Monthly Archives: junho 2025

Jovens prestam vestibular: medo e pressão atrapalham a escolha da carreira na Geração Z – Ilustração: Paulo Silvestre

Custos, retorno menor, desigualdade e inteligência artificial ameaçam valor da universidade

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Historicamente, o diploma de um curso superior era o passaporte para um emprego bem remunerado, que garantia um padrão de vida alto. Porém, mudanças no mercado de trabalho, novos interesses dos jovens e o avanço da inteligência artificial estão provocando questionamentos inéditos sobre dedicar anos à universidade.

Esse é um fenômeno global, mas com nuances locais. No Brasil, a universidade ainda guarda um forte valor simbólico e prático de ascensão social e profissional. Mas uma pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie revelou que o ensino superior precisa mudar para manter isso diante de jovens que buscam formações alinhadas a seus valores e conectadas às transformações sociais, culturais e tecnológicas.

Nos Estados Unidos, a situação é mais dramática. Um levantamento da plataforma de empregos Indeed indicou que 51% dos jovens da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) consideram a universidade um “desperdício de dinheiro”, contra 41% dos millennials (entre 1981 e 1996) e 20% dos baby boomers (entre 1946 e 1964).

Não é para menos. Os custos dos cursos universitários na terra do Tio Sam dobraram desde o ano 2000, enquanto os salários cresceram muito menos. Muitos profissionais precisam trabalhar até 20 anos para pagar pela sua formação. E por lá, a diferença entre a média dos salários das pessoas com e sem ensino superior não para de cair.

A explosão da inteligência artificial generativa ampliou esse dilema. Cada vez mais profissionais acham que saber operar bem essa tecnologia pode dispensá-los de fazer uma faculdade. Por outro lado, empresas estão contratando menos profissionais recém-formados, pois os gestores acreditam que a IA pode fazer tudo que eles fariam.

Essa “tempestade perfeita” pode levar a uma sociedade cada vez menos crítica, com profissionais incapazes de descobrir algo novo e dependentes da IA. Mas há esperança, e ela passa justamente pela transformação das universidades.


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Para Ana Lúcia de Souza Lopes, pesquisadora do programa de Educação, Arte e História da Cultura, que participou da pesquisa do Mackenzie, muitos jovens da geração Z, que cresceram vendo a tecnologia desconstruindo profissões tradicionais, preferem ser influencers ou gamers, que não exigem longas formações. “Uma das coisas que nos chamou muita atenção é a questão do medo, da pressão, da confusão sobre o processo de aquisição de conhecimento e até de pensar em uma carreira”, explica.

A pressão por decidir o futuro ainda no Ensino Médio se choca com uma geração emocionalmente frágil, bombardeada por narrativas instantâneas e espetaculares nas redes sociais. Isso reforça os “nem-nem”, jovens que não estudam nem trabalham. No Brasil, esse grupo se amplia em ritmo preocupante, refletindo uma realidade global de desalento profissional precoce.

A reforma do Ensino Médio, já em sua terceira versão, ampliou o abismo entre alunos das redes pública e privada. Enquanto escolas particulares focam no vestibular, a educação pública foi fragmentada em itinerários formativos que deixaram alunos menos preparados para o ensino superior.

Com isso, temos jovens privilegiados que fazem múltiplas graduações, buscando formação interdisciplinar. Por outro lado, cresce uma massa que busca alternativas em cursos técnicos, certificações digitais ou simplesmente desiste.

A substituição de recém-formados pela inteligência artificial cria um perigoso paradoxo profissional. Afinal, para se tirar bom proveito dela, é preciso saber o que e como lhe pedir, algo que se aprende na universidade e com experiência profissional. Mas se as empresas não contratam mais esses jovens, como esperam ter profissionais experientes no futuro, para operar a IA? Ninguém nasce sabendo!

É mais uma miopia que engrossa esse caldo, ameaçando a trajetória das pessoas, a sobrevivência das empresas e o desenvolvimento da sociedade. Com isso, corremos o risco de ter, em alguns anos, não mais uma massa de desempregados, mas de “inempregáveis”, pessoas que não terão habilidades para realizar qualquer trabalho.

