Monthly Archives: janeiro 2025

Donald Trump toma posse como presidente dos EUA pela segunda vez - Foto: Congresso americano/Creative Commons

O resgate da civilidade digital depende de cada um de nós

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Com a posse para seu segundo mandato como presidente dos EUA, Donald Trump, um notório valentão que faz de agressões, desqualificações e fake news ferramentas do cotidiano, iniciou uma nova fase de deterioração da convivência online. Com a adesão explícita das big techs a essa agenda, o processo deve se ampliar exponencialmente. Isso seria grave o suficiente por si só. Mas em um mundo dominado por redes sociais, o maior risco vem do exército voluntário que amplia seus métodos para além dos limites do digital, esgarçando a própria trama da sociedade.

Há aqueles que se alinham a esse movimento e participam ativamente dele. Existem os que acham tudo “normal”, e acabam espalhando o conteúdo nocivo alegremente, com um entendimento distorcido da liberdade de expressão. E tem os que parecem não se importar com nada e acabam fazendo isso de forma inconsciente.

Não há nada de “normal” ou inocente nisso! Promover o ódio, cercear pensamentos diferentes, atacar grupos sociais, roubar identidades, expor pessoas estão entre os piores comportamentos de nosso tempo. Além da brutal violência psíquica e até física contra as vítimas, isso pode acabar com o debate público: em um meio inseguro e agressivo, as pessoas ficam desencorajadas a expor suas ideias construtivamente. E assim a democracia se enfraquece e os valentões ganham poder.

Pelo seu grande público e influência, jornalistas e criadores de conteúdo digital têm obrigação de combater essas práticas. Mas não são suficientes para eliminar esse mal. A sociedade só reencontrará um caminho sustentável de desenvolvimento quando cada um se empenhar em promover um ambiente digital civilizado.


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Não é uma tarefa simples ou pequena. Infelizmente muitos que propõem uma convivência harmônica e construtiva no meio online acabam sendo agredidos por aqueles que se beneficiam do ódio e da polarização, em uma tentativa explícita de silenciá-los. Por isso mesmo, não se devem deixar intimidar.

Mas há boas maneiras para se lidar com esses “trolls da política digital”. Fazer as escolhas certas diferencia entre uma explosão de ódio e uma contenção da violência pela racionalidade e pela empatia.

Como mencionado anteriormente, nada disso é protegido pela liberdade de expressão. O artigo 5º da Constituição Federal, que trata dos direitos e garantias fundamentais, determina, em seu inciso IV, que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.” Isso assegura que se possa dizer o que quiser, mas, ao mesmo tempo, determina que os responsáveis por violações de direitos como honra, imagem ou privacidade, ou que cometam outros crimes sejam identificados e punidos.

Muitos argumentam que querem ter a liberdade de falar nas redes as maiores barbaridades, e que depois a Justiça que cuide das punições. Isso seria aceitável se o Judiciário tivesse capacidade infinita de julgar e punir todas as violações, o que está muito longe de acontecer. Assim essa proposta, travestida de liberdade, não passa de um subterfúgio para se cometer esses crimes impunemente.

Os ataques online se unem a outras formas de violência, como as direcionadas a grupos específicos, como mulheres, negros, pessoas com deficiência e LGBTQIA+, que vivem em determinada região ou professem uma fé específica. É comum que essas características sejam usadas para inflamar o ódio e ampliar a desinformação, para que o valentão atinja objetivos que não têm nada a ver com a situação da vítima.

 

Não alimentem os “trolls”

O ataque dos “trolls digitais” não pode ser classificado como mera contraposição de ideias divergentes (como costumam se defender), porque eles não aceitam o debate. Visam apenas desestabilizar sua vítima e prejudicar a troca saudável de argumentos.

Isso foi perfeitamente descrito em 1945 pelo austríaco Karl Popper (1902-1994) com seu “paradoxo da tolerância”, no best-seller “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”. Segundo ele “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”. O filósofo explicava que “se não estivermos preparados para defender a sociedade do assalto da intolerância, então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles”.

Para ele, as filosofias intolerantes devem ser combatidas com argumentos racionais e mantidas em xeque frente à opinião pública. Mas alertava que os intolerantes não lidam com a razão, “a começar por criticarem todos os argumentos e proibindo seus seguidores de ouvir argumentos racionais, porque são enganadores e os ensinam a responder aos argumentos com punhos ou pistolas”. E sugeria que “devemos exigir que qualquer movimento que pregue a intolerância fique fora da lei e que qualquer incitação à intolerância e perseguição seja considerada criminosa”.

