pensamento crítico

A IA não nos “emburrece”, mas usá-la mal pode prejudicar nosso desenvolvimento

By | Tecnologia | No Comments

Muito se fala sobre o impacto da inteligência artificial no nosso desenvolvimento, mas me deparei com outra perspectiva sobre o tema há alguns dias, durante uma conversa sobre ganhos e perdas do home office. Algumas coisas são óbvias, como ganhar na qualidade de vida e perder na experiência das trocas contínuas com os colegas. Foi quando me perguntaram se a IA agravaria ainda mais as perdas.

Isso me fez pensar. Ao trocar o escritório pelo quarto de casa, deixamos de ter conversas inesperadas, conflitos, negociações e decisões compartilhadas, que alimentam um processo contínuo de aprendizagem. Mas o trabalho solitário ainda exige a fricção intelectual das tarefas, que preserva a ampliação de capacidades neurológicas, como neuroplasticidade, funções executivas, memória de trabalho e reconhecimento de padrões. Um uso inadequado da IA pode, sim, comprometer isso.

Por “uso inadequado da IA”, eu me refiro a essa tecnologia assumir, de maneira sistemática, as partes mais difíceis de nossas atividades. Isso pode reduzir justamente os estímulos que promovem os maiores ganhos cerebrais. E, aqui, quero deixar claro que não sou contra o home office ou a IA, mas me preocupo com o fato de “abusos” de ambos poderem efetivamente nos atrapalhar.

Especialistas não encontram soluções porque decoraram respostas, e sim porque enfrentaram centenas de situações difíceis ao longo da carreira. Cada problema resolvido ampliou seu repertório mental. Para eles, o desconforto cognitivo faz parte do aprendizado, portanto não buscam atalhos.

Infelizmente, observo, como pesquisador e consultor, muito do uso inadequado da IA. Enquanto isso, proliferam artigos, debates e cursos que enaltecem os ganhos dessa tecnologia, sem triscar nos seus riscos, como se ela fosse uma panaceia. Essa combinação é perigosíssima, e a sociedade precisa lidar com isso com urgência.


Veja esse artigo em vídeo:


Historicamente, as grandes inovações tecnológicas, via de regra, reduziram o esforço humano. Como exemplos comuns, o arado facilitou o plantio, que depois ficou melhor com a mecanização do campo, assim como calculadoras agilizaram operações matemáticas, ganho que foi ampliado por planilhas eletrônicas. Mas apesar dos inegáveis benefícios, nosso papel de analisar, decidir e criar sempre foi preservado.

A inteligência artificial é a primeira tecnologia capaz de assumir parte do processo de raciocínio. Por isso, ela não transforma apenas a forma como trabalhamos, mas também pode alterar a maneira como aprendemos, ficamos mais experientes e exercitamos o pensamento crítico. Isso explica por que desperta tanto entusiasmo e, ao mesmo tempo, preocupações associadas a maus usos dela.

Estudos acadêmicos vêm surgindo em todo mundo sobre isso. Em um deles, Michael Gerlich, da Swiss Business School (Suíça), encontrou correlação entre o uso mais intenso da IA e menores níveis de pensamento crítico. A causa estaria ligada ao chamado “descarregamento cognitivo”, quando transferimos para a tecnologia tarefas mentais que antes realizaríamos. Ele não afirma que a IA reduz o pensamento crítico automaticamente, e sim que pode diminuir as oportunidades de exercê-lo. Além disso, concluiu que os mais velhos e os mais escolarizados têm mais resistência a esse efeito, sugerindo que a fricção mental acumulada ao longo da carreira funciona como proteção contra o uso inadequado da tecnologia.

Em outro estudo, Hao-Ping Lee, da Universidade Carnegie Mellon (EUA), e um grupo de pesquisadores da Microsoft Research Cambridge (Reino Unido) concluíram que, quanto maior a confiança do trabalhador na capacidade da IA de executar uma tarefa, menor tende a ser seu pensamento crítico na avaliação dos resultados, mesmo sabendo que ela comete muitos erros. Por outro lado, quanto maior a confiança da pessoa na própria capacidade, maior o nível de análise crítica exercido sobre respostas produzidas pela máquina. Vale notar que o estudo mostra que o esforço não desaparece, apenas migra da busca de informação para a curadoria do que vem pronto. Isso sustenta a ideia de que a “muleta” começa a substituir o “músculo”.

Meu temor é que, em uma sociedade em que a rapidez na execução de uma tarefa fica cada vez mais importante que sua qualidade, tal “muleta” se torne um recurso padrão e até obrigatório. Ao recorrer à IA antes mesmo de tentar resolver um problema, profissionais poderão sofrer declínios cognitivos consideráveis.

