experiência do cliente

Inteligência artificial muda a forma como empresas se relacionam com seus clientes

By | Tecnologia | No Comments

Estamos diante de uma mudança de paradigma no marketing graças à evolução da inteligência artificial. Se as redes sociais consolidaram a entrega de anúncios específicos para as pessoas que têm grande chance de se interessar por eles, a IA começa a colocar em xeque o próprio conceito de campanha e até de funil de vendas.

Com os consumidores usando essas plataformas para atividades cada vez mais diversas, mais cedo ou mais tarde, eles as usariam para pesquisar produtos e serviços que quisessem adquirir. Esse momento chegou: segundo estudo da consultoria Bain & Company, publicado em outubro, 58% dos brasileiros já usam a IA para comparar preços, produtos, vendedores e sites, antes de concluir uma compra.

Isso muda o marketing profundamente. Cada vez menos adianta construir “uma mensagem incrível” e empurrá-la para “o cliente certo”, se agora ele conversa com uma plataforma que decide, segundo critérios nada transparentes, o que lhe indicará.

O desafio de todas as marcas passa a ser, portanto, como se tornar relevantes não apenas para seus clientes, mas também para algoritmos que passam a intermediar o contato entre empresas e pessoas. E isso não é trivial.

Esse assunto foi a espinha dorsal do Adobe Summit, um dos maiores eventos globais de tecnologia, criatividade e experiência do cliente, que aconteceu em Las Vegas (EUA) entre os dias 20 e 22 de abril. Conhecida pelos seus programas gráficos, como Photoshop e Illustrator, a Adobe se posiciona agora com soluções para melhorar o desempenho das empresas nesse “novo marketing”.

Não é exagero dizer que parte do orçamento de marketing das companhias está sendo gasta para convencer pessoas que cada vez menos tomam as decisões de compra sozinhas. Pouco vale investir milhões se a IA priorizará concorrentes baseada em critérios que suas diretorias sequer compreendem.


Veja esse artigo em vídeo:


O evento também destacou como a IA está mudando a lógica criativa, com o trabalho começando de versões geradas e otimizadas pela tecnologia, e não de uma “página em branco”. Os modelos deixam de ser apenas geradores de textos e imagens para atuar como parceiros que entendem contexto, objetivos de negócio e regras de marca.

Apesar disso, o papel das pessoas não desaparece. A IA não vem para substituir, mas para melhorar o trabalho humano, com criativos, publicitários e estrategistas passando a escolher e dirigir agentes de IA, em vez de executar cada microtarefa.

“Nós acreditamos que a criatividade é a nova produtividade, à medida que as comunicações se tornam cada vez mais expressivas e visuais”, declarou Shantanu Narayen, CEO da Adobe, durante a principal palestra do primeiro dia do evento. “Essa abordagem diferenciada em relação à IA reflete nossa crença de que a criatividade é uma característica exclusivamente humana, e acreditamos que a IA tem o poder de tanto auxiliar quanto ampliar a engenhosidade humana, além da produtividade.”

Na mesma apresentação, ele conversou com Jensen Huang, CEO da Nvidia. O líder da empresa que se tornou a mais valiosa do mundo por fabricar os principais processadores dos datacenters da IA destacou que essa tecnologia está deixando de ser apenas um sistema que responde perguntas ou organiza informação e passando a executar tarefas concretas. “Agora temos a capacidade de ir diretamente de uma entrada sensorial para a execução direta em um sistema computacional ou em um sistema físico”, afirmou Huang. “As pessoas adoram IAs que sabem tudo, mas, no fim das contas, o que você paga é pelo trabalho realizado.”

Há um risco significativo nisso. Hoje, grande parte do conteúdo que trafega pela Internet já é produzido por IA, e sua qualidade costuma ser tão ruim, que ganhou o apelido pejorativo de “AI slop” (“slop” se refere à lavagem que os porcos comem). As marcas precisam cuidar que seu novo conteúdo não engrosse esse caldo.

 

Preservando a marca

Por isso, David Wadhwani, presidente da unidade de Criatividade e Produtividade da Adobe, explicou que bons conteúdos precisam se destacar, fugindo do que chamou de “mar de mesmice”. Além disso, eles devem se manter frescos e garantir a personalização com “criatividade em escala”.