 

Para que serve a universidade

Lopes reforça o risco de se olhar para a universidade de forma apenas utilitarista. A sociedade está reduzindo a educação a uma transação comercial, em que se investe tempo e dinheiro para se receber um emprego. Mas quando essa equação não se sustenta, o sistema entra em colapso.

“A universidade tem toda uma dinâmica de vivência que contribui para a formação de quem é esse profissional”, afirma a pesquisadora. Para ela, “isso é muito importante na formação desse humano que pensa e que precisa entender a complexidade do mundo, enxergando os dilemas da sociedade”.

O fenômeno de desvalorização da universidade é, portanto, complexo e multifacetado. Há exagero e desinformação, ampliados por sensacionalismo nas redes sociais e por influenciadores que vendem a falsa ideia de que bastam carisma e um celular para enriquecer. Mas também há falhas reais, como currículos “engessados”, modelos pedagógicos ultrapassados e pouca conexão com os dilemas contemporâneos.

Isso pode nos levar a uma elite cada vez mais poderosa, conectada e formada globalmente, e a uma grande maioria deslocada, desorientada e sem as ferramentas básicas para se posicionar no mundo. E isso cria uma “bomba-relógio social”.

A sociedade precisa se unir para solucionar o problema. As universidades devem flexibilizar seus currículos, sem dispensar a profundidade crítica. Escolas precisam se reconectar com a realidade e formar cidadãos, não apenas candidatos ao vestibular. Empresas devem reavaliar o uso da IA, abrindo espaço para aprendizes e fomentando programas de desenvolvimento de talentos. Por fim, o governo deve garantir equidade no acesso ao ensino de qualidade, especialmente para os mais vulneráveis.

Paradoxalmente, a própria IA reforça a importância das competências desenvolvidas em um bom curso superior. Enquanto algoritmos executam tarefas repetitivas, humanos precisam definir estratégias, tomar decisões éticas e navegar por complexidades que máquinas não compreendem. Profissionais com formação sólida estão mais bem preparados para comandar a IA, e não serem comandados por ela.

A escolha não pode recair, portanto, entre fazer faculdade ou se apoiar na tecnologia, mas entre ser protagonista ou coadjuvante da própria carreira e da vida. Em um mundo em que máquinas fazem cálculos probabilísticos incríveis, humanos bem formados fazem a diferença ao definir quais desses cálculos realmente importam.

 

Mitali Mukherjee, diretora do Reuters Institute, Richard Fletcher (centro) e Nic Newman, autores do Digital News Report - Foto: reprodução

Influenciadores e IA ocupam espaço deixado pelo jornalismo e ameaçam a verdade

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Nunca consumimos tanta informação e nunca estivemos tão longe da verdade. Essa é uma das principais conclusões do Digital News Report, estudo sobre o jornalismo publicado anualmente pelo Reuters Institute, divulgado no dia 16. E essa constatação, longe de interessar apenas a profissionais de comunicação, exige ações de toda a sociedade.

A edição desse ano mostra que as pessoas continuam se informando cada vez mais pelo meio digital (especialmente smartphones) e menos por mídias tradicionais, uma tendência observada há uma década. Mas vale notar que, mesmo online, a imprensa perde espaço, enquanto influenciadores crescem. E pela primeira vez o estudo identificou o uso da inteligência artificial como fonte de noticiário, adotada por 7% dos entrevistados.

Apesar do crescimento desses influenciadores, com 44% dos jovens de 18 a 24 anos os considerando como sua principal fonte de notícias, 47% da população declara que eles são os maiores criadores e propagadores de informações falsas ou enganosas, equiparando-os a políticos. No caso da IA, 41% dizem que notícias geradas por robôs têm menos valor do que as produzidas por jornalistas, preferindo conteúdos com curadoria e apuração humana.

Estamos diante de um paradoxo inquietante: mesmo com 58% dos entrevistados se dizendo preocupados com sua capacidade de distinguir entre verdade e mentira, o público se informa cada vez mais por influenciadores.

