Category Archives: Educação

Guarda da série “Round 6”, que se tornou a mais vista na Netflix, cujos jogos violentos estão sendo simulados em escolas

O que pode haver de mortal em brincadeiras infantis

By | Educação | No Comments

Na semana passada, “Round 6” se tornou a série mais vista da história da Netflix. Mais de 111 milhões de pessoas assistiram à produção sul-coreana nas primeiras quatro semanas no ar. Ela retrata uma macabra competição entre 456 endividados, que se dispõem a participar de versões de seis jogos infantis. O vencedor leva um prêmio equivalente a R$ 213 milhões. Todos os demais morrem ao longo dos jogos.

Mas algo sinistro se formou em torno da série, indicada para maiores de 16 anos. Crianças de vários países, inclusive do Brasil, estão simulando a competição nas escolas. No caso, os perdedores são surrados pelos vencedores.

Esse comportamento não chega a ser surpreendente, e é um reflexo do mundo em que vivemos. E, ao contrário do que alguns estão se apressando a dizer, a culpa não é da Netflix, nem dos produtores da série. Mas temos que entender o problema para resolvê-lo.


Veja esse artigo em vídeo:


Originalmente escrito em 2008, “Round 6” se tornou um fenômeno de mídia. Além da enorme audiência na plataforma de streaming, seus atores, até então desconhecidos fora da Coreia do Sul, ganham milhões de seguidores nas redes sociais.

Também é um fenômeno comercial. Os tênis brancos Slip-On, da marca Vans, usados pelos jogadores, viram suas vendas aumentarem em incríveis 7.800%. Além disso, o uniforme dos guardas da série se tornou a fantasia mais buscada. Isso lembra o que aconteceu com o macacão vermelho e a máscara de Salvador Dali usados pelos assaltantes de “La Casa de Papel”, outra série da Netflix, há quatro anos.

Diante desse frenesi, seria, portanto, inocência assumir que crianças e adolescentes não assistiriam à série apenas pela sua classificação etária. Muitos fazem isso até junto com seus pais, o que, dentro das circunstâncias, pode até uma alternativa menos pior, se bem aproveitado esse convívio em torno da história.

Todos nós nascemos com capacidades para discernir o certo do errado e o verdadeiro da fantasia. Mas essa habilidade só amadurece ao longo dos anos, precisa ser “treinada” com estímulos, com exemplos e com explicações de pessoas e de instituições que os pequenos têm como referência, como seus pais e a escola.

“Round 6” (que no resto do mundo é chamado de “Squid Game”, ou “Jogo da Lula”) obviamente é uma fantasia perturbadora. Traz uma feroz crítica social sobre a diferença entre as classes sociais e a dependência que as pessoas desenvolvem do dinheiro, até o ponto de algumas morrerem por ele em situações extremas.

Fica a pergunta: isso poderia acontecer de verdade em algum lugar do mundo?

 

Violência relativizada e normalizada

Às vezes, tenho a impressão de que o mundo ando louco demais.

Acho pouco provável que alguém se dispusesse a criar uma “brincadeira” tão distópica, em que pessoas morressem para sua diversão. Se bem que já tivemos algo assim em vários lugares do mundo ao longo da história, como nas arenas romanas.

Por outro lado, não me espantaria se, caso isso se concretizasse, um bando de malucos topasse arriscar a própria vida pela adrenalina e pelo dinheiro. Como sempre abordo nesse espaço, a dinâmica das redes sociais vem criando uma geração de pessoas “viciadas” em dopamina e com uma percepção fugaz da própria realidade, sempre a busca de novos estímulos.

Se isso impacta decisivamente até os adultos, adolescente e crianças se tornam presas fáceis desse ambiente. Seu senso crítico ainda não está desenvolvido para digerir tantos estímulos. Eles não têm as experiências de vida para colocar tudo na sua devida perspectiva.

No caso de “Round 6”, a profundidade da crítica social desaparece, permanecendo apenas o jogo puro. E a própria violência, que culmina na morte de pessoas, fica relativizada e perde força. Corre-se o risco de achar que tudo aquilo é normal.

O criador de “Round 6”, Hwang Dong-hyuk, disse que estava perplexo que crianças estivessem assistindo à série. Em entrevista a uma emissora sul-coreana, ele disse que espera que os pais e os professores ao redor do mundo sejam prudentes, para que os pequenos não sejam expostos a esse tipo de conteúdo.

 

Como proteger as crianças

“Round 6” é a bola da vez, mas, nos últimos anos, as crianças vêm sendo impactadas por diferentes conteúdos que levam muitas delas a dor, violência e até morte.

Em 2017, a “Baleia Azul” teve grande repercussão. Consistia de 50 tarefas que adolescentes recebiam de “curadores”, envolvendo automutilação e culminando no suicídio. Até hoje, há controvérsias sobre sua origem. Aparentemente, no início, não passava de um boato. Entretanto, diante da exposição que teve, acabou se “concretizando”, e várias mortes estariam associadas à Baleia Azul.

Dois anos depois, surgiu a Momo, uma boneca fantasmagórica que estaria invadindo o YouTube Kids para convencer crianças a fazer coisas como se cortar e até mesmo matar os próprios pais. Não passava de uma combinação de “fake news” com “efeito manada”, mas o movimento criado levou algumas crianças a realmente se automutilar.

Não podemos deixar de mencionar a suposta influência maligna dos games. Ela ressurge em casos de adolescentes que matam colegas, como aconteceu em 2019 na escola estadual Professor Raul Brasil, na cidade de Suzano, na Grande São Paulo. Mas estudos sérios demonstram que esses jogos não incentivam assassinatos reais. Pelo contrário, profissionais de psicologia explicam que esse tipo de criminoso é movido por outros problemas, muito mais profundos, que ele já carrega dentro de si.

Muitos propõem que “Round 6” seja sumariamente retirada do ar. Isso é algo totalmente inócuo: o buraco é muito mais embaixo!

Especialistas da área de saúde mental e de educação afirmam que a solução desses problemas passa por pais mais presentes na vida de seus filhos, para lhes oferecer carinho e orientação diante de tantos estímulos. Além disso, devem se unir a professores para ajudar a escola na tarefa de educar crianças e adolescentes.

Proibir o acesso raramente é eficiente. As crianças sempre darão um jeito, especialmente aquelas que têm acesso a smartphones e computadores. Mesmo que não vejam a série na Netflix, algumas cenas aparecem fora do contexto, no YouTube e até no TikTok. Além do mais, tudo que proibido desperta ainda mais o interesse.

Pais e educadores devem abordar esses temas com sinceridade e paciência, para explicar às crianças o que tudo aquilo significa e por que não devem fazer algumas coisas. Crianças, mesmo as pequenas, têm uma capacidade de compreensão que pode surpreender os próprios pais, quando eles se dispõem a oferecer essa orientação.

Elas devem se sentir acolhidas pelos seus pais. E esses devem criar, desde pequenos, um canal sincero de confiança com seus filhos, para que se sintam à vontade para compartilhar suas dúvidas e seus medos. Mas é importante entender que a confiança é uma via de mão-dupla: os pais também devem oferecer confiança e ser confiáveis.

A educação midiática se torna cada vez mais crítica em nosso mundo. Pais e educadores têm um papel central nisso. E devem sempre pedir ajuda a profissionais, como psicólogos, quando necessário.

Mas nada substitui o carinho, a presença e a confiança entre pais e filhos.

 

Assis Chateaubriand, o “rei do Brasil”, que construiu um império de mídia na primeira metade do século XX só porque “queria ter opinião”

A verdade e os limites de cada um

By | Educação | No Comments

Segundo consta, o paraibano Assis Chateaubriand (que aparece na foto acima) começou a construir seu império de comunicação dos Diários Associados porque queria “ter opinião”. No início de sua carreira, ouviu do patrão que, para falar o que bem entendesse, tinha que comprar um jornal. E foi o que fez! Depois outro, outro e mais outro, até ser dono do maior conglomerado de mídia da América Latina na primeira metade do século XX, que chegou a contar com mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e agências.

Nada mal para quem só queria publicar suas ideias sem pedir permissão ao outro!

Passados cem anos, a coisa ficou bem mais simples. Não é preciso ter jornal, nem rádio, nem TV para expressar sua opinião. Basta uma conta nas redes sociais.

O problema é que, como diz o ditado, “quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza”. Opinião todo mundo pode ter sobre tudo, inclusive religião, futebol e, mais recentemente, política. Mas ter opinião embasada e saber expor isso de forma respeitosa e construtiva exige habilidades que poucos carregam. E, nesse emaranhado de ideias sem limite, pessoas e empresas tentam se encontrar.


Veja esse artigo em vídeo:


Chatô, como era conhecido Chateubriand, virou o “rei do Brasil” pelo poder que construiu na mídia. Acabou incorporando a bravata do antigo chefe, que repetia a seus subordinados: “se você quiser ter opinião, compre um jornal (ou uma revista)!” Defendia seu direito de se expressar, mas não que outros promovessem suas “verdades”, especialmente as contrárias às suas.

Esse comportamento condenável combinava com a personalidade autoritária e egocêntrica de Chatô. Apesar do poder acumulado, estava longe de ser um exemplo a ser seguido. Infelizmente agora a Internet permite que isso se multiplique indefinidamente por pessoas de todo tipo e todo lugar, donos de seus “pequenos castelos”.

Esse diálogo de surdos nas redes sociais se construiu porque as pessoas confundem sua opinião com fatos. É possível acreditar em algo, é possível repetir isso mil vezes, mas não é possível ser dono dos acontecimentos.

A intensa virtualidade em que vivemos, reforçada pelas várias horas que passamos metidos nas redes sociais todos os dias, favorece essa sensação de poder se controlar a verdade: qualquer coisa que dissermos nessas plataformas ecoará em muitas pessoas, graças aos algoritmos que criam bolhas de pensamento único a nossa volta.

Não podemos perder as referências do real e de nossa humanidade por essa sensação de falso poder. E isso nos traz outro desafio de nosso tempo, que é o de se posicionar, de promover a proximidade com o outro sem parecer oportunista ou piegas. Pelo contrário, como fazer isso de maneira construtiva e genuína?

 

Coragem e vulnerabilidade

O cenário de insana polaridade que vivemos decorre disso. Quando todos têm razão, ninguém tem razão. É como se, de repente, o Brasil fosse tomado por milhões de Chatôs.

Essa intolerância pode calar muitas boas vozes: pessoas não apenas com opinião, mas também com embasamento, só que sem interesse em entrar nos intermináveis e infrutíferos debates online. Daí, para se proteger, criam “couraças” sobre a pele.

Mas –suprema ironia– as redes sociais justamente premiam quem se mostra. Considerando que a presença nessas plataformas se tornou essencial para se posicionar, fica o dilema de como fazer isso sem se machucar.

Um dos caminhos é se demonstrar autêntico, despir-se da defesa da couraça. Para isso, é preciso coletar excelentes argumentos e fatos de fontes fidedignas antes de se pronunciar. E, nesse processo, temos um ganho secundário importantíssimo, que é separar aqueles que “falam apenas porque têm boca” dos que realmente têm algo útil a se dizer.

Não é uma tarefa simples. Em nossa sociedade competitiva e guiada pela tal meritocracia, mostrar-se genuinamente virou algo de certa forma indesejado. Ao tirarmos as “máscaras”, mostramos nossas imperfeições, e isso é visto como sinal de fraqueza, de alguém que não deve ser, por exemplo, contratado para um trabalho.

Esse pensamento é um grande erro, pelo simples fato de que ninguém é perfeito. Segundo Brené Brown, pesquisadora em serviço social da Universidade de Houston (EUA), “imperfeições não são inadequações: são um lembrete de que estamos nisso todos juntos.”

Brown é uma referência internacional quando se trata de vulnerabilidade. Para ela, demonstrar-se vulnerável pode ser uma poderosa ferramenta de autoconhecimento, que nos permite identificar e melhorar nossas deficiências e reforçar nossas habilidades. Esse é um passo essencial para demonstrarmos empatia por nós mesmos. Sem isso, não seremos eficientes em ser empáticos com o outro.

Não precisamos ter respostas para tudo na ponta da língua. Ninguém sabe tudo sobre algo e nem algo sobre tudo. Sempre teremos o que aprender. Dessa forma, o antídoto para a intolerância das redes passa pela coragem de se demonstrar vulnerável e construir algo com isso.

 

“Meta as caras”

Muito antes de saber dessas histórias de Chateubriand, eu criei um jornal, um tabloide mensal que chegou a ter 52 páginas coloridas e 50 mil exemplares por edição, que durou de 1991 a 1998.

O que me motivava era compartilhar um pouco do que eu sabia com muita gente, em um tempo em que a Internet comercial ainda não existia (só foi liberada no Brasil no fim de 1994) ou era muito restrita.

Era o começo da minha carreira. Ainda havia muito a se lapidar em mim, mas acreditava que podia contribuir com as pessoas. E fazia isso cuidadosamente, da melhor maneira que podia. Quando o impresso acabou, eu já tinha o digital para ampliar minha voz.

Hoje, só no LinkedIn, tenho mais de 750 mil seguidores. Naturalmente nem todos veem o que publico, e, dos que veem, nem todos gostam. E está tudo bem! Eu não quero ter uma opinião para impor aos outros e não sinto que sou dono da verdade. Entretanto, ao escrever um artigo, gravar um vídeo, fazer um simples post, procuro saber muito bem do que estou falando e me apresentar com autenticidade.

