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Não existe almoço grátis!

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Não olhe agora, mas há um monte de gente querendo enrolar você!

Como diz o ditado, “não existe almoço grátis”. Essa máxima sugere que sempre pagaremos, de alguma forma, por algo que recebermos, mesmo que aparentemente pareça de graça.

Só que, de uma década para cá, um outro conceito ganhou muita força: o “freemium”, um neologismo que combina as palavras em inglês “free” (grátis) e “premium”. Segundo ele, podemos consumir gratuitamente uma versão simplificada de um produto ou serviço. E depois, se gostarmos daquilo, pagamos pela versão completa.

Infelizmente, alguns autoproclamados “gurus” têm juntado e distorcido os dois conceitos para criar uma espécie de estelionato digital.


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O “feemium” ganhou muita força com a popularização dos smartphones e dos modelos de negócios de suas lojas de aplicativos. A maioria desses programas têm uma versão gratuita. Ela remunera o desenvolvedor pela exibição de anúncios, de vendas de recursos adicionais no próprio aplicativo (chamadas de “in-app purchase”) ou pelo modelo “freemium”. Nesse último, se a pessoa gosta da versão gratuita, ela pode comprar a versão premium, com mais recursos, depois.

Ele é diferente da amostra grátis. Nessa última, a pessoa consome o produto de fato, mas recebe apenas uma pequena quantidade sem pagar, para que o experimente. Já no “freemium” o que se consome de graça é uma versão simplificada, reduzida, mas que pode ser usada sem pagar indefinidamente.

Não há absolutamente nada de errado com qualquer um desses modelos.

Entretanto, isso deu origem a uma profunda transformação cultural, em que pessoas decidem viver apenas com o grátis e suas limitações. E, apesar de isso poder limitar o crescimento do indivíduo, pois nunca terá acesso a um serviço completo, ainda não há nada de errado nisso.

O problema surgiu quando espertalhões perceberam que poderiam se valer desse novo comportamento para ganhar clientes facilmente. Criaram fórmulas em que prometem “almoços grátis” para todo mundo, mas entregam apenas pão amanhecido para os que participarem. Enquanto as pessoas mastigam as migalhas, eles vendem o almoço, normalmente um almoço de baixa qualidade, que é o que eles têm a oferecer.

Quem nunca participou de uma live que prometia uma grande revelação, um ensinamento importante para sua vida pessoal ou profissional, mas que, depois de uma, duas horas de fala, o suposto guru não entregou mais que uns 15 minutos de obviedades bem empacotadas, daquelas que você mesmo poderia encontrar em uma pesquisa no Google? Em todo o resto do tempo, ele ficou despejando gatilhos mentais para seduzir a plateia a comprar um curso ou uma mentoria composta por encontros mensais online ao longo de um ano? E essa mentoria não costuma ser nada barata! E não raro continua sendo um apanhado de conteúdos rasteiros, porém bem empacotados.

Essa é uma distorção do conceito do “freemium”. Ele consegue arrancar dinheiro de pessoas que se sentem confortáveis com a versão gratuita, sem entregar nada que, ao final, possa ser chamado de premium.

As redes sociais estão inundadas com esse tipo de vivaldino. E a sociedade perde com ele de diferentes maneiras.

A primeira, mais óbvia, é que pessoas são convencidas a pagar por algo que não entrega o que promete. O segundo é que essas pessoas deixam de se aprimorar pessoal ou profissionalmente, pois consomem esse conteúdo de baixa qualidade, e depois muitas vezes usam tais ideias no seu cotidiano. Por fim, esse enorme barulho feito por essa turma vem “escondendo” profissionais verdadeiramente capacitados, que, por valores éticos mais elevados, não entram nesse “esquema”.

No final, o nível médio da sociedade cai muito!

Usos legítimos

Não quer dizer que o “freemium” não possa ser usado em aulas e palestras abertas para captar clientes. Isso existe e é feito por profissionais bastante sérios e capacitados. Mas existem algumas diferenças entre os “picaretas” e os profissionais, que qualquer um pode identificar para não ser enganado.

A primeira diferença é que o profissional de alto nível não usa esse recurso o tempo todo. Essa não é a sua única forma de captação de clientes e nem é a principal.

Mas principalmente a grande diferença entre um profissional de alto nível e um oportunista é que a aula grátis, a palestra, a live do bom profissional sempre entregarão muito conteúdo de alta qualidade o tempo todo. Qualquer “malho de vendas” ocupará um tempo reduzido do encontro.

Isso é, antes de mais nada, respeito com o público. Ninguém assiste a seja lá o que for para ficar sendo soterrado de propaganda. As pessoas assistem para aprender algo, se entreter, se divertir.

Portanto, se você cair em uma live em que a pessoa fica só você enrolando com pouco conteúdo, obviedades e uma “fala mansa” para se autopromover, corra, porque é uma cilada! Aproveite que foi grátis mesmo e feche a janela do seu navegador. Assim você, no mínimo, economiza seu tempo!

É preciso lembrar ainda que o trabalho de um bom profissional tem valor! Ele estudou e trabalhou muito para chegar onde chegou. Por isso, consegue justamente trazer ensinamentos de alta qualidade, que o diferenciam da mesmice do mercado.

Como tal, merece ser remunerado adequadamente, pois sua entrega trará valor a quem estiver com ele. Existe uma história em torno da Cacilda Becker, umas das melhores atrizes brasileiras, que ilustra bem isso. Quando alguém lhe pedia ingressos grátis para assistir a suas peças, ela dizia: “não me peça para dar de graça a única coisa que tenho para vender.”

Ela estava certíssima! E podia dizer isso, pois assistir a Cacilda Becker era uma experiência memorável.

Portanto, antes de embarcar em mais uma “aventura grátis”, verifique as credenciais de quem está oferecendo aquilo. Veja se a pessoa tem uma formação acadêmica sólida e uma experiência profissional realmente diferenciada. Não caia no “canto da sereia” de quem exibe números exuberantes, mas que nunca construiu nada sólido na vida.

Quando há muita coisa grátis, tudo que é cobrado parece caro, mesmo que seja pouco. Mas pagar por algo pode lhe trazer benefícios que jamais viriam com algo gratuito. E é isso que pode verdadeiramente melhorar a sua vida pessoal e profissional.

As ameaças à (e da) Internet

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O aplicativo TikTok, da chinesa ByteDance, vem se destacando nas manchetes nas últimas semanas. E não é só porque ele se tornou o app mais instalado nesses meses de pandemia: de janeiro a junho, foram 315 milhões de instalações, o melhor desempenho de um app na história. O principal motivo foi ter sido alçado à posição de estrela na guerra que o presidente americano, Donald Trump, trava com a China, visando sua reeleição em novembro.

Mas o que um aplicativo de vídeos curtos pode ter de tão importante? Quanto das acusações de Trump são verdadeiras? E principalmente como isso impacta a vida de cada um de nós?


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Shakespeare escreveu: “há mais coisas no Céu e na Terra que foram sonhadas na filosofia”. Esse famoso trecho de Hamlet é muito propício ao momento.

Trump, como sempre, cria uma cortina de fumaça para esconder suas reais intenções. Mas há muito, muito mais em jogo, muito além até dos mesquinhos interesses do mandatário americano.

Algo que nos afeta a todos.

Primeiramente vamos contextualizar a história para quem não sabe do que se trata.

O TikTok vem sendo acusado de coletar muitas informações dos usuários, e de uma maneira mais sorrateira que o normalmente feito pelos aplicativos que instalamos despreocupadamente em nossos celulares. Até a famosa rede de hackers Anonymous chegou a levantar essa bandeira em julho.

Trump enxergou nisso uma oportunidade de fustigar ainda mais a China. Ele começou a afirmar, sem nenhum embasamento, que, além de coletar nossos dados, o TikTok os repassa ao governo chinês, como uma poderosa ferramenta de controle da população mundial.

A empresa e até o governo de Pequim sempre negaram isso. A plataforma até contratou, em maio, o americano Kevin Mayer como seu principal executivo, nunca tentativa de demonstrar que o TikTok é independente de seu país de origem.

Trump então ameaçou banir o TikTok do território americano. Foi quando, na semana passada, apareceu na história a Microsoft. A gigante do software disse que gostaria de comprar as operações do TikTok nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia. Ainda que relacionado a apenas esses países, isso lhe daria acesso aos códigos do programa.

Trump resolveu interferir na relação comercial entre duas empresas, o que é, no mínimo, inadequado. Em primeiro lugar, deu 45 dias para que a transação acontecesse. Depois disse que a compra deve ser total. E, por fim, o mais bizarro: disse que, qualquer que seja o valor que a Microsoft pague à ByteDance, uma “grande parte” deve ir para os cofres do governo americano: afinal, ele estaria permitindo que o negócio se concretizasse.

Parece que a conhecida liberdade empresarial americana virou fumaça, em uma narrativa digna de um ditador.

Mas, como já dito, essa história esconde um monte de elementos que vão muito além de Trump, do TikTok e da Microsoft. Coisas que nos afetam profundamente como cidadãos e como profissionais.

Quando eu comecei a desenvolver produtos digitais, bem lá no começo da Internet comercial, em 1995, ela despontava como um espaço idílico em que os dados trafegariam livremente, em que pequenos teriam o mesmo espaço dos gigantes, um mundo de oportunidades infinitas e democráticas.

Infelizmente aquela utopia se dissipou em poucos anos.

O tráfego livre dos dados se tornou um negócio de grandes conglomerados que descobriram maneiras cada vez mais eficientes para coletar nossos dados e organizá-los para serem transformados em informações comerciais valiosíssimas. Ou seja, a terra digital do “amor livre dos dados” rapidamente foi dominada por quem tinha muito dinheiro, de uma maneira que transformou profundamente nossas vidas.

O casamento dos smartphones com as redes sociais

O auge disso começou com a combinação de duas coisas. A primeira foram os smartphones, graças ao seu poder computacional imenso, que carregamos conosco o tempo todo. São a máquina perfeita de espionagem, pois nossa vida hoje acontece neles. A segunda foram as redes sociais, que criaram algoritmos e maneiras de convencimento para que compartilhemos alegremente todo tipo de informação pessoal.

Na verdade, essa combinação provocou uma incrível mudança cultural, em que sabemos que estamos sendo rastreados, mas que aceitamos que nossos dados sejam levados e usados, em troca de serviços supostamente gratuitos que essas empresas nos oferecem.

Trump sabe muito bem disso. Sua eleição como presidente dos Estados Unidos é parcialmente creditada a esse controle. Em março de 2018, explodiu o escândalo da empresa de marketing político britânica Cambridge Analytica. Ela foi contratada pela equipe da campanha de Trump para ajudá-los a convencer os americanos a votar no milionário. Para isso, a empresa roubou dados de 87 milhões de usuários do Facebook e os manipulou para, entre outras coisas, uma enxurrada de disparos em massa de fake news favoráveis a Trump.

O Facebook é a grande estrela nesse mundo de captura de informações dos usuários para fins às vezes inconfessáveis. Ninguém está mais bem posicionado que ele para isso.

Tanto que, na semana retrasada, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, foi sabatinado por deputados americanos sobre o poder imenso de sua empresa, em um processo que pode levar à divisão da companhia em empresas menores. E ele não estava sozinho: também foram questionados Sundar Pichai, CEO do Google, Tim Cook, CEO da Apple, e Jeff Bezos, CEO da Amazon.

