquisadora. Para ela, “isso é muito importante na formação desse humano que pensa e que precisa entender a complexidade do mundo, enxergando os dilemas da sociedade”.

O fenômeno de desvalorização da universidade é, portanto, complexo e multifacetado. Há exagero e desinformação, ampliados por sensacionalismo nas redes sociais e por influenciadores que vendem a falsa ideia de que bastam carisma e um celular para enriquecer. Mas também há falhas reais, como currículos “engessados”, modelos pedagógicos ultrapassados e pouca conexão com os dilemas contemporâneos.

Isso pode nos levar a uma elite cada vez mais poderosa, conectada e formada globalmente, e a uma grande maioria deslocada, desorientada e sem as ferramentas básicas para se posicionar no mundo. E isso cria uma “bomba-relógio social”.

A sociedade precisa se unir para solucionar o problema. As universidades devem flexibilizar seus currículos, sem dispensar a profundidade crítica. Escolas precisam se reconectar com a realidade e formar cidadãos, não apenas candidatos ao vestibular. Empresas devem reavaliar o uso da IA, abrindo espaço para aprendizes e fomentando programas de desenvolvimento de talentos. Por fim, o governo deve garantir equidade no acesso ao ensino de qualidade, especialmente para os mais vulneráveis.

Paradoxalmente, a própria IA reforça a importância das competências desenvolvidas em um bom curso superior. Enquanto algoritmos executam tarefas repetitivas, humanos precisam definir estratégias, tomar decisões éticas e navegar por complexidades que máquinas não compreendem. Profissionais com formação sólida estão mais bem preparados para comandar a IA, e não serem comandados por ela.

A escolha não pode recair, portanto, entre fazer faculdade ou se apoiar na tecnologia, mas entre ser protagonista ou coadjuvante da própria carreira e da vida. Em um mundo em que máquinas fazem cálculos probabilísticos incríveis, humanos bem formados fazem a diferença ao definir quais desses cálculos realmente importam.

 

O ministro da Educação, Camilo Santana, e o presidente do Inep, Manuel Melo, apresentam o Censo Escolar – Foto: José Cruz/Agência Brasil

Educação busca caminhos entre demagogia política e desafios digitais

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Entre discursos políticos inflados e dados contraditórios, a educação brasileira navega por águas turbulentas. De um lado, o governo celebra avanços questionáveis na alfabetização. De outro, crianças cada vez mais imersas no universo digital enfrentam desafios cognitivos inéditos.

A dúvida sobre quantos brasileiros estavam alfabetizados no 2º ano do Ensino Fundamental em 2023 simboliza um impasse educacional contemporâneo. Depois de críticas pela demora, o Ministério da Educação (MEC) finalmente divulgou, no dia 3, dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), com esse índice em 49,3%. Ele é significativamente menor do que os 56% anteriormente anunciados pelo mesmo MEC no programa Criança Alfabetizada. O governo afirma que o último é mais preciso, mas especialistas desconfiam disso, pela diferença nada desprezível de 7%.

Ao mesmo tempo, educadores encaram uma geração com menos capacidade de concentração e autonomia. Por isso, entre demagogos que distorcem diagnósticos e a revolução digital que transforma mentes, o Brasil precisa de uma política educacional onde transparência nos dados e uso consciente da tecnologia se tornam não apenas desafios técnicos, mas imperativos éticos para o futuro das crianças.

O celular na mão de um estudante pode ser tanto uma janela para o conhecimento quanto uma distração constante que prejudica seu aprendizado. O problema não está na tecnologia em si, mas em como a utilizamos. O uso passivo e exagerado de telas fragmenta a atenção, justamente quando precisamos fortalecer as bases cognitivas de uma geração com graves déficits educacionais.

Esse não é um problema exclusivamente brasileiro, claro. O impacto do meio digital no desenvolvimento cognitivo e na educação vem sendo discutido há anos no mundo todo, resultando em iniciativas mais ou menos acertadas em vários países.


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No Brasil, desde o início desse ano letivo, alunos do Ensino Básico estão proibidos de usar celulares nas escolas, exceto em atividades sob orientação dos professores. A medida é aprovada por educadores e pela população, mas enfrenta dificuldades, como resistência cultural, fiscalização difícil, apoio da comunidade escolar, capacitação dos professores e preocupações com a boa integração da tecnologia na escola.

Já a Austrália adotou uma posição mais radical no ano passado, proibindo qualquer uso de redes sociais por pessoas com menos de 16 anos. A decisão veio da pouca colaboração dessas plataformas no combate a graves riscos que a enxurrada de conteúdos nocivos em suas páginas impõe a crianças e adolescentes.

“Não acredito em extremos”, afirma a professora Adriana Pavarina, mestre em Psicologia Educacional e avaliadora no INEP/MEC. “Acredito que política pública equilibrada reconhece a complexidade do uso de redes sociais por adolescentes, buscando proteger seus direitos e bem-estar, ao mesmo tempo em que os prepara para navegar no mundo digital de forma segura e responsável”, acrescenta.

Nesse sentido, a Base Nacional Comum Curricular para Computação, homologada pelo MEC em 2022, busca unir a alfabetização tradicional e o letramento digital. Em vez de focar apenas no manuseio de ferramentas, ela enfatiza habilidades cognitivas fundamentais, como análise e interpretação de dados, resolução de problemas complexos, processos de criação, inovação e compreensão de algoritmos.

Se desenvolvidas adequadamente, essas habilidades fortalecem as capacidades necessárias para a alfabetização convencional, como atenção sustentada, pensamento sequencial e compreensão profunda. Mas ainda hoje, em muitas escolas, a tecnologia continua sendo limitada ao ensino de ferramentas específicas e em noções básicas de informática.

 

O risco de uma “geração de preguiçosos”

Nesse cenário, a inteligência artificial generativa surgiu com enorme força, impactando todos os setores da sociedade, inclusive a educação. E assim como acontece com outras tecnologias digitais, ela oferece incríveis oportunidades, mas também armadilhas para professores e alunos, dependendo de como for usada.

“Existe um risco real de formarmos uma geração de ‘preguiçosos cognitivos’ se a tecnologia for utilizada de forma predominantemente passiva, como uma muleta para evitar o esforço mental”, explica Pavarina. Segundo ela, “a facilidade de encontrar respostas prontas, de usar aplicativos para realizar cálculos ou do consumo de conteúdos superficiais pode, a longo prazo, enfraquecer as habilidades cognitivas”.

Por outro lado, a IA emerge como uma poderosa ferramenta de ampliação cognitiva. Ela pode ser usada, por exemplo, em assistentes virtuais para pesquisas, plataformas de aprendizado adaptativo e ferramentas de análise de dados. Também pode ajudar professores no desafio permanente de criar atividades atraentes para manter a atenção dos alunos, e ricas em informações e desafios para promover o aprendizado profundo. Mas para isso, os docentes precisam ser capacitados tecnicamente e em princípios éticos da IA, incentivando um uso produtivo, seguro e responsável.

Os recursos devem ser usados para reintroduzir o “esforço cognitivo prolongado” em uma geração que as redes sociais acostumaram à gratificação instantânea e vazia. Precisamos reconstruir a valorização do processo e da recompensa em longo prazo, com estratégias que os motivem a encarar tarefas desafiadoras, incentivar a leitura profunda e a escrita elaborada, conectar o aprendizado a objetivos significativos, criar um ambiente de aprendizagem que valorize o esforço, usar a tecnologia de forma estratégica e conectar o aprendizado ao mundo real e às experiências práticas.

“Essa transição não será imediata, muito menos simples, mas, com estratégia e uma mudança na mentalidade sobre o aprendizado, é possível ajudar as novas gerações a desenvolverem a capacidade de se engajarem em tarefas intelectuais mais desafiadoras e a colherem as recompensas de um aprendizado mais profundo e significativo”, afirma Pavarina.

Mesmo com sua diferença, os índices de alfabetização do Saeb e do “Criança Alfabetizada” servem como um lembrete contundente de que a jornada da educação na era digital está longe de ser uma linha reta e suave. A tecnologia não é vilã nem salvadora da educação brasileira, mas a impacta profundamente segundo seus usos.

É preciso mais clareza, mais transparência e, acima de tudo, um olhar atento e crítico para o impacto da tecnologia em nossas crianças e adolescentes. A “preguiça cognitiva” não pode ser o legado desta geração. O esforço, a curiosidade e a sede por conhecimento devem ser os pilares de um futuro em que o digital seja um aliado poderoso, e não um entrave, para o desenvolvimento pleno de cada indivíduo.

