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Onde está a verdade e por que precisamos dela

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De tempos em tempos, uma pergunta me atormenta: por que parte da população se posiciona contra a imprensa, se ela é o melhor recurso que essas pessoas têm para se proteger de todo tipo de abuso dos mais diversos grupos de poder?

Como democrata, como pesquisador e como alguém que observa a atuação da imprensa em países de diferentes culturas, esse comportamento ainda me choca, mas há muito já não me surpreende. É relativamente simples de ser explicado e está intimamente ligado ao que é a verdade. Mas essa não é uma discussão acadêmica ou uma conversa que interesse apenas a jornalistas. Se não soubermos o que é a verdade e onde a encontrar, estamos condenados a uma vida miserável e cada vez mais servil.

Acontece que a verdade incomoda e é contrária aos interesses de quem precisa enganar para atingir seus objetivos. Por isso, os agressores da imprensa normalmente apoiam, de maneira consciente ou não, quem está “sentado no trono” no momento. Não é um fenômeno novo, mas acontece sempre e de maneira tão mais forte quanto mais autoritário for o governante.


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Há um versículo bíblico que vem sendo distorcido e usurpado à exaustão nos últimos tempos por esses governantes: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

Oras, mas, afinal, o que é a verdade?

Ela não aparece facilmente. Precisa ser escavada e, em muitas ocasiões, só é encontrada ao se confrontar pontos de vista conflitantes sobre um mesmo assunto. Assim, a verdade surge das diferenças e, por isso, raramente está nas redes sociais. Afinal, seus algoritmos escondem de todos nós os pensamentos divergentes e reforçam os preconceitos.

É por isso que a imprensa se torna alvo desses grupos. Não estou aqui para fazer uma defesa inconsequente dela ou sugerir que seja perfeita: não é e nem tem a pretensão de ser. Entretanto, ao “ousar” ouvir os diferentes lados de um fato, o jornalismo pelo menos se aproxima do que está acontecendo no mundo, por mais incômodo que isso seja –e normalmente é para alguém.

Resgatando o versículo acima, a referida verdade que liberta implica na necessidade de vivermos conscientes do que nos cerca e da libertação que somente o conhecimento disso pode trazer. Não é de se admirar, portanto, que o Papa Francisco seja um defensor do jornalismo.

 

“Vem e verás”

No último dia 23, por conta da Jornada Mundial das Comunicações Sociais, que acontecerá no dia 16 de maio, o sumo pontífice publicou uma mensagem destacando a importância da imprensa na busca pela verdade. Mas afirmou que, para isso, os jornalistas precisam sair à rua, encontrar as pessoas, “gastar sola de sapato” (em suas palavras).

Para Francisco (e ele está certo), não se faz bom jornalismo apenas diante de uma tela: a verdade vem com a reportagem no local dos fatos. Segundo ele, “seria uma perda não só para a informação, mas também para toda a sociedade e para a democracia, se faltassem estas vozes: um empobrecimento para a nossa humanidade”. Portanto, bom jornalismo dá trabalho e só acontece quando seu compromisso é com o público!

Pode-se argumentar que veículos de comunicação pertencem a empresas, e elas, como qualquer outra, têm seus interesses, inclusive econômicos. Mas uma empresa de comunicação, mesmo longe de ser uma entidade imaculada, não é uma empresa comum: a verdade é sua matéria-prima e a reputação é o seu maior ativo, que só existe se lhe for concedida pelo seu público. Sem reputação, um veículo deixa de existir.

Seguindo nesse raciocínio, há alguns dias, revi o ótimo filme “The Post: A Guerra Secreta” (2017). Dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Meryl Streep e Tom Hanks, conta (com riqueza de detalhes) a história real do escândalo dos “Pentagon Papers”, documentos ultrassecretos vazados do Pentágono em 1971 e que demonstravam que o governo mentia descaradamente há anos aos americanos sobre a Guerra do Vietnã.

Os documentos geraram reportagens no New York Times e no Washington Post, que enfureceram o presidente americano da época, o republicano Richard Nixon. O mandatário tentou ao máximo desacreditar e intimidar os jornalistas. Até mesmo quis impedir, na Justiça, a continuidade das reportagens que diminuiriam a popularidade de um presidente que brilhava, mas que era sujo. Os jornais venceram na Suprema Corte, irritando ainda mais Nixon. No ano seguinte, o mesmo Washington Post publicou reportagens que deflagaram o escândalo de Watergate, que levaria à renúncia de Nixon dois anos depois.

 

O trabalho é continuar

Todo governo, mesmo o mais democrático, adoraria ter uma imprensa dócil. Mas, nesse caso, não seria jornalismo: seria propaganda!

A imprensa tem que fiscalizar o governo, qualquer governo! Consequentemente, quanto mais autoritário for o mandatário, mais ele tenta calar, desacreditar e, se possível, destruir a imprensa. Por isso, se um veículo é muito atacado por um governo, deve estar fazendo bom jornalismo. Essa é uma métrica que funciona!

No julgamento do caso dos “Pentagon Papers”, o juiz Hugo Black disse: “Os Pais Fundadores deram à imprensa livre a proteção que ela deve ter para cumprir seu papel essencial em nossa democracia. A imprensa deveria servir aos governados, não aos governantes.”

A Justiça deve, portanto, garantir essa proteção, ao contrário do que temos visto frequentemente no Brasil, com incontáveis casos de censura judicial. A imprensa, por sua vez, deve necessariamente defender os interesses da sociedade, não os dos grupos do poder e muito menos os seus, como empresas.

Katharine Graham, então dona do Washington Post, interpretada por Meryl Streep no filme, arriscou ir para a cadeia e ver seu jornal fechado ao confrontar Nixon. Ainda assim, fez o que era certo. E, após sua vitória, sacramentou: “Nem sempre acertamos. Nem sempre é perfeito. Mas acho que, se apenas continuarmos, esse é o trabalho”.

Quantos teriam a coragem de fazer o certo com a faca de um presidente no seu pescoço, como ela fez?

A imprensa erra de vez em quando. Mas precisamos aprender a tolerar os erros que fazem parte do processo de construção da verdade. O que é inadmissível são mentiras deliberadas, venham de quem vier.

O fato é que a democracia vem sendo atacada em várias partes do mundo por aqueles que a juraram defender. A bizarra invasão do Congresso americano, no dia 6 de janeiro, incentivado pelo então ainda presidente Donald Trump, só fracassou porque as instituições republicanas e os militares dos EUA funcionam e não abrem mão da democracia, mesmo diante da pressão do presidente. E o mesmo pode ser dito da maioria dos órgãos de comunicação do país, que promovem a verdade.

Na mensagem do dia 23, o Papa Francisco disse ainda que “o próprio jornalismo, como exposição da realidade, requer a capacidade de ir aonde mais ninguém vai: mover-se com desejo de ver, uma curiosidade, uma abertura, uma paixão.” E, de fato, é preciso paixão pela verdade no jornalismo.

Em um famoso discurso em 1996, o jornalista e Nobel de Literatura Gabriel García Márquez concluiu que “ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir em uma profissão tão incompreensível e voraz, cujo trabalho termina a cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não garante um momento de paz até que recomece com mais ardor que nunca no minuto seguinte.”

Portanto, a única maneira de escaparmos desse poço de areia movediça política e moral no qual já afundamos como sociedade até o pescoço é acreditando na verdade e em quem a busca. E ela não vem de quem precisa ficar fazendo bravatas o tempo todo para se reafirmar.

Cada um acredita no que quiser! Isso não quer dizer que existam incontáveis verdades para cada indivíduo chamar de sua. A nossa sobrevivência como uma sociedade organizada depende de identificar e apoiar aqueles que pelo menos tentam buscá-la, lutando pelos interesses públicos. Os demais –políticos, empresas, instituições preocupadas apenas com suas necessidades– devem ser varridos para o mais obscuro rodapé da história.

Do contrário, em breve estaremos nas ruas fazendo justiça com nossas próprias mãos. Armadas!

Nossa má educação cria um abismo entre os brasileiros e as profissões do futuro

By | Educação | No Comments

De tempos em tempos, vemos estudos e listas sobre as chamadas “profissões do futuro”. Elas nos enchem os olhos, com atividades incríveis e inspiradoras. Algumas parecem que vieram diretamente de um episódio de “Star Trek”, mas são reais! Infelizmente a maior parte das pessoas jamais exercerá qualquer uma dessas carreiras, pois não têm elementos básicos em sua formação para desempenhar suas tarefas. Nosso sistema de ensino e nossa cultura não são organizados para oferecer a crianças, jovens e adultos as habilidades necessárias para isso.

Isso fica ainda mais cruel quando consideramos que vivemos em um país que entrou em 2021 com cerca de 14 milhões de desempregados e 6 milhões de desalentados (aquelas pessoas que já desistiram de procurar emprego), números que crescem consistentemente desde antes da pandemia de Covid-19. Nos casos da imensa maioria dessas pessoas, infelizmente essas atividades inovadoras são inalcançáveis.


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Para as profissões que debutam com grande pompa e muitas novidades (as que chamam mais atenção), naturalmente não existe formação específica. As escolas precisam de um tempo para criar cursos, e isso só acontece depois que um novo ofício está consolidado. Portanto, se se almeja qualquer um desses incríveis trabalhos, a habilidade mais desejada é o amor pelo aprendizado. Com ela, o candidato descobrirá e fará muitos cursos específicos, para combinar seus conteúdos e construir o arcabouço intelectual necessário.

Nesse ponto, a situação começa a complicar. Nossas escolas não desenvolvem nos estudantes esse recurso. O amor pelo conhecimento é substituído por decorar o conteúdo para “tirar nota na prova”. Aliás, esse é um sistema de avaliação que persiste, apesar de ser incrivelmente falho. A prova pune o erro, o que faz com que o aluno prefira decorar mecanicamente, ao invés de sentir o prazer da compreensão dos assuntos, algo que deveria ser desenvolvido desde a mais tenra idade. Por isso, abordei esse tema na palestra que ministrei aos educadores da Fundação Raízen, na quarta passada

As “profissões do futuro” são tão incríveis porque elas saem do óbvio! Desafiam os indivíduos a pensar e a fazer diferentemente o que já existe ou criar algo completamente novo, que trará um grande benefício à sociedade. Para isso, o profissional não pode ficar preso a fórmulas consagradas. É preciso ser capaz de correr riscos, de buscar a inovação, de tentar.

Fácil falar! E é aí que “a porca torce o rabo”, como diz o ditado. Qualquer tentativa, em qualquer assunto, necessariamente embute um risco. Não há como garantir que tudo dará sempre certo. Mas nossas crianças e jovens crescem sendo punidos pelos seus erros. Quando se está na escola, o erro pode levar a uma reprovação de ano. Quando se chega ao mundo do trabalho, o erro pode custar seu emprego.

E assim todos preferem caminhar na segura trilha da mesmice. Ao não tentar, não se erra. E, ao não errar, garante-se o que já se tem. O problema é que, ao não tentar, também não se muda, não se cria, não se vence. Vivemos, portanto, em um pacto pela mediocridade.

Isso é antinatural! Todos nós somos capazes de aprender com nossos erros. Todo jogador de videogame sabe disso! Ninguém termina um game sem “morrer” nenhuma vez. Isso acontece várias vezes ao longo dessa jornada, mas nem por isso o jogador desiste dela. Pelo contrário: ele é obrigado a voltar um pouco na sequência, mas, quando chegar de novo no ponto em que falhou anteriormente, desenvolverá novas estratégias para superar o desafio, até que consiga! A partir daquele momento, esse recurso ficará disponível em seu cérebro para ser usado não apena no jogo, mas em qualquer coisa na sua vida.

Toda criança nasce sabendo disso. Mas a sociedade aos poucos a coíbe, para que essa habilidade fique cada vez menos disponível.

 

O valor da inovação

Profissionais e empresas que “sabem jogar” brilham muito mais! Por exemplo, na terça passada, a Apple recuperou a coroa de marca mais valiosa do mundo, depois de cinco anos. Segundo o relatório “Brand Finance 2021”, Amazon, Google, Microsoft, Samsung, Walmart, Facebook, ICBC, Verizon e WeChat completam a lista das dez mais valiosas. Apenas duas delas não são da área de tecnologia: o varejista americano Walmart e o banco chinês ICBC.

Nas 500 maiores, apenas duas são brasileiras: o Itaú, que ocupar o 387º lugar, e o Banco do Brasil, na posição 492. Sem desmerecer as operações dessas empresas, essa quase total ausência brasileira é emblemática. Nossas maiores empresas são de setores muito conservadores ou estão ligadas a commodities, enquanto as mais valiosas do mundo estão intimamente vinculadas à inovação, onde há um monte dos tais “profissionais do futuro”, dispostos a correr riscos.

Pode-se imaginar que esses ofícios são totalmente inéditos, mas isso não é o caso. Na verdade, muitas das “profissões do futuro” paradoxalmente existem desde a Antiguidade, como professores e médicos. Elas são “profissões do futuro” porque não apenas continuarão existindo, como se tornarão ainda mais importantes para a sociedade. Mas naturalmente elas já sofrem e continuarão sofrendo grande mudanças, inclusive impactadas pelo meio digital. Querer continuar as exercendo como se fazia há alguns anos é um convite para ser colocado para fora do mercado.

A digitalização já afetou todas as profissões e esse é um movimento que cresce exponencialmente. Não há como resistir à mudança. Pelo contrário, qualquer que seja a área do ofício, o domínio de habilidades normalmente associadas às Exatas, como raciocínio lógico, análise de dados, entendimento de sistemas ou estatística ficam mais e mais importantes. Da mesma forma, habilidade de Humanas, como comunicação, pensamento crítico, trabalho em equipe e até empatia também se tornam essenciais para trabalhadores de todas as áreas, e não apenas nas Humanidades.