Ou seja, o TikTok é só a bola da vez, que ganhou destaque pela sua rápida adoção, mas também por causa de Trump.

Ele coleta nossas informações? Com certeza!

Ele faz isso de maneira mais agressiva e mais furtiva que outros aplicativos, como o Facebook? Há suspeitas não confirmadas.

Ele entrega nossas informações ao governo chinês? Não há nada sério que sugira isso.

Apagar o aplicativo vai nos deixar protegidos de ladrões de dados? Claro que não! No máximo, isso nos protegeria da ByteDance, mas não dos desenvolvedores de todos os outros aplicativos em nosso celular.

Não há inocentes nessa história! Talvez os mais inocentes sejamos nós mesmos, os usuários, que entregamos graciosamente a nossa informação para aplicativos que nos dizem como ficaremos mais velhos ou com qual celebridade nos parecemos.

É a versão do século XXI dos índios que, no início da colonização, trocavam toras de pau-brasil que cortavam por espelhinhos presenteados pelos portugueses. Hoje, com nossos dados, sim, governos podem mudar o eixo de influência geopolítica do mundo.

Outra empresa chinesa que vem sendo pesadamente alvejada por Trump é a Huawei, que hoje lidera a tecnologia 5G, próxima geração de transmissão de dados por celular. O presidente americano usa seu poder para que governos do mundo todo impeçam que equipamentos da Huawei sejam adotados por empresas nesses países. Ele sabe que a nação da qual venha a tecnologia 5G dominante terá monstruosa influência política e econômica no mundo na próxima década, no mínimo. Sem falar no oceano de dinheiro que isso vai gerar, pelos royalties, licenças, compras de equipamentos e suportes.

E, no meio de tudo, estamos nós, como pessoas e como empresas.

Não sejamos otários! Não compremos brigas que não são nossas!

A verdade é que, infelizmente, continuaremos sendo colonizados. Enquanto o Brasil não investir seriamente em pesquisa, incluindo aí pesquisa de base, sempre estaremos à mercê de tecnologias de outros países, com tudo que isso traz. E nós, ao invés de avançarmos na ciência, temos dado largos passos para trás nos últimos anos!

É duro dizer isso! Mas é a verdade.

A questão é saber se continuaremos sendo colonizados pelos Estados Unidos ou se passaremos cada vez mais a ser colonizados pelos chineses. Uma vez que não conseguimos declarar até hoje a nossa independência, temos que ver, pelo menos, o que é o melhor para cada um de nós.

Quanto ao TikTok, use por sua conta e risco. Você não irá para o Inferno se continuar dançando na frente da tela com ele.

Facebook, Google, Apple e Amazon na berlinda

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Você acha que o Facebook, o Google, a Apple e até a Amazon manipulam você?

Nós nos acostumamos tanto a usar os produtos dessas companhias, a maioria deles aparentemente gratuitos, que fica difícil imaginar a nossa vida sem isso. Não seria nenhum exagero dizer que essas quatro companhias definitivamente mudaram a nossa vida nos últimos vinte anos. Mas agora todas estão sendo acusadas de abusos e podem ser obrigadas a se dividir em empresas menores para concorrer entre si.

Se isso acontecer, como essa mudança impactaria nossa vida?


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O Facebook, o Instagram e o WhatsApp são um bom exemplo. Todos esses produtos são de uma única empresa: o Facebook. E estão cada vez mais integrados, o que traz recursos inegavelmente interessantes. Nessa pandemia de Covid-19, muitos negócios, especialmente os pequenos, se reinventaram em cima dessas plataformas. Em um momento de distanciamento social e lojas fechadas, muita gente vendeu bastante graças a elas.

E se esses produtos não fossem da mesma companhia gigantesca? E se eles fossem, na verdade, concorrentes? Será que isso teria acontecido? Ou quem sabe poderiam ter feito ainda mais, justamente por serem competidores entre si?

Bom, o Facebook, o Instagram e o WhatsApp já foram concorrentes!

O Facebook comprou o Instagram em 2012 por US$ 1 bilhão e o WhatsApp em 2014 por incríveis US$ 19 bilhões! Fez isso justamente porque seu CEO, Mark Zuckerberg, os via na época como ameaças ao seu negócio.

O problema é que isso potencialmente viola as leis que protegem a concorrência nos Estados Unidos. Por conta disso e de outras práticas de suas companhias, na quarta passada, o próprio Zuckerberg, além de Sundar Pichai, CEO do Google, Tim Cook, CEO da Apple, e Jeff Bezos, CEO da Amazon, tiveram que prestar depoimento ao Congresso americano.

A sessão, que durou mais de seis horas, foi feita por videoconferência, usando o sistema Webex da Cisco, que não é controlada por nenhum dos quatro conglomerados. Realizado pelo comitê antitruste da Câmara dos Deputados, o depoimento foi o ápice até agora de uma investigação que já dura treze meses e que já juntou 1,3 milhão de documentos.

Isso pode provocar uma profunda mudança nas quatro das cinco maiores empresas de tecnologia do mundo, inclusive forçando sua divisão em empresas menores. Isso já aconteceu no passado em outros setores, como nos casos da petrolífera Standard Oil e da gigante das telecomunicações AT&T.

As quatro empresas foram acusadas de usar dados de consumidores e de concorrentes para favorecer seus negócios.

Contra o Facebook, foi dito que espiona dados de aplicativos rivais para decidir se devem ser comprados ou copiados. É o caso dos stories, que hoje estão no próprio Facebook, no Instagram e até no WhatsApp, e são uma clara cópia de um recurso do Snapchat. Vale dizer que Zuckerberg tentou comprar o Snapchat e não conseguiu. Depois disso, seus produtos lançaram essa funcionalidade, o que praticamente enterrou o competidor.

O Google também foi acusado de usar informações de concorrentes, e que diminuiria suas exibições nos resultados de sua busca e outros produtos seus.

Já a Amazon foi acusada de usar dados de parceiros que usam sua plataforma para determinar que produtos a gigante deve desenvolver.  Também foi dito que pratica preços anticompetitivos para afetar rivais. Os congressistas ainda disseram que a empresa vende sua caixa de som conectada, a Amazon Echo, abaixo do custo, e que a assistente de voz da empresa, a Alexa, direciona consumidores para produtos da própria Amazon ou de parceiros, ao invés dos que seriam as melhores opções para o usuário.

Já a Apple foi acusada pelo poder que tem com a App Store, a loja de aplicativos para iPhone e iPad, por poder vetar aplicativos na loja e por cobrar uma comissão de até 30% sobre os ganhos dos desenvolvedores.

Os executivos se defenderam das acusações de irregularidades, naturalmente. Todos disseram que trazem grande benefício aos Estados Unidos e aos consumidores, e que não são contra a concorrência. Disseram ainda que precisam crescer constantemente justamente pela competição feroz que enfrentam.

Concorrência inclusive de empresas chinesas, um tema sensível aos Estados Unidos no momento, graças à guerra que Trump declarou a Pequim, com vistas a sua reeleição em novembro. Zuckerberg chegou a sugerir que regular empresas americanas aumentaria o poder das chinesas, que não se pautam pelo que chamou de “valores americanos”, como democracia, livre concorrência e liberdade de expressão.

Apesar de tudo isso, os negócios dos quatro aparentemente não se abalaram com a sabatina e com a pressão que vêm sofrendo há meses. O Facebook, apesar da desaceleração no seu crescimento, aumentou seu faturamento em 11% durante a pandemia, chegando a US$ 18,7 bilhões. Já a Apple reportou um aumento de 11% em seu faturamento nos meses de abril, maio e junho sobre o mesmo período do ano anterior. O aumento na busca por aplicativos e equipamentos para trabalho à distância compensou a perda de receita pelo fechamento de suas lojas no mundo todo. A Amazon, por sua vez, viu seu lucro trimestral duplicar, batendo US$ 5,2 bilhões, puxado pelo negócio de venda e entretenimento on line. Por fim, a Alphabet, controladora do Google, registrou o primeiro decréscimo trimestral de faturamento em 17 anos de cotação na Bolsa: 2% com relação ao mesmo trimestre do ano passado. Isso se deu por uma diminuição no investimento dos anunciantes. Mas o faturamento com publicidade no YouTube e seu negócio de computação na nuvem cresceram.

O que isso significa na prática?

Apesar de todo esse barulho, grandes mudanças regulatórias não são esperadas para tão cedo. Isso se acontecerem!

Mesmo que as empresas sejam divididas, isso não causará uma grande mudança em nossas vidas. Do nosso lado, as grandes questões são se estamos sendo manipulados e se nossos dados estão sendo roubados, por exemplo.

Sejamos claros: sim, somos rastreados e nossos dados são coletados o tempo todo! E, sim, os algoritmos de relevância nos manipulam! E a divisão dessas empresas não vai mudar isso.

Precisamos -isso sim- aceitar e entender que isso está acontecendo e como o mundo funciona agora, para, pelo menos, não sermos enganados! Os algoritmos nos rastreiam para nos entregar ofertas supostamente incríveis e feitas para cada um de nós! Mas nós não somos obrigados a aceitá-las!

Por outro lado, se a oferta for realmente boa e para algo que realmente precisamos, ótimo! O que não podemos é comprar por impulso, por exemplo. E isso não é uma recomendação que vale só para o meio digital, claro!

O mesmo acontece com as “fake news”, as infames notícias falsas, que tampouco foram inventadas com as redes sociais, mas que se tornaram um gravíssimo câncer social graças a elas. Não podemos acreditar em tudo que vemos! Temos que entender que grande parte dos problemas que temos hoje no mundo são causados por pessoas, empresas, grupos e governos que usam esses recursos das redes para fazer valer os seus interesses em detrimento dos da sociedade.

É possível usar esses recursos para atingir o público certo de maneira eficiente e ética: muita gente faz isso! O problema são os bandidos, que criam “fake news”, por exemplo. Não sabemos em quem acreditar, nem sabemos mais o que é a verdade! Por isso, temos que escolher muito bem em quem confiar, e não nos deixar levar pelo que as redes sociais jogam em nossa cara.

Precisamos nos apropriar de todos esses muitos recursos do meio digital, que são realmente incríveis! Mas temos que fazer isso de uma maneira que mais nos beneficie que nos prejudique. Porque, aconteça o que acontecer com essas quatro gigantes, o que elas criaram nunca mais deixará de existir.

O que pode ser muito bom!

O que mais vem da China?

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Nunca se falou tanto da China quanto desde o começo do ano!

Por conta da pandemia de Covid-19, o gigante asiático ganhou um destaque global ainda maior que o que naturalmente já tem. É alvo de todo tipo de teorias da conspiração, por ter sido o país onde o novo coronavírus surgiu, e pela guerra particular contra ele do presidente americano, Donald Trump, que busca a reeleição.

A despeito de tudo isso, a China foi um dos primeiros países do mundo a relaxar as medidas de distanciamento social, que lá foram muito mais severas que aqui. Mas, por isso mesmo, duraram menos de um mês.

Hoje o país é um dos que lideram a corrida por uma vacina contra o vírus. Eles também desenvolveram hábitos e tecnologias que podem ser muito úteis no mundo pós-pandemia, inclusive para nós.

O que os chineses estão fazendo que nós podemos copiar?


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A China é o maior parceiro comercial do Brasil no mundo. O país asiático tomou esta posição dos Estados Unidos em 2009, e não perdeu mais. Segundo o Ministério da Economia, em 2018, o comércio entre China e Brasil foi de US$ 98,6 bilhões, com superávit para o Brasil de US$ 29,2 bilhões.

