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Governos de vários países tentam restringir celulares e redes sociais a crianças e adolescentes – Foto: Pixabay/Creative Commons

Após proibição dos celulares nas escolas, uso de redes sociais e da IA por jovens exige atenção

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No início do ano letivo de 2025, a grande novidade foi a proibição de celulares nas escolas mesmo em intervalos. Agora, com as aulas deste ano prestes a começar, cresce a preocupação sobre a influência das redes sociais e até da inteligência artificial na formação dos mais jovens.

A discussão floresce em vários países. A Austrália baniu, em dezembro, as redes sociais para menores de 16 anos em qualquer ambiente, depois de um longo debate. Leis semelhantes estão sendo discutidas na França, Dinamarca, Reino Unido e Nova Zelândia.

No caso da IA, o think tank americano Centro para Educação Universal da Brookings Institution acaba de divulgar um estudo que indica que os riscos do uso da IA na educação de crianças e jovens superam seus benefícios. Segundo ele, a dependência excessiva dessa tecnologia pode afetar a capacidade dos estudantes de aprender, seu bem-estar social e emocional, suas relações de confiança com professores e colegas, bem como sua segurança e privacidade.

No Brasil, o Insper e a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), duas das principais faculdades particulares do país, começaram 2026 proibindo dispositivos eletrônicos nas aulas de graduação, exceto em atividades acadêmicas. Na primeira, notebooks e tablets ainda são tolerados; na ESPM, nem isso. A justificativa é a grande queda no aprendizado devido à distração causada por esses aparelhos.

Essas iniciativas indicam sociedades incapazes de enfrentar os evidentes problemas que as tecnologias digitais criam na formação dos mais jovens. Mas esses recursos digitais continuam vitimando crianças e adolescentes fora da escola. Diante de uma cínica falta de colaboração das empresas que criam essas plataformas, as restrições acabam sendo necessárias, pois o problema continua existindo em qualquer tela.


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Na França, a Assembleia Nacional aprovou, no dia 26, a proibição das redes sociais para menores de 15 anos. O projeto está agora no Senado e, se aprovado, deve entrar em vigor até 1º de setembro, início do ano letivo no país.

“O cérebro de nossas crianças e de nossos adolescentes não está à venda”, disse o presidente francês, Emmanuel Macron. “As suas emoções não devem ser manipuladas, nem por plataformas americanas, nem por algoritmos chineses”, concluiu.

O estudo da Brookings Institution reconhece que a IA pode ser uma poderosa ferramenta de apoio pedagógico, auxiliando na alfabetização, na aquisição de novos idiomas e no desenvolvimento da escrita. Pode ainda promover a inclusão de alunos com dificuldades e de populações excluídas do ensino formal, enquanto otimiza a rotina docente. Ao automatizar tarefas burocráticas e a criação de materiais, a IA permite que os professores se concentrem na interação direta com os estudantes.

Em contrapartida, o uso excessivo da IA ameaça o desenvolvimento cognitivo, causando uma “atrofia mental”, caso os alunos terceirizem o pensamento crítico e a resolução de problemas para a máquina. A natureza bajuladora dos chatbots prejudica a capacidade de lidar com divergências e reduz a empatia, essencial nas relações humanas. Além disso, o estudo alerta para o risco de ampliação das desigualdades, pois modelos gratuitos são menos precisos, o que levanta preocupações graves sobre a saúde mental e o isolamento social de jovens que buscam companhia em algoritmos.

Segundo o levantamento TIC Educação 2024, divulgado em outubro pelo Cetic.br, ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil, 70% dos estudantes do Ensino Médio usam a IA generativa no país, 37% se incluirmos os do Ensino Fundamental. Mas apenas 32% dos alunos do Ensino Médio receberam orientação dos professores sobre como usá-la em atividades escolares, com o índice desabando para 19% se considerarmos também o Ensino Fundamental.

 

O avanço das big techs

As empresas de tecnologia estão de olho na educação. A edição 2025 do estudo “Nossa vida com IA”, divulgado no dia 14 pelo Google e pela consultoria Ipsos, indicou que 72% dos brasileiros (de todas as idades) usam a IA para aprender, com 75% vendo impacto positivo na educação e 73% afirmando que ela melhora o aprendizado.

Em julho, a OpenAI, a Microsoft e a Anthropic anunciaram um investimento de US$ 23 milhões para levar mais IA ao Ensino Básico nos EUA. Obviamente isso não foi movido só por boas intenções. Elas são donas de algumas das maiores plataformas de IA, e querem que sejam muito usadas desde os primeiros anos escolares, o que potencializa os benefícios e os riscos já citados. Por isso, muitos professores americanos resistem a uma adoção massificada.

No fim do ano passado, a OpenAI lançou o “Modo de Estudo” do ChatGPT, com o objetivo de criar um ambiente em que a IA atua como um tutor, incentivando a reflexão em vez de fornecer respostas prontas. Mas, apesar de interessante, especialistas criticam o recurso por não distinguir informações corretas de erradas.

A sociedade precisa se organizar para melhorar o uso não só da IA, mas das diferentes tecnologias digitais na sala de aula. Essa integração deve ter regras claras e foco no desenvolvimento humano, não apenas na execução de tarefas. As práticas escolares devem ser repensadas para valorizar curiosidade e engajamento, e é preciso treinar professores e alunos em alfabetização digital. No caso de IA, as ferramentas devem ser menos “bajuladoras”, desafiando os estudantes a pensar criticamente.

Precisamos de políticas públicas e regulamentações que protejam a saúde cognitiva, emocional e a privacidade das crianças e dos adolescentes. Governos, educadores e pais devem assegurar que essas tecnologias digitais não amplifiquem desigualdades.

A digitalização da sociedade é irreversível, mas isso não quer dizer que ela deva acontecer de maneira descuidada, especialmente com crianças e adolescentes. Dentro da sala de aula, ela jamais pode substituir os professores, devendo estar subordinada aos educadores, que precisam ser envolvidos na busca por soluções.

Fora da escola, os pais têm um papel decisivo para apoiar um uso seguro e construtivo dos serviços digitais por seus filhos. É uma tarefa ingrata, pois eles mesmos são vítimas dos abusos nessas plataformas. Infelizmente, as big techs dão repetidas mostras de não estar interessadas em fazer movimentos necessários para soluções sustentáveis e eficientes se isso ameaçar seus ganhos bilionários.

 

Manifestantes afirmam que não se vacinar é “liberdade de escolha”, argumento comum de influenciadores antivacinas - Foto: reprodução

Influenciadores precisam deixar de ser foco de desinformação e se profissionalizar

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O mercado de influenciadores pode estar diante de um sopro de seriedade. A ocupação cresce vertiginosamente há anos, graças à falsa ideia de que, para se tornar famoso e rico, basta ligar a câmera do celular e falar, mesmo não tendo qualquer preparo para tal. Agora isso pode mudar.

Vários países, inclusive o Brasil, estão criando leis para disciplinar, em maior ou menor escala, a atividade dos criadores de conteúdo digital. Pelo menos em tese, isso oferece algumas garantias a esses profissionais, assim como diminui práticas condenáveis, incluindo a desinformação (consciente ou não).

Essas regras ficam ainda mais importantes em tempos de inteligência artificial generativa. Graças a ela, pessoas sem qualquer conhecimento sobre determinado assunto conseguem produzir conteúdo que parece verdadeiro, mas que pode estar completamente errado. Como não são capazes de avaliar a produção da IA, passam a bobagem adiante, que pode ganhar grande escala e afetar decisivamente o público.

A OpenAI, criadora do ChatGPT, está atenta a isso. Desde novembro, ele oficialmente não oferece mais “aconselhamento” jurídico, financeiro ou sobre saúde, passando a se comportar menos como um “consultor” e mais como uma “ferramenta educacional”.

Segundo um estudo da organização de saúde americana KFF, 17% dos americanos adultos usam a IA todos os meses para informações sobre saúde (25% se tiverem menos de 30 anos), mas 56% deles não têm certeza se a informação é correta. Por isso, a mudança no ChatGPT visa evitar processos por informações erradas, mas ela impacta diretamente aqueles que usam o serviço para criar seus conteúdos digitais.

Influenciadores têm um papel central em como as pessoas se informam hoje, mas muitos seguidamente demonstram despreparo e até falhas éticas graves. Por isso, as novas regras são muito bem-vindas para profissionalizar essa atividade.


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No Brasil, a lei 15.325/2026, sancionada em 6 de janeiro, reconhece o “profissional de multimídia” como trabalhador multifuncional, apto a atuar em criação, produção, captação, edição, gestão e distribuição de conteúdos digitais em diversas plataformas, incluindo redes sociais, games, sites e animações. Profissionais de outras áreas que exerçam funções assim poderão pedir um aditivo em seu contrato de trabalho.

Apesar de dar reconhecimento jurídico à profissão, especialistas criticam a lei porque ela não exige nenhuma formação profissional, além de não possuir mecanismos de combate à desinformação ou deveres claros das plataformas. Isso significa que casos recentes de médicos passando informações falsas de saúde ou de influenciadores indicando apostas digitais como investimento continuarão inundando as redes.

Por outro lado, na China, desde outubro, criadores de conteúdo que queiram falar de finanças, educação, saúde ou área jurídica precisam comprovar qualificação formal na área. As plataformas digitais são obrigadas a coletar documentos que comprovem isso, verificar sua autenticidade e só então permitir esse tipo de conteúdo. Quem desrespeitar pode ter a conta suspensa, seu conteúdo apagado e receber multas que chegam a 100 mil yuans (cerca de R$ 75 mil).

O governo justifica a lei pelo alto volume de dicas enganosas, especialmente em saúde e investimentos, com o cidadão leigo não conseguindo distinguir entre um especialista e um influenciador. Assim, a influência deve deixar de ser só uma questão de popularidade e passa a se apoiar em capacitação comprovada. Isso é uma boa notícia para profissionais formados nessas áreas, que hoje concorrem com o carisma de influenciadores e até com charlatanismo digital. Por isso, analistas sugerem que esse tipo de lei pode inspirar outros países que enfrentam problemas semelhantes.

Alguma organização desse setor também pode ser encontrada em leis do Reino Unido, França, Itália, Espanha, Austrália, Nova Zelândia, Índia e Hong Kong, a maioria priorizando autorregulação com punições.

Não dá mesmo para continuar “deixando solto” um setor que, só no Brasil, “emprega” 10 milhões de autointitulados influenciadores com, pelo menos, mil seguidores. Segundo o banco Goldman Sachs, esse mercado deve movimentar quase US$ 500 bilhões (cerca de R$ 2,7 trilhões) até 2027, vindo principalmente de companhias com marketing de influência e pela monetização de plataformas de streaming ou de redes sociais.

 

Despreparo e falta de ética

De fato, grandes empresas vêm recorrendo cada vez mais a influenciadores para suas campanhas. Apesar de isso lhes garantir muita visibilidade, nem sempre o resultado é positivo, pois, ao contrário de veículos de comunicação, cujo mercado é bem regulamentado, os influenciadores se comportam como pessoas físicas sem regras. Por isso, suas ações às vezes questionáveis podem respingar na reputação das marcas.

Alguns casos emblemáticos no Brasil são o de Monark, que, em 2020, relativizou a existência de um partido nazista no país, o de Karol Conká, que apresentou um comportamento agressivo e humilhante na sua participação no Big Brother Brasil 21, ou o de Gabriela Pugliesi, que publicou um vídeo de uma festa que promoveu no momento mais crítico da pandemia de Covid-19, ironizando as regras sanitárias. Em todos eles, as companhias que os patrocinavam rescindiram contratos.

As empresas têm culpa no problema. Ao contratar influenciadores apenas pela sua exposição, ignoram o alinhamento dos valores da pessoa com os da marca. Em muitos casos, eles são conflitantes, e isso gera crises que poderiam ter sido evitadas.

Em dezembro, influenciadores de grande alcance fizeram um ataque coordenado contra o Banco Central e seus diretores, para proteger o Banco Master, que havia sido liquidado pela instituição. A maioria daqueles criadores faz publicações de fofocas, sem qualquer relação com finanças ou economia. O caso demonstrou como a falta de ética no segmento permite que se compre mecanismos para moldar a opinião pública.