Vejo isso com muito bons olhos. A ideia de ter um engenheiro com uma incrível capacidade de comunicação ou um médico guiado pela empatia é incrível! Ao final, teremos não apenas melhores profissionais, mas também melhores pessoas.

 

O avanço da automação

Não se engane: o que puder ser automatizado será! Isso já está acontecendo em todas as áreas.

Profissões nascem e morrem desde o início dos tempos. A diferença é que agora isso acontece em um ritmo muito mais veloz, pelo desenvolvimento de novas tecnologias e pela disseminação e democratização do conhecimento.

As que desaparecem normalmente são aquelas que foram substituídas por processos que atenderam seu cliente de maneiras que lhe eram mais convenientes. O que mata um produto, uma indústria, uma profissão é o cliente que encontra uma alternativa mais vantajosa para si.

Portanto as profissões que nascem são mais analíticas e inovadoras, e as que morrem são as mais operacionais e repetitivas. É por isso que nossas escolas precisam formar profissionais para o primeiro grupo, e não para o segundo. Caso contrário, dentro de alguns anos, não teremos apenas uma grande massa de desempregados, mas muitas pessoas “inempregáveis”, que não terão habilidades mínimas para realizar as tarefas exigidas pelos ofícios disponíveis.

A discussão do futuro do trabalho deve passar necessariamente pela do futuro da educação. Portanto, se você deseja abraçar uma das “profissões do futuro”, comece a se preparar desde já, estudando de uma maneira diferente. Procure cursos que o ensinem a pensar e não a simplesmente a “apertar botões”, que o ensinem a correr riscos e não a adotar posições conservadoras, que o levem a abrir novas trilhas e não apenas seguir por caminhos conhecidos por todos.

Com isso, você poderá criar algo de fato novo e que realmente faça a diferença para a sociedade. Assim seu futuro estará garantido.

A difícil arte de ser verdadeiro e não agradar

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Há uma piada que circula pelas redes sociais que diz que ninguém é tão popular quanto parece ser no Facebook, nem tão bonito quanto no Instagram, tão bem-sucedido quanto no LinkedIn ou tão sucinto quanto no Twitter. Brincadeiras à parte, você tem a sensação que as postagens nas redes sociais estão ficando muito parecidas umas com as outras?

Não é só pela ação do algoritmo de relevância, que joga na nossa cara apenas aquilo que se parece conosco. Isso é resultado de um fenômeno em que as pessoas querem agradar o outro a qualquer custo. Fazem isso para conseguir um emprego novo ou mais clientes, para brilhar no seu grupo de amigos ou pela necessidade da gratificação fugaz e às vezes patológica de receber “curtidas”.

Fica difícil ser feliz com essa compulsão em agradar, mesmo que, para isso, tenhamos que mentir sobre nós mesmos. E isso se manifesta com ainda mais força nas redes sociais, que premiam quem é raso, porém alinhado com a massa. Viramos marionetes de uma sociedade de pensamentos únicos, em que, para ser aceito, é preciso “mugir no mesmo tom da manada”.

Até onde vai essa loucura?


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Por exemplo, em outubro, a organização internacional Artigo 19 divulgou relatório que demonstra que o Brasil teve a maior queda no mundo na liberdade de expressão. Em 2009, o país somava 89 pontos em uma escala de 0 a 100 em liberdade de expressão. Em 2020, somamos apenas 46 pontos!

Com isso, ocupamos a modesta 94ª posição, entre 161 países avaliados, e deixamos de fazer parte do grupo de países classificados como “abertos”. Estamos praticamente empatados com as Filipinas, e abaixo da Hungria e do Haiti. Também estamos atrás de todos os países da América do Sul, exceto a Venezuela.

Algumas pessoas podem contestar esse número, dizendo que, no Brasil, nunca ouve tanta liberdade de expressão, graças às manifestações nas redes sociais. É preciso então explicar o que esse termo significa.

De fato, nunca tanta gente colocou seus pensamentos nas redes sociais. Mas isso não é suficiente para configurar liberdade de expressão. Na verdade, acaba sendo o contrário!

Primeiramente porque grande parte do que propagam são ataques baratos que visam destruir a imagem de outras pessoas, empresas e instituições. Isso pode ser enquadrado em vários crimes, o que, por si só, já contraria o conceito de liberdade de expressão. Além disso, o que essas pessoas falam não são suas ideias: servem apenas de caixa de ressonância para palavras de ordem de grupos específicos, prestando-se a viabilizar seus objetivos. Fazem isso por se alinharem com as ideias desse grupo ou para se sentir parte dele.

Como canta Caetano Veloso, “Narciso acha feio o que não é espelho” As pessoas não querem ser confrontadas com o que lhes incomoda. Por isso, se tornam presas fáceis de quem lhes agrada, mesmo que seja com a mais rotunda mentira!

Precisamos romper esse ciclo destrutivo!

 

Todos podem fazer sua parte

Todos os seres humanos são importantes para a sociedade e têm algo a contribuir. Infelizmente, às vezes essa contribuição pode desagradar alguns, pelo simples fato de os tirar de sua zona de conforto. Porém, se ela for construtiva e não ferir leis, deve ser dita.

É por isso que gênios não se preocupam em agradar ninguém: apenas fazem o que deve ser feito, desde que seja certo. Por outro lado, os inseguros, os que estão encharcados de ódio e aqueles que simplesmente não conseguem sustentar suas ideias sentem que lhes resta recorrer a essas fórmulas fáceis.

Não caiam nessa armadilha!

Fazer parte de uma comunidade é crítico para todos os seres humanos. Mas isso não significa apenas usufruir do que ela tem de bom a nos oferecer. Tampouco significa viver uma existência baseada em atender as expectativas dos outros e muito menos manipular a narrativa para ser servido por eles. É também genuinamente trabalhar para construir e oferecer algo de bom ao outro, mesmo a um desconhecido.

Essa realidade em que vivemos me lembra o roteiro do episódio “Queda Livre”, o primeiro da terceira temporada da série “Black Mirror”. Ele mostra uma sociedade em que as ações de todos podem ser avaliadas pelas pessoas à sua volta ou nas redes sociais. Tais avaliações alimentam uma espécie de placar individual acessível a todo mundo, que influencia decisivamente a vida em sociedade. Por isso, nesse episódio, as pessoas vivem vidas cheias de mentiras e aparências, apenas para ganhar mais estrelas de seus pares.

Aquilo é uma enorme distorção do que deveria ser uma vida saudável em sociedade. Mas eu pergunto: quanta falta para que cheguemos àquilo em nosso cotidiano?

 

Não dá para agradar todo mundo

Precisamos reaprender a ser verdadeiros e solidários, mesmo que isso possa desagradar alguns. Se tentamos agradar a todos, não conseguiremos ser verdadeiros. Corremos o risco de desagradar mais que agradar. Por sempre se ajustar aos desejos alheios, há o risco de se criar uma legião de eternos insatisfeitos, que sempre vai querer mais.

Portanto, ao invés de buscar competição por “estrelinhas” em nosso cotidiano, devemos procurar a evolução de nós mesmos. Ao mudarmos para melhor, o mundo muda junto.

Temos que dar um basta nesse comportamento de “mentiras agradáveis”! Esse é um dos grandes males da atualidade.

Para isso, não se deixar abater pelo que o outro pensa. Não espere e nem tente fazer com que todos gostem de você. Nenhuma das duas coisas é possível!

Quem entende que não é o centro do mundo vê sua percepção se tornando mais positiva. Assim suas atitudes tendem a melhorar. A beleza do mundo floresce quando cada um busca viver sua vida de maneira construtiva dentro da sociedade.

Seja verdadeiro e pratique continuamente o bem, para termos uma sociedade melhor para todos. Talvez até deixe de “ganhar estrelinhas” de algumas pessoas, mas sua vida será mais plena e feliz.

 

Vale a pena ter um carro elétrico no Brasil?

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Na segunda passada, a Ford surpreendeu todo mundo, anunciando que deixará de produzir automóveis no Brasil, interrompendo uma história de mais de cem anos no país. Políticos reclamaram e analistas tentaram justificar a decisão. Mas a resposta é simples: o Brasil deixou de ser interessante para a Ford.

Aliás, não só para ela! A manchete do Estadão desse domingo mostra que o Brasil perdeu 36,6 mil fábricas entre 2015 e 2020, o que dá uma média de 17 fábricas por dia.

A forte desindustrialização, que recentemente também vitimou a produção nacional de eletrônicos da Sony e de carros da Mercedes, é resultado de fatores como o infame “custo Brasil”, a falta de incentivo à inovação, o ambiente empresarial hostil, a baixa produtividade e o próprio mercado retraído. Além disso, o produto brasileiro ficou menos competitivo internacionalmente.

A Ford, por sua vez, tem seus motivos particulares. Um deles é se concentrar em SUVs, veículos que oferecem uma melhor margem de lucro, mas que infelizmente vendem proporcionalmente pouco no Brasil. A outra coisa é seu direcionamento para veículos elétricos. Só que o Brasil ainda patina vergonhosamente nessa tecnologia, enquanto outros países já têm metas aprovadas para eliminação de motores a combustão em veículos novos daqui a alguns anos.


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Por que o mercado de carros elétricos não acelera no Brasil? Vale a pena ter um carro elétrico aqui?

John Rockefeller, magnata americano da indústria petrolífera, dizia que “o melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo bem administrada; o segundo melhor é uma empresa de petróleo mal administrada”. Um século depois, essa frase começa a deixar de ser verdade.

Em novembro, o Reino Unido antecipou de 2035 para 2030 a proibição de carros novos movidos a gasolina ou a diesel, portanto daqui a apenas nove anos. Dois meses antes, o Estado americano da Califórnia já tinha publicado a mesma restrição valendo a partir de 2035. O Japão deve firmar sua data limite para 2030. E a China, o país mais poluente do mundo, deve ter uma regra assim para 2035.

Isso vem se refletindo nas empresas automotivas, claro. Na sexta-feira, o valor de mercado da americana Tesla, maior expoente em carros elétricos, era de incríveis US$ 783 bilhões. Isso é mais do que o valor somado da Toyota, da Volkswagen, da GM, da Ford e da Fiat Chrysler, empresas centenárias, que vendem muitíssimo mais veículos, mas quase tudo ainda movido a combustíveis fósseis.

Isso fez com que Elon Musk, fundador e CEO da Tesla se tornasse o homem mais rico do mundo há 11 dias, tirando a coroa que Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, detinha desde outubro de 2017.

Segundo a consultoria Boston Consulting Group, as vendas globais de modelos elétricos e híbridos passarão dos atuais 10% para 51% em uma década. Isso se as restrições aos combustíveis fósseis e os incentivos à eletrificação se mantiverem, e prevendo o crescimento nas vendas e a queda nos preços dos modelos.

 

Gasolina e diesel resistem

Claro que os postos de gasolina continuarão ocupando as esquinas das cidades por muito tempo. Especialistas estimam que será assim, no mínimo, até 2050, especialmente em países em desenvolvimento, que não incentivam a eletrificação e permanecerão com o legado de uma frota envelhecida e movida a gasolina. É o caso do Brasil.

Tampouco podemos ignorar o lobby da ainda poderosíssima indústria petrolífera, que obviamente não tem nenhuma pressa em ver a frota de veículos se eletrificando.

Por aqui, quem puxa esse cordão é a Petrobrás. A empresa ainda olha de longe a produção de energias renováveis, ao contrário de muitos de seus concorrentes. Ela tem seus motivos, como reservas gigantescas de petróleo e a tranquilidade de que os carros brasileiros continuarão queimando gasolina ainda por décadas. Além disso, a empresa está endividada, o que atrapalha investimentos na diversificação de suas operações. Pelo contrário, a Petrobrás vem se desfazendo de tudo que não seja petróleo e gás.

Faz sentido! Gasolina e diesel representam uma fatia essencial nos ganhos das petroleiras. Metade da produção atual da Petrobrás, por exemplo, é de gasolina e diesel para transporte rodoviário.

Outra coisa que ajuda a manter essa indústria é a melhora na eficiência dos carros atuais, com motores a combustão menores e mais econômicos, sem sacrificar a performance. A indústria petrolífera, por sua vez, melhora a qualidade de seus combustíveis, tornando-os menos poluentes.

Apesar de tudo isso, os carros elétricos vão conquistando seu espaço no Brasil, lentamente.

Temos que pensar também que as matrizes das montadoras aqui instaladas estão migrando para o carro elétrico. Como trabalham com modelos mundiais, fará cada vez menos sentido manter modelos e tecnologias defasadas que não combinem com as dos seus principais mercados.

O brasileiro já tem a sua disposição modelos elétricos das montadoras Audi, BMW, BYD, Chery, Chevrolet, JAC, Jaguar, Mercedes, Nissan, Porsche, Renault e Tesla. O mais barato é o pequeno hatch JAC iEV20, que custa R$ 140 mil. Os modelos mais caros passam de meio milhão de reais.

Ou seja, dá para se ver que o preço é uma fortíssima barreira de popularização dos carros elétricos.

Ainda no governo Temer, a alíquota do IPI (o Imposto sobre Produtos Industrializados) para os veículos elétricos foi reduzida de 25% para uma faixa entre 7% e 20%. Mesmo assim, impostos sobre qualquer carro são muito altos por aqui.

No mercado internacional, o equilíbrio entre os preços de carros elétricos e equivalentes a combustão deve ser atingido em até dez anos. Por isso, incentivos para o comprador também seriam bem-vindos e justificados pelos ganhos ambientais dos veículos elétricos. Na China, por exemplo, quem compra um carro elétrico recebe um incentivo do governo que pode chegar a US$ 10 mil para abater no valor do veículo.