Em um mundo tão complexo como o atual, precisamos de menos Chatôs e de mais Brené Browns. Portanto, convido você a trilhar esse caminho da vulnerabilidade, da empatia e do compartilhamento de ideias construtivas. Ganhará você e quem você tocar.

 

A mentira dita mil vezes

By | Educação | No Comments

O governo federal parece ter agora apenas um único objetivo: desacreditar as urnas eletrônicas e instituir o voto impresso. A pandemia, o desemprego e tantas outras mazelas do Brasil parecem ter sumido, pois o ataque ao sistema eleitoral brasileiro se tornou um assunto onipresente nas falas de Bolsonaro. É de se perguntar o porquê dessa insistência insana.

Para quem conhece um pouco da história e da política, esse movimento é facilmente explicável. Ele segue um padrão de convencimento popular formalizado há cerca de 90 anos, mas que foi reforçado pelo advento das redes sociais.

Na quinta, o mandatário não cumpriu a promessa de demonstrar as falhas da urna eletrônica, em uma transmissão recheada de vídeos antigos e argumentos falsos, todos largamente desmentidos por autoridades e especialistas. Ainda assim, insiste na tese e convoca seus apoiadores para lutar por ela.

Essa linha de ação segue o conceito de que “uma mentira dita uma vez é apenas uma mentira; já uma mentira dita mil vezes se torna verdade”.


Veja esse artigo em vídeo:


Essa tese foi organizada por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolph Hitler, para legitimar suas atrocidades. Foi dessa maneira que os alemães na década de 1930 apoiaram a política do seu Fürher contra os “inimigos do povo”, com a qual se consolidou no poder, tornou-se ditador, promoveu a Segunda Guerra Mundial e realizou o Holocausto. As ações dos apoiadores do líder nazista podem ser vistas no premiado documentário “Arquitetura da Destruição” (disponível gratuitamente e legendado no YouTube).

Aquilo parece monstruoso a nossos olhos, mas, guardadas as proporções, é exatamente o mecanismo atual, com o agravante de que se espalha mais rapidamente pelas redes sociais. Agora, para se tornar “verdade”, uma mentira não se repete mais mil vezes, e sim um milhão de vezes, o que torna o processo mais eficiente.

Esse modus operandi não tem nada a ver com um governo ser progressista ou conservador, de esquerda ou de direita. Tem a ver com um governo ser autoritário e querer se perpetuar no poder a qualquer custo.

A história é pródiga em demonstrar isso, sendo que alguns de seus mais perfeitos expoentes foram legitimamente eleitos em um primeiro momento, como Donald Trump, Hugo Chávez e Adolph Hitler. Dos três, o único que fracassou em seus objetivos foi o primeiro, mas não sem deixar um grande custo, com os Estados Unidos rachado ao meio, culminando com a grotesca invasão do Capitólio, em que seus apoiadores invadiram violentamente o Congresso para tentar impedir o anúncio da vitória de seu opositor, Joe Biden.

 

“Engana que eu gosto”

Não se trata de uma loucura coletiva. Por uma característica evolutiva de autopreservação da espécie, as pessoas acreditam naquilo que lhes for mais conveniente, mesmo que a manutenção de alguns de seus privilégios prejudique muitas pessoas ou até coloque a democracia em risco.

Quando são expostas a apenas uma narrativa, baseada em fatos, na ciência ou em instituições de grande reputação, acatam mesmo o que não gostam, resignando-se. Mas, na primeira oportunidade de alguém lhes apresentar uma versão contrária e mais palatável, abraçam cegamente o mentiroso, como uma tábua de salvação.

Esse mecanismo de interesse de manada contra a verdade foi descrito em 2016 pelo renomado Dicionário Oxford. Naquele ano, seus organizadores elegeram “pós-verdade” como a “palavra do ano”. Na sua definição, ela é “relativa ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais.”

Mas isso precisa ser construído! A narrativa mentirosa, que interessa a esses grupos específicos, precisa fazer frente à realidade, sufocando os fatos e expondo incansavelmente a alternativa por todos os métodos disponíveis.

Por isso, a boa imprensa sempre é uma pedra no sapato de governantes, especialmente dos autoritários. A despeito de suas imperfeições, ela tem a função essencial de fiscalizar todo governo, impedindo-o de extrapolar suas prerrogativas. Se um veículo não fizer isso, não está fazendo bom jornalismo.

Goebbels sabia e censurou a imprensa, classificando as vozes dissonantes de “inimigos do povo”. Os nazistas não viam problema em desqualificar, censurar, prender e até matar quem se opusesse a eles. Por outro lado, como se vê em “Arquitetura da Destruição”, todos os recursos eram usados para reforçar sua visão, como eventos populares, o esporte, a cultura, as artes e até a arquitetura.

 

As redes sociais e a mentira

Em democracias consolidadas, calar a imprensa não é tarefa simples. Como os veículos de comunicação alcançam milhões de pessoas, sua voz tem enorme poder.

Mas ela ganhou um contraponto há cerca de 20 anos, com o surgimento das redes sociais. Pela primeira vez, as ideias de qualquer pessoa poderiam potencialmente atingir uma enorme quantidade de indivíduos, até mesmo em outros países.

Em um primeiro momento, foi incrível, pois a informação parecia ser mais democrática. Mas, de uma década para cá, grupos de poder aprenderam a usar esse recurso para impor a sua “pós-verdade”, travestindo-a de “voz do povo”. Obviamente trata-se de um engodo! Mas, como os algoritmos não têm ética e nem moral, é o suficiente para convencer milhões de pessoas.

Os “robôs” são essenciais nesse cenário para dar o primeiro empurrão e apresentar as mentiras nas redes sociais para quem deseja que aquilo seja verdade. A partir daí, essas pessoas espalharão essas fake news. Mas ainda não é suficiente. É preciso criar um discurso uníssono para consolidar a falcatrua. Exatamente como se faz agora contra as urnas eletrônicas.

Elas são perfeitamente auditáveis, enquanto os votos impressos (mesmo impressos automaticamente) são facilmente fraudáveis. E não é preciso adulterar uma enorme quantidade de votos impressos: apenas o suficiente para criar uma diferença entre essa contagem e o das urnas eletrônicas, para se criar uma insegurança jurídica em torno dos resultados da eleição. A partir daí, pode-se querer impugnar o resultado com o respaldo de uma parcela considerável da população, que acredita na farsa.

As circunstâncias nunca foram tão favoráveis para que uma mentira dita mil vezes se torne verdade. Para que uma democracia sobreviva, as pessoas devem ter acesso a fontes de informação diversas e confiáveis.  Precisam também ser convidadas a pensar e a contestar o que chega para elas, especialmente quando parece ser incrivelmente suculento para os seus valores e os seus desejos.

E isso é bem difícil. Mas é exatamente aí que reside a mentira que quer se tornar verdade!

Limites melhoram a experiência digital de crianças

By | Educação | No Comments

No início do mês, o post de uma médica paulistana “viralizou” no Instagram. Ela explicava por que excluiu as contas no Instagram e no TikTok de sua filha de 14 anos, que já tinha cerca de 2 milhões de seguidores. Segundo a mãe, fez isso para proteger a filha dos efeitos da exposição desmedida nas redes.

Como já se tornou praxe em nossa sociedade polarizada, ela recebeu muitos apoios pela iniciativa, mas também foi pesadamente criticada. Mas, afinal, ela extrapolou com seus cuidados maternais?

O fato é que o mundo digital está profundamente integrado à vida de adolescentes e até de crianças. Segundo a versão mais recente da pesquisa “TIC Kids Online Brasil”, realizado anualmente pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 89% dos brasileiros entre 9 e 17 anos estão online. No Sudeste, esse percentual chega a 96%!

Nesse cenário, fica muito difícil impedir o acesso dos filhos ao meio digital. Por isso, especialistas afirmam que a supervisão dos pais é essencial para que os pequenos aproveitem ao máximo essa experiência.


Veja esse artigo em vídeo:


O pesquisador americano Philip Kotler, cunhou, em seu best-seller “Marketing 4.0” (2017), o neologismo netizen, combinando as palavras em inglês net e citizen, ou seja, os “cidadãos da Internet”. Segundo ele, “à semelhança de bons cidadãos, que contribuem para seu país, eles contribuem para o desenvolvimento da Internet.”

O papa do marketing moderno explica que “o papel deles de influenciar os outros está ligado ao desejo de estar sempre conectado e contribuir.” Não se limitam, portanto, a “consumir a Internet”.

Não seria diferente com as crianças. Katty Zúñiga, psicóloga integrante do Janus Leptic (Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e Comunicação) da PUC-SP, explica que, como computadores e celulares fazem parte do cotidiano das famílias, isso se torna natural às crianças. Para ela, “é um campo novo de diversão, de aprendizado e comunicação”.

Entre as atividades que muitas realizam, está se tornar influenciador digital. A psicóloga explica que isso pode ajudar a desenvolver a criatividade e várias habilidades das crianças, como pensamento mais rápido, comunicação, espontaneidade e a autoconfiança. Ela alerta, entretanto, que os pais precisam ser um fio condutor, para que os filhos não percam os limites. Caso contrário, os benefícios podem dar lugar a problemas como ansiedade, perfeccionismo e cobranças desmedidas para “entregar conteúdo”.

 

Pequenas estrelas, grandes vendedores

Os primeiros influenciadores-mirins surgiram em 2005. Começaram como brincadeiras, mas muitos ganharam legiões de seguidores no YouTube e posteriormente em outras redes, chegando a milhões de fãs.

Especialistas explicam que crianças e adolescentes que se tornam influenciadores devem continuar encarando isso como diversão, e não como um trabalho. Mas muitas empresas e alguns pais descobriram que estavam diante de uma mina de ouro: os vídeos das crianças brincando são uma poderosa ferramenta para vender qualquer produto para seus pequenos seguidores.

Bruno Studer, professor, pesquisador e deputado francês, abordou o tema no 10º RightsCon, evento mundial sobre direitos humanos no ambiente digital, realizado em junho. Para ele, “quando se fala de influenciadores mirins, há um natural conflito de interesses para os familiares: ao mesmo tempo que procuram o bem-estar das crianças, também precisam administrar suas carreiras.”

Essa forma dissimulada ou às vezes escancarada de publicidade infantil afeta os influenciadores e seus fãs. Os primeiros recebem dezenas de brinquedos todas as semanas, o que é uma distorção da realidade, e precisam “brincar” com todos eles diante de câmeras. Já os seguidores, que tampouco têm maturidade para entender isso, são bombardeados com uma mensagem publicitária extremamente eficiente.

As plataformas digitais também precisam fazer mais para solucionar esse problema. Afinal, elas lucram muito com essa superexposição. Não basta, portanto, ter apenas um comportamento reativo de remover vídeos denunciados.

A edição de 2016 da mesma “TIC Kids Online Brasil” identificou que 69% das crianças e adolescentes foram impactadas naquele ano por publicidade em sites de vídeo, e 62% em redes sociais. A pesquisa mostrou também que 43% deles pediram produtos anunciados aos pais.

 

Controle parental

Eles, por sua vez, precisam de apoio. Muitos, mesmo bem intencionados, podem expor seus filhos demasiadamente, por falta de informação.

Não há legislação no Brasil que discipline as profissões de youtuber ou influenciador, mas a Constituição proíbe o trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de 18 anos, e qualquer trabalho a menores de 16, exceto o de aprendiz, permitido a partir de 14 anos. Pais que queiram regularizar a atividade de filhos influenciadores podem, entretanto, buscar um alvará judicial que classifique a atividade como trabalho artístico.

Mais importante que isso é os pais terem apoio psicológico para a iniciativa. Eles não podem ver seus filhos como “a galinha dos ovos de ouro”, e precisam ajudar crianças e adolescentes a não se sentirem pressionados por entregas, ou ansiosos por aprovações virtuais, como curtidas. A falta de materialidade disso pode causar uma dependência que pode evoluir até para a depressão.

Além disso, celulares não podem ser usado como as “novas chupetas”. “Há pais que aproveitam dessas ferramentas para se livrar do choro das crianças, e acabam as entregando para elas sem limite”, explica Zúñiga.

Especialistas indicam que a exposição a qualquer tipo de tela não deve passar de uma hora por dia até os 6 anos de idade, subindo para duas horas até os 12 anos e no máximo quatro horas por dia após isso. “É importante ter um tempo, pois a criança precisa se desenvolver em todos os aspectos”, explica ela, reforçando que a criança precisa também ter necessariamente experiências concretas.

Portanto, não dá para simplesmente alijar crianças e adolescentes do mundo digital, pois isso faz parte da sociedade em que todos nós vivemos. Fazer isso os privaria do desenvolvimento de habilidades importantes.

O que deve ser feito é orientá-las, supervisioná-las, estar junto a elas. Precisamos nos interessar genuinamente pelo que nossos filhos estão fazendo, e não apenas nas redes.

Violência se faz com armas e palavras

By | Educação | No Comments

A violência é um problema crônico do Brasil, uma de nossas maiores chagas. E, como em muitas de nossas mazelas, tenta-se maquiar o sintoma, enquanto se deixa as causas intocadas.

Por exemplo, o governo federal acha que sua solução passa por armar as pessoas, mais especificamente o chamado “cidadão de bem”. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública discorda, indicando que isso só faz piorar a situação.

Apesar de os mais pobres serem, de longe, as vítimas principais da violência, ninguém está totalmente a salvo dela. Por mais que se armem e se protejam em redomas, os ricos também são impactados, até mesmo porque a violência pode brotar dentro de suas casas.