Casos recentes de influenciadores de saúde vêm provocando grande prejuízo ao público, inclusive no Brasil. Além da promoção de produtos inócuos e até perigosos, médicos vêm atacando vacinas e protocolos consagrados, como a mamografia. Entre as consequências disso, está a queda da vacinação, levando ao aumento de doenças antes erradicadas, como o sarampo.

O fenômeno dos influenciadores criou a maior máquina de convencimento da história. Muito longe de configurar censura, disciplinar essa atividade é vital para que não nos afundemos ainda mais em todo tipo de desinformação, um problema que já foi banalizado. A sociedade precisa se organizar para que informações com base na ciência e bem apuradas se sobreponham ao despreparo e à falta de ética.

 

Imagens reais (à esquerda) e gerada por IA (à direita) do ditador Nicolás Maduro chegando preso a Nova York – Fotos: reprodução

Em um mundo dominado por IA, redes sociais e escroques, o jornalismo se torna essencial

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Este ano eleitoral mal começou e alguns acontecimentos já deixaram claro que a combinação de inteligência artificial, redes sociais, oportunismo e mau-caratismo enterraram a verdade em um bloco de concreto que o cidadão comum não consegue romper. Nesse cenário, o jornalismo surge como o contraponto urgente, e, por isso mesmo, sofre ataques de quem se beneficia da enorme mentirada.

O primeiro caso veio com a prisão de Nicolás Maduro, que desembarcou em Nova York usando um agasalho de uma famosa marca americana, que inundou as redes sociais com a foto do ditador venezuelano usando o seu produto. Até aí, é o marketing sendo marketing. Mas não se pode ignorar como isso capturou o debate digital com uma mensagem do tipo “preferida até pelos criminosos”. E houve ainda as incontáveis imagens falsas dessa prisão geradas por IA, aumentando a desinformação.

Pior que isso foi o recente ataque orquestrado nas mesmas redes sociais contra o Banco Central e autoridades financeiras envolvidas com a liquidação do Banco Master. Até perfis de fofoca tentaram tirar a legitimidade de uma ação bem-feita.

Há ainda as agressões contra a jornalista Malu Gaspar, de “O Globo”, por realizar seu trabalho jornalístico, ao apresentar fatos suspeitos envolvendo um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e sua esposa com o mesmo banco. Esses atentados se enquadram em três categorias ou na combinação livre entre elas: desconhecimento do trabalho jornalístico, manipulação das massas ou má-fé de interessados no caso.

Qualquer que seja o motivo e diante do enorme barulho que esses temas estão criando, é preciso esclarecer como funciona o jornalismo e por que ele se torna, cada vez mais, essencial para a sociedade, especialmente com a proximidade das eleições.


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Os detratores de Gaspar afirmam que ela atua com interesses políticos, visando desmoralizar ministros do STF, e que ela faz acusações sem provas. Cabe então explicar como a imprensa funciona e por que ela é tão fundamental, especialmente em sociedades como a nossa, que se tornam tão obtusas por ações nas redes sociais.

Um jornalista investiga os fatos e eventualmente coleta informações que podem servir como provas, mas esse não é o seu trabalho. Quem produz provas é a autoridade policial, que pode ser provocada a agir por informações da imprensa. Mas o jornalista não é policial. Sem tais informações, talvez nunca houvesse investigação e justiça em um dado caso.

Um dos recursos mais valiosos dessa investigação são as fontes, pessoas que têm informações privilegiadas sobre um assunto e interesse em divulgá-las. Elas usam o jornalista para que aquilo ganhe notoriedade, enquanto o jornalista usa a fonte para obter informações valiosas que, de outra forma, continuariam restritas.

Shakespeare escreveu que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a tua filosofia.” Se hoje a sociedade busca a verdade nesse angu de caroço do Banco Master, é porque algumas pessoas sempre souberam de tudo nesses bastidores, e contaram pelo menos parte dela à jornalista, que deu visibilidade a essas informações, ampliadas depois por outros veículos, como o Estadão e a Folha.

Os agressores de Gaspar exigem que ela divulgue quem são essas pessoas, mas esse pedido é descabido. A despeito do seu interesse em divulgar o que sabem, muitas não podem aparecer, e esse anonimato é garantido pelo artigo 5º, inciso XIV da Constituição, que estabelece que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício da profissão”. Sem essa proteção, muita gente guardaria para si informações importantes.

O grande desafio do jornalista é não ser manipulado por uma fonte, interessada em propagar uma mentira. O profissional deve confirmar que a informação é verdadeira e de interesse público. Em caso afirmativo, tem a obrigação de publicá-la, para que, dessa forma, a sociedade corrija imperfeições e melhore. Foi o que Gaspar fez. E, depois dela, uma enxurrada de fatos suspeitos ou mal explicados corroborou tudo.

Vale dizer que os que a acusam de interesses políticos são os mesmos que aplaudem a imprensa quando ela usa os mesmos métodos para expor falcatruas “do outro lado”. E a boa imprensa fiscaliza qualquer tipo de poder, não importa quem estiver lá.

 

Jornalismo versus redes sociais

De 15 anos para cá, aqueles que se beneficiam de uma sociedade sem essa visão emplacaram a ideia de que, com as redes sociais, o cidadão não precisaria mais da imprensa, pois teria acesso direto à origem dos fatos. Infelizmente boa parte da população comprou essa lorota. E casos como os que analisamos aqui demonstram que, enquanto o jornalismo profissional insiste em desenterrar a verdade, as redes sociais massacram a sociedade com mentiras.

Foi o que aconteceu no dia 27, em um ataque coordenado de perfis com milhões de seguidores contra instituições e autoridades ligadas à liquidação do Banco Master. Limitado a 36 horas, ele foi identificado pela Febraban e divulgado pelo Estadão. Alguns influenciadores vieram a público para dizer que lhes foi oferecido muito dinheiro para participar do ataque à reputação dos envolvidos. Vale dizer que muitos dos perfis envolvidos não tratam de finanças: a maioria se dedica a fofocas.

Como de costume, a massa alheia às notícias e com seus interesses cuidadosamente inflamados pelos produtores de desinformação repercutiu as mentiras. De novo, enquanto os jornalistas sérios informam, as redes sociais deformam. Infelizmente a manipulação é tão grande, que a turba não vê que se tornou massa de manobra.

Agora, com as eleições chegando, tudo isso se tornará café pequeno e as imagens falsas de Maduro parecerão piadinhas. A inteligência artificial não para de dar mostras de que infelizmente também se presta a refinar a desinformação, para que se torne absolutamente crível, incluindo aí a produção de fotos, áudios e até vídeos que retiram de cada um de nós a capacidade de identificar uma verdade diante de nossos olhos.

Nesse mundo de cacofonia extrema, pulverizado com armadilhas da “hipersuasão” descrita pelo filósofo da informação Luciano Floridi, em que a IA capta nossos valores e desejos mais íntimos para nos enganar, a curadoria cuidadosa de profissionais da imprensa desponta como esperança de fugirmos da manipulação. E isso vale para todo o espectro político, e não apenas um “lado”.

Afinal, se as redes sociais construíram seu negócio sobre a desinformação ruidosa e visceral disseminada por criminosos, os jornalistas sérios continuam tentando encontrar os fatos muito além das obviedades do nosso cotidiano, seja digital ou não.

 

O filósofo belga Mark Coeckelbergh, uma das maiores autoridades do mundo em ética da IA - Foto: Victor Lopes/Creative Commons

“Ética líquida” normalizada pelo mundo digital ameaça avanços da sociedade

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Em meio a tantas discussões sobre o avanço cognitivo da inteligência artificial, sobre como ela está transformando o trabalho e os negócios, e até como ela parece ser capaz de nos substituir em qualquer coisa, a ética se sobressai como algo que ainda nos separa das máquinas. Por mais que a IA até simule convincentemente emoções, ela não as sente de fato.

A ética fica ainda mais distante dessa tecnologia. O problema é que, de uma década para cá, com as redes sociais, e mais acentuadamente agora, com a IA, cresce o número de pessoas que vivem sob o que chamo de “ética líquida”, que se flexibiliza e até desaparece para atingir objetivos pessoais. Se perdermos a nossa ética, abriremos mão daquele que é nosso maior diferencial frente às máquinas.

Nesta sexta, debati sobre isso com meu ex-professor de ética, o jornalista e escritor Jorge Tarquini. Em um encontro mais rico que qualquer conversa com uma plataforma de IA, analisamos essas transformações que o mundo digital promove em todos nós, em maior ou menor escala, e como isso pode criar problemas bem reais na sociedade.

Isso não pode ser um detalhe em nossas vidas. Nenhuma sociedade avança sem ética, ou as pessoas partiriam rumo à anarquia ou à bestialidade. Infelizmente, vemos o crescimento de ambos no nosso cotidiano, desembocando em violência, intolerância e egoísmo.

A IA pode nos ajudar muito pela sua execução eficiente. Mas não podemos nos comportar como ela, sob o risco de matarmos nossa humanidade.


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A ética não se resume a um conjunto de regras aplicadas mecanicamente. Ela nasce da experiência humana, do conflito entre valores, da consciência do outro e da capacidade de assumir responsabilidade por escolhas que afetam vidas reais. Ética envolve intenção, contexto, empatia e, sobretudo, a possibilidade de responder moralmente pelos próprios atos.

A inteligência artificial, por sua vez, calcula, otimiza, prevê e classifica com base em dados, objetivos e restrições definidos por pessoas. Mesmo ao executar padrões complexos, ela não compreende o sentido moral de suas ações. Um algoritmo não sente culpa, não reconhece injustiça e não pode ser responsabilizado pelo que executa.

Portanto, a IA não pode ser ética. Mas ela pode ser eticamente orientada, por desenvolvedores e usuários, esses sim, éticos. E aí mora o grande dilema atual. Com tanto poder que a IA e as redes sociais nos oferecem, pessoas antiéticas sequestraram o ambiente digital para distorcer a moral da sociedade e obter ganho próprio. E a população se deixa manipular por isso.

Como Tarquini disse, “as redes sociais são a nossa cachaça”, pois elas achatam nossos limites morais. Com isso, realizamos no ambiente digital práticas condenáveis que jamais faríamos “olho no olho”.

Ele lembrou também que reproduzir exaustivamente mantras e dogmas nas plataformas online diminuem o pensamento crítico. Esperar pelo contrário disso seria como “esperar que o ovo se transforme em omelete sozinho”, disse o professor.

 

“Liquefação da vida”

Disso tudo, extrapolei os conceitos de vida líquida do filósofo polonês Zygmunt Bauman, criando a ideia da “ética líquida”. Valores que antes eram sólidos em nossas vidas (e precisam continuar sendo) se tornam fluidos, adaptáveis à conveniência de nossos objetivos, mesmo os mais simplórios, moldando-se ao formato do algoritmo para obtermos migalhas de atenção.

Essa dinâmica afeta a todos, mas é devastadora para os jovens, cuja identidade ainda está em formação. Além disso, esse fenômeno não se restringe aos indivíduos, contaminando instituições, empresas e governos.

Vemos isso claramente na Europa, que historicamente liderou a regulação de direitos digitais, mas que agora cede às pressões das big techs e flexibiliza suas leis. O medo de perder a corrida tecnológica está servindo de justificativa para afrouxar a ética do desenvolvimento responsável.

Essa corrida desenfreada ignora o alerta do filósofo belga Mark Coeckelbergh sobre acreditarmos em um “agenciamento moral” da IA. Estamos atribuindo a sistemas automatizados decisões que exigem sensibilidade humana, redefinindo nossa própria vulnerabilidade.

Uma tecnologia que aprende demais sobre nós e é usada sem freios éticos torna-se uma arma de manipulação comportamental sem precedentes. E assim esquecemos da importância da nossa ética.

É uma triste realidade ver líderes políticos e empresariais se tornarem os maiores motores dessa flexibilização moral. Eles utilizam a potência das plataformas digitais não para o bem comum, mas para atingir objetivos mesquinhos, normalizando a violência retórica e a polarização.

Em um mundo onde as redes sociais ensinaram todos a falar demais e a ouvir pouco, a ética termina por se tornar um obstáculo inconveniente. A situação se agrava quando isso extrapola os limites do digital, aumentando e normalizando a violência, a intolerância e outros comportamentos que crescem no noticiário.