Um outro ponto que precisa ser melhorado é a ampliação de pontos de carregamento rápido em locais públicos e prédios residenciais e comerciais. O carregamento em tomadas comuns é muito lento e caro, o que desestimula a aquisição de um carro elétrico.

Um bom exemplo veio da cidade de São Paulo. Em março passado, foi sancionada uma lei municipal que exige que os novos edifícios residenciais e comerciais prevejam soluções para recarga de veículos. Isso precisa se espalhar para outras cidades, e aos poucos incorporar também imóveis já existentes.

 

Elétrico ou a combustão?

Mas, afinal, vale a pena ter um carro elétrico?

Se você tiver “bala na agulha” para fazer o investimento inicial, a resposta tende a ser positiva, mesmo no Brasil, especialmente se você roda bastante.

O principal ponto favorável certamente é ambiental. Isso se reflete até na saúda da população. Especialistas estimam que a expectativa de vida média do americano deve aumentar em 14 meses pela simples eletrificação da frota automobilística, graças à diminuição dos poluentes no ar que respiramos.

A redução na emissão de gases de efeito-estufa também colabora com a queda da temperatura média global. Vale lembrar que 2020 foi o ano mais quente da história, empatando com 2016!

Outra vantagem é que, apesar de os carros serem mais caros que os equivalentes a combustão, há uma economia a médio prazo. E ela não acontece apenas por deixar de visitar os postos de gasolina: a manutenção dos carros elétricos tende a ser mais barata, pois seus motores são mais simples e não têm componentes de alto desgaste dos motores à combustão.

O silêncio também impressiona. Os ruídos a bordo e externos são muito menores que os de um carro convencional. Isso se deve pela ausência do próprio motor a combustão e sua exaustão, além de outras peças barulhentas.

Essa é, portanto, uma escolha ainda bem pessoal. Tem que rodar muito para que as economias dessa tecnologia paguem a diferença no custo do veículo. Mas temos também que levar em consideração os outros ganhos, não-financeiros, na decisão.

Quanto ao governo, precisa fazer da sua parte para diminuir mais esse abismo tecnológico que temos com os países desenvolvidos. Caso contrário, isso e todos os outros problemas mencionados no começo desse artigo podem mandar embora outras Fords nos próximos anos.

A responsabilidade das redes sociais nos ataques à democracia

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O mundo assistiu horrorizado, na quarta passada, ao Congresso americano sendo invadido e depredado por apoiadores do (ainda) presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O ato, sem precedentes na história do país, se torna ainda mais emblemático porque foi incentivado pelo próprio mandatário, que incendiou a turba, gritando palavras de ordem em frente à Casa Branca, protegido por um vidro blindado.

Mas isso não aconteceu de uma hora para a outra. Foi o dramático clímax de um movimento que se constrói há uma década, com uma hábil combinação de neurolinguagem, observação política, oportunismo e domínio de plataformas digitais.

No centro disso tudo, como principal ferramenta, estão as redes sociais. Tanto que, depois do ataque, Mark Zuckerberg suspendeu as contas de Trump no Facebook e no Instagram até pelo menos a posse de seu sucessor, Joe Biden, no dia 20. Já o Twitter baniu Trump de sua plataforma para sempre. As empresas justificaram as medidas como necessárias para evitar uma escalada ainda maior da violência provocada por Trump.

Mas tais ações pontuais são suficientes? Por que não foram tomadas antes? E ainda outra pergunta que não pode ficar para trás: as redes sociais sairão limpas dessa história?


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Trump sabia exatamente o que estava fazendo, mas para sorte da democracia, seu objetivo fracassou. Infelizmente não sem antes deixar um rastro de destruição e cinco mortos, incluindo um policial.

A pergunta que surge imediatamente nas mentes que separam o certo do errado é: como isso pôde acontecer na autoproclamada maior democracia do mundo e na incontestável maior potência militar da Terra?

Empresas, políticos e grupos de toda natureza descobriram nas redes sociais uma caixa de ressonância para fazer valer suas ideias, mesmo as mais grotescas. Potencializaram o risco de aglutinar um grande grupo de pessoas descontentes ou com necessidades não atendidas, e muito ódio para fazer valer suas pautas.

Trump soube identificar esses elementos no povo americano. Aproveitou-se do fato de os algoritmos de relevância das redes falarem diretamente com as camadas mais primitivas de nosso cérebro, responsáveis pela nossa autopreservação sem recorrer à racionalidade. Com isso, milhões de pessoas passaram a se recusar a ver as verdades que não lhe convinham e a combater qualquer um que dissesse o contrário, a todo custo.

O congressista republicano Mike Gallagher, que apoia Trump, descreveu bem o resultado. Segundo ele, o incidente no Capitólio (como é chamado o Congresso americano) transformou os Estados Unidos em uma “república de bananas”.

Trump digitalizou uma fórmula de dominação de massas há muito conhecida. Trata-se da cartilha escrita por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolph Hitler, usada para legitimar as atrocidades do Fürher. Foi dessa maneira que o povo alemão da época apoiou a política de conquista de outros países, a expropriação de bens dos “inimigos do povo” e o confinamento e posterior extermínio de judeus e outros grupos. Isso parece monstruoso a nossos olhos, mas o que se vê hoje é a mesma coisa, apenas em uma etapa anterior; Por outro lado, atinge escala planetária, graças às redes sociais.

 

Enfrentado o homem mais poderoso do mundo

Bater de frente com o presidente dos Estados Unidos não é tarefa fácil. Agora que Trump dá suas últimas baforadas na Casa Branca, parece que os gigantes do Vale do Silício finalmente resolveram agir.

Ele se faz de vítima, dizendo que está sendo perseguido, que o querem calar. É exatamente isso, mas pelas barbáries que promoveu. E não foi sem lhe emitir diversos avisos prévios.

Trump disse na sexta que criará a sua própria rede social. Ninguém pode impedir uma pessoa de fazer isso, ainda mais um milionário. Mas dificilmente ele repetirá o sucesso que teve nas plataformas globais, com centenas de milhões de usuários.

Além disso, o Vale do Silício resolveu agir também contra os seguidores e contra o próprio discurso de ódio. Por exemplo, no sábado, a Apple e o Google tiraram de suas lojas o aplicativo da rede social Parler. A Amazon, por sua vez, suspendeu a hospedagem do serviço em seus servidores na AWS (Amazon Web Services).

O Parler é uma plataforma que diz se basear na “liberdade de expressão”. Ele se tornou o destino de apoiadores de Trump banidos do Twitter e do Facebook, onde destilam o pior de seu veneno. Além disso, aparentemente a “liberdade de expressão” só existe nele para usuários conservadores. Os progressistas são banidos da plataforma.

Isso não é liberdade de expressão!

É verdade que, para falar, basta te boca. Mas existem leis, e grande parte do discurso desses usuários pode ser facilmente enquadrado em crimes de intolerância, calúnia, difamação, injúria entre outros. Portanto, a liberdade de expressão não dá direito a alguém falar o que bem entender impunemente.

Trump abusou disso, mesmo antes de se tornar presidente. Criou essa máquina de desinformação, que provocou um “travamento cerebral” em grande parte da população. Isso acabou o levando à Casa Branca, onde seus danos foram multiplicados pelo poder natural do cargo.

É verdade que o contexto importa e faz toda a diferença. A invasão do Capitólio fez com que as plataformas se posicionassem diante de algo que elas sempre deixaram passar, apesar de saber que estavam alimentando um enorme monstro, que feria repetidamente seus termos de uso.

Resta agora saber se elas serão coerentes e terão o mesmo comportamento com outras autoridades do mundo que seguem a cartilha trompista, ou se continuarão alimentando esses “monstros regionais”.

O bode está na sala, com seu cheiro insuportável e mastigando o sofá.

 

A responsabilidade pelo que se diz

Todos nós, inclusive presidentes, somos responsáveis pelo que dizemos, pelo que propagamos. Essa é uma responsabilidade que sempre tivemos, mas da qual muitos andaram se esquecendo por influência do falso véu do anonimato das redes sociais e do “efeito manada”.

Se a verdade absoluta é difícil de ser encontrada, temos que, pelo menos, identificar o que é legítimo. E isso se define pela defesa de valores inegociáveis, como o direito à vida, à liberdade, à igualdade e a democracia.

Trump sempre atuou no extremo oposto. Ele chegou a desenvolver uma linguagem própria, que foi mapeada pela linguista francesa Bérengère Viennot. Ela analisou centena de discursos, entrevistas e tuítes de Trump, para escrever o livro “A Língua de Trump”.

A pesquisadora identificou que, para facilitar a compreensão por qualquer um, as falas de Trump têm sintaxe truncada, vocabulário muito raso e repetições incansáveis das mesmas palavras. São carregadas de agressividade, ameaças, ataques à reputação, sexismo e cinismo. E ele nunca se arrepende ou pede desculpas por nada. Do ponto de vista de forma, abusa de aspas, pontuações descontextualizadas e palavras e frases inteiras grafadas em maiúsculas.

Por fim, Trump é seu próprio referente. Ou seja, a única realidade é a dele e quem disser o contrário está automaticamente mentindo, especialmente se for a mídia.

Segundo o Washington Post, depois do ataque ao Capitólio, centenas de funcionários do Twitter exigiram que seus executivos suspendessem Trump permanentemente, classificando as ações da empresa até então como “insuficientes“. Os funcionários também solicitaram uma investigação sobre os últimos anos de ações do Twitter, que culminaram no ataque.

As redes sociais devem mesmo ser responsabilizadas pelo que está acontecendo. Trump as utiliza há uma década para promover o ódio, a segregação, o ataque a instituições democráticas e à ciência.

Seu legado é o de muita gente achar que pode fazer qualquer coisa, porque seriam “ungidas” por um suposto direito que as colocaria acima de tudo e de todos, e que suas ideias e suas vontades seriam mais importantes que as do próximo. Mais que isso: qualquer coisa que fizerem estaria automaticamente perdoado pelo usurpado conceito de “liberdade de expressão”.

A sociedade e a democracia se enfraqueceram. O Capitólio depredado não é causa, e sem sintoma desse processo, para não deixar nenhuma dúvida do caminho que infelizmente a humanidade está tomando.

Somos seres viáveis apenas enquanto nos organizarmos em uma sociedade construtiva, colaborativa e tolerante.

Trump deve ser apeado do poder por mecanismos legítimos, mesmo que isso lhe abrevie em apenas um dia seu mandato. Será um importantíssimo símbolo de que ninguém está acima da lei e nem pode fazer tudo, nem os presidentes.

Quanto às redes sociais, devem indubitavelmente arcar com o seu quinhão nesse ataque à democracia.

A volta dos “Loucos Anos 20”

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Estamos começando não apenas um novo ano, mas uma nova década

Muita gente acha que pode ser uma reedição dos “Loucos Anos 20”, como ficaram conhecidos aqueles que aconteceram há cem anos. Depois de uma pandemia e uma guerra que devastaram o mundo, aquela década foi marcada por grandes avanços culturais, artísticos e científicos. Foi um período de alegria, com muitas festas, muita liberação e muito sexo, quase uma jornada hedonista!

Agora estamos passando por uma pandemia, que já matou quase 2 milhões de pessoas no mundo, 200 mil só no Brasil, e continua implacável. A Covid-19 colocou o mundo de joelhos, provocando muita dor, de diferentes maneiras, mudando nossas vidas.

Será que, quando ela passar, viveremos novamente um período de euforia desmedida? O que podemos aprender com os “Loucos Anos 20” da época do charleston e do jazz?


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Os “Loucos Anos 20” –ou os “Roaring Twenties”, como eram chamados nos Estados Unidos– foram uma reação, quase uma libertação das tristezas e das restrições causadas pela Gripe Espanhola e pela Primeira Guerra Mundial.

Na Europa, especialmente Paris (que virou o centro do mundo), em Berlim e em Londres, a alta sociedade e os intelectuais se misturavam ao som do can-can nos cabarés e outros ambientes efervescentes em ideias modernistas. Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, o charleston animava festas imensas, regadas a bebida, drogas e sexo. Isso mesmo em um país onde vigorava a Lei Seca, que proibia a fabricação, venda e transporte de bebidas alcoólicas.

Foi nessa época também que surgiu o jazz. Com seus improvisos e suas influências africanas, nasceu em Nova Orleans e ganhou a América, influenciando a música ocidental.

Tudo parecia possível graças à tecnologia, especialmente os automóveis, as imagens em movimento e o rádio. Houve grande popularização do cinema, cuja grande estrela da época foi Charlie Chaplin. Os filmes deixaram de ser um interesse para aficionados para ganhar as massas e levar milhões às salas de exibição. Eles ainda eram em preto e branco e mudos, por isso as salas tinham espaço para uma pequena orquestra ou pelo menos um piano. Os desenhos animados também se popularizaram, com O Gato Felix sendo lançado em 1919, e Mickey Mouse, no curta “Steamboat Willie”, em 1928.

Os “Loucos Anos 20” também foram um grande momento de avanço para as mulheres. Elas deixaram seus espartilhos para trás e passaram a usar vestidos decotados e na altura dos joelhos. Com cabelos curtos, lábios vermelhos, pálpebras escuras, lançaram um novo estilo, que ficou conhecido como “melindrosas” –ou “flappers” em inglês.

A sua libertação foi muito além! Passaram a fumar em público, a dirigir e a ir à praia de maiô inteiriço, além de conversar livremente sobre sexo, atitudes que escandalizaram os conservadores da época. Em alguns países, como os Estados Unidos, foi quando as mulheres também começaram a votar.