Nesse cenário em que as consequências ganham mais atenção que as motivações, as palavras podem ser tão perigosas quanto as balas. Isso acontece com ataques verbais de toda natureza, também contra quem propõe o debate para a busca de uma solução real. É o que está acontecendo nas redes sociais contra a série documental “Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime”, que estrou no dia 8, na Netflix.


Veja esse artigo em vídeo:


Divulgado nesta quinta, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública contabiliza um assassinato no país a cada dez minutos em 2020, 4,8% a mais que em 2019. No mesmo ano, 186.071 novas armas particulares foram registradas, o dobro de 2019. São agora mais de dois milhões de armas particulares registradas no Brasil. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirma que há correlação entre as duas coisas.

No outro ponto dessa análise, a série da Netflix, dirigida por Eliza Capai, conta, com riqueza de detalhes, o brutal crime praticado por Elize Matsunaga em 2012, quando ela matou e esquartejou o marido, o milionário Marcos Matsunaga. Apesar de ser um trabalho jornalístico de alta qualidade, que ouviu, de maneira bastante equilibrada todos os lados do caso, vem sendo alvo de fúria de muita gente nas redes sociais.

A ideia aqui não é debater o crime, indubitavelmente hediondo, ou os pontos levantados pela promotoria e pela defesa da condenada. Para isso, recomendo que assista à série para tirar suas próprias conclusões.

A proposta é tentar entender por que uma parcela considerável da população ataca um trabalho que traz elementos para conhecer a gênese da violência. Aquela tenebrosa noite de 2012 foi o desfecho de problemas variados que se arrastaram por anos. Muitos deles permeiam nossa cultura e nossa sociedade.

Por isso mesmo, tanta gente se recusa a olhar para isso, pois exige energia para reconhecer em si elementos desse sistema. Resolver as causas da violência exigiria mudar isso, o que é doloroso. Muito mais confortável é manter enjaulados a criminosa e o monstro dentro de cada um de nós. Isso nos poupa de responder perguntas incômodas, porém necessárias. Por que esse caso ficou tão famoso? Seria a mesma coisa se a vítima fosse a mulher ou se fossem pessoas pobres?

 

“Defensor de bandido”

As pessoas querem apenas que o seu lado seja o vencedor. Quem for diferente deve ser calado, varrido para debaixo do tapete, jogado em um buraco ou trancafiado para sempre. E qualquer um que tente resgatar essas pessoas deve ter tratamento semelhante.

Os ataques a esse documentário me fizeram lembrar casos em torno do médico Drauzio Varella. Desde que escreveu o livro “Estação Carandiru” (1999), posteriormente adaptado para o filme “Carandiru: O Filme” (2003), ele, que é um profissional respeitadíssimo, é rotulado de “defensor de bandido” por alguns.

Na obra e em diversas outras ocasiões, Varella apenas busca humanizar os detentos, algo necessário se consideramos que nossa legislação prevê que todo condenado, após cumprir sua pena, deve ser reintegrado à sociedade. Mas, para quem encara essas pessoas como monstros, essa proposta afronta seus valores.

Todos nós temos um sentimento de autopreservação. É uma necessidade atávica, ancestral. Na pré-história, quando o ser humano não tinha essa posição de dominância absoluta, éramos caçadores, mas podíamos ser também caça.

Agora dominamos o mundo e a nossa autopreservação mudou. Nenhum animal nos atacará. Somos nós mesmo que fazemos isso, para proteger o que já temos ou para conseguir o que queremos.

Ironicamente, nas rodas de profissionais “descolados”, muito se fala de empatia. Mas as pessoas têm isso? Elas sabem o que isso significa, afinal?

A empatia é um sentimento que nasce conosco. Basta observar as crianças, que compartilham e tentam ajudar seus amigos em dificuldade, muito mais que os adultos. Mas algo acontece ao longo da vida, que a mata aos poucos.

 

O lobo do homem

O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679) disse, em sua obra mais famosa, Leviatã (1651), que “o homem é o lobo do homem”. Ele acreditava que o ser humano precisa viver em uma sociedade regida por regras e normas, que chamou de “contratos sociais”. Sem elas, esse “lobo” surgiria em todos, e rumaríamos à barbárie.

O que vejo hoje é que esses contratos estão sendo rasgados por aqueles que têm poder político, econômico ou simplesmente uma arma na mão. O outro e suas necessidades deixam de ser importantes a partir do momento em que um indivíduo tem a força de impor suas vontades.

Quem não tem uma arma de fogo tem a arma das palavras. Se antes elas eram restritas a quem estava ao alcance da influência desse agressor, com as redes sociais seus despautérios atingem potencialmente o mundo inteiro. E os algoritmos de relevância das redes catalisam o fator destrutivo dos ataques verbais, ao agrupar pessoas que pensam da mesma forma, criando uma poderosa caixa de ressonância.

Para Eliza, a diretora desse documentário na Netflix, “ninguém que comete crimes é apenas o crime que cometeu”. Todo crime, assim como tudo na vida, resulta de uma sequência de ações que nós e as pessoas a nossa volta tomam. Algumas são boas, outras são ruins. Às vezes, muito boas; às vezes muito ruins.

De forma alguma, defendo o crime de Elize Matsunaga. Por ele, foi julgada e condenada a quase 20 anos de prisão. A família do ex-marido não quis que os advogados entrassem com recurso para aumentar a pena (como eles queriam): acharam que a Justiça já tinha sido feita.

Uma sociedade só pode se dizer evoluída quando ela se torna muito mais eficiente na prevenção de crimes que na punição de criminosos. E, para isso, casos como esse devem ser debatidos e analisados com uma visão desapaixonada e verdadeiramente querendo entender todos os lados que levaram a um delito. Não podemos impedir que ele ocorra quando se chega ao ápice da loucura. Mas podemos trabalhar para que a enorme cadeia de fatores que levaram àquilo, quase sempre contornáveis, seja quebrada.

Por isso, o documentário é um serviço à sociedade por apresentar amplamente todos os lados do caso (que são muitos), com suas versões, seus sentimentos e seus interesses. Já aqueles que querem desqualificar a obra, com seus argumentos raivosos e limitados, não apenas deixam de contribuir para o combate à violência, como ainda a aumentam desmedidamente a cada post.

Eles são os lobos de Hobbes, que destroem seu semelhante para satisfazer unicamente suas necessidades.

Um país que nem sabe o que não sabe

By | Educação | No Comments

A educação brasileira ter, na média, uma qualidade sofrível e estar ladeira abaixo há anos infelizmente não é nenhuma novidade. Isso criou uma geração de cidadãos menos conscientes e de profissionais menos competitivos. Mas, além disso, tenho observado com assombro uma certa acomodação na mediocridade, que glorifica a estupidez nas redes sociais e cria solo fértil para o amadurecimento de uma ditadura da ignorância.

Isso nos empurra ainda mais fundo nesse lodo social em que nos encontramos. Uma sociedade bem educada, com universalização de bom conhecimento e cultura, não apenas cumpre seus deveres e faz valer seus direitos, como trabalha para a evolução de cada indivíduo e da comunidade. Sem isso, emperra onde está, pois nem sabe o que não sabe. E assim segue seus dias guiada pelo que vê nas redes sociais.

Isso parece –e é mesmo– um contrassenso. Por que alguém abriria mão da busca pelo conhecimento, que lhe daria o mundo, para se limitar a uma vida bovina, aquela em que, se houver um bom pasto, o gado ficará satisfeito sem tem que se movimentar muito?


Veja esse artigo em vídeo:


Quando eu era criança, havia uma frase dita pelos colegas como um misto de insulto e desprezo por algo que não dominavam: “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. Aquela bravata pueril tinha um quê de autoafirmação no grupo, por uma suposta superioridade que daria ao valentão o direito de desprezar o conhecimento, mas era restrito ao grupo de amigos e tentava esconder a ignorância por desconhecer o tema.

Hoje o “direito de ser ignorante” também serve para fazer parte de alguns círculos sociais. Mas, nesse caso, essas pessoas realmente se sentem de alguma maneira especiais, por não se curvarem ao que dita a ciência, as regras de convivência e até o bom senso. Ao afrontar o saber, o ignorante tem a falsa sensação de se posicionar acima de quem estudou muito para chegar onde chegou, em uma espécie de “esperteza torta”.

Aí reside uma das explicações desse fenômeno. O conhecimento não vem de graça: é necessário esforço e concentração. Em outras palavras, adquirir conhecimento dá trabalho, mas poucas coisas trazem retorno melhor.

Isso costumava ser um senso comum. Tanto que um dos maiores feitos para uma família de classe média era ver seus filhos concluindo uma faculdade, sinal de vitória, maior até que a compra da casa própria. Ninguém questionava isso.

Com as redes sociais, esse cenário mudou. A proliferação nelas de “gurus de meia pataca”, com suas “fórmulas mágicas de sucesso”, criou uma sensação de que basta seguir alguns passos básicos para se adquirir fama e fortuna.

Mas o que se observa é que os únicos que adquirem fama e principalmente fortuna com isso são os próprios “gurus”.

 

Evasão escolar

A pandemia agravou ainda mais esse quadro. Com as escolas fechadas pelas medidas do distanciamento social, o desemprego recorde e até a depressão, parte da população perdeu interesse em aprender. O quadro é ainda mais dramático entre os jovens, que abandonaram ou pensam em abandonar a escola.

Segundo pesquisa do Conselho Nacional da Juventude, que ouviu 68 mil pessoas com idades entre 15 e 29 anos, se tiverem que escolher entre trabalho e escola, 43% dos jovens brasileiros pensam em parar de estudar. Em 2020, esse índice era de 28%, que já era alto. Os principais motivos são necessidade de complementar a renda e não conseguir estudar remotamente.

Outro estudo, esse da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), aponta que 5,1 milhões de crianças e adolescentes desistiram de estudar no Brasil por causa da pandemia. Ele foi feito a partir de dados do último relatório PNAD Contínua, concluído em novembro pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Desse total, mais de 40% tinham entre 6 e 10 anos, uma faixa etária em que a escolarização estava quase universalizada antes da pandemia. O principal motivo foi a falta de acesso a equipamentos e Internet para fazer as aulas remotamente. Isso fez com que o Brasil regredisse duas décadas no acesso ao ensino básico.

Resgatar esses jovens para a escola é um desafio que toda a sociedade deve abraçar. Se fracassarmos nessa tarefa, a ditadura da ignorância ganhará força e o país ficará ainda mais imobilizado, em um círculo vicioso.

 

A vida que só existe nas redes

Não desdenho o conhecimento empírico, o aprendizado na “escola da vida”. Mas, apesar de isso ser importante para desenvolvermos pessoas criativas e flexíveis, há um limite até onde se pode chegar com ele. Isso explica por que o profissional brasileiro é considerado internacionalmente como alguém inventivo, porém sua produtividade fica muito abaixo dos trabalhadores de países que investem em boa educação e valorizam o conhecimento.

Para realmente alcançarmos um destaque consistente na sociedade e na profissão, temos que abandonar as fórmulas fáceis. Não podemos ter uma vida que brilha apenas nas redes sociais, com as fotos e vídeos que padecem de uma grosseira mesmice no Instagram e no TikTok, ou historinhas de inspiração fácil no LinkedIn.

Por isso, não chega a ser uma surpresa o novo recurso TikTok Resumés, em que pessoas poderão se candidatar a vagas de trabalho com vídeos curtos nessa plataforma. A novidade está em teste no mercado americano.

Temos que romper essa narrativa do “bom ignorante”, em que “ser espontâneo” passou a ser uma virtude, quando, na verdade, apenas mal disfarça indivíduos que, nas redes sociais, insultam desafetos e falam bobagens a partir de raciocínios mal construídos e de mentes sem conteúdo, despreparadas.

Eu gosto muito das redes sociais, mas elas não podem ser ferramentas de ascensão social. As pessoas precisam crescer de verdade, fora delas.

Precisamos resgatar o valor do aprendizado verdadeiro, da educação ampla, da cordialidade e do conhecimento. Por mais que as redes sociais nos mostrem uma vida que parece ser fácil em posts e em stories, apenas nos desenvolvemos como indivíduos e como nação quando arregaçamos as mangas e saímos da superficialidade em nosso cotidiano.

Por isso, o “bom ignorante” não passa de uma ilusão criada por aqueles que preferem manter o povo no escuro, para sua manipulação. É uma narrativa alimentada por quem prefere o caminho fácil, desancando quem valoriza o saber. Essa ditadura da ignorância precisa acabar!

 

O vírus acelerou a morte de profissões

By | Educação | No Comments

Com o incremento no passo da vacinação, muitas empresas que ainda têm funcionários trabalhando em home office acalentam o sonho de voltar aos escritórios, mesmo sabendo que as coisas não serão como antes. Nesse cenário, o trabalho híbrido ganha espaço e a digitalização de tarefas não deve retroceder. Mas alguns profissionais não voltarão aos seus postos, pois suas funções foram extintas.

Depois de um ano e meio de pandemia, já se sabe que ela atuou como um poderoso catalizador da transformação digital. Mudanças nesse sentido que antes eram esperadas para ser implantas em cinco anos aconteceram em cinco meses. Empresas e profissionais que se deram bem nesse período foram os que conseguiram fazer os movimentos necessários.

