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Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, que quer flexibilizar leis digitais - Foto: Parlamento Europeu/Creative Commons

Europa cede às pressões das big techs e flexibiliza suas leis digitais

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No dia 18, a Comissão Europeia publicou uma proposta para flexibilizar suas diferentes legislações para plataformas digitais. Batizada de “Digital Omnibus”, ela retira diversas limitações para empresas que operam no continente para desenvolver plataformas de inteligência artificial. É uma tentativa de tornar seus produtos competitivos frente aos concorrentes americanos e chineses, criados praticamente sem restrição e com forte apoio governamental.

A decisão vai ao encontro de demandas das empresas do bloco e tenta garantir que a Europa não fique de fora de um mercado digital trilionário, que chacoalha a balança geopolítica, mas também cede a pressões das big techs do outro lado do Atlântico. Apesar de seus benefícios inegáveis, o anúncio desperta temores entre especialistas e organismos de proteção de direitos individuais.

O principal risco é a enorme erosão da privacidade como direito fundamental. Ao facilitar o uso de dados pessoais para o treinamento de modelos de IA, a Europa sinaliza que a intimidade do cidadão pode ser convertida em combustível para máquinas, sob a justificativa do progresso econômico, criando uma zona cinzenta onde o consentimento se torna uma formalidade obsoleta.

Globalmente, isso pode criar um “Efeito Bruxelas reverso”. Se a União Europeia, até então o farol mundial da regulamentação ética, capitular, a corrida global para o fundo do poço regulatório aumentará. Nações emergentes, como o Brasil, podem se sentir pressionadas a desmantelar suas próprias proteções para atrair investimentos, subjugando direitos humanos aos interesses corporativos.

O questionamento inevitável é se a privacidade se tornou um luxo incompatível com a inovação tecnológica e se estamos aceitando passivamente que a dignidade humana seja o preço a pagar pela conveniência digital.


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O momento dessa proposta não é coincidência. Nos últimos meses, o governo dos EUA intensificou críticas às regulações europeias, acusando-as de mirar injustamente empresas americanas. Paralelamente, relatórios locais alertam que a Europa perdeu terreno na corrida tecnológica e precisa urgentemente simplificar suas regras. A proposta agora segue para análise do Parlamento Europeu e dos países-membros, em um processo que pode levar meses e sofrer alterações significativas.

O destaque é a mudança no conceito de dados pessoais no GDPR, a lei de proteção de dados europeia. As informações só seriam consideradas “pessoais” para uma entidade se ela tiver meios razoáveis de identificar o indivíduo. Na prática, isso permite que empresas usem dados pseudonimizados (dados pessoais com identificadores substituídos, mas reversíveis) sem as restrições atuais, ampliando dramaticamente o volume de informações disponíveis para treinar modelos de IA.

A proposta também cria exceções para o processamento de dados sensíveis, como informações sobre saúde, orientação sexual e convicções políticas, para o treinamento de sistemas de IA. Isso representa uma flexibilização substancial das proteções, pois, uma vez dentro da “caixa preta” do algoritmo, será impossível remover ou auditar esses dados, representando um retrocesso de décadas na luta pela privacidade. Além disso, a implantação das regras mais estritas sobre “IA de alto risco”, que deveria acontecer em agosto de 2026, é jogada para dezembro de 2027.

Custos de compliance devem cair bilhões de euros, startups terão menos barreiras e gigantes do setor, que reclamam das travas legais, ganharão fôlego para competir. Mas a dúvida é se isso basta para tirar a Europa do atraso. Afinal, nenhuma mudança legal compensará dez anos de hesitação enquanto EUA e China expandiram seus modelos e capturaram mercados globais. E mesmo com as flexibilizações, a Europa ainda manteria proteções substancialmente mais robustas que seus concorrentes.

Por outro lado, defensores da privacidade alertam que dados pessoais serão entregues a gigantes como OpenAI, Meta, Google e Amazon, permitindo que sistemas de IA conheçam detalhes íntimos e, consequentemente, manipulem pessoas. A mudança no conceito de dados pessoais pode criar brechas legais para que empresas argumentem que não possuem “meios razoáveis de identificação”, mesmo quando essa capacidade tecnicamente exista.

 

Influência global

Muita gente aplaude a proposta, motivada por interesse direto no afrouxamento das regras ou seduzida pela retórica fácil de que regulamentação é inimiga da inovação. Porém, ela não é um obstáculo, mas uma salvaguarda civilizatória que define limites para proteger cidadãos diante de poderes econômicos cada vez mais concentrados. O desafio é calibrá-la, e não a desmontar.