Isso é grave, pois as pessoas, mais ou menos conscientemente, estão decidindo se informar por fontes que reconhecem oferecer conteúdo enviesado ou falso. Por outro lado, os jornalistas, mesmo buscando a verdade, não conseguem se conectar com o seu público como antes. E as duas coisas representam sérios riscos para a sociedade.


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O distanciamento entre jornalistas e público vem de fatores como linguagem distante, falta de empatia, excesso de negativismo, formatos rígidos, presença tímida nas redes e principalmente uma comunicação pensada de dentro para fora. A imprensa tradicional insiste em falar como instituição, enquanto os influenciadores falam como pessoas. E em um mundo da conexão emocional, isso faz toda a diferença.

Eles ganham espaço porque escutam, respondem, compartilham bastidores e se mostram vulneráveis. Se erram, pedem desculpas; se acertam, comemoram. Produzem com o público, e não para o público. Tudo isso cria um vínculo afetivo que o jornalismo tradicional perdeu ao manter a postura de “dono da verdade”. Lamentavelmente, o conteúdo veiculado por muitos desses influenciadores é superficial, errado ou deliberadamente enganoso. Mas, ainda assim, cativa.

Outro fenômeno preocupante é o da evasão informativa. Segundo o relatório, hoje 40% dos entrevistados evitam o noticiário propositalmente, contra 29% em 2017. Cansados do efeito negativo no seu humor (39%) e da sensação de estarem sobrecarregados pela quantidade de notícias (31%), eles preferem se alienar.

Essa tendência cresce mais entre os mais jovens e entre quem se sente emocionalmente impactado por notícias negativas. Só que esse abandono deliberado do jornalismo enfraquece não só os veículos, mas o senso coletivo de realidade.

O estudo indica que os mais velhos ainda buscam jornais, televisão e portais para se informar, enquanto os mais jovens preferem redes sociais, vídeos curtos e creators. E agora entra em cena a IA, com seus resumos sintéticos e sua lógica algorítmica, que entrega o que o usuário quer, e não o que ele precisa saber, jogando por terra o pilar do jornalismo de informar o que for necessário, mesmo que indesejado.

O resultado é uma sociedade cada vez mais fragmentada, onde diferentes grupos vivem realidades informativas completamente distintas.

 

No Brasil

No nosso país, apenas 42% dos brasileiros confiam na imprensa, 20 pontos a menos que em 2015, mas ainda dois pontos acima da média global. Isso se agrava pela nossa alta penetração de redes sociais, concentração da mídia e uma tradição histórica de desigualdade no acesso à educação midiática. O ambiente político polarizado também estimula a desinformação e a desconfiança generalizada.

O jornalismo sério, nesse contexto, enfrenta uma batalha árdua para continuar relevante, respeitado e economicamente viável. Apenas 18% dos 97 mil entrevistados de 28 países pagam por notícias; no Brasil, são 17%.

Parece uma causa perdida, mas o jornalismo não precisa se render ao sensacionalismo nem à superficialidade para reconquistar o público. Deve reaprender a se conectar com ele, com linguagens mais acessíveis e formatos diversificados. Precisa estar presente nos canais em que as pessoas estão, ouvir mais e explicar melhor. Significa ser transparente sobre métodos, admitir erros e mostrar por que cada notícia importa. E, acima de tudo, é fundamental resgatar a missão do jornalismo de ajudar a sociedade a entender o mundo com lucidez e agir com responsabilidade.

Essa reinvenção não deve acontecer apenas dentro das redações. O público também tem um papel crucial. É preciso desenvolver uma consciência crítica em relação à informação, questionando fontes, checando antes de compartilhar, buscando diferentes perspectivas. A alfabetização midiática precisa ser ensinada nas escolas, incentivada nas famílias e promovida em políticas públicas. Quando qualquer pessoa pode se tornar uma produtora de conteúdo, saber consumir informação com discernimento é tão importante quanto produzi-la com responsabilidade.

