Usos banais da IA consomem recursos, enquanto empresas ainda sofrem por resultados

By 4 de maio de 2026 Tecnologia No Comments
Abacatudo e Moranguete, frutas antropomorfizadas que fazem sucesso em vídeos curtos nas redes sociais - Ilustração: Paulo Silvestre

Pouca gente pensa (ou mesmo sabe) o que se gasta de recursos para que a inteligência artificial funcione. É um erro achar que tudo é grátis ou até barato, mas essa percepção e o marketing irresponsável das empresas que desenvolvem essa tecnologia estão criando uma explosão de usos banais da IA, enquanto a maioria das empresas ainda patina na busca por resultados concretos para seus negócios.

Alguns acontecimentos nos últimos dias me fizeram pensar mais sobre isso. Na terça, na palestra de abertura da conferência Gartner Data & Analytics, em São Paulo, Sarah James, diretora da consultoria, disse ter uma amiga “que não faz mais nada sem antes consultar a IA”. Na mesma fala, ela mostrou que, apesar de 80% das empresas investirem em projetos de IA, apenas 20% já obtiveram qualquer retorno deles.

Em outro caso, a revista “Piauí” trouxe uma crítica à ocupação das redes sociais por conteúdo de baixa qualidade produzido por IA, destacando a popularização de vídeos com frutas antropomorfizadas e sexualizadas. As big techs não se importam com isso, pois se beneficiam financeiramente com essa prática, que gera muitas visualizações.

Vemos pessoas dizendo estar apaixonadas ou fazendo terapia com plataformas de IA, usos inadequados de uma tecnologia que agrada seus usuários além do aceitável. Enquanto isso, um artigo de “The Economist” explicou que a IA enfrenta a sua primeira crise, pois fornecedores não conseguem suprir a demanda explosiva de data centers por processadores, memórias, transformadores, painéis elétricos e turbinas a gás.

Isso não é um acidente, e sim uma consequência de um modelo de negócios baseado em atenção. Mas esse desalinhamento entre usos tolos e exigências estratosféricas merece uma avaliação econômica e ética sobre se faz sentido consumir tantos recursos para produzir “AI slop”, o “lixo da IA”.


Veja esse artigo em vídeo:


Eu já vi essa história antes. No início da Internet de banda larga, pornografia e streaming rudimentar impulsionaram a infraestrutura, atraindo investimentos em redes mais rápidas. O amadurecimento era claro e a infraestrutura crescia livre da qualidade do conteúdo que circulava nela. Aquela “fase selvagem” provisória abriu caminho para usos de mais valor social, como educação, serviços públicos e trabalho remoto.

Na IA, as futilidades cumprem um papel parecido, ao gerarem tráfego, mas as semelhanças param por aí. Esses usos exaurem uma infraestrutura muito mais cara que a da banda larga. E a tendência não parece ser “primeiro o lixo e depois a coisa boa”, e sim uma convivência entre aplicações de alto valor e um oceano permanente de conteúdo descartável, guiado pela ganância das big techs.

Por isso, conteúdos absurdos, como vídeos de “abacatudos” e de “moranguetes”, não são uma distorção desse ecossistema, e sim um subproduto previsível de plataformas que monetizam atenção, não qualidade. E, nesse ponto, as empresas que desenvolvem as plataformas de IA e as que são donas das redes sociais dão as mãos, pois o sucesso de uma retroalimenta o da outra. Essa simbiose está na raiz de seus lucros gigantescos e de suas valorizações trilionárias nas bolsas.

Da mesma forma, a substituição silenciosa de relações humanas por interações mediadas por algoritmos segue a mesma lógica. Não se trata de atacar o uso que cada pessoa faz dessas plataformas, e sim de questionar algoritmos que incentivam usos que chegam a ser patológicos, mesmo quando os sistemas já percebem que a conversa não está indo por bons caminhos.

O problema não recai, portanto, sobre a IA em si, mas sobre os modelos de negócios que a moldam.

 

Celulares e computadores mais caros

Outro grupo empresarial, o dos fabricantes de eletrônicos de consumo, também está surfando nessa onda. Celulares, computadores, videogames, televisões e até geladeiras trombeteiam que agora possuem recursos de IA.

Para entregar essa promessa, os equipamentos precisam de processadores mais poderosos e mais memória. Mas os data centers mastodônticos onde as plataformas de IA rodam também exigem quantidades colossais desses componentes. E, nesse confronto, os data centers pagam mais, o que está deixando todos esses equipamentos pessoais mais caros, pela lei da oferta e da procura. O mercado estima que, até o fim do ano, os preços de celulares e computadores cresçam em até 20%.

Apesar de tudo isso, não adianta querer ser “mais realista que o rei”. Graças à incrível facilidade proporcionada por esses equipamentos e pelas plataformas de IA, cada um usará esse poder como bem quiser. Se vídeos de baixa qualidade geram engajamento, eles serão produzidos em escala, com ou sem IA. A diferença é que ela reduz drasticamente o custo dessa produção.

Mas não podemos tapar os olhos para as consequências. A inteligência artificial é uma força transformadora da sociedade e deve ser usada. Mas os custos associados a ela são altos e todos pagam, até sem saber.

Estamos construindo uma das infraestruturas mais caras da história. As empresas gastam fortunas nela, vendem a promessa de transformação, mas estão entregando só 20% de resultados no que realmente deveria importar.

Caímos no debate da responsabilidade das redes sociais por viabilizarem qualquer produção de seus usuários, mesmo as que misturam estereótipos misóginos e relações afetivas violentas ou degradantes com humor, privilegiando as que mais engajam. Do outro lado, as plataformas de IA devoram recursos da sociedade, criando um desejo de consumo muitas vezes exagerado e desorientado.

As big techs não são meras espectadoras desse processo. Elas desenham os incentivos, moldam os usos e capturam o valor. Não se trata, portanto, de a IA estar indo rápido demais, mas de quem define a direção, quais suas motivações, a responsabilidade que assume e quem paga o preço desse processo anárquico.

Talvez a crise da IA que a escassez de recursos está gestando possa ser lida como uma oportunidade de pausa forçada para se discutir prioridades, inclusive de distribuição de poder de processamento. Frutas animadas e outros conteúdos fúteis podem continuar existindo, mas talvez esses usos da tecnologia devam pagar mais que os de atividades mais nobres, como medicina, educação, ciência e negócios produtivos.