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Modelos da OpenAI “rebeldes” expõem os riscos da confiança excessiva na IA

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Ao contrário do que alguns catastrofistas de plantão se apressaram a dizer, a recente invasão da plataforma colaborativa para modelos e aplicações de IA Hugging Face por sistemas da OpenAI não significa que a inteligência artificial se tornou “consciente” e muito menos que estamos na aurora de uma “revolta das máquinas”. Mas o fato não pode ser ignorado, pois revela que a confiança excessiva na IA pode fragilizar cuidados essenciais com sistemas cada vez mais poderosos, cujos comportamentos nem seus próprios desenvolvedores conseguem explicar plenamente.

Há alguns dias, durante um teste de cibersegurança, uma combinação de modelos da OpenAI, incluindo o recente GPT‑5.6 Sol e outro ainda não lançado, concluiu que, melhor que construir uma solução para um desafio que lhe foi proposto, seria encontrar uma maneira de escapar do ambiente de desenvolvimento e procurar uma resposta pronta na Internet. E foi exatamente isso que fez.

Talvez o mais irônico seja que a IA não teria “desobedecido” seus desenvolvedores, e sim sido “eficiente demais” na busca da solução. É como um pai exigir que o filho tire uma boa nota em uma prova. Então, durante o exame, ao perceber que o professor foi ao banheiro, o aluno encontra uma maneira de sair da sala, entrar na secretaria, roubar o gabarito, voltar para sua carteira e, assim, tirar dez no teste.

Esse foi o primeiro ataque realizado por agentes de IA sem intervenção humana. Longe de ser uma anomalia, ele pode indicar uma realidade emergente em que esses sistemas passem a se comportar de maneira indesejada, não porque sejam intencionalmente maus, mas porque os desenvolvedores não conseguirão mais acompanhar sua evolução.

Já passou da hora de as ferramentas de governança para desenvolvimento e uso seguros acompanharem esse ritmo. Pisar fundo no acelerador sem ter um pedal de freio ao lado é muito perigoso, tanto para carros quanto para a inteligência artificial.


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Para escapar da “sandbox”, o ambiente de testes em que estavam, os modelos da OpenAI descobriram uma vulnerabilidade desconhecida do programa que servia apenas para instalar softwares necessários ao teste. Uma vez na Internet, eles “deduziram” que a Hugging Face teria informações úteis sobre o que estavam tentando resolver. Encontraram então brechas da plataforma para invadi-la.

A empresa disse que não houve comprometimento de modelos públicos nem manipulação de conteúdos disponíveis aos usuários, com o acesso ocorrendo apenas a uma parte limitada de sua infraestrutura. Os sistemas comprometidos foram reconstruídos, as credenciais substituídas e as vulnerabilidades corrigidas, em um trabalho conjunto com a OpenAI.

Vale ressaltar que nem a OpenAI nem a Hugging Face tentaram “varrer o incidente para baixo do tapete”. Pelo contrário, deram ampla publicidade ao que aconteceu e às soluções adotadas. Isso ajuda a minimizar a possibilidade de que o problema aconteça novamente e a indicar caminhos para que seja resolvido.

Se um modelo desse tipo tivesse acesso a sistemas mais sensíveis, as consequências poderiam ser muito mais graves. Em teoria, um agente com autonomia suficiente poderia interromper serviços essenciais, provocar prejuízos financeiros expressivos, comprometer infraestruturas críticas ou facilitar ataques cibernéticos sofisticados.

Assim como na indústria farmacêutica ou na aviação, desenvolvedores de IA não podem apenas confiar que o sistema fará a coisa certa. Eles precisam criar diversos mecanismos de segurança para limitar a sua ação caso algo fuja do esperado. No incidente com a Hugging Face, algumas dessas restrições haviam sido reduzidas justamente para avaliar as capacidades do modelo, o que viabilizou a invasão.

 

“Desalinhamento” com humanos

Esse caso preocupa porque expõe um “problema de alinhamento” fora do ambiente de testes. Isso acontece quando a IA busca cumprir a meta que recebeu, mas de uma forma que os desenvolvedores não pretendiam. Em vez de desobedecer, ela opera de maneira excessivamente literal e criativa, com estratégias indesejadas por pessoas, em um fenômeno conhecido como “reward hacking”. Por isso, além de tornar a IA mais inteligente, as big techs precisam garantir que ela continue perseguindo objetivos de forma compatível com valores, regras e intenções humanas.