Popper queria evitar algo que se observa muito hoje. Formadores de opinião e pessoas comuns se afastam do debate público com medo dos “trolls”. Quando isso acontece, as ideias dos valentões evoluem para uma sociedade totalitária, em que os que não se alinharem ao grupo violento perdem gradualmente seus direitos.

Deve-se tomar cuidado ao responder aos “trolls”. Um confronto direto é tudo que eles querem, pois isso valida seus métodos e cria novos valentões. Além disso, o embate tende a normalizar o discurso violento e banalizar suas pautas excludentes.

Às vezes, deixar o “troll” falando sozinho é o melhor a se fazer. O problema é que, nas redes sociais, alguém pode amplificar os ataques desnecessariamente. Nesse caso, o silêncio pode não servir mais. A violência deve então, de maneira constante e resiliente, ser combatida com ética, sensatez e propostas construtivas.

Em 1947, Winston Churchill disse: “Ninguém espera que a democracia seja perfeita ou infalível. Na verdade, tem sido dito que a democracia é a pior forma de governo, excetuando-se todas as demais formas.” O ex-primeiro-ministro do Reino Unido, considerado um dos maiores estadistas da história, sabia que a democracia só funciona bem pela contraposição de ideias. Mas isso só é válido quando pessoas com ideias diferentes não apenas conseguem conviver entre si, como ainda constroem juntas uma sociedade, em nome de um bem maior.

Diante do avanço de governos encabeçados por valentões de qualquer ideologia, que sistematicamente silenciam ideias diferentes das suas, as sociedades precisam reforçar a educação digital e midiática. A primeira permitirá que seus cidadãos saibam usar adequadamente os recursos digitais para uma vida melhor; a segunda, que desenvolvam um senso crítico refinado, informem-se melhor e fiquem menos suscetíveis à desinformação e à brutalidade dos “trolls”.

Mas acima de tudo, precisamos urgentemente resgatar nossa humanidade e nossa capacidade de sermos empáticos, inclusive com quem não conhecemos. É assim que verdadeiramente se derrota um valentão.

 

Pela lei, alunos não poderão usar celulares nem no recreio ou no intervalo das aulas - Foto: pvproductions/Freepik/Creative Commons

Até onde escolas sem celulares resolvem problemas da superexposição às telas?

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Desde o dia 13, alunos não podem mais usar celulares e tablets pessoais nas escolas brasileiras de Ensino Fundamental e Ensino Médio. A lei 15.100/2025, que visa “salvaguardar a saúde mental, física e psíquica das crianças e adolescentes”, também é positiva frente às enormes perdas pedagógicas que esses equipamentos produzem. Mas ela não resolve o problema da superexposição dos mais jovens às telas, pois isso acontece principalmente em casa.

É um desafio complexo, pois vivemos em um mundo profundamente digitalizado, desde tenra idade. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, publicada em outubro pelo Cetic.br, órgão de pesquisas do CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), indicou que 93% dos brasileiros entre 9 e 17 anos usam a Internet, quase sempre pelo celular. Praticamente todas as crianças ficam online em casa, e cerca de metade fazem isso na escola. E o primeiro contato se dá até os 6 anos para 23% e entre 7 e 9 anos para 26%, contrariando especialistas, que indicam que isso só comece na adolescência.

A lei reforça a autoridade do professor, que hoje tem que lutar contra as distrações do celular na sala de aula. Mas pais e mães precisam trabalhar com as escolas para combater os efeitos das telas sobre seus filhos, que vão muito além de piora no desempenho escolar. Elas podem causar sérios problemas de saúde mental, sono ruim, dificuldade de sociabilização, exposição a assédios, distúrbios alimentares e até de postura.

A tarefa cresce porque, por outro lado, os mais jovens precisam ser educados a usarem esses equipamentos de maneira segura e positiva. A proteção às crianças e aos adolescentes não pode ser confundida com alienação tecnológica.


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Tanto é assim que a lei permite que esses equipamentos sejam usados em atividades pedagógicas sob orientação do professor. Eles também podem ser usados por alunos que dependam deles por necessidades de saúde, acessibilidade ou inclusão.