Não se trata de demonizar a tecnologia, e sim de reconhecer que eficiência sem limites morais corrói a sociedade. A pergunta mais honesta, portanto, não é se a inteligência artificial pode ser ética, mas se nós estamos sendo, ao colocá-la para decidir temas cada vez mais sensíveis sem governança adequada, sem transparência real e sem debate público consistente.

A IA precisa ser eticamente controlada, o que exige habilidades que nenhuma máquina possui, como consciência moral, compromisso com o outro e coragem para assumir consequências. Somos os responsáveis, portanto, por “tornar a IA mais ética” e por nos cuidar para que sua “eficiência a qualquer custo” não mate esse nosso grande diferencial.

 

Para Zygmunt Bauman, as relações frágeis digitais destroem o bem comum - Foto: Narodowy Instytut Audiowizualny/Creative Commons

Proibição australiana de redes sociais a jovens reflete o desespero de um país com os males digitais

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Nesta quarta (10), começa a valer a lei australiana que proíbe que pessoas com menos de 16 anos acessem qualquer rede social. Extremista para alguns, inócua para outros, vejo essa medida como um movimento desesperado de uma sociedade que não sabe mais como lidar com os notórios males que essas plataformas causam às pessoas, especialmente os mais jovens. Diante do cinismo e da falta de colaboração das big techs, a Austrália decidiu “cortar o mal pela raiz”.

Enquanto isso, a Europa é pressionada pelo governo americano para afrouxar suas leis que protegem cidadãos contra abusos dessas companhias. A iniciativa australiana pode assim definir um novo marco civilizatório contra um grave problema que afeta todos os países, mas cujos governos repetidamente falham em encontrar soluções.

Ao contrário do que muitos dizem, não se trata de “perseguição” a essas empresas. Há apenas alguns dias, por exemplo, documentos de um processo judicial nos Estados Unidos revelaram a postura da Meta diante dos resultados de um estudo interno. Segundo ele, adolescentes que ficaram uma semana sem Facebook relataram menos depressão, ansiedade e solidão. Mas em vez de publicar os resultados e buscar soluções, a empresa enterrou o estudo, alegando falhas metodológicas.

Nada disso é isolado. Apesar dos benefícios que essas plataformas também nos oferecem, é inegável que elas distorcem relacionamentos. Tanto que as “palavras do ano” recentemente escolhidas pelos prestigiosos dicionários Oxford (“isca de raiva”) e Cambridge (“parassocial”) descrevem diferentes facetas dessa mudança.

Resta saber se a nova lei australiana conseguirá reduzir, pelo menos entre os mais jovens, a deterioração da saúde mental provocada pelas redes sociais, e se isso será replicado por outros países, a despeito da pressão americana.


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A expressão “isca de raiva” (“rage bait”, no original em inglês) significa conteúdo online “deliberadamente criado para provocar raiva ou indignação ao ser frustrante, provocativo ou ofensivo”, como uma prática intencional na disputa por atenção. Os organizadores do Dicionário Oxford explicaram que essa prática triplicou neste ano e que, se antes a Internet atraía a atenção pela curiosidade, agora ela sequestra e influencia nossas emoções mais negativas, como raiva e ódio.

“Parassocial”, por sua vez, representa sentimentos de intimidade unilaterais que muitas pessoas projetam em celebridades. Apesar de não ser algo novo, isso se tornou muito mais comum graças às redes e, mais recentemente, com a inteligência artificial, com pessoas que passam a se relacionar afetivamente com chatbots.

A nova lei australiana responsabiliza as próprias big techs por verificar a idade dos usuários e impedir que menores acessem as redes sociais, sob pena de multas que podem chegar a 50 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 181 milhões). Meta e Google já iniciaram a remoção preventiva de perfis. Com ela, o governo local admite tacitamente que o ambiente digital se tornou tóxico demais para mentes em formação.

Isso nos remete imediatamente à profética declaração de Umberto Eco em 2015, de que a Internet havia dado voz a uma “legião de imbecis”. O drama atual é que as redes sociais não apenas promoveram o “idiota da aldeia” a portador da verdade, como sugeriu na época o filósofo italiano, mas o transformaram em um influenciador rentável. O “rage bait” industrializa a estupidez, com a indignação superando os fatos. A verdade perde seu valor intrínseco e torna-se apenas uma ferramenta performática para gerar engajamento.

O novo regime afetivo, moldado por algoritmos que amplificam extremos, corrói vínculos silenciosamente. O filósofo polonês Zygmunt Bauman descreveu essa “liquefação” da vida, em que relações frágeis servem ao mercado, mas destroem o bem comum. Ao nos afastar do real, as redes substituíram sentimentos verdadeiros por emoções performáticas, algo visível nestas duas “palavras do ano”.

 

Fábricas de egocentrismo

Bauman explicou como nos tornamos simultaneamente consumidores e produtos. Nas redes sociais, oferecemos versões editadas de nós mesmos para serem curtidas, comentadas e consumidas. Quando o engajamento cai, nos sentimos descartados, e quando alguém discorda de nós, bloqueamos a pessoa. Eco antecipou isso, pois, quando todos falam qualquer coisa, o conteúdo vira espetáculo, não substância.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han completa esse quadro ao mostrar como a exigência de performance permanente nas redes nos esgota. Elas não só registram o que fazemos, como nos cobram produtividade emocional constante, opinião sobre tudo, presença em todos os debates e resposta imediata a qualquer provocação. Disso vem um cansaço difuso, que combina burnout, culpa e a sensação de que nunca estamos à altura do padrão de felicidade exigido nas telas, criando uma sociedade deprimida e ansiosa, que busca no ódio digital uma válvula de escape.

Quando dicionários escolhem termos que denotam raiva e ilusão como símbolos do ano, fica claro que esse novo regime digital é patológico. Assim, Eco estava certo ao temer a diluição da autoridade intelectual, pois a raiva brilha mais do que a sensatez.

Talvez a decisão da Austrália seja um exagero sob a ótica da liberdade individual, mas pode ser o alerta que o resto do mundo se recusa a ouvir. Bauman dizia que o medo se tornara ubíquo e difuso em nossos tempos. Portanto, nosso desafio é resgatar o compromisso com o outro, que seja real, ainda que imperfeito e difícil.

A saída para esse labirinto não reside apenas nas canetas dos legisladores, embora a regulação seja urgente e necessária para conter a ganância irresponsável das big techs. Precisamos decidir se estamos dispostos a reconstruir nossas relações para além das telas ou se aceitaremos que a indústria da atenção decida quem amamos, quem odiamos e até o que pensamos sobre nós mesmos.

A resposta não virá de Camberra, Bruxelas, Washington ou Brasília. Nós temos que escolher desligar o celular e olhar nos olhos de quem está ao lado. Precisamos resistir à tentação de transformar discordância em confronto e priorizar a substância sobre a performance. As redes sociais não nos salvarão da armadilha que elas criaram.

 

Felca entrevista a psicóloga Ana Beatriz Chamat no seu vídeo “Adultização” - Foto: reprodução

Mais que criminosos, Felca denunciou uma sociedade que vive de barbaridades

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O Brasil está em polvorosa desde que Felipe Bressanim Pereira, o Felca, denunciou a pedofilia nas redes sociais em seu vídeo “Adultização”, publicado no dia 6. Mais do que bem-vindo, o movimento é essencial para resgatarmos uma sociedade civilizada, que proteja crianças e adolescentes. Mas corremos o risco de que o problema seja tratado de maneira superficial e –pior ainda– que acabe em uma escandalosa pizza.

O influenciador apontou os responsáveis mais evidentes, como personalidades digitais que exploram a erotização de crianças, os pedófilos que inundam as redes sociais e até pais e mães que, por ação, omissão ou ignorância, colocam os próprios filhos em risco. Mas essa situação também resulta de uma sociedade que, nos últimos 15 anos, se acostumou com todo tipo de barbaridade e até se beneficia delas.

O maior exemplo é a classe política. Apesar desses abusos contra os mais jovens serem conhecidos e debatidos há anos, bastou a comoção criada por Felca para o surgimento de dezenas de projetos de lei para combater esse delito. Porém mais grave ainda são os parlamentares que querem impedir que uma solução avance.

É o caso também das plataformas digitais, que apresentam um discurso de proteção a crianças e adolescentes, mas que se beneficiam largamente dessas práticas criminosas, que acontecem de maneira explícita em suas páginas, em perfis com milhões de seguidores. Em vez de combaterem a prática, elas desmantelaram suas próprias estruturas de moderação de conteúdo e de proteção. Em seu lugar, montaram poderosos esforços de lobby para convencer políticos a defenderem seus interesses. Não satisfeitas, associaram-se ao presidente americano, Donald Trump, para usar o poder dos EUA para achacar países que buscam soluções.

Além de combater os criminosos óbvios, a sociedade precisa, portanto, enquadrar aqueles que sustentam a estrutura para essas atrocidades.


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O oportunismo faz parte do jogo político. Diante do vídeo do Felca, parlamentares já apresentaram mais de 30 propostas para proteger crianças e adolescentes nas redes sociais, proibindo a monetização de conteúdos de menores, criminalizando a “adultização” e a sexualização infantil, responsabilizando pais e plataformas digitais e bloqueando perfis de infratores. Uma CPI sobre o assunto também pode acontecer.

Da mesma forma, apesar da urgência do tema, um grupo de parlamentares se aproveita destes holofotes para afirmar suas pautas de que tudo não passa de um complô do governo para calar a oposição, e que o objetivo é limitar a liberdade de expressão.

“Na lei brasileira, o Norte é o melhor interesse da criança e do adolescente”, afirma Marcelo Crespo, coordenador do curso de graduação de Direito da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Ele explica que, “em ambiente digital, o teste do melhor interesse implica zero sexualização, nada de humilhação, nada de exploração comercial desproporcional, mínima coleta de dados e rotina compatível com a idade”.

Mas passadas duas semanas, a Agência Lupa constatou que as redes sociais continuam promovendo conteúdos que erotizam crianças e atraem pedófilos. Em julho, já havia revelado que o Facebook e o Telegram permitem a venda de imagens criadas por inteligência artificial de influenciadoras nuas, incluindo menores de idade. Alguns anúncios prometem vídeos com “novinhas”, “incestos” e “conteúdo banido no Brasil”.

Em outubro de 2024, a organização americana Aliança para Combater o Crime Digital (ACCO, em inglês) divulgou um relatório que conclui que a Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, viola sistematicamente a Lei de Serviços Digitais europeia (DSA). Ela pede que as autoridades imponham sanções contra a empresa “por hospedar esse vasto ecossistema de infratores que compartilham conteúdo violador”.

“Essas plataformas assumem um papel ativo na formatação do ambiente informacional e, portanto, devem implementar medidas efetivas para evitar que sua infraestrutura seja utilizada para fins ilícitos ou prejudiciais”, explica Marcelo Cárgano, advogado especialista em direito digital e proteção de dados do escritório Abe Advogados. Segundo ele, “o STF considerou que os mesmos mecanismos tecnológicos usados para direcionar anúncios com alto grau de precisão poderiam ser aplicados para identificar, bloquear e remover rapidamente tais conteúdos”.

 

Hipocrisia online

Quando confrontadas com esses crimes em suas páginas, as big techs se defendem com um discurso padrão de que não toleram essas práticas e que removem esse tipo de conteúdo. Mas os fatos demonstram o contrário.

No dia 14, a Reuters divulgou uma análise de um documento interno da Meta que indica que sua inteligência artificial deliberadamente pode manter conversas românticas e sensuais com crianças e promover racismo e informações médicas incorretas. A dona do Facebook admitiu a veracidade do documento, mas disse que retirou a permissão para as conversas de teor sexual com crianças pela sua IA.

Só que esse é um problema recorrente. Em outubro de 2021, por exemplo, Frances Haugen, ex-gerente do setor de integridade cívica do Facebook, divulgou milhares de documentos internos da empresa que revelavam como a plataforma priorizava seus lucros frente a práticas que causavam danos à sociedade, à democracia e à saúde mental dos jovens.