 

Pela lei, alunos não poderão usar celulares nem no recreio ou no intervalo das aulas - Foto: pvproductions/Freepik/Creative Commons

Até onde escolas sem celulares resolvem problemas da superexposição às telas?

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Desde o dia 13, alunos não podem mais usar celulares e tablets pessoais nas escolas brasileiras de Ensino Fundamental e Ensino Médio. A lei 15.100/2025, que visa “salvaguardar a saúde mental, física e psíquica das crianças e adolescentes”, também é positiva frente às enormes perdas pedagógicas que esses equipamentos produzem. Mas ela não resolve o problema da superexposição dos mais jovens às telas, pois isso acontece principalmente em casa.

É um desafio complexo, pois vivemos em um mundo profundamente digitalizado, desde tenra idade. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, publicada em outubro pelo Cetic.br, órgão de pesquisas do CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), indicou que 93% dos brasileiros entre 9 e 17 anos usam a Internet, quase sempre pelo celular. Praticamente todas as crianças ficam online em casa, e cerca de metade fazem isso na escola. E o primeiro contato se dá até os 6 anos para 23% e entre 7 e 9 anos para 26%, contrariando especialistas, que indicam que isso só comece na adolescência.

A lei reforça a autoridade do professor, que hoje tem que lutar contra as distrações do celular na sala de aula. Mas pais e mães precisam trabalhar com as escolas para combater os efeitos das telas sobre seus filhos, que vão muito além de piora no desempenho escolar. Elas podem causar sérios problemas de saúde mental, sono ruim, dificuldade de sociabilização, exposição a assédios, distúrbios alimentares e até de postura.

A tarefa cresce porque, por outro lado, os mais jovens precisam ser educados a usarem esses equipamentos de maneira segura e positiva. A proteção às crianças e aos adolescentes não pode ser confundida com alienação tecnológica.


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Tanto é assim que a lei permite que esses equipamentos sejam usados em atividades pedagógicas sob orientação do professor. Eles também podem ser usados por alunos que dependam deles por necessidades de saúde, acessibilidade ou inclusão.

A regra determina que não sejam usados nem no recreio ou nos intervalos entre aulas. Estudo realizado em 2023 pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) indicou que o “dreno de atenção” dos smartphones é tão grande, que os alunos podem levar até 20 minutos para se concentrar novamente depois de usarem o celular em atividades não-acadêmicas. Mas o documento lembra que a tecnologia deve fazer parte da formação do indivíduo.

“É muito importante entender que olhar para os riscos de forma alguma exclui a necessidade de apropriação de tecnologias na educação”, afirma Ana Lucia de Souza Lopes, doutora em Educação e especialista em Educação e Tecnologias, e coordenadora na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Para ela, “é muito simplista pensar dessa maneira, pois estamos diante de um grande desafio que precisa ser enfrentado para encontrar o equilíbrio”.

Portanto, a lei não propõe que o problema seja “varrido para baixo do tapete”. “A simples proibição do uso de celulares, sem o devido contexto, pode gerar desafios, como resistência ou ansiedade, especialmente em crianças e jovens que já apresentam sinais de dependência tecnológica”, explica Maria Eduarda Menezes, coordenadora de edtech da Beacon School. “Por isso, mais do que proibir, é essencial adotar uma abordagem educativa e dialógica”, acrescenta.

Não se pode achar que a escola dará conta disso sozinha, mas ela desempenha um papel essencial, por ser um lugar que prioriza o cuidado com o ser humano. Ela pode também instruir pais e mães a como lidar com essa questão, pois o uso equilibrado da tecnologia que começa na escola deve continuar em casa. Pouco adianta restringir o acesso ao celular e liberar outras telas, como o videogame e a televisão. Os responsáveis também devem avaliar se o celular é realmente necessário para os filhos ou se o oferecem apenas por pressões sociais ou modismos.

 

Combate ao “vício”

Se os adultos sofrem um impulso às vezes incontrolável de olhar informações no seu celular, isso é ainda mais forte em adolescentes. E não raro elas dominam a tecnologia melhor que seus pais, mas não sabem usá-la para aprender.

“É importante incluir letramento digital e cidadania digital nos currículos das escolas, pois permitem que os alunos compreendam como as tecnologias funcionam, saibam utilizá-las de maneira ética e responsável e desenvolvam habilidades para navegar com segurança no ambiente online”, explica Menezes.

Lopes explica que a escola deve oferecer aos estudantes estruturas de convivência e desenvolvimento que ampliem seus repertórios além das telas. “Ou, ao chegar da escola, os estudantes irão diretamente para a tela para compensar as horas de ‘privação’, agravando o quadro”, acrescenta.

Nada disso é simples, e a maioria dos professores não está preparada para incorporar essas demandas em suas aulas. Sua formação deve ser atualizada para conhecerem os riscos e desafios de lidar com a tecnologia digital, mas também para a enxergarem além de uma mera ferramenta, descobrindo como aproveitar seu potencial e compreender o papel que ocupa em nossas vidas. Para os docentes já formados, as escolas e o governo devem oferecer capacitação contínua.

Esse papel aparece em um alerta que alguns especialistas fazem sobre uma brecha na lei, que permite que os celulares sejam usados em aula para “garantir os direitos fundamentais”, sem explicar quais seriam. Eles temem que alguns alunos usem isso para manter a prática de filmar professores que digam algo com o que não concordem, em uma reprovável tentativa de exposição e até criminalização dos docentes. Vale dizer que isso afronta o direito à imagem garantido pela Constituição e pela Lei Geral de Proteção de Dados. Por isso, o governo deve explicar melhor o que são tais direitos, no processo de regulamentação da lei, que deve acontecer em 30 dias.

De qualquer forma, ela é muito bem-vinda, e deve auxiliar na solução de graves problemas causados pelo uso descontrolado desses dispositivos na escola. Abre também uma porta para se construir uma boa educação digital na escola e em casa.

Smartphones não podem ser vistos como meros brinquedos ou –pior ainda– uma “chupeta digital” para acalmar os mais jovens. Crianças e adolescentes merecem o apoio de pais, mães e educadores para se apropriarem de todo esse poder digital de maneira segura e construtiva. Essa é uma tarefa de toda a sociedade.

 

Projeto de lei em debate no Congresso Nacional pode restringir celulares nas escolas já no ano que vem - Foto: Freepik/Creative Commons

Celular na sala de aula não deve ser banido, e sim usado com orientação

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Ao que tudo indica, o próximo ano letivo começará com os celulares restritos nas salas de aula. Em um raro consenso entre governo e oposição, um projeto de lei que disciplina seu uso deve ser aprovado até o fim do ano no Congresso Nacional. E apesar de eu concordar com a restrição, fico apreensivo com declarações de todos os lados que demonizam smartphones e outras tecnologias em sala de aula.

Esse pensamento torna o debate mais raso e prejudica a possibilidade de crianças e adolescentes aprenderem a usar esses recursos de forma consciente e produtiva. Em um mundo profundamente digital, a simples proibição pode levar a um uso desses equipamentos descontrolado e escondido, o que pode ter consequências negativas.

Todos nós sofremos com as distrações causadas pelos smartphones e suas intermináveis notificações, que sequestram nossa atenção. Para uma criança ou adolescente, essa sedução pode ser muito maior: pesquisas indicam que os alunos podem levar até 20 minutos para se concentrar novamente no que estavam aprendendo depois de usarem o celular para atividades não-acadêmicas. E mesmo o aparelho desligado pode levar a problemas de aprendizagem.

Nesse sentido, não resta dúvida de que os alunos não devem ter acesso livre ao equipamento nas aulas. Especialistas defendem que não o usem nem no recreio, pois ele também comprometeria atividades de socialização típicas daquele momento.

Isso é muito diferente de não usar os celulares com objetivos pedagógicos. Mas desperta outras preocupações, como se o professor está preparado para essa tarefa e se o celular do aluno deveria ser usado nesse caso, o que lhe daria, por exemplo, aceso a suas redes sociais, um verdadeiro “dreno de atenção”.