Já foi o tempo em que a China era um mero reprodutor de versões baratas e de baixa qualidade de produtos ocidentais, os chamados “Xing Ling”. Sim, a China ainda exporta todo tipo de quinquilharias para o mundo todo. Mas o país é hoje dono de uma das indústrias tecnológicas mais pujantes do planeta, em todos os segmentos.!

No mundo pós-pandemia -pelo menos para eles- algumas novidades podem indicar caminhos a ser seguidos por outros países.

Um estudo realizado pela consultoria Inovasia entre 2 de abril e 15 de junho identificou várias dessas inovações.

Um deles é o pagamento digital pelos celulares. Em uma época em que o contato se tornou um fator potencial de contágio, até o cartão de crédito nas mãos de um lojista ou de um entregador é visto com receio por alguns. Portanto os meios digitais de pagamento crescem fortemente e os pagamentos por aproximação do celular estão consolidados lá. Aqui no Brasil, isso ainda está começando.

Os superapps chineses, como WeChat e AliPay, concentram o processo, algo que também está engatinhando aqui, com operações locais. Dessa forma, dinheiro em papel é cada vez mais raro na China, o que é muito bem-vindo, pois as notas sempre foram instrumentos de propagação de doenças, e não só de Covid-19.

Nessa mesma linha, empresas que ofereçam produtos que não exijam contato com o público ganham espaço. Até o mundo do trabalho deve ir por esse caminho, com menos reuniões em salas fechadas. Aliás, trabalho remoto, sempre rejeitado por muitos, se tornou uma possibilidade vantajosa! O mesmo se observa com o ensino à distância. Mesmo com as escolas reabrindo, parte do público preferiu continuar com as aulas online.

A tecnologia é essencial nesse ponto, com a adoção de equipamentos que ajudam em atividades como telemedicina, além de realidade virtual e realidade aumentada.

O varejo de agora em diante

O varejo também se beneficiou da tecnologia. Não apenas pelo crescimento explosivo do e-commerce, mas pela consolidação do chamado shopstreaming. Trata-se de lives em que vendedores ou celebridades apresentam produtos ao vivo, para que os consumidores tirem dúvidas e façam compras na hora.

Segundo o instituto iMedia Research, o “comércio ao vivo” movimentou US$ 63 bilhões na China, em 2019. Com a pandemia, este número deve saltar para US$ 135 bilhões em 2020.

A Inovasia aponta uma coisa interessante nisso: o apresentador não deve ser uma celebridade qualquer, paga para só “puxar o saco” da marca! O que realmente funciona é um influenciador que seja um especialista no produto, que pode falar com propriedade sobre ele. A agência de comunicação Dentsu Aegis Network indicou que mais de 90% dos gestores aumentarão seu investimento em influenciadores digitais, e 80% melhorarão sua infraestrutura de e-commerce.

Outra tendência ligada ao varejo é a entrega em menos de uma hora. Isso já existe na China há uns cinco anos, mas ficou muito mais importante agora. A consultoria britânica Real Capital Analytics indica que imóveis em bairros de Pequim, Xangai e Shenzhen que são atendidas por supermercados que entregam em até 30 minutos tiveram valorização média de 10% só por essa facilidade.

Outra tendência chinesa ligada ao varejo que se vê timidamente por aqui é a preferência pelo comércio local. Com um consumo mais consciente, as pessoas procuram comprar de pequenos varejistas do próprio bairro, como uma maneira de ajudá-los. Além disso, a Inovasia identificou um crescimento por marcas nacionais, em detrimento de produtos importados.

A alimentação dos chineses também ficou mais saudável. Alimentos frescos estão sendo mais buscados, em detrimento dos congelados. As pessoas também estão cozinhando mais em casa, outra coisa que se observa no Brasil.

Os chineses também estão se exercitando mais, porém não em academias, por serem locais fechados. Cresceu a compra de produtos para atividades físicas na residência.

Do ponto de vista de mobilidade, assim como no Brasil, a venda de carros desabou por lá durante a pandemia: 89% de queda! Mas, com a retomada das atividades, muitas pessoas voltaram a comprar carros. O motivo é não querer usar o transporte público, um foco de contágio.

Além das onipresentes bicicletas, quando o carro se faz necessário, os chineses estão preferindo os veículos LSV, ou Low Speed Vehicles. São carrinhos parecidos aos de campos de golfe, totalmente elétricos, conectados e que se movem a, no máximo, 40 km/h. A sua autonomia varia entre 40 km e 90 km e seu tempo de carregamento é de apenas três horas.

Assim como aconteceu no Brasil, a China experimentou uma explosão de “fake news” durante a pandemia, disseminadas principalmente por redes sociais. E, assim como aconteceu no Brasil, os veículos de comunicação tradicionais emergiram como fontes confiáveis para combater a desinformação. Os mais jovens tiveram um papel interessante nisso, ajudando parentes e amigos mais velhos a separar as notícias falsas de material produzidos por veículos sérios.

Precisamos melhorar muito nisso aqui no país.

Não tem volta!

É interessante observar que essas mudanças vieram para ficar, mesmo entre os “late adopters”. Segundo a consultoria chinesa ChoZan, esse público é, em geral, formado por homens acima de 50 anos, com pouca intimidade com smartphones e que têm medo de sofrer golpes online. O mesmo raciocínio se aplica a empresas que, por questões culturais, não sentiam a necessidade de oferecerem seus produtos digitalmente.

A pandemia forçou todos a mudar de postura. E o fim da crise sanitária no país não fez o comportamento dos “late adopters” retornar ao estágio pré-Covid. O motivo principal para a mudança de postura é que seus temores não se concretizaram: a coisa “deu certo”! No caso das empresas, houve aumento de receita em 87% dos casos. O consumo, aliás, voltou com força após o isolamento, porém mais consciente, incluindo evitar dívidas de longo prazo.

Como se pode ver, a China pós-pandemia traz caminhos interessantes, que podem nos ajudar também. Cabe a nós aproveitar essas ideias da melhor maneira possível.

Vale lembrar que se trata de um país em que as liberdades individuais são restritas e que a arapongagem é algo comum e até aceita. Por exemplo, todo cidadão é obrigado a informar, em um aplicativo, viagens intermunicipais e sintomas de saúde às autoridades. O sistema, que roda nos superapps WeChat e no AliPay, confere classificações verde, amarelo e vermelho a cada cidadão, determinando seu grau de liberdade de circulação.

Fica a questão se queremos fazer algo assim por aqui. O histórico do governo brasileiro de proteção aos próprios cidadãos não anda muito favorável. Devemos estar atentos para que o governo brasileiro não passe dos limites.

Temos muito que aprender com os chineses! Vamos então adotar as coisas positivas que vêm de lá. E aprender o que não fazer com o que não é legal.

Há 25 anos, coloquei a Folha de S.Paulo na Internet

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Hoje faz exatamente 25 anos que eu apertei, pela primeira vez, o botão “upload” para subir uma página da Folha de S.Paulo na Internet!

No dia 9 de julho de 1995, domingo da abertura da reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), a FolhaWeb, primeiro website o jornalão da Barão de Limeira, entrou no ar pelas minhas mãos, então repórter de Ciência do impresso.

Foi uma experiência arrebatadora! Participar da criação de um produto é algo incrível, mas fazer parte dos primeiríssimos momentos de uma indústria que mudaria o mundo nos anos seguintes é algo absolutamente impagável: naquele momento estava surgindo a mídia digital, não apenas no Brasil, mas no mundo todo!

Quase não existiam modelos: basicamente os serviços online americanos America Online, Compuserve e Prodigy, o francês Minitel e algumas BBSs, inclusive no Brasil. Mas todos eram redes fechadas, limitadas e nenhuma funcionava na Internet. Tampouco existia formação, literatura e sequer concorrentes (e nem público). Portanto, a criatividade estava em constante ebulição, sem nenhum limite!

Depois de pouco mais de um mês no ar, decidi que queria fazer apenas aquilo e pedi para deixar a editoria de Ciência do jornal impresso, onde era editor interino. Lembro-me de meus colegas da Redação tentando me dissuadir da ideia, pois, segundo eles, a Internet era um modismo que não duraria e que, ao deixar o jornal, eu estaria jogando fora uma carreira promissora.

Que bom que não dei atenção a eles…

O pulo do gato

Não foi um trabalho individual. Ele começou em janeiro daquele ano, quando propus ao meu editor na época, Claudio Csillag, que criássemos as páginas do jornal na então recém-liberada Internet comercial brasileira. Antes de novembro de 1994, ela estava disponível apenas a poucos alunos de raras universidades do país.

Afinal, aquilo parecia “muito legal”!

Csillag foi essencial para convencer a direção do jornal a permitir o projeto, pela sua insistência e pela grande cartada de propor a “primeira cobertura online do Brasil”: basicamente, colocar na Internet as notícias que sairiam no jornal no dia seguinte sobre a reunião da SBPC daquele ano. Essa suposta primazia digital “compensava” o fato de que os concorrentes (pela ordem) Jornal do Commercio (PE), Jornal do Brasil (RJ), Estadão (SP), O Globo (RJ) e Zero Hora (RS) tinham lançado seus sites antes da Folha. O “pulo do gato” de Csillag evitou que o projeto pudesse ser empurrado ainda mais para frente.

Os trabalhos finalmente começaram em junho. Após fechar a edição diária da editoria de Ciência do jornal, eu me juntava ao então gerente técnico da Agência Folha, Lelivaldo Marques Filho, parceiro no desenvolvimento das primeiríssimas páginas, que também contaram com a ajuda técnica de Sérgio Esteves, então analista de sistemas da Folha. Tudo sob a batuta de Marion Strecker, diretora da Agência Folha na época. O logo e o layout da página ficaram a cargo de Cássio Leitão.

O dia a dia não era glamouroso, não era fácil. Tive que aprender HTML na marra, nos poucos tutoriais que já existiam na própria rede. Para criar as páginas, usava o Word! Apesar de parecer uma ferramenta inadequada para a tarefa, ele cumpria bem o papel, pois importava nele as matérias do sistema proprietário da paginadora do jornal impresso, e “rodava uma macro” (sequência de comandos gravados) que eu havia desenvolvido, que trocava as tags da paginadora por equivalentes em HTML. E então “subia” para um servidor na Embratel por FTP.

Ou seja, por muito pouco, não fiz o café e limpei o banheiro. Mas saboreei cada momento daquele como se fosse Neil Armstrong pisando na Lua. Que sensação incrível!

Antes que o ano acabasse, Caio Túlio Costa já comandava um novo projeto ainda sem nome, mas que transformaria a FolhaWeb no Universo Online alguns meses depois, no dia 28 de abril de 1996. E tudo aquilo e o que veio depois ajudou a criar a história do jornalismo e da mídia digital.

Tudo isso aconteceu naquele longínquo 1995. Parece que fosse outra vida! Hoje o consumo de conteúdo se dá majoritariamente pelo meio digital. Além disso, todos nós deixamos de ser meros consumidores para nos tornarmos produtores de conteúdo, ainda que seja com singelos posts nas redes sociais.

Parece tudo óbvio, tudo fácil, tudo lindo. Não foi! Criar a FolhaWeb e todas aquelas iniciativas pré-históricas do jornalismo digital exigiu visão e uma dose de loucura. Vale dizer novamente que jornalistas do maior jornal do país, então no seu auge, achavam que a Internet não passava de um modismo passageiro. Até mesmo, Bill Gates, ainda CEO da Microsoft, lançou no mesmo ano a MSN no mesmo formato fechado da America Online, esnobando a Internet.