Quando a sociedade falha ao encontrar mecanismos razoáveis para esses abusos, podem surgir medidas extremas. É o caso da lei australiana que sumariamente proíbe o uso de qualquer rede social por menores de 16 anos. Aprovada em novembro de 2024, entra plenamente em vigor em 10 de dezembro desse ano, determinando que as plataformas impeçam esse uso, sob pena de multas equivalentes a R$ 175 milhões.

O cinismo das big techs e a inoperância dos parlamentares podem levar a indesejados extremos como esse. Enquanto isso, vemos o governo americano atacando o Brasil, a União Europeia e outros países para proteger os interesses dessas empresas.

No final, caímos de novo no surrado debate de defesa da liberdade de expressão, usurpada para defender interesses inconfessáveis. O mesmo artigo da Constituição que a garante também veda o anonimato, pois ela não é absoluta.

Mecanismos que garantem outros direitos individuais não ameaçam a liberdade de expressão, e sim criam uma sociedade segura, para uma coexistência pacífica e saudável. Posicionar-se contra isso demonstra uma profunda distorção cívica. O debate criado por Felca nos dá mais uma chance de fazermos o que é certo.

 

A personagem Marisa Maiô, criada por inteligência artificial, satiriza os programas de auditório - Foto: reprodução

Vídeos criados por IA atolam a sociedade no lamaçal da confiança na mentira

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Os mais recentes geradores de vídeo por inteligência artificial, lançados nas últimas semanas, põem o nosso discernimento à prova. Simplesmente não é mais possível saber o que é real! A impressionante capacidade de geração dessas plataformas permite que uma mentira suculenta se torne mais crível que uma verdade tristemente limitada pelos fatos, até para olhos treinados.

Isso era “crônica de uma morte anunciada”: todo mundo sabia que a tragédia aconteceria, mas ninguém fez nada para evitá-la. E se já não bastasse todo tipo de lixo produzido por IA sendo destacado pelos algoritmos das redes sociais (ao mesmo tempo que escondem bons conteúdos), esse recurso já é usado para enganar a população de maneira voraz, especialmente na política.

Já é bem ruim pessoas que não existem fazendo de tudo nos vídeos. Mais grave, entretanto, é ver, diante de nossos olhos, pessoas reais em atividades que nunca realizaram, muitas vezes comprometedoras.

Essa tecnologia já existe há algum tempo, mas, até então, seus desenvolvedores limitavam seu uso a pouquíssimos especialistas, enquanto buscavam maneiras para evitar que ela fosse usada indevidamente, uma precaução muito bem-vinda. Mas parece que agora mandaram os escrúpulos às favas, como se vê, aliás, em muitas outras atitudes das big techs desde o começo deste ano.

Quando tudo pode ser simulado com perfeição e quando passamos a desconfiar até do que é real, cria-se um ambiente de paranoia e cinismo. Essa erosão da confiança coletiva pode levar as pessoas a rejeitarem fatos documentados e a se refugiarem em teorias conspiratórias. E assim a democracia vai dando lugar à barbárie.


Veja esse artigo em vídeo:


A responsabilização é um ponto nevrálgico nesse dilema. Quem responde por um uso daninho dessa tecnologia: o criador do vídeo, a plataforma que o hospedou ou a empresa dona do algoritmo? Diante da ausência de regulamentação da inteligência artificial e das redes sociais, ninguém assume as falhas.

As big techs responsáveis por essas plataformas investem pesado no lobby para que tudo continue assim. Afinal, esse cenário de impunidade é muito bom para seu negócio, seja pela infinidade de conteúdos criados e distribuídos assim, seja pelo estímulo a um desenvolvimento descuidado dessas tecnologias. Para elas, quanto menos regras, melhor.

Claro que nem todos os vídeos criados com IA são nocivos. Um bom exemplo de seu uso para fins humorísticos são os programas da apresentadora Marisa Maiô. Criada como uma brincadeira para testar a tecnologia por Raony Phillips, a personagem satiriza programas de auditório e faz um enorme sucesso nas redes.

Apesar de sua proposta inofensiva, muita gente pode achar que ela é mesmo uma mulher e que seu programa passa em algum canal. Isso demonstra a responsabilidade dos criadores de conteúdo com o que geram com a inteligência artificial.

Em tese, todas essas plataformas possuem mecanismos para que não sejam usadas em práticas condenáveis, mas eles não garantem nada. Por isso, outro grave problema é o uso indevido da imagem de pessoas comuns retratadas em conteúdos pornográficos ou vexatórios, muitas vezes para extorsão ou vingança. Mesmo figuras públicas, que têm menos controle sobre sua imagem, enfrentam dificuldades para lidar com problemas derivados desses conteúdos, pela velocidade com que se espalham.

Não por acaso, em janeiro de 2024, o Fórum Econômico Mundial concluiu que a desinformação impulsionada por inteligência artificial será o risco mais severo para a humanidade nesse ano e no próximo.

 

Diversão e responsabilidade

Àqueles que defendem esse uso irrestrito da IA como um caminho inevitável do progresso, é preciso lembrar que inevitabilidade não justifica irresponsabilidade. O avanço tecnológico é constante, mas o modo como o usamos define os valores da sociedade que queremos construir.

Marisa Maiô e outras criações mostram o grande potencial da IA para a diversão, e isso atrai as massas. Não há nenhum problema em rir com gatinhos tocando Chopin no piano, mas essa banalização do irreal está destruindo a característica de documentação que o vídeo sempre teve, assim como já aconteceu com a fotografia.

Uma sociedade não se desenvolve sem ter algo para confiar. Se a qualidade técnica de um vídeo não servir mais de medida para isso, precisaremos encontrar outra.

O jornalismo profissional pode recuperar o posto de porto-seguro da informação, com trabalhos sérios de apuração e divulgação. Justamente ele, que vem sendo combatido há anos por aqueles que mais se beneficiam de usos criminosos dessas tecnologias, tentando se escudar depois na “liberdade de expressão”. Isso não é uma coincidência!

A imprensa precisa fazer a sua parte garantindo produtos de qualidade. Mas também é necessário que as pessoas recebam uma melhor educação midiática, que lhes permita diferenciar mais facilmente verdades de mentiras, mesmo as mais críveis.

A forma como uma tecnologia é concebida, distribuída e adotada carrega intencionalidades. Ao se criar uma ferramenta capaz de simular pessoas com perfeição, sem mecanismos nativos de identificação ou rastreio, a pretensão de neutralidade das big techs desaparece. A ética não pode ser um detalhe técnico, pois é a linha que separa a inovação do controle das massas.

A defesa de que essa tecnologia seja liberada sem critérios significa fechar os olhos para os desequilíbrios de poder. Ignorar os riscos ou tratá-los como “efeitos colaterais” do progresso é uma postura não apenas ingênua, mas perigosa. Afirmações sobre o uso irrestrito ser “inevitável” são maneiras cômodas de se eximir da responsabilidade.

Esse tipo de determinismo tecnológico ignora o fato de que toda inovação carrega consigo escolhas humanas, com impactos concretos sobre vidas, direitos e estruturas sociais. Assim como não permitimos o uso irrestrito de armas ou remédios, não dá para liberar tecnologias tão poderosas sem limites, critérios ou consequências.

Mas é o que está acontecendo, e deve acontecer cada vez mais, contando com aplausos de parte da população que insiste em ver apenas os inegáveis benefícios da tecnologia. Por isso, esses impactos devem ser amplamente discutidos. Afinal, não é porque ganhamos um carro superveloz que podemos abrir mão de seus freios. Se fizermos isso, não chegaremos vivos ao nosso destino.

 

Mais que um modismo, os “bebês reborn” derivam da manipulação algorítmica das redes sociais - Foto: Jonathan Borba/Creative Commons

Algoritmos manipulam desejos e dão a bonecas o status de seres amados

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Nas últimas semanas, dois casos inusitados chamaram a atenção nas redes sociais e no noticiário. No primeiro, pessoas tentam, em várias cidades, marcar consultas em postos e hospitais do SUS para “filhos” que são, na verdade, “bebês reborn”. No outro, um casal em Goiânia entrou com processo judicial disputando a guarda de uma dessas bonecas ultrarrealistas da moda, após o término do relacionamento.

Esses episódios, à primeira vista anedóticos, revelam uma questão muito mais profunda sobre nosso tempo: por que objetos inanimados estão preenchendo vazios emocionais em uma sociedade cada vez mais solitária e algoritmicamente manipulada?

Por trás desse fenômeno, há algo inquietante sobre como consumimos conteúdo e formamos vínculos na era digital. A Internet nos prometeu uma liberdade de expressão sem precedentes, diminuindo o poder da mídia tradicional e democratizando as vozes. Mas essa promessa foi gradualmente transformada por uma nova forma de controle, com os algoritmos das redes sociais. Sob a aparência de personalização benéfica, esses sistemas não apenas filtram o que vemos, mas moldam sutil e eficientemente o que desejamos, pensamos e sentimos.

Enquanto acreditamos estar exercendo nossa liberdade de escolha, somos conduzidos por sistemas projetados para maximizar o tempo de tela e o consumo. A diferença fundamental é que esse novo tipo de censura não nos silencia, mas nos direciona para canais comercialmente vantajosos, mantendo a ilusão de autonomia.

Em outras palavras, falamos o que quisermos sobre tudo, mas não escolhemos sobre o que falar, e muito menos quem vai ouvir. E vemos só o que as big techs determinam.


Veja esse artigo em vídeo:


O fenômeno dos “bebês reborn” é um caso emblemático disso. O que aparenta ser uma tendência espontânea é, na verdade, amplificado por algoritmos que identificam pessoas em situações de vulnerabilidade emocional. Eles detectam comportamentos associados à dor, e entregam a promessa de alívio emocional. Agora entramos em uma nova fase, de pessoas que não compram as bonecas para lidar com a dor, mas para exibi-las nas redes sociais, em uma antropomorfização que retroalimenta o processo.

Elas surgiram na Segunda Guerra Mundial, quando mães inglesas, diante da escassez de brinquedos, passaram a consertar e aprimorar bonecas para suas filhas, dando-lhes uma “nova vida” (daí o termo “reborn”: “renascido”, em inglês). Nos anos 1990, artistas começaram a aperfeiçoar técnicas para criar bonecas cada vez mais realistas, utilizando materiais como vinil e silicone, culminando ao nível de hiper-realismo que caracteriza os “reborn” atuais, que chegam a custar R$ 10 mil.

Como o “tribunal da Internet” é implacável, os já citados comportamentos bizarros criaram uma onda de ridicularização de qualquer pessoa com um “bebê reborn”. É importante, contudo, evitar julgamentos apressados. Para muitas pessoas, o vínculo com uma dessas bonecas não é uma patologia ou uma extravagância, mas um enfrentamento legítimo diante da dor. Em contextos terapêuticos, elas têm sido usadas no auxílio a mães que perderam filhos. Para idosos com demência, o contato com as bonecas pode estimular memórias afetivas e reduzir episódios de agitação, em uma via de conexão com emoções e habilidades que pareciam perdidas.

O alerta surge quando a linha entre consciência e ilusão se desfaz. Quando a pessoa deixa de distinguir entre fantasia e realidade, quando a boneca substitui contatos sociais reais ou quando há uma recusa sistemática em lidar com traumas, isso pode indicar um quadro que necessita de intervenção. Nesses casos, o problema não é a boneca, mas o que ele revela sobre feridas emocionais não tratadas.

Sob uma perspectiva sociológica, esse fenômeno combina com a “sociedade líquida” descrita pelo filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), caracterizada por vínculos frágeis, insegurança permanente e busca constante por satisfação sem compromisso duradouro. No conceito de “amor líquido”, Bauman descreve exatamente o paradoxo com os “reborns”, em que as pessoas querem proximidade, mas temem comprometimento, buscam vínculo, mas fogem da dor que ele pode causar.

 

Afeto sem risco

Essas bonecas permitem assim a encenação do amor sem o risco da reciprocidade, do conflito ou da frustração. É uma relação que simula o calor humano sem o custo emocional de lidar com alguém. Em uma era de relações passageiras e descartáveis, elas oferecem a ilusão de estabilidade, com um afeto “plastificado”, mas seguro.