Países como o Brasil devem observar essa guinada europeia e ajustar suas legislações para fomentar IAs nacionais robustas, utilizando seus próprios dados e cultura, mas mantendo proteções que impeçam o abuso corporativo. A regulamentação deve ser equilibrada, resistindo a um excesso paralisante e a uma frouxidão irresponsável.

As big techs conseguiram acesso facilitado a dados, menos fiscalização e mais tempo para adequação às regras, com o apoio explícito dos EUA. Agora, a sociedade civil tem um papel crucial de vigilância. É preciso dissecar essa proposta para garantir que a inovação não esconda uma vigilância irrestrita. Cada cidadão deve questionar se a promessa de uma IA eficiente vale a entrega de seus dados mais íntimos.

Se a Europa abandonar mesmo sua vocação de guardiã dos direitos digitais, o vácuo será preenchido por interesses que não convergem com os da humanidade. O continente construiu sua reputação como baluarte da proteção desses direitos justamente por resistir a pressões econômicas e geopolíticas em favor de princípios.

Abandonar essa posição pode render ganhos econômicos, mas ao custo da confiança de que existe, ao menos em algum lugar do mundo, um compromisso inabalável com a dignidade humana frente a poderes corporativo e políticos desmedidos. O desafio é descobrir se ainda é possível competir economicamente sem sacrificar valores fundamentais, ou se essa sempre foi uma ilusão confortável que não sobrevive ao confronto com a realidade do capitalismo digital selvagem e desenfreado.

 

O jornalista e pesquisador Rodrigo Mesquita, durante do evento “O jornalismo entre a sobrevivência e a relevância” - Foto: reprodução

Enquanto o digital achata a crítica, o jornalismo deve revalorizar o pensamento

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Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas nunca fomos tão manipulados. Em 15 anos, as big techs tomaram de assalto o debate público, sem qualquer contrapeso democrático, guiadas pela busca de lucro que atropela até o bem-estar dos usuários. Enquanto isso, o jornalismo, a instituição democrática mais talhada para impedir abusos de poder, perdeu seu papel de mediador. O resultado é um ambiente em que a verdade compete com a engenharia do engajamento e, na maioria das vezes, perde.

Esse foi o eixo do evento “O jornalismo entre a sobrevivência e a relevância”, que aconteceu no dia 13, organizado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP. O debate foi construído a partir do artigo “Crise do jornalismo deixou terreno fértil para erosão da democracia”, do jornalista e pesquisador Rodrigo Mesquita, que lá estava.

A Internet comercial surgiu em 1995, com a promessa de ser um bem-vindo canal de comunicação democrático e desintermediado. Mas esse ideal idílico caiu por terra em poucos anos, com as plataformas digitais capturando, com seus algoritmos, desejos e sentimentos de toda a humanidade, transformando-os em uma máquina de convencimento eficientíssima, muito maior que a própria mídia, governos e religiões.

O jornalismo, que até então organizava a informação cotidiana do mundo e promovia o debate para que as pessoas construíssem sua sociedade, ficou paralisado. Por um misto de arrogância e incompreensão de que seu público não aceitava mais informação unilateral, ainda sofre para lhe oferecer uma experiência participativa.

A mídia também é um negócio, com poucas empresas importantes controlando muito do que se noticia. Mas elas obedecem a regras claras de funcionamento, que protegem a sociedade. As big techs, por outro lado, apesar de serem muitíssimo mais poderosas, não cansam de demonstrar seu desprezo por qualquer instrumento democrático que ameace minimamente seus lucros.

Diante disso, passa da hora de descobrirmos quem controla hoje a esfera pública e como fazer com que, seja lá quem for, necessariamente trabalhe para os cidadãos.


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“A informação deixou de ser um serviço público e passou a ser um insumo para modelos de negócios baseados na vigilância e na previsibilidade do comportamento humano”, afirmou Mesquita, em sua fala de abertura. Para ele, “o que está em jogo é mais do que a sobrevivência do jornalismo: é a reconstrução das formas de mediação que sustentam a democracia”.

E lembrou que, apesar de as big techs adotarem um discurso de neutralidade, seus algoritmos são exatamente o oposto disso. Eles manipulam o público em escala industrial, para garantir unicamente os seus interesses, recusando qualquer controle.