A Covid-19 acelerou a derrocada de profissões inteiras. Esse processo, impulsionado pela automação e por mudanças culturais, já vinha de antes da crise sanitária, mas aumentou com ela.

Não há vacina para isso! Entretanto, quem está chegando no mercado agora e quem já está consolidado na profissão há muitos anos podem ainda tomar as ações que salvarão seu futuro profissional.


Veja esse artigo em vídeo:


Na semana passada, soube do caso de Salvador Neves, autointitulado “o jornaleiro mais antigo de São Paulo”. Dono da banca Estadão, que fica no viaduto Nove de Julho, no centro da cidade, ele está se aposentando aos 85 anos, 64 dos quais dedicados ao ofício. Ele, que se orgulha de já ter sido o maior vendedor de jornais da capital, chegando a comercializar cem exemplares por minuto, hoje vende pouco mais de um por hora, na média.

A banca, que está sendo tocada pelo seu filho, foi transformada em uma pequena loja de conveniência, a exemplo do que aconteceu com todos esses pequenos pontos de venda de rua. Mas isso não é suficiente. Salvador deixa a profissão menos pela idade e mais pela falta de perspectiva.

Acontece que, por mais que as pessoas continuem se informando pelo noticiário das mesmas empresas de comunicação que faziam (e ainda fazem) os jornais que Salvador antes vendia aos montes, hoje fazem isso pelo meio digital. Portanto, de certa forma, não foi a Internet que matou as bancas de jornal, e sim uma mudança no padrão de consumo de seus clientes, que encontraram um modelo que lhes é mais interessante.

A dificuldade dos donos das bancas de se reinventarem e o próprio debate do futuro do trabalho passa pelo do futuro da educação. Precisamos rever o que ensinamos em nossas escolas, privilegiando habilidades técnicas e sociais necessárias para as profissões do futuro, como trabalho em equipe, inteligência emocional, resiliência, empatia e tolerância.

Em outras palavras, para escapar do processo de automação, a sociedade precisa rever a maneira como educa seus jovens, e os profissionais precisam continuamente se reciclar. Mesmo para quem tem nível superior, não se pode mais depender apenas do que se aprende na graduação.

O que puder ser automatizado será! Portanto, aqueles cujas funções forem muito repetitivas e que exijam pouca inovação e criatividade devem mesmo se preocupar.

Um estudo realizado na Universidade de Oxford sugere que profissões que exigem habilidades que ressaltem nossa humanidade têm menos chance de serem automatizadas. Entre elas, estão percepção social, negociação, persuasão, cuidado com o outro, originalidade, gosto artístico e destreza manual.

Nesse sentido, algumas das profissões mais bem posicionadas seriam as ligadas a hotelaria, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e professores. Na outra ponta, entre as profissões mais ameaçadas, estão telemarketing, digitadores e caixas de banco.

O grande risco desse processo é tirar o ser humano da equação.

 

“Inempregáveis”

As mudanças são inevitáveis!

Se, por um lado, o avanço tecnológico deve trazer grandes benefícios para nossa vida, por outro ele pode gerar um excedente de mão de obra cujas qualificações não sirvam mais para essa nova realidade. E isso é algo que deve acontecer em um horizonte de poucos anos.

O Brasil já passa uma situação dramática no nível de emprego. Temos hoje cerca de 15 milhões de desempregados e mais de 6 milhões de desalentados, que são aqueles que já desistiram de procurar emprego. Além disso, há 33 milhões de pessoas que, apesar de estarem trabalhando, se sentem subaproveitadas, ou seja, poderiam e gostariam de produzir mais e melhor.

O grande problema é que começaremos a ver pessoas de uma nova categoria, a dos “inempregáveis”, aquelas cujas habilidades, mesmo aprendidas em uma faculdade, já não servem para nenhuma profissão. Cursos ultrapassados e falta de reciclagem profissional aumentam o risco de criar uma grande massa que não será capaz de exercitar qualquer trabalho.

Os otimistas afirmam que profissionais que perderem seu trabalho para a automação serão reaproveitados em outras funções. O problema é que essas tarefas tendem a ser pouco qualificadas, o que amplia a chance de serem novamente substituídos por outros sistemas depois de algum tempo.

As chamadas “profissões do futuro”, que estimulam nossa imaginação, exigem, por outro lado, pessoas que estejam continuamente aprendendo, que inovem e corram riscos, prontas para transformar o próprio trabalho em algo novo.

Nesse sentido, paradoxalmente algumas dessas atividades futuristas já existem há muito, muito tempo, como professores e médicos. Mas obviamente elas só poderão ser exercidas por profissionais que abracem maneiras totalmente inovadoras de fazer o que sempre fizeram. Quem insistir em métodos consagrados será lentamente colocado para fora do mercado.

Outra coisa que todos nós temos que ter em mente é que precisamos incorporar habilidades de outras áreas. Os profissionais mais valorizados precisam, cada ver mais, dominar habilidades da área de Exatas, como raciocínio lógico, análise de dados, entendimento de sistemas e estatística, assim como de Humanidades, como comunicação, pensamento crítico, trabalho em equipe e empatia.

As empresas devem entender que têm uma função essencial nisso, até mesmo para ensinar e reciclar seus profissionais, especialmente quando as escolas demoram a reagir e criar cursos que atendam a essas demandas.

O retorno é óbvio! Em janeiro, o relatório Brand Finance indicou as marcas mais valiosa do mundo: Apple, Amazon, Google, Microsoft, Samsung, Walmart, Facebook, ICBC, Verizon e WeChat. Apenas duas não são da área de tecnologia. E, nas 500 maiores, há só duas brasileiras: o Itaú, que ocupar o 387º lugar, e o Banco do Brasil, na posição 492. Nossas marcas mais valiosas são de setores muito conservadores ou estão ligadas a commodities, o que é emblemático.

Precisamos investir em profissões cujas tarefas não possam ser descritas e controladas por algum tipo de programa de computador. E devemos entender que o conhecimento envelhece. Por isso, temos que estar sempre estudando: essa ação é inegociável!

Vivemos em tempos exponenciais, e isso é ótimo para o desenvolvimento de toda a sociedade. Mas eles nos desafiam a fazer de um jeito diferente o que já existe ou criar algo completamente novo.

Não dá mais para se agarrar a fórmulas consagradas. Temos que nos preparar profissionalmente para algo que ainda não existe.

A origem do negacionismo

By | Educação | No Comments

No mundo todo, a educação sofre há um ano com a Covid-19. No Brasil, com o avanço galopante da doença, governadores e prefeitos vêm adotando medidas mais severas para conter o vírus, incluindo fechar as escolas. O impacto na formação de crianças e jovens é inevitável. Mas a educação sofre muitíssimo no nosso país desde muito antes da pandemia. De certa forma, grande parte do caos que vivemos se explica pelo desprezo histórico que o Brasil tem pela educação.

Basta ver que esse debate atinge basicamente educadores e pais de alunos. O resto da população passa ao largo do tema. Mas o fechamento de bares causa comoção nacional!

É sabido que cidadãos bem educados fazem valer seus direitos e igualmente cumprem seus deveres. Não ficam esperando que o governo os “salve de suas próprias vidas”. É assim em sociedades desenvolvidas. Por outro lado, os menos educados criam uma zona de conforto em torno de um pacto pela mediocridade: “se você me der o mínimo que preciso, eu não incomodo você, e vou levando minha vidinha”.

Como não somos bem educados, diante de algo muito maior que nós (como uma pandemia), procuramos uma “solução mágica”. Como isso não existe, negamos os fatos. Afinal, o que os olhos não veem o coração não sente, certo?

Errado!


Veja esse artigo em vídeo:


A nossa má educação é, portanto, a principal causa desse negacionismo que jogou o Brasil nas mais profundas trevas, que, para nossa desgraça, foram ampliadas pela pandemia. Não dá nem para dizer que foi azar: plantamos isso.

Não é de se estranhar que o nível da educação no Brasil caia gradativamente desde o tempo da ditadura militar. Um povo mal educado é um povo mais dócil e facilmente manipulável. Mas, com isso, jogamos tudo no colo do Estado ou damos um jeito de responsabilizar o outro quando algo dá errado. Esperamos que o mundo nos sirva e nos salve, mas damos muito pouco em troca. Ao fazer isso, cada um de nós, individualmente, e o Brasil, como sociedade, afundamos ainda mais no lamaçal.

Para completar a tragédia, o caminho para sairmos disso, que é a busca pelo conhecimento e a ciência, é banalizado, desvalorizado, ridicularizado até por governantes e seus seguidores. Quem estuda, quem pesquisa e quem ensina no Brasil não tem valor.

Para compensar essa gravíssima falha, nós nos apoiamos, até para afagar nosso ego, na crença de que somos um povo criativo e “esperto”, que consegue “sair de qualquer buraco”. A verdade é que essa “esperteza” está muito mais para malandragem burra. Trabalhamos muitas horas, mais que outros povos, porque somos profissionais de baixa produtividade e baixa inventividade.

Dói dizer isso! Mas temos que encarar o problema de frente se quisermos corrigi-lo.

Somos ótimos seguidores de ordens, com pouca iniciativa. Fomos educados assim! Além disso, trabalhamos mal em equipe. Basta ver a enorme quantidade de chefes tóxicos e as “puxadas de tapete” na própria equipe que ainda temos em pleno ano de 2021.

Que fique claro: ao dizer tudo isso, não estou afirmando que somos um povo “sem jeito” ou condenado. Muito pelo contrário! Mas estamos indo por um caminho muito errado há décadas, sem nenhuma perspectiva de melhora. Basta ver o Ministério da Educação, que está em coma desde que Bolsonaro assumiu o poder.

 

Brasil X Coreia do Sul

Em novembro, pesquisadores da FGV (Fundação Getúlio Vargas) divulgaram um estudo apontando que, se o Brasil investisse, a cada ano, 1% a mais do seu Produto Interno Bruto em ensino básico, o padrão de vida médio da população aumentaria até 26% nos próximos 50 anos. Em 2050, a população brasileira poderia atingir o mesmo padrão de vida da portuguesa. Além disso, investir (bem) na educação 2% do que o país produz levaria a um aumento de quase 32% na produtividade do trabalhador.

Um dos reflexos do nosso terrível fracasso nisso é que, apesar do altíssimo desemprego por aqui, as empresas não conseguem preencher vagas que exigem qualificação profissional e competências específicas, por causa da baixa qualificação média do brasileiro.

É possível mudar esse quadro, mas isso exige trabalho sério e consistente, investimento e tempo. Podemos pegar, como exemplo, a evolução da Coreia do Sul.

Antes da Guerra da Coreia, que durou de 1950 a 1953, o país era um dos mais pobres do mundo, muito mais que o próprio Brasil da época. Após o conflito, o sul capitalista criou um plano de longo prazo de industrialização do país (a partir de tecnologia estrangeira) e de educação de alta qualidade para todos.

O resultado é que, depois de cerca de 30 anos, a Coreia do Sul passou da sua antiga situação miserável para ser um dos Tigres Asiáticos. Não por coincidência, na pandemia de Covid-19, o país ostenta um dos melhores resultados do mundo.

 

Para que estudamos?

A educação certamente tem uma função utilitária, crítica para o desenvolvimento de uma nação. Estudamos para aprender a fazer coisas e, dessa forma, melhorar de vida.

Mas não pode ser apenas isso! A educação também tem o papel de desenvolver em nós o amor pelo conhecimento, transcendendo seu aspecto prático. Apenas alguém que goste de aprender coisas novas impulsiona a sociedade para um estágio superior, pois tem uma mente flexível e aberta à inovação. Infelizmente, o Brasil investe pouco em ciência, e o que se investe vai quase tudo para a ciência aplicada, ficando quase nada para a ciência de base.

No início da minha carreira, eu sempre ouvia que mestrados e doutorados só serviam para quem queria “dar aula”, que era muito melhor fazer um MBA para subir na carreira. De tanto ouvir isso, acabei fazendo primeiro o MBA na FIA, que de fato foi incrível! Mas, quando fiz meu mestrado na PUC-SP alguns anos depois, minha mente se expandiu a um outro nível. Por isso, afirmo que todos deveriam ter a oportunidade de seguir esse caminho: não é “só para dar aula”, mas sim para criar cidadãos e profissionais melhores!

Precisamos plantar em nossas mentes, desde a mais tenra idade, o amor pelo aprendizado. Vejo com tristeza crianças e adolescentes reclamando “por que estudar isso, se nunca será usado”. Tudo que estudamos serve para entendermos melhor o mundo em que vivemos e nos ajudará, quando necessário, a nos posicionarmos melhor nele.

Apesar de ser um profissional da área de Humanidades, quando cursava ainda o Colégio Mackenzie, minha matéria preferida era Física. Isso porque eu tive a sorte de ter bons professores que não se resumiam apenas a “dar a matéria”, como alguns inimigos da educação exigem hoje. Um bom professor vai muito além e contextualiza o conhecimento na vida do aluno e na sociedade.

No mundo ideal, os alunos estudariam para aprender e não para tirar nota na prova, um instrumento de avaliação falho que perpetua essa distorção no objetivo do ensino. Nesse mundo, entenderiam que Língua Portuguesa e Matemática são ferramentas para fazer melhor qualquer coisa na vida e que todas as outras disciplinas, de Química a Filosofia, servem para se desenvolverem mentes livres e se tornarem cidadãos conscientes de seus direitos e deveres.

Todos nós –e não apenas os educadores– precisamos nos engajar pela melhora da educação. Precisamos ser parceiros das escolas e dos professores, resgatando seu valor e sua autonomia, e dando a eles condições para realizar um bom trabalho.