Os “bebês reborn” não são um fenômeno isolado. Outros comportamentos contemporâneos nocivos derivam da mesma manipulação algorítmica invisível, como movimentos de saúde e estilo de vida extremados, subculturas de consumo e estética, “gurus” de produtividade e autoajuda e insegurança com a aparência e dismorfia digital (como “corpos de Instagram”). E naturalmente entram aí, com grande destaque, teorias da conspiração variadas, desinformação, extremismo e polarização política.

A sociedade já está de joelhos diante disso. Para resistir, precisamos de mais e melhores ferramentas cognitivas e sociais. A alfabetização digital crítica deve ser tratada como prioridade educacional, permitindo que as pessoas compreendam como os algoritmos moldam sua percepção. Precisamos exigir transparência das plataformas digitais, com regras claras sobre como os sistemas de recomendação funcionam. Também é fundamental o investimento em espaços comunitários reais e atraentes, principalmente para os jovens, que ofereçam alternativas à socialização mediada por telas.

As redes sociais não são inerentemente ruins, podendo também nos trazer (e nos trazem) muitos benefícios. O problema está na assimetria de poder entre quem as programa e quem as consome. Quando acreditamos estar escolhendo livremente, mas estamos sendo conduzidos para consumir aquilo que foi cuidadosamente selecionado para explorar nossas vulnerabilidades emocionais, nossa liberdade se torna uma fachada para um controle eficientíssimo e criminoso.

Como sociedade, precisamos recuperar nossa autonomia emocional e capacidade de escolha consciente. Isso significa reconhecer que, por trás de cada “recomendação personalizada”, existe uma arquitetura invisível projetada não para nos servir, mas para monetizar nossa atenção e emoções.

A verdadeira liberdade começa quando percebemos que muitos de nossos desejos são sussurrados por algoritmos, e que a resistência mais radical talvez seja simplesmente perguntar se cada um desses sentimentos é realmente nosso.

 

O deputado federal Guilherme Boulos, que pediu a suspensão do Discord, pelo uso por extremistas - Foto: Pablo Valadares/Creative Commons

Plano contra público de Lady Gaga ameaça equilíbrio entre liberdade e segurança

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No dia 6 de maio, o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) pediu ao Ministério Público Federal a suspensão do Discord no Brasil. A iniciativa veio depois de a Polícia Civil do Rio de Janeiro revelar que extremistas usaram a plataforma para planejar um atentado com explosivos durante o show da cantora Lady Gaga, em Copacabana, no sábado anterior. O alvo era a comunidade LGBTQIA+ presente no evento.

O deputado afirma que a plataforma tem sido instrumentalizada para crimes de ódio e violência, e pede a responsabilização das empresas de tecnologia que não colaboram com as autoridades. O Discord naturalmente respondeu que diverge da proposta, dizendo que contribui com as investigações e que possui políticas rigorosas contra o ódio. Afirmou ainda que investe em ferramentas de segurança e de moderação, e que trabalha com as autoridades para encontrar soluções, preservando a liberdade.

Essa não é a única acusação grave contra o Discord nessa temática. Entretanto, a plataforma está longe de ser a única no mundo digital a ser usada para a realização de crimes variados, que já levaram muitas pessoas à morte. Mas ela reforça a sensação de impotência de autoridades no mundo inteiro contra esses criminosos, que se valem da letargia dessas empresas na busca de soluções, por se sentirem protegidas por leis criadas há muitos anos sob a luz da liberdade que norteou o surgimento da Internet.

Criou-se assim uma eficiente armadilha para a sociedade, que corretamente quer a manutenção de sua liberdade, mas clama por segurança contra o avanço galopante das barbaridades nas redes, perpetradas por criminosos e pelas próprias empresas.

Proteger a população é uma função primordial de qualquer governo. Essa obrigação está prevista em constituições, leis e em acordos internacionais. O desafio recai em equilibrar a liberdade e proteger a sociedade de riscos e abusos, evitando tanto a censura quanto a permissividade excessiva que ameace outros direitos.


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O posicionamento dessas empresas segue uma lógica reativa, e não preventiva. Seu padrão é aguardar que o dano aconteça, ganhe repercussão e pressione a opinião pública. Só então movimentam-se minimamente para abafar o escândalo. Portanto, seus discursos não combinam com os seus atos insuficientes e sua ética frouxa.

Em março, a Polícia Civil de São Paulo instaurou um inquérito contra o Discord por apologia à violência digital, após a empresa ignorar um pedido emergencial para derrubar uma transmissão ao vivo de um adolescente se automutilando. Segundo a delegada Lisandréa Salvariego, do Núcleo de Observação e Análise Digital, os responsáveis pelo Discord não só deixaram de atender à solicitação, como tiveram a frieza de afirmar que não se tratava de um caso emergencial.

Essas plataformas tornaram-se terreno fértil para o aumento do extremismo e da radicalização, vitimando principalmente jovens entre 13 e 15 anos, faixa etária particularmente vulnerável pelas intensas mudanças físicas e hormonais, busca por pertencimento e imersão no ambiente digital em detrimento das relações presenciais.

As subculturas online nocivas proliferam com incrível velocidade, onde jovens suscetíveis absorvem elementos tóxicos de ideologias como misoginia, racismo, pedofilia e xenofobia, misturando-os em uma perigosa colcha de retalhos de ódio. Os casos mais extremos desembocam em tragédias reais, como mortes por “desafios online”, como o que incita jovens a inalarem desodorantes até perderem os sentidos.

O mais frustrante é que a legislação vigente acaba protegendo essas empresas. O Marco Civil da Internet, particularmente em seu artigo 19, criado sob a inspiração dos princípios de liberdade que nortearam o desenvolvimento da Grande Rede (que são válidos e devem ser protegidos) determina que as plataformas só devem remover conteúdo após notificação judicial. Esta norma, baseada no princípio de que seriam apenas “mensageiras”, transformou-se em escudo para corporações se esquivarem de assumir responsabilidades mais amplas.

 

Sofisma digital

Se em algum momento histórico esses argumentos foram válidos, hoje se tornaram anacrônicos. É absurdo esperar que o Poder Judiciário tenha capacidade para monitorar as redes e produzir notificações em tempo hábil. Depender exclusivamente desse mecanismo expõe a sociedade a riscos constantes e devastadores.

Igualmente falso é o argumento de que as plataformas são meros intermediários. Elas conhecem todo o conteúdo em suas páginas, tanto que identificam e classificam material para fins comerciais, proteção de direitos autorais e reconhecimento de imagens. Exercem controle evidente sobre ele, quando bloqueiam conteúdos que violam seus termos de uso. E, mais grave, possuem agenciamento direto sobre como, quando e para quem cada conteúdo será promovido, sempre visando seus interesses.

Elas não são, portanto, neutras. Agem como um carteiro que, ao receber uma bolsa de correspondências, decidirá quais serão entregues e quando, podendo ainda copiar cartas para entregá-las seguindo seus interesses. Ainda assim, insistem no discurso do “mensageiro inocente”, para manter o status quo que beneficia seus negócios.

Diante desta realidade perturbadora, os pais precisam manter diálogo aberto e franco com os filhos sobre os perigos digitais. Devem estabelecer limites claros de uso das redes, monitorar suas atividades online e ficar atentos a mudanças comportamentais, como isolamento ou obsessão por comunidades virtuais. As escolas, por sua vez, precisam intensificar a educação digital, promovendo pensamento crítico e reconhecimento de conteúdos problemáticos.

Faltam estudos acadêmicos sobre radicalização online, legislação específica e recursos nas agências de segurança para enfrentar adequadamente o extremismo digital. Nosso aparato institucional foi concebido para um mundo pré-internet e mostra-se tragicamente inadequado para os desafios digitais contemporâneos.

Precisamos urgentemente de um pacto global. Bloquear uma única plataforma, como o Discord, seria inócuo, pois os predadores simplesmente migrariam para outros ambientes digitais. A solução exige que as empresas de tecnologia abandonem seu discurso hipócrita de impotência e passem a utilizar todo seu impressionante arsenal tecnológico para proteger seus usuários, especialmente os mais vulneráveis.

Se essas corporações não criaram o mal que prospera em suas plataformas, hoje indubitavelmente se tornaram seus principais vetores. A sociedade não pode mais aceitar que gigantes tecnológicos, que monitoram meticulosamente nossos hábitos de consumo para otimizar lucros, aleguem incapacidade técnica para impedir crimes hediondos em suas redes. A liberdade da Internet, sonhada por seus visionários fundadores, foi sequestrada pelo lucro desenfreado. Está na hora de resgatá-la.

 

Donald Trump toma posse como presidente dos EUA pela segunda vez - Foto: Congresso americano/Creative Commons

Convicção, ignorância e interesses pisoteiam a verdade e mantêm pessoas nas trevas

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No dia 16 de março, Any Awuada, pseudônimo de Nayara Macedo, ganhou grande destaque nas redes sociais por um vídeo em que disse que não engravidaria do jogador Neymar, com quem afirmou ter tido relações sexuais no Carnaval, por ter urinado logo após o sexo. Adultos se relacionam como e com quem quiserem. Mas afirmar, em um vídeo visto por milhões, de pessoas que a urina impede uma gravidez é uma irresponsabilidade inominável, pois muita gente acreditará nisso e passará a usar o próprio xixi como método anticoncepcional, o que evidentemente é falso.

Esse é só um exemplo recente da pilha interminável de mentiras que se acumulam nas redes sociais, mas que podem passar a ser encaradas como verdadeiras, pela visibilidade digital de seus autores. Alguns promovem os engodos por convicção, outros fazem por ignorância. Mas há também aqueles que pisoteiam a verdade porque têm interesses por trás daquilo, normalmente econômicos ou políticos.

O maior exemplo de embusteiro compulsivo beneficiado pelo meio digital é o atual presidente dos EUA, Donald Trump, amplamente conhecido por mentir despudoradamente para atingir seus objetivos. Apesar de, como líder da nação mais poderosa do mundo, estampar as manchetes de veículos de comunicação o tempo todo, ele continua usando o meio digital para espalhar suas desinformações mais absurdas, escapando do crivo dos jornalistas.

A enorme penetração das redes sociais, a falta de responsabilização dessas plataformas por ativamente promoverem mentiras, e os maus exemplos de governantes e celebridades continuam esgarçando o tecido social e criando novas gerações de propagadores de desinformação, que veem nisso uma forma de ascensão pela fama e pelo dinheiro. E as consequências sociais são gravíssimas.


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As redes sociais há muito se tornaram a principal fonte de consumo de informação boa e ruim no Brasil e no mundo. A pesquisa “Retrospectiva Digital 2024: Definindo o rumo para 2025”, publicado pela consultoria Comscore no dia 25 de março, indica que o Brasil tem 131 milhões de internautas, que gastaram 70 bilhões de horas no ano passado em redes sociais, contra apenas 1,1 bilhão em sites e aplicativos de notícias.

Trump sabe muito bem o poder disso, por isso explora a desinformação. Uma das mais perversas é a que relaciona vacinas a autismo. Essa mentira surgiu em 1998, quando o médico inglês Andrew Wakefield publicou um artigo na revista “The Lancet”, sugerindo essa relação com a vacina tríplice viral. O estudo foi formalmente retratado pela publicação em 2010, pois o autor havia manipulado dados para sustentar suas conclusões. Investigações revelaram que ele tinha conflitos de interesse, incluindo patentes de uma vacina concorrente e vínculos financeiros com advogados de famílias processando fabricantes de vacinas. Wakefield acabou perdendo sua licença médica.

Embora a relação entre vacinas e autismo tenha sido refutada por estudos científicos sérios, o artigo foi devastador. Ele fortaleceu o movimento global contra vacinas, levando à queda na vacinação e ao ressurgimento de doenças evitáveis. Um exemplo emblemático é o do sarampo. A doença havia sido declarada eliminada nos EUA no ano 2000, mas ressurgiu com força graças a esses movimentos, especialmente nos Estados do Texas e do Novo México, onde eles são mais influentes.

Trump capitaliza o medo dos imunizantes para angariar votos de quem acredita nessa teoria desmentida. Tanto que, para reforçar sua retórica, ele nomeou, no seu segundo mandato, Robert Kennedy Jr., um conhecido ativista antivacinação, para liderar o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA.