A regra determina que não sejam usados nem no recreio ou nos intervalos entre aulas. Estudo realizado em 2023 pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) indicou que o “dreno de atenção” dos smartphones é tão grande, que os alunos podem levar até 20 minutos para se concentrar novamente depois de usarem o celular em atividades não-acadêmicas. Mas o documento lembra que a tecnologia deve fazer parte da formação do indivíduo.

“É muito importante entender que olhar para os riscos de forma alguma exclui a necessidade de apropriação de tecnologias na educação”, afirma Ana Lucia de Souza Lopes, doutora em Educação e especialista em Educação e Tecnologias, e coordenadora na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Para ela, “é muito simplista pensar dessa maneira, pois estamos diante de um grande desafio que precisa ser enfrentado para encontrar o equilíbrio”.

Portanto, a lei não propõe que o problema seja “varrido para baixo do tapete”. “A simples proibição do uso de celulares, sem o devido contexto, pode gerar desafios, como resistência ou ansiedade, especialmente em crianças e jovens que já apresentam sinais de dependência tecnológica”, explica Maria Eduarda Menezes, coordenadora de edtech da Beacon School. “Por isso, mais do que proibir, é essencial adotar uma abordagem educativa e dialógica”, acrescenta.

Não se pode achar que a escola dará conta disso sozinha, mas ela desempenha um papel essencial, por ser um lugar que prioriza o cuidado com o ser humano. Ela pode também instruir pais e mães a como lidar com essa questão, pois o uso equilibrado da tecnologia que começa na escola deve continuar em casa. Pouco adianta restringir o acesso ao celular e liberar outras telas, como o videogame e a televisão. Os responsáveis também devem avaliar se o celular é realmente necessário para os filhos ou se o oferecem apenas por pressões sociais ou modismos.

 

Combate ao “vício”

Se os adultos sofrem um impulso às vezes incontrolável de olhar informações no seu celular, isso é ainda mais forte em adolescentes. E não raro elas dominam a tecnologia melhor que seus pais, mas não sabem usá-la para aprender.

“É importante incluir letramento digital e cidadania digital nos currículos das escolas, pois permitem que os alunos compreendam como as tecnologias funcionam, saibam utilizá-las de maneira ética e responsável e desenvolvam habilidades para navegar com segurança no ambiente online”, explica Menezes.

Lopes explica que a escola deve oferecer aos estudantes estruturas de convivência e desenvolvimento que ampliem seus repertórios além das telas. “Ou, ao chegar da escola, os estudantes irão diretamente para a tela para compensar as horas de ‘privação’, agravando o quadro”, acrescenta.

Nada disso é simples, e a maioria dos professores não está preparada para incorporar essas demandas em suas aulas. Sua formação deve ser atualizada para conhecerem os riscos e desafios de lidar com a tecnologia digital, mas também para a enxergarem além de uma mera ferramenta, descobrindo como aproveitar seu potencial e compreender o papel que ocupa em nossas vidas. Para os docentes já formados, as escolas e o governo devem oferecer capacitação contínua.

Esse papel aparece em um alerta que alguns especialistas fazem sobre uma brecha na lei, que permite que os celulares sejam usados em aula para “garantir os direitos fundamentais”, sem explicar quais seriam. Eles temem que alguns alunos usem isso para manter a prática de filmar professores que digam algo com o que não concordem, em uma reprovável tentativa de exposição e até criminalização dos docentes. Vale dizer que isso afronta o direito à imagem garantido pela Constituição e pela Lei Geral de Proteção de Dados. Por isso, o governo deve explicar melhor o que são tais direitos, no processo de regulamentação da lei, que deve acontecer em 30 dias.

De qualquer forma, ela é muito bem-vinda, e deve auxiliar na solução de graves problemas causados pelo uso descontrolado desses dispositivos na escola. Abre também uma porta para se construir uma boa educação digital na escola e em casa.

Smartphones não podem ser vistos como meros brinquedos ou –pior ainda– uma “chupeta digital” para acalmar os mais jovens. Crianças e adolescentes merecem o apoio de pais, mães e educadores para se apropriarem de todo esse poder digital de maneira segura e construtiva. Essa é uma tarefa de toda a sociedade.