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O consenso entre governo e oposição pode estar associado ao faro político de que a população apoia fortemente a proibição dos celulares em sala de aula. Segundo pesquisa feita recentemente pelo Datafolha, 62% dos brasileiros com mais de 16 anos querem isso. E 76% dos entrevistados acham que o celular traz mais prejuízos que benefícios ao aprendizado, índice que aumenta entre os pais.

O projeto em debate na Câmara prevê que alunos até o quinto ano não possam ter o celular nem na mochila. Já os do sexto ano até o fim do Ensino Médio poderiam levar o equipamento, mas sem usá-lo na sala de aula ou no recreio. Eles seriam permitidos em atividades pedagógicas, com orientação dos professores, e para estudantes com necessidades especiais, que dependam do aparelho para acessibilidade. As escolas públicas e privadas decidiriam como seria a implementação dessas medidas.

As principais evidências que apoiam essa medida vêm do Relatório Global de Monitoramento da Educação, publicado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em julho de 2023. Intitulado “A tecnologia na educação, uma ferramenta a serviço de quem?”, compilou estudos que relacionam o uso de celulares e resultados educacionais em 14 países. A conclusão foi de que os efeitos são negativos, principalmente na memória e na compreensão.

O relatório não sugere a proibição irrefletida, e sim que, se usado em excesso ou para atividades não-pedagógicas, os celulares trazem malefícios. “Banir a tecnologia das escolas pode ser legítimo se a integração não melhorar o aprendizado ou piorar o bem-estar do aluno”, diz uma das conclusões. “Trabalhar com tecnologia nas escolas e seus riscos pode exigir algo mais do que o banimento”.

O texto ainda diz que “deve haver clareza sobre o papel que essas novas tecnologias desempenham na aprendizagem e sobre seu uso responsável pelas escolas” e que os alunos “precisam aprender os riscos e oportunidades que vêm com a tecnologia, desenvolver habilidades críticas e entender como viver com e sem tecnologia”.

O abuso do celular e de outras telas por crianças e adolescentes transcende as salas de aula. Normalmente ele é ainda mais intenso em casa, longe dos olhos de pais trabalhando. Muitos até mesmo incentivam o uso da tecnologia, como uma “babá eletrônica”, sem qualquer monitoramento ou orientação. E isso vem agravando problemas de saúde mental nessa faixa etária.

 

Um mundo digital

Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2023, publicada em setembro pelo Cetic.br, órgão de pesquisas ligado ao CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), 28% das escolas de ensino básico públicas e particulares no país proíbem os celulares, enquanto 64% delas permitem com restrições a espaços e horários.

O levantamento também indicou que 95% dos brasileiros entre 9 e 17 anos usam a Internet, quase todos com acesso ao celular. O primeiro contato se deu até os 6 anos de idade para 24% (eram 11% em 2015) e entre 7 e 9 anos para 27%, contrariando especialistas, que sugerem que isso só aconteça na adolescência. Em contrapartida, 580 mil brasileiros nessa faixa nunca tinham acessado a Internet.

Esses números são muito emblemáticos. O celular está impregnado na vida de crianças e adolescentes, que criam contas em redes sociais antes mesmo da idade mínima definida por essas plataformas, com ou sem consentimento dos pais. Esses por sua vez, querem ver o celular fora das aulas, mas muitos paradoxalmente exigem que as escolas permitam que entrem em contato com os filhos a qualquer momento.

No meio disso tudo, fica o professor, acuado por pais e estudantes, e sem saber como usar pedagogicamente a tecnologia. E disso vêm preocupações que as escolas devem endereçar quando essas regras forem implantadas.

Apesar de o projeto de lei ser calcado em estudos sérios, há um certo oportunismo político nele. E gostaria de ver esses pais que disseram querer a proibição dos celulares na escola bancando isso com seus próprios filhos.

Em qualquer cenário, o professor continuará sendo o condutor do processo educacional. Assim ele deve receber apoio do governo, das escolas e das famílias para fazer um uso consciente e construtivo não apenas de smartphones, mas também da inteligência artificial nas salas de aula. Os celulares devem ser restritos na maior parte do tempo, mas usados em atividades pedagógicas, de preferência em equipamentos que não sejam dos próprios alunos.

A proibição pura e simples preservará a saúde mental e eliminará os graves problemas apontados pela Unesco, o que é essencial! Mas também impedirá a chance de criarmos uma geração que faça um uso consciente de tecnologias que moldarão suas vidas de agora em diante.

 

O finlandês Mikko Hyppönen mostra um disquete para relembrar o início de sua carreira, no palco do Mind The Sec - Foto: reprodução

Segurança digital deveria ser ensinada na escola, desde a infância

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Os smartphones sempre foram muito cobiçados pelos criminosos pelo seu alto valor e facilidade de negociação. De dois anos para cá, esse apetite cresceu muito, especialmente em São Paulo. Mas ironicamente os bandidos não estão interessados no aparelho, e sim nas diversas portas valiosas que ele abre para a vida da vítima, especialmente suas contas bancárias e cartões de crédito.

As pilhas de pessoas que tiveram todas as suas economias roubadas dessa forma escancaram como a cibersegurança deixou de ser uma preocupação corporativa e invadiu a vida de todos nós. As vítimas são cada vez mais jovens, incluindo crianças, o que indica que o tema deveria ser inserido nos currículos escolares, adequados à idade de cada aluno.

Os meliantes digitais espalham-se pela sociedade. As empresas preocupam-se com roubos de dados e invasões que paralisem suas atividades. As pessoas temem cair em golpes e que suas identidades sejam roubadas. E agora as crianças estão expostas a diferentes tipos de abusos online e a jogos que podem colocar as finanças de suas famílias em risco.

Ao educar crianças e adolescentes em cibersegurança, a sociedade prepara cidadãos menos suscetíveis aos ataques cada vez mais criativos e ousados do cibercrime. Os sistemas de segurança fazem bem o seu trabalho, por isso as pessoas passaram a ser o foco dos marginais. Então quanto mais cedo essa instrução for feita, melhor será a proteção de toda a sociedade.


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A criminalidade beneficia-se profundamente do meio digital. Até não muito tempo atrás, os criminosos assaltavam agências bancárias e carros-fortes, com um ganho razoável, mas com altíssimo risco de serem presos e até mortos! Com sua digitalização, agora eles praticam milhares de pequenos golpes, que lhes rendem ganhos maiores praticamente sem nenhum risco. E pessoas e empresas sem cultura de cibersegurança facilitam enormemente suas ações.

“O crime sempre esteve na vantagem, não tem regulação, não se preocupa com fazer alguma coisa errada e aparecer na mídia”, afirma Paulo Baldin, CISO e CTO da Flipside, empresa que organizou, na semana passada, o Mind The Sec, maior evento de cibersegurança da América Latina, em São Paulo. “Tudo o que eles fizerem está valendo e, quanto pior for o cenário, melhor para eles”, acrescenta.

“Quando olhamos para estatísticas internacionais, uma explicação para o motivo pelo qual o Brasil é tão atacado é a quantidade de sistemas antigos que ainda estão em uso”, diz o finlandês Mikko Hyppönen, uma das principais autoridades globais em cibersegurança e um dos principais palestrantes no Mind The Sec. “Você não pode proteger um sistema que não possa atualizar contra vulnerabilidades de segurança”, explica o especialista, que, em 2016, criou uma “lei” que indica que qualquer equipamento “inteligente” também é vulnerável.

“Hoje existe uma espécie de ‘miniguerra mundial cibernética’, com todos os países atacando uns aos outros”, sugere o chileno Gabriel Bergel, outra liderança global no setor presente no Mind The Sec. “O Brasil tem muita história nessa área, e a maior e mais madura comunidade de cibersegurança da região, mas, ao mesmo tempo, novos malwares e ransomwares são desenvolvidos aqui”, explica. Por isso, especialistas afirmam que o governo deve criar políticas modernas de combate ao crime digital.

A explosão dos usos da inteligência artificial torna o problema ainda mais grave, pois os bandidos estão usando essa tecnologia para ganhar escala e eficiência, tanto nas práticas de engenharia social (para enganar as vítimas), quanto no desenvolvimento de códigos maliciosos para infectar sistemas.

 

Não dá para se ter tudo

“Em cibersegurança, tudo é uma troca”, explica Hyppönen. Para ele, “quando privacidade e segurança entram em conflito, podemos querer ter as duas coisas, mas às vezes não dá!”