Sem isso, nunca seremos como a Coreia do Sul ou qualquer outra nação desenvolvida. Nossa sociedade permanecerá estagnada e continuaremos sendo indivíduos que produzem pouco e produzem mal. E agora, pelo nosso negacionismo, nem somos aceitos nos aeroportos do mundo.

É isso que queremos para nós e para nossos filhos?

Pode ter menos pão, desde que tenha muito circo

By | Educação | No Comments

Um ano e 250 mil mortos depois do início da pandemia de Covid-19 por aqui, os brasileiros arranham caminhos para continuar tocando a vida. Diante da ausência de um norte consistente e seguro indicado pelas autoridades, buscamos garantir nossas necessidades básicas em meios ao caos.

Tradicionalmente tais necessidades são garantidas pelo Estado, até para sua própria manutenção. Na antiga República e no Império Romano, os governantes descobriram que era preciso garantir às pessoas duas coisas: o pão e o circo. O primeiro atendia parte do sustento, enquanto o segundo garantia a diversão, para diminuir as tensões do cotidiano.

Passados 2.500 anos, o panem et circenses, como era chamada essa política, continua valendo na relação entre governantes e governados, e invadiu também outras áreas, como o mundo do trabalho e até nossas relações pessoais. Além disso, o pão e o circo são representados de maneiras cada vez mais subjetivas e muito ligadas às redes sociais.

Uma coisa, entretanto, não mudou: se o pão diminui, é preciso caprichar no circo!


Veja esse artigo em vídeo:


Políticos jogam muito bem esse jogo, mas eles não estão mais sozinhos nesse tabuleiro. Graças aos meios que as redes sociais oferecem para se ganhar muita visibilidade, empresas e até indivíduos criam seus circos para ganhar o próprio pão.

A princípio, não há nada de errado em usar criativamente os recursos digitais, muito pelo contrário! O problema surge quando se ultrapassa o limite da ética ao se enganar os mais diferentes públicos, em uma espécie de estelionato ideológico.

O circo romano tem um aspecto muito perverso. Ao apresentar ao cidadão alguém que sofre muito mais que ele, seus problemas parecem ficar menores. Por isso, a plateia urrava em êxtase diante de gladiadores obrigados a lutar até a morte ou ao ver inimigos do Estado sendo entregues a leões. Qualquer problema fica menor diante do sangue jorrado na arena, pelo simples fato de quem assiste continuar vivo e estar sentado ao lado do governante, que promove a carnificina.

A lógica permanece até hoje, mas ganha novos recursos e novos promotores do espetáculo.

As autoridades continuam sendo soberanas em momentos de circo sem pão, e o nosso governo atual se destaca nisso. Diante de sua incompetência de solucionar as crises da saúde, do trabalho, da economia estagnada, da educação, entre muitas outras, abusa de bravatas vazias contra inimigos reais ou imaginários, para manter sua base de apoio incendiada. Com isso, cria uma densa cortina de fumaça que tira da população o foco nos problemas verdadeiros, mantendo aqueles que o apoiam anestesiados em uma fantasia grotesca.

Mas os políticos não estão sozinhos: reality shows também são um incrível exemplo de um circo romano moderno.

 

A vilã de uma nação

Sem dúvida, o melhor exemplo para entender esse fenômeno é o “Big Brother Brasil”. E um acontecimento da semana passada foi emblemático: a cantora Karol Conká foi eliminada do programa com uma rejeição recorde do público de 97,17%. Quando isso anunciado, pessoas gritaram nas janelas da minha vizinhança, algo que normalmente só acontece em partidas decisivas de futebol e em recentes manifestações políticas.

Karol foi alçada ao posto de supervilã do BBB 21 porque, segundo o jargão do programa, “jogou mal”. Foi arrogante, preconceituosa, agressiva, o que culminou na inédita saída espontânea de outro participante, Lucas Penteado.

Quando deixou a casa, ela descobriu que tinha perdido algo como 40% de seus seguidores nas redes sociais e contratos de trabalho que chegariam a R$ 5 milhões. Mas será que ela merecia tamanha punição, mesmo diante de seus comportamentos reprováveis no programa? Afinal, aquela casa costuma ser lar de muitas intrigas e muito veneno entre os participantes.

Mas, na lógica do circo, essa pergunta é irrelevante. A partir do momento que recebeu o selo de “pessoa má da história”, a audiência decretou que ela deveria ser imolada publicamente. O fato de ela ser famosa potencializou o sentimento. E a possibilidade de seu destino ser decidido por cada um de nós, impondo uma humilhante votação praticamente unânime pela sua saída, é um dos segredos do sucesso desse tipo de programa.

Cada um de nós se torna um pequeno imperador romano que, com o polegar para baixo, determina a morte do perdedor.

 

O circo nosso de cada dia

No mundo atual, não é preciso ser uma grande emissora de TV ou um presidente da República para armar um circo. Com as redes sociais, qualquer um pode ser dono de um picadeiro, apresentador e artista.

Infelizmente, a maioria dessas apresentações é de baixíssima qualidade. Em uma sociedade cada vez mais dependente de espetáculos, de atos teatrais, de bufões e de fanfarronices, quanto pior, melhor.

Isso explica a ascensão e queda das diferentes redes sociais. Quem aqui se lembra do Orkut, que nasceu como um interessante experimento social e terminou com um nível baixíssimo das publicações? O mesmo aconteceu com o Facebook, que cresceu diante do declínio daquele concorrente, mas, há muitos anos, vem sofrendo com a piora das conversas ali. Criou-se até o neologismo que diz que o Facebook foi “orkutizado”. O mesmo aconteceu com o Twitter, o Instagram e até o LinkedIn, uma rede que até o início de 2018 resistia a esse processo.

Esse raciocínio pode parecer elitista e, de certa forma, é mesmo. Quanto mais sucesso uma plataforma digital faz, mais ela se parece à população que representa. Oras, se essa população aprecia ver o sangue de quem não gosta ou prefere conversas com a profundidade de um pires, para poder esquecer de seus próprios problemas, aos poucos as redes passarão a oferecer isso.

Isso é uma tragédia anunciada! Quando as pessoas não saem do mundo digital, sendo profundamente influenciadas pelo que veem ali, o discurso raso anestesia todo mundo, fazendo com que deixem seus problemas para lá (sem resolvê-los), dedicando-se apenas à “diversão”.

O circo se torna muito mais importante que o pão!

São nessas horas que os grupos de poder deitam e rolam! Enquanto a massa cega se diverte, eles podem fazer o que quiserem, até mesmo se preocupar menos em dar o pão.

Precisamos resgatar o nosso senso crítico, autoestima e coletividade. Sem eles, logo seremos nós mesmos a alimentar os leões, para o deleite dos que sobrarem.

A hora das empresas mostrarem seu valor

By | Educação | No Comments

Estamos completando um ano de pandemia de Covid-19, que jogou empresas, profissionais e clientes em um turbilhão que pôs em xeque fórmulas consagradas de relacionamento entre esses grupos. Isso deixou um vazio que agora todos tentam preencher com um marketing reformulado para esses novos tempos.

Surge então uma pergunta com ares quase freudianos: o que, afinal, as pessoas querem?

Essa não é uma pergunta retórica. Alguém ainda duvida que o mundo é muito diferente do que há apenas 12 meses? Mesmo para aqueles que já voltaram a suas atividades normais (ou talvez nunca as tenham abandonado), as transformações foram grandes. As pessoas agora se preocupam consideravelmente com novos valores e esperam que as companhias estejam juntas a elas nisso.

Empresas e profissionais precisam identificar e abraçar tais mudanças, para seu posicionamento. Mas a grande transformação é que essas informações não devem ser usadas em modelos tradicionais de marketing e muito menos com as irritantes e acefálicas “formulinhas de lançamento” que inundam as redes sociais. Isso precisa nutrir transformações reais no negócio para que ele genuinamente se aproxime dos valores do consumidor.


Veja esse artigo em vídeo:


Não é pouca coisa! A edição mais recente do “Trust Barometer”, aponta que as pessoas esperam que as empresas se engajem e solucionem temas sociais, que, a princípio, não seriam de sua responsabilidade. Essa pesquisa, feita pela consultoria americana de marketing Edelman há 20 anos, mede o índice de confiança do público em empresas, governo, mídia e ONGs.

Nessa edição, foram ouvidas 33 mil pessoas de 28 países, inclusive o Brasil, de 19 de outubro a 18 de novembro de 2020. Ela aponta que, dessas instituições, as empresas são as únicas em que o público deposita mais confiança no momento. E, no Brasil, esse traço é ainda mais forte.

O relatório indica que 86% dos entrevistados no mundo esperam que marcas solucionem problemas sociais. No Brasil, esse índice bate incríveis 97%! Isso acontece porque a população quer que as empresas atuem onde o governo falha, e a percepção que o governo vem falhando aumentou muito em 2020 no Brasil, especialmente em questões sociais.

Isso se explica, pelo menos em parte, porque as pessoas passaram a viver e fazer mais coisas em casa: ela ganhou muita importância frente ao mundo externo. Por isso, necessidades pessoais e da família se sobrepõem agora a status e imagem externa.

Globalmente, as maiores preocupações são o sistema de saúde (mencionado por 62% dos entrevistados), a pobreza (53%), a educação (53%), as mudanças climáticas (51%) e as fake news (50%).  No Brasil, a pobreza aparece em primeiro lugar (indicada por 58% dos respondentes), seguida por questões trabalhistas (52%), mudanças climáticas (51%) e racismo estrutural (51%).

 

Confiança se transforma em vendas

Como já dito, segundo o “Trust Barometer”, praticamente todos os brasileiros esperam que companhias solucionem problemas sociais. No vácuo deixado pela inoperância governamental, 72% almejam que as empresas tomem medidas para ajudar comunidades em tempos de crise.

Uma pergunta que muitos gestores podem se fazer nesse momento é: “o que eu ganho fazendo isso?” E, de uma maneira bastante simples, a resposta é: mais clientes e mais vendas.

As pessoas estão crescentemente atentas ao que as empresas pregam e também ao que elas fazem. É necessário que o discurso seja corroborado por ações. No Brasil, ainda há um grande espaço a ser ocupado nisso, o que representa uma incrível oportunidade para empresas que estejam dispostas a sair de sua zona de conforto.

A pesquisa mundial indica que os consumidores com alta confiança na marca são mais fiéis (75%) e mais engajados, o que implica em compartilhar seus dados (60%) e até defender e recomendar a marca (78%). Mas apenas 37% dos brasileiros acham que as marcas que usam estão fazendo um excelente trabalho em ajudar o país e o povo a enfrentar os desafios atuais.

Para obter essa confiança, palavras não bastam. Na verdade, se elas não forem verdadeiras, isso pode trazer enorme prejuízo à marca, pois a decepção pode significar a fuga dos clientes.

No Brasil, 72% dos entrevistados afirmam ser mais efetivo a empresa tomar medidas para ajudar trabalhadores e comunidades locais em tempos de crise, contra 28% que acreditam que isso acontece quando ela assume o compromisso publicamente. E, para demonstrar como as companhias por aqui ainda têm um longo caminho para fazer isso direito, 62% dos brasileiros afirmam que as marcas usam questões sociais e políticas importantes apenas como manobra para vender mais produtos.

Isso é um tiro no pé! Tanto que 64% dos entrevistados no Brasil afirmam que as marcas devem pensar primeiro na segurança do público, tendo cuidado ao encorajar as pessoas a voltar a lojas, restaurantes e outros locais públicos.

 

A vez das empresas

Todos nós queremos retomar a economia. O fim do auxílio emergencial em dezembro e a incapacidade do governo de encontrar uma maneira de reeditá-lo abre uma crise humanitária que jogará milhões de brasileiros para baixo da linha da pobreza. A crise das vacinas, também decorrente da crônica inoperância de Brasília no tema, piora ainda mais a situação.

Com isso, o país “trava nas quatro rodas”. A volta a uma “vida normal” é desejo de todos. Mas a discussão do “novo normal”, que, a essa altura, já parece velha, passa necessariamente por resolver esses e outros problemas sociais com a máxima urgência. A economia simplesmente não reagirá sem isso.

Diante de um poder público claudicante, a população espera que as empresas ocupem esse espaço. Felizmente temos visto alguns bons exemplos, que podem inspirar outros.

No início da pandemia, quando tudo estava ainda mais desestruturado que hoje, empresas produziram itens urgentemente necessários. A Ambev, por exemplo, produziu álcool em gel para ser doado a hospitais. Outras empresas produziram máscaras de pano e face shields para profissionais da saúde e a população em geral.

O Magazine Luiza vem se destacando em ações concretas que demonstram o alinhamento de seus valores aos da maioria da população. Há duas semanas, a empresa liderou a ação “Unidos Pela Vacina”, que visa incentivar a imunização, ajudar (e pressionar) o governo e até trabalhar na logística de distribuição das doses. Algumas ações chegam a criar polêmica, como o programa de trainees apenas para negros, uma ação afirmativa lançada em setembro passado e criticada por muita gente. Nem por isso, a empresa voltou atrás com o que precisa ser feito.

Essas ações estão diretamente ligadas à liderança de Luiza Trajano, presidente do conselho do Magalu. E isso é algo que também precisa ser mencionado. Essas decisões devem ser abraçadas por todos na organização e dependem do apoio dos gestores. Caso contrário, podem se reduzir a meras ações midiáticas vazias, exatamente o que as pessoas condenam.