 

Os novos “Loucos Anos 20”

Será mesmo que caminharemos para uma nova versão dos “Loucos Anos 20”, quando a epidemia estiver controlada e a economia do mundo recuperada?

Alguns especialistas acreditam que sim. Nicholas Christakis, professor na Universidade de Yale (EUA) é um deles. Ele lançou recentemente o livro “A Flecha de Apolo”, em que debate justamente a vida durante a pandemia e o que pode vir depois dela.

Segundo o pesquisador, essa não é a primeira grande pandemia que a humanidade tem que enfrentar, apenas a primeira que nós estamos vivendo. Ele explica que, durante as epidemias, verifica-se o aumento na religiosidade, as pessoas economizam dinheiro e ficam avessas ao risco. Quando a ameaça acaba, há uma reação natural de resgate do que foi perdido, com todo mundo buscando experiências sociais.

Christakis afirma que isso vai acontecer de novo agora com a Covid-19. Com os países iniciando a vacinação em massa em 2021, a doença deve estar controlada no ano que vem, e a economia recuperada, segundo ele, em 2024, quando teríamos os “Loucos Anos 20” do século XXI.

Naturalmente o mundo de hoje é muito diferente do que era há um século. E, dentro do que estamos discutindo aqui, as redes sociais têm um papel determinante, agindo como um catalizador.

Há cem anos, os meios de comunicação tiveram papel fundamental para disseminar aquele estilo de vida frenético, principalmente o rádio, os jornais e o cinema. Agora, com o meio digital, tudo acontece de maneira mais rápida e mais intensa.

Muita gente, aliás, parece já estar no espírito dos “Loucos Anos 20”.

A atual pandemia é muito menos devastadora que a Gripe Espanhola, que durou de janeiro de 1918 a dezembro de 1920. Estima-se que o vírus H1N1 tenha infectado, naqueles três anos, 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época.

Não se sabe exatamente quantas pessoas morreram vítimas dele. Os números mais conservadores são de 17 milhões, mas a cifra poder ter chegado a incríveis 100 milhões de mortos. Até o presidente brasileiro da época, Rodrigues Alves, pegou a doença e morreu.

Agora, apesar de a Covid-19 ter travado o mundo, a situação é menos grave, graças aos avanços da ciência e do papel dos meios de comunicação em conscientizar as pessoas. Vale dizer ainda que a tecnologia digital diminuiu –e muito– os estragos na economia, pois muitos negócios continuaram funcionando, mesmo com o distanciamento social.

Também não tivemos recentemente uma guerra absurdamente devastadora, com a Primeira Guerra Mundial, que durou de julho de 1914 a novembro de 1918., matando quase 18 milhões de pessoas, entre civis e militares. Por outro lado, temos a violência disseminada em nossas cidades, deixando os cidadãos em constante estado de alerta.

Não é de se estanhar, portanto, a grande euforia que sucedeu à peste e à guerra, com grandes avanços na cultura, na ciência e nos costumes do século passado.

Apenas para acrescentar alguns feitos além do que já foi dito, na medicina, o médico escocês Alexander Fleming descobriu, em 1928, a penicilina, inaugurando a era dos antibióticos, que salvam incontáveis vidas desde então. O psiquiatra austríaco Sigmund Freud lançou as bases da psicanálise.

Surgiram também os movimentos artísticos, como o dadaísmo, de Marcel Duchamp e, o surrealismo, de Salvador Dalí. Também floresceram, nesses anos, grandes nomes como Joan Miró e Pablo Picasso. No Brasil, em 1922, aconteceu a Semana de Arte Moderna, que levou ao Theatro Municipal de São Paulo artistas plásticos, arquitetos, escritores, compositores e intérpretes, os quais foram recebidos, ao mesmo tempo, com aplausos e vaias.

 

Aprendendo com os erros

Mas nem tudo foram flores. Precisamos aprender com o que deu errado, para não repetir um dos períodos mais negros da humanidade, que sucedeu essa época dourada.

A euforia desmedida terminou na chamada “Grande Depressão”. No final de 1929, os Estados Unidos entraram e profunda crise econômica, com a “quebra” da sua Bolsa de Valores, o que provocou inúmeras falências, desemprego gigantesco e muita miséria.

A reboque disso, houve um aumento da intolerância e da xenofobia, além de uma “caça às bruxas” de movimentos conservadores. Isso culminou com o surgimento da Ku Klux Klan, organização racista que pregava a supremacia de brancos e protestantes.

Na Europa, a crise abriu o caminho para o surgimento de aventureiros políticos nacionalistas, que criaram Estados totalitários e ultraconservadores. Seus maiores expoentes foram o nazismo alemão, liderado por Adolf Hitler, e o fascismo italiano, de Benito Mussolini. E, como se sabe, isso tudo deu na Segunda Guerra Mundial, o conflito mais sangrento da história.

Portanto, sim, é possível que estejamos prestar a entrar em novos “Loucos Anos 20”. Talvez mereçamos mesmo essa alegria, depois de tanto sofrimento.

Mas ainda não chegamos lá: temos um caminho a seguir. A pandemia está longe de acabar, especialmente aqui no Brasil, onde sequer começamos a vacinação.

Há uma poesia do genial Carlos Drummond de Andrade, que é muito apropriada a isso tudo. Ela se chama “Receita de Ano Novo”, e termina com a seguinte estrofe:

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

 

Portanto, vamos gozar dos nossos “Loucos Anos 20”. Mas temos que, antes, fazer por merecer isso.

 

O cinema precisa da sua maior reinvenção desde o VHS

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A recente estreia de “Mulher Maravilha 1984” pode ser um marco para o cinema. Não pela qualidade do filme, mas por ser o primeiro blockbuster a abraçar um formato de distribuição nascido pelos efeitos da pandemia que pode continuar depois dela.

Nos Estados Unidos, maior mercado cinematográfico do mundo, o filme protagonizado por Gal Gadot estreou no Natal nas salas de cinema ao mesmo tempo que na plataforma de streaming HBO Max. E isso provocou muita gritaria!

Afinal, será que os próprios estúdios estão fomentando uma alternativa que poderia, a longo prazo, acabar com as salas de exibição?

Sem trocadilhos, eu já vi esse filme antes. E os cinemas sobreviveram. Mas não sem passar por uma profunda reinvenção, que deixou muitos mortos pelo caminho.


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Novamente a TV se torna uma ameaça real às salas de cinema. E uma vez mais os estúdios podem jogar gasolina nessa fogueira.

As televisões estão cada vez maiores, melhores e, paradoxalmente, mais baratas: telas de até 85 polegadas, imagem brilhante, som cristalino, finas como nosso dedo! E não precisamos mais vender um rim para ter uma em casa.

Do lado do conteúdo na equação, com as salas fechadas por meses, Netflix, Amazon Prime Video, Disney+, Globoplay e afins ocuparam um espaço ainda maior em nossas vidas. Eles oferecem acervos cada vez maiores e melhores. Além disso, se tornaram incríveis estúdios, como ótima produção de séries e também de filmes próprios. Vale lembrar que, em 2019, “Roma”, produção da Netflix, foi indicada a dez categorias no Oscar, incluindo Melhor Filme, e ganhou em três, entre elas a de Melhor Diretor, com Alfonso Cuarón.

Entretanto, faltava uma coisa a esses serviços: terem, em seu portfólio, filmes de ponta junto com o cinema. Quem quisesse ver os lançamentos, necessariamente tinha que sair de casa.

 

Disney e Warner mudam o jogo

Entra em cena a Covid-19, fechando tudo e cancelando as estreias, incluindo algumas produções milionárias.

Diante disso, a Disney fez uma aposta ousada, lançando o live action de “Mulan”, que custou US$ 200 milhões, na sua plataforma Disney+ em setembro, “pulando” as salas de cinema.

Um detalhe: para assistir ao filme, além da assinatura da Disney+, que custa US$ 7 nos Estados Unidos, foi preciso desembolsar outros US$ 30. Resultado: apesar de o Disney+ não divulgar cifras individuais, o mercado estima que a estratégia tenha rendido cerca de US$ 260 milhões no lançamento, além de alavancar o download do aplicativo em 68%.

Como comparação, na mesma época, o filme foi lançado nas salas de cinema chinesas. Apesar de ser o segundo maior mercado cinematográfico do mundo e de, por lá, a pandemia estar controlada, o filme rendeu “apenas” US$ 23 milhões na estreia, considerado pouco.

Corte para a segunda quinzena de dezembro!

Estreia nos cinemas a aguardada sequência “Mulher Maravilha 1984”, depois de vários adiamentos. No Brasil, começou no dia 17.

Mas a grande novidade foi nos Estados Unidos, em que o filme foi lançado no Natal simultaneamente nas salas e na plataforma de streaming HBO Max, sem custo adicional aos assinantes por 31 dias (no resto do mundo, como não há o serviço ainda, fica só nas salas mesmo). A Warner já disse que fará isso com todos seus filmes a serem lançados em 2021, incluindo os aguardados “Matrix 4” e o remake de “Duna”.

Isso enfureceu muita gente, incluindo os artistas e –naturalmente– os distribuidores e os exibidores. Christopher Nolan, diretor do filme “Tenet”, que custou US$ 205 milhões, lançado apenas nas salas e cujos resultados decepcionaram, classificou a ideia como desleal com toda a cadeia, e uma grande perda de dinheiro.

Vale dizer que, em muitos casos, parte dos ganhos de diretores e atores vêm de uma porcentagem das bilheterias. Mas, se não há bilheteria, como eles ficam?

O estúdio, por sua vez, antecipa que 2021 ainda será duro para as salas de exibição. Então quer minimizar os prejuízos, a exemplo do que fez a Disney com “Mulan”: já está decidido!

Para deixar a situação de distribuidores e exibidores ainda mais desesperadora, em agosto, um juiz federal dos Estados Unidos anulou uma lei antitruste que vigorava desde os anos 1940. Ela proibia que estúdios de Hollywood tivessem seus próprios cinemas, para que não controlassem completamente a produção e a distribuição dos filmes. Além disso, em julho, a Universal e a rede de cinemas AMC anunciaram que o intervalo para que um filme chegasse ao streaming após o lançamento em cinemas, a chamada “janela de exibição”, cairia de 75 para apenas 17 dias.

 

Favor rebobinar a fita

Como disse antes, não é a primeira vez que as salas de cinema passam por um desafio assim. Nos anos 1980, não havia Covid-19, nem plataformas de streaming. Naquele caso, a ameaça respondeu por três letras: VHS.

Quem tem mais de 40 anos deve se lembrar do mercado sendo inundado por filmes distribuídos em fitas para videocassetes. Isso, aliás, viabilizou o surgimento de outra indústria milionária que foi enterrada pelo streaming: a das videolocadoras, cujo maior expoente foi a Blockbuster.

O fato é que, na época, muita gente achava mais interessante alugar vários filmes no fim de semana para ver com a família, pelo preço de um ingresso nos cinemas. E as salas começaram a esvaziar!

É preciso deixar claro que a experiência do VHS não era boa: imagem e som ruins em uma tela que, quando muito, tinha apenas 20 polegadas.

Mas a experiência dos cinemas também era ruim: salas pequenas, às vezes mal cheirosas, projeção escuras, sons abafados, poltronas desconfortáveis. Nem a pipoca salvava!

Oras, para ter uma experiência ruim, melhor ter em casa, pagando menos!

Os cinemas tiveram que se reinventar. Dessa época, surgiram os “Cinemarks e os UCIs da vida”, com suas salas incríveis. Muto mais que antes, ir ao cinema voltou a ser algo além de ver um filme: era uma experiência arrebatadora!

Agora estamos vendo um remake daquele filme. A transformação digital de equipamentos e de modelos de negócios trouxe o cinema para casa.

É claro que não é a mesma experiência de ir às salas! Mas, como aconteceu na época do VHS, a experiência doméstica pode ser boa o suficiente para as pessoas não quererem sair de casa.

As salas de cinema terão que se reinventar de novo. Criar algo que definitivamente não se possa ter em casa. Do contrário, correm o risco de virarem um programa apenas para entusiastas. E ninguém dura muito tempo assim.

Resta saber o que farão para que voltem a ser um local de experiência única e sensacional.

Como vencer nosso “vício” em tecnologia

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Pouco antes das 9h da segunda passada, vários produtos do Google pararam de funcionar. Gmail, YouTube, Meet, Drive e até a “lojinha de aplicativos” Play Store haviam caído.

Imediatamente começaram a pipocar nas redes sociais mensagens de usuários preocupados com o problema, pois não conseguiam realizar as suas tarefas cotidianas, que dependem de alguns desses produtos.

Alguns demonstravam até mesmo angústia! Afinal, seu cotidiano está intimamente ligado a serviços do Google ou de algumas outras empresas. Os sintomas eram quase de uma síndrome de abstinência, de um usuário viciado em alguma substância, que, de repente, é privado dela!

Será que é para tanto? Estamos mesmo viciados em tecnologia?


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Fiquei pensando em quais são as empresas das quais mais dependo tecnologicamente. E o Google, de fato, lidera essa lista. A começar porque meu smartphone funciona com o Android, o sistema operacional da empresa, que já há alguns anos desbancou o Windows como o sistema operacional mais usado no mundo. Afinal, os celulares se tornaram mais importantes em nosso cotidiano que o PC.

Além disso, tenho conta no Gmail, uso o Meet para mentorias, consultorias, aulas e palestras, armazeno e transfiro arquivos pelo Drive, publico e assisto vídeos no YouTube, fico informado pelo Notícias e armazeno imagens no Fotos. Isso só considerando os serviços que uso todos os dias! Há outros que não uso tão frequentemente, mas que facilitam a minha vida, como o Maps, o Waze, o Tradutor e vários outros. Sem falar, obviamente, no buscador do Google, que uso tanto, que nem saberia dizer quantas vezes por dia recorro a ele.