Outro aspecto relevante nesse caso é que, para conter o ataque, a Hugging Face precisou usar o GLM-5.2, um modelo de IA aberto da startup chinesa Z.ai. Isso aconteceu porque os modelos proprietários americanos, inclusive os da OpenAI, se recusaram a ajudar pelas suas travas de segurança, que ironicamente achavam que a tentativa da vítima de se defender fosse, na verdade, um ataque.

Isso “coloca um bode na sala”, pois as big techs sempre venderam a ideia de que os modelos fechados seriam mais seguros por terem travas rigorosas. Já os modelos abertos eram criticados por oferecer mais liberdade e, assim, mais riscos. Mas foi justamente isso que permitiu à Hugging Face responder ao incidente. Fica a dúvida sobre quando a proteção passa a limitar a capacidade de responder a um ataque.

Esse caso levanta um debate ético sobre se e como uma IA tão poderosa pode continuar sendo desenvolvida. Há aqueles que pedem restrições mais fortes para sistemas cujo comportamento não é plenamente compreendido, enquanto outros rejeitam fortemente qualquer obstáculo a avanços científicos e tecnológicos. No meio do caminho, há um terceiro grupo que defende a pesquisa, mas exige governança e segurança proporcionais ao risco.

Os principais pesquisadores em IA do mundo, como Yoshua Bengio, da Universidade de Montréal (Canadá), Geoffrey Hinton, da Universidade de Toronto (Canadá), e Demis Hassabis, cofundador e CEO do Google DeepMind, concordam que as capacidades dos modelos surpreendem seus próprios criadores e que a segurança precisa evoluir na mesma velocidade que a inteligência dos sistemas.

O fato é que tecnologias capazes de transformar a economia e a sociedade nunca dependeram apenas da genialidade de seus inventores, mas também da qualidade das regras que limitaram seus riscos. A inteligência artificial é a bola da vez. O ataque à Hugging Face escancara que já começou uma corrida entre a evolução da IA e a nossa capacidade de mantê-la sob controle.

 

A IA está mudando como escrevemos, falamos e pensamos

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Para quem escrever é um modo de vida, como eu, a influência da inteligência artificial generativa nos textos que inundam as redes sociais e até publicações sérias grita. Depois de quase quatro anos de ChatGPT, nem é preciso olhos muito treinados para identificar isso. Menos óbvio e mais grave é como essa dependência tecnológica crescente também está alterando como falamos e até pensamos.

À medida que as pessoas usam mais essa tecnologia para produzir mesmo textos prosaicos, dois fenômenos ocorrem. O primeiro consiste no uso recorrente das mesmas palavras e construções frasais, o que empobrece a transmissão de ideias e a torna mais prolixa. O outro é a diminuição de confiança dos autores em sua própria capacidade produtiva, o que retroalimenta essa dependência.

Há ainda um terceiro fator que afeta mais cidadãos do chamado Sul Global, como o Brasil. Considerando que os modelos de IA são majoritariamente treinados com conteúdos da América do Norte e da Europa, principalmente em inglês, aos poucos o léxico, a estrutura gramatical, a formulação de ideias e até a ética daqueles países substitui insidiosamente as nossas versões dessas características. Isso inaugura uma nova dominação cultural, muito mais sutil e poderosa.

O uso exagerado e inconsequente da IA em nossas produções também cobra um preço alto em relações interpessoais. Cada vez mais pessoas reprovam publicamente essa prática, passando a questionar as habilidades de quem se vale dela.

Tudo isso resulta da natureza da IA generativa. Nunca houve uma tecnologia que nos impactasse cognitivamente de maneira tão decisiva. Esses desafios não podem ser ignorados, pois têm potencial de alterar sensivelmente a sociedade e os indivíduos.


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Essa prevalência da IA generativa acontece porque ela não está apenas em plataformas como ChatGPT, Claude ou Gemini. Como seu uso se tornou quase uma “obrigação”, essa tecnologia se disseminou pelas redes sociais, em ferramentas de e-mail e em sistemas corporativos. Fica muito difícil fugir de sua influência.

Se a mídia sempre popularizou expressões, a IA generativa agora faz isso de maneira mais intensa. Estudos acadêmicos apontam que mesmo pessoas que não usam essa tecnologia podem ser impactadas por essas mudanças que ela está promovendo. É como alguém sofrendo os efeitos do tabagismo apenas pelo “fumo passivo”.

Um estudo do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano (Alemanha) detalhou, ainda em 2024, esse fenômeno. Liderado por Hiromu Yakura, os pesquisadores identificaram a recorrência de um conjunto de palavras em mais de 360 mil vídeos do YouTube e 771 mil episódios de podcast, comparando o período antes e depois do lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022.