 

Mark Zuckerberg, CEO da Meta, durante anúncio de medidas como o fim da moderação de conteúdo em suas redes - Foto: reprodução

Por que a guinada de Zuckerberg sobre conteúdo é uma tragédia social

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A grande notícia no mundo digital na semana passada foi o cavalo de pau que Mark Zuckerberg deu na política de moderação de conteúdo da Meta, afetando Facebook, Instagram e Threads. Com um intenso alinhamento às ideias do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, as medidas levantam preocupações legítimas sobre como isso impactará a qualidade das entregas das redes sociais e a própria democracia.

Especialistas diversos afirmam que o nível das publicações e dos debates nessas redes deve cair dramaticamente, empobrecendo seu papel social e corroendo a credibilidade da empresa. Pela sua descomunal penetração, isso deve agravar a polarização na sociedade. E a disposição manifestada pelo seu CEO de ativamente afrontar governos que contrariarem seus interesses pode desestabilizar nações.

Esse é o ponto mais grave desse movimento. Executivos das big techs cada vez mais se dão o direito de se colocar acima da lei e de valores, não apenas dos EUA, mas de países muito diferentes. Com uma grotesca distorção do conceito de liberdade de expressão, ameaçam a estabilidade social, uma influência nefasta e indevida nunca vista na história, que impõe seus interesses pessoais sobre populações inteiras.

Essa é uma perigosíssima nova ordem mundial que precisa ser combatida, sob o risco de desaguarmos em uma barbárie onde ninguém mais se respeite, colocando o próprio conceito de sociedade em risco.


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As políticas de moderação da Meta surgiram com o escândalo da Cambridge Analytica, que estourou em março de 2018. Os jornais “The Guardian” e “The New York Times” demonstraram que essa empresa coletou dados de 87 milhões de usuários do Facebook sem seu consentimento, para influenciar a primeira eleição de Trump e o referendo do Brexit, ambos em 2016. Isso escancarou a manipulação das redes, e o Facebook foi acusado pelo Congresso americano de não proteger seus usuários desse controle.

Trump, que teve suas contas no Facebook e no Instagram suspensas em 2021 por incitar a violência que levou à invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro daquele ano, comemorou o novo posicionamento da Meta. Em entrevista após o anúncio, disse, sem nenhum constrangimento, que provavelmente sua ameaça de prisão perpétua a Zuckerberg no ano passado pode ter pesado nessa decisão.

Mas não sejamos inocentes: o alinhamento dessas empresas a Trump lhes trará muitos benefícios. E com seu virtual controle dos três Poderes no país, as ameaças sobre as big techs que se unirem a ele tendem a desaparecer. “Na verdade, elas nunca quiseram combater desinformação”, explica Pollyana Ferrari, pesquisadora em mídias e professora da PUC-SP. “Eram mais ações isoladas para dizer que faziam algo, porém agora os bilionários não precisam mais disfarçar seus objetivos.”

“Em 2017, Chris Cox, então diretor de produtos do Facebook, descobriu que havia uma correlação entre maximizar o envolvimento do usuário e inflamar as tensões, e que reduzir a polarização significaria prejudicar o engajamento”, relembra Magaly Prado, pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da USP. Então, mesmo sabendo que algumas eram “anticrescimento”, propôs várias soluções, mas elas não foram implantadas. “As big techs que abrigam as redes sociais não estão nem aí com as pessoas que eles costumam chamar de usuários”, acrescenta.

O anúncio de Zuckerberg provocou protestos de especialistas do mundo todo, que pedem que as mudanças sejam revertidas. Em resposta, a Meta tomou mais medidas na mesma linha, como acabar com seu programa de Diversidade e Inclusão.

“O mais preocupante não é apenas o fim do programa de checagem, mas o fato de que Zuckerberg encerrou essa iniciativa com um ataque perigoso e infundado a um trabalho que vinha sendo feito de forma criteriosa”, diz Clara Becker, jornalista especializada em desinformação e diretora da ONG de educação midiática Redes Cordiais. “Em vez de fortalecer o combate à desinformação, a Meta escolheu um caminho que descredibiliza os esforços existentes e agrava ainda mais o cenário de manipulação e polarização nas plataformas”, alerta.

 

O que Zuckerberg quer?

Ao se alinhar aos interesses de Trump, o CEO da Meta espera diminuir seus custos e ganhar um aliado para combater países que ameaçarem seus negócios, além de apoio contra pressões políticas e legais domésticas.