Pela sua posição, Trump tem o maior megafone do mundo, e isso influencia multidões pelo globo, que abraçam a desinformação. Isso acontece até com profissionais de uma determinada área, que atacam a própria ciência. Por exemplo, em outubro, aqui no Brasil, uma médica afirmou nas redes sociais que o câncer de mama não existe e um médico disse que a doença pode ser causada por mamografias. Ainda mais por serem médicos, essas declarações legitimaram crenças de uma legião de pessoas que, por qualquer motivo “não acreditam na doença”. Ambos respondem por investigações dos Conselhos de Medicina e processos.

 

“Me engana que eu gosto”

Em 2021, o instituto britânico Alan Turing publicou um estudo sobre como uma sociedade ameaça a própria sobrevivência com ataques deliberados à capacidade de adquirir conhecimento. A líder dos pesquisadores, Elizabeth Seger, da Universidade de Cambridge, explicou que, “mesmo que estivesse claro como salvar o mundo, um ecossistema de informações estragado e não-confiável poderia impedir que isso acontecesse”. Isso surge da desinformação (intencional ou não), do excesso de informação, da rejeição ao que contraria crenças do grupo e da dificuldade de julgar fontes nas redes. No fim, as pessoas confiam no que reforça sua visão de mundo.

Outro estudo, publicado em 2017 pelo Conselho da Europa e liderado por Claire Wardle, da Universidade de Harvard, detalha a “desordem informacional”. Ela se divide em desinformação (informação deliberadamente errada para causar danos), informação falsa (errada, mas sem intenção de causar danos) e informação maliciosa (correta, mas usada para causar danos). Também explica que é preciso considerar quem são os agentes (quem cria e distribui a mensagem, e qual sua motivação), as mensagens em si e os intérpretes (quem as recebe e suas interpretações).

Isso afeta pessoas de todas as idades, grupos sociais e níveis educacionais. Os promotores da desinformação combatem a educação e a imprensa, que são contrárias aos seus interesses. Infelizmente são bem-sucedidos: o Digital News Report 2024, publicado em junho pelo Instituto Reuters e pela Universidade de Oxford, mostrou que 47% dos brasileiros deliberadamente se recusam a consumir notícias, e que apenas 43% confiam no noticiário, o pior índice já registrado no país.

Em seu livro “A Manipulação da Verdade” (Contexto, 2022), o destacado linguista francês Patrick Charaudeau afirma que “uma indiferença pela verdade, que se tornou ‘não essencial’, seria a marca registrada de nossa era pós-moderna”. E conclui que “o desafio não está mais em acreditar ou não acreditar, está no sucesso do fazer crer.”

Em um cenário em que as plataformas digitais fazem vista grossa e até, em alguns casos, incentivam a desinformação para aumentar seus lucros, em que legisladores se furtam a criar leis para combater esse mal, em que governantes a praticam diariamente, e em que influenciadores normalizam a prática irresponsavelmente, cabe a cada um de nós encontrar maneiras de nos informarmos melhor e de reforçarmos nosso senso crítico. Caso contrário, veremos mais e mais crianças nascendo porque seus pais acharam que a gravidez teria sido evitada com uma ida ao banheiro.

 

O anjo Aziraphale (Michael Sheen) e o demônio Crowley (David Tennant), protagonistas da série "Belas Maldições" - Foto: reprodução

“Cultura do cancelamento” enfrenta a Justiça com a força das redes sociais

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Fãs da série “Belas Maldições” (“Good Omens”) ficaram desolados com o anúncio de que sua terceira temporada seria reduzida a um único episódio de 90 minutos, encerrando prematuramente esse sucesso do Amazon Prime Video. A decisão veio devido a graves acusações de abuso sexual contra Neil Gaiman, produtor e coautor da obra original, trazendo à tona questões sobre a “cultura do cancelamento”, um dos efeitos mais nefastos das redes sociais.

É importante que fique claro que isto não é uma defesa de Gaiman. As denúncias contra ele são graves e os indícios, consistentes. Se comprovadas, devem resultar na condenação apropriada.

Por outro lado, o caso ainda está em investigação e o autor sequer foi indiciado. Mesmo assim, já foi julgado e condenado pelo “Tribunal da Internet”. Como pena, sua reputação ficou seriamente comprometida, e vários projetos seus, como as séries “Belas Maldições” e “Sandman”, foram interrompidos ou abreviados.

A “cultura do cancelamento” contraria a presunção de inocência, um princípio fundamental em muitos sistemas legais. No Brasil, a Constituição estabelece, no artigo 5º, que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Isso garante que um acusado seja tratado como inocente até que sua culpa seja comprovada em um julgamento justo e definitivo.

Engana-se quem pensa que apenas celebridades passam por isso. Como as redes sociais se beneficiam da polarização e do ódio, sem assumir responsabilidades pelo que distribuem, o fenômeno cresce e pode afetar qualquer pessoa. Entender esse mecanismo tornou-se essencial para autopreservação no ambiente digital.


Veja esse artigo em vídeo:


Gaiman enfrenta denúncias de oito mulheres. A única com o nome revelado é Scarlett Pavlovich, ex-babá do filho de Gaiman, que acusa o autor e sua ex-esposa Amanda Palmer de estupro e tráfico humano. Ele nega tudo, afirmando que todas as relações sexuais que teve foram consensuais e que as acusações visam acordos financeiros.

Dois casos relativamente recentes com famosos ilustram como a “cultura do cancelamento” pode prejudicar muito suas vidas, mesmo quando acabam inocentados na Justiça. Um deles foi o ator Kevin Spacey, absolvido em 2023 de nove acusações de crimes sexuais no Reino Unido. Outro foi o ator Johnny Depp, que venceu o processo contra a ex-esposa, a também atriz Amber Heard, que o acusava de abusos físicos e emocionais. Mesmo assim, ambos continuam com dificuldades profissionais.

Esses exemplos demonstram como a “cultura do cancelamento” vem substituindo os devidos processos legais. Diferente do Judiciário, o “Tribunal da Internet” opera por emoções e achismos, sem considerar todas as evidências ou permitir defesa. Quando a opinião pública se torna juíza e executora, a presunção de inocência some, e as punições são aplicadas imediatamente, muitas vezes de forma irreversível.

A situação se agrava porque empresas associadas aos acusados vêm se apavorando com o risco de suas próprias reputações serem afetadas. Pressionadas pela opinião pública, frequentemente cancelam contratos antes de qualquer conclusão das investigações oficiais. Assim, a mera acusação torna-se suficiente para destruir carreiras, independentemente da veracidade dos fatos.

Entre os efeitos mais nocivos dos “cancelamentos”, está a inibição do debate democrático, silenciando vozes discordantes, criando medo e autocensura. Isso impossibilita diálogos saudáveis, o que frequentemente resulta em injustiças e punições desproporcionais. Em vez de promover a resolução construtiva de conflitos, prioriza o castigo e a exclusão, minando a confiança nas instituições da sociedade.

Eles também causam impactos devastadores na saúde mental. Ansiedade, depressão e isolamento social são consequências comuns para os alvos da fúria coletiva nas redes sociais, com danos psicológicos duradouros. Sem análise aprofundada, pessoas inocentes podem ter suas vidas destruídas por acusações falsas.

 

Recuperação difícil

Recuperar-se de um “cancelamento” é um processo árduo e frequentemente incompleto. Mesmo quando inocentada judicialmente, a pessoa enfrenta desafios significativos para restaurar sua imagem e carreira.

A reabilitação exige tempo e esforço, envolvendo realizações e entrevistas para reconstruir a reputação. Ainda assim, a memória das denúncias afeta permanentemente como a pessoa é vista. No âmbito profissional, projetos podem não ser retomados e parcerias podem ser irrecuperáveis. Reconstruir a carreira significa frequentemente começar do zero, enfrentando ceticismo e desconfiança constantes.

Como já foi dito, apesar desses exemplos reluzentes, um “cancelamento” pode vitimar qualquer pessoa, e igualmente lhe causar danos profundos. Funcionários podem ser demitidos, estudantes podem ser expulsos e pequenos negócios podem ser boicotados por acusações não-verificadas. Por isso, todos precisam aprender a se proteger disso, o que envolve cuidado ao se expressar. Ser claro ao se comunicar e pensar antes de falar são práticas essenciais para evitar mal-entendidos no cotidiano.

Desenvolver empatia e uma escuta ativa ajudam a compreender diferentes perspectivas, reduzindo o risco de ofensas involuntárias. É também importante ter cuidado com piadas e comentários controversos, avaliando seu potencial ofensivo.

Em um mundo com redes sociais controlando nossas vidas, a gestão da reputação online tornou-se crucial. Monitorar o que é dito sobre você nessas plataformas e responder imediatamente a rumores podem evitar sérias dores de cabeça. Além disso, construir relacionamentos positivos com influenciadores e formadores de opinião ajuda a mitigar crises. Uma imagem pública coerente e empática serve como prevenção.

Por tudo isso, esta destruição de reputações representa uma injustiça que deve preocupar a todos. O “efeito manada” cria multidões dispostas a destruir alguém apenas pelo que “se ouviu dizer”. O “cancelamento” é uma ferramenta de intolerância.

Combater essa cultura não significa defender comportamentos prejudiciais, mas, sim, um processo justo, baseado em evidências e no respeito aos direitos fundamentais. Cabe a cada um de nós, às redes sociais e à sociedade promover um ambiente digital mais transparente e responsável, onde acusações sejam tratadas com seriedade, mas também com o cuidado que a Justiça exige.

 

Donald Trump toma posse como presidente dos EUA pela segunda vez - Foto: Congresso americano/Creative Commons

O resgate da civilidade digital depende de cada um de nós

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Com a posse para seu segundo mandato como presidente dos EUA, Donald Trump, um notório valentão que faz de agressões, desqualificações e fake news ferramentas do cotidiano, iniciou uma nova fase de deterioração da convivência online. Com a adesão explícita das big techs a essa agenda, o processo deve se ampliar exponencialmente. Isso seria grave o suficiente por si só. Mas em um mundo dominado por redes sociais, o maior risco vem do exército voluntário que amplia seus métodos para além dos limites do digital, esgarçando a própria trama da sociedade.

Há aqueles que se alinham a esse movimento e participam ativamente dele. Existem os que acham tudo “normal”, e acabam espalhando o conteúdo nocivo alegremente, com um entendimento distorcido da liberdade de expressão. E tem os que parecem não se importar com nada e acabam fazendo isso de forma inconsciente.

Não há nada de “normal” ou inocente nisso! Promover o ódio, cercear pensamentos diferentes, atacar grupos sociais, roubar identidades, expor pessoas estão entre os piores comportamentos de nosso tempo. Além da brutal violência psíquica e até física contra as vítimas, isso pode acabar com o debate público: em um meio inseguro e agressivo, as pessoas ficam desencorajadas a expor suas ideias construtivamente. E assim a democracia se enfraquece e os valentões ganham poder.

Pelo seu grande público e influência, jornalistas e criadores de conteúdo digital têm obrigação de combater essas práticas. Mas não são suficientes para eliminar esse mal. A sociedade só reencontrará um caminho sustentável de desenvolvimento quando cada um se empenhar em promover um ambiente digital civilizado.


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Não é uma tarefa simples ou pequena. Infelizmente muitos que propõem uma convivência harmônica e construtiva no meio online acabam sendo agredidos por aqueles que se beneficiam do ódio e da polarização, em uma tentativa explícita de silenciá-los. Por isso mesmo, não se devem deixar intimidar.

Mas há boas maneiras para se lidar com esses “trolls da política digital”. Fazer as escolhas certas diferencia entre uma explosão de ódio e uma contenção da violência pela racionalidade e pela empatia.

Como mencionado anteriormente, nada disso é protegido pela liberdade de expressão. O artigo 5º da Constituição Federal, que trata dos direitos e garantias fundamentais, determina, em seu inciso IV, que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.” Isso assegura que se possa dizer o que quiser, mas, ao mesmo tempo, determina que os responsáveis por violações de direitos como honra, imagem ou privacidade, ou que cometam outros crimes sejam identificados e punidos.

Muitos argumentam que querem ter a liberdade de falar nas redes as maiores barbaridades, e que depois a Justiça que cuide das punições. Isso seria aceitável se o Judiciário tivesse capacidade infinita de julgar e punir todas as violações, o que está muito longe de acontecer. Assim essa proposta, travestida de liberdade, não passa de um subterfúgio para se cometer esses crimes impunemente.