“Foi brutal a metamorfose das promessas de transparência e liberdade expressiva das redes sociais na disseminação do ódio, dos cancelamentos, da guerra cultural, das narrativas conspiratórias e dos extremos destrutivos”, acrescentou Lucia Santaella, professora da PUC-SP. Segundo a professora, uma autoridade global em semiótica, “tudo isso é aliado à monetização da presença, ao capitalismo comunicacional, que transforma qualquer virtude em manipulação consentida”.

Os diferentes pesquisadores que debateram o assunto em diversas mesas ao longo do dia concordam que essa distopia informacional reforça o valor social do jornalismo, mas reconhecem que ele atua em franca desvantagem. “As grandes redações ainda são referências de verificação e responsabilidade pública, essenciais para o debate democrático”, disse Mesquita. “Mas disputam atenção dentro de um sistema projetado não para informar, mas para reter o usuário no ciclo da monetização.”

“A arrogância impediu que as redações e as empresas entendessem o que vinha pela frente”, afirmou o jornalista Eugenio Bucci, professor da USP. “Mas à parte dessa face econômica e dessa face tecnológica, a crise da imprensa é uma crise de pensamento”, sugeriu.

De fato, quando o papel do jornalismo de ajudar a sociedade a se organizar com informações de qualidade se enfraquece, ele perde parte de sua razão de existir. Isso fortalece os grupos de poder que se beneficiam da desinformação e que, por isso, justamente combatem a imprensa.

 

Instituições sob ataque

O jornalismo é uma força civilizatória por oferecer elementos para que a sociedade se reconheça, converse consigo mesma e melhore a partir de informações confiáveis. As redes sociais, por sua vez, vampirizam a mesma sociedade, pois dependem de tecnologias de segmentação e de vigilância, que fragmentam a conversa pública e dissolvem o terreno comum da deliberação para construção de consensos.

Uma das maiores tragédias disso é observar diferentes instituições democráticas, como as universidades, representação política e até a Justiça, sendo forçadas a adotar essa lógica distorcida, para não serem alvejadas pelos seus públicos, polarizados e incendiados pelas redes sociais. E o jornalismo também sofre desse problema, quando critérios editoriais sérios são tragicamente subjugados por uma suposta “otimização do noticiário” que garanta audiência.

Assim, esses pilares sociais vêm sendo carcomidos pelo digital, perdendo sua essência e levando a própria democracia com eles. “Sem dispositivos concretos de accountability, toda a ética corre o risco de ser convertida em mero adereço discursivo, uma fachada moralizante que encobre, sem enfrentar, as estruturas que perpetuam as assimetrias”, afirmou Santaella. “O que se exige, em última instância, é uma prática que não apenas nomeie os problemas, mas que atue sobre eles com densidade política, coerência institucional e compromisso de cada um de nós.”

No mundo todo, e no Brasil com muita força, o meio digital se permitiu instrumentalizar para hostilidades a adversários, ataques ao jornalismo e deslegitimação de instituições. “Uma sociedade que não discute com base na razão e nos fatos os seus problemas comuns começa a discuti-los com base no fanatismo”, conclui Bucci.

Se a imprensa tivesse conseguido manter o seu papel de mediador social, a crise criada pela desinformação não teria sido tão grande. Basta observar os países escandinavos, que teimosamente combinam indicadores altos de qualidade de vida, felicidade do povo, ótima educação e uma imprensa forte e atuante.

Se desejamos resgatar uma sociedade mais civilizada e buscar uma vida melhor para todos, o jornalismo precisa deixar de ser apenas um produtor de conteúdos e retomar seu papel na reorganização da esfera pública em torno de vínculos mais legítimos e mediações mais civilizadas. Isso exige a sua reinvenção, tornando-se mais transparente e interativo, inclusive valendo-se dos recursos digitais, mas sem se submeter à lógica algorítmica.

Devemos entender que os cidadãos, mesmo os de bom nível educacional, não conseguem fazer frente ao controle das redes sociais, e isso tende a se agravar com a inteligência artificial. As big techs disfarçam seus interesses e a resistência feroz a qualquer tipo de regramento como se fossem “liberdade de expressão”. Essa é uma mentira perversa, pois faz muita gente atuar contra seus próprios interesses, em favor dos dessas empresas.

A sociedade precisa se organizar para que essa máscara caia, e os cidadãos possam usar os recursos digitais para seu benefício, sem pagar com sua própria autonomia e até saúde mental. Os mais diferentes atores sociais precisam se engajar nessa causa, incluindo, entre outros, governos e universidades.