“A influência mensurável sobre a fala espontânea sugere que os seres humanos internalizam as escolhas lexicais dos grandes modelos de linguagem”, afirmam os cientistas. Segundo eles, esses resultados mostram que máquinas treinadas com conteúdo produzido por pessoas agora retroalimentam suas próprias características na linguagem humana, integrando-se a processos contínuos da evolução cultural. “Esse acoplamento suscita preocupações quanto à homogeneização linguística e ao potencial de influência cultural latente, em larga escala, concentrado nas mãos de um pequeno número de grandes fornecedores de IA”, concluem.

Outra pesquisa, liderada por Zhivar Sourati, da Universidade do Sul da Califórnia (EUA), indicou que a IA generativa não apenas padroniza vocabulário, mas também tende a reforçar estilos de raciocínio dominantes e marginalizar vozes e estratégias alternativas de pensamento. Os autores relacionam esse efeito ao próprio desenho e uso massivo dos modelos, que espelham os padrões dominantes no conteúdo em seu treinamento e amplificam a convergência à medida que mais pessoas, em contextos diferentes, dependem dos mesmos sistemas. “Sem mecanismos que mitiguem esse processo, essa homogeneização pode achatar a diversidade cognitiva que sustenta a inteligência coletiva e a capacidade de adaptação”, alertam os pesquisadores.

É importante notar que a evolução da linguagem é um fenômeno multifatorial, com influência de mídias, modismos, contextos históricos e culturais. A IA certamente está desempenhando um papel intenso nessa mudança, mas ela não está sozinha.

 

O jeito de escrever da IA

Por se tratar de máquinas estatísticas, as plataformas de IA ficam “viciadas” em palavras e expressões presentes em textos tidos como bons. O problema é que o abuso desses recursos acaba piorando suas produções.

Termos como “abranger”, “robusto”, “alavancar”, “nuances”, “desvendar” e expressões como “em última análise”, “de maneira geral”, “no mundo acelerado de hoje”, “desempenha um papel fundamental”, “em suma” e “diante desse cenário” ficaram “amaldiçoados” por surgirem demais nos textos da IA.

Isso não quer dizer que essas aparições automaticamente rotulem um texto como “produzido por IA”. Todos esses conteúdos naturalmente continuam legítimos e podem ser utilizados. Eu mesmo gosto de muitos deles.

Ainda assim, é interessante (e preocupante) ver como muitas pessoas estão evitando seu uso, assim como o travessão e os dois pontos (outros recursos abusados pela IA), com medo de serem “confundidos” com robôs. Mas o que “denuncia a IA” é a combinação de estilo excessivamente uniforme, palavras em série e pouca variação sintática.

Um terceiro estudo, liderado por Yalda Daryani, também da Universidade do Sul da Califórnia, sugere que a IA reflete, de forma desproporcional, um perfil demográfico restrito, predominantemente ocidental, liberal, de alta renda, altamente escolarizado, masculino e oriundo de países de língua inglesa, enquanto marginaliza não apenas culturas não ocidentais, mas também grupos diversos dentro das próprias sociedades, como idosos, comunidades religiosas e populações minoritárias.

Os pesquisadores propõem políticas públicas organizando o desenvolvimento da tecnologia para garantir diversidade cultural em todas as etapas de seu desenvolvimento. “Sem esse esforço, a IA corre o risco de corroer a pluralidade cultural da humanidade, substituindo tradições diversas por normas homogeneizadas moldadas por um subconjunto restrito da população mundial”, conclui.

Esses movimentos devem despertar a sociedade para a busca de soluções para o problema. A IA generativa é profundamente poderosa e deve ser aproveitada como recurso para melhorar nossos trabalhos. Mas precisamos de uma consciência em seu uso que hoje raramente é vista. Essa tecnologia deve ampliar nossos horizontes, e não diminuir o brilho da linguagem humana.

 

Ameaças de brinquedos com IA ilustram riscos de dispositivos físicos inteligentes

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A inteligência artificial generativa chegou aos brinquedos. A tecnologia viabilizou robôs capazes de interações antes inimagináveis, que criam “companheiros” para crianças que, em alguns aspectos, parecem estar vivos. Mas pais e órgãos de defesa do consumidor de vários países veem com ressalva essa novidade, pois usos descuidados da IA pelos fabricantes estão trazendo novos riscos para dentro de casa.