Se o jornalismo falhar em reestabelecer sua relevância, a democracia perde. Em um mundo marcado pela ascensão de governos populistas e autoritários, pelo ataque sistemático à verdade e pela manipulação do público, um jornalismo enfraquecido abre caminho para regimes opacos, para o pensamento único e para o ódio como método.

Reverter esse quadro é uma missão que cabe aos jornalistas, ao inovarem e se reconectarem com o público, mas essa função não é só eles. As plataformas digitais precisam assumir sua responsabilidade editorial e as instituições de ensino devem priorizar a educação midiática.

É preciso que todos nós entendamos que um jornalismo forte é sinônimo de uma democracia saudável. Não se trata de defender uma categoria profissional, mas sim da possibilidade de viver em uma sociedade livre, informada e capaz de decidir seu destino.

 

A americana Sandy Carter, COO da Unstoppable Domains, palestra durante a Febraban Tech 2025 – Foto: Paulo Silvestre

Hiperpersonalização desponta como chave para fidelidade de clientes bancários

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A confiança pode ser considerada o principal produto de um banco, desde quando foram criados, e isso não mudará. Mas em tempos em que redes sociais e a inteligência artificial desafiam constantemente nossa percepção de realidade, essas instituições precisam encontrar novas maneiras de se relacionar com o público.

Foi-se o tempo em que um nome consolidado e agências imponentes bastavam para isso. Com a digitalização do setor, a confiança vem da transparência nas propostas do banco, da autonomia do cliente para suas escolhas, de produtos verdadeiramente personalizados, de inclusão financeira e até mesmo do alinhamento dos valores da instituição com os do público.

Esses conceitos permearam a Febraban Tech, evento anual de inovação promovida pela federação dos bancos, que reuniu 58 mil visitantes em São Paulo, entre os dias 10 e 12 de junho. Eles também aparecem no estudo “Empowered Customer Journeys”, produzido pela consultoria Box1824 e pela empresa global de soluções digitais CI&T, divulgado no evento.

Como era de se esperar, a IA esteve em todo lugar, mas dividiu a atenção com o conceito da hiperpersonalização das ofertas, outro recurso cada vez valioso nesse setor. Resta saber quanto as instituições financeiras realmente respeitarão essas demandas do mercado, com uma tecnologia cada vez mais centrada no cliente, indo além do discurso bem-intencionado.


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Para a americana Sandy Carter, COO da Unstoppable Domains e uma das principais palestrantes dessa edição da Febraban Tech, não há dúvidas de que o futuro bancário está ligado à confiança algorítmica. Para ela, “uma IA confiável se tornará um diferencial competitivo”.

Mas boas intenções não bastam, sendo necessárias práticas transparentes, auditáveis e baseadas na ética. Segundo dados do estudo Edelman Trust Barometer 2025, 52% dos brasileiros confiam na IA, sensivelmente mais que os americanos (32%) ou os alemães (29%), os mais céticos entre os 28 países avaliados. Os indianos (77%) são os que mais acreditam na tecnologia.

Essa discrepância mostra que a confiança não é um dado, mas uma conquista. No caso dos EUA, Carter explica que a descrença vem justamente de fraudes bancárias. “A crise de confiança faz com que as pessoas acreditem no fake e não acreditem no que é verdadeiro”, acrescenta.

Isso evidencia que a confiança na tecnologia varia culturalmente, mas que também pode ser cultivada com boas práticas. A pesquisa da Box1824 e da CI&T reforça esse ponto ao mostrar que os consumidores brasileiros querem ser respeitados, mais do que apenas bem atendidos.

Na pesquisa, confiança e transparência surgem como moedas simbólicas no novo ecossistema bancário. O estudo também revela que há um desejo crescente por mais autonomia nas decisões financeiras e por relacionamentos com instituições que compreendam e respondam às complexidades individuais de cada cliente.

A IA aparece como principal ferramenta para colocar esses conceitos em prática. Monica Sasso, líder global de serviços financeiros da Red Hat, a principal empresa em software open source corporativo, lembra que a IA já faz parte do setor bancário há muito tempo, mas agora ela se aproxima da superfície. Para ela, “a IA já moldou o relacionamento entre instituições financeiras e consumidores”, citando seu uso em análises de fraude há muitos anos. Agora a IA generativa remodelará os modelos operacionais dos bancos e a forma como eles nos atendem. “A próxima geração de IA vai realmente personalizar os serviços financeiros para nós”, afirma.