Logo na sequência, vem a Microsoft. Além do Windows, tem o Office, do qual uso, todos os dias, o Outlook, o Word e o Powerpoint. Tenho e-mail e agenda no Outlook, e armazeno arquivos no OneDrive. Sem falar do LinkedIn, onde sou TopVoice e é a minha principal rede social.

Tem também o Facebook e, em menor escala, a Adobe.

Esses são apenas os produtos dessas empresas que eu uso todos os dias! Qualquer uma delas que fique indisponível, gerará um baita transtorno!

Para algumas, eu pago regularmente assinaturas. Nas outras, o pagamento se dá com o compartilhamento de minhas “pegadas digitais”, que são usadas pelas empresas para nos entregar a seus verdadeiros clientes: os anunciantes. A maioria das pessoas “paga” essas empresas assim, com os seus dados.

Você já pensou o quanto depende delas? Faça esse mesmo exercício e o resultado pode ser surpreendente.

Isso explica por que, quando o Google sai do ar ou quando o WhatsApp é bloqueado por determinação de algum juiz inconsequente (como já aconteceu algumas vezes aqui no Brasil(, as pessoas enlouquecem!

Imagine quem depende umbilicalmente do WhatsApp para trabalhar ou vender, e subitamente o sistema para de funcionar. É uma sensação de completo desamparo, pois não há a quem recorrer!

 

Falta de alternativas

Isso acontece porque colocamos todos os nossos ovos em uma única cesta!

Na nossa vida, temos que ter alternativas para tudo –ou quase. Especialmente para as coisas mais importantes.

No caso da tecnologia, ela se tornou algo absolutamente central. Essas empresas ficaram tão eficientes e tão poderosas, que é quase impossível não dependermos delas em algum momento.

É interessante que nem sempre foi assim. Até o início dos anos 1990, a indústria digital era muito mais pulverizada. Muitas empresas nem eram tão grandes, mas conseguiam um relativo sucesso.

Só que, à medida que algumas foram obtendo mais sucesso, começaram a engolir as menores. Por exemplo, eu me lembro, quando estava no primeiro ano de Engenharia, na Escola Politécnica da USP, que havia um debate entre meus amigos sobre qual plataforma era a melhor: o Windows 3.0 ou o Desqview.

Nunca ouviu falar do Desqview?

Era uma plataforma que permitia rodar mais de um programa ao mesmo tempo, alternando entre eles. Isso parece a coisa mais ridícula, mas, no início dos anos 1990, quando não existia celulares e os computadores ainda eram dominados pelo MS-DOS, isso era um grande feito!

Onde está o Desqview hoje? Sua produtora, a Quarterdeck, foi engolida pela Symantec em 1998.

Alguns poderiam dizer que as coisas são assim mesmo, que esse é o jeito de funcionar do Capitalismo, em que empresas mais bem sucedidas acabam comprando as menores. O problema é quando algumas se tornam realmente grandes demais, e seus tentáculos nos envolvem de uma maneira que não conseguimos escapar. Mais que isso: nós nem queremos escapar!

O segredo do sucesso dessas empresas, de uma década para cá, é seu modelo de negócios. Justamente esse em que podemos usar quase tudo aparentemente de graça, apenas entregando graciosamente as nossas informações e aceitando receber anúncios.

É difícil resistir a isso! Essas empresas nos facilitam muito a vida! E o que nos pedem em troca é visto como justo por quase todo mundo!

É por isso que, quando o cidadão não consegue se defender sozinho, precisa dos órgãos reguladores. O governo americano tem o Google, o Facebook, a Apple e a Amazon na berlinda! Nas últimas semanas, os dois primeiros foram alvos de vários processos, que pedem a venda de alguns de seus produtos-chave, para que fiquem menos poderosos.

 

Dependência química

Mas e quanto a nós? Não podemos fazer nada? Somos mesmo viciados em tecnologia?

Somos –isso sim– incrivelmente dependentes dela como ferramenta de produtividade.

No caso de redes sociais, podemos argumentar que acabamos sendo viciados na dopamina que os microprazeres proporcionados por essas plataformas nos oferecem o tempo todo. Isso eu posso até concordar. É difícil se desvencilhar disso, pois há um processo químico envolvido, mas podemos fazer algumas coisas, sim, para minimizar essa dependência.

Primeiramente, quando algo não funciona, “muita calma nessa hora”! O mundo não vai acabar! Precisamos exercitar a resiliência e a paciência, habilidades que andam meio em baixa há muitos anos.

Há que se buscar alternativas! Aliás, devemos ter essas alternativas definidas antes de termos um problema: o famoso “plano B”.

As pessoas precisam entender também que, às vezes, problemas acontecem fora do nosso controle. Por exemplo, imagine o caso de um vendedor que visita regularmente seus clientes e um dia seu carro não liga de manhã.

É preciso que exista também compreensão e colaboração das pessoas com quem nos relacionamos. Se não pudermos entregar algo porque uma ferramenta essencial está indisponível, um novo prazo deve ser negociado.

A diferença é que, ficando no exemplo de um carro que não pega, quando acontece algo como o que houve como Google na segunda passada, é como se todos os carros da Volkswagen do mundo parassem de funcionar ao mesmo tempo!

Mesmo assim, a vida não vai parar se não conseguirmos fazer log in no Google. Essa dependência está em nossa cabeça e em relações de intolerância entre as pessoas e as empresas.

Se dependemos tanto da tecnologia digital hoje –e isso não vai mudar– precisamos alinhar as nossas expectativas, sermos mais resilientes, mais tolerantes e termos sempre uma alternativa na manga.

Mesmo que seja de outra gigante digital.

Blockchain vai muito além de criptomoedas e pode até ajudar a combater “fake news”

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“Vai falar de Bitcoin?”

A provocação de José Luiz Goldfarb, diretor da EDUC (Editora da PUC-SP), reflete a visão limitada que a população tem sobre a tecnologia blockchain. Isto, quando se tem qualquer noção sobre ela!

É verdade que, de longe, o uso mais popular do blockchain recai sobre as chamadas “criptomoedas”, métodos de troca de valores descentralizados, cujo maior expoente é o Bitcoin. Mas, como ficou claro na transmissão moderada por Goldfarb no dia 15, essa tecnologia possui muitas outras aplicações, tão ou mais interessantes que essas moedas digitais.

O evento marcou o lançamento do livro “A Expansão Social do Blockchain” pela EDUC. A obra foi organizada por Lucia Santaella, coordenadora do programa de pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP.

“Embora o tema seja jovem, penetrar em seus meandros se torna imperativo, quando seus efeitos começam a se fazer sentir na vida”, justificou Santaella. “A expectativa era que essa tecnologia fosse capaz de criar um novo modelo de internet, porque esse que está aí, principalmente no que diz respeito a redes sociais, fracassou”, explicou.

A obra aborda usos do blockchain em áreas como a crise de confiança da sociedade, “fake news”, integridade de dados pessoais nas redes, aprendizagem e –claro– criptomoedas e meios de pagamento digitais. Trata-se de uma compilação de artigos dos membros do grupo Sociotramas, organizado por Santaella, que reúne pesquisadores de diferentes áreas e instituições para discutir temas ligados a redes sociais (conheça aqui os coautores e detalhes da publicação).

Quatro dos coautores participaram da transmissão, abordando o tema de seus respectivos artigos. Magaly Prado, por exemplo, falou sobre como o blockchain pode ser usado para combater as “fake news”, as infames notícias falsas. “Uma plataforma descentralizada visando usar a tecnologia blockchain em nome do jornalismo é louvável e torna as informações de uma rede independente de redações mais confiáveis, preponderante em tempos de reputação baixa por conta da desinformação desembestada”, explicou.

 

Confiança, “fake news” e integridade

Marcelo de Mattos Salgado trouxe uma análise sobre a crise de confiança que afeta, de modo geral, o mundo ocidental –e como o blockchain se encaixaria neste cenário. Segundo ele, “talvez a crise de confiança seja movida, pelo menos em parte, pela referida automatização dos processos de segurança, como o blockchain, que efetivamente substitui os elos de confiabilidade, tão humanos”.

O combate às “fake news” também foi abordado por Kalynka Cruz-Stefani. “O meu trabalho tem uma visão analítica sobre esse sistema de propagação de ‘fake news’”, explicou. “Estudos mostram que, a partir de 2023, 30% delas serão descobertas e combatidas pelo blockchain”,

Por fim, Paulo Silvestre esclareceu como essa tecnologia pode ajudar na integridade de informações pessoais nas redes, hoje totalmente pulverizadas e controladas por grandes empresas e instituições. “Nós garantimos, usando o blockchain, não só a integridade dos dados, como também que temos o controle de nossa própria informação”, explicou. Além disso, usos criativos fazem com que isso esteja de acordo com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), que entrou em vigor no Brasil em setembro.

O livro já está disponível como e-book ou para ser lido no leitor eletrônico Kindle. A versão impressa estará disponível a partir de janeiro, pela EDUC.

“A inteligência humana tem caminhos misteriosos”, disse Santaella. Em linha com os outros autores, ela acrescentou que “o grande afetado pelas redes sociais, “fake news” e pós-verdade é o jornalismo, e nós não podemos viver sem jornalismo”. A professora concluiu dizendo que “quando nós perdemos a confiança nele, o que nos resta para conhecer o que de fato aconteceu?”

Você pode acompanhar a íntegra em vídeo do lançamento do livro “A Expansão Social do Blockchain” na TV PUC. Ainda, saiba como foi a apresentação de Maria Collier de Mendonça sobre o livro no XIII Simpósio Nacional da ABCiber.


* colaborou Marcelo de Mattos Salgado

Chegará a hora que dependeremos de robôs para nos apaixonar?

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O que faz alguém se apaixonar por outra pessoa?

Essa não é uma pergunta simples de se responder.

Certa vez, disseram para mim que a paixão é um truque da natureza para que continuemos nos reproduzindo. Achei graça na hora, mas, a cada dia que passa, vejo que há alguma verdade nessa frase.

A partir disso, será que dá para automatizar os mecanismos da paixão? O governo japonês acha que sim e está investindo pesado nisso, justamente para aumentar a população do país.

Isso é emblemático! Independentemente da eficiência dessa proposta, será que chegamos ao ponto de precisarmos de um sistema para encontrar a pessoa certa e nos apaixonar? Estamos perdendo a nossa capacidade de gostar de outra pessoa naturalmente?


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No Japão, o número de nascimentos caiu 5,8% em 2019, para cerca de 865 mil. É o menor número da história! Entre as explicações para isso, estão a diminuição de casamentos e um aumento na idade que as pessoas se casam.

Para tentar reverter esse quadro preocupante, os governos nacional e regionais preparam um investimento de 2 bilhões de ienes (cerca de R$ 97 milhões) para desenvolver sistemas de inteligência artificial para criar casais compatíveis, transcendendo as combinações mais óbvias dos sites e aplicativos de relacionamento.

De fato, os sistemas atuais não vão muito além de combinar gostos e características. Mas gostar das mesmas coisas está longe de ser suficiente par alguém se apaixonar pelo outro. Na verdade, muitos relacionamentos em que ambos gostam das mesmas coisas simplesmente não evoluem, por isso mesmo!

Há também os “aplicativos de pegação”, cujo maior expoente é o Tinder. Mas a sua proposta é outra. Não digo que pessoas não possam se apaixonar a partir de encontros patrocinados por eles, mas essa não é a ideia a princípio. A “química” entre duas pessoas surge de fatores imponderáveis, combinando elementos aparentemente desconexos.

É muito mais provável o Facebook, com seus algoritmos de relevância criados para nos sugerir conteúdo e vender todo tipo de quinquilharia, descobrir a nossa alma gêmea. Afinal, ele se vale de tecnologias como machine learning, Internet das Coisas, big data, análises preditivas e linguagem natural para “escavar nossas verdades” mais profundas a partir das incontáveis interações no mundo digital.

É curioso que sistemas para encontrar alguém existem desde o começo da Internet comercial. Eu me lembro, lá no grupo pioneiro que criou o Universo Online, em 1996, de participar das discussões para o desenvolvimento do serviço Almas Gêmeas, o avô de todos esses sites. Quatro anos depois, fui o gerente de projetos da versão brasileira do Amor@AOL, da America Online.

Eram sistemas muito, muito simples, que apenas faziam as combinações óbvias. Mas precisamos entender que, naquela época, isso tudo era uma grande novidade. Tanto que, também em 1996, um casal que se conheceu no Bate-Papo do UOL e acabou se casando virou notícia nos jornais: pessoas que se conheceram pela Internet se casam!

Na época, isso era visto até com desconfiança. Hoje estranho é não conhece ninguém online!

É absolutamente comum que se use esses sites e aplicativos para queimar etapas e encontrar rapidamente alguém para o que quiserem. Além disso, eles oferecem uma sensação de que diminuem a frustração de ser rejeitado em uma balada ou no bar.

É uma falsa sensação (vlaro), pois as pessoas continuam sendo rejeitadas, aliás, agora muito mais! Mas, como se tenta a sorte com dezenas de pessoas ao mesmo tempo, mesmo que a maioria diga “não”, alguém acabará dizendo “sim”.

 

A vida imita a arte

Se os sistemas baseados em inteligência artificial entregarem o que prometem, isso pode ser um salto para um patamar muito superior a esses “cardápios de gente”.

A ficção já explora isso há bastante tempo. O episódio “Hang the DJ”, o quarto da quarta temporada da série “Black Mirror”, por exemplo, demonstra o funcionamento surpreendente de um aplicativo de namoro.