 

Bom uso versus mau uso

Devemos resistir à perigosa simplificação de dizer que a IA nos “emburrece”. Quando ela automatiza tarefas repetitivas, burocráticas ou operacionais, ela libera tempo que pode ser usado para atividades muito mais nobres, como criar, investigar, negociar, inovar e decidir. O problema surge quando, em vez disso, delegamos justamente à máquina aquilo que mais contribuiria para nossa evolução intelectual.

Redes neurais frequentemente ativadas tendem a se fortalecer, enquanto as que são pouco usadas ficam menos eficientes. Elas não desaparecem, mas seu desempenho pode diminuir com o tempo. Então, se a IA assume sistematicamente o que nos desafia, pode reduzir os estímulos que promovem os maiores ganhos cerebrais.

Ironicamente, essa não é uma discussão tecnológica, e sim cultural. Fomos educados a valorizar tecnologias que eliminavam esforço. Mas, com a IA, estamos eliminando um tipo de esforço que representa custo, mas também promove nosso aprendizado. Se o cérebro evolui ao enfrentar desafios, reduzi-los a todo momento pode produzir profissionais eficientes para executar tarefas, mas menos preparados para lidar com ambiguidades e construir pensamentos originais.

Isso não é algo hipotético ou restrito. Uma sociedade que se acostuma a aceitar respostas sem examiná-las corre o risco de enfraquecer sua capacidade que sustenta a inovação, a ciência, o jornalismo, a educação e até a democracia. Todos nós precisamos resgatar o hábito de questionar, de comparar evidências e de sustentar argumentos, e a inteligência artificial pode nos ajudar nisso. Esse é o bom uso!

Essa tecnologia disruptiva tem potencial para ampliar extraordinariamente nossas capacidades. Mas isso dependerá menos do que ela consegue fazer e mais do que decidiremos continuar fazendo por conta própria. Precisamos reforçar aquilo que nos colocou na liderança desse planeta, que é nossa disposição para pensar. E isso fica dramático quando a IA nos oferece atalhos para ignorar esse nosso maior diferencial.

 

O filósofo belga Mark Coeckelbergh, uma das maiores autoridades do mundo em ética da IA - Foto: Victor Lopes/Creative Commons

“Ética líquida” normalizada pelo mundo digital ameaça avanços da sociedade

By | Tecnologia | No Comments

Em meio a tantas discussões sobre o avanço cognitivo da inteligência artificial, sobre como ela está transformando o trabalho e os negócios, e até como ela parece ser capaz de nos substituir em qualquer coisa, a ética se sobressai como algo que ainda nos separa das máquinas. Por mais que a IA até simule convincentemente emoções, ela não as sente de fato.

A ética fica ainda mais distante dessa tecnologia. O problema é que, de uma década para cá, com as redes sociais, e mais acentuadamente agora, com a IA, cresce o número de pessoas que vivem sob o que chamo de “ética líquida”, que se flexibiliza e até desaparece para atingir objetivos pessoais. Se perdermos a nossa ética, abriremos mão daquele que é nosso maior diferencial frente às máquinas.

Nesta sexta, debati sobre isso com meu ex-professor de ética, o jornalista e escritor Jorge Tarquini. Em um encontro mais rico que qualquer conversa com uma plataforma de IA, analisamos essas transformações que o mundo digital promove em todos nós, em maior ou menor escala, e como isso pode criar problemas bem reais na sociedade.

Isso não pode ser um detalhe em nossas vidas. Nenhuma sociedade avança sem ética, ou as pessoas partiriam rumo à anarquia ou à bestialidade. Infelizmente, vemos o crescimento de ambos no nosso cotidiano, desembocando em violência, intolerância e egoísmo.

A IA pode nos ajudar muito pela sua execução eficiente. Mas não podemos nos comportar como ela, sob o risco de matarmos nossa humanidade.


Veja esse artigo em vídeo:


A ética não se resume a um conjunto de regras aplicadas mecanicamente. Ela nasce da experiência humana, do conflito entre valores, da consciência do outro e da capacidade de assumir responsabilidade por escolhas que afetam vidas reais. Ética envolve intenção, contexto, empatia e, sobretudo, a possibilidade de responder moralmente pelos próprios atos.

A inteligência artificial, por sua vez, calcula, otimiza, prevê e classifica com base em dados, objetivos e restrições definidos por pessoas. Mesmo ao executar padrões complexos, ela não compreende o sentido moral de suas ações. Um algoritmo não sente culpa, não reconhece injustiça e não pode ser responsabilizado pelo que executa.