É importante que fique claro que não são apenas ações grandiosas que funcionam aqui. Ações simples e bem intencionadas, mesmo de empresas pequenas ou profissionais autônomos, podem produzir resultados expressivos dentro de sua esfera de influência, e são igualmente bem-vindas.

Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, disse que o “lucro não é a explicação, causa ou razão de comportamento de negócios e decisões de negócios, mas o teste de sua validade.” Apesar de essa frase ter mais ou menos meio século, ela serve perfeitamente para esse momento. Afinal, a empresa que trabalha apenas para ter lucro eventualmente chega lá. Por outro lado, as companhias que entendem que são entidades ativas dentro de uma sociedade e percebem que trabalham para a melhoria dela tendem a ter um lucro maior e a colher benefícios que as primeiras nem imaginam existir.

Portanto, se você é um gestor de uma empresa ou de sua própria carreira solo, preste atenção no que você está fazendo para a sociedade, de uma maneira genuína. Por outro lado, se você é um cliente, não tenha dúvida em exercitar seus direitos ao escolher produtos e serviços daqueles que efetivamente estão trabalhando para melhorar toda a sociedade.

Essa não é uma visão dourada ou irreal do mundo. É o caminho mais moderno para ser bem sucedido nos negócios.

Nossa má educação cria um abismo entre os brasileiros e as profissões do futuro

By | Educação | No Comments

De tempos em tempos, vemos estudos e listas sobre as chamadas “profissões do futuro”. Elas nos enchem os olhos, com atividades incríveis e inspiradoras. Algumas parecem que vieram diretamente de um episódio de “Star Trek”, mas são reais! Infelizmente a maior parte das pessoas jamais exercerá qualquer uma dessas carreiras, pois não têm elementos básicos em sua formação para desempenhar suas tarefas. Nosso sistema de ensino e nossa cultura não são organizados para oferecer a crianças, jovens e adultos as habilidades necessárias para isso.

Isso fica ainda mais cruel quando consideramos que vivemos em um país que entrou em 2021 com cerca de 14 milhões de desempregados e 6 milhões de desalentados (aquelas pessoas que já desistiram de procurar emprego), números que crescem consistentemente desde antes da pandemia de Covid-19. Nos casos da imensa maioria dessas pessoas, infelizmente essas atividades inovadoras são inalcançáveis.


Veja esse artigo em vídeo:


Para as profissões que debutam com grande pompa e muitas novidades (as que chamam mais atenção), naturalmente não existe formação específica. As escolas precisam de um tempo para criar cursos, e isso só acontece depois que um novo ofício está consolidado. Portanto, se se almeja qualquer um desses incríveis trabalhos, a habilidade mais desejada é o amor pelo aprendizado. Com ela, o candidato descobrirá e fará muitos cursos específicos, para combinar seus conteúdos e construir o arcabouço intelectual necessário.

Nesse ponto, a situação começa a complicar. Nossas escolas não desenvolvem nos estudantes esse recurso. O amor pelo conhecimento é substituído por decorar o conteúdo para “tirar nota na prova”. Aliás, esse é um sistema de avaliação que persiste, apesar de ser incrivelmente falho. A prova pune o erro, o que faz com que o aluno prefira decorar mecanicamente, ao invés de sentir o prazer da compreensão dos assuntos, algo que deveria ser desenvolvido desde a mais tenra idade. Por isso, abordei esse tema na palestra que ministrei aos educadores da Fundação Raízen, na quarta passada

As “profissões do futuro” são tão incríveis porque elas saem do óbvio! Desafiam os indivíduos a pensar e a fazer diferentemente o que já existe ou criar algo completamente novo, que trará um grande benefício à sociedade. Para isso, o profissional não pode ficar preso a fórmulas consagradas. É preciso ser capaz de correr riscos, de buscar a inovação, de tentar.

Fácil falar! E é aí que “a porca torce o rabo”, como diz o ditado. Qualquer tentativa, em qualquer assunto, necessariamente embute um risco. Não há como garantir que tudo dará sempre certo. Mas nossas crianças e jovens crescem sendo punidos pelos seus erros. Quando se está na escola, o erro pode levar a uma reprovação de ano. Quando se chega ao mundo do trabalho, o erro pode custar seu emprego.

E assim todos preferem caminhar na segura trilha da mesmice. Ao não tentar, não se erra. E, ao não errar, garante-se o que já se tem. O problema é que, ao não tentar, também não se muda, não se cria, não se vence. Vivemos, portanto, em um pacto pela mediocridade.

Isso é antinatural! Todos nós somos capazes de aprender com nossos erros. Todo jogador de videogame sabe disso! Ninguém termina um game sem “morrer” nenhuma vez. Isso acontece várias vezes ao longo dessa jornada, mas nem por isso o jogador desiste dela. Pelo contrário: ele é obrigado a voltar um pouco na sequência, mas, quando chegar de novo no ponto em que falhou anteriormente, desenvolverá novas estratégias para superar o desafio, até que consiga! A partir daquele momento, esse recurso ficará disponível em seu cérebro para ser usado não apena no jogo, mas em qualquer coisa na sua vida.

Toda criança nasce sabendo disso. Mas a sociedade aos poucos a coíbe, para que essa habilidade fique cada vez menos disponível.

 

O valor da inovação

Profissionais e empresas que “sabem jogar” brilham muito mais! Por exemplo, na terça passada, a Apple recuperou a coroa de marca mais valiosa do mundo, depois de cinco anos. Segundo o relatório “Brand Finance 2021”, Amazon, Google, Microsoft, Samsung, Walmart, Facebook, ICBC, Verizon e WeChat completam a lista das dez mais valiosas. Apenas duas delas não são da área de tecnologia: o varejista americano Walmart e o banco chinês ICBC.

Nas 500 maiores, apenas duas são brasileiras: o Itaú, que ocupar o 387º lugar, e o Banco do Brasil, na posição 492. Sem desmerecer as operações dessas empresas, essa quase total ausência brasileira é emblemática. Nossas maiores empresas são de setores muito conservadores ou estão ligadas a commodities, enquanto as mais valiosas do mundo estão intimamente vinculadas à inovação, onde há um monte dos tais “profissionais do futuro”, dispostos a correr riscos.

Pode-se imaginar que esses ofícios são totalmente inéditos, mas isso não é o caso. Na verdade, muitas das “profissões do futuro” paradoxalmente existem desde a Antiguidade, como professores e médicos. Elas são “profissões do futuro” porque não apenas continuarão existindo, como se tornarão ainda mais importantes para a sociedade. Mas naturalmente elas já sofrem e continuarão sofrendo grande mudanças, inclusive impactadas pelo meio digital. Querer continuar as exercendo como se fazia há alguns anos é um convite para ser colocado para fora do mercado.

A digitalização já afetou todas as profissões e esse é um movimento que cresce exponencialmente. Não há como resistir à mudança. Pelo contrário, qualquer que seja a área do ofício, o domínio de habilidades normalmente associadas às Exatas, como raciocínio lógico, análise de dados, entendimento de sistemas ou estatística ficam mais e mais importantes. Da mesma forma, habilidade de Humanas, como comunicação, pensamento crítico, trabalho em equipe e até empatia também se tornam essenciais para trabalhadores de todas as áreas, e não apenas nas Humanidades.

Vejo isso com muito bons olhos. A ideia de ter um engenheiro com uma incrível capacidade de comunicação ou um médico guiado pela empatia é incrível! Ao final, teremos não apenas melhores profissionais, mas também melhores pessoas.

 

O avanço da automação

Não se engane: o que puder ser automatizado será! Isso já está acontecendo em todas as áreas.

Profissões nascem e morrem desde o início dos tempos. A diferença é que agora isso acontece em um ritmo muito mais veloz, pelo desenvolvimento de novas tecnologias e pela disseminação e democratização do conhecimento.

As que desaparecem normalmente são aquelas que foram substituídas por processos que atenderam seu cliente de maneiras que lhe eram mais convenientes. O que mata um produto, uma indústria, uma profissão é o cliente que encontra uma alternativa mais vantajosa para si.

Portanto as profissões que nascem são mais analíticas e inovadoras, e as que morrem são as mais operacionais e repetitivas. É por isso que nossas escolas precisam formar profissionais para o primeiro grupo, e não para o segundo. Caso contrário, dentro de alguns anos, não teremos apenas uma grande massa de desempregados, mas muitas pessoas “inempregáveis”, que não terão habilidades mínimas para realizar as tarefas exigidas pelos ofícios disponíveis.

A discussão do futuro do trabalho deve passar necessariamente pela do futuro da educação. Portanto, se você deseja abraçar uma das “profissões do futuro”, comece a se preparar desde já, estudando de uma maneira diferente. Procure cursos que o ensinem a pensar e não a simplesmente a “apertar botões”, que o ensinem a correr riscos e não a adotar posições conservadoras, que o levem a abrir novas trilhas e não apenas seguir por caminhos conhecidos por todos.

Com isso, você poderá criar algo de fato novo e que realmente faça a diferença para a sociedade. Assim seu futuro estará garantido.

A volta dos “Loucos Anos 20”

By | Educação | No Comments

Estamos começando não apenas um novo ano, mas uma nova década

Muita gente acha que pode ser uma reedição dos “Loucos Anos 20”, como ficaram conhecidos aqueles que aconteceram há cem anos. Depois de uma pandemia e uma guerra que devastaram o mundo, aquela década foi marcada por grandes avanços culturais, artísticos e científicos. Foi um período de alegria, com muitas festas, muita liberação e muito sexo, quase uma jornada hedonista!

Agora estamos passando por uma pandemia, que já matou quase 2 milhões de pessoas no mundo, 200 mil só no Brasil, e continua implacável. A Covid-19 colocou o mundo de joelhos, provocando muita dor, de diferentes maneiras, mudando nossas vidas.

Será que, quando ela passar, viveremos novamente um período de euforia desmedida? O que podemos aprender com os “Loucos Anos 20” da época do charleston e do jazz?


Veja esse artigo em vídeo:


Os “Loucos Anos 20” –ou os “Roaring Twenties”, como eram chamados nos Estados Unidos– foram uma reação, quase uma libertação das tristezas e das restrições causadas pela Gripe Espanhola e pela Primeira Guerra Mundial.

Na Europa, especialmente Paris (que virou o centro do mundo), em Berlim e em Londres, a alta sociedade e os intelectuais se misturavam ao som do can-can nos cabarés e outros ambientes efervescentes em ideias modernistas. Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, o charleston animava festas imensas, regadas a bebida, drogas e sexo. Isso mesmo em um país onde vigorava a Lei Seca, que proibia a fabricação, venda e transporte de bebidas alcoólicas.

Foi nessa época também que surgiu o jazz. Com seus improvisos e suas influências africanas, nasceu em Nova Orleans e ganhou a América, influenciando a música ocidental.

Tudo parecia possível graças à tecnologia, especialmente os automóveis, as imagens em movimento e o rádio. Houve grande popularização do cinema, cuja grande estrela da época foi Charlie Chaplin. Os filmes deixaram de ser um interesse para aficionados para ganhar as massas e levar milhões às salas de exibição. Eles ainda eram em preto e branco e mudos, por isso as salas tinham espaço para uma pequena orquestra ou pelo menos um piano. Os desenhos animados também se popularizaram, com O Gato Felix sendo lançado em 1919, e Mickey Mouse, no curta “Steamboat Willie”, em 1928.

Os “Loucos Anos 20” também foram um grande momento de avanço para as mulheres. Elas deixaram seus espartilhos para trás e passaram a usar vestidos decotados e na altura dos joelhos. Com cabelos curtos, lábios vermelhos, pálpebras escuras, lançaram um novo estilo, que ficou conhecido como “melindrosas” –ou “flappers” em inglês.

A sua libertação foi muito além! Passaram a fumar em público, a dirigir e a ir à praia de maiô inteiriço, além de conversar livremente sobre sexo, atitudes que escandalizaram os conservadores da época. Em alguns países, como os Estados Unidos, foi quando as mulheres também começaram a votar.

 

Os novos “Loucos Anos 20”

Será mesmo que caminharemos para uma nova versão dos “Loucos Anos 20”, quando a epidemia estiver controlada e a economia do mundo recuperada?

Alguns especialistas acreditam que sim. Nicholas Christakis, professor na Universidade de Yale (EUA) é um deles. Ele lançou recentemente o livro “A Flecha de Apolo”, em que debate justamente a vida durante a pandemia e o que pode vir depois dela.

Segundo o pesquisador, essa não é a primeira grande pandemia que a humanidade tem que enfrentar, apenas a primeira que nós estamos vivendo. Ele explica que, durante as epidemias, verifica-se o aumento na religiosidade, as pessoas economizam dinheiro e ficam avessas ao risco. Quando a ameaça acaba, há uma reação natural de resgate do que foi perdido, com todo mundo buscando experiências sociais.

Christakis afirma que isso vai acontecer de novo agora com a Covid-19. Com os países iniciando a vacinação em massa em 2021, a doença deve estar controlada no ano que vem, e a economia recuperada, segundo ele, em 2024, quando teríamos os “Loucos Anos 20” do século XXI.

Naturalmente o mundo de hoje é muito diferente do que era há um século. E, dentro do que estamos discutindo aqui, as redes sociais têm um papel determinante, agindo como um catalizador.