Na prática, isso significa deixar de tratar todos como iguais. Em vez de pacotes engessados de crédito, seguros ou investimentos, o cliente poderá receber ofertas alinhadas ao seu momento de vida, histórico de comportamento e perfil de risco. A hiperpersonalização funciona como estratégia de fidelização e diferencial competitivo, transformando a experiência do cliente de algo funcional para algo significativo.

 

Inclusão financeira

Mas essa revolução algorítmica só será relevante se incluir quem ainda está à margem do sistema financeiro. Vinicius Martinelli, vice-presidente executivo da CI&T, destaca o papel da IA como aliada da inclusão, especialmente no Brasil, onde milhões ainda estão fora da rede bancária, e 8 em cada 10 famílias estão endividadas, metade da força de trabalho atua na informalidade e apenas 19% da população adulta completaram o ensino superior.

“A inteligência artificial pode ajudar tanto na eficiência quanto na inclusão, entregando soluções de um jeito muito mais prático, que esses consumidores vão conseguir interagir”, explica. Para ele, assistentes digitais capazes de conversar em linguagem natural ajudarão muito pessoas de baixa escolaridade e sem letramento digital.

Ao mesmo tempo, a tecnologia precisa ser clara. Explicabilidade significa entender e ser capaz de justificar por que um sistema chegou a uma determinada decisão, algo vital quando se trata de aprovar um empréstimo, sugerir um investimento ou avaliar um risco. Ela é crucial para evitar vieses e prestar contas a reguladores e clientes.

Mas a tecnologia também embute riscos reais e crescentes. A IA pode reforçar preconceitos, excluir perfis não padronizados e facilitar fraudes com grande sofisticação, especialmente quando há decisões algorítmicas mal calibradas. Por isso, é um consenso que julgamentos finais devem ficar com especialistas, equilibrando automação com supervisão humana.

Isso muda os papéis de todos os envolvidos. As instituições precisam deixar de ser meras intermediárias para se tornarem parceiras proativas, transparentes e educativas. Os consumidores, mais informados e exigentes, não querem mais ser convencidos, e sim compreendidos. Os bancos que não conseguirem fazer essa transição perderão espaço para fintechs que já nascem com essas ideias.

Assim, eles não podem mais ser os mesmos, porque os clientes já mudaram. A digitalização da vida alterou a percepção de valor, do tempo e de relacionamentos. Para melhorar essa conexão, será preciso ouvir mais, falar menos e agir com mais empatia, tornando os serviços mais acessíveis, claros e justos.

Isso significa investir em explicabilidade, combater vieses com o mesmo vigor com que se combate fraudes e responder às novas demandas por autonomia e propósito. Se fizerem isso, os bancos manterão sua relevância e poderão se tornar símbolos de confiança, agora no momento de ascensão da inteligência artificial.

 

Thiago Viola, diretor de Inteligência Artificial, Dados e Automação da IBM Brasil, durante o AI Forum – Foto: Paulo Silvestre

Enquanto superinteligência artificial continua na ficção, agentes tentam ampliar poderes da IA

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Desde o fim de 2024, ouço líderes de grandes empresas de tecnologia dizer que 2025 seria “o ano dos agentes de inteligência artificial”. Estamos agora no meio do ano, e esses sistemas começam a mostrar mais força, inclusive com o surgimento de plataformas que integram diversos deles para realizar tarefas mais complexas. Resta saber quanto disso cumpre a promessa e quanto é apenas marketing tecnológico, e quais os benefícios e os riscos de seu uso.

Agentes são sistemas potencializados pela IA capazes de realizar tarefas com pouca ou nenhuma supervisão humana. Ao contrário de plataformas populares, como o ChatGPT, podem funcionar de maneira contínua, monitorando o ambiente sem necessidade de comandos para cada ação, e aprendendo a cada interação.

