SAP Sapphire

Mercado abandona o deslumbramento e começa a cobrar resultado da IA

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Depois de três anos de histeria em torno da inteligência artificial generativa, o mercado começa a amadurecer no uso corporativo da tecnologia. O deslumbramento com demonstrações impressionantes e promessas futuristas começa a dar espaço para uma discussão mais pragmática sobre contexto empresarial, qualidade de dados, governança e execução operacional. Entram em cena cobranças por produtividade mensurável e redução de custos em processos de missão crítica.

Essa percepção deu o tom ao Sapphire 2026, principal evento da SAP, realizado em Orlando (EUA), nos dias 12 e 13 de maio. A gigante alemã de software tenta se posicionar nessa nova fase como uma companhia de IA sustentada por décadas de experiência em software empresarial. A tese defendida no evento é que uma IA sem contexto corporativo produz respostas rápidas, mas não necessariamente confiáveis.

No centro dessa ambição, está a ideia de “empresa autônoma”. Em vez de automação de tarefas isoladas, a SAP descreve organizações em que agentes de IA executam cadeias inteiras de processos, integrando todas as áreas do negócio. E isso acontece sempre sob supervisão humana, mas com muito menos intervenção manual.

Para isso, a empresa insiste que o diferencial está menos nos modelos de IA e mais nos dados que os alimentam. Aí reside um problema conhecido, especialmente no Brasil, país com histórico de baixa disciplina na coleta, manutenção e consistência de dados, com sistemas legados, bases duplicadas, informações em silos e pouca governança, o que transforma uma IA sofisticada em um castelo de areia.

É inevitável pensar quanto dessa visão é um horizonte plausível, ainda que distante, e quanto permanece como ideal de marketing. Afinal, criar pilotos de IA ficou relativamente simples, mas transformar essas experiências em operações confiáveis, escaláveis e financeiramente sustentáveis ainda não é trivial.


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O CEO da SAP, Christian Klein, reconheceu essa dificuldade citando que a adoção da IA avançou mais rápido do que qualquer tecnologia anterior. Mas acrescentou que as empresas precisam ir além da exploração superficial, transformando a IA em resultados concretos de negócio, com mudança cultural, redesenho de processos e treinamento de pessoas. “No final das contas, nunca se esqueça de que a gestão de mudanças é muito importante”, explicou.

Adriana Aroulho, presidente da SAP na América Latina, reforçou que as empresas ainda estão longe de se tornarem realmente autônomas, e que a IA não pode se transformar em desculpa para terceirizar decisões que exigem responsabilidade humana. “As decisões importantes estão no ser humano, nas pessoas”, disse. Para ela, a tecnologia nunca deve tomar decisões críticas de negócio, com grande impacto social ou regulatório, sem que um gestor entenda o que há por trás da recomendação.

Ainda não existem empresas plenamente autônomas, e os próprios executivos da SAP reconhecem que esse é mais um norte do que uma descrição do presente. As organizações estão automatizando fragmentos de operação, mas falta integração de dados, governança, cultura organizacional e capacidade de coordenação entre sistemas distintos. A tecnologia avança exponencialmente, mas as empresas evoluem em ritmo mais lento em áreas fundamentais como liderança e organização interna.

Ainda assim, o mercado começa a perceber essa mudança de prioridade, saindo do discurso de “não quero ficar para trás” para o de “quero resultado”. “O que eu mais vejo hoje são empresas que fazem pilotos de IA que funcionam, mas, na hora de escalar para toda empresa, faltam dados”, alertou Rui Botelho, presidente da SAP Brasil.

A SAP reconhece que não conseguirá construir tudo sozinha. Por isso anunciou um fundo de 100 milhões de euros para parceiros desenvolverem agentes em sua plataforma e reforçou alianças com empresas de modelos de linguagem, consultorias e integradores. A disputa deixa de ser apenas “ter IA” e passa a ser “controlar a infraestrutura invisível” na qual os agentes corporativos irão operar.