Há cem anos, os meios de comunicação tiveram papel fundamental para disseminar aquele estilo de vida frenético, principalmente o rádio, os jornais e o cinema. Agora, com o meio digital, tudo acontece de maneira mais rápida e mais intensa.

Muita gente, aliás, parece já estar no espírito dos “Loucos Anos 20”.

A atual pandemia é muito menos devastadora que a Gripe Espanhola, que durou de janeiro de 1918 a dezembro de 1920. Estima-se que o vírus H1N1 tenha infectado, naqueles três anos, 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época.

Não se sabe exatamente quantas pessoas morreram vítimas dele. Os números mais conservadores são de 17 milhões, mas a cifra poder ter chegado a incríveis 100 milhões de mortos. Até o presidente brasileiro da época, Rodrigues Alves, pegou a doença e morreu.

Agora, apesar de a Covid-19 ter travado o mundo, a situação é menos grave, graças aos avanços da ciência e do papel dos meios de comunicação em conscientizar as pessoas. Vale dizer ainda que a tecnologia digital diminuiu –e muito– os estragos na economia, pois muitos negócios continuaram funcionando, mesmo com o distanciamento social.

Também não tivemos recentemente uma guerra absurdamente devastadora, com a Primeira Guerra Mundial, que durou de julho de 1914 a novembro de 1918., matando quase 18 milhões de pessoas, entre civis e militares. Por outro lado, temos a violência disseminada em nossas cidades, deixando os cidadãos em constante estado de alerta.

Não é de se estanhar, portanto, a grande euforia que sucedeu à peste e à guerra, com grandes avanços na cultura, na ciência e nos costumes do século passado.

Apenas para acrescentar alguns feitos além do que já foi dito, na medicina, o médico escocês Alexander Fleming descobriu, em 1928, a penicilina, inaugurando a era dos antibióticos, que salvam incontáveis vidas desde então. O psiquiatra austríaco Sigmund Freud lançou as bases da psicanálise.

Surgiram também os movimentos artísticos, como o dadaísmo, de Marcel Duchamp e, o surrealismo, de Salvador Dalí. Também floresceram, nesses anos, grandes nomes como Joan Miró e Pablo Picasso. No Brasil, em 1922, aconteceu a Semana de Arte Moderna, que levou ao Theatro Municipal de São Paulo artistas plásticos, arquitetos, escritores, compositores e intérpretes, os quais foram recebidos, ao mesmo tempo, com aplausos e vaias.

 

Aprendendo com os erros

Mas nem tudo foram flores. Precisamos aprender com o que deu errado, para não repetir um dos períodos mais negros da humanidade, que sucedeu essa época dourada.

A euforia desmedida terminou na chamada “Grande Depressão”. No final de 1929, os Estados Unidos entraram e profunda crise econômica, com a “quebra” da sua Bolsa de Valores, o que provocou inúmeras falências, desemprego gigantesco e muita miséria.

A reboque disso, houve um aumento da intolerância e da xenofobia, além de uma “caça às bruxas” de movimentos conservadores. Isso culminou com o surgimento da Ku Klux Klan, organização racista que pregava a supremacia de brancos e protestantes.

Na Europa, a crise abriu o caminho para o surgimento de aventureiros políticos nacionalistas, que criaram Estados totalitários e ultraconservadores. Seus maiores expoentes foram o nazismo alemão, liderado por Adolf Hitler, e o fascismo italiano, de Benito Mussolini. E, como se sabe, isso tudo deu na Segunda Guerra Mundial, o conflito mais sangrento da história.

Portanto, sim, é possível que estejamos prestar a entrar em novos “Loucos Anos 20”. Talvez mereçamos mesmo essa alegria, depois de tanto sofrimento.

Mas ainda não chegamos lá: temos um caminho a seguir. A pandemia está longe de acabar, especialmente aqui no Brasil, onde sequer começamos a vacinação.

Há uma poesia do genial Carlos Drummond de Andrade, que é muito apropriada a isso tudo. Ela se chama “Receita de Ano Novo”, e termina com a seguinte estrofe:

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

 

Portanto, vamos gozar dos nossos “Loucos Anos 20”. Mas temos que, antes, fazer por merecer isso.

 

Por que ainda temos chefes tóxicos

By | Educação | No Comments

Que tipo de chefe você tem? Ou que tipo de chefe você é?

Muito se discute sobre a diferença entre um simples chefe e um verdadeiro líder: você já deve ter lido incontáveis artigos sobre o tema.

Infelizmente, nessa pandemia, vimos várias histórias de chefes tóxicos que abusaram de sua posição com seus subordinados em home office. Justamente em um período de grande angústia pela transformação digital forçada e sem planejamento.

Mas uma pesquisa da Fundação Instituto de Administração (FIA) divulgada no mês passado traz um alento sobre as chefias brasileiras. Segundo o levantamento feito com cerca de 150 mil profissionais de mais de 300 empresas de diferentes portes e segmentos no país, os chefes brasileiros são “inspiradores”, “educadores” e “democráticos”.

Se isso já era importante antes, agora, com muitas equipes trabalhando em maneira distribuída, pode significar a diferença entre um time eficiente, entrosado e feliz, e um grupo de pessoas que não conseguem produzir juntas.


Veja esse artigo em vídeo:


Mas o que faz um chefe ser um verdadeiro líder? Por que não temos mais pessoas assim?

Não são só as crianças que aprendem com o exemplo: nós também! No ambiente corporativo, esse exemplo vem do chefe. Infelizmente também podemos aprender coisas ruins com um chefe tóxico.

A função do chefe é coordenar o trabalho de seus funcionários para atingir os objetivos da empresa. Portanto, quando se é subordinado, você é avaliado pela sua performance individual. Quando se é chefe, você é avaliado pela performance da equipe.

Entretanto, a maioria das pessoas assume uma posição de chefia sem ter sido preparada para isso. E daí passa a usar a máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Nada poderia estar mais errado!

E eu posso confirmar isso pela minha experiência pessoal como subordinado e como líder.

Ao longo da minha carreira, trabalhei para empresas bem diferentes, de várias nacionalidades. Tive a alegria de ter ótimos líderes e o desprazer de ter chefes ruins, felizmente mais do primeiro grupo. E posso afirmar categoricamente que os meus resultados e os das empresas como um todo eram muito melhores quando existia uma boa liderança.

Sabe aquela história da diferença entre o chefe e o líder?

O chefe é o que segue a máxima acima. Ele suga o trabalho de seus subordinados, como um parasita corporativo. Nesse cenário, apenas ele cresce, pois não dá visibilidade à equipe.

Essa é uma visão míope desse chefe e do chefe dele, que não percebe o mau instalado ali. Nessa gestão, o funcionário não oferece o melhor que tem. Adquire uma postura reativa de fazer só o que lhe mandam. Ele se desenvolve pouco e, caso acabe sendo chefe um dia, possivelmente repetirá esse padrão, criando um círculo vicioso em que todos perdem.

 

Os tipos de chefes

A pesquisa “FIA Employee Experience”, realizada há 40 anos, comprova que as empresas com melhores resultados são aquelas que têm verdadeiros líderes nas chefias.

Os dados foram coletados em uma pergunta de múltipla escolha. O chefe “inspirador”, aquele que inspira os funcionários e a equipe confia nele, aparece em 26% dos casos. Já 17% dos chefes foram considerados “educadores”, que se focam principalmente em desenvolver a equipe. Os “democráticos”, que consideram a opinião de todos nas decisões, representam 15% das chefias. Todos esses são considerados estilos positivos, somando 58% das lideranças das empresas pesquisadas.

Na ponta oposta, 9% dos chefes foram classificados como “coercitivos”, aqueles que são considerados autoritários e que não ouvem seus subordinados.

No meio do caminho, há ainda dois perfis considerados neutros. O primeiro são os “maternais”, que, segundo a pesquisa, colocam as pessoas em primeiro lugar e evitam conflitos. E, por fim, os “direcionadores”, que têm alto desempenho e cobram o mesmo de sua equipe, pressionando por metas. Cada um apareceu em 10% das respostas.

Os 13% restantes dos respondentes preferiram não classificar o estilo das suas lideranças.

Pode-se argumentar que as empresas que participam desse tipo de pesquisa, que é totalmente voluntária, de alguma maneira se preocupam com o bem estar de seus funcionários e prestam atenção no desempenho de suas lideranças. E isso pode fazer com que tenhamos mais bons resultados que a média de todas as empresas do país, que infelizmente estão longe disso.

Esse é um bom ponto. Entretanto, não desmerece suas conclusões que correlacionam boas chefias com alta performance das equipes e bons resultados do negócio.

Eu já tive o prazer de trabalhar em uma empresa que foi considerada, no ano 2000, uma das melhores para se trabalhar no Brasil: a America Online. Vale dizer que ela chegou a ser considerada a melhor empresa para se trabalhar nos Estados Unidos, na época. Era praticamente uma unanimidade que aquele foi o melhor trabalho da vida de quem passou pela AOL, especialmente a primeira turma, que ajudou a trazer o negócio para o Brasil.

Não era só pela empresa, que oferecia excelentes condições de trabalho e um pacote de benefícios atraente. O principal motivo eram as chefias, que se enquadravam perfeitamente nos papeis de “educadores”, “democráticos” e principalmente “inspiradores”. Era uma corrente de energia positiva que fazia com que os funcionários fossem todos os dias para a empresa com vontade de criar um mundo melhor a partir do resultado de suas atividades.

Quem não quer trabalhar em um lugar assim?

Foi lá que eu tive a líder mais inspiradora de minha vida, que me permitiu conhecer a sua história e descobrir que ela era daquele jeito porque também tinha sido inspirada anteriormente. Foi lá também que tive o meu líder mais democrático, uma pessoa incrível que fazia com que todos oferecessem o seu melhor, ao colocar a equipe no centro das decisões, uma pessoa muito querida que a Covid-19 levou embora há três semanas. Isso nos deixou todos em choque, porque, 15 anos depois daquele trabalho, ainda o queríamos muito bem.

 

As vantagens de um “trem da alegria”

Os exemplos desses e de outros bons líderes que tive me ensinaram como conduzir uma equipe.

Quero que quem trabalhe comigo produza não porque tem medo ou porque está sendo pressionado. Não quero que trabalhem apenas por causa do salário no fim do mês. Para mim, é importante que façam algo que seja importante para si e para a sociedade, que entendam qual é seu papel no negócio e por que são fundamentais para a equipe. Quero que compartilhem comigo seus pensamentos, mesmo os que não forem agradáveis, pois tudo isso é necessário para o conjunto melhorar.

Quando eu finalmente estive do outro lado da mesa, comandando equipes pequenas ou grandes, pude fazer isso. Em todos os casos, eu colhi os resultados esperados.

Eu me lembro de uma colega me dizendo certa vez: “você é a pessoa mais democrática que eu conheço”. Não sei se era para ser um elogio, mas nunca mais esqueci daquela singela frase.

Mas nem todos gostam desse meu estilo. Principalmente nas empresas mais “quadradas” em que trabalhei, isso às vezes era mal visto. Em uma ocasião, um outro diretor veio conversar comigo, na verdade, fazer uma reclamação velada, que meu departamento era um “trem da alegria”, que as pessoas trabalhavam rindo e se divertindo. Eu perguntei por que aquilo o incomodava, se estávamos dando um excelente resultado.

E aí é que está: chefes coercitivos, autoritários não conseguem lidar com uma equipe com autonomia, que trabalha sua liberdade com inteligência, entregando o que deve, sem que alguém os esteja pressionando. Não é de se estranhar que essa empresa, que construiu uma posição de liderança em seu segmento ao longo de décadas, não resistiu aos novos tempos e acabou sendo vendida.

Por isso, salvo talvez entre militares, aquela história de “manda quem pode, obedece quem tem juízo” não tem mais espaço.

As empresas com um futuro brilhante são aquelas que preparam seus funcionários para exercer suas funções com autonomia, eficiência e prazer. Isso não é um “trem da alegria”: ninguém está brincando em serviço, muito pelo contrário!

Esse é o caminho para termos menos chefes coercitivos e mais líderes inspiradores.

Já dá para voltar às salas de aula?

By | Educação | No Comments

Já dá para voltar para a escola ou é melhor continuar estudando em casa?

Um dos setores que enfrenta mais dúvidas para retomar suas atividades diante da pandemia de Covid-19 é a educação. De um lado, há o alto risco de contaminação de estudantes e de professores, que podem levar a doença para dentro de suas casas. Do outro, os inegáveis prejuízos no aprendizado e até na formação dos alunos, especialmente entre os mais jovens. Há também a pressão de escolas particulares pela reabertura, temendo que ainda mais clientes cancelem suas matrículas.

Em paralelo, corre outra discussão: a tecnologia dá conta de suprir as demandas de aprendizagem, para que as aulas em casa sejam eficientes?


Veja esse artigo em vídeo:


No meio de toda essa indefinição, muitas cidades reabriram suas escolas públicas e privadas já há várias semanas, enquanto outras ainda resistem. É o caso da maior cidade do país, São Paulo, que autorizou a volta apenas de alunos do Ensino Superior no dia 7 de outubro. Os Ensinos Infantil, Fundamental e Médio voltam nesse dia apenas com atividades extracurriculares opcionais.

Aula mesmo, ainda não se sabe quando. No dia 3 de novembro, será apresentada uma nova posição do município, com base na evolução da pandemia.

E se não voltar?

A tecnologia desponta em um papel central para solucionar esse problema. Mas, como tudo nessa vida, há um jeito certo e um jeito errado de se usar esse recurso.