O dilema vem de que a personalização gera volume, mas volume costuma destruir consistência. E consistência é o que sustenta uma marca. “Você precisa manter a identidade da sua marca à medida que escala a produção de conteúdo”, acrescentou.

A ideia é, portanto, transformar criatividade em processo industrial, sem perder identidade. Porém, isso ainda é uma promessa sofisticada que precisa ser comprovada medindo o retorno em canais fragmentados e orquestrando jornadas de incontáveis clientes ao mesmo tempo.

“O maior gargalo da IA não é a tecnologia, e sim processos e cultura”, provoca Fernando Teixeira, diretor de produtos e de estratégia de IA da Adobe na América Latina. Ele explica que o principal motivo do baixo retorno que as empresas ainda têm com essa tecnologia se deve ao fato de ela ser usada de maneira desagregada pelos profissionais, enquanto os processos da empresa não mudam. “Não dá mais para entender a IA como um uso individual nos processos de departamentos antigos.”

Esse descompasso se torna ainda mais evidente quando se observa o contexto brasileiro de avanços e contradições. “O Brasil é um país muito conectado e isso nos coloca em vantagem nessa adoção”, afirma Mari Pinudo, country manager da Adobe Brasil. Mas isso convive com o desafio de também sermos “uma população muito diversificada e diferente.” A promessa de personalização em escala esbarra, então, na complexidade de entender pessoas inseridas em realidades tão distintas.

Se já é difícil compreender indivíduos em um país diverso, esse desafio se amplia quando a interação deixa de ser direta. “Os consumidores mudaram o comportamento e estão indo nessas plataformas para ter conversas sobre os produtos das marcas”, afirma Douglas Montalvão, general manager da Adobe na América Latina. A questão deixa de ser apenas entender clientes e passa a incluir a necessidade de influenciar os ambientes digitais que filtram o que ele vê a partir de sua individualidade.

Esse é um deslocamento sutil, mas profundo, de poder na relação entre empresas e consumidores. Por tudo isso, o Adobe Summit tratou muito além de tecnologia. Em mais essa disrupção provocada pela inteligência artificial, essa é uma conversa sobre poder, sobre quem controla a experiência, a decisão de consumidores e, no limite, como se construirá, de agora em diante, a narrativa e o funcionamento do marketing.

 

A IA pode oferecer a atendentes dados para melhorarem o relacionamento com o público – Foto: Kampus Poduction - Creative Commons

“Humanidade aumentada” une inteligência artificial e pessoas para criar um atendimento superior

By | Tecnologia | No Comments

Em tempos em que o ChatGPT e outras plataformas de inteligência artificial parecem invadir e automatizar todo tipo de tarefa, essa tecnologia pode elevar o relacionamento entre empresas e seus clientes a um patamar inédito. Isso não se dará pela substituição de atendentes humanos, mas sim por potencializar suas habilidades de relacionamento interpessoal com informações que só a máquina pode lhes oferecer.

Essa colaboração entre computadores e indivíduos é uma vertente da “humanidade aumentada”. O termo, usado pela primeira vem em 2010 pelo então CEO do Google, Eric Schmidt, prevê o uso de tecnologias para ampliar capacidades humanas. Pode ser por equipamentos robóticos, assistentes virtuais, acesso a dados para tomada de decisões e muito mais. E a tecnologia evoluiu dramaticamente nesses 13 anos.

A inteligência artificial tornou-se muito eficiente em compreender pedidos das pessoas e gerar respostas adequadas para cada caso específico, e não mais tentar enquadrar as demandas em situações pré-definidas. Isso não é feito apenas a partir de dados históricos, mas da sua capacidade de tirar conclusões de padrões, por exemplo de consumo ou de comportamento. Para quem lida com o público, como atendentes ou vendedores, esse recurso é praticamente um superpoder.


Veja esse artigo em vídeo:


“Os sistemas automatizados alcançaram uma qualidade comparável à de um ser humano em muitos casos”, explica David Paulding, vice-presidente sênior da Talkdesk, multinacional portuguesa que desenvolve sistemas de atendimento. “A IA generativa está sendo aproveitada em um número cada vez maior de casos para melhorar a experiência do cliente e simplificar as interações”, acrescenta.