Até não muito tempo atrás, a segurança digital não costumava ir além de manter um bom antivírus, firewall e monitoramento de e-mails. Isso ficou no passado com o trabalho híbrido, que permite que funcionários trabalhem um dia no escritório e outro na praia, conectado em uma rede potencialmente insegura. Além disso, os sistemas corporativos, que costumavam ficar isolados nos servidores da empresa, hoje se conectam com plataformas de diversas fontes, como parceiros e clientes.

Por isso, a cibersegurança passa agora pelo que se chama de “observabilidade”, ou seja, monitorar continuamente sistemas e usuários para saber o que é um uso “normal” de cada um, para identificar rapidamente ações suspeitas e prevenir ataques.

“A triste verdade é que a defesa contra invasores avançados geralmente requer reunir grandes quantidades de telemetria, alertar em tempo real e responder rapidamente antes que um ataque possa ser concluído”, adverte o americano Alex Stamos, outro palestrante central do Mind The Sec. “Em redes corporativas, isso não precisa ter um grande impacto na privacidade pessoal, mas no caso de proteger grandes plataformas de consumidores ou nações inteiras, há um difícil equilíbrio entre proteger indivíduos de invasores e dos próprios protetores”, explica.

“Se eu implementar uma política que impacta a produtividade do usuário, isso acaba não sendo viável, porque impacta o negócio”, alerta Flavio Povoa, gerente de engenharia de sistemas da HPE Aruba Networking. “Eu preciso entender quem são esses usuários, com quem eles se comunicam, usar a IA para entender que tipo de dispositivo é esse e qual sua função na rede”, acrescenta.

Em um mundo em que tudo parece estar sendo potencializado pela inteligência artificial e onde os smartphones abrem portas para os serviços que usamos e até para nossos dados mais íntimos, não há mais espaço para pessoas e empresas trataram a segurança digital de forma displicente. Precisamos entender que a mesma tecnologia que nos facilita imensamente o cotidiano também apresenta riscos consideráveis.

Esse será o nosso cotidiano de agora em diante! O melhor que todos podem fazer é assumir e entender os riscos, criar mecanismos para se defender deles e estar preparado para encontrar saídas, caso o pior aconteça.

Ninguém está imune ao cibercrime! Quanto mais cedo aprendermos a lidar com ele, mas eficiente será a nossa resposta a esses novos desafios em nossas vidas.


Veja a íntegra em vídeo da entrevista com Paulo Baldin, CISO e CTO da Flipside:

 

Na quarta, o secretário da Educação de São Paulo, Renato Feder, falou sobre a IA nas escolas, durante o Bett Brasil - Foto: reprodução

ChatGPT na criação de aulas para escolas paulistas pode piorar a educação

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A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo confirmou que pretende usar o ChatGPT para “melhorar” as aulas que distribui para os professores das escolas estaduais paulistas. Apesar de garantir que todo o conteúdo gerado pela máquina será revisado por sua equipe de professores curriculistas, esse uso da inteligência artificial abriu uma grande discussão sobre uma possível redução no papel do professor e nos riscos vindos de uma tecnologia reconhecidamente ainda falha.

Segundo a Secretaria, a IA fará suas propostas a partir do material já existente, criado pelos curriculistas para alunos do Ensino Fundamental II (do 6º ao 9º ano) e do Ensino Médio. O ChatGPT deve propor ampliações no conteúdo e criação de exercícios.

Professores criticam o material do governo, que consideram limitante. Também possui erros gramaticais, de formatação e conceituais. Como exemplo, uma aula afirmava que a Lei Áurea teria sido assinada em 1888 por D. Pedro II (foi pela sua filha, a princesa Isabel), enquanto outra dizia que a cidade de São Paulo possuía praias.

O temor é que o ChatGPT agrave o problema. Assim como outras plataformas de IA generativa, ele é programado para sempre dizer algo, mesmo que não saiba o quê. Nesse caso, pode responder verdadeiras barbaridades, mas, como faz isso com grande “convicção”, muita gente acredita nas suas informações erradas. São as chamadas “alucinações”.

Caberá aos professores curriculistas não apenas ajustar pedagogicamente a produção do ChatGPT, como também verificar se o que ele diz está correto e se não fere direitos autorais. Fica a pergunta se eles terão recursos e disposição para fazer isso. Caso contrário, a inteligência artificial poderá deseducar, ao invés de melhorar aulas.


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A digitalização das escolas estaduais de São Paulo é uma bandeira do secretário da Educação, o empresário do setor de tecnologia Renato Feder. Desde o ano passado, 90 curriculistas produzem slides para os professores usarem em suas aulas. Ele chegou a anunciar que abandonaria os livros do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), obrigando os educadores a usar o material digital do governo.

Depois de muitas críticas, Feder recuou da ideia de desistir dos livros, mas os slides continuaram. Segundo ele, esse material prioriza conteúdos cobrados em avaliações nacionais, como o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica).

“A gente tem que tomar muito cuidado que o professor não seja apenas um aplicador de atividades”, afirma Ana Lúcia de Souza Lopes, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e especialista em tecnologia para educação. “Ele deve ser aquele que media o conhecimento, que cria condições para o aluno aprender”, explica.

A especialista defende a criação de bons materiais para serem usados em salas de aula, desde que eles sejam criados por professores. Mas ela alerta que a formação desses profissionais tem sido deficiente, o que os atrapalha nessa atividade.

Até o momento, os professores curriculistas do Estado de São Paulo entregam quatro aulas por semana. Com o uso da IA, essa meta passa a ser de três aulas a cada dois dias úteis, podendo chegar a seis por semana.

 

Quantidade versus qualidade

Feder disse que continuará ampliando o uso da inteligência artificial na educação. Outra aplicação é o “fluencímetro”, um sistema que analisa fluência de leitura de alunos do 2º ao 5º ano. Segundo ele, a próxima etapa será a adoção de ferramentas para corrigir lições de casa dos alunos, que precisarão ser feitas em um aplicativo. A correção de redações também deve ser auxiliada pela IA.

A princípio, a adoção de ferramentas para auxiliar os sobrecarregados (e muitas vezes desmotivados) professores das escolas estaduais é bem-vinda. Mas recaímos no risco de os robôs piorarem o aprendizado, por suas próprias falhas. Além disso, isso pode diminuir ainda mais o protagonismo do professor, sem resolver problemas estruturais, como sua formação deficiente, enorme desvalorização social da carreira e condições precárias para realização de seu trabalho.

“Não sou contra o uso da inteligência artificial, mas precisamos ter atenção em como utilizar a ferramenta, principalmente em aspectos sensíveis, como no caso da educação”, alerta Lopes. E de fato, a recém-aprovada Lei da Inteligência Artificial europeia classifica o uso dessa tecnologia na educação como uma atividade de alto risco, e que, portanto, deve acontecer com muito cuidado.

O Ministério Público de São Paulo determinou que Feder apresente estudos científicas que justifiquem o uso de inteligência artificial na produção de material didático. Ele tem até a segunda quinzena de maio para fazer isso.

Muitos professores já usam a inteligência artificial na sala de aula. Os que mais poderiam se beneficiar dela são justamente aqueles que têm pouco apoio profissional e estão sobrecarregados. Uma grande ironia nisso é que normalmente eles são os que possuem uma formação deficiente e que, portanto, tendem a colher menos resultados de todo o poder que essa tecnologia lhes oferece. Isso pode aumentar ainda mais a distância entre professores e alunos de escolas privadas e os de escolas públicas.

Precisamos ter em mente que, mais que quantidade, educar é qualidade. Não basta oferecer materiais “mastigados” para alunos adestrados tirarem boas notas em avaliações oficiais. Isso se presta muito mais a gerar dividendos políticos.

A educação significa criar cidadãos conscientes, capazes de analisar seu cotidiano criticamente, entendendo de fato conteúdos e dominando habilidades que os permitam se desenvolver em um mundo cada vez mais competitivo. Para usar termos da moda, é preciso adquirir “hard skills” (como Matemática ou Língua Portuguesa), mas também as “soft skills” (habilidades intangíveis, como trabalho em equipe, capacidade de comunicação e resiliência).

A inteligência artificial é uma tecnologia fabulosa, com uma incrível capacidade de transformação social. Ela está apenas dando seus primeiros passos, e todos precisam se apropriar adequadamente de seus recursos, inclusive nas escolas. Ainda assim, ela não é capaz de cumprir essas tarefas, que só podem ser realizadas por um professor.