Algumas coisas precisam ser levadas em consideração, e muitas delas vêm antes da própria tecnologia. A primeira é que a dificuldade de um aluno se concentrar em uma aula online é tão maior, quanto mais jovem ele for.

O ensino à distância pode ser excelente, mas exige muita dedicação do estudante. Por isso, ele tende a funcionar muito bem para o Ensino Superior, e mal para os Ensinos Infantil e Fundamental. As crianças normalmente se dispersam das atividades na tela, o que tem exigido muito de pais e mães para acompanhá-los nas aulas. E, depois de sete meses de distanciamento social, muitos desistiram dessa tarefa.

Além disso, a maioria dos alunos, incluindo muito de escolas particulares, não tem a infraestrutura necessária para estudar em casa. Falta uma boa conexão de Internet, para começar. Ela precisa ter uma boa velocidade e não ser limitada. Mas a maioria dos domicílios brasileiros não tem isso, com a Internet restrita aos planos para smartphones, que são lentos e com uma franquia de dados que acaba rapidamente. Sem falar que muitos simplesmente não têm conexão alguma.

Algumas instituições estão dando chips de celular com plano de dados para estudantes de baixa renda, o que é uma iniciativa muito bem-vinda. Mas infelizmente isso é um privilégio para poucos.

Vale dizer também que a experiência de aprendizagem fica muito melhor em uma tela grande, como a de um tablet e principalmente a de um computador. Só que, segundo o relatório PNAD Contínua do IBGE, apenas 48,1% dos domicílios brasileiros com Internet tinham um computador em 2018. E essa porcentagem vem caindo: em 2017, eram 52,4%. O uso dos tablets também diminuiu: de 15,5% em 2017 para 13,4% em 2018. Já os smartphones crescem, passando de 98,7% dos domicílios em 2017 para 99,2% em 2018. Ou seja, praticamente todos os domicílios brasileiros com Internet têm celulares, sendo que, em 45,5% dos casos, é a única forma de conexão.

Mas calma: nem tudo são notícias ruins!

Quando e como a tecnologia ajuda

Apesar de todas essas dificuldades, coisas muito interessantes surgiram desse processo de transformação digital acelerado.

Sou especializado na criação de conteúdo digital e acompanho a evolução do mercado de educação à distância há 15 anos e de mídia digital desde seu dia zero, há 25 anos. Desde o início da pandemia, em março, ministrei cerca de 350 horas de aulas em salas digitais, e cerca de 30 horas de palestras também online. E os resultados têm sido muito bons!

Por que dá certo para alguns e errado para outros?

Temos que entender que o meio digital pode ser uma ferramenta incrível, mas ela nunca pode substituir os conceitos básicos de uma boa educação e nem o professor. Por exemplo, a aula que eu dou online é a mesma que eu ministro presencialmente: nenhum conteúdo fica de fora!

Por mais que as íntegras das aulas sejam gravadas, elas são dadas ao vivo, e os alunos participam na hora marcada da aula, pois a sua experiência fica muito melhor assim. Os alunos fazem suas perguntas e debatem livremente, por voz, exatamente como em uma sala de aula presencial.

Aliás, a quantidade de alunos por sala também é a mesma de um curso no prédio da escola, limitado a 30, no máximo 40 alunos. Isso me permite conhecer cada um deles! Se tiver mais gente, abre-se uma nova turma, com horário próprio. Como as gravações incluem todas as interações com os alunos, elas só servem para aquela turma, não sendo reaproveitadas para outras.

É a mesma experiência que teríamos se estivéssemos em sala de aula? Claro que não! Eu mesmo sinto falta de estar na sala com meus alunos. Sou uma pessoa cinestésica e sei das perdas.

Por outro lado, sei também que há ganhos, muitos associados à vida moderna. Por exemplo, não é necessário gastar um tempo enorme no trânsito para se chegar à escola. Aliás, se não for possível chegar na hora, não tem problema: a aula não será perdida, pois ela fica gravada.

Além disso, meus alunos agora não ficam restritos a São Paulo. Nesse período, cheguei a ter uma aluna que assistia às aulas ao vivo de Dubai (Emirados Árabes Unidos), mesmo estando cinco horas a nossa frente. Ou seja, ela ficava, por iniciativa própria, acordada de madrugada para participar ao vivo das aulas, que aconteciam das 19h às 22h (hora de Brasília). Sem falar de muitos alunos do interior de São Paulo e de muitos Estados brasileiros, que agora podem se matricular nos cursos.

Posso garantir que todos os objetivos de aprendizagem são atingidos nessas aulas à distância. Os alunos aprendem tudo que aprenderiam presencialmente.

Muitas coisas são necessárias para esse sucesso. Primeiramente, os alunos são todos adultos. Portanto, eles estão assistindo aula porque querem, e estão pagando por isso. Eles têm a disciplina para cumprir as exigências do curso.

Além disso, eu tenho o privilégio de ministrar aulas em instituições sérias que se preocupam com a qualidade do ensino. E aqui cito nominalmente a PUC de São Paulo, a Universidade Presbiteriana Mackenzie e a ESPM, onde estou dando aulas nesse período de pandemia. Todas elas proporcionaram o que eu disse acima. Ofereceram a estrutura necessária para a viabilização dos cursos e respeitaram alunos e professores nesse momento de transformação.

Por outro lado, vejo com muita tristeza outras instituições, que não vou citar seus nomes aqui, fazendo mudanças inaceitáveis! Por exemplo, salas de aula que antes tinham 30 alunos agora passam a ter 500! Elas agrupam todas as turmas de uma mesma disciplina, de diferentes campi, às vezes de diferentes cursos, colocando todo mundo em um “saco” só, com um único professor. E daí dispensaram os professores que “sobraram”.

Que atenção esses professores podem dar aos 500 alunos? Que interação pode acontecer nessas aulas?

Há casos de professores que foram demitidos por um pop-up que apareceu em sua tela, quando tentaram entrar na plataforma da universidade para dar uma aula. Há ainda casos de provas dissertativas sendo corrigidas por robôs. A despeito dos avanços da inteligência artificial, qual a garantia que os alunos têm de uma avaliação justa nesses casos?

Que nível de ensino essas instituições estão oferecendo a seus alunos? E que falta de respeito com seus profissionais é essa? Isso é obsceno, e essas escolas deveriam se envergonhar por se dizer instituições de ensino.

A educação é essencial para que o Brasil avance! Muitos dos problemas de nossa sociedade seriam resolvidos se tivéssemos uma população mais bem educada, no sentido amplo da palavra.

A tecnologia é uma ferramenta magnífica para melhorarmos a educação. Mas ela deve ser usada exatamente para isso: para melhorar a educação, e não para piorar a experiência de alunos e de professoras.

Por isso, escolha bem onde você vai estudar. E estude!

Qual será o nosso legado?

By | Educação | No Comments

Há alguns dias, estava ouvindo uma playlist chamada “Brasil anos 1960”. Ela era fortemente dominada pela Bossa Nova. Fiquei pensando: “será que a Bossa Nova surgiria em um mundo como o que vivemos hoje?”

Pouquíssimo provável!

Então por qual música e outras formas de arte que as futuras gerações nos conhecerão? Mais que isso: o que estamos construindo, qual será nosso legado –muito além das artes? Afinal, o que fazemos hoje pavimenta a estrada de nossas vidas. E todas as pessoas influenciam pelo menos quem está a sua volta. Não precisamos ser artistas!


Veja esse artigo em vídeo:


Poucas coisas retratam tão bem um povo quanto sua arte. Na verdade, podemos contar a história de uma civilização a partir dela.

A Bossa Nova surgiu na Zona Sul do Rio de Janeiro, no final dos anos 1950, evoluindo do samba e com inspiração do jazz. Foi criada por universitários de classe média, e suas letras traziam temas descompromissados de seu cotidiano, influenciado por um momento de urbanização e desenvolvimentismo brasileiro.

Aquilo representava a realidade brasileira, pelo menos a daquele estrato da população. Era muito diferente, por exemplo, do rock inglês dos Beatles, que surgiu mais ou menos na mesma época, mas em uma realidade social completamente diferente.

Era um mundo incrivelmente mais simples que o de hoje! A vida passava de uma maneira muito mais lenta. Os “mocinhos” e os “vilões” eram claramente conhecidos. Cada um desempenhava seu papel como indivíduo e como cidadão.

Não é de se estranhar que a Bossa Nova, como movimento, desapareceria um ano após o golpe militar no Brasil. Afinal, aquele mundo de cores em tons pastéis das tardinhas deu lugar ao verde oliva e ao cinza chumbo.

Foi quando surgiu a MPB, que incluía temas mais politizados em suas composições. E não podia ser diferente!

O dramaturgo irlandês Oscar Wilde escreveu que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida’. De fato, a vida e a arte são interdependentes. Daí olho para o nosso mundo atual e me pergunto que elementos a vida atual oferece para a arte.

A pandemia de Covid-19 certamente já marcou a humanidade, assim como outras grandes crises sanitárias no passado, como a Gripe Espanhola. Seria capaz de apostar que, nos próximos anos, teremos muitos filmes e livros com histórias reais e de ficção a partir dessa tragédia global.

Mas há muito mais que define o mundo atual, de maneira mais determinante que a pandemia. Coisas que surgiram bem antes dela e que vão durar muito além dela: os smartphones, as redes sociais, os buscadores, a digitalização dos negócios e da nossa própria vida, por exemplo. Todos são coisas incríveis, que nos trouxeram grandes benefícios.

Mas temos também coisas terríveis, que surgiram a partir delas, por causa do mau uso desses recursos e da manipulação das pessoas por grupos inescrupulosos: a polarização política e ideológica extrema, as fake news, o roubo de dados e de identidades, a ditadura do ódio, a ideia de “cancelamento” de pessoas.

Futuro ou presente distópico?

Ao associar o mundo atual à arte, é inevitável pensar no romance “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”, do escritor britânico George Orwell, publicado em 1949. Cada vez mais acho que o mundo se parece conceitualmente ao Estado totalitário representado na obra, controlado pela figura do Grande Irmão, o Big Brother.

Teremos que esperar os artistas nos contarem suas visões desse momento. Entretanto, algumas iniciativas embrionárias já são reflexo disso e podem indicar caminhos que permanecerão além da pandemia.

Por exemplo, as superlives substituindo shows ao vivo. Acredito que, quando os shows estiverem novamente liberados, veremos os dois formatos coexistindo, cada um oferecendo uma experiência diferentes e complementares entre si. Começo a ver também a teledramaturgia produzindo material em que os artistas atuam dentro de suas próprias casas, com um resultado muito interessante.

Mas nós também podemos participar da construção desse legado, mesmo sem sermos artistas! Graças justamente ao meio digital, todos nós nos tornamos produtores de conteúdo. Todos nós viramos mídia e todos nós agora somos uma marca. Isso não é um exagero ou um abuso de linguagem.

No momento em que publicamos uma singela foto no Instagram, nós somos produtores de um conteúdo que potencialmente pode atingir milhares de pessoas em qualquer lugar do planeta. E esse conteúdo pode influenciar, de alguma maneira, cada uma dessas pessoas.

Portanto, temos que fazer isso com responsabilidade, mas sem que se torne um fardo. Esse é um poder que apareceu apenas quando os smartphones se popularizaram, pois eles são a nossa principal ferramenta de produção, enquanto as redes sociais são os principais espaços de troca.

Ou seja, estamos falando de pouco mais de uma década. Antes disso, em toda a história da humanidade, isso não era possível. Tanto que, em 2014, o especialista em marketing digital americano Mark Schaefer cunhou a expressão “choque de conteúdo”, que prevê que a humanidade literalmente produz mais conteúdo que é capaz de consumir.

Nosso papel para diminuir essa realidade autodestrutiva em que estamos é fazer a roda do desenvolvimento voltar a girar para frente, ao invés do movimento retrógrado atual.

Mesmo não sendo artistas, nossas publicações, até as mais singelas, influenciam muita gente. Temos, portanto, que barrar as ideias que visam a desunião social, a manutenção de interesses mesquinhos e egoístas, a disseminação do ódio, a destruição de quem pensa diferentemente, apenas por pensar assim.

A humanidade sempre se desenvolveu mais e melhor em torno de ideias que visavam o bem comum. Apenas conseguimos construir algo com quem está a nossa volta, combinando esforços e habilidades, quando confiamos no outro, e não quando o vemos como um inimigo.

Temos que usar esse incrível poder que a tecnologia nos concedeu para despertar bons sentimentos para que trabalhemos e nos desenvolvamos juntos. Portanto, lembre-se disso quando estiver nas redes sociais. Não curta e muito menos compartilhe conteúdos de pessoas e de grupos que pregam a supremacia de suas ideias, a desunião, o ódio. Ignore-os, deixe-os falando sozinhos! E eles eventualmente pararão de falar. Só continuam seu discurso porque ainda têm plateia.

Ao contrário, valorize quem produz um bom conteúdo, propositivo, construtivo, de união. Além disso, cada um de nós também pode fazer isso em nossas publicações nas mais diferentes redes sociais.

Não temos como reconstruir um “mundo Bossa Nova”, pois aquilo só existiu dentro de um contexto que não pode ser refeito. Mas não podemos sequer pensar em um mundo de “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” ou do que vivemos na época da ditadura militar. A sociedade está nesse ciclo de autodestruição por ter adotado alguns dos elementos desses momentos sombrios.

É hora de reverter isso e pôr a roda a girar para a frente de novo!