Portanto, a IA não pode ser ética. Mas ela pode ser eticamente orientada, por desenvolvedores e usuários, esses sim, éticos. E aí mora o grande dilema atual. Com tanto poder que a IA e as redes sociais nos oferecem, pessoas antiéticas sequestraram o ambiente digital para distorcer a moral da sociedade e obter ganho próprio. E a população se deixa manipular por isso.

Como Tarquini disse, “as redes sociais são a nossa cachaça”, pois elas achatam nossos limites morais. Com isso, realizamos no ambiente digital práticas condenáveis que jamais faríamos “olho no olho”.

Ele lembrou também que reproduzir exaustivamente mantras e dogmas nas plataformas online diminuem o pensamento crítico. Esperar pelo contrário disso seria como “esperar que o ovo se transforme em omelete sozinho”, disse o professor.

 

“Liquefação da vida”

Disso tudo, extrapolei os conceitos de vida líquida do filósofo polonês Zygmunt Bauman, criando a ideia da “ética líquida”. Valores que antes eram sólidos em nossas vidas (e precisam continuar sendo) se tornam fluidos, adaptáveis à conveniência de nossos objetivos, mesmo os mais simplórios, moldando-se ao formato do algoritmo para obtermos migalhas de atenção.

Essa dinâmica afeta a todos, mas é devastadora para os jovens, cuja identidade ainda está em formação. Além disso, esse fenômeno não se restringe aos indivíduos, contaminando instituições, empresas e governos.

Vemos isso claramente na Europa, que historicamente liderou a regulação de direitos digitais, mas que agora cede às pressões das big techs e flexibiliza suas leis. O medo de perder a corrida tecnológica está servindo de justificativa para afrouxar a ética do desenvolvimento responsável.

Essa corrida desenfreada ignora o alerta do filósofo belga Mark Coeckelbergh sobre acreditarmos em um “agenciamento moral” da IA. Estamos atribuindo a sistemas automatizados decisões que exigem sensibilidade humana, redefinindo nossa própria vulnerabilidade.

Uma tecnologia que aprende demais sobre nós e é usada sem freios éticos torna-se uma arma de manipulação comportamental sem precedentes. E assim esquecemos da importância da nossa ética.

É uma triste realidade ver líderes políticos e empresariais se tornarem os maiores motores dessa flexibilização moral. Eles utilizam a potência das plataformas digitais não para o bem comum, mas para atingir objetivos mesquinhos, normalizando a violência retórica e a polarização.

Em um mundo onde as redes sociais ensinaram todos a falar demais e a ouvir pouco, a ética termina por se tornar um obstáculo inconveniente. A situação se agrava quando isso extrapola os limites do digital, aumentando e normalizando a violência, a intolerância e outros comportamentos que crescem no noticiário.

Não se trata de demonizar a tecnologia, e sim de reconhecer que eficiência sem limites morais corrói a sociedade. A pergunta mais honesta, portanto, não é se a inteligência artificial pode ser ética, mas se nós estamos sendo, ao colocá-la para decidir temas cada vez mais sensíveis sem governança adequada, sem transparência real e sem debate público consistente.

A IA precisa ser eticamente controlada, o que exige habilidades que nenhuma máquina possui, como consciência moral, compromisso com o outro e coragem para assumir consequências. Somos os responsáveis, portanto, por “tornar a IA mais ética” e por nos cuidar para que sua “eficiência a qualquer custo” não mate esse nosso grande diferencial.

 

A Grécia está prestes a ser varrida da História

By | Educação | 6 Comments

Composição sobre imagem de VisualHunt.com/Creative Commons

Uma proposta que está sendo gestada em Brasília pode apagar a Grécia da História. Ironicamente ela não afetará nenhum cidadão grego, mas pode ser devastadora para os brasileiros.

Não, o Brasil não mandará tropas ao mar Egeu. A proposta se refere a mudanças no que as quase 200 mil escolas brasileiras deverão ensinar aos seus alunos em todas as disciplinas, a chamada Base Nacional Comum Curricular. Uma organização assim é bem-vinda. Entretanto, para ser benéfica, deve ser muito cuidadosa nos conteúdos propostos. E aí está o problema.

A íntegra da proposta está disponível para consulta pública no site do ministério até o dia 15 de março e o documento vem sendo bombardeado por especialistas. Qualquer brasileiro pode deixar lá sua opinião.

Neste artigo, vou me concentrar em História. É importante também deixar claro que este texto trata apenas de aspectos educacionais, fugindo de qualquer discussão política ou partidária. Mas é impossível não mencionar a característica fortemente ideológica e doutrinária do documento do MEC.

Evidentemente a educação é a mais poderosa ferramenta de controle de um povo. E a disciplina de História tem papel crucial nessa tarefa, pois apresenta elementos capazes de moldar a moral do cidadão. Não é de se espantar, portanto, que todos os regimes totalitários lancem mão desse recurso odioso.