Mas eles precisam de apoio verdadeiro, melhor capacitação e reconhecimento profissional e social. Sem isso, nossos alunos ficarão cada vez mais desassistidos, e o Brasil cada vez menos competitivo. Enquanto governos, escolas, e famílias não apoiarem isso de maneira efetiva e coordenada, uma adoção afobada da IA na educação pode tornar essa nossa deficiência social ainda mais dramática.

 

Plataformas digitais ajudam estudantes a se envolverem melhor com o conteúdo escolar - Foto: Freepik/Creative Commons

IA pode ajudar alunos a falar mais e a aprender melhor

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Uma métrica eficiente para se identificar uma boa aula é medir o quanto os estudantes falam nela sobre o conteúdo. Quando interagem, os alunos aprendem melhor. Agora a inteligência artificial pode ajudar professores a envolverem mais suas turmas.

Ser professor pode ser uma tarefa solitária. Fora dos centros de excelência, os docentes costumam criar seus planos de ensino com apoio mínimo, e ministram suas aulas sem uma avaliação contínua, com a qual poderiam aprimorar o processo.

Não é uma tarefa fácil. Produzir esse tipo de análise exige recursos que as escolas normalmente não têm. Além disso, se essa informação vazasse, o monitoramento de aulas poderia municiar membros de uma parcela da sociedade que decidiu perseguir professores explicitamente nos últimos anos.

Diante disso tudo, a IA surge como uma poderosa aliada pedagógica. Se bem usada, ela pode acompanhar as aulas do professor e lhe oferecer o apoio necessário de maneira eficiente e segura. Pode ainda atuar como um supervisor educacional para os docentes e como um tutor permanentemente disponível aos alunos.

Como tudo que se refere à inteligência artificial, soluções que parecem mágicas precisam ser bem compreendidas para que aparentes milagres não se tornem pesadelos. O robô pode mesmo oferecer grandes vantagens educacionais, mas ele não pode, de forma alguma, substituir o professor, como alguns poderiam pensar.


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Recentemente descobri uma plataforma criada para ajudar os professores a aumentarem o engajamento de seus alunos. Apesar de usar reconhecimento de voz e inteligência artificial, a TeachFX não é nova: a empresa foi criada em 2016, muito antes de toda a visibilidade que essa tecnologia ganhou nos últimos meses.

Seu funcionamento é incrivelmente simples. O próprio professor grava o áudio de suas aulas como celular ou computador. A partir disso, o sistema cria relatórios que indicam quanto tempo o professor e os alunos falaram individualmente e em grupo, se o professor fez perguntas que promoveram o debate, se deu tempo adequado para reflexão dos alunos, quais as palavras mais usadas e até se elas foram muito acadêmicas ou técnicas.

Segundo a empresa, apesar de estudos comprovarem que alunos falando sobre o conteúdo aprendem melhor, a análise de 20 mil horas de áudio gravado de aulas do Ensino Básico americano indicou que cada aluno fala, em média, apenas 27 segundos a cada hora! Levantamentos internos indicam um incremento de 97% nesse tempo em alunos de professores que gravaram pelo menos oito de suas aulas e analisaram os dados oferecidos pelo sistema.

Os desenvolvedores afirmam que a ferramenta não serve como um “espião” para diretores e pais. Os dados de cada professor são acessíveis só a ele mesmo. A equipe pedagógica vê apenas os números agregados de toda a escola. Eles entendem que, sem isso, os docentes não se sentiriam seguros para usá-lo. Não se trata, portanto, de um sistema para dar uma “nota” ao docente, e sim de uma ferramenta para promover uma reflexão qualificada do próprio método pedagógico.

Outro uso da inteligência artificial na educação que ganhou bastante destaque é o Khanmigo. Em maio, Salman Khan, fundador e CEO da Khan Academy, uma organização que oferece educação online gratuita, demonstrou essa ferramenta que auxilia professores e alunos. Ela não dá respostas aos estudantes, ajudando-os a pensar na solução dos problemas. Para professores, a ferramenta ajuda a planejar aulas engajadoras. Khan afirmou que, para os alunos, a IA atua como um tutor, enquanto, para os professores, age como um assistente.

Em um primeiro momento, parecem iniciativas incríveis, mas nem todos os professores estão entusiasmados com novidades como essas.

 

O medo do desconhecido

Estamos em um período de transição no uso da inteligência artificial em todos os setores da economia, e a educação não é exceção. Mas, nesse caso, há alguns desafios adicionais, até pelas características de uma atividade bastante refratária a inovações tecnológicas, se comparada a outras profissões intelectuais.

Pela minha experiência como educador, analiso soluções digitais para a educação há quase duas décadas. Observo um medo desproporcional dos professores, que relutam em adotar novidades por desconhecimento e falta de preparo para usá-las em seu cotidiano. Como me confidenciou uma professora há alguns anos, “vejo muito valor no que esse sistema oferece, mas eu não sei colocá-lo na MINHA aula”.

Mais que vender ferramentas aos professores, os desenvolvedores, as universidades e as autoridades educacionais precisam apoiar os docentes para que eles entendam que a tecnologia não pretende substituí-los nem restringir sua liberdade pedagógica. E obviamente isso deve ser verdade!

Não é trivial, especialmente diante de grupos que enxergam a educação de maneira meramente utilitária. No início do ano passado, por exemplo, o governo paulista tentou eliminar o acesso a livros didáticos nas escolas do Estado, substituindo por questionáveis slides criados pela equipe da Secretaria de Educação. Segundo o secretário da Educação, Renato Feder, eles seriam “mais assertivos” que os livros. Felizmente a proposta acabou sendo retirada, diante de protestos generalizados.

Como pesquisador de inteligência artificial, entendo que ela tem um poder considerável de homogeneizar conhecimento, ao ajudar com produções a partir de uma base de informações que representa uma espécie de “média” do que a humanidade sabe sobre qualquer assunto. Sem falar que isso pode também reforçar vieses e visões polarizadas do mundo. Isso deve ser evitado a todo custo!

Mas esses riscos não devem servir de desculpa para que a IA não seja usada na educação, e sim que seja utilizada de maneira inteligente. Os professores devem ter seus receios acolhidos, enquanto lhes é ensinado como se apropriar dessas ferramentas para ampliar as boas práticas que conhecem e lhes apresentar outras, sempre de maneira transparente e explicada.

A inteligência artificial e qualquer outra tecnologia não devem, portanto, ameaçar a liberdade dos professores ou criar mecanismos para aprisioná-los em modelos padronizados e “assertivos”. Pelo contrário, devem permitir que sua experiência e sua intuição encontrem maneiras mais eficientes e divertidas para envolverem seus alunos no cotidiano da mais nobre das profissões.

 

Crianças com “laptop de US$ 100” do projeto “One Laptop Per Child”, criado por Nicholas Negroponte - Foto: OLPC/Creative Commons

Volta às aulas reacende debate sobre o lugar da tecnologia na escola

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Estamos em plena volta às aulas! Com os alunos, ressurge o debate sobre como usar a tecnologia na educação, com uma inteligência artificial cada vez mais poderosa. E a prefeitura do Rio de Janeiro jogou lenha na fogueira ao proibir, na sexta passada, que os alunos usem celulares nas escolas públicas municipais, mesmo no recreio.

Especialistas aprovam a decisão, que tem 30 dias para ser implantada. Já debatemos longamente, nesse mesmo espaço, como os celulares em sala de aula em atividades não acadêmicas roubam a atenção dos alunos e prejudicam profundamente seu aprendizado. No caso do recreio, eles atrapalham os processos de socialização entre as crianças, necessários para o seu desenvolvimento. Pela nova regra, os equipamentos devem ficar desligados ou silenciados na mochila do estudante, podendo ser usados apenas se o professor os solicitar para alguma atividade, ou em casos excepcionais, como alunos com algum problema de saúde.

A determinação é interessante para ampliarmos o debate sobre a digitalização do ensino. Nessa mesma época, no ano passado, os professores estavam em polvorosa devido ao então recém-lançado ChatGPT. Muitos achavam que não conseguiriam mais avaliar seus alunos e alguns temiam até perderem o emprego para as máquinas.

Passado um ano, nada disso aconteceu, até porque descobrimos que essa tecnologia ainda erra muito. Mas todo aquele burburinho serviu para, pelo menos, os professores repensarem os seus processos de avaliação. Em uma sociedade altamente digitalizada, não dá mais para só pedir que alunos entreguem textos escritos em casa.