Como dizem, #ficaadica: às vezes temos que abraçar aquilo em que acreditamos, mesmo quando todos a nossa volta digam não. Nunca se sabe quando estaremos mudando o mundo.

E-commerce salva varejo, mas deixa feridos pelo caminho

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Como você tem feito suas compras, de qualquer coisa, nesses tempos de pandemia?

Possivelmente o e-commerce ganhou espaço na sua vida nesse período. Não só porque lojas de muitos segmentos estavam fechadas, mas também porque o comércio eletrônico surgiu como mais vantajoso, nem que seja para não ter que ficar saindo de casa, diminuindo a chance de se contaminar pelo Covid-19.

A verdade é que, salvo coisas como supermercados e farmácias, o vírus colocou o varejo de joelhos. A situação só não foi ainda mais dramática porque o e-commerce existe.


Veja esse artigo em vídeo:


Já falei aqui sobre boas iniciativas para ajudar principalmente os microvarejistas, como grandes plataformas ajudando esses pequenos a escoarem seus estoques. Em momentos de crise aguda, como a que estamos vivendo, temos que achar saídas criativas e fazer parcerias.

Mas essas parcerias precisam ser de “ganha-ganha”. Relações não podem ser desequilibradas, ou a parte mais forte pode acabar asfixiando a mais fraca.

E isso é algo que pode acontecer no varejo, prejudicando a experiência global do consumidor.

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Há muitos anos, ouvi de uma colega americana a expressão “a planície está coberta de corpos de pioneiros”. É uma referência à chamada “Marcha para o Oeste” no século XIX, em que o governo dos Estados Unidos incentivava pessoas comuns a ocupar as planícies à oeste dos 13 Estados originais Eventualmente isso acabou acontecendo, e os brancos chegaram até o Pacífico. Mas muitos colonos morreram antes disso, pois eles não tinham a menor ideia de como vencer nessa empreitada. De todo jeito, sem esse movimento, os Estados Unidos nunca teriam o tamanho que têm hoje.

Vejo o varejo físico hoje como pioneiros desbravando novos horizontes, apesar do e-commerce já existir há décadas. A Amazon, fundada por Jeff Bezos, acaba de completar 26 anos de existência, em uma posição invejável no segmento.

Vários shoppings, inclusive no Brasil, fizeram parcerias com a Amazon, para tentar resgatar parte das vendas. Apesar de fazer todo sentido agora, se não for bem feito, esse movimento pode deixar muitos corpos nas planícies. Afinal, os shoppings estão entregando seus clientes a um possível futuro concorrente direto.

Quanto mais um modelo de negócios depender da circulação de pessoas, como é o caso dos shoppings, mais em desvantagem ele fica, frente a plataformas extremamente robustas e refinadas para oferecer a melhor experiência ao consumidor, quando a presença física não é necessária, como é o caso da Amazon!

Mas se pode argumentar -corretamente- que o shopping é mais que simplesmente comprar. Ele é uma experiência que mistura compras a lazer de vários tipos, serviços e gastronomia. Quem vai ao shopping por isso continuará indo. Mas a coisa muda de figura com quem vai só para compras.

Quem viu as aglomerações na reabertura dos shoppings em São Paulo, nesta quinta, pode achar que esse risco não existe. Mas esse alvoroço foi impulsionado pelas saudades que muitas pessoas estavam de seu “shopping de estimação” e pelo Dia dos Namorados, que aconteceu no dia seguinte. Lojistas reclamam que as vendas estão muito menores que no período pré-pandemia.

O peso da experiência

A experiência no shopping está muito menos prazerosa pelas incontáveis regras para minimizar o contágio de Covid-19 e o fechamento de cinemas, teatros, áreas de jogos e até das praças de alimentação. Sem falar de não poder criar aglomerações e andar o tempo todo de máscara.

Portanto, a relação do púbico com os shoppings deve mudar consideravelmente nos próximos meses. E, ao se associar à Amazon, eles podem estar acelerando essa migração de consumidores para o meio digital.

Vale dizer que muita gente que nunca tinha comprado nada no e-commerce começou a fazer isso graças ao Covid-19. Segundo o relatório Webshoopers, produzido pela Ebit – Nielsen, 2019 terminou com 61,8 milhões de brasileiros tendo comprado algo no e-commerce, um aumento de 6% em relação a 2018. Isso indica que aproximadamente metade dos internautas brasileiros comprou algo online em 2019, o que me parece pouco, já que a outra metade também está online.

O Covid-19 mudou esse cenário consideravelmente. Segundo o Webshoppers, as compras no e-commerce brasileiro feitas entre 17 de março e 27 de abril cresceram 14,4% sobre o período de 4 de fevereiro a 16 de março. Se comparado a abril do ano passado, o crescimento foi de incríveis 48,3%. As categorias que mais atraíram novos consumidores foram farmácias e autosserviço (como supermercados).

Parte desses consumidores, mesmo os que nunca tinham comprado nada online, manterá esse consumo digital após o fim da pandemia: perceberam que o e-commerce é bacana!

Não se pode criticar o varejo físico, inclusive os shoppings, por quererem ampliar sua presença no e-commerce. Segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers, o fechamento de 577 estabelecimentos em 222 cidades no país já provocou perdas de R$ 25 bilhões desde o início da pandemia. Nesse cenário de terra arrasada, especialistas apontam que a recuperação dos negócios dependerá enormemente da capacidade de cada um de combinar vendas tradicionais com novos formatos.

O risco de os shoppings dependerem cada vez mais das “Amazons da vida” para continuar existindo acontece porque, até março, a maioria achava que estar no meio digital era ter um site e um aplicativo institucional, com uma lista de lojas.

Ao se associar a plataformas de e-commerce totalmente maduras, cria-se um relacionamento muito desequilibrado. As plataformas vão se apropriar desses clientes e se relacionar com eles de um jeito que os shoppings não conseguem fazer, nem sonham com isso! Por exemplo, eu frequento shoppings desde criança, regularmente, toda semana! Mas conto nos dedos de uma mão a quantidade de vezes que um shopping fez uma oferta realmente personalizada para mim, apesar de todo esse relacionamento.

Muito antes do Covid-19, já se falava do “apocalipse do varejo”, que vem fechando milhares de lojas físicas nos Estados Unidos desde 2010. A principal causa é a migração de consumidores para o e-commerce. Estudo do Credit Suisse previu que de 20% a 25% dos shoppings centers americanos fechariam as portas nos próximos anos.

Em compensação, de acordo com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico, o Brasil abriu mais de uma loja virtual por minuto desde o início do isolamento social, em março. Em pouco mais de dois meses, foram 107 mil novos estabelecimentos criados na Internet. Os setores com mais novas lojas digitais foram moda, alimentos e serviços. Antes da quarentena, a média de abertura de lojas na internet era de 10 mil estabelecimentos por mês.

Eu já vi isso acontecer antes: nas empresas de comunicação tradicionais. Apesar de elas terem sido pioneiras da Internet no Brasil, nunca abraçaram realmente o meio digital como deveriam. Sempre foi um plano B, que nunca poderia ameaçar a operação na mídia original. Sempre mantiveram o foco em si, e nunca no consumidor, que migrava massivamente para o digital, especialmente as redes sociais.

Resultado: hoje o consumo de mídia acontece a partir de buscadores e das redes sociais. As empresas tradicionais se reduziram quase a meros fornecedores de conteúdo. As planícies estão cheias de corpos desses pioneiros, que insistiram em levar para uma nova realidade um estilo que já não se sustentava mais. Com isso, os consumidores migraram para o novo formato, mais alinhado com suas expectativas.

Não tem jeito: a inovação não pode ser impedida! As empresas de qualquer segmento, e isso inclui o varejo, precisam fazer os movimentos necessários. Mas precisam fazer isso com consciência. As parcerias são muito bem-vindas, mas eles precisam criar relacionamentos equilibrados, em que todos ganham: as lojas, os shoppings, as plataformas digitais e o consumidor.

Duro é fazer isso com a faca no pescoço! Mas ainda dá tempo de se fazer o certo.

O escritor e filósofo italiano Umberto Eco - Foto: reprodução

Desculpe, Umberto Eco

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Em junho de 2015, eu discordei de Umberto Eco. Agora, cinco anos depois, eu quero pedir desculpas por isso. Não pelo ato de discordar dele, mas por não ter percebido o que ele viu corretamente lá atrás.

Na ocasião, quando recebeu o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura na Universidade de Turim (Itália), o escritor e filósofo italiano discursou dizendo que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” Afirmou ainda que “eles eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Na ocasião, achei que Eco tinha exagerado na dose. Vi, em suas palavras, uma certa intolerância, que não combinava com ele mesmo. Na minha filosofia, em que todos devem ter o direito de falar e que crescemos justamente ao contrapor discordâncias, aquilo estava errado. Por isso eu o critiquei.

Mas o mundo mudou muito de lá para cá. Dramaticamente!

A polarização tomou conta do discurso público. A sociedade se entrincheirou em extremos cada vez mais distantes, deixando, entre eles, uma terrível “terra de ninguém ideológica”, onde qualquer um que se aventurar ali, tentando buscar o diálogo ou conceitos conciliadores, será brutalmente alvejado pelos dois lados.

O problema é que, como a Primeira Guerra Mundial demonstrou, em uma guerra de trincheiras, você pode ficar meses, anos imobilizado. Pior ainda: enfiado em um buraco, dividindo o espaço com ratos e todo tipo de coisa ruim. Exatamente onde grande parte da população está hoje.

Umberto Eco viu isso antes.

Em um 2015 que parece absurdamente distante agora, as pessoas ainda dialogavam, por mais que discordassem. Os governos de extrema-direita faziam muito barulho, mas poucos danos. Barack Obama ainda seria o presidente dos EUA por mais um ano e meio. O Brasil apenas começava a cavar o seu buraco político, que nunca mais parou de cavar desde então, e que já está chegando à China. Ainda existia um diálogo minimamente civilizado, e a educação, a ciência e o jornalismo eram pilares da sociedade.

Então vieram as fake news, a eleição de Trump, a Cambridge Analytica, os ataques à educação, à imprensa, à ciência e às artes, a desinformação, e duas eleições brasileiras. E a sociedade civilizada foi ladeira abaixo em apenas cinco anos.

Daí veio o Covid-19, como um enorme “freio de arrumação” para escancarar, com seus mais de 350 mil mortos oficialmente contabilizados (100 mil nos EUA e 25 mil no Brasil, até agora), como Umberto Eco estava certo

A verdade passou a ser combatida, assim como todos aqueles que a buscam. A principal arma desses soldados é um caldo de ódio mais espesso que asfalto quente.

Nesta segunda, Globo, Folha e Band informaram que seus jornalistas não mais comparecerão ao “cercadinho do Alvorada”, espaço que o governo lhes destinou para ouvir Bolsonaro e uma turma de seguidores, que fica no espaço ao lado, lhes insultar e agredir.

A barbárie, a insanidade, a intolerância avançam, passando por cima de qualquer um que não queira se submeter a esse poder dos “idiotas da aldeia”. Esses, por conveniência ou ignorância, pisoteiam em qualquer um na “terra de ninguém ideológica”, esmagando seus ossos enquanto alvejam e são alvejados pela turma da trincheira adversária.