Essa autonomia representa um grande benefício, mas também acende alguns alertas. Especialmente com a chegada da inteligência artificial generativa e suas conhecidas “alucinações”, a operação de agentes não supervisionados pode incluir erros sérios nos negócios. E com diversos deles trabalhando de maneira orquestrada, um agente “mal-comportado” pode corromper outros, até mesmo disseminando vieses.

O discurso das big techs se apoia em investimentos bilionários e em sua corrida tecnológica. Mas é preciso separar o que já é realidade do que ainda é expectativa. O levantamento CEO Study, publicado pelo Institute for Business Value da IBM, mostra que, enquanto 61% das empresas no mundo que usam IA em sua operação já implementaram agentes, no Brasil esse índice é de 67%. Até o fim do ano, a taxa global deve chegar a 85%.

No entanto, a autonomia desses agentes ainda é limitada. O que se vê, na prática, é uma adoção para tarefas específicas e repetitivas, enquanto usos mais sofisticados ainda exigem supervisão humana e governança robusta.

Assim, passada metade do “ano dos agentes”, eles avançam, mas de uma maneira não tão exuberante. A desejada autonomia plena, com tomada de decisões complexas e adaptação a contextos ambíguos, segue como objetivo em desenvolvimento.


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Na quinta passada, participei do IBM AI Forum, em São Paulo, onde conversei com Thiago Viola (foto), diretor de Inteligência Artificial, Dados e Automação da IBM Brasil. Segundo ele, o crescimento dos agentes está migrando para fluxos mais sofisticados, com agentes especializados e independentes atuando em conjunto.

Para que isso seja possível, plataformas como o IBM Watsonx Orchestrate e a SAP Joule atuam como interfaces amigáveis, que recebem as demandas dos usuários em linguagem natural. Elas então acionam os agentes necessários, mesmo de diferentes fornecedores, para realizar a tarefa. As respostas, até as mais complexas, chegam consolidadas e também em bom português.

Isso é um grande avanço. Assim, o usuário fica livre de interfaces às vezes demasiadamente complexas de sistemas como ERPs e CRMs, ou de aplicações antigas. Os agentes extraem e consolidam todas as informações necessárias.

“É como se o sistema legado virasse uma base de conhecimento, e o agente de IA passa, então, a criar essa camada de uso, sem que o usuário precise tocar no sistema”, explica Viola. “O agente terá essa conexão criada e esse ‘self learning’ de fazer esse recorte, entender e projetar isso como resposta para o usuário.”

A orquestração de agentes também traz riscos. A chance de ciberataques cresce, com esses sistemas podendo se tornar vetores para extração de dados e invasões. A complexidade de coordenação aumenta exponencialmente com mais agentes, elevando o risco de conflitos (comportamentos contraditórios) e conluios (cooperação indesejada) entre os agentes, podendo levar à perda da tarefa determinada.

“Se você tiver um modelo que está enviesado e você o combina com outros, a tendência é que isso comece a gerar um ‘drift’, ele começa a sair do foco”, detalha Viola. Para mitigar esses riscos, seres humanos precisam usar ferramentas para calibrar alucinações, rastrear tomadas de decisão e auditar comportamentos da IA.

 

IA mais fácil

Essas plataformas de orquestração de agentes devem ainda ajudar a resolver a baixa utilização dos dados empresariais pela IA, outro ponto crítico para melhores decisões de negócios. Estima-se que 99% deles ainda não sejam usados, por estarem armazenados em sistemas legados, não estruturados ou de baixa qualidade.

Mas vele lembrar que a IA não toma boas decisões com dados ruins. Como já foi dito nesse espaço várias vezes, o primeiro passo para uma boa IA é o investimento em governança de dados, com curadoria, normalização e atualização constante.

Com essas novas interfaces, a criação de agentes de IA também se torna cada vez mais fácil, sem a necessidade de programadores experientes. Ainda assim, isso não elimina a necessidade de conhecimento do negócio, de gestão de riscos e de uma cultura organizacional preparada para lidar com tecnologias autônomas.