O jornalismo, obviamente, tem papel central nisso, mas precisa fazer as suas próprias necessárias transformações. Como disse Mesquita, “essa é, em essência, a tarefa histórica do jornalismo no século XXI: reconstruir as bases cognitivas da democracia em um mundo mediado por máquinas”.

 

Aravind Srinivas, CEO da Perplexity, que lançou em julho o Comet, seu navegador com IA - Foto: Kimberly White/Creative Commons

“Terceira guerra dos navegadores” traz benefícios e riscos para todos nós

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A inteligência artificial está transformando os navegadores, o tipo de software que todos nós mais usamos. Além de exibir as páginas que queremos, essa nova geração incorpora assistentes de IA que oferecem interações contextuais, automação de tarefas e respostas inteligentes na mesma tela. Mas apesar desses benefícios, isso dispara alertas sobre invasão de privacidade e até interferência em nosso livre arbítrio.

Nesta terceira edição da “guerra dos navegadores”, programas como o Comet, da Perplexity, e o Atlas, da OpenAI, desafiam o domínio do Chrome, que reina com 65% desse mercado. O Google entrou nessa briga para não perder sua liderança, incorporando o Gemini, sua plataforma de IA, ao Chrome. Mas o gigante enfrenta o desafio de evitar que isso canibalize seu buscador, sua principal fonte de receita.

As empresas de IA querem ter seus navegadores, pois eles se tornaram o novo ponto de controle da vida digital. Passamos neles a maior parte do tempo online, portanto dominá-los significa ter acesso direto ao comportamento, às preferências e ao contexto de cada usuário. Integrar tudo o que fazemos a um agente de IA é o sonho de qualquer um que queira não apenas fornecer respostas, mas influenciar decisões.

O Google já promoveu o Chrome a um “aplicativo que faz tudo” nos seus Chromebooks, notebooks mais baratos em que o navegador é o local onde tudo funciona. Agora, com assistentes de IA interagindo com nossos e-mails, agenda, documentos, compras, relações sociais e tudo mais que fazemos online, isso vai além, tornando-se um intermediário invisível entre a vontade humana e a execução digital.

A produtividade norteia essa revolução, mas quando o navegador decide o que priorizar e até o que omitir, ele ameaça nossa autonomia. Trata-se de um deslocamento silencioso, mas profundo, na relação entre humanos e máquinas.


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Para entender a magnitude desses movimentos, vale revisitar as “guerras” anteriores. Na primeira, entre 1995 e 2001, a Microsoft esmagou o pioneiro Netscape Navigator, ao oferecer o Internet Explorer integrado gratuitamente ao Windows 95. O Netscape desabou de quase 90% do mercado para menos de 1% em uma década. Com isso, a Microsoft garantiu domínio absoluto e consolidou seu império digital.

A segunda, de 2004 a 2017, trouxe novos competidores, como Firefox, Opera e Safari, mas foi o Google Chrome, lançado em 2008, que mudou o jogo, ao oferecer leveza e integração ao buscador. Assim, rapidamente conquistou o mercado e hoje o domina com 65% de participação. Para o Google, essa vitória solidificou sua posição como a principal porta de entrada para a Internet, controlando o comportamento de busca de bilhões de pessoas e multiplicando sua receita publicitária.

Mudar hábitos é difícil, especialmente de algo tão enraizado quanto a forma de explorar a Web. O navegador é a ferramenta mais familiar que usamos online, e confiamos nele por ser estável e previsível. Mas conveniências bem desenhadas podem transformar comportamentos coletivos. Se um navegador com IA começa a lhes poupar tempo, as pessoas o adotarão rapidamente.

As vantagens para o usuário parecem claras à primeira vista. Os navegadores inteligentes podem se adaptar ao estilo de cada pessoa. A segurança também promete melhorar, com a IA identificando sites falsos, links suspeitos e comportamentos maliciosos com mais precisão, reduzindo riscos. Além disso, permite que os humanos e a IA acessem a Web simultaneamente, com o agente trabalhando em uma tarefa enquanto o usuário se concentra em outra.

Ironicamente, isso diminui a visibilidade da Internet. Os sites deixam de ser acessados e se reduzem a fontes de dados para treinar modelos de linguagem. Os usuários já começam a visitá-los menos, pois se contentam com as sínteses feitas pela IA, que escolhe, a seu critério exclusivo, o que mostrar e o que esconder. Com isso, produtores de conteúdo, veículos de imprensa e até o e-commerce podem perder dramaticamente relevância, audiência e receita, ampliando de forma exponencial o que se vê há anos com as redes sociais intermediando o consumo de informação do mundo.