Suprema antecipação do desastre que se avizinhava, Umberto Eco concluiu que “os jornais devem filtrar as informações da Web com uma equipe de especialistas”. E eles vêm tentando fazer exatamente isso. Aliás, fazia tempo que eu não via um jornalismo com um nível médio tão alto, como o praticado nessas últimas semanas. Pena que a turma das trincheiras olhe para isso e veja o contrário.

Umberto Eco faleceu oito meses depois, em fevereiro de 2016. Não teve que conviver com seu acerto. Penso que, nesse caso, foi uma benção.

Não sei se existe um prazo para pedir desculpas, mas espero que esses cinco anos caibam dentro dele. Umberto Eco estava certo: a Internet promoveu os idiotas da aldeia a portadores da verdade.

Os demais seguem caminhando na “terra de ninguém”, tentando reconstruir uma sociedade melhor e mais justa para todos.


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Pedro Bial entrevista Glória Maria, na estréia da temporada 2020 de "Conversa com Bial" - Foto: reprodução

Não adianta você se preparar para o “novo normal”, porque ele já chegou

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Esse não é mais um artigo sobre o tão falado “novo normal”, que surgirá quando as regras de distanciamento social finalmente forem flexibilizadas. Por um motivo simples: ele não existe! Pelo menos ele não está no futuro: já chegou. Tudo já mudou!

A questão é: você já percebeu isso? E mais: você já mudou para não virar carta fora do baralho?

Não é nenhum papo motivacional vazio. É resultado de diversas observações de mercado. Estamos há cerca de dois meses nesse regime de distanciamento social, que, às vezes, parecem dois anos. Para muita gente, parece que a “vida antiga” tivesse ficado para trás definitivamente, sem tem encontrado um novo caminho para substituir o que se perdeu.

Daí vem o vazio e, em alguns casos, a ansiedade, o desespero, a depressão.

Enquanto isso, o “novo normal” já se instalou entre nós.

Por exemplo, nessa segunda, assisti à reestreia do programa “Conversa com Bial”. A Globo chegou a postergar a volta do talk show, talvez na esperança que fosse possível voltar às gravações nos estúdios, com o arrefecimento do Covid-19.

Como isso não aconteceu (e nem se vê isso acontecendo nas próximas semanas), a emissora teve que tomar uma decisão: reinventar o programa para o “novo normal”. No caso, o talk show virou uma videoconferência transmitida pela TV. Bial estava na sua casa e a convidada -na estreia, Glória Maria- estava na dela. Achei curioso que até os músicos de sua banda estavam em seus respectivos lares, e fizeram aparições breves no início e no final do programa.

O apresentador transformou um canto da sua casa em um miniestúdio, com câmeras, captação de áudio e iluminação profissionais, o que garantiu que sua imagem estivesse ótima. Mas a convidada não tinha nada disso. Na verdade, deu par ver que Gloria usou uma transmissão convencional pela Internet, com direito a borrões e leves travadas. Na Globo pré-pandemia, isso dificilmente seria tolerado. O “novo normal” impôs, entretanto, uma nova realidade à emissora: aquilo não era mais possível.

O mais interessante nisso tudo é que, do ponto de vista do público, isso se tornou irrelevante. Nesses dois meses loucos, assistimos a tantas lives, fizemos tantas videoconferências, assistimos a tantas aulas à distância, que aquela nova linguagem e aquela nova qualidade foram totalmente assimiladas em nosso cotidiano.

Então por que resistir ao novo?

Encontre a sua oportunidade

Tudo nessa vida pode mudar, evoluir. Nas últimas semanas, tenho tratado disso continuamente em meus vídeos e em meus posts.

As lojas, por exemplo, que foram colocadas de joelhos pela pandemia, começam a se reencontrar, ainda longe do que eram antes, no e-commerce. Mas o próprio e-commerce também vem mudando, reforçando o papel dos pequenos e microvarejistas em modelos de marketplace e de fulfillment. Sem falar em outras saídas criativas, como drive thru para pegar produtos comprados pelas redes sociais.

Outro assunto que muito se tem falado é o home office, que sempre foi rejeitado por muitas empresas e gestores, e agora, diante da explosão de seu uso, vem sendo revisto. Muitas empresas já decidiram que, quando os escritórios forem reabertos, pelo menos parte da equipe continuará trabalhando à distância, com ganhos para a própria empresa e também para os funcionários.

Infelizmente nem todos podem aderir a essa modalidade, seja pela natureza do seu trabalho, seja porque não têm condições (boa Internet, computador, sistemas). Isso é lastimável, pois cria mais um fator de segregação na nossa sociedade, já bastante desigual. Mas espero que sirva, pelo menos, para que empresas e governos atentem que essa mudança é real e deve ser incentivada a viabilizada, com apoio aos profissionais que possam e queiram aderir ao trabalho em casa.

Essa realidade, tão incômoda para tanta gente, revela, portanto, uma incrível oportunidade de transformação e de aprendizado. Não que isso seja fácil. Aliás, na maioria das vezes, isso tem acontecido com muita dor, tanto do lado do funcionário quanto da empresa, principalmente porque a mudança foi imposta em velocidade alucinante. Esse foi um dos temas da minha conversa com Cristina Palmaka, presidente da SAP Brasil, nesta terça, que pode ser vista abaixo:


Assista à minha entrevista com Cristina Palmaka:


A própria entrevista aconteceu sob a égide do “novo normal”: assim como Bial agora entrevista de casa, tenho feito várias entrevistas do meu pequeno “estúdio doméstico”. Palmaka, quem já tive o prazer de entrevistar em eventos no Brasil e nos EUA, agora estava em sua casa. E isso, nem de longe, comprometeu nossa ótima conversa.

É preciso entender que as mudanças exigem que todos os envolvidos concordem com ela, e isso inclui o cliente. A Globo entendeu que seu público aceitaria de bom grado que parte de sua programação passasse a ser feita no novo formato, como aconteceu com o Bial. E acertou!

Na minha atividade de professor, as aulas têm acontecido, com grande sucesso e trocas riquíssimas, em diferentes plataformas online. Mas, novamente, isso só está sendo possível pela participação ativa dos alunos, que são os clientes, que abraçaram o “novo normal”, mesmo esses cursos sendo originalmente dados em sala de aula.

Portanto, da mesma forma que não adiante ficar resistindo às mudanças, o tempo de ficar se preparando para mudanças que “um dia chegarão” já passou. O “novo normal” está entre nós, impondo as mudanças de um jeito ou de outro. Quem se mexeu já está colhendo frutos. Quem continua parado pode virar carta fora do baralho muito em breve. Todos precisam se reinventar -às vezes profundamente- dentro de sua realidade.

E você, o que está fazendo?


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“Quero digitalizar meu negócio, mas não funciona!”

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Subitamente, nosso trabalho, nosso negócio, nossa vida precisaram ficar online! Fomos forçados a fazer, em poucas semanas, uma transformação que normalmente levaria anos! Nesse cenário, por que algumas pessoas parecem ter se dado muito bem nisso, enquanto outras patinam e não saem do lugar?

Ser digital praticamente se tornou sinônimo de continuar trabalhando. Mas vamos colocar a coisa na perspectiva certa: é fácil falar, mas não é tão fácil fazer! Se fosse, estaria todo mundo trabalhando de casa sem nenhuma queda de faturamento. E infelizmente não é o que temos visto por aí.


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


O maior erro de quem falha ao criar um negócio digital e principalmente de quem cria uma versão online de uma empresa consolidada no “mundo físico” é tratar o digital com a mesma cabeça de um gestor clássico. A comunicação, a venda e até o produto são diferentes, às vezes dramaticamente. Aí está o “segredo”: não tente fazer da mesma forma algo que é novo!

Hoje praticamente todo mundo está online, tem redes sociais, usa o WhatsApp para se comunicar. Por que então não é algo trivial criar um negócio digital ou transformar algo presencial para o canal online?

Acontece que o comportamento de se estar online para um negócio não é o mesmo de se estar online com os amigos. Portanto, não estamos falando aqui de simplesmente passar um “verniz digital” sobre um “negócio presencial”. Isso não vai funcionar! Ou pelo menos não será suficiente para explorar o potencial máximo desse canal, que cresce sem parar há 25 anos, e que ficou tão crítico nesse momento de distanciamento social.

Segundo o IBGE, metade dos internautas brasileiros não compra nada online. E a culpa não é de quem compra, é de quem vende! Porque não se relaciona bem com essa pessoa. Tanto que o principal motivo para as pessoas não comprarem online é medo: medo de terem o cartão de crédito clonado, de não receber o produto certo ou de não receber produto algum.

A transformação digital é muito mais transformação que digital. Ela não acontece só com a adição de novas tecnologias: elas são apenas ferramentas. A transformação real começa e termina na cabeça das pessoas: o dono do negócio, o gestor e todos os funcionários.

Já dizia Peter Drucker, pai da administração moderna: “a cultura come a estratégia no café da manhã!”

É a mais pura verdade! Então vamos mudar essas cabeças?

Para começar: a comunicação com o público. Não adianta ficar só fazendo publicações pagas nas redes sociais. Isso não é o mesmo que distribuir panfletos no semáforo! O meio digital permite que você realmente faça uma oferta de valor para quem busca seu produto. A venda acontece quando sua oferta é, de verdade, algo interessante para quem recebe. Para isso, é preciso conhecer muito bem seu público: o que ele quer, suas necessidades que você pode atender, quanto ele pode pagar, como fala, em que redes está.

Quando não conhecemos e ficamos apenas “panfletando” digitalmente, acontece também outro fenômeno ruim: a campanha de marketing digital de fato gera um monte de contatos para a empresa. Mas o gestor aí descobre que não tem capacidade de lidar com esse volume de chamadas. Além disso, 99% delas não dão em nada, pois são pessoas que nunca comprariam seu produto. Ou seja, perde-se tempo, gasta-se dinheiro e não se ganha nada!

Portanto, como se pode ver, a comunicação deve ser diferente. Qualquer que seja o negócio, é preciso conhecer verdadeiramente e atender as necessidades do cliente. A tecnologia nos permite fazer isso!

Essa comunicação também deve ir muito além de simplesmente querer vender algo. O meio digital fortaleceu um novo conceito de marketing, que, além de vender, educa, inspira, diverte, transforma o público. A jornada do cliente, no meio digital, pode ser muto mais rica e até mais intimista. A marca precisa estar permanentemente na vida do seu público, entregando conteúdo.

Outra coisa é o próprio processo de venda: não pode ser como no presencial. Simplesmente abrir um e-commerce da loja com um catálogo digitalizado não resolve!

Um bom exemplo é uma loja de roupas. Para início de conversa, não tem como provar as peças e isso traz vários complicadores. Um deles é que as pessoas não podem sentir o tecido, ver o caimento em seu corpo. Outra coisa é a numeração. E se não servir? Não dá para ficar trocando indefinidamente, pois isso é custo! Além disso, o Código de Defesa do Consumidor prevê que qualquer produto adquirido fora de uma loja física pode ser devolvido sem qualquer justificativa, em até sete dias após o recebimento. E isso é risco!

Então a loja tem que ir muito além de colocar fotinhos das peças e os seus tamanhos. Ela precisa criar uma nova experiência positiva para o cliente.

E por falar nisso, temos que abordar o produto em si, porque ele também pode mudar no meio digital.

Vou dar um exemplo, com uma das minhas atividades: aulas e treinamentos. Com o distanciamento social, todas as aulas dos cursos presenciais em algumas das principais universidades do país estão sendo à distância agora.