“Atuar contra regulações locais pode ser percebido como uma forma de neocolonialismo digital, prejudicando a autonomia de países e minando a confiança em governança global”, adverte Marcelo Crespo, coordenador do curso de Direito da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Para ele, “promover políticas alinhadas exclusivamente a interesses americanos pode agravar tensões globais e alimentar narrativas antidemocráticas”.

Zuckerberg quer fazer o que bem entender na sua companhia, o que, a princípio, é seu direito. Mas redes sociais não são empresas como outras, pela sua absurda influência sobre o mundo! Portanto, dizer que defende a liberdade de expressão é, no mínimo, hipócrita, pois ninguém sabe como seus algoritmos promovem e escondem o que quiserem.

“O discurso de garantir a liberdade de expressão é falacioso, na medida em que a remoção de conteúdos inverídicos, falseados, criminosos não configura censura”, explica Crespo. “No Brasil, não há liberdade plena de expressão, por isso a Constituição determina que é vedado o anonimato, justamente para responsabilizar quem cometer abusos.”

Duas situações podem surgir disso. Na primeira, governos, Justiça, empresas e outros membros da sociedade reagem para elaborar regras equilibradas para evitar a desinformação, exigindo uma responsabilidade e uma transparência que as redes sociais nunca tiveram, o que seria muito positivo. Na outra, ruim, a proposta de Zuckerberg avança e seus algoritmos privilegiam lucros ao invés de segurança, explodindo os conteúdos nocivos, como aconteceu no X de Elon Musk, criando sociedades instáveis, em que as pessoas não concordam, nem constroem coisas juntas. Por isso, segundo Prado, “é inevitável e fundamental que possamos debater a justiça dos dados, as leis que vão reger quem provoca o distúrbio informacional”.

“A moderação de conteúdo é um dos grandes desafios do século XXI, e não há sistema infalível para lidar com desinformação e discurso de ódio”, afirma Becker. “O cenário ideal seria aquele que promove um equilíbrio entre liberdade de expressão e responsabilidade, garantindo que conteúdos enganosos, discursos de ódio e incitações à violência ou discriminação sejam eficazmente controlados”, conclui.

A desinformação deve ser combatida com boa informação. Quando Zuckerberg confirma a anarquia das redes sociais, isso reforça a importância do jornalismo e da checagem de fatos profissionais. Mas infelizmente eles não são suficientes, pois os algoritmos continuarão promovendo o conteúdo nocivo, que lhe é mais lucrativo.

Por tudo isso, deve-se exigir mais transparência das plataformas, ao invés de aceitar o contrário, que nos está sendo imposto. A verdade não pode ser opcional, devendo ser cuidada por todos como um bem público, ou corremos o risco de ter consolidado um animalesco Estado sob a lei do mais forte.

 

Para Gilson Magalhães, diretor-geral da Red Hat Latin America, IA trará resultados em 2025 com agentes - Foto: Paulo Silvestre

Esse será o ano em que a IA começará a trazer resultados

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Como não poderia ser diferente, 2025 começa acelerado pela inteligência artificial. Mas esse ano deve trazer algo que empresários desejam desde que começaram a investir pesadamente nessa tecnologia, com o lançamento do ChatGPT: resultados!

Se 2023 foi o ano da curiosidade e 2024 representou a democratização dessa tecnologia, 2025 deve ser aquele em que aplicações realmente transformadoras devem chegar ao mercado. E engana-se quem acredita que isso se dará por uma IA poderosíssima, capaz de resolver qualquer coisa.

Segundo um ditado popular, “os melhores perfumes estão nos pequenos frascos”. Talvez isso também seja verdade na inteligência artificial. E, nesse caso, respondem pelo nome de “agentes”. Eles são sistemas que usam a IA para realizar tarefas específicas de maneira autônoma, com pouca ou nenhuma dependência de um ser humano. Agem de maneira contínua, monitorando o ambiente e analisando dados para tomar decisões seguindo o que lhes foi pedido.

Especializados em uma tarefa e alimentados por dados controlados, os agentes tendem a ser mais baratos e mais confiáveis que um grande LLM, como o ChatGPT, ainda sujeito a suas “alucinações”, quando responde bobagens quando não sabe o que dizer. O desafio agora é tornar a criação desses agentes um processo mais simples.

Claro que continuaremos nos maravilhando com novas aplicações da IA generativa, mas será uma grande notícia vê-la finalmente transformando os negócios.