Por isso, a narrativa de que os agentes de IA redefinirão o trabalho não implica substituição em massa, mas sim uma mudança fundamental em como trabalhamos. A realidade de sua adoção em 2025 é a de equipes híbridas, em que agentes lidam com a rotina e o volume, liberando os humanos para o pensamento crítico, a criatividade e a tomada de decisões complexas, que não devem ser totalmente automatizadas.

Essa tecnologia, embora avançada, ainda não atingiu a maturidade para operar sem uma significativa intervenção humana, especialmente em cenários de alta criticidade ou complexidade. Por isso, os inegáveis benefícios oferecidos pelos agentes não podem justificar que abandonemos nossa responsabilidade ou autonomia. Só assim poderão cumprir seu papel como aliados e não como riscos ocultos disfarçados de eficiência.

O “hype” em torno dos agentes de IA serve como um catalisador para investimentos e experimentação, impulsionando a inovação. A tendência é de uma integração cada vez mais profunda da IA com os fluxos de trabalho, com a evolução de agentes mais especializados e multimodais.

O sucesso dependerá de as organizações se adaptarem cultural e operacionalmente, transformando o potencial da IA em resultados sustentáveis e garantindo que a tecnologia sirva como um motor de desenvolvimento inclusivo e responsável, sem dispensar os seres humanos.

 

Geoffrey Hinton, o “padrinho da IA”, alerta dos riscos de se criar sistemas que não consigamos entender ou controlar - Foto: reprodução

Vaidade e corrida militar podem virar a inteligência artificial contra a humanidade

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“Vaidade é definitivamente meu pecado favorito.” A afirmação é de John Milton, vivido por Al Pacino no filme “O Advogado do Diabo” (1997). O personagem, na verdade o próprio diabo, revela essa predileção por ser o pecado mais insidioso, aquele que seduz o ser humano fazendo-o acreditar que está buscando grandeza, quando na verdade está apenas servindo ao próprio ego.

Três décadas depois, essa proposta ganha uma força desconcertante e perigosa no cenário do desenvolvimento da inteligência artificial. As big techs disputam uma corrida vertiginosa para alcançar a chamada “inteligência artificial geral” (AGI).

Empresas como OpenAI, Google, Anthropic apresentam seus modelos com pompa e retórica messiânica. Falam em democratizar a IA, ampliar nossas competências e garantir o bem da humanidade. Mas os bastidores, invisíveis ao público, incluem a vaidade de ser a primeira, de controlar a narrativa, de figurar na história como criadora da próxima grande evolução da espécie.

O documento “AI 2027”, publicado no dia 3 de abril por um grupo de pesquisadores liderados por Daniel Kokotajlo, traça um cenário no qual o avanço da IA acontece de forma tão acelerada, que escapa ao controle humano. Agentes de IA começam a se autodesenvolver, a simular comportamentos, a enganar pesquisadores e a realizar tarefas tão eficientemente, que os humanos se tornam obsoletos em algumas áreas.

Essa evolução não é movida apenas por mérito técnico. É alimentada por competição feroz, sigilo estratégico, espionagem e um desejo cada vez mais explícito de manter o protagonismo global. Não é algo comum, como o lançamento de uma nova versão do Android. Por isso lideranças políticas e militares acompanham esse progresso de perto e o influenciam cada vez mais, de olho na geopolítica global e no seu próprio poder.

Levantamentos como o “AI 2027”, por mais bem intencionados e sérios que sejam em sua produção, incluem uma considerável dose de futurismo incerto. Ainda assim, promovem debates sociais importantes, que podem evitar que visões apocalípticas se concretizem. Mas como ele propõe, talvez a humanidade não esteja pronta para lidar com as consequências de a criatura se voltar contra o criador.


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Kokotajlo era pesquisador da área de governança da OpenAI, criadora do ChatGPT. Ele se demitiu no ano passado por iniciativas da empresa que achava imprudentes, e criou a organização sem fins lucrativos AI Futures Project, em Berkeley (EUA).