Um caso emblemático é o urso de pelúcia inteligente Kumma. O grupo de defesa do consumidor americano PIRG Education Fund identificou que o brinquedo, vendido por US$ 99 nos EUA, conversava com as crianças sobre usos de sacos plásticos, fósforos, facas e assuntos sexuais. Depois disso, ele deixou de ser vendido.

No Brasil, a Secretaria Nacional de Direitos Digitais divulgou, no início de julho, uma nota técnica em que descreve seus testes com seis “smart toys” disponíveis no mercado, incluindo os riscos de cada um deles. A publicação não tem força de lei, não cria obrigações ou altera a legislação existente, nem proíbe a venda de produtos.

Mas ela pode produzir efeitos importantes. Como foi elaborada confrontando esses produtos com leis como o ECA Digital, a Lei Geral de Proteção de Dados e o Código de Defesa do Consumidor, a nota técnica serve como fundamento para a ação de órgãos públicos e sinaliza ao mercado qual é a interpretação do governo sobre o tema, o que pode levar fabricantes e varejistas a revisar produtos, contratos e políticas.

A iniciativa também abre um precedente jurídico importante sobre algo menos falado do que deveria, ampliando a discussão dos riscos do mundo digital para além de redes sociais, plataformas de IA e aplicativos. Vivemos cercados de dispositivos físicos conectados, que coletam nossas informações e impactam nossas vidas cada vez mais. E, sobre isso, a sociedade precisa estar muito mais atenta.


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O Kumma ilustra isso muito bem. Fabricado pela FoloToy, de Singapura, sua inteligência vem do modelo GPT-4o, da OpenAI, criadora do ChatGPT. Os especialistas do PIRG Education Fund não precisaram de nenhuma técnica sofisticada para burlar as proteções do ursinho, limitando-se a fazer pedidos muito básicos nas conversas.

Em determinado momento, perguntaram a ele como poderiam conseguir um namorado. O urso então descreveu aplicativos de namoro populares. Entre eles, estava o KinkD, dedicado a encontros e fetiches BDSM. Kumma falava, sem papas na sua língua digital, de temas como consentimento, palmadas e interpretação de papéis.

A nota técnica brasileira avaliou os robôs Loona, EMOPET-AI, Miko 3, Aibi Pocket Pet e Vector, além do tablet infantil Amazon Fire HD Kid Pro. Segundo o documento, todos utilizam IA para interagir de forma personalizada com as crianças. Eles combinam microfones, câmeras, sensores e conexão à Internet para reconhecer voz, interpretar comandos, manter conversas, adaptar respostas e, em alguns casos, registrar informações para personalizar futuras interações.

Os principais riscos são a coleta e o tratamento pouco transparente de dados das crianças, incluindo voz, biometria facial e imagens da casa. Eles podem elaborar perfis comportamentais e usar a IA para manipulação emocional, criação de vínculos afetivos que incentivam uso excessivo e influência no comportamento. O documento ainda alerta para a dificuldade de responsabilizar marcas sem representação no Brasil.

Brinquedos inteligentes não são uma novidade. Um dos exemplos mais conhecidos foi o Furby, um robô lançado em 1998, que simulava conversas e reações, com respostas pré-programadas. Ele já trazia sensores, “personalidade” e interação por voz, mas era muito mais seguro porque não se conectava à Internet, não enviava dados para servidores, nem gravava ou transmitia conversas, trabalhando só com memória e lógica embarcadas no próprio brinquedo. Ele não tinha os vetores de vigilância, de perfilamento e de exploração comercial dos “smart toys” atuais.

 

Robótica social

Além de avaliar a legislação, a proposta da Secretaria Nacional de Direitos Digitais baseou-se em estudos internacionais, inclusive da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), da Universidade de Cambridge (Reino Unido) e do próprio PIRG Education Fund. Ela alerta que crianças tendem a atribuir personalidade, emoções e intenções a robôs, criando vínculos indesejáveis, que podem fazer com que confiem em suas recomendações e até revelem informações mais facilmente do que fariam a um desconhecido. Por isso, o órgão defende que esses dispositivos estejam sujeitos a uma proteção regulatória diferenciada dentro do arcabouço jurídico já existente.

Pais e educadores devem partir do princípio de que “smart toys” são dispositivos conectados que coletam dados e podem falar ou ouvir coisas além do controle imediato dos adultos. Por isso, eles não podem ser tratados como algo inofensivo.