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Para Adriana Aroulho, presidente da SAP Brasil, “2025 será um ano em que o foco permanecerá na Inteligência Artificial Generativa, mas com o diferencial de transformar expectativas em resultados práticos.” Essa percepção é compartilhada por Marco Stefanini, fundador e CEO Global do Grupo Stefanini. Segundo ele, “uma coisa é você implementar IA, outra é você realmente utilizar IA no dia a dia, adotar a solução que realmente fará diferença no seu negócio.”

Esse deve ser também o ano em que o hype, a excitação em torno dessa tecnologia dará espaço a aplicações estruturadas, com resultados mais bem planejados. O tempo de usar grandes IAs “genéricas”, como o ChatGPT, para se resolver soluções empresariais vai ficando para trás.

“As empresas vão dizer: ‘inteligência artificial é legal, mas eu vou aplicá-la criando agentes muito específicos”, afirma Gilson Magalhães, diretor-geral da Red Hat Latin America. Ele explica que esses sistemas, apesar de limitados a uma tarefa, trazem grande ganhos ao negócio. “Ao usar uma quantidade de dados controlada, num ambiente controlado, ele assumirá uma função que era manual e foi automatizada.”

É preciso que fique claro que não se trata de mera automação, existente há décadas. De fato, uma das diferenças da inteligência artificial para um programa convencional de computador é tomar decisões como um ser humano, especialmente diante de imprevistos, a partir do que sabe e do que se espera dela. Um software convencional não consegue fazer isso.

Marcelo Flores, gerente-geral da consultoria da IBM Brasil, inventou o verbo “cognitivar” para diferenciar uma coisa da outra. “Os agentes usam uma tecnologia supernova para fazer aquilo que não é só automação ou só repetição”, explica. “Isso é algo mais sofisticado, que exige cognição, por isso conseguem essa autonomia.”

Tudo isso parece incrível, mas antes de finalmente colher esses resultados, as empresas precisam cuidar de algo que também deve ganhar mais destaque em 2025: “limpar” os seus dados.

 

“Poluição digital”

Dados de baixa qualidade são um problema histórico nas empresas. Elas guardam em seus arquivos informações erradas, desatualizadas e até conflitantes. Isso pode derivar de migrações descuidadas de sistemas, coletas de informações redundantes por critérios diferentes a cada momento, departamentos que não compartilham suas informações e outros pesadelos de TI.

O problema é que nem a melhor inteligência artificial dá bons resultados se for alimentada com dados ruins. “Se a gente não corrigir os dados que estão ‘sujos’, desorganizados, perdidos, a gente não vai a lugar nenhum”, diz categoricamente Magalhães. “E essa é uma tarefa cara, difícil e demorada”, adverte.

Essa não é a única “poluição” ligada à IA. Em 2024, as empresas se deram conta das enormes demandas de recursos dessa tecnologia. Estudo divulgado em novembro pela consultoria Gartner indicou que, nos próximos dois anos, o consumo dos data centers de IA deve crescer até 160%, atingindo 500 terawatts-hora (TWh) por ano. Como comparação, em 2022, a cidade de São Paulo consumiu “apenas” 21,18 TWh.

“Estamos vivendo tempos desafiadores, especialmente com a crise climática nos pressionando a agir”, alerta Aroulho. Por isso, ela afirma que a SAP “renovará o compromisso com a inovação aberta e a sustentabilidade.”

Dados “sujos” e impactos ambientais demonstram como uma tecnologia tão poderosa como a inteligência artificial custa muito caro. Ninguém quer se preocupar com os gastos de conversar com o ChatGPT, mas eles existem e são altos.

“A tecnologia força as pessoas a se reinventarem”, afirma Flores. Para ele, “as empresas têm acesso a tecnologias mais disruptivas, que respondem muitas perguntas, mas, no final, a transformação vem das pessoas”.

Stefanini adverte que “2025 e 2026 serão anos de adoção mais massiva da IA nas empresas”, que permitirá, como já explicado, que comecem finalmente a colher grandes benefícios dessa tecnologia. E isso é muito bom!

Mas temos que cuidar também das discussões associadas a todos esses benefícios. Os próximos 12 meses abrirão espaço para isso. Resta saber quem aparecerá para conversar sobre uma IA mais sustentável. Mas uma coisa é certa: “não existe almoço grátis”.