As empresas brasileiras esperam obter US$ 24,8 milhões de retorno com agentes de inteligência artificial nos próximos dois anos, mas apenas 3% delas se sentem totalmente preparadas para implantar e ampliar essa tecnologia. A contradição revela o estágio atual da IA no país, com expectativas sobre resultados que crescem rapidamente, mas com preparo ainda incipiente para lidar com ela.
O retrato desse momento ganhou destaque no SAP NOW AI Tour Brazil 2026, que aconteceu em São Paulo nos dias 9 e 10 de setembro. O evento colocou, no centro da discussão, o uso da IA nos negócios, os agentes, a integração de dados e a busca por valor concreto com essa tecnologia.
Essa mudança também aparece no estudo “The Value of AI 2026”, uma parceria entre a SAP e a Oxford Economics, apresentado no congresso. A pesquisa ouviu 2.600 executivos de 13 países, incluindo 200 brasileiros.
Por aqui, o levantamento aponta que o investimento médio em IA já chegou a US$ 20,8 milhões neste ano, ante US$ 14,2 milhões na edição anterior, e deve crescer 46% até 2028. O retorno médio passou de 16% para 19%, equivalente a US$ 5,5 milhões, e deve chegar a 38% em dois anos.
Entre expectativas e capacidades, vale perguntar como empresas podem projetar retornos cada vez maiores com uma tecnologia que ainda não integram bem às próprias operações. Nesse sentido, o problema deixa de ser o potencial da IA e passa a ser a capacidade de cada organização de efetivamente capturá-lo.
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Essa tensão aparece nos próprios indicadores do levantamento. Embora 64% das empresas brasileiras estejam satisfeitas com o retorno atual da IA, 65% não estão convencidas de que suas iniciativas entregam todo o potencial da tecnologia. Ou seja, já existe retorno para justificar novos aportes, mas também há a sensação de que muito valor segue se perdendo pelo caminho.
De fato, uma demonstração de IA pode ser impressionante e, ainda assim, não resolver nenhum problema relevante. “A diferença entre uma solução que fica no genérico e outra que entrega valor está no contexto”, explica Christian Geronasso, estrategista de IA da SAP Brasil. Segundo ele, sem uma necessidade concreta e uma meta clara, mesmo uma proposta tecnicamente sofisticada pode produzir pouco valor.
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Um dos principais obstáculos está em algo bem menos sofisticado do que os próprios modelos de IA. “O desafio agora é conectar a IA aos dados e aos processos que realmente movem o negócio”, afirma Rui Botelho, presidente da SAP Brasil. “Hoje, 75% dessas empresas apontam qualidade ou disponibilidade dos dados como um dos fatores que impedem o maior retorno com a IA nos seus projetos.”
A fragmentação aparece na forma como a automação avança. No momento, 26% das tarefas nas empresas brasileiras já são apoiadas por IA, percentual que deve chegar a 44% em dois anos. Mas Botelho alerta que apenas 18% dos negócios já adotam a tecnologia de maneira estratégica e integrada.
O problema está aparecendo no cotidiano, com 80% das empresas brasileiras enfrentando resultados de baixa qualidade da IA pelo menos ocasionalmente, provocando retrabalho, atrasos ou acúmulo de demandas. Além disso, 78% tiveram que adaptar sua forma de trabalho por causa desses resultados.
O fator humano
Diante desse cenário, a resposta não pode ser apenas técnica. “A tecnologia desempenha um papel fundamental, mas é preciso saber como capacitar e requalificar as pessoas, que tipo de infraestrutura colocar em prática para ajudar os funcionários a se transformarem”, acrescenta Gina Vargiu-Breuer, diretora global de Pessoas e Relações Trabalhistas da SAP. “A IA está mudando completamente a maneira como trabalhamos e precisamos repensar tudo.”
Essa transformação também muda a dimensão da responsabilidade. Quando os agentes deixam de apenas responder a solicitações e passam a executar ações, torna-se necessário saber o que podem fazer, quem autoriza suas decisões e como seus atos podem ser supervisionados e auditados.
Fora das planilhas e dos centros de operação, a IA também começa a ocupar territórios menos óbvios. Por exemplo, a São Paulo Escola de Dança está desenvolvendo com a SAP um “Agente de Ensaio”, capaz de apoiar a experimentação de diferentes formações de bailarinos, dimensões de palco, movimentos e elementos de dramaturgia, relacionando essas escolhas às sensações que a coreografia pretende provocar no público.
A tecnologia não pretende substituir o olhar do coreógrafo nem a interpretação dos bailarinos. Textos e desenhos registrados pelos artistas em um diário de bordo alimentam o contexto da ferramenta, mostrando que gerar valor também pode significar abrir possibilidades antes difíceis de testar.
Isso mostra que o investimento, por si só, não garante resultados. A IA precisa se tornar parte coerente de processos, dados e decisões, sob pena de transformar uma promessa de eficiência em mais uma camada de complexidade.
Mesmo com avanços tão grandes da IA, as empresas precisam ser capazes de extrair valor dessa tecnologia sem perder qualidade, responsabilidade e autonomia humana. A próxima fase da IA premiará, portanto, quem souber combinar tecnologia, contexto e pessoas para produzir resultados que façam sentido.