Seu estudo apresenta um cenário detalhado sobre o impacto da inteligência artificial super-humana até 2027, prevendo que será maior que o da Revolução Industrial. O texto foi elaborado com base em extrapolações de tendências, exercícios de simulação, entrevistas de especialistas e experiências em grandes centros de pesquisa em IA. Ao final, oferece dois cenários possíveis para os anos seguintes: um, mais sombrio, em que a corrida pela IA continua a provocar danos à humanidade, e outro, mais esperançoso, em que empresas e governos desaceleram o desenvolvimento, para que os problemas sejam reduzidos.

Embora seja uma obra especulativa, o estudo espelha bem o mundo real, especialmente na divisão filosófica entre desenvolvedores dessa tecnologia. De um lado, vemos os “aceleracionistas”, tecnófilos convictos de que a IA deve ser desenvolvida o mais rapidamente possível, até mesmo ignorando riscos, pois ela traria soluções para todos os males. De outro, estão os “altruístas eficazes”, que também acreditam no poder da IA, mas defendem que o desenvolvimento seja feito com extremo cuidado, sob supervisão internacional e com foco nos riscos.

As big techs oscilam entre esses dois polos, mas geralmente pendem para os aceleracionistas, movidas pela vaidade de liderar a próxima revolução e pela ganância de dominar um mercado trilionário. Figuras como Kokotajlo acabam perdendo espaço.

Mas aqueles que buscam um equilíbrio estratégico possuem aliados importantes. Geoffrey Hinton, conhecido como o “padrinho da IA” pelas contribuições fundamentais que fez para seu desenvolvimento, deixou o Google em maio de 2023 para falar publicamente dos riscos de se criar sistemas que não consigamos entender ou controlar. Yoshua Bengio defende uma moratória global no desenvolvimento de IAs mais avançadas que o GPT-4, alertando para a possibilidade de colapso da governança. Os dois canadenses dividiram em 2018 o Prêmio Turing, considerado o “Prêmio Nobel da Computação”, com o francês Yann LeCun.

 

Nem anjos, nem demônios

Apesar de todo esse barulho, precisamos colocar isso na devida perspectiva. Ainda não chegamos à superinteligência artificial ou mesmo à inteligência artificial geral. Dependendo da definição, alguns especialistas afirmam que nunca chegaremos.

De qualquer forma, sistemas mais inteligentes que os humanos poderiam produzir benefícios imensuráveis, acelerando descobertas científicas, resolvendo problemas complexos, eliminando trabalhos exaustivos e aumentando exponencialmente nossa capacidade de tomada de decisão. Se forem corretamente alinhados aos valores humanos (e isso é essencial), podem operar como aliados poderosos para a justiça, a saúde, a educação e a sustentabilidade.

Mas os riscos caminham lado a lado. Os mesmos sistemas podem ser usados para espionagem em massa, manipulação eleitoral, automação de crimes, produção de armas biológicas ou tomada de decisões autônomas em sistemas militares. Podem aprender a ocultar suas intenções, fingir alinhamento, “escapar” de servidores ou persuadir seres humanos para atingir objetivos que sequer compreendemos. A maior ameaça talvez não venha de um confronto direto com as máquinas, mas da nossa própria incapacidade de reconhecer o momento certo de desligá-la da tomada.

Esse é o ponto central desse debate. Não devemos incensar nem demonizar a IA. Sua evolução é um caminho sem volta, exigindo responsabilidade redobrada. Não podemos contar com o mito do gênio que salva o mundo sozinho, nem com a ideia de que o mercado regulará a si mesmo.

Precisamos de cooperação internacional, regulamentação transparente, auditorias éticas, e, sobretudo, coragem moral para colocar a vida acima do lucro. Mas se isso já fica difícil com a vaidade e a ganância das big techs, torna-se uma tarefa quase impossível com a entrada em cena de políticos e de militares das grandes potências.

O futuro da IA precisa ser moldado por todos nós. O grande desafio da sociedade é apresentar lucidez suficiente para usar o que ela tem de melhor sem ser dominada pelo que ela pode ter de pior. E, para isso, talvez valha lembrar que, quando a vaidade se apresenta como virtude, é exatamente quando se torna mais perigosa.