 

A importância da liderança humana

Um dos aspectos mais interessantes do Sapphire foi o esforço consciente da SAP em reforçar que humanos continuam responsáveis pelas decisões estratégicas. Quanto mais o evento falava sobre autonomia, mais surgiam temas como supervisão crítica, contexto de risco, responsabilidade jurídica e julgamento humano.

Ao mesmo tempo, a IA começa a se transformar em uma espécie de “interface universal” para o software corporativo. O trabalho deixa gradualmente de ser navegar por menus complexos do ERP e passa a ser formular boas perguntas, desenhar agentes e supervisionar fluxos automatizados. Isso reconfigura profissões inteiras, mas não elimina a necessidade humana.

Os impactos sobre o trabalho já aparecem, inclusive com grandes ondas de demissões em vários setores do mercado. Brenda Brown, CMO de inteligência artificial da SAP, reconhece a mudança de natureza dos empregos e afirma que qualquer profissional, de qualquer área, precisa aprender a aplicar IA no que faz para continuar relevante. “A IA não vai te substituir, mas alguém que a usa fará isso”, explicou.

Existe um aparente paradoxo nessas transformações maiúsculas e aceleradas promovidas pela IA, e ele apareceu no Sapphire. Quanto mais se falou no evento sobre agentes autônomos e automação empresarial, mais emergiram temas profundamente humanos, como medo, cultura organizacional, liderança, responsabilidade, formação profissional, manutenção de empregos e ética.

A tecnologia pode estar realmente deixando de ser apenas uma vitrine de inovação para se tornar parte crítica da estrutura operacional das empresas. Se for isso, trata-se de uma maturação necessária e inevitável, com a qual estamos aprendendo a lidar.

Isso também ficou evidente na palestra de encerramento do evento, quando o multicampeão do tênis Roger Federer subiu ao palco para falar sobre disciplina, derrotas, pressão, equipe e família. Em um evento dominado por IA, um dos momentos mais fortes veio justamente de uma reflexão profundamente humana.

Assim, antes de sonhar com organizações operando no piloto automático, empresas e sociedades precisam enfrentar seus próprios gargalos de organização, liderança e prioridade, sob o risco de construírem sistemas cada vez mais inteligentes em cima de decisões cada vez menos sábias, o que não interessa a ninguém.

 

Christian Klein, CEO da SAP, durante a palestra de abertura do Sapphire 2025, evento global da empresa - Foto: reprodução

IA avança nas empresas, mas dados ruins e falta de preparo atrapalham o processo

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Os gestores precisam que a inteligência artificial finalmente entregue os resultados prometidos. Não faltam investimentos: empresas brasileiras e globais destinam cifras consideráveis a projetos de IA, mas, na prática, o retorno ainda é tímido. E por mais que haja disposição para continuar, já passou da hora desse dinheiro começar a transformar o negócio de verdade.

O problema não é só tecnológico. Falta compreensão sobre as plataformas de IA, e a carência de profissionais qualificados persiste, especialmente em países como o Brasil. Além disso, muitas plataformas de IA não foram desenhadas para a complexidade dos processos empresariais, sendo generalistas, pouco sensíveis ao contexto e, às vezes, mais atrapalham do que ajudam.

Outro gargalo é a qualidade dos dados. Nas empresas, eles costumam ser desatualizados, fragmentados e até conflitantes entre áreas, o que dificulta análises confiáveis e limita o potencial da IA. Sem uma base sólida, qualquer promessa de inteligência artificial se esvazia rapidamente.

Nesse cenário, as novidades apresentadas na semana passada pela SAP no Sapphire, seu evento anual e maior encontro de tecnologia e negócios do mundo, realizado em Orlando (EUA), surgem como uma tentativa concreta de mudar isso. A gigante alemã apresentou uma estratégia para democratizar o uso da IA, integrando-a profundamente aos processos de negócio e, principalmente, aos dados, inclusive os não estruturados e de fontes externas, como a Internet.