Os ataques online se unem a outras formas de violência, como as direcionadas a grupos específicos, como mulheres, negros, pessoas com deficiência e LGBTQIA+, que vivem em determinada região ou professem uma fé específica. É comum que essas características sejam usadas para inflamar o ódio e ampliar a desinformação, para que o valentão atinja objetivos que não têm nada a ver com a situação da vítima.

 

Não alimentem os “trolls”

O ataque dos “trolls digitais” não pode ser classificado como mera contraposição de ideias divergentes (como costumam se defender), porque eles não aceitam o debate. Visam apenas desestabilizar sua vítima e prejudicar a troca saudável de argumentos.

Isso foi perfeitamente descrito em 1945 pelo austríaco Karl Popper (1902-1994) com seu “paradoxo da tolerância”, no best-seller “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”. Segundo ele “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”. O filósofo explicava que “se não estivermos preparados para defender a sociedade do assalto da intolerância, então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles”.

Para ele, as filosofias intolerantes devem ser combatidas com argumentos racionais e mantidas em xeque frente à opinião pública. Mas alertava que os intolerantes não lidam com a razão, “a começar por criticarem todos os argumentos e proibindo seus seguidores de ouvir argumentos racionais, porque são enganadores e os ensinam a responder aos argumentos com punhos ou pistolas”. E sugeria que “devemos exigir que qualquer movimento que pregue a intolerância fique fora da lei e que qualquer incitação à intolerância e perseguição seja considerada criminosa”.

Popper queria evitar algo que se observa muito hoje. Formadores de opinião e pessoas comuns se afastam do debate público com medo dos “trolls”. Quando isso acontece, as ideias dos valentões evoluem para uma sociedade totalitária, em que os que não se alinharem ao grupo violento perdem gradualmente seus direitos.

Deve-se tomar cuidado ao responder aos “trolls”. Um confronto direto é tudo que eles querem, pois isso valida seus métodos e cria novos valentões. Além disso, o embate tende a normalizar o discurso violento e banalizar suas pautas excludentes.

Às vezes, deixar o “troll” falando sozinho é o melhor a se fazer. O problema é que, nas redes sociais, alguém pode amplificar os ataques desnecessariamente. Nesse caso, o silêncio pode não servir mais. A violência deve então, de maneira constante e resiliente, ser combatida com ética, sensatez e propostas construtivas.

Em 1947, Winston Churchill disse: “Ninguém espera que a democracia seja perfeita ou infalível. Na verdade, tem sido dito que a democracia é a pior forma de governo, excetuando-se todas as demais formas.” O ex-primeiro-ministro do Reino Unido, considerado um dos maiores estadistas da história, sabia que a democracia só funciona bem pela contraposição de ideias. Mas isso só é válido quando pessoas com ideias diferentes não apenas conseguem conviver entre si, como ainda constroem juntas uma sociedade, em nome de um bem maior.

Diante do avanço de governos encabeçados por valentões de qualquer ideologia, que sistematicamente silenciam ideias diferentes das suas, as sociedades precisam reforçar a educação digital e midiática. A primeira permitirá que seus cidadãos saibam usar adequadamente os recursos digitais para uma vida melhor; a segunda, que desenvolvam um senso crítico refinado, informem-se melhor e fiquem menos suscetíveis à desinformação e à brutalidade dos “trolls”.

Mas acima de tudo, precisamos urgentemente resgatar nossa humanidade e nossa capacidade de sermos empáticos, inclusive com quem não conhecemos. É assim que verdadeiramente se derrota um valentão.

 

Para Kant (esquerda), não se pode ser imoral, mesmo para um bom fim; já Maquiavel defendia que o fim justifica os meios - Foto: reproduções

Como equilibrar a ética, a competitividade tecnológica e a liberdade de expressão

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Estamos chegando ao final de um ano em que o debate sobre o equilíbrio entre a ética, a competitividade tecnológica e a liberdade de expressão ganhou novos contornos com o avanço da inteligência artificial, de práticas questionáveis das big techs e com as discussões em torno do Marco Civil da Internet. Enfrentamos uma grande dificuldade para encontrar um caminho razoável para, ao mesmo tempo, proteger as pessoas da voracidade irresponsável das plataformas digitais, evitar a censura, fazer um uso seguro da tecnologia e garantir a competitividade pessoal, nos negócios e até de nações, em uma geopolítica cada vez mais determinada pela tecnologia.

Esse é um dos grandes desafios dessa geração, pois a sociedade não está conseguindo processar as mudanças na velocidade em que estão sendo impostas. Insistimos em medir essa transformação com réguas que foram criadas para um mundo que já não existe. Esse é um processo fadado ao fracasso!

O exemplo mais claro é o impacto social das casas de aposta online, as infames “bets”. Elas crescem exponencialmente no mundo todo, mas no Brasil se tornaram um problema de saúde pública, com pessoas perdendo economias de uma vida e indivíduos das camadas mais pobres gastando o dinheiro da comida na jogatina.

Alguns podem dizer que “aposta quem quiser”. Só que atribuir toda a culpa ao livre arbítrio é um reducionismo de tudo que se discute aqui. A facilidade de se apostar pelo smartphone fica irresistível com a influência dos algoritmos dessas plataformas, com a promessa mentirosa de ganhos fáceis (ampliada por influenciadores pagos), com a interface gamificada e até com um senso de pertencimento no grupo de amigos apostadores.

Em outras palavras, nosso livre arbítrio é manipulado pelas mais diversas plataformas digitais, e engana-se quem acredita ser totalmente imune a isso. A sedução digital insidiosa vence mesmo mentes afiadas, em algum momento. É disso que temos que tratar, sem perder os inegáveis benefícios da tecnologia ou ferir direitos fundamentais.


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Agora o Supremo Tribunal Federal (STF) debate a inconstitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet. “Inconstitucionalidade” é uma palavra forte, mas não me parece ser o caso do referido artigo. Ainda assim, os votos já dados por ministros do STF indicam que ele acabará sendo classificado dessa forma.

Historicamente, defendo o artigo 19. Ele determina que cada um seja responsável pelo que publica nas plataformas digitais, que elas não sejam corresponsáveis por isso, e que elas devem retirar do ar apenas conteúdos que a Justiça tenha julgado ofensivos. Já o artigo 21 abre uma exceção para conteúdo com nudez ou sexo não autorizados, quando basta uma notificação extrajudicial para que as redes sejam obrigadas a remover a publicação. Essa combinação de artigos valoriza a liberdade de expressão.

Não há dúvida sobre qualquer um ser responsável, para o bem e para o mal, pelo que publica na Internet. Mas há uma simplificação muito grande sobre o papel das empresas. Elas já retiram sumariamente o que consideram inadequado seguindo seus critérios, muitas vezes questionáveis. O processo ocorre majoritariamente de forma automática, e seus algoritmos erram muito na sua decisão, tanto ao retirar conteúdos legítimos, quanto ao preservar outros, que ferem leis e seus próprios termos de uso.

As plataformas oferecem sistemas de denúncia contra conteúdos inadequados, mas eles são muito falhos. Eu mesmo já fui vítima de diversos delitos digitais, como discurso de ódio e roubo de conteúdo. Sempre utilizo essas ferramentas de denúncia, mas é muito raro que isso produza qualquer resultado.

Pela redação do artigo 19, eu e pessoas vítimas de afrontas online muito mais graves precisamos entrar na Justiça para nos defender, um processo complexo, caro e muito longo. Enquanto isso, o problema continuará no ar, infligindo severos danos. Como as plataformas ficarão isentas, não farão nada, apesar de viabilizarem o crime.

Em sua defesa, elas argumentam que, se tomarem para si a decisão de o que pode ser publicado, correm o risco de promover censura. O argumento é verdadeiro, mas é cínico, pois as mesmas plataformas promovem ostensivamente conteúdos claramente nocivos, pois são os que lhes rendem maiores ganhos. E nada lhes acontece!

Esse é o tipo de conflito que esses tempos digitalmente acelerados nos impõem.

 

A superinteligência digital

Esse debate também se aplica à inteligência artificial.

Na sexta (20), a OpenAI, criadora do ChatGPT, lançou o OpenAI o3, seu novo modelo de IA, com capacidades cognitivas ainda mais impressionantes. A empresa não mede esforços em incensar seus novos produtos como passos em direção à Inteligência Artificial Geral, um estágio teórico em que o sistema deixaria de ser especializado em uma coisa e passaria a pensar como um ser humano, dispensando comandos e sendo capaz de resolver qualquer coisa sem ter sido criado para aquilo, de pintar um quadro a dirigir um carro. Algumas pessoas afirmam que o o3 seria algo ainda maior: o caminho para a superinteligência artificial, um conceito teórico ainda mais ousado, em que a máquina superaria largamente as capacidades humanas em qualquer área.

Todos esses holofotes são ótimos para os negócios da OpenAI, que lidera essa indústria, mas sofre forte concorrência de empresas como o Google e a Anthropic. Mas mostra também que essas empresas parecem dispostas a acelerar contra uma parede, se isso lhes garantir o protagonismo nessas tecnologias.

Alguns dos maiores especialistas do setor, como Geoffrey Hinton, considerado o “padrinho da IA”, demonstram sérias preocupações com isso. Alguns afirmam que nunca chegaremos a esse estágio tecnológico, mas o maior temor é que percamos o controle desses sistemas, que passariam a se autoatualizar seguindo seus interesses, e não mais os da humanidade, algo conhecido no setor como “desalinhamento”.

Caímos novamente na questão de regulações. Como de costume, a Europa saiu na frente, com sua Lei da Inteligência Artificial, focada em proteger os cidadãos de maus usos dessa tecnologia e de abusos de empresas e de governos.

Muita gente acredita que ela reduzirá a competitividade do continente cada vez mais, especialmente diante de nações que regulam pouco ou nada a IA, como a China. No caso dos EUA, há uma grande expectativa de como o país se comportará nisso com o início, em janeiro, do segundo mandato presidencial de Donald Trump, fortemente influenciado pelo libertário Elon Musk, publicamente contrário a regulamentações.

A verdade é que ninguém sabe como equilibrar a ética, a competitividade e os direitos individuais nessa corrida desenfreada e irresponsável da tecnologia. Ela naturalmente deve continuar sendo desenvolvida e precisamos aprender a fazer usos produtivos dela. Mas isso não pode passar por cima da segurança e do bem-estar das pessoas.

O mundo atual vem sendo guiado por princípios do filósofo Nicolau Maquiavel (1469-1527), que defendia que o sucesso e a manutenção do poder justificariam os métodos empregados, mesmo imorais, desde que fossem eficazes. Mas talvez devêssemos olhar mais para as ideias de outro filósofo, Immanuel Kant (1724-1804). Para ele, mentir ou agir imoralmente nunca é justificável, mesmo para alcançar um bom fim.

Temos que fazer isso logo, antes que a sociedade se esfacele irreversivelmente.

 

Influenciadores dominam a linguagem das redes, mas a maioria não checa as informações que publica - Foto: Freepik/Creative Commons

Influenciadores promovem desinformação por amadorismo e descuido

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Que as redes sociais são o grande vetor da desinformação, não é novidade. Mas em tempos em que o Supremo Tribunal Federal (STF) discute se essas plataformas têm responsabilidade sobre conteúdos nocivos em suas páginas, precisamos entender as motivações que levam alguém a fazer isso. Nesse cenário, os influenciadores digitais desempenham um papel central, pelo seu poder de persuasão de grandes plateias.

Existem aqueles que conscientemente propagam informações falsas, e esses devem ser combatidos. Mas o estudo “Por Trás das Telas”, publicado no dia 26 de novembro pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) mostra que muitos fazem isso sem intenção, por amadorismo ou descuido.

Realizada com 500 influenciadores de 45 países, incluindo o Brasil, a pesquisa indica que apenas 36,9% dos influenciadores verificam a correção das informações que publicam. Além disso, 41,7% deles consideram curtidas e visualizações como o principal critério de credibilidade de suas fontes.

Esses dois números deixam claro que eles podem ser facilmente manipulados pelos criadores de desinformação, agravando o problema. A boa notícia é que 73% demonstraram interesse em serem treinados para melhorarem em sua atividade.