Mas se sabemos o que não deve mais ser feito, ainda não há clareza sobre como usar todo esse poder digital de maneira criativa e construtiva com os estudantes, desde a infância até a universidade. A despeito dos riscos e problemas conhecidos, os alunos devem aproveitar o que ela também oferece de bom, de forma adequada a sua idade. Essa é uma lição de casa que todos nós temos que fazer.


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Há 15 anos, eu trabalhava com o desenvolvimento de conteúdos didáticos digitais e sistemas de apoio pedagógico. Era uma época em que Nicholas Negroponte, fundador do Media Lab, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), propunha o uso de notebooks de US$ 100 para crianças estudarem melhor com o apoio da tecnologia.

Essas máquinas chegaram a ser criadas e pude conhecer alguns modelos. Eram pequenas maravilhas tecnológicas para a época, a um preço convidativo. O projeto foi implantado em alguns países, mas em muitos casos (inclusive no Brasil) não evoluiu, não pela tecnologia, mas porque os professores não sabiam bem o que fazer com ela.

De certa forma, vivemos algo semelhante agora. Estamos cercados por telas, e as crianças têm acesso a elas cada vez mais cedo. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil, divulgada em 25 de outubro pelo Cetic.br (órgão de pesquisa ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil), 95% dos brasileiros entre 9 e 17 anos estão online, e 24% tiveram seu primeiro acesso até os seis anos de idade.

O ChatGPT popularizou a inteligência artificial, e muitas empresas correm para criar soluções educacionais com ela. Como exemplo, em maio, Salman Khan, fundador e CEO da Khan Academy, uma organização que oferece educação online gratuita, demonstrou uma ferramenta que auxilia professores e alunos. Ela não dava respostas aos estudantes, ajudando-os a pensar na solução dos problemas. Para professores, a ferramenta ajudava a planejar aulas engajadoras. Khan afirmou que, para os alunos, a IA atua como um tutor, enquanto, para os professores, age como um assistente.

Esse é um sonho antigo do Vale do Silício. Não tenho dúvidas que a tecnologia pode ajudar na educação: eu cresci com isso! Mas também sei que ela sozinha não resolve, nem mesmo a “IA tutora” de Khan. Uma educação eficiente em qualquer idade não se resume a conteúdo de qualidade ou tutores que façam provocações inteligentes. Ela depende também da humanidade dos professores, capazes de ensinar, mas também de engajar e acolher seus alunos além de suas necessidades pedagógicas.

De todo jeito, está na hora de repensarmos a educação à luz da tecnologia.

 

Celulares e IA como apoio

Vivemos um cenário paradoxal. Segundo a Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura), o excesso de telas sem orientação prejudica a aprendizagem e até a saúde mental de crianças e adolescentes. O órgão sugere também que a IA não seja usada antes dos 13 anos de idade. Por outro lado, a ausência de tecnologia põe estudantes em desvantagem educacional.

Devemos ter cuidado para não nos deslumbrarmos com as possibilidades da tecnologia nem tampouco rechaçá-la por temor do desconhecido. Isso significa que as escolas não podem abraçar inconsequentemente uma solução como a de Khan (que tem muitos méritos), especialmente como marketing, nem demonizar as telas na sala de aula, como alguns podem entender a determinação da prefeitura do Rio de Janeiro.

Precisamos ser guiados por consciência e equilíbrio. Vimos, no ano passado, a tentativa do governo do Estado de São Paulo de abandonar os livros, que seriam substituídos por questionáveis slides produzidos pelo próprio governo. Isso sim é um uso inadequado da tecnologia, reduzindo profundamente o papel do professor.

Há muito tempo, a sociedade brasileira debate a “atualização” e a “utilidade” dos currículos escolares. E nos últimos anos, uma parcela da população aprendeu a demonizar os professores. Para esses, quanto menos professor, melhor, e a inteligência artificial poderia ser a resposta a suas preces.

Naturalmente a escola precisa estar alinhada ao nosso mundo em constante transformação. Mas devemos ter cuidado para não reduzi-la a algo meramente utilitário. A escola deve principalmente formar cidadãos conscientes e viáveis, capazes de lidar com os desafios da sociedade e melhorá-la, e isso não se faz só com a capacidade de ler ou de fazer contas: são necessárias empatia, inteligência emocional, pensamento livre e humanidade.

Quem ensina isso são os professores e o melhor lugar para uma criança e um adolescente aprenderem é a escola. A tecnologia deve ser vista como uma parceira valiosa nesse processo de transformação, não uma substituta.

Por tudo isso, tenho visto professores em algumas listas de “profissões do futuro”. Mas naturalmente serão aqueles que usam a tecnologia para ampliar seus próprios limites e os de seus alunos. O amanhã pertence a quem domine a tecnologia, sem perder nada de sua humanidade.

 

Salas de aulas presenciais vazias e online lotadas: EAD vem provocando mudanças na educação – Foto: Creative Commons

Ganância de faculdades massifica ensino ruim a distância

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Na quarta passada (29), o Ministério da Educação (MEC) publicou uma portaria suspendendo por 90 dias novos cursos a distância em 17 áreas, incluindo todas as licenciaturas. Mais que bem-vinda, a decisão já deveria ter sido tomada há tempos, pois o ensino a distância (EAD) vem deixando de ser uma poderosa ferramenta de inclusão e flexibilidade na educação, para se tornar um mecanismo de massificação de ensino de baixa qualidade por instituições que visam apenas o lucro.

Segundo o Censo de Educação Superior, publicado em outubro, em uma década os cursos acadêmicos por EAD cresceram 700%, ficando hoje com dois terços dos ingressantes no Ensino Superior e formando 31% do total. Mas a qualidade é muito ruim: apenas 19% dos cursos privados e 34% dos públicos obtiveram notas 4 ou 5 nas avaliações do MEC.

Se considerarmos a formação de novos professores, que pede presença em sala de aula para se aprender o ofício, a situação fica dramática: na licenciatura e pedagogia, 65% dos formandos são por EAD. Na rede particular, 93,7% dos ingressantes desses cursos, onde a média de alunos em sala é de 171, estudam online.

Cursos da área de saúde, os de áreas que exijam ir a campo como parte da formação, Pedagogia e licenciaturas jamais deveriam acontecer por EAD. Esses profissionais acabam sendo despejados no mercado com formações muito deficientes. A sociedade precisa parar de ver esses números como “democratização do ensino”, porque essas pessoas aprendem muito pouco, na prática apenas “comprando um diploma barato”.


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O ensino a distância traz vantagens inegáveis. Provavelmente a maior delas é a flexibilidade de horários e a dispensa de se deslocar até a escola, o que economiza muito tempo e dinheiro em grandes cidades. Também é uma ferramenta de inclusão para pessoas com deficiência ou que vivam em locais que não oferecem os cursos. Por fim, eles tendem a ser mais baratos que os presenciais.

Naturalmente também há desvantagens. Uma delas é a exigência de uma autodisciplina muito maior dos alunos, para que aproveitem o curso, algo que muitos não têm. A distância também prejudica seriamente a interação social entre alunos e professores. É necessário ainda ter uma infraestrutura digital para assistir às aulas. E como o MEC aponta, a qualidade dos cursos realmente tem ficado a desejar.

“Eu sou uma grande defensora da educação a distância, mas nós estamos imersos nos grandes grupos empresariais, para quem a educação é um produto”, afirma Ana Lúcia de Souza Lopes, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e especialista em tecnologia para educação. “Isso pasteuriza a educação e as turmas acabam sendo enormes, com 200 alunos, e aí você pode ter o melhor professor do mundo, que ele não dá conta!”

O EAD explodiu com o relaxamento de suas regras em governos anteriores e com a pandemia. Antes dela, muita gente torcia o nariz para o ensino a distância. Agora a situação se inverteu.

Representantes do ensino privado afirmam que o EAD permite que alunos mais pobres estudem. Em muitos casos, é verdade, mas há instituições que aproveitam isso para criar cursos baratos, que não se sustentam na qualidade. Seu modelo exige centenas de alunos em sala, para que sejam lucrativos. Mas, com isso, os professores nem sabem quem são os alunos, prejudicando severamente o ensino.