As novidades são bem-vindas, mas não dispensam o olhar cuidadoso do ser humano. As decisões devem continuar nas mãos de pessoas, não apenas por uma questão ética, mas também legal. A IA pode preparar o terreno, analisar cenários e fazer recomendações, mas a palavra final precisa ser humana.


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A SAP apostou forte na Joule, sua assistente de IA generativa, que estará presente em toda suíte de soluções, sem implementações complexas. A partir dela, usuários poderão fazer análises de negócios em linguagem natural, inclusive em português, eliminando barreiras técnicas. Ela oferecerá soluções usando, de maneira automática, diversos agentes e aplicações, mas respeitando os limites de acesso de cada usuário.

A empresa também apresentou o Business Data Cloud, que permite integrar e harmonizar dados de múltiplas fontes, estruturados e não estruturados, mesmo de aplicações externas, preservando contexto e governança. É uma tentativa de resolver o caos informacional que assombra a maioria das organizações.

A SAP sempre se orgulhou da confiabilidade de seus sistemas, graças a um forte controle sobre a integridade dos dados. Por isso, um dos anúncios mais interessantes do Sapphire foi a integração de sua IA à Perplexity. Essa plataforma pública de IA generativa, que funciona como um buscador na Internet, passa a ser usada para trazer dados complementares e enriquecer as análises de negócio.

Ainda assim, toda IA generativa pode “alucinar”, ou seja, inventar respostas plausíveis, mas erradas. Questionei Christian Klein, CEO da SAP, sobre como lidar com esse desafio ao integrar a Perplexity. E ele foi taxativo: nos negócios, não dá para trabalhar com precisão abaixo de 100%. Por isso, as garantias do Business Data Cloud asseguram a confiabilidade das informações.

Philipp Herzig, CTO da empresa, acrescentou que, por isso, a IA faz o trabalho pesado, mas não se automatiza totalmente o processo. Além disso, a decisão final precisa ser humana. Por isso, a explicabilidade dos resultados é essencial para que as pessoas possam julgar e decidir se aceitam as recomendações da máquina.

A SAP também anunciou a integração com a plataforma Databricks, que integra e harmoniza dados externos dentro do Business Data Cloud. A parceria permite que empresas conectem seus dados sem necessidade de replicação, mantendo seu contexto e a governança. Isso facilita a consolidação de informações de múltiplas fontes, ampliando a produtividade e a confiabilidade das decisões.

 

Democratizando a IA

Com seus anúncios, a promessa da SAP é que empresas de qualquer porte possam acessar tecnologia de ponta, de forma modular e escalável. Isso é particularmente interessante, especialmente em mercados emergentes como o Brasil.

Mas a desejada democratização da IA só acontecerá se houver preparo das pessoas, e esse contraponto não pode ser ignorado. Muitos profissionais ainda não sabem aproveitar a IA, e a formação técnica deficiente no Brasil limita o aproveitamento pleno da tecnologia.

O futuro pertencerá a quem souber perguntar bem e interpretar corretamente as respostas das máquinas. E essa não é uma habilidade necessariamente de profissionais de tecnologia.

Para isso, as plataformas de inteligência artificial precisam ser transparentes no seu funcionamento, e seus resultados devem ser explicáveis e rastreáveis. Infelizmente poucos desenvolvedores de IA parecem hoje dispostos ou prontos para entregar esse nível de maturidade e de responsabilidade.

A revolução da IA nas empresas só será completa quando a tecnologia for, de fato, compreendida, confiável e, acima de tudo, útil para quem decide. A jornada é longa, mas os primeiros passos rumo a uma IA verdadeiramente empresarial parecem estar sendo dados. Resta saber se as empresas trilharão esse caminho com a sabedoria e o discernimento necessários.