Impossível não citar também o filme “Ela” (“Her”, 2013), em que o protagonista Theodore, vivido por Joaquin Phoenix, se apaixona pelo sistema operacional inteligente de seu computador e de seu celular, a Samantha, personificado pela voz de Scarlett Johansson. O que faz Theodore se apaixonar por Samantha não é sua carência, e sim o fato de que o sistema sabe tudo sobre ele, pois acessa todas as suas pegadas digitais. Os dois sempre conversam, e Samantha aprende continuamente do que ele gosta.

Resultado: ela sempre oferece o que ele precisa, mesmo coisas inesperadas. Dá quase para se apaixonar por Samantha só de assistir ao filme, por mais que pareça louco isso. Mas, como diz uma amiga do protagonista, “apaixonar-se é uma coisa louca: é uma forma de insanidade socialmente aceitável.”

Trazendo para a nossa realidade, e se o sistema usasse toda essa inteligência para combinar pessoas?

Pode dar certo mesmo: os sistemas já estão aí disponíveis!

Não é de se admirar que o Facebook tenha lançado, no ano passado, um recurso de Namoro em sua plataforma, ainda que timidamente.

Do jeito que a coisa anda, talvez comecemos a ver sugestões de par ideal em nosso WhatsApp e Instagram, da mesma forma que vemos os stories. Isso se a empresa não for obrigada a vender as duas plataformas, como o governo dos Estados Unidos quer, justamente para diminuir o poder que o Facebook tem sobre os usuários e permitir uma concorrência mais saudável

No final das contas, talvez esses serviços digitais queiram resolver um problema que foi criado, ainda que parcialmente, por eles mesmos. Com tanta velocidade, com tanta oferta, com tantos estímulos o tempo todo e em qualquer lugar, talvez estejamos perdendo algumas capacidades essenciais de nossa humanidade.

Como disse certa vez o filósofo polonês Zygmunt Bauman, “tudo é mais fácil na vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade”. Vivemos na época do que ele chamou de “amor líquido”.

Todos esses recursos digitais onipresentes nos ajudam a encontrar o que buscamos, mas podem nos levar a nos perder em uma sociedade sem rosto, homogeneizada, controlada, viciada em dopamina ao ser exposta apenas ao que cada um gosta. Perdemos nosso senso crítico, porque acreditamos piamente no que dizem ser o certo, sem sequer entendermos do que estão falando.

Com isso, nossa empatia se esvai, assim como a capacidade de identificar o bom e o mau.

E, sem esses recursos, talvez estejamos perdendo os nossos melhores recursos para nos apaixonar, pelo menos de fazer isso sem ajuda.

Que bom que temos a inteligência artificial para nos salvar!

Por que ainda temos chefes tóxicos

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Que tipo de chefe você tem? Ou que tipo de chefe você é?

Muito se discute sobre a diferença entre um simples chefe e um verdadeiro líder: você já deve ter lido incontáveis artigos sobre o tema.

Infelizmente, nessa pandemia, vimos várias histórias de chefes tóxicos que abusaram de sua posição com seus subordinados em home office. Justamente em um período de grande angústia pela transformação digital forçada e sem planejamento.

Mas uma pesquisa da Fundação Instituto de Administração (FIA) divulgada no mês passado traz um alento sobre as chefias brasileiras. Segundo o levantamento feito com cerca de 150 mil profissionais de mais de 300 empresas de diferentes portes e segmentos no país, os chefes brasileiros são “inspiradores”, “educadores” e “democráticos”.

Se isso já era importante antes, agora, com muitas equipes trabalhando em maneira distribuída, pode significar a diferença entre um time eficiente, entrosado e feliz, e um grupo de pessoas que não conseguem produzir juntas.


Veja esse artigo em vídeo:


Mas o que faz um chefe ser um verdadeiro líder? Por que não temos mais pessoas assim?

Não são só as crianças que aprendem com o exemplo: nós também! No ambiente corporativo, esse exemplo vem do chefe. Infelizmente também podemos aprender coisas ruins com um chefe tóxico.

A função do chefe é coordenar o trabalho de seus funcionários para atingir os objetivos da empresa. Portanto, quando se é subordinado, você é avaliado pela sua performance individual. Quando se é chefe, você é avaliado pela performance da equipe.

Entretanto, a maioria das pessoas assume uma posição de chefia sem ter sido preparada para isso. E daí passa a usar a máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Nada poderia estar mais errado!

E eu posso confirmar isso pela minha experiência pessoal como subordinado e como líder.

Ao longo da minha carreira, trabalhei para empresas bem diferentes, de várias nacionalidades. Tive a alegria de ter ótimos líderes e o desprazer de ter chefes ruins, felizmente mais do primeiro grupo. E posso afirmar categoricamente que os meus resultados e os das empresas como um todo eram muito melhores quando existia uma boa liderança.

Sabe aquela história da diferença entre o chefe e o líder?

O chefe é o que segue a máxima acima. Ele suga o trabalho de seus subordinados, como um parasita corporativo. Nesse cenário, apenas ele cresce, pois não dá visibilidade à equipe.

Essa é uma visão míope desse chefe e do chefe dele, que não percebe o mau instalado ali. Nessa gestão, o funcionário não oferece o melhor que tem. Adquire uma postura reativa de fazer só o que lhe mandam. Ele se desenvolve pouco e, caso acabe sendo chefe um dia, possivelmente repetirá esse padrão, criando um círculo vicioso em que todos perdem.

 

Os tipos de chefes

A pesquisa “FIA Employee Experience”, realizada há 40 anos, comprova que as empresas com melhores resultados são aquelas que têm verdadeiros líderes nas chefias.

Os dados foram coletados em uma pergunta de múltipla escolha. O chefe “inspirador”, aquele que inspira os funcionários e a equipe confia nele, aparece em 26% dos casos. Já 17% dos chefes foram considerados “educadores”, que se focam principalmente em desenvolver a equipe. Os “democráticos”, que consideram a opinião de todos nas decisões, representam 15% das chefias. Todos esses são considerados estilos positivos, somando 58% das lideranças das empresas pesquisadas.

Na ponta oposta, 9% dos chefes foram classificados como “coercitivos”, aqueles que são considerados autoritários e que não ouvem seus subordinados.

No meio do caminho, há ainda dois perfis considerados neutros. O primeiro são os “maternais”, que, segundo a pesquisa, colocam as pessoas em primeiro lugar e evitam conflitos. E, por fim, os “direcionadores”, que têm alto desempenho e cobram o mesmo de sua equipe, pressionando por metas. Cada um apareceu em 10% das respostas.

Os 13% restantes dos respondentes preferiram não classificar o estilo das suas lideranças.

Pode-se argumentar que as empresas que participam desse tipo de pesquisa, que é totalmente voluntária, de alguma maneira se preocupam com o bem estar de seus funcionários e prestam atenção no desempenho de suas lideranças. E isso pode fazer com que tenhamos mais bons resultados que a média de todas as empresas do país, que infelizmente estão longe disso.

Esse é um bom ponto. Entretanto, não desmerece suas conclusões que correlacionam boas chefias com alta performance das equipes e bons resultados do negócio.

Eu já tive o prazer de trabalhar em uma empresa que foi considerada, no ano 2000, uma das melhores para se trabalhar no Brasil: a America Online. Vale dizer que ela chegou a ser considerada a melhor empresa para se trabalhar nos Estados Unidos, na época. Era praticamente uma unanimidade que aquele foi o melhor trabalho da vida de quem passou pela AOL, especialmente a primeira turma, que ajudou a trazer o negócio para o Brasil.

Não era só pela empresa, que oferecia excelentes condições de trabalho e um pacote de benefícios atraente. O principal motivo eram as chefias, que se enquadravam perfeitamente nos papeis de “educadores”, “democráticos” e principalmente “inspiradores”. Era uma corrente de energia positiva que fazia com que os funcionários fossem todos os dias para a empresa com vontade de criar um mundo melhor a partir do resultado de suas atividades.

Quem não quer trabalhar em um lugar assim?

Foi lá que eu tive a líder mais inspiradora de minha vida, que me permitiu conhecer a sua história e descobrir que ela era daquele jeito porque também tinha sido inspirada anteriormente. Foi lá também que tive o meu líder mais democrático, uma pessoa incrível que fazia com que todos oferecessem o seu melhor, ao colocar a equipe no centro das decisões, uma pessoa muito querida que a Covid-19 levou embora há três semanas. Isso nos deixou todos em choque, porque, 15 anos depois daquele trabalho, ainda o queríamos muito bem.

 

As vantagens de um “trem da alegria”

Os exemplos desses e de outros bons líderes que tive me ensinaram como conduzir uma equipe.

Quero que quem trabalhe comigo produza não porque tem medo ou porque está sendo pressionado. Não quero que trabalhem apenas por causa do salário no fim do mês. Para mim, é importante que façam algo que seja importante para si e para a sociedade, que entendam qual é seu papel no negócio e por que são fundamentais para a equipe. Quero que compartilhem comigo seus pensamentos, mesmo os que não forem agradáveis, pois tudo isso é necessário para o conjunto melhorar.

Quando eu finalmente estive do outro lado da mesa, comandando equipes pequenas ou grandes, pude fazer isso. Em todos os casos, eu colhi os resultados esperados.

Eu me lembro de uma colega me dizendo certa vez: “você é a pessoa mais democrática que eu conheço”. Não sei se era para ser um elogio, mas nunca mais esqueci daquela singela frase.

Mas nem todos gostam desse meu estilo. Principalmente nas empresas mais “quadradas” em que trabalhei, isso às vezes era mal visto. Em uma ocasião, um outro diretor veio conversar comigo, na verdade, fazer uma reclamação velada, que meu departamento era um “trem da alegria”, que as pessoas trabalhavam rindo e se divertindo. Eu perguntei por que aquilo o incomodava, se estávamos dando um excelente resultado.

E aí é que está: chefes coercitivos, autoritários não conseguem lidar com uma equipe com autonomia, que trabalha sua liberdade com inteligência, entregando o que deve, sem que alguém os esteja pressionando. Não é de se estranhar que essa empresa, que construiu uma posição de liderança em seu segmento ao longo de décadas, não resistiu aos novos tempos e acabou sendo vendida.

Por isso, salvo talvez entre militares, aquela história de “manda quem pode, obedece quem tem juízo” não tem mais espaço.

As empresas com um futuro brilhante são aquelas que preparam seus funcionários para exercer suas funções com autonomia, eficiência e prazer. Isso não é um “trem da alegria”: ninguém está brincando em serviço, muito pelo contrário!

Esse é o caminho para termos menos chefes coercitivos e mais líderes inspiradores.

Black Friday 2020 deu o tom para o varejo de 2021

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A Black Friday desse ano confirmou a expectativa de ser a mais digital da história. Mas também foi a que mais nos ensinou, e pode ter dado importantes pistas sobre como será o varejo no ano que vem.

Vários fatores explicam isso, todos eles, de certa forma, ligados à pandemia de Covid-19. A começar porque o varejo físico continua um tanto vazio, pois parte da população ainda prefere evitar compras presenciais. Além disso, muita gente que ainda resistia ou usava pouco o e-commerce abraçou de vez essa modalidade de compras no período de distanciamento social.

Boa parte dessas pessoas descobriu suas vantagens e não voltará atrás. E não tem mesmo como voltar! Mesmo porque o retorno a algo mais parecido com uma “vida normal”, que depende das vacinas contra a Covid-19, pode demorar ainda mais que o esperado: na semana passada, o Ministério da Saúde disse que não haverá vacina para todos os brasileiros em 2021, devemos ficar bem longe disso!

Portanto, essa Black Friday nos mostrou caminhos interessantes, com muitos aprendizados, tanto do lado dos consumidores, quanto dos varejistas. Precisamos estar atentos às mudanças, pois elas podem salvar nosso negócio de agora em diante.


Veja esse artigo em vídeo:


Na sexta da Black Friday, as vendas no varejo recuaram 14,5%, em relação ao ano anterior. Os dados são do Índice Cielo de Varejo Ampliado, que monitora 1,5 milhão de varejistas. A causa principal foi o declínio de 25,5% nas vendas no varejo físico. Já o e-commerce cresceu 21,2%.

Os números estão em linha com o apurado pelo Ebit|Nielsen. Segundo a consultoria, somando a quinta e a sexta, o e-commerce brasileiro vendeu na Black Friday R$ 4,02 bilhões, um crescimento de 25,1% em relação a 2019. Foram mais de 6 milhões de pedidos gerados, 15,5% superior ao ano passado.

Mas, mesmo no e-commerce, as vendas decepcionaram. Outra consultoria, a Neotrust, projetava um faturamento de R$ 6,6 bilhões.

Parte disso se deve ao fato de que o brasileiro ficou mais pobre em 2020. A economia e o emprego já tinham começado o ano bem ruins, e sofreram ainda mais por causa da pandemia. Para muita gente, o auxílio emergencial era o único dinheiro que entrava. Em muitos casos, ainda é.

Observou-se também uma diluição das compras em vários dias, antes da sexta. Segundo a Neotrust, de segunda quarta, o comércio digital faturou R$ 1,8 bilhão, um aumento de 109% ante o mesmo período de 2019.

As ações de antecipação existem há muitos anos, mas não costumavam dar tão certo. Agora, com muita gente ainda trabalhando em casa, as pessoas tiveram mais tempo de acompanhar a evolução dos preços e identificar essas ofertas mais cedo. Ou seja, aquela fissura de ficar esperando dar a meia-noite no site ou a loja abrir na manhã de sexta está cada vez mais no passado.

Isso também se explica pelo amadurecimento do consumidor digital. Como eu disse antes, muita gente que resistia ao e-commerce agora compra um monte de coisa online.