É a mesma entrega? É o mesmo produto? É a mesma experiência? Claro que não! Não estamos juntos em uma mesma sala! Mas ela pode ser muito boa, se for bem feita, se for recriada para uma nova realidade.

As aulas estão sendo ótimas, mesmo à distância! Mas isso só acontece porque eu, como professor, a universidade e os alunos entendem que se trata de uma outra entrega. Se foram com “cabeça de presencial”, a coisa não vai funcionar!

Por fim, precisamos entender as plataformas em que estamos. Temos que compreender e usar plenamente os algoritmos das redes sociais e dos buscadores. Dependemos totalmente deles! Não adianta reclamar ou negar. Há também muitas ferramentas à nossa disposição. Por exemplo, se você é um pequeno varejista com as portas fechadas agora, você pode usar a força de venda das grandes plataformas de e-commerce para escoar o seu estoque: eles vendem seu produto e você os comissiona! Coisas como “marketplace” e “fulfillment” podem ser incríveis parceiros nesse momento.

Como se pode ver, para se dar bem no meio digital, a gente precisa pensar do jeito digital. Abrace isso! E faça bons negócios!

O isolamento nos transformou em pequenas emissoras de TV

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Nos últimos dias, temos assistido (literalmente) à explosão da quantidade de “lives” -transmissões de vídeos ao vivo nas redes sociais. Elas deixaram de ser uma moda entre adolescentes para se tornar uma poderosa ferramenta de negócios e de promoção de qualquer coisa.

O grande impulsionador disso é o isolamento social por conta do Covid-19. Como muita gente não sai mais de casa e eventos públicos estão proibidos, as “lives” se tornaram a melhor alternativa para conversar com seu público. Assim, as transmissões se multiplicam, com pessoas ensinando um pouco do que sabem, fazendo propaganda de seus serviços, reunindo grupos em torno de interesses em comum. E não podemos deixar de mencionar as “superlives”, shows online ao vivo -especialmente de artistas sertanejos- que têm reunido milhões de pessoas que os assistem ao mesmo tempo, um público que não caberia em nenhum espaço físico.

Por que as “lives” fazem tanto sucesso afinal? De onde elas vieram? E o que é preciso para fazer a sua?


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


As “lives” começaram a ficar mais populares com o YouTube, que lançou o recurso em 2010. Depois vieram muitas outras plataformas, como o Twitch (mais focado em games, criado em 2011 e comprado pela Amazon em 2014) e o Periscope (criado em 2015 e incorporado depois pelo Twitter). E a coisa ficou mesmo popular quando o Facebook e o Instagram lançaram esse recurso em suas plataformas, em 2016.

Mas pouca gente sabe que transmissões ao vivo digitais existem desde antes da Web, quando a Internet ainda era um ambiente árido e restrito a cientistas e militares.

A primeira coisa que poderia ser chamada de “live” foi criada em 1991 por alguns estudantes da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Eles apontaram uma câmera para a cafeteira de um dos laboratórios da universidade, para saber se tinha café sem ter que ir até lá.

Depois que a Internet comercial foi lançada, em 1994, surgiu a primeira transmissão ao vivo regular de uma pessoa: a JenniCam. E que transmissão: ela durou incríveis sete anos e oito meses!

Em 3 de abril de 1996, Jennifer Ringley uma estudante de economia da Universidade Dickinson, na Pensilvânia (EUA), então com 19 anos, ligou uma câmera no seu dormitório estudantil, que transmitia em tempo real tudo que ela fazia lá. Na maior parte do tempo, o quarto estava vazio, mas a câmera chegou a capturar até cenas de sexo da estudante. Cerca de 4 milhões de pessoas assistiam à vida de Jennifer no seu quarto, o que é impressionante, se considerarmos que existiam apenas 36 milhões de internautas no mundo na época. Isso a transformou na primeira celebridade digital.

Mas isso é história. As “lives” hoje duram de poucos minutos a algumas horas e transmitem desde conversas de amigos até shows superproduzidos.

Por exemplo, no último dia 4, a dupla sertaneja Jorge e Mateus fez um show em uma “live” que durou quatro horas e meia e teve 3,1 milhões de pessoas assistindo ao vivo, um recorde absoluto no YouTube. Mas esse recorde foi ultrapassado apenas quatro dias depois, no show da “Rainha da Sofrência”, Marília Mendonça, que juntou 100 mil pessoas a mais na sua “superlive”.

Além de arrecadar uma enorme quantidade de doações para a luta contra o novo coronavírus, as “lives” foram patrocinadas. Uma fonte de uma agência de publicidade afirma que uma delas levantou, só em merchandising, R$ 5 milhões! Nada mal para algo feito com uma produção relativamente barata, incrivelmente mais simples que a estrutura de qualquer show em um estádio.

É importante que fique claro que esses artistas já tinham uma presença bem forte nas redes sociais antes de tudo isso. Marília Mendonça, por exemplo, tem mais de 30 milhões de seguidores no Instagram.

Mas não só de “superlives” de artistas vive o período de distanciamento. Tenho visto uma explosão de oferta desse formato, especialmente no Instagram, de “lives” de todo tipo. São pessoas ensinando algo, oferecendo serviços, fazendo propaganda de seu trabalho ou simplesmente “fazendo um social” de dentro do seu distanciamento.

Não se trata mais de uma coisa restrita a adolescentes ou nerds. As “lives” vieram para ficar e estão se transformando em uma nova linguagem, uma nova forma de comunicação. E são muito fáceis de serem produzidas: basta um celular e uma conta em uma das plataformas já citadas. E é tudo grátis!

O poder do vídeo interativo é inegável. Aliás, a interatividade é uma das características das “lives”. Diferentemente dos vídeos gravados, as “lives” permitem que o público deixe seus comentários nelas em tempo real. E o dono da “live” ou sua equipe podem responder, também em tempo real. É comum também que as pessoas que estão assistindo à “live” acabem conversando entre si.

Essa dinâmica é algo que não existe em nenhuma outra mídia, e é muito interessante! Isso é diferente de uma videoconferência, outra coisa que também já existe há muito tempo e que ganhou força com o distanciamento social. Sim, as videoconferências também são transmissões de vídeo ao vivo, com várias pessoas interagindo. Mas, ao contrário das “lives”, elas não são públicas. Por isso, normalmente são usadas para reuniões de trabalho ou aulas. Já as “lives” são totalmente abertas, e quanto mais gente entrar, melhor, mesmo que sejam desconhecidos.

Até grandes eventos estão se transformando em “lives”. Por exemplo, dois megaeventos da área de tecnologia que costumo cobrir e que aconteceriam agora no início de maio, foram convertidos em uma sequência de “lives”. O primeiro é o Red Hat Summit, que aconteceria esse ano em San Francisco (EUA), e agora será online, nos dias 28 e 29 de abril. O outro é o SAP Sapphire Now, que seria em Orlando (EUA), e acontecerá online nos dias 12 a 14 de maio. São congressos que reuniriam, em um único espaço, mais de 15 mil pessoas, e agora potencialmente juntarão muito mais gente online!

Muitos outros eventos importantes estão acontecendo dessa forma. Eu mesmo tenho dado palestras em eventos, agora sem sair de casa.

O fenômeno é tão intenso que muita gente está creditando às “lives” uma sobrecarga sentida na Internet nos últimos dias. Afinal, elas acontecem, na maioria dos casos, no mesmo horário: no fim da tarde ou começo da noite. E, como expliquei na semana passada, existe mesmo um enorme pico de uso da Internet entre 15h e 21h, mas não podemos creditar isso apenas às “lives”.

É curioso que, nesse momento em que todos podem praticamente se tornar pequenas emissoras de TV, vejo que os veículos de comunicação, inclusive as próprias emissoras de TV, não estão aproveitando esse recurso. Talvez achem que não precisem disso, pois já têm os seus formatos consolidados. Mas é uma pena, pois as “lives” são mais que uma curiosidade online: elas são uma verdadeira linguagem nova do tempo em que vivemos.

Eu mesmo tenho usado o formato para criar um programa jornalístico, aproveitando a sua característica interativa. O Jornal da Live vai ao ar toda quinta no LinkedIn, onde sou um dos poucos brasileiros já autorizados a fazer essas transmissões, que ainda estão em teste na plataforma. O programa dura cerca de uma hora e nele eu discuto algumas das notícias mais importantes do momento com todos os participantes, um jeito totalmente novo de se fazer jornalismo, com uma participação inédita e intensa do público!

Tudo isso é sinal do que vivemos. O novo coronavírus e o isolamento social têm provocado intensas e rápidas mudanças na vida das pessoas e das empresas. Muitas pessoas têm me perguntado recentemente se a vida será a mesma depois que isso tudo passar. Certamente não! Já não é a mesma!

Muitas coisas que estamos aprendendo agora, às vezes de maneira dolorosa, permanecerão depois. E as “lives” certamente estarão entre elas. Mais que exibicionismo, elas mudaram a maneira como nos relacionamos e criaram uma nova linguagem.

E aí, vamos criar “lives”?

Batemos no limite da Internet?

By | Jornalismo | No Comments

Desde a semana passada, muitas pessoas vêm relatando diversos problemas com a Internet. Eles vão desde falhas em conversas por vídeo, serviços online de todo tipo ficando mais lentos ou caindo, piora em plataformas de vídeo e até demora para enviar mensagens no WhatsApp.

É fácil explicar o problema! Com o distanciamento social, com muita gente trabalhando em casa, sem falar nas crianças e adolescentes confinados, o consumo na rede cresceu muito! Isso acontece não só porque as pessoas estão usando todo tipo de sistema para trabalhar e estudar, mas também porque a diversão cada vez mais migra para as redes.?


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


Será que a gente bateu no limite da Internet? O que a gente pode fazer para melhorar isso?

Para responder isso, a gente precisa entender como a transmissão de dados na Internet funciona e qual o tamanho do problema.

Segundo o IX.br (Brasil Internet Exchange), divisão de infraestrutura do Comitê Gestor da Internet no Brasil, a infraestrutura brasileira da rede apresentou um tráfego de 11 Tb/s já no dia 23 de março. Para se ter uma ideia de quanto isso é fora do normal, a média registrada ao longo de 2019 foi de 4,69 Tb/s.

Claro que existe um aumento natural do consumo de Internet, e ele é forte, como se pode ver nos dois gráficos a seguir, do próprio IX.br. O primeiro mostra o crescimento ao longo dos últimos doze meses; o seguinte, ao longo dos últimos dez anos. Em ambos, fica claro o pico a partir de março agora.

Outra coisa que se observa é uma evidente mudança do consumo ao longo do dia, como pode ser visto no terceiro gráfico. Na Internet doméstica, existia um pico logo de manhã e outro à noite, ou seja, antes de as pessoas saírem de casa para o trabalho ou a escola e depois que voltavam.

Agora esse pico da manhã se transforma no início de uma subida ininterrupta que vai até às 13h, quando o uso se mantém lá no alto. Daí cresce ainda mais a partir das 19h, batendo no máximo do dia lá pelas 21h, quando começa a cair com força, atingindo um mínimo lpor volta de 6h, quando começa tudo de novo.

Alguns podem argumentar que o aumento do tráfego doméstico é compensado pela queda do tráfego nas empresas. Mas isso é apenas meia-verdade. Isso porque muitas, muitas atividades que são feitas hoje online em casa antes eram feitas presencialmente nas empresas e nas escolas.

E o problema se agrava por dois motivos. O primeiro é uma explosão no uso de serviços digitais, desde filmes online até pedir comida por aplicativo. O segundo é que a estrutura da Internet nas casas não costuma ser tão boa quanto a das empresas. Ou seja, o crescimento do tráfego esperado por todo ano aconteceu em uma semana.

Mesmo com tudo isso, segundo o Comitê Gestor da Internet, a rede no Brasil é bem robusta e ainda opera com folga. Então por que estamos sofrendo isso tudo?

Temos que entender que existem diferentes redes compondo a Internet. Partindo da sua casa ou de empresa, existem as redes de acesso, que se conectam às operadoras contratadas. A partir delas, os dados são trafegados entre servidores em conexões mais parrudas, chamadas de backbones nacionais. Por fim, entre países, existem as conexões internacionais.

Com exceção das primeiras, que conectam nossas casas e empresas, nas demais existem esquemas de redundância, ou seja, se uma rota estiver congestionada, os dados automaticamente vão por outro caminho. Ele pode ser mais longo, demorará um pouco, porém entregará a informação.

Entretanto, na chamada “última milha”, a rede que chega em casa ou no escritório, isso não existe. E quanto mais pessoas e quanto mais equipamentos se pendurarem nessas redes, pior! É como se tivéssemos mais carros ao mesmo tempo em uma avenida estreita e sem vias alternativas: mais carros geram congestionamento e velocidades menores, o mesmo acontece com os dados.

A situação se agrava quando nos afastamos dos grandes centros urbanos. Na verdade, se você for para a periferia de uma cidade como São Paulo, a qualidade da Internet fica sofrível, tanto a fixa quanto a móvel, pois a infraestrutura é obsoleta ou insuficiente.

Se qualquer uma dessas redes fica congestionada, sofremos o impacto com lentidão e serviços caindo.

Há ainda um outro fator que pode causar isso, e provavelmente é onde a maior parte do problema está agora: os servidores dos serviços digitais. Qualquer serviço online roda em um computador -seu servidor- que tem capacidade finita, claro. E essas máquinas estão fortemente sobrecarregadas.

Ou seja, o caminho saindo de nossos celulares, nossos computadores, nossas TVs e tudo mais que conectamos à Internet até os servidores dos serviços que usamos está “segurando as pontas”, mas os servidores desses serviços não estão “aguentando o tranco”.

A lentidão tem sido observada até em serviços singelos, como trocas de mensagens pelo WhatsApp. Em serviços que exigem mais dados e processamento, como videoconferências e vídeos online, a coisa fica mais dramática.

E por falar em vídeos, quero falar das lives, as transmissões ao vivo que qualquer um de nós pode fazer em serviços como Instagram, Facebook ou YouTube. A oferta delas explodiu nos últimos dias, sejam de famosos, sejam de anônimos. Tenho ouvido reclamações de que a maioria dessas transmissões é muito ruim, com pessoas consumindo a rede apenas para jogar conversa fora.

Pode até ser verdade, mas temos que tomar cuidado ao apontar dedos. Primeiramente porque todo mundo tem o mesmo direito de usar esse recurso. Depois porque, nesse momento de distanciamento social, as lives acabam sendo uma boa maneira de apresentar o seu trabalho. E nem todo mundo domina a tecnologia ou a narrativa para fazer lives incríveis. A maioria está aprendendo a fazer isso agora, e “na marra”!

Diante de tudo isso, o que a gente deve fazer para melhorar a experiência online de todos?

Cada um tem seu papel e todos devem colaborar, começando pelas operadoras de telecomunicações. A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) firmou um compromisso público com as principais empresas provedoras para manter o país conectado. A agência vai monitorar o tráfego e, junto com as operadoras, tomar ações para resolver problemas que surjam. As teles também trabalham nos sistemas para desviar dados de rotas congestionadas para alternativas mais vazias no momento.

Quanto aos serviços online, precisam ajustar suas entregas e ampliar seu parque de servidores. O Google, por exemplo, já reduziu a qualidade dos vídeos do YouTube de alta definição para padrão. A Netflix fez algo semelhante, economizando 25% da banda e o mesmo foi praticado por alguns concorrentes, como Amazon Prime Video e Globoplay. Até o WhatsApp se mexeu: o sistema limitou os vídeos nos status de seus usuários na Índia, onde é muito popular, a 15 segundos.

Por fim, nós mesmos. Como todo recurso que está escasso, precisamos fazer um uso inteligente dele. Claro que não estou pedindo para não usar o meio digital nesse momento, pelo contrário. Mas use apenas o que for preciso ou razoável. Se possível, divida o uso da Internet pelas pessoas na casa ao longo do dia. Além disso, tente realizar atividades que exigem mais da rede fora dos horários de pico.

São medidas simples, mas que podem trazer um alívio para a rede e par nossas mentes, aumentando a produtividade nesses dias em que estamos sendo obrigados a repensar muito de nosso cotidiano.

Quer trabalho? Volte à escola!

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Com o avanço do coronavírus, cada vez mais empresas estão adotando o home office e escolas estão suspendendo suas aulas para evitar o contato social, em uma tentativa de conter o contágio. Mas, a despeito de praias lotadas nesse domingo, não são férias!

Muita gente se depara com um novo tempo livre, nem que seja por escapar das horas no trânsito. Cada um encontra o que fazer com isso.

Que tal voltar a estudar?


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


Seguindo o IBGE, 2019 terminou com 11,6 milhões de desempregados no Brasil, apenas 300 mil a menos que no ano anterior. Além deles, havia 4,6 milhões de desalentados, pessoas que simplesmente desistiram de procurar emprego depois de muito tentar. A situação só não é mais dramática porque a informalidade ajudou: são 38,4 milhões de brasileiros nessa situação, que representa empregos de baixa qualidade.

Se já não bastasse isso, há o temor de que seu emprego desapareça porque a função terá sido substituída por um robô. E não se engane: o que puder ser automatizado será! Aliás, isso já está acontecendo.

Precisamos aprender coisas que ainda não sabemos! Temos que conviver com as pessoas de uma maneira mais colaborativa, empática, construtiva, observar o mundo com outros olhos! Até porque, dessa forma, nós mesmos poderemos criar novos trabalhos.

Por exemplo, da lista das 15 profissões em alta no Brasil em 2020, segundo o LinkedIn, dois terços delas simplesmente não existiam há apenas uma década. Em quantas delas você poderia atuar? Quantas dessas você sabe o que é?!?!

A boa notícia é que dá para entrar em muitas delas com um pouco mais de estudo a partir de muitas “profissões convencionais”. Talvez muitas deles você já tenha.

Mas, de novo, precisamos de pessoas capacitadas para essa tarefa. Uma boa faculdade e falar inglês já não resolvem. E, à medida que o tempo passa, mais dramática a “obsolescência profissional” fica.

Mas então o que estudar? E onde?

Nessas horas, uma instituição de ensino e profissionais de grande reputação fazem uma enorme diferença. Quanto aos formatos, temos para todos os gostos. Cada um deles tem suas características, vantagens e desvantagens.

Por exemplo, mestrados e doutorados são as melhores opções para quem busca criar algo novo, desenvolver uma visão refinada de sua área de conhecimento. Infelizmente, são longos e caros, duas coisas que afastam muita gente. O que é uma pena, pois são cursos incríveis, para formar profissionais realmente diferenciados!

A seguir, vêm as especializações e os MBAs, que criam um profissional com capacidades analíticas ampliadas no seu segmento. Por isso, são muito valorizados pelo mercado. Mas também duram de um a dois anos.

Para quem não tem tanto tempo ou dinheiro para investir, há excelentes opções em cursos livres e cursos de extensão. Hoje encontramos cursos muito consistentes de dez horas, por exemplo! Eles ensinam uma coisa pontual, claro. São ótimos para incrementar alguma habilidade ou, talvez, suprir uma deficiência. Cursos de extensão, um pouco mais longos, de 30 a 40 horas, permitem uma visão mais ampla de um tema específico, com conteúdos atualizados e de aplicação imediata no cotidiano profissional. Permitem ainda que os alunos, que já são profissionais, façam um ótimo networking. Isso traz vários ganhos, especialmente para aqueles com mais tempo de carreira, que têm contato com “conteúdos frescos”.

Há, por fim, as mentorias, que podem ser feitas em grupos de profissionais ou de maneira individual. O mentor é um profissional de reconhecida experiência que ajuda a outros a se desenvolver e atingir um novo patamar. Uma vantagem importante é que o serviço é bem personalizado.

Portanto, por mais paradoxal que pareça, se você deseja garantir seu trabalho hoje e no futuro, pare de pensar no emprego e comece a pensar em você!

Ninguém está seguro! No primeiro momento em que a empresa achar que suas habilidades já não são mais suficientes ou seu cargo ficou anacrônico, será dispensado!

Além disso, sem querer fazer um trocadilho infame, um “pé na bunda” no trabalho pode ser o pontapé inicial para você criar uma nova carreira, muito melhor para você. Mas, só se você estiver bem preparado!

Com a crise do coronavírus, muitas escolas estão interrompendo suas aulas. Aproveite esse tempo para pesquisar os cursos que mais lhe atendem! As restrições a circulação logo vão diminuir. Esteja com sua matrícula feita quando isso acontecer!

Além disso, esse pode ser um ótimo período para fazer, por exemplo, mentorias, que podem ser presenciais ou online. Não há nenhuma restrição a isso! Aproveite as horas diárias que você ganhou do trânsito para desenvolver novas habilidades.

Precisamos assumir o protagonismo de nossas vidas! Temos que querer melhorar, por nós mesmos e por quem está a nossa volta.

E aí, vamos à escola?

Coronavírus empurra profissionais para trabalhar em casa

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Com o avanço do coronavírus, muitas empresas, inclusive no Brasil, estão incentivando pelo menos parte de seus funcionários a adotar o home office, ou seja, trabalhar em casa e não no escritório. O raciocínio é simples: se a pessoa fica mais em casa, diminui o risco de um eventual contágio entre colegas ou em ambientes externos, como no transporte público.

A tecnologia ajuda nessa tarefa. Internet mais rápida e barata, e sistemas de colaboração avançados permitem um trabalho remoto cada vez mais eficiente. Mas, para o home office dar certo, é preciso muito mais que isso: o profissional deve ter disciplina e estar adaptado a essa modalidade de trabalho, o ambiente na sua casa deve ser favorável a isso e a empresa também precisa estar pronta para sua implantação.


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


Nesse domingo, a Itália decretou quarentena no norte do país, afetando inclusive as cidades de Milão e Veneza. Ninguém entra nem sai da região, que é a mais importante para a economia do país, a menos que estritamente necessário.

As pessoas não estão confinadas a suas casas, mas a recomendação é que saiam o mínimo possível. A medida afetou 16 milhões de pessoas, cerca de 30% da população italiana. É a mais extrema tomada fora da China, país onde tudo começou e que concentra 73% dos casos no mundo.

E se amanhã a sua empresa chegasse para você e dissesse: “de agora em diante, você vai trabalhar de casa!” O que você acharia disso?

A verdade é que para que um home office funcione, ele precisa que a empresa, o seu ambiente e você mesmo estejam alinhados com essa proposta.

Tem gente que simplesmente não consegue trabalhar em casa! O home office exige uma certa disciplina. Alguns se esquecem que aquilo é trabalho, só porque estão em casa, e fazem tudo sem comprometimento.

Como qualquer trabalho, o home office deve ter hora para começar e para terminar. Deve ser feito com afinco e seriedade. E em caráter contínuo. Claro que algumas pausas podem -e devem- ser feitas. Assim como acontece no escritório. Mas isso não quer dizer parar o trabalho para ir ao cinema no meio do expediente.

Por outro lado, também é importante sair de casa de vez em quando. De preferência uma vez ao dia. Ver gente é importante! Escolha uma parte do trabalho que possa ser feita, por exemplo, em um café. Uma boa dica é fazer reuniões com clientes presencialmente, fora de casa, que pode ser até no café ou na empresa dele.

Outra grande dica é você se arrumar para o home office. Exatamente como se estivesse indo ao escritório. Nada de ficar trabalhando de pijama! Quando você se veste adequadamente para o home office, você passa uma mensagem ao seu cérebro que você entrou no “modo de trabalho”. E isso faz uma enorme diferença!

Outro item fundamental nessa disciplina é que você deve ter também a hora de parar! Muita gente simplesmente não para de trabalhar. Na verdade, esse comportamento bizarro se observa cada vez mais também nos escritórios, especialmente entre os mais jovens. Não pode! O corpo e a mente precisam de descanso.

O segundo item se refere ao seu ambiente de trabalho em casa.

Primeira coisa: nada de trabalhar na cama! Isso é imperdoável!

Você deve ter um local na casa em que você possa associar ao trabalho. Um lugar só seu, em que você encontra tudo que precisa para realizar suas tarefas. Tem que ser confortável, pois você passará muitas horas ali.

Esse lugar deve ser também livre de distrações. Cuidado com coisas como música e TV. Procure deixar tudo desligado, a menos que precise disso para o desempenho de suas funções.

Evite também interrupções de outras pessoas da casa, especialmente crianças. E até de animais de estimação. Crie um mecanismo para se “blindar” dessas interferências. O ideal seria ter um cômodo dedicado ao home office, onde possa fechar a porta. Tendo isso ou não, combine com as outras pessoas da casa que, no horário de trabalho, você só deve ser interrompido se for absolutamente necessário.

Naturalmente, você também tem que fazer pausas para as refeições durante o home office. Além do almoço, tenha à disposição alguma coisinha para beber ou mastigar de vez em quando, especialmente nos momentos de tensão, que eventualmente aparecem. Mas escolha opções saudáveis!

Por fim, a sua empresa também precisa contribuir para o sucesso do home office de seus funcionários. Primeiramente, ela deve acreditar nessa modalidade de trabalho e querer fazer isso de verdade. Deve ter processos para garantir o sucesso do home office, como garantir a dinâmica do trabalho e que seus funcionários tenham tudo necessário para realizar bem suas funções.

Naturalmente, deve existir apoio da chefia. Claro que a performance deve ser cobrada, de maneira natural e sem diferenciação. O home office não pode ser encarado como um “trabalho de segunda categoria” e nem como um “benefício indevido”, que depois será cobrado do funcionário.

E uma coisa muito importante: seus colegas não podem se “esquecer” de você. E nem você deles! Quando não estamos no escritório, inevitavelmente perdemos informações que chegariam pelo simples burburinho do ambiente. E até a intimidade e confiança pode diminuir pela distância. Use bem os recursos de comunicação para se fazer presente, até mesmo nos momentos informais. E encontre-se com seus colegas quando puder.

O home office pode ser bem bacana e produtivo, seja por causa do coronavírus ou não.

É só fazer direito!

A busca pela verdade

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Como você se informa? Será que a fonte é confiável ou você está sendo enrolado?

A verdade é essencial para a manutenção da vida e para que possamos nos desenvolver como pessoas e como profissionais. Entretanto, muitas pessoas preferem encontrar mentiras confortáveis para pautar suas decisões.

A busca pela verdade passa pela escolha de nossas fontes de informação. Estudo da Universidade de Oxford (Reino Unido) e do Reuters Institute for the Study of Journalism indica que o brasileiro é o povo que mais se preocupa com as “fake news” no mundo (85%). Paradoxalmente, é um dos que mais se “informa” com fontes pouco confiáveis, como WhatsApp e Facebook (53%). O estudo também indica que a imprensa é a fonte preferida por pessoas com mais escolaridade e em ambientes menos polarizados política ou ideologicamente.

E isso faz todo o sentido! Em países com governos autoritários, como os Estados Unidos, a Venezuela e o Brasil, a imprensa vem sendo fortemente combatida e desacreditada pelos governantes, que querem terreno livre para fazer o que bem entenderem. Claro: uma das principais funções da imprensa é justamente fiscalizar desmandos dos poderosos.

Muitos podem argumentar que a imprensa não é confiável, por ser falha e até “vendida”. Não se pode generalizar! É verdade que algumas empresas de comunicação fazem um mau trabalho, deixando de servir o público. Mas essas estão quebrando! Em contrapartida, há muitos veículos que buscam a verdade com apurações bem feitas, com ética e com seriedade. Esses representam ótimos caminhos para quem busca a verdade.

Veja no meu vídeo abaixo como identificar fontes confiáveis que podem ajudar você a também buscar a verdade. E depois compartilhe conosco nos comentários suas percepções sobre esse cenário em que vivemos.



Assista ao meu vídeo da semana passada, que explica tudo sobre “deep fake” a tecnologia que está se popularizando e permite a criação de vídeos absolutamente convincentes com pessoas fazendo e falando coisas que nunca fizeram. A tecnologia é impressionante, mas cria uma série de preocupações éticas: https://www.linkedin.com/posts/paulosilvestre_deepfake-fakenews-fraude-activity-6619912426118750209-Qg6Y

Veja o resumo do “Digital News Report 2019”, feito pelo Media Lab Estadão. O estudo é realizado anualmente pela Universidade de Oxford e pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, sobre o consumo de notícias digitais nos principais países: https://on24static.akamaized.net/event/20/39/69/5/rt/1/documents/resourceList1562351951904/ebookv61562351865480.pdf

Quer ouvir as minhas pílulas de cultura digital no formato de podcast? Você pode me encontrar no Spotify, no Deezer ou no Soundcloud. Basta procurar no seu player preferido por “Macaco Elétrico” e clicar no botão “seguir” ou clicar no ícone do coração. Se preferir, clique nos links a seguir:

Jesus Cristo (Gregório Duvivier) e seu amigo gay (Fábio Porchat), na sátira “A Primeira Tentação de Cristo”, do Porta dos Fundos - Foto: reprodução

Marchamos firmemente para o inferno

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Nunca pensei que escreveria um artigo como esse apenas um dia após o Natal, mas acontecimentos recentes exigem um posicionamento rápido e enérgico.

Em pleno dia de Natal, começou a circular no WhatsApp e no YouTube um vídeo do autointitulado “Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Família Integralista Brasileira”, em que se vê integrantes do grupo atirando três bombas incendiárias caseiras contra a sede da produtora do humorístico Porta dos Fundos, no bairro de Humaitá, no Rio de Janeiro. Segundo a polícia, que o comparou com imagens de câmeras de segurança, ele é autêntico.

O atentado terrorista aconteceu na madrugada do dia 24. Felizmente não houve vítimas, e o incêndio foi controlado por um segurança do local.



Os criminosos afirmam em seu vídeo que o ataque é uma represália ao filme “A Primeira Tentação de Cristo”, produzido pelo Porta dos Fundos e disponível na Netflix desde o dia 3 de dezembro. Na sátira de 46 minutos, Jesus Cristo, interpretado por Gregório Duvivier, volta do jejum de 40 dias no deserto com um amigo, vivido por Fábio Porchat, com quem viveria um romance gay.

A 10ª DP (Botafogo) investiga o caso como crime de explosão, que pode ainda ser enquadrado na Lei Antiterror, por usar explosivo “por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião” com o objetivo de “provocar terror social”.

A Frente Integralista Brasileira divulgou nota em seu site negando qualquer vínculo com os criminosos, e afirmando que integralistas não usam máscaras em suas ações.

Surge então a pergunta: quem são essas pessoas e por que fazem isso?

Tempos de intolerância

Quando li a primeira notícia sobre o atentado terrorista pensei imediatamente: “je suis Charlie”. A frase surgiu em 2015, após o atentado ocorrido no dia 7 de janeiro daquele ano contra a sede da revista semanal satírica francesa Charlie Hebdo: fundamentalistas islâmicos atiraram com fuzis contra a equipe e policiais, matando 12 pessoas e ferindo gravemente outras cinco.

O crime foi uma nova retaliação contra a edição de 2 de novembro de 2011, que apresentava, na capa, uma charge do profeta Maomé como redator-chefe, dizendo “100 chicotadas se você não morrer de rir”. Antes desse fatídico ataque, a revista havia sido atacada com uma bomba incendiária, no mesmo mês da edição acima.

Estamos caminhando para isso aqui no Brasil? Possivelmente!

Surgido ainda na Antiguidade, o humor, por vezes, atua no limite dos costumes e pode flertar perigosamente com temas delicados. Nem por isso deve ser censurado e muito menos humoristas devem ser atacados.

Tenho amigos que se sentiram ofendidos e tenho amigos que riram muito com o filme do Porta dos Fundos. Mas obviamente os primeiros nunca cogitaram um ataque à empresa ou aos humoristas, pois são pessoas decentes e inteligentes, e sabem que um ataque como esse contrariaria a própria fé. Até onde sei, nenhum deles sequer utilizou um instrumento socialmente legítimo para isso, que é recorrer à Justiça. Entenderam que fazer campanha contra o filme em seus círculos pessoais seria o suficiente.

Houve, sim, um abaixo-assinado online pedindo a retirada da produção da Netflix. E, no dia 19, a Justiça do Rio negou liminar a um pedido semelhante. A decisão foi tomada por não haver motivos legais para isso e que isso configuraria “inequivocamente censura decretada pelo Poder Judiciário”.

Esse é o caminho que deve ser seguido por uma sociedade organizada e evoluída.

Vale lembrar que algumas das ditaduras mais sanguinárias da história começaram conquistando apoio popular ao defender uma suposta “moral e bons costumes”. Algumas dessas ditaduras foram eleitas democraticamente, outras chegaram ao poder com golpes de Estado. Impossível não pensar na ascensão do nazismo de Hitler, ou do socialismo soviético consolidado com Stalin, que se apoiaram no povo para fazer valer seu ponto de vista. E quem pensasse de maneira diferente era preso ou, de preferência, morto.

A Justiça deve combater exemplarmente esse tipo de crime, especialmente em um momento em que diferentes governos conservadores incentivam ações extremistas contra tudo e todos que se posicionem contra seus interesses. Eles ganham força pela manipulação de grandes massas populares, que inocentemente acreditam estar defendendo valores nobres.

A imprensa vem sendo atacada sistematicamente, em especial quando faz bem seu trabalho essencial de fiscalizar o governo. Cientistas são desacreditados por demonstrar, de maneira irrefutável, temas que contrariam os interesses de poderosos. Professores são perseguidos e agredidos por grupos conservadores por questões ideológicas. E até as artes são atacadas por aqueles que se acham no direito de julgar e punir sob a sua própria visão distorcida do mundo.

É exatamente o mesmo mecanismo criado pelos nazistas. Por isso, tenho medo de que, muito em breve, assistamos a pessoas literalmente queimando “livros subversivos” ou “arte degenerada” em praça pública.

Quando isso acontecer, aí sim teremos chegado ao inferno.


E aí? Vamos participar do debate? Role até o fim da página e deixe seu comentário. Essa troca é fundamental para a sociedade.


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