Assim, a responsabilidade pelo conteúdo também muda de mãos. Antes, se o usuário não gostasse de algo, bastava fechar a aba. Porém, quando um navegador decide o que o usuário verá, torna-se coautor. Mas não se sabe quem responderá se a IA sugerir algo incorreto ou enviesado. A neutralidade informacional, princípio fundador da Web, se dilui em algoritmos proprietários e opacos.

 

Comandos obscuros

Um navegador com IA tem acesso a muito mais dados do que um “convencional”. Com o poder de inferir intenções, abre-se um campo fértil para manipulações sutis, mas poderosíssimas.

Há ainda o problema dos “prompts invisíveis”, comandos escondidos no código das páginas para manipular a IA. Um texto oculto pode instruir o navegador a elogiar um produto ou omitir críticas, por exemplo. Acrescente a coleta ampliada de dados e até como reagimos a determinados estímulos, e chegamos a um sistema que pode enviesar respostas e percepções sem que o usuário jamais perceba a manipulação.

O que era uma ferramenta de acesso à informação agora se transforma em uma estrutura de vigilância distribuída. A sociedade se vê novamente diante do dilema de como aproveitar esses recursos muito bem-vindos sem abrir mão da privacidade e da autonomia que definem a liberdade digital.

A resposta exige olhar para nossos erros recentes. Falhamos miseravelmente com as redes sociais, que nos manipulam profundamente com algoritmos opacos, alimentam vieses de confirmação e racharam a sociedade ao meio, polarizando o debate público de forma sem precedentes. Os navegadores com IA podem ampliar isso com uma camada ainda mais profunda de opacidade e influência comportamental.

Parece ser um caminho inevitável, pois a evolução tecnológica não retrocede. Mas não podemos seguir por ele passiva e inconscientemente. Desta vez, sabemos o que está em jogo e temos a chance de estabelecer regras antes que o estrago seja feito.

A sociedade precisa se organizar para aproveitar esses recursos de maneira segura, ética e produtiva. Isso significa exigir transparência sobre quais dados são coletados e como são usados. Marcos regulatórios robustos devem garantir a neutralidade, punir big techs por informações incorretas e desenvolver tecnologias de auditoria que nos permitam verificar como a IA está tomando decisões em nosso nome.

Caso contrário, os navegadores do futuro não serão janelas para o mundo, mas espelhos que refletem apenas o que os donos dos algoritmos desejam que vejamos.

 

Jensen Huang, CEO da Nvidia, apresenta novos GPUs durante a conferência GTC, em março - Foto: reprodução

Os US$ 5 trilhões da Nvidia esgarçam os limites razoáveis da IA

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No dia 29 de outubro, a Nvidia atingiu estratosféricos US$ 5 trilhões de valor de mercado. Primeira empresa a chegar a essa marca, ela é o indicador mais reluzente da importância que a inteligência artificial passou a ocupar em nossas vidas. Mas o mercado já teme que a hipervalorização das empresas ligadas à IA seja uma bolha especulativa prestes a estourar. O questionamento mais importante, entretanto, é quanto a IA seria uma tecnologia viável sem essa injeção insana de dinheiro.

A euforia é justificada pelo seu potencial transformador. A consultoria Goldman Sachs calcula que ela deve elevar o PIB global em 7% e a produtividade em 1,5% em uma década. Nesse ano, já representa cerca de 40% do crescimento do PIB americano e é responsável por 80% dos ganhos nas ações. Sem a IA, o crescimento econômico da terra do Tio Sam teria sido cerca de um terço do que o atual.

Os exageros residem na pressa do mercado em querer que a tecnologia “entregue o futuro logo”, ignorando que poucas dessas empresas são lucrativas, e que a IA ainda impacta pouco ou nada nos resultados de 95% dos que nela investem, segundo o MIT. A própria OpenAI, maior estrela do setor e criadora do ChatGPT, opera no vermelho. Além disso, seu faturamento estimado pelo mercado em US$ 13 bilhões é insignificante perto dos US$ 300 bilhões que ela se comprometeu a gastar com infraestrutura da Oracle e US$ 250 bilhões com a Microsoft em cinco anos.

As empresas investem na IA porque têm medo de ficar para trás, não porque encontraram um modelo de negócio sustentável. Tudo isso alimenta a percepção de uma bolha especulativa. O próprio Sam Altman, CEO da OpenAI, disse em agosto que o setor de IA vive em uma e que “alguém vai perder uma quantidade fenomenal de dinheiro”.