Por isso, o comércio digital já vinha de uma sequência de bons resultados desde abril. Ele registrou a sua maior alta histórica em 2020, com picos de crescimento nas datas sazonais, como o Dia das Mães e o Dia dos Namorados.

No trimestre que terminou em setembro, fortemente impactado pelas lojas fechadas, o e-commerce cresceu 43,5% em relação a 2019. Já as lojas físicas, mesmo com a reabertura no começo do segundo semestre, nunca mais recuperaram o movimento de antes da pandemia, mesmo agora na Black Friday. Não houve aglomerações nem filas.

 

Poder na palma da mão

Outra coisa interessante que se viu foi que, mesmo quem estava na loja, estava comparando preços pelo smartphone. Esse comportamento também não surgiu agora, mas se acentuou nessa Black Friday em que até o varejo físico tinha algo de digital.

O consumidor tem muito mais poder de escolha e mais informação, o que exige que as vendas de agora em diante sejam muito mais consultivas e focadas nas reais necessidades do cliente. Aquela história de empurrar o produto encalhado ou que dava mais margem de lucro ficou para trás. Agora a venda só acontece se o consumidor realmente entender que está levando o melhor produto para ele e com as melhores condições.

Segundo uma pesquisa feita pela Samsung sobre tendências desta Black Friday, as ferramentas mais usadas pelos consumidores para isso são plataformas de comparação de preços (usadas por 61% dos clientes), alertas de preços (adotadas por 50%) e redes sociais (com 48% de uso). Mesmo quem tem a intenção em fazer uma compra em uma loja física, porque quer levar o produto na hora, por exemplo, faz pesquisas online. Ou seja, chega na loja sabendo tudo sobre o produto e quais são as melhores ofertas.

Eu particularmente acho isso ótimo, pois se estabelece um relacionamento mais transparente entre varejista e consumidor. Tanto é assim que o site Reclame Aqui identificou que a queixa mais comum desse ano foi a mesma de anos anteriores: a maquiagem de promoções. Ou seja, as lojas aumentam os preços alguns dias antes, para dar um desconto mentiroso na Black Friday.

É a “Black Fraude: tudo pela metade do dobro!”

Insistir nisso é um tiro no pé! As pessoas não são trouxas e têm cada vez mais acesso à informação.

Vale dizer que, apesar de os sites anunciarem descontos de até 80%, eles são raríssimos! Também segundo o Reclame Aqui, os descontos estavam parecidos com a de anos anteriores, entre 15% e 20%. Dificilmente se encontrava algo com mais de 30%.

A consultoria KPMG destaca também outra coisa que tem que aparecer no radar dos gestores: a segurança. No caso das lojas físicas, o respeito aos protocolos sanitários da Covid-19 é essencial para que os consumidores se sintam seguros para voltar aos estabelecimentos. Já no caso do e-commerce, destaca-se a segurança dos dados dos clientes e das transações financeiras. E, em todos os casos, a logística fica cada vez mais importante, para garantir entregas certas e no prazo. Atrasos podem corroer seriamente a imagem da marca!

 

Você está se mexendo?

Faço agora algumas provocações.

Em primeiro lugar, o seu negócio já cuida de todos esses pontos ou está pelo menos genuinamente trabalhando para chegar lá? Aliás, apesar de o assunto aqui se concentrar no varejo, muitos desses aprendizados valem para qualquer negócio, pois eles estão associados a mudanças no comportamento do cliente, que afetam todos os segmentos.

Por exemplo, o omnichannel, que integra de maneira total e transparente os varejos físico e online, e todos os canais de atendimento, se tornou essencial. Qualquer que seja o seu negócio, está cada vez mais difícil saber onde a jornada do cliente começará, e muito menos onde terminará, especialmente em vendas mais complexas. O consumidor pode começar o relacionamento com a marca na loja, obter mais informações no Google, conversar com os vendedores por WhatsApp, fechar a venda pelo site e ir buscar o produto de novo na loja, ou qualquer combinação disso.

Dá para ver que não estar preparado para atender todos esses canais pode dificultar muito as vendas de seus produtos ou serviços de agora em diante. Isso se você não for chutado para fora do mercado!

Outra coisa importante é que todo a tecnologia é fundamental, não apenas para ter um e-commerce, mas para que todos os vendedores ou o próprio site continue o atendimento exatamente no ponto que o vendedor anterior deixou. Toda a informação sobre o cliente e sobre a venda deve ficar registada e disponível rapidamente.

A tecnologia também pode trazer insights valiosíssimos cruzando os dados do consumidor com seu histórico com a empresa, mas também com suas incontáveis pegadas digitais espalhadas pela Internet. A capacidade da máquina de coletar e analisar uma quantidade absurda de informações pode identificar padrões e fornecer ideias que nem o melhor vendedor do mundo conseguiria fazer.

A Black Friday 2020 não foi, portanto, apenas uma data de vendas: ofereceu ensinamentos valiosos para os gestores. Se o cliente mudou (e ele mudou muito!), não dá para continuar tocando seu negócio do mesmo jeito.

Quando ser bom no que se faz vira um problema

By | Jornalismo | No Comments

Você sente que não sabe mais em quem acreditar? Não se vê representado por ninguém?

Você não está sozinho! E isso não é uma esquizofrenia coletiva.

É resultado de um processo cuidadosamente planejado e executado por grupos que querem se manter no poder. Mas esses grupos não são os únicos responsáveis por esse momento de confusão em que vivemos.

Isso acontece também porque instituições em quem sempre confiamos para separar o certo do errado perderam essa relação com seu público, porque não conseguem mais se comunicar com ele. Pior que isso: as pessoas não se sentem mais representadas por elas. E a perda de representatividade é o caminho mais eficiente para uma instituição, um governo, uma empresa, das maiores às menores, ser colocada para fora do jogo.


Veja esse artigo em vídeo:


A técnica usada por esses grupos não é nova. Trata-se de uma estratégia militar conhecida como “dividir para conquistar”. Foi criada pelo general romano Júlio César no século I a.C. e consiste em estimular divisões entre os indivíduos de uma sociedade para que eles não se organizem contra o governante. Além disso, promove o ódio entre esses indivíduos e empodera aqueles que apoiam o mandatário.

A novidade é que agora a comunicação e as redes sociais são as principais ferramentas dessa fratura proposital da sociedade. E isso acontece em uma velocidade alucinante, com uma crise nova a cada semana, ou mais!

Por exemplo, a sociedade ainda se debruçava sobre um interminável debate sobre a segurança das urnas eletrônicas depois do primeiro turno. Um ataque aos servidores do TSE coordenado com uma enxurrada de fake news tentou desacreditar o sistema eleitoral eletrônico, para atender interesses de grupos que aparentemente querem seu fim para fraudar a eleição de 2022.

Então, na quinta, aconteceu o brutal assassinato de João Alberto Silveira Freitas por seguranças de em uma loja do Carrefour em Porto Alegre. E o debate nacional passou a ser subitamente se existe racismo no Brasil (o que é surreal!).

Não estou dizendo que esses assuntos não sejam importantes ou não devam ser debatidos. Muito pelo contrário!

A questão é como esses temas são colocados em pauta pelos grupos no poder, começando já com uma temperatura altíssima, promovendo uma profunda rachadura na sociedade, ao invés de se encontrar um consenso construtivo, que seria o objetivo de um bom governante.

Se, a essa altura, você já está irritado com o que estou dizendo, essa é uma prova de que o método funciona!

Entretanto, como eu disse antes, isso é só uma parte do problema. A outra é que as instituições que tradicionalmente ajudavam a sociedade a separar o bem do mal, o certo do errado, perderam grande parte de sua capacidade de conversar com a população.

Essas instituições –como a imprensa, a igreja, a educação, a ciência– são importantes contrapontos ao “dividir para conquistar”, pois são elas que restabelecem a verdade e criam o ambiente para a união de um povo que quer se desenvolver. Não é por acaso que elas são fortemente combatidas pelos maus governantes. Exceto –claro– seus representantes que se submetem a seus caprichos: esses serão apadrinhados em uma imoral troca de interesses.

Mas por que essas instituições estão perdendo a capacidade de se comunicar com seus públicos?

 

Ficando bom e impopular

Ironicamente, ao buscar a excelência no que fazem, elas se tornam menos populares, no sentido amplo da palavra. Ficam mais difíceis de serem entendidas, tratam de temas que não fazem parte do cotidiano das massas. Pior: muitas até rejeitam demandas dessa parte da população, que acaba sendo a base mais numerosa da pirâmide social.

É fácil explicar isso olhando para a própria imprensa.

Sou jornalista desde 1993. A primeira vez que vi muita gente apontando para os veículos de comunicação e dizendo “você não me representa” foi nas grandes manifestações de rua de 2013.

Aquilo era um caldeirão de grandes insatisfações populares contra muita coisa, a maioria delas legítima. No meio daquelas gigantescas marchas, surgiam pontos de violência e depredação. Só que, pelo menos em um primeiro momento, muitos veículos de imprensa não apenas não reconheceu as demandas legítimas naqueles movimentos, como ainda se referiam a eles indiscriminadamente como “vândalos”, como se todos ali estivessem participando do quebra-quebra, o que obviamente não era o caso.

O resultado é que comecei a ver repórteres sendo hostilizados nas ruas pela população por simplesmente estarem fazendo seu trabalho. De lá para cá, isso apenas piorou, com o patrocínio dos governantes que perceberam como esse vínculo entre a mídia e seu público estava frágil.

Sem representatividade, nenhum negócio resiste!

Ainda no caso da imprensa, a busca de fazer um trabalho de excelência também acabou afastando os grandes veículos da base da sociedade. Isso começa pelo linguajar adotado, difícil de ser compreendido por essa parcela da população. Os assuntos também contribuem para esse afastamento, com pautas distantes de sua realidade. O uso limitado dos recursos digitais piora ainda mais essa situação.

Eu me lembro, nos anos 1990, quando a Internet comercial ainda estava nascendo, que algumas empresas de comunicação tinham um jornal “sério” e outro sensacionalista ou pelo menos com apelo mais popular. Isso quando não tinham publicações que juntas atendiam todo o espectro do público.

Apesar de a intelectualidade torcer o nariz para os “empreme-que-sai-sangue”, como eram chamados os jornais sensacionalistas, eles tinham uma importância fundamental para informar parte da população! Afinal, no meio de todo aquele material “questionável”, estava a notícia necessária para o indivíduo levar uma vida melhor.

Muitos desses jornais sumiram, por diferentes motivos. Foram substituídos por sites “de agrado fácil” para esse público, mas que não têm o menor interesse em informar nada. Na verdade, muitos hoje são veículos de desinformação.

Vamos pegar um mercado completamente diferente, para ilustrar como a comunicação e a representatividade são essenciais para todos: uma lanchonete.

Digamos que um dado estabelecimento ganhou fama e cresceu pela qualidade de seu X-burguer, que é um lanche mais simples. O que tinha de mais sofisticado ali era um também popular X-salada. Diante do sucesso, o dono do estabelecimento começou a investir em lanches realmente sofisticados. Eles lhe davam mais margem de lucro e começou a ser elogiado por uma parcela da população mais elitizada, que não costumava frequentar o local antes.

O proprietário decidiu então fazer apenas os lanches mais sofisticados. Como resultado, sua clientela diminuiu drasticamente, pois a maior parte das pessoas queria apenas o X-burguer e o X-salada. Eles não gostavam dos lanches mais sofisticados e não viam por que pagar mais caro por aquilo.

A médio prazo, a lanchonete –que passou a ser chamada de hamburgueria– acabou quebrando.

Não há nada de errado em querer evoluir e atender um público mais sofisticado! É preciso apenas saber se o negócio conseguirá sobreviver se esse movimento matar a sua representatividade junto ao grande público.

Ninguém paga por algo com que não se identifica!

 

Confortável na exclusividade

Peguemos agora a indústria automobilística.

Podemos pensar na Ferrari, a mítica fabricante de carros superesportivos, criada por Enzo Ferrari em 1939. Ela nunca teve a pretensão de atender as massas. Muito pelo contrário: uma Ferrari sempre foi símbolo de excelência, sofisticação e diferenciação. Em contrapartida, nunca foi nem será um fabricante gigantesco de carros, como a Fiat, que, aliás, comprou e depois vendeu a Ferrari.

São escolhas que temos que fazer. Mas, qualquer que seja a que façamos, precisamos conhecer bem nosso público, suas necessidades e como se comunica.

Você pode achar que está abafando ao fazer algo incrível! Mas isso de nada adianta se seu público não concorda, porque você se distanciou dessas pessoas.

Não caia nessa armadilha! Continuar relevante e representar seu público é essencial! Se quiser mudar seu perfil –e você tem direito a fazer isso– terá que encontrar um novo público.

Sem isso, você abrirá espaço para oportunistas –seja na política, seja nos negócios– que vão ocupar esse vazio a dizer que estão “do lado do povo”, mas que apenas o “dividem para conquistar”.

Apesar da lentidão relativa, urna eletrônica reafirma seu valor contra fraudes

By | Tecnologia | No Comments

Nesse domingo, aconteceu o primeiro turno das eleições municipais. Apesar de os resultados terem saído no mesmo dia, demoraram mais que o normalmente visto desde que as urnas eletrônicas foram implantadas. Isso deu munição àqueles que visam desmoralizar o sistema.

Ficamos mal acostumados com a velocidade e a segurança delas? Não: é assim que deve ser! O sistema eleitoral eletrônico brasileiro é hoje o mais moderno do mundo, e um exemplo do que toda transformação digital deve ser em qualquer negócio. Afinal, ele redefiniu a percepção do público sobre algo (no caso, a eleição), permitindo que se faça muito melhor o que já existia e que se tenha algo impossível antes.