Quando o MEC instalou um grupo de trabalho sobre o tema, diversas entidades públicas e privadas ligadas à educação publicaram uma carta aberta solicitando melhorias estruturais em três frentes: a expansão desenfreada do EAD, a baixa qualidade dos cursos e a alta evasão de alunos.

 

Professores sem sala de aula

Uma das principais críticas da formação de professores a distância é estarem justamente fora de uma sala de aula presencial. Especialmente no caso de crianças e adolescentes, isso exige habilidades muito específicas, que só se adquirem com o contato com esses grupos. Em alguns anos, teremos uma geração de professores em salas de aula formados sem essa experiência.

Como já foi dito, o ensino a distância não é necessariamente ruim. Na verdade, se for bem implantado, pode ser ótimo! Mas para isso, várias coisas precisam ser observadas.

A primeira delas, responsabilidade das instituições, é a qualidade do material pedagógico, que, no caso, se reflete em bons conteúdos e boa infraestrutura digital. A quantidade de alunos nas turmas também deve ser limitada, para que exista uma troca proveitosa entre professores e alunos. Os professores, tanto os conteudistas (que preparam o material) quanto os tutores (que ministram as aulas), precisam ser formados para aulas nessa modalidade, que exige conhecimentos técnicos para tirarem proveito pleno desses recursos. Por fim, os alunos precisam de muito mais autodisciplina, para realizar todas as tarefas e interações adequadamente.

Essa explosão da formação de professores a distância tende a corroer ainda mais o já raso prestígio da carreira no Brasil. Segundo o relatório “Global Teacher Status”, entre 35 países avaliados, o Brasil é o que menos prestigia seus docentes. Nos países desenvolvidos, os professores vêm dos 30% melhores alunos; por aqui, a esmagadora maioria está entre os 10% com pior desempenho no Enem.

“Muito se fala do ‘apagão docente’, que mesmo quem faz a graduação em Pedagogia não tem interesse em atuar nessa área”, explica Lopes. “Faz porque, no nosso país, o diploma universitário é um status dentro da sociedade, não porque quer ser professor”.

Essa explosão de cursos a distância rasos por R$ 99 cria uma lógica perversa no mercado. Os alunos são atraídos pelo preço, mesmo não aprendendo grande coisa com eles. E isso força mesmo instituições que prezam pela qualidade a oferecer algo nessa linha, ou correm o risco de fecharem as portas.

É por isso que o governo precisa “colocar ordem na casa”! Esse mercado claramente não sabe se autorregular e os gestores educacionais criaram uma armadilha para si mesmos.

O EAD deve ser implantado da maneira correta, pelo que traz de benefícios. Ele não pode ser usado para criar cursos com salas lotadas, baratos e que não ensinam os alunos. Da mesma forma, não deve ser demonizado. Mas para isso precisa ser regulamentado, para ganhar credibilidade e qualidade. Quantidade de alunos e excelência acadêmica devem ser objetivos permanentes de todos.

Agora que o governo suspendeu novos cursos, o próximo passo é descredenciar os já existentes que não consigam comprovar o nobre papel de ensinar. Educação não pode ser vista de maneira tão displicente e focada apenas nos lucros. Enquanto isso não mudar, o Brasil continuará descendo a ladeira em todas suas métricas sociais. Até onde chegaremos no fundo desse poço?

 

Alunos precisam de 20 minutos para se reconectar ao estudo depois de usar smartphones para outras coisas - Foto: RDNE/Creative Commons

Pais e educadores devem “fazer as pazes com o não” para combater excesso de telas

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Ganha força a tese de que crianças e adolescentes fazem um uso excessivo de telas na escola e em casa, e que isso provoca grandes prejuízos ao seu desenvolvimento. No dia 26 de julho, um relatório da Unesco (a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) destacou pela primeira vez o problema e como um quarto dos países já faz alguma restrição de celulares em sala de aula. Mas ainda se fala pouco sobre como professores sem autoridade e até coibidos por pais de alunos podem ser levados a contribuir com essa situação.

Isso aparece no recém-lançado estudo “Educando na era digital”, da consultoria educacional OPEE. Ele indica que 97% dos educadores brasileiros concordam que há “uso excessivo de telas sem acompanhamento”, mas paradoxalmente apenas 9,7% deles acham que elas devem ser proibidas na sala de aula.

O exagero digital dos jovens vai além da escola. Outra pesquisa, a TIC Kids Online Brasil, divulgada no dia 25 de outubro pelo Cetic.br (órgão de pesquisa ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil), indica que 95% dos brasileiros entre 9 e 17 anos estão online, e que isso acontece cada vez mais cedo: no ano passado, 24% tiveram seu primeiro acesso até os seis anos de idade; em 2015, eram 11% nessa faixa etária.

Todos esses fatos estão interligados e se retroalimentam. Enquanto pais e educadores não resgatarem a consciência de sua autoridade para impor limites aos mais jovens, esse quadro tende a se agravar. É impensável negar o acesso à tecnologia digital no nosso mundo hiperconectado, mas é preciso ensinar crianças e adolescentes a usarem-na de maneira construtiva e responsável.


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“Muitos educadores nem podem dizer ‘não’, porque a escola está muito refém da ‘carteirada’, no caso da escola particular, e até da agressão ou da humilhação, na escola pública”, afirma Leo Fraiman, mestre em psicologia educacional e autor da metodologia OPEE. “O professor hoje é tido, por muitas famílias, como um funcionário, um empregado seu, e não mais como uma autoridade.”

Segundo o psicoterapeuta, existe uma esquizofrenia entre famílias e escolas. As primeiras exigem das segundas o ensino de limites, de valores, de humanidade. Mas quando surge algum limite, até em uma simples nota baixa, os pais reagem negativamente.

“Viemos de um modelo mais rígido, de onde muitos adultos saíram ressentidos, até machucados emocionalmente”, explica o pesquisador. “E hoje, como pais, é como se quisessem se vingar das suas próprias feridas, superprotegendo os filhos.”

As telas de crianças e adolescentes são subprodutos dessa cultura. Muitos pais argumentam que elas desenvolvem, nos mais jovens, necessárias habilidades digitais, o que não deixa de ser verdade, desde que feito com orientação. Entretanto, o que se observa é que principalmente o celular se tornou um “companheiro” que ocupa o tempo dos pequenos, uma “babá eletrônica” (posto que foi ocupado pela TV há 30 anos) que falsamente desobriga os pais de dar mais atenção aos filhos.

Isso se reflete na escola, com pais exigindo a possibilidade de falar com seus filhos a qualquer momento, mesmo nas horas em que estiverem em aula. Com o smartphone, os alunos acabam impactados pelas incontáveis notificações, além da sedução das redes sociais, destacadas pela Unesco como fortes fatores de distração. E os alunos podem levar até 20 minutos para se concentrar novamente no que estavam aprendendo depois de usarem o smartphone para atividades não-educacionais.

É importante que fique claro que ninguém está dizendo que os jovens não devem usar a tecnologia, e sim que façam isso de forma comedida e sob orientação de adultos. A Unesco aponta que o excesso e a falta de critérios podem levar ao surgimento de problemas de alimentação, sono, saúde mental e saúde ocular.

 

Cyberbullying e outras agressões digitais

Outro estudo do Cetic.br, o TIC Educação, divulgado em 25 de setembro, indica que um terço dos professores brasileiros disseram que seus alunos pediram ajuda após terem sofrido assédio ou agressões pelo meio digital, ou terem suas fotos publicadas sem consentimento. Em um ano, os casos de vazamento de fotos saltaram de 12% para 26% e os de cyberbullying passaram de 22% para 34% dos estudantes. Esses números estão em linha com as observações dos educadores ouvidos pela pesquisa da OPEE: 80,9% deles acreditam que o acesso às telas favorece o cyberbullying.

É muito bom observar que os alunos recorrem a seus professores para lidar com problemas gravíssimos criados ou agravados pelo meio digital. Isso demonstra uma relação de confiança diante de algumas das maiores agressões que eles podem sofrer. Entretanto os professores precisam ter autonomia para atuar como necessário, até mesmo limitando o uso das telas e das redes sociais. A escola ganha também um novo papel, que é o de educar os pais no convívio digital, uma habilidade que possivelmente eles mesmos não dominem.