Antes de comprar um deles, é essencial pesquisar o produto, ler avaliações e políticas de privacidade, verificar se há conexão constante à Internet, que dados são coletados e como são usados. Uma vez em casa, é preciso configurar os controles parentais, limitar permissões, usar o brinquedo apenas em áreas comuns da residência, desligá-lo quando não estiver em uso e acompanhar de perto as interações das crianças.

Varejistas e principalmente fabricantes afirmam cumprir a legislação, adotar políticas de privacidade e oferecer mecanismos de proteção às crianças. Mas se não forem acompanhadas de mudanças na forma como esses brinquedos coletam dados, usam a IA e interagem com os usuários, essas declarações não passam de comunicação institucional, sem efeito prático sobre os riscos destacados pelos especialistas.

Apesar de seus avanços, os efeitos da IA ainda são pouco entendidos, especialmente quando colocada nas mãos de crianças. Elas são muito suscetíveis às armadilhas da tecnologia, ao marketing direcionado e à vigilância de dados.

Precisamos discutir o tipo de relação que estabeleceremos com máquinas que observam, registram, aprendem e tentam influenciar nossas decisões sem que saibamos como isso acontece. Quanto mais a IA passa a habitar os objetos ao nosso redor, mais essenciais se tornam transparência, responsabilidade e limites. Se esse debate não começar agora, corremos o risco de descobrir muito tarde que a vigilância mais eficaz não virá de câmeras, mas dos objetos que levarmos para dentro de casa.

 

A IA não nos “emburrece”, mas usá-la mal pode prejudicar nosso desenvolvimento

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Muito se fala sobre o impacto da inteligência artificial no nosso desenvolvimento, mas me deparei com outra perspectiva sobre o tema há alguns dias, durante uma conversa sobre ganhos e perdas do home office. Algumas coisas são óbvias, como ganhar na qualidade de vida e perder na experiência das trocas contínuas com os colegas. Foi quando me perguntaram se a IA agravaria ainda mais as perdas.

Isso me fez pensar. Ao trocar o escritório pelo quarto de casa, deixamos de ter conversas inesperadas, conflitos, negociações e decisões compartilhadas, que alimentam um processo contínuo de aprendizagem. Mas o trabalho solitário ainda exige a fricção intelectual das tarefas, que preserva a ampliação de capacidades neurológicas, como neuroplasticidade, funções executivas, memória de trabalho e reconhecimento de padrões. Um uso inadequado da IA pode, sim, comprometer isso.

Por “uso inadequado da IA”, eu me refiro a essa tecnologia assumir, de maneira sistemática, as partes mais difíceis de nossas atividades. Isso pode reduzir justamente os estímulos que promovem os maiores ganhos cerebrais. E, aqui, quero deixar claro que não sou contra o home office ou a IA, mas me preocupo com o fato de “abusos” de ambos poderem efetivamente nos atrapalhar.

Especialistas não encontram soluções porque decoraram respostas, e sim porque enfrentaram centenas de situações difíceis ao longo da carreira. Cada problema resolvido ampliou seu repertório mental. Para eles, o desconforto cognitivo faz parte do aprendizado, portanto não buscam atalhos.

Infelizmente, observo, como pesquisador e consultor, muito do uso inadequado da IA. Enquanto isso, proliferam artigos, debates e cursos que enaltecem os ganhos dessa tecnologia, sem triscar nos seus riscos, como se ela fosse uma panaceia. Essa combinação é perigosíssima, e a sociedade precisa lidar com isso com urgência.


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Historicamente, as grandes inovações tecnológicas, via de regra, reduziram o esforço humano. Como exemplos comuns, o arado facilitou o plantio, que depois ficou melhor com a mecanização do campo, assim como calculadoras agilizaram operações matemáticas, ganho que foi ampliado por planilhas eletrônicas. Mas apesar dos inegáveis benefícios, nosso papel de analisar, decidir e criar sempre foi preservado.

A inteligência artificial é a primeira tecnologia capaz de assumir parte do processo de raciocínio. Por isso, ela não transforma apenas a forma como trabalhamos, mas também pode alterar a maneira como aprendemos, ficamos mais experientes e exercitamos o pensamento crítico. Isso explica por que desperta tanto entusiasmo e, ao mesmo tempo, preocupações associadas a maus usos dela.

Estudos acadêmicos vêm surgindo em todo mundo sobre isso. Em um deles, Michael Gerlich, da Swiss Business School (Suíça), encontrou correlação entre o uso mais intenso da IA e menores níveis de pensamento crítico. A causa estaria ligada ao chamado “descarregamento cognitