buscador

“Novo Google” impactará decisivamente negócios digitais e como construímos nosso conhecimento

By | Tecnologia | No Comments

O Google, cuja ambição declarada sempre foi “organizar as informações do mundo e torná-las acessíveis e úteis para todas as pessoas”, anunciou, no dia 19, aquilo que define como a maior mudança em seu buscador desde seu lançamento, em 1998. A tradicional página de resposta com links continuará existindo, mas eles perdem cada vez mais espaço para respostas sintéticas criadas pela inteligência artificial.

Não se trata de uma mera atualização de um produto que organizou a maneira como procuramos informações na Internet. A novidade, apresentada durante a conferência anual Google I/O, pode justamente redefinir como fazemos isso. Ela também deve impactar decisivamente os modelos de negócios de empresas que dependem do tráfego gerado pelo buscador, desde varejistas até empresas de comunicação.

O próprio Google será afetado. O buscador continua sendo sua principal fonte de receitas, vindas de anúncios e links patrocinados, que podem perder relevância no novo formato. Mas o gigante se viu pressionado a fazer a mudança por plataformas concorrentes, como o ChatGPT e o Perplexity, este último um buscador que nasceu em 2022 oferecendo respostas criadas pela IA a partir de buscas que ela mesma faz.

Entretanto, talvez mais importante do que esses choques empresariais seja como isso pode alterar profundamente a maneira como não apenas buscamos informações, mas como construímos nosso conhecimento. Com o buscador, fazemos isso sintetizando o que aprendemos a partir de sites relevantes criados com curadoria humana e diversidade de fontes. Com as respostas prontas da IA, cresce a tendência de se confiar no que a máquina apresenta como verdadeiro, mesmo sem transparência.

Fora de círculos especializados, há pouco debate sobre o risco que essa mudança representa para o futuro de todos nós. E isso agrava esse quadro, cada vez mais consolidado.


Veja esse artigo em vídeo:


O buscador do Google já flertava com a IA. A “Visão Geral de IA”, que apresenta resumos criados a partir dos sites mais relevantes das respostas, foi lançada em 2024. No ano seguinte, o “Modo IA” aproximou ainda mais a busca de uma plataforma de IA generativa. Segundo a empresa, o primeiro já ultrapassa 2,5 bilhões de usuários ativos mensais, enquanto o “Modo IA” passou de 1 bilhão de usuários em apenas um ano.

Agora, a busca será redesenhada para ser, desde a caixa de pesquisa, uma experiência contínua, conversacional e personalizada, em que agentes de IA podem acompanhar tarefas, agir em segundo plano e misturar sites com dados pessoais, deixando os links como complemento, e não mais como eixo principal da página.

Em outras palavras, as buscas deixam de ser estanques, passando a ser conversas contínuas em que o usuário interage com as respostas, como já acontece com plataformas de IA generativa. Além disso, os comandos podem criar agentes que continuarão monitorando sites e dados necessários para atender o pedido do usuário, de maneira autônoma, mesmo após o fechamento do buscador. Assim, será possível criar robôs para, por exemplo, acompanhar preços de passagens ou monitorar notícias sobre determinado assunto, de maneira autônoma.

Aí reside a grande mudança. A utilidade do buscador deixa de ser a organização de informações e passa a ser o acompanhamento de processos. Isso significa que os usuários não precisarão fazer repetidas buscas e clicar em diversos sites para encontrar o que querem, pois a IA fará isso silenciosamente e por sua conta.

Isso deve reduzir dramaticamente a visitação aos sites que criam os diferentes tipos de informação que alimentam o buscador e a própria IA, que vem desabando desde o ano passado. Sem o tráfego de pessoas que o buscador lhes garante há décadas, muitos desses criadores de conteúdo podem piorar suas entregas ou até fechar.

A IA e o Google tornaram-se sistemas autofágicos, que estão matando o que os alimenta. E, sobre isso, a empresa não deu um pio no Google I/O. Obviamente!

 

Ameaça ao senso crítico

A lógica da busca tradicional exige esforço intelectual. Com ela, é preciso comparar fontes, interpretar diferenças, analisar versões conflitantes e decidir em quem confiar. Esse processo obriga o usuário a participar ativamente da construção do próprio entendimento. A IA muda essa dinâmica ao transformar a informação em um produto mastigado e entregue com aparência de verdade definitiva, que nos tenta a aceitá-lo.

Esse movimento também dilui a noção de autoria e de responsabilidade. Hoje, quando lemos algo, sabemos quem é o autor e quais interesses podem estar em jogo. Assim, atribuímos pesos diferentes a cada fonte. A IA, por sua vez, tritura tudo em um texto homogêneo, em que o “autor” passa a ser a plataforma. Isso facilita a vida de quem consulta, mas dificulta a tarefa de responsabilizar alguém quando há um erro ou viés.

Existe ainda a erosão de nossa curiosidade. Os buscadores nos acostumaram a abrir abas, seguir links inesperados, cair em sites que não estávamos procurando e, muitas vezes, mudar a pergunta no meio do caminho. Essa deriva é parte essencial da construção de conhecimento, porque nos expõe ao imprevisto e à complexidade.

Concentrar o poder de síntese em poucos modelos e poucas empresas torna o ecossistema informacional perigosamente frágil. Se bilhões de pessoas passam a depender dos mesmos filtros automáticos para entender o mundo, eles distorcerão tudo o que vemos. E jovens crescendo nesse formato podem desenvolver menos repertório crítico e autonomia intelectual, criando um enorme risco civilizatório.

Se o Google quer transformar seu buscador em um “sistema vivo” agindo em nosso nome, a sociedade precisa decidir quais salvaguardas exigirá de quem passa a controlar, em tempo real, a triagem do conhecimento de bilhões de pessoas.

A empresa argumenta que apenas responde a uma transformação dos usuários, o que é uma verdade parcial. As pessoas querem rapidez e praticidade, mas eficiência informacional não é necessariamente sinônimo de amadurecimento intelectual, assim como parte da fricção no processo de busca nos obriga a pensar.

Se a Internet e o Google foram construídos sobre a promessa de ampliar nosso acesso ao conhecimento, a IA parece caminhar para substituir gradualmente nossa participação nesse processo. É hora de perceber que existe uma diferença enorme entre ter respostas fáceis para tudo e realmente compreender alguma coisa.

 

A eleição que os jornais quase não cobriram

By | Jornalismo | 4 Comments

A home page do Estadão anunciando a vitória de Haddad e a página de resposta do Google sem link para qualquer jornal

Com 100% das urnas apuradas no segundo turno, o Estadão não cobriu a eleição para a prefeitura de São Paulo. Calma, não se trata de uma reação maluca diante da vitória de Fernando Haddad. É apenas a impressão que o internauta teve se procurou pelo assunto no Google, que responde por mais de 90% das buscas no Brasil. Sua resposta a “resultado eleição são paulo” traz um link para o Estadão apenas em sua segunda página, na 17ª posição, atrás de links para o UOL, a Agência Notícias, o R7, o Terra, o Globo.com, o G1, o Yahoo!, a Veja, e até um site oportunista totalmente baseado em SEO, chamado eleicoes2012.info. A primeira menção à Folha surge só na terceira página de respostas. Se o usuário então clicar na seção “notícias” do Google, os jornais desaparecem por completo.

Isso é um resultado péssimo, já que a maioria dos internautas se satisfaz com os resultados da primeira página de respostas do buscador. Graças a esse mau posicionamento, os sites dos jornais perdem milhões de page views ao final do mês, podendo chegar a 10% de sua audiência global, o que certamente tem um impacto muito considerável em sua receita publicitária online.

Esse posicionamento só não foi pior porque as eleições representam o assunto mais importante do ano para os jornais, superando até mesmo as Olimpíadas de Londres. E, ao contrário da provocação do primeiro parágrafo, eles, sim, cobriram  –e muito bem– o pleito municipal. Com isso, subiram na classificação do Google. Mas se o mesmo internauta procurasse por “último capítulo de avenida brasil”, outro tema que causou comoção nacional recentemente, o único grande jornal a aparecer nas cinco primeiras páginas de resposta é a Folha, e timidamente com um link na quarta delas, na 48ª posição, atrás de sites absolutamente inexpressivos.

Em um primeiro momento, pode parecer que o Google está falhando ao trazer as páginas mais relevantes para seus usuários. Mas os resultados são igualmente ruins no Bing e na busca do Yahoo!. E não se trata de uma falha nos algoritmos dos buscadores. Na verdade, os jornais foram praticamente banidos porque explicitamente pediram isso.

A discussão já dura uns oito anos, e começou com os jornais internacionais acusando o Google de estar roubando as reportagens desses veículos para construir seus serviços, especialmente o Google News (ou Notícias). Desde então, muita discussão vem acontecendo. No Brasil, desde o ano passado, a ANJ (Associação Nacional de Jornais) recomenda a seus 154 associados que deixem o serviço, o que vem sendo seguido por todos.

Para isso, basta incluir um simples comando em todas as páginas de seu site, para que o Google deixe de exibi-las no Google Notícias e na seção “notícias” do buscador. O problema é que essa ação também derruba a relevância dessas mesmas páginas na busca orgânica, o que é a causa da situação descrita nos primeiros parágrafos deste post.

Os jornais são os detentores legítimos de seu conteúdo, ninguém questiona isso, nem mesmo os buscadores. Dessa forma, eles têm o direito legítimo de “proteger” seus produtos de quem estiver fazendo uso indevido deles.

Já os buscadores sempre argumentaram que os seus serviços são construídos com base no “uso justo”, ou seja, usariam pequenos trechos do conteúdo dos veículos, retribuindo-lhes com links diretos e crédito. Dessa forma, ninguém deveria nada a ninguém.

Os dois lados têm, portanto, argumentos defensáveis. Mas façamos uma análise meramente monetária. Por ter seguido recomendação da ANJ, é razoável supor que um grande jornal brasileiro tenha “perdido” 10 milhões de page views em um mês, que não vêm mais do Google. Sendo muito conservador, podemos supor que as receitas médias com publicidade, somando todas as inserções, cheguem a R$ 0,05 por página, depois de todos os descontos. Ou seja, esse veículo vem deixando de faturar R$ 500 mil por mês.

Não me parece pouco. Ainda mais porque os jornais estão passando por tempos bicudos, demitindo e até encerrando títulos (o “Jornal da Tarde” parece ser o próximo da lista de defuntos, possivelmente deixando de circular em novembro, segundo o burburinho do mercado).

Mas o mais grave não é a perda financeira: é a incapacidade (ou seria teimosia?) de os jornais aceitarem que seu modelo de negócios, forjado no século 19 e sustentado pela publicidade e pela assinatura de um produto “consolidado” (onde o cliente paga por tudo, mesmo que consuma apenas uma parte), não encontra mais lugar no mundo.

Além de perderem a dinheirama acima, assistem praticamente imobilizados às mudanças da mídia, que os condena cada vez mais ao ostracismo. Sim, porque o Google Notícias é mídia, assim como o Flipboard e os outros agregadores, os blogs e tantas outros. Players que, se não “roubam” seus conteúdos, certamente levam embora seu público (que procura alternativas mais modernas e adequadas), e para os quais as empresas de comunicação tradicionais torcem o nariz e batem o pé, ao invés de aprender algo com eles.

Isso me lembra a fábula “A Raposa e as Uvas”, de La Fontaine. Mas me dá muita pena que, neste caso, as empresas de comunicação tradicionais são raposas que poderiam perfeitamente usar escadas para alcançar suas uvas. Mas se recusam a isso.