Ele explica que sistemas de atendimento com inteligência artificial podem reduzir a frustração de clientes por não terem suas necessidades resolvidas rapidamente, economizando o tempo deles e dos atendentes. Segundo o executivo, 69% das empresas já investiram em plataformas com essa tecnologia, que aumentam a chance de o cliente encontrar o que quer por conta própria e ajudam os atendentes a encontrar a solução certa em menos tempo.

Ironicamente, muitas empresas estão se interessando por soluções de inteligência artificial graças à grande visibilidade que a mídia vem dando ao tema nos últimos tempos. Mas é um erro pensar que ela é uma bala de prata que resolverá todas as dificuldades. Muitos negócios ainda têm problemas graves e básicos na experiência que oferecem a seus clientes, em nível conceitual.

“Você pode ter toda a tecnologia do mundo, mas, se você não mudar a maneira como você pensa, a tecnologia não resolve nada”, afirma Bart De Muynck, Chief Industry Officer da project44, empresa americana de sistemas de logística, que também adota a inteligência artificial em suas soluções. Ele explica que “a máquina pode ver, entender e calcular as coisas mais complexas, mas pode se perder diante de algo simples”.

Nessas horas, o ser humano é necessário, seja para melhorar um processo ruim, seja para corrigir uma conclusão errada da máquina.

 

Tempo é dinheiro

Dizem que o bem mais valioso da humanidade é o tempo, pois é a única coisa que não pode ser comprada. Portanto, se o dia continua tendo 24 horas para todos, o jeito é não desperdiçar nenhum minuto.

No caso de clientes, poucas coisas os aborrecem tanto quando ficar dando voltas por sistemas de autoatendimento ou tendo conversas infrutíferas com um atendente. Já em uma venda, o consumidor fica mais satisfeito quando lhe é oferecido o produto que realmente satisfaz suas necessidades. Aliás, no varejo, um dos maiores dramas é um estoque cheio, normalmente causado por decisões de compras no volume ou no tempo errados, que acabam forçando depois vendas com descontos.

A inteligência artificial brilha nisso. “Com ela, as empresas podem não apenas responder às necessidades e desejos do cliente de maneira integrada em todos os canais, com serviço personalizado, mas também prever e se preparar para suas necessidades e desejos futuros”, explica Paulding.

Há desafios para a implantação da inteligência artificial nesses processos. Além de entender como ela pode ajudar cada empresa, o executivo explica que há um grande trabalho para evitar que a tecnologia desenvolva vieses nas suas respostas e que elas sejam “explicáveis”, ou seja, que o usuário entenda por que aquilo lhe foi sugerido.

Os vieses merecem uma atenção especial, pois as plataformas podem efetivamente aprender respostas ruins dos próprios usuários. É por isso que elas precisam ser alimentadas com conjuntos de dados cuidadosamente selecionados, para que sejam representativas para seu uso e seu público. Além disso, especialistas na área da aplicação devem ser envolvidos ao longo do ciclo de vida da plataforma, para que seja continuamente avaliada e “limpa”.

Um outro ponto sempre destacado por aqueles que trabalham com o público é o risco de esses sistemas roubarem seus empregos. E, quando a tarefa for muito repetitiva, ele existe mesmo. “Quando combinados com a tecnologia avançada de conversão de texto em fala, esses modelos de linguagem poderão em breve assumir todo o processo de engajamento do cliente”, indica Paulding. A saída, segundo ele, é deixar a IA assumir as tarefas repetitivas enquanto dá mais poder aos atendentes humanos naquilo que eles são melhores, como desenvolver a empatia com seus consumidores.

“Nós ainda temos a pessoa como figura central, mas devemos usar a inteligência artificial para ajudá-la a fazer mais, melhor, além de fazer seu trabalho mais divertido”, explica De Muynck. Para ele, “não devem cuidar de coisas estúpidas que o computador pode fazer, concentrando-se no que realmente agrega valor”.

“Não faz sentido pensar na IA como forma de cortar equipes”, acrescenta Paulding . “As organizações devem entender que ela pode aumentar as capacidades dos atendentes com dados e insights, melhorando a satisfação do cliente”, acrescenta.

Essa é a versão atual da eterna luta entre homens e máquinas, começada na Revolução Industrial. Como sempre, o verdadeiro problema recai em capacitar as pessoas para usar bem as novas tecnologias e melhorar seu trabalho. Mas agora, pela primeira vez, podemos ver a própria tecnologia fazendo isso.