Apesar dos ataques daqueles que se beneficiam da desinformação, a imprensa ainda goza de boa credibilidade com a maior parte da população. Mas há anos ela não está mais sozinha no processo informativo, dividindo esse espaço com os influenciadores.

Seria ótimo que esses dois grupos trabalhassem juntos, mas parecem viver em mundos distintos. É uma pena, pois o público se informa por ambos, cada um com suas vantagens e desvantagens.


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O estudo aponta que apenas 36,9% dos influenciadores digitais se informam pela imprensa, a mesma quantidade dos que fazem isso a partir de fontes online que não sejam da mídia profissional. Sua principal “fonte” é a própria experiência (58,1%), seguido por pesquisas e entrevistas próprias (38,7%).

Para os influenciadores, as já citadas curtidas e visualizações de longe dão mais credibilidade a uma fonte. Depois vem a simples confiança em um amigo ou especialista (20,6%), seguida de perto pela reputação do autor (19,4%). Documentações são usadas apenas por 17,0% dos influenciadores.

Se apenas 4 entre 10 deles checam as informações antes de publicá-las, 33,5% publicam sem checar se confiarem na fonte. Outros 15,8% publicam sem verificar se considerarem o conteúdo divertido ou útil. Por fim 13,2% checam apenas se o que compartilharem for uma notícia.

Vale dizer que 59,0% desconhecem ou apenas ouviram falar de regras relacionadas às comunicações digitais e 56,4% conhecem treinamentos voltados para eles, mas só 13,9% desses participaram de algum. Isso faz com que saibam pouco sobre seus direitos e deveres como produtores de conteúdo, o que facilita com que 32,3% sofram com discursos de ódio nas redes. Tudo fica mais grave quando se pensa que ganhar dinheiro é a principal motivação de um quarto deles.

O estudo considera que alguém com mais de mil seguidores já pode ser considerado um seguidor, mas 68,0% dos entrevistados tinham até 10 mil seguidores. Desse valor a 100 mil seguidores, eram 25,0%. Apenas 1,6% tinham mais de 1 milhão de seguidores. A rede preferida é o Instagram (34,0%), seguido pelo Facebook (25,0%), o TikTok (16,4%) e YouTube (9%).

A categoria mais popular é de “moda e estio de vida” (39,3%). Na sequência, vêm “beleza” e “viagem e comida” (ambos com 34,0%), “jogos” (29,0%) e “comédia” (27,1%). Os estilos mais populares de publicações são “coisas bonitas” (18,0%), “entretenimento e memes” (15,6%) e “recomendações” (13,8%).

Ao contrário da imprensa, que, a despeito de imperfeições, segue regras rígidas para produção de conteúdo, esse amadorismo dos influenciadores representa um sério ponto de atenção.

 

“Desordem informacional”

Em 2017, um estudo do Conselho da Europa e da Universidade de Harvard classificou a “desordem informacional” em desinformação (informação deliberadamente errada para causar danos), informação falsa (errada, mas sem intenção de causar danos) e informação maliciosa (correta, mas usada para causar danos). Influenciadores, muitas vezes, se encontram na segunda categoria, quando espalham informações incorretas por confiarem em fontes ruins ou por não saberem como verificar uma informação.

O instituto britânico Alan Turing detalhou em 2021 como uma sociedade pode ameaçar a própria sobrevivência com ataques deliberados à aquisição de conhecimento. Segundo a pesquisa, há quatro ameaças a isso, nenhuma ao acaso. A primeira são pessoas que atrapalham as decisões com desinformação, de maneira consciente ou não. Há também o excesso de informação, que atrapalha as pessoas na separação de verdades e mentiras. Elas também se acostumaram a rejeitar o que desafia suas ideias, particularmente se houver uma forte identidade no grupo. E, por fim, as redes sociais tornaram mais difícil avaliar a confiabilidade das fontes.

A pesquisa conclui que, quando não sabemos em quem acreditar, confiamos naquilo que nos mostra o mundo como queremos. Novamente os influenciadores podem se tornar ferramentas poderosas para a desinformação, mesmo inconscientemente.

Infelizmente as perspectivas de melhora desse quadro não são animadoras, diante da resistência das redes sociais de sofrerem qualquer tipo de responsabilização e do persistente amadorismo dos influenciadores. A colaboração desses profissionais com jornalistas, atuando de maneira complementar, traria grande benefício à sociedade.

Os influenciadores têm alcance e confiança de seus seguidores, além de dominar a linguagem das plataformas digitais. Já os jornalistas possuem ética e técnica para produzir informações precisas e contextualizadas. Uma parceria efetiva entre essas comunidades poderia não apenas mitigar os impactos da desinformação, como fortalecer a confiança no ecossistema informacional.

Infelizmente isso esbarra em barreiras culturais e estruturais. Influenciadores priorizam sua autonomia criativa, e podem ver jornalistas como representantes de um modelo de comunicação pouco dinâmico e distante da realidade das redes. Jornalistas, por sua vez, frequentemente subestimam a capacidade dos influenciadores de se adaptarem às boas práticas jornalísticas.

A desinformação é um dos maiores desafios dessa geração. Ela sempre existiu, mas as redes sociais transformaram o que antes não passava de fofocas restritas em uma indústria milionária de distorção da realidade. Apesar desse fenômeno digital ter menos de uma década, já provocou danos irreparáveis no mundo.

A solução desse problema depende de todos nós, começando por escolhermos fontes confiáveis de informação. O estudo da Unesco mostra que, se influenciadores e jornalistas conseguissem juntar forças criativamente, poderiam construir ambientes informacionais mais saudáveis, transparentes e comprometido com a verdade.

A sociedade agradecerá muito se isso acontecer!

 

O Parlamento Australiano, que aprovou uma lei que proíbe menores de 16 anos nas redes sociais - Foto: Dietmar Rabich/Creative Commons

Austrália põe fogo no debate ao proibir redes sociais para menores de 16 anos

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Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) debate regras mais rígidas para as redes sociais no Brasil, a Austrália “pôs fogo” no debate ao aprovar, no último dia 28, uma lei que sumariamente proíbe o uso dessas plataformas por qualquer pessoa com menos de 16 anos. E a responsabilidade para isso não acontecer recai sobre essas empresas, sob pena de multas equivalentes a quase R$ 200 milhões.

Apesar de restrições às redes sociais serem debatidas no mundo todo, essa é a primeira legislação que impede seu uso por crianças e adolescentes em qualquer situação. Ela também inova por atribuir às big techs a função de “porteiro”.

A lei despertou aplausos e gritarias. Especialistas afirmam que a iniciativa representa um passo importante para proteger os mais jovens de sérios riscos a que são expostos nessas plataformas, como cyberbullying, assédio moral e sexual, desinformação e outros conteúdos que podem provocar sérios problemas de saúde mental e até a suicídio. Também é vista como maneira de responsabilizar empresas por priorizarem lucros em detrimento da segurança dos mais jovens.

Os críticos, capitaneados pelas próprias big techs, dizem que a lei é inócua, pois os adolescentes encontrarão maneiras de burlar o sistema. Argumentam que isso pode privar os mais jovens de informações importantes e restringiria sua capacidade de socialização. Por fim, a lei prejudicaria a privacidade desses usuários.

A iniciativa australiana escancara o poder desmedido que as big techs construíram. Nunca houve empresa, governo ou instituição capaz de influenciar decisivamente a vida de bilhões de pessoas ao redor do mudo, enfrentando legislações e culturas de países muito diferentes. Resta saber se a lei conseguirá mesmo proteger os mais jovens, e como isso pode incentivar outros países a criarem legislações semelhantes.


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Há duas décadas, a desinformação era restrita a falas de políticos e a veículos sensacionalistas, discursos de ódio não se alastravam além de pequenos grupos e fatores de ansiedade adolescente eram muito mais facilmente manejáveis. As redes sociais criadas naquela época, como o Facebook, o Instagram e o Twitter, não foram pensadas para se tornar os veículos que dariam alcance planetário e velocidade descontrolada a tudo isso e a muitos outros conteúdos nocivos.

Elas argumentam que não têm como controlar tudo que seus usuários publicam em suas páginas, e se eximem de qualquer responsabilidade, apoiando-se em legislações como a seção 230 da americana CDA (sigla em inglês para “Lei de Decência nas Comunicações”) e o artigo 19 do Marco Civil da Internet brasileiro.

Leis como essas foram fundamentais para o desenvolvimento das redes sociais, mas foram criadas para realidades que há muito não existem mais. Essas plataformas deixaram de ser inocentes veículos de conteúdos de terceiros quando seus algoritmos passaram a identificar e promover aqueles que geram mais engajamento e lucros, mesmo sabendo que costumam ser publicações com os problemas já citados.

Isso foi evidenciado em outubro de 2021, quando a ex-gerente de produtos do Facebook Frances Haugen divulgou milhares de documentos internos da Meta (empresa dona do Facebook, Instagram e WhatsApp) que explicitavam que a empresa sabe do problema e faz muito menos do que poderia para evitá-lo, especialmente no que se refere a adolescentes, pois isso prejudicaria os seus lucros. O escândalo ficou conhecido como “Facebook Papers”.

No dia 31 de janeiro, em audiência no Senado americano sobre o impacto das redes sociais em crianças, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, se levantou e pediu desculpas aos pais de vítimas jovens das redes sociais que estavam no local. O senador republicano Josh Hawley disse a ele que “seu produto está matando pessoas”.

Dado que o grave problema existe e está indelevelmente associado às redes sociais, mas elas não podem ou não querem resolvê-lo, a solução seria simplesmente “cortar o mal pela raiz”, tirando os mais jovens dali?

 

Grandes poderes e responsabilidades

A Austrália acha que sim! Levantamento da empresa de pesquisas YouGov realizada no mês passado indicou que 77% dos australianos apoiam a proibição de menores de 16 anos nas redes sociais. A lei passa a valer em 2025 e as empresas terão que se adaptar até uma data que ainda não foi definida.

Curiosamente, a Meta prometeu para o próximo ano o recurso “classificador de adultos”, que usará inteligência artificial para descobrir a idade real de um usuário. Se concluir que tem menos de 18 anos, a conta será automaticamente classificada como de adolescente, com várias restrições. Para isso, a tecnologia monitorará publicações e gostos do próprio usuário e de seus amigos. Ao se tentar alterar a idade, o sistema poderá exigir que o usuário grave um vídeo para estimá-la por características faciais.

Isso é muito bem-vindo, mas obviamente a Meta não quer que os valiosos e engajados adolescentes deixem de usar seus produtos. Na verdade, antes dos “Facebook Papers”, a empresa pensava em criar versões de seus sistemas para usuários com menos de 13 anos, como o “Instagram Kids”. Depois do escândalo, a empresa interrompeu esses projetos.

As big techs estão chamando a nova lei australiana de “vaga”, “precipitada” e “contrária a normas internacionais”. De fato, ela foi debatida e aprovada no Parlamento Australiano em apenas uma semana, mas isso se deu após um longo debate público.

Os resultados dessa iniciativa provavelmente influenciarão debates semelhantes em outros países. É o caso do Reino Unido, que está realizando estudos para uma lei muito semelhante à australiana.

A regulamentação dessas plataformas se faz necessária pela incomensurável influência que elas exercem sobre nós, muitas vezes de forma bastante negativa. É preciso criar padrões globais para regulamentação, evitando que essas empresas se aproveitem de brechas legais em países com legislações mais permissivas.

Mas tudo isso precisa ser acompanhado por programas sérios de educação digital e midiática da população, começando nos primeiros anos escolares. Temos que formar pessoas mais críticas e menos suscetíveis a manipulações.

Com seus bilhões de usuários, as big techs se tornaram não apenas um negócio muito lucrativo, mas uma poderosa força política. Qualquer que seja o modelo para minimizar os aspectos tóxicos de seu uso deve considerar o envolvimento e a responsabilização dessas empresas, para que sejam mais transparentes e éticas.

Todos os países precisam exigir ambientes digitais mais saudáveis e seguros, sem sufocar a inovação ou comprometer os direitos fundamentais dos cidadãos. Por isso, uma boa regulamentação dessas plataformas não deve ser vista como um obstáculo, mas como uma oportunidade para elaborar um futuro digital responsável.