Claro que não dá mais para deixar a IA de lado: seria como acabar com a Internet. Mas manter esses investimentos sem retornos concretos pode ser financeiramente insustentável e causar um “banho de sangue” em poucos anos. Essa corrida desenfreada para “ser dono” da IA já passou dos limites.


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Fundada em 1993, a Nvidia produzia processadores gráficos para games. Mas tudo mudou quando eles se tornaram vitais para os modelos de IA generativa. Desde 2022, impulsionada pela demanda explosiva de empresas como Microsoft, Google e Meta, sua valorização saltou de US$ 400 bilhões para os atuais US$ 5 trilhões. Os pedidos já contratados até o fim de 2026 já superam US$ 500 bilhões.

Ainda assim, é preciso perguntar se alguma empresa realmente pode valer US$ 5 trilhões. O valor supera o PIB de países como Japão, Reino Unido, Índia e Brasil. Essa desproporção afeta não só os investidores, mas governos, empregos e cadeias produtivas inteiras.

Bolhas nascem quando a sociedade passa a acreditar que algo crescerá para sempre. Os fundamentos somem da conversa e são substituídos pela esperança de que o próximo anúncio renderá bilhões. Quando a realidade decide cobrar a conta, a confiança evapora e leva consigo empresas, empregos e uma montanha de dinheiro.

A história está cheia de exemplos, como a mania das tulipas do século XVII, a expansão ferroviária do século XIX, as “empresas ponto-com” no ano 2000 e as hipotecas subprime em 2008. Todas seguiram a coreografia de dinheiro abundante, inovação promissora e discursos visionários desconectados de valor concreto.

A diferença agora é que a IA já demonstra impactos reais em grandes empresas, ainda que não em todas. Alguns especialistas afirmam que estamos, na verdade, em um processo acelerado de transformação industrial que precisa de investimentos pesados. Dessa forma, mesmo que muita gente acabe perdendo fortunas em algum momento, a sociedade se beneficiaria dos resultados desses investidores.

 

Guerra de interesses

Os interesses econômicos e políticos envolvidos na IA são incomensuráveis. Jensen Huang, CEO da Nvidia, precisa manter a confiança dos investidores para que continue crescendo. Altman pode admitir a bolha porque a OpenAI sobreviverá ao estouro dela, quando comprará os destroços dos concorrentes falidos. Analistas independentes, por sua vez, não têm nada a perder, e assim podem dizer as verdades inconvenientes.

O desenvolvimento do Vale do Silício sempre dependeu de apostas arriscadas com capital abundante. Investidores despejam dinheiro em startups obscuras, esperando que uma se torne o próximo Google. Isso leva à inovação acelerada e transformação de setores inteiros, mas também concentra o poder em poucas mãos, cria desperdício de recursos e ciclos de euforia seguidos de destruição. A IA é a “bola da vez”, tratada como uma aposta gigantesca em que poucos vencerão e muitos perderão tudo.

Tornar a inteligência artificial o motor do crescimento econômico americano é simultaneamente um benefício e uma armadilha. O primeiro está na possibilidade real de aumentar a produtividade e enfrentar desafios como escassez de mão de obra e envelhecimento populacional. A segunda está na dependência excessiva de uma tecnologia ainda imatura.

Os EUA estão apostando seu futuro em chips e algoritmos. Se a IA decepcionar, o fardo da dívida pública americana se tornará insustentável, e países inteiros serão puxados para o buraco junto com as big techs.

Por isso, é urgente colocar as coisas na balança. Há fundamentos e lucros na IA, mas também há ansiedade exagerada, euforia e risco real. Precisamos saber até que ponto essa valorização extraordinária cria riqueza sustentável, e quando ela passa a sugar recursos que deveriam ser distribuídos na sociedade.

No fim das contas, o que está em jogo não é só o destino das big techs, e sim políticas públicas, soberania econômica e desigualdades digitais e sociais. A IA já é parte indelével da nossa vida. Precisamos desenvolver senso crítico sobre ela, sem tratá-la como salvação mágica ou uma fraude inevitável.

Cada um de nós precisa entender o que está por trás das promessas reluzentes. É preciso fiscalizar governos, pressionar empresas por transparência, e defender regulações que mantenham a tecnologia a serviço das pessoas, e não do ciclo interminável de valorização. Só assim a IA será, de fato, um avanço que enriqueça a humanidade, e não apenas os acionistas de meia dúzia de empresas trilionárias.