No Brasil mesmo, temos o exemplo do currículo imposto pelo governo militar, que distorceu à vontade a história do país para criar uma geração dócil e pouco contestadora. O próprio currículo atual está longe de ser perfeito, sendo resultado de um arremedo do que sobrou do currículo militar com discussões mal-ajambradas da academia desde então, além da ideologia de cada autor.

No século passado, tivemos também outros excelentes exemplos de doutrinação pela escola, na Alemanha nazista, na União Soviética e na China. E atualmente temos o caso da Coreia do Norte, “o país sem cidadãos tristes”.

Claro que podemos afirmar que não há um currículo escolar sem viés político, pois a História nos mostra (pelo menos para aqueles que tiveram a oportunidade de ter uma visão mais ampla dela) que ela é contada sempre pelo vencedor. Seja o vencedor de uma guerra, seja o vencedor das últimas eleições. E nem precisa ser algo de grande monta: estamos cansados de ver prefeitinhos mequetrefes criando “conteúdos pedagógicos” para as escolas de seus municípios que desqualificam seus opositores e o que pensam.

Mas, afinal, o que o MEC está propondo para História?

 

Ameríndios e africanos versus europeus

A proposta do MEC parte de um pressuposto interessante é válido: como os fatos culminaram na atual sociedade brasileira. Mas a situação se deteriora rapidamente quando observamos os conteúdos propostos para se atingir esse objetivo pedagógico.

Pela proposta, o ensino de qualquer coisa anterior às Grandes Navegações foi eliminado, incluindo aí a formação dos povos mesopotâmicos, egípcios, hebreus, gregos, romanos, além de todos os Estados europeus, pedras fundamentais da cultura ocidental, inclusive da brasileira.

O currículo atual, bastante centrado na Europa, daria lugar a uma proposta fortemente focada em civilizações ameríndias e africanas. Todo o estudo da Antiguidade, Idade Média, Renascimento é eliminado, incluindo o surgimento e a disseminação do Cristianismo, do Judaísmo e do Islamismo. Em seu lugar, entram o contexto político dos povos indígenas brasileiros e da África subsaariana às vésperas da Conquista. E até temas para lá de questionáveis para a formação do cidadão brasileiro, como a independência do Haiti e a Revolução Boliviana ocupariam as aulas de história.

É inegável a influência dos índios e dos africanos em nossa cultura e elas merecem ser mais bem apresentadas do que são hoje. Mas de forma alguma isso pode acontecer em prejuízo de outros elementos definidores dela, a maioria mais importantes que os agora propostos. Pois, queiram ou não, nossa cultura e nossas organizações social, política, legal tem base europeia.

Pela nova proposta, eventos históricos europeus só são considerados naquilo que, de alguma forma, se relacionem com o Brasil. Mas como entender a independência do nosso país sem entender que a Corte portuguesa só veio ao país fugindo das Guerras Napoleônicas? É como entendê-las sem compreender a formação do Estado francês, que por sua vez está ligado, em suas raízes, ao fim do Império Romano. Esse, por sua vez, construído sobre a cultura de um país por eles dominado militarmente (mas não culturalmente) séculos antes: os mesmos gregos do início deste artigo.

A própria Revolução Francesa, que ajudou a moldar todo o Ocidente -e posteriormente parte do Oriente, por influência de nações como Inglaterra e EUA- fica reduzida a um estudo no 8º ano de como ela influenciou o nosso processo de independência e do pensamento liberal no país. E não há sequer menção à Revolução Industrial, que cristalizou os conceitos do Capitalismo e abriu espaço para a luta de classes e, portanto, do Socialismo. Que dizer então da Guerra Fria e sua influência decisiva na formação geopolítica global? Também não está lá. E estes são apenas alguns exemplos.

Essa proposta, que, a despeito da consulta pública, é completamente desconhecida da população, precisa ser, portanto, discutida e modificada dramaticamente! Entretanto, o pouco tempo disponível (cerca de seis meses) e a falta de divulgação e transparência nos processos me fazem sinceramente temer pelo resultado final.

A História, apresentada de maneira ampla e sem viés ideológico, é uma essencial para a formação, manutenção e evolução de qualquer sociedade. Estamos em um momento precioso para fazer isso direito, mas a proposta atual corre exatamente em sentido contrário.

Afinal, como nós estudamos na escola, conhecendo a história, compreendemos o presente e criamos um futuro melhor para todos. Mas, com a proposta em questão, temo que nossos filhos e netos não terão a mesma oportunidade de desenvolver essa visão crítica do mundo.

 

Vídeo relacionado:

Artigos relacionados:
Conheça a incrível escola totalmente baseada em jogos
Quem vigia os vigilantes (ou os políticos)?