A demora além da métrica definida pelo próprio sucesso aconteceu, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), por uma falha no supercomputador que totaliza as apurações dos Estados. O tribunal sofreu ainda um ataque de hackers durante o dia, que foi contido. Mas, pela eficiência do sistema, nenhum dos dois problemas afetou a segurança do pleito.

Mas, se o sistema funciona tão bem, por que algumas pessoas preferem adorar o passado e querem a volta dos ineficientes e inseguros votos em papel?


Veja esse artigo em vídeo:


Eu acompanho o desenvolvimento da urna eletrônica desde suas primeiras versões, e participei da primeira distribuição em tempo real dos dados da apuração para veículos de comunicação (do lado dos veículos), o que permite a criação dos seus sites que exibem os resultados ao público.

Dizer que o sistema eleitoral eletrônico brasileiro é perfeito e invulnerável seria inocência. Não existe sistema a prova de falhas! Mas dá para criar proteções que praticamente inviabilizam as fraudes, como é o caso aqui. Ele é, sem dúvida nenhuma, bastante seguro do ponto de vista técnico e conceitual, e certamente é muito mais seguro que qualquer votação com células em papel, muitíssimo mais fáceis de se fraudar.

Os críticos argumentam que o software das urnas eletrônicas poderia ser adulterado para beneficiar determinado candidato. Ou seja, o eleitor votaria em um candidato, mas o voto seria contabilizado para outro. Além disso, reclamam que o voto, mesmo que sem qualquer identificação do eleitor, não pode ser checado individualmente no caso de uma auditoria, pois as urnas guardam o resultado consolidado de todos os votos nelas.

Curiosamente, as urnas eletrônicas foram criadas para combater a grande fraude que existia na apuração dos votos em papel, uma verdadeira operação de guerra. Por exemplo, nas eleições de 1994, a última totalmente com votos em papel, a apuração contou com o trabalho de cerca de 170 mil pessoas! Ainda assim, demorou duas semanas para terminar.

 

Sistema antifraude

Não existe registro comprovado de fraude desde a primeira vez em que as urnas eletrônicas foram usadas, em 1996. Para isso, o TSE adota cerca de três dezenas de mecanismos de segurança para impedir fraudes e garantir o sigilo.

Todos os dados das urnas eletrônicas são criptografados e os equipamentos não possuem nenhuma foram de acesso à Internet ou qualquer rede, seja por Wi-Fi, por Bluetooth ou qualquer outra forma de comunicação. Para um hacker invadir uma urna, ele teria que fazer o processo na própria seção eleitoral, durante o horário da votação, na frente dos presentes, pois as urnas confirmam que estão sem nenhum voto quando são ligadas. Além disso, precisaria romper um lacre físico, desenvolvido pela Casa da Moeda, que, se for manipulado, muda de cor.

A fabricação das urnas, por mais que seja feita por empresas privadas, é toda controlada pelo TSE, que é o único capaz de testar os equipamentos. Nem o fabricante consegue fazer isso sozinho.

Além de todas essas proteções físicas, o processo eleitoral eletrônico brasileiro é composto por 94 sistemas exclusivos do TSE. Todos eles ficam disponíveis para que partidos políticos, o Ministério Público, a Controladoria Geral da União e outras entidades possam verificar sua integridade.

Antes de serem instalados nas urnas, os programas passam por um sistema de autenticação. Ele envolve a criação de hashes –uma espécie de garantia de inviolabilidade do código– e as assinaturas digitais do presidente do TSE, do procurador-geral da República e do secretário de tecnologia da informação do TSE. Se for preciso qualquer alteração nos programas, todo esse processo deve ser refeito, ou o novo software não será executado pela urna.

Logo após a votação ser encerrada, a urna automaticamente apura os votos nela e imprime os resultados da seção eleitoral, com o total de votos por partido e por candidato, total de votos nulos e em branco e a hora do encerramento da eleição. O relatório é afixado na seção eleitoral, garantindo que a informação fique imediatamente disponível ao público.

Os resultados consolidados são então criptografados e gravados em uma mídia digital removível. Ela é levada para um cartório eleitoral para ser transmitida por uma rede interna para um sistema totalizador. Os votos são então somados e publicados de uma maneira incrivelmente rápida: cerca de 150 mil votos por segundo!

Foi justamente nesse ponto que o sistema “pipocou” na noite desse domingo, ficando abaixo de sua própria média histórica. Ainda assim, foi muito mais rápido que as eleições observadas no resto do mundo, como a americana. Mesmo com a “demora”, mais de 110 milhões de votos –já descontadas as abstenções– foram computados e publicados em apenas seis horas. Além disso, os votos podem ser auditados, se for necessário.

De novo, dá para garantir que o sistema é infalível? Por uma questão filosófica e técnica, não! Mas, para vencer toda essa combinação de proteções físicas e eletrônicas, os hackers precisariam de um procedimento que provavelmente nunca será feito por ninguém.

 

O ataque dos arautos do atraso

O que nos leva de volta à outra pergunta feita no começo: por que tem gente que deseja a volta do voto em papel, com todas as suas gigantescas desvantagens?

Bom, na melhor das hipóteses, é porque a pessoa desconhece o processo descrito acima, ou é mais uma vítima da guerra de desinformação nas redes sociais. Na pior faz hipóteses, é porque essa pessoa deseja mesmo fraudar as eleições, e o sistema eleitoral eletrônico inviabiliza os seus planos malignos. Até uma eventual contestação dos resultados na Justiça, como vimos no espetáculo grotesco dessa eleição americana, fica praticamente inviável.

Na prática, como também aconteceu nos EUA, isso não mudará em nada o resultado. Apenas atrasará a declaração do vencedor e custará muito dinheiro ao contribuinte.

Há ainda um terceiro tipo de pessoa que pode querer a volta do voto em papel: aquela que tem medo do desconhecido ou do que não tem controle –mesmo que seja um controle ilusório.

O medo é um sentimento necessário. Ele existe para nossa autopreservação e está associado aos momentos mais primitivos da nossa evolução como espécie. Ele pode ser paralisante. Mas como nosso trabalho hoje (felizmente) não envolve mais tomar decisões de caça diante de um tigre de dente de sabre, não podemos deixar que o medo nos controle.

Em tempos de transformação digital, com tantos e tantos benefícios, o medo pode ser, portanto, um fator que impede a inovação dos negócios e –por que não– de nossa vida.

Mas não tem jeito! Como cantava Elis Regina, na belíssima “Como Nossos Pais”, o novo sempre vem! Não dá para continuar amando o passado e insistindo em não ver isso.

 

A boa imprensa tem lado, opinião e age com responsabilidade

By | Jornalismo | No Comments

Em uma semana com tantas notícias bombásticas que levaram à esperada vitória de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos, um acontecimento pode ter passado despercebido da maioria das pessoas. Na noite de quinta-feira, as três principais redes da TV aberta americana –ABC, CBS e NBC– e plataformas online de vários jornais do país literalmente cortaram no meio a fala ao vivo de Donald Trump. O motivo: para variar, ele estava despejando suas mentiras alucinadas. Dessa vez, atacava o sistema eleitoral americano pelo simples fato que sua derrota nas urnas era iminente.

Na hora, duas perguntas me vieram à cabeça.

A primeira é por que os veículos de imprensa nunca fizeram isso antes? Afinal, Trump é o “profeta do apocalipse das fake news” desde muito antes de ser presidente. E a imprensa sempre deu palco para esse maluco!

A segunda é: a imprensa pode fazer isso? Afinal, mesmo com Biden eleito, Trump ainda é o presidente, até que seu oponente vitorioso assuma o cargo, o que acontecerá apenas no dia 20 de janeiro.


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Em um primeiro momento, isso pode parecer só um dilema ético para jornalistas. Mas não é!

Todos nós, e não apenas os jornalistas, somos responsáveis pelo que dizemos, pelo que propagamos. Essa é uma responsabilidade que sempre tivemos, mas da qual estamos esquecendo por influência do falso véu do anonimato das redes sociais e do “efeito manada”.

Portanto, respondemos pelo que dizemos. Mais que isso: o que dizemos tem impacto real em quem está a nossa volta e, por extensão, na sociedade. Dessa forma, entender o papel e o poder da imprensa nos ajuda a entender o nosso.

Mesmo em tempos de domínio do Facebook e afins, a imprensa ocupa um papel de destaque nisso. Dessa forma, o jornalismo sério busca ser imparcial.

Mas, se é assim, as três grandes emissoras de TV americanas agiram certo ao cortar Trump? Isso seria censura?

A NBC, por exemplo, interrompeu a transmissão de Trump, e seu âncora Brian Williams disse “estamos aqui novamente na posição incomum de não só interromper o presidente dos Estados Unidos, mas também de corrigir o presidente dos Estados Unidos”.

E é exatamente isso que aconteceu!

Trump e todas suas cópias mal ajambradas pelo mundo, inclusive no Brasil, costumam bater no que chamam de “grande mídia”, dizendo que ela os censura, “calam o povo”, e que a verdade só existe nas redes sociais. Isso serve para usarem essas plataformas para mentir descaradamente sobre tudo, o tempo todo, para, assim, se manter no poder. E as pessoas que querem acreditar nisso, por qualquer motivo (além de um exército de robôs), legitimam seus crimes.

Ainda assim, se estamos em uma democracia, cortar Trump não é desrespeitar quem votou nele?

Essa é uma pergunta legítima. E eu a respondo com outra pergunta: o que você teria feito ao ver que o presidente da República estava usando você para espalhar mentiras perigosíssimas e ódio para a população, colocando em risco a própria sociedade?

 

O que é verdade?

Nesse ponto, podemos até mesmo questionar o que é a verdade. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche disse que “não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.”

Realmente elas são raras! Estão, por exemplo, em leis da ciência. Mas, para chegar a ser lei, uma teoria científica tem um longo caminho a percorrer.

Em muitos casos, a “verdade” pode ser um ponto de vista, e ainda assim ser apresentada como incontestável, mesmo de boa-fé.

O jornalismo encontrou, há muitos anos, uma maneira de minimizar esse problema, definindo que os profissionais devem ouvir o máximo de lados possível sobre um assunto. A verdade possivelmente será a média de todos eles.

A imprensa sempre foi o gatekeeper, aquele que decide o que deve e o que não deve ser visto, com o poder e o dever de não apenas informar, mas também de formar o cidadão. Isso é um poder gigantesco, que só pode ser exercido com grande responsabilidade.

Com a ascensão das redes sociais, esse poder se diluiu. Portanto a pergunta anterior, sobre o que todos nós devemos fazer diante de uma mentira, é justa.

Devemos escolher muito bem o que publicamos na “pequena mídia” que somos. Como temos observado nos últimos anos, em que todos se tornaram mídia graças às redes sociais, a disseminação de notícias falsas e de ódio tem um amplo poder destrutivo. Ecoar essas ideias irrestritamente, ainda que em nome de democraticamente dar voz a todos, é uma falácia, com consequências potencialmente desastrosas. Temos que entender, portanto, que isenção e independência não podem ser confundidas com irresponsabilidade ou deslumbramento sobre o que se publica, mesmo se quem tenha dito a barbaridade seja um presidente da República democraticamente eleito.

Todos merecem e devem ser ouvidos, desde que não estejam cometendo crimes ou deliberadamente mentindo para atingir seus objetivos. Como disse o cartunista e jornalista Millôr Fernandes, “as pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”.

 

Escolha responsável de lado

Ter um lado não significa não ouvir o outro, calar ou censurar. Ter um lado significa defender um ponto de vista dando também bom espaço a quem pensa de maneira diferente, desde que todos os lados sejam legítimos. Afinal crescemos ao sermos confrontados com a diferença. Quem tenta calar a diferença, quem trata o opositor como um inimigo que deve, se possível, ser destruído não é legítimo, pois faz de tudo para tornar quem está a sua volta menor, para se manter no topo com a sua própria pequenez.

Se a verdade absoluta é difícil de ser encontrada, temos que, pelo menos definir o que é legítimo: é o que defende valores inegociáveis, como o direito à vida, à liberdade, à igualdade e a democracia.

Em sua fala de quinta (e em incontáveis outras), Trump feriu isso. Logo, os veículos de comunicação acertaram ao interromper o que dizia para restaurar os fatos. Escolheram um lado e agiram com responsabilidade.

Deveriam ter feito isso desde quando ele ainda era um pré-candidato à presidência dos EUA. Talvez nunca teria sido eleito, o que causou um dano gigantesco ao mundo todo, pela influência do cargo que ocupou por quatro anos. Em nome da democracia, deram espaço a suas ideias alopradas, talvez por que não achassem que aquele bufão pudesse ganhar qualquer coisa.

Mas ele ganhou! Até porque essa exposição permitiu que suas ideias ressoassem em grande parte da população, que “caíram no canto da sereia” e se viram representadas por ele.

Agora Donald Trump é o que os americanos chamam de “pato manco”: o presidente no período entre o resultado da eleição e a posse de seu sucessor. Ele ainda pode causar enormes danos aos Estados Unidos e ao mundo nesses dois meses e meio. Ficar dando palco a suas mentiras só permitirá que ele faça algo ainda pior.

A imprensa e todos nós devemos evitar isso!

Você pode dizer: “mas eu nem falo da eleição americana!” Correto! Ela foi apenas um gancho para esse debate.

O mesmo raciocínio se aplica ao cotidiano de cada um de nós. Não há nada de errado em escolhermos algo para defender. Muito pelo contrário! Mas devemos também dar espaço a ideias diferentes. Devemos acolhê-las, e não as silenciar! Caso contrário, usaremos esse grande poder que todos temos para nos tornarmos pessoas menores e também piorar a sociedade.

Isso ninguém quer. Precisamos escolher um lado, respeitar o outro e agir com responsabilidade.