Fraiman alerta que estamos “contraindo uma dívida enorme para as próximas gerações” ao não as educar para um uso construtivo do meio digital, abrindo brechas para o surgimento de todos esses problemas educacionais e emocionais. E provoca: “diante de um mundo que vai ser cada vez mais competitivo, exigente, caro, acelerado, complexo, qual é a chance de uma criança, de um adolescente realmente se tornar ativo e inserido na sociedade e no mercado de trabalho, se ele for uma pessoa rasa, individualista, narcisista, acomodada e amedrontada?”

Isso vem de quebras de paradigmas sociais que a tecnologia continuamente nos impõe. As potencialidades oferecidas são fabulosas e surgem em escala exponencial, assim como problemas da nossa inadequação a tantas novidades. Começou com o surgimento da Internet comercial, foi seguida pela explosão das redes sociais e posteriormente dos smartphones. Agora a inteligência artificial é a bola da vez. É muito difícil absorver adequadamente tanta mudança!

A Unesco defende o uso de telas nas escolas, desde que claramente destinadas ao apoio ao ensino, e não como distração dos alunos. Além disso, nunca podem substituir o papel dos professores. Esses, por sua vez, precisam ter sua autonomia e autoridade resgatadas por boas políticas educacionais e pelas próprias instituições de ensino. Quanto às famílias, cabe a elas trabalharem em parceria com as escolas para a criação de limites a seus filhos, respeitando e valorizando os educadores.

A escola é um espaço de aquisição de conhecimento, mas também de respeito a diferenças e de fortalecimento de uma cidadania inclusiva, com um uso inteligente de todos os recursos disponíveis. Isso só acontecerá com a colaboração de todos os envolvidos, e nossos jovens precisam desesperadamente disso.

 

Ilustração oficial do Comitê Nobel no anúncio do Nobel da Paz de 2023 concedido à iraniana Narges Mohammadi - Foto: reprodução

Como a verdade desejável para alguns pode ser um ato abominável para outros

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Provavelmente você a as pessoas que conhece defendem os direitos das mulheres. Isso parece ser algo tão óbvio, que o oposto nem passa pela sua cabeça. Mas você se surpreenderia com a quantidade de pessoas que discordam disso, ainda que parcialmente, em pleno ano de 2023! Como justificar então um Estado e uma parcela significativa de sua população negando direitos básicos às mulheres?

Tivemos um bom exemplo na sexta, quando o Comitê Norueguês concedeu o Prêmio Nobel da Paz à iraniana Narges Mohammadi, pelo seu trabalho como defensora dos direitos das mulheres. Ela está presa no seu país, sentenciada a 31 anos de reclusão e a 154 chibatadas. O governo de Teerã protestou contra a escolha, classificando-a como “tendenciosa e política”, uma “pressão do Ocidente” que favorece alguém que, para eles, praticou “reiteradas violações da lei e cometeu atos criminosos”.

Como se pode ver, o “óbvio” pode ser construído. O fenômeno de convencimento de massas existe desde que os humanos desceram das árvores e se organizaram em sociedade, e seus métodos vêm se refinando de lá para cá. Seu ápice se deu com as redes sociais que manipulam bilhões, mas a inteligência artificial pode sofisticar esse processo ainda mais.

Agressões contra mulheres podem parecer um exemplo extremo, mas não podemos esquecer que isso acontece diariamente no Brasil. E, apesar de aqui ela não ser apoiada pelo Estado, vale lembrar que apenas recentemente, no dia 1º de agosto, o STF (Supremo Tribunal Federal) declarou inconstitucional o uso da tese da “legítima defesa da honra” como defesa para feminicídio e outras agressões contra mulheres.


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É interessante notar que, antes da Revolução Islâmica de 1979, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, o Irã era uma das nações mais progressistas do Oriente Médio. Comandado pelo xá Mohammad Reza Pahlavi, o país desfrutava de um razoável desenvolvimento econômico e tecnológico, com avanços na industrialização, na educação e na saúde pública. Havia modernização do código de vestimenta, a promoção dos direitos das mulheres e a ocidentalização da cultura.

Mas nem tudo eram flores. O governo do monarca era autoritário e corrupto, o que gerava um descontentamento crescente na população. Khomeini soube capitalizar isso com apelo religioso, tornando-se o principal opositor ao xá, que acabou deixando o país em 1979. A população então votou para tornar o Irã uma república islâmica teocrática e antiocidental, tendo o aiatolá como líder supremo do país.

A Revolução Iraniana é apenas um exemplo entre incontáveis casos de persuasão de grandes massas populares, alguns por motivos nobres, outros para satisfação de desejos mesquinhos de alguns grupos, muitas vezes ligados à política.

Coincidentemente, na semana passada terminei de rever a série “Irmãos de Guerra” (“Band of Brothers”, 2001) na Netflix. Ela conta a história real das missões de um grupo de paraquedistas americanos na Segunda Guerra Mundial, desde o “Dia D” até o fim do conflito. Menos preocupada na ação e mais em retratar os dramas humanos da guerra, a série se presta muito bem a nos fazer pensar o que leva milhões de pessoas a embarcar voluntariamente em um confronto assassino e suicida ao mesmo tempo, com controle mínimo das próprias ações.

Cada episódio começa com breves entrevistas atuais com os próprios soldados representados na produção. No penúltimo episódio, um deles afirma: “Nós pensávamos que os alemães eram o pior povo do mundo, mas, com o desenrolar da guerra, descobrimos que não era bem aquilo.” Outro sugere que “muitos daqueles soldados alemães, em circunstâncias diferentes, poderiam ter sido bons amigos meus, poderíamos ter muito em comum”.

Mas na loucura da guerra, a preocupação de todos era apenas “matar o inimigo”. Se eles pudessem pensar em tudo aquilo, talvez não houvesse guerra por falta de tropas.

 

O poder da narrativa única

Precisamos ter muito cuidado antes de apontar dedos. Aqueles que nos querem convencer de algo abusam do recurso de silenciar ou desqualificar vozes dissonantes, pois seu público não pode ter acesso “ao outro lado” e conhecer seus argumentos. A narrativa única é essencial para o convencimento. Por isso, costuma-se dizer que, “em uma guerra, a verdade é a primeira vítima”.

Temos experimentado isso nas últimas eleições, com as redes sociais sendo usadas pelos diferentes grupos políticos para manter seu “curral eleitoral” dentro de uma bolha que apenas exalta suas virtudes e demoniza seus adversários. A imprensa profissional e livre, nesse e em todos os casos de convencimento de massa, deve ser combatida, pois ela insiste em explicar a realidade à população.

No final, tudo recai sobre nossos valores. A escolha em quem votaremos afeta nosso cotidiano pelos próximos quatro anos, mas é algo bem menor que a decisão de ir para uma guerra pronto para matar ou morrer, ou apoiar um regime que abertamente assassina opositores e violenta mulheres.

É verdade que o governo teocrático iraniano foi instalado por escolha popular, o que lhe dá legitimidade. Ele ascendeu ao poder atendendo a necessidades e desejos dos iranianos da década de 1970, trabalhando habilmente, com aspectos religiosos, suas emoções e um apelo à construção da identidade de um povo.

Mas tudo tem limites e eles começam a aparecer mais fortemente à medida que o tempo passa. O regime dos aiatolás está no poder há 44 anos, mas vem enfrentando oposição aberta nos últimos tempos, que é reprimida com grande violência. Os maiores movimentos contrários aconteceram no ano passado, depois que a Polícia da Moralidade matou em setembro Mahsa Amini, de 22 anos, por deixar uma mecha de seu cabelo aparecer fora do seu véu.

Isos é demais, até mesmo para uma sociedade oprimida pelo medo ou cega pela religião. O regime dos aiatolás sabe que, da mesma forma que foi guindado ao poder por revoltas populares contra o xá Reza Pahlavi, pode ser apeado dali assim. Por isso, não pode dar espaço a vozes contrárias ou a uma população bem-informada. Nesse cenário, o Prêmio Nobel da Paz para Narges Mohammadi funciona como um perigoso convite a fazer as pessoas pensarem.

Assim caminha a humanidade! Quero crer que, na média, evoluímos, apesar de enormes retrocessos que teimam em aparecer de tempos em tempos, como a ascensão do nazismo e de outros regimes totalitários políticos ou religiosos.

Crescemos mais fortemente quando a sociedade tem acesso amplo a uma educação de qualidade e a uma imprensa forte, profissional e livre. Precisamos desses recursos! Afinal a verdade costuma fugir dos extremos e abraçar o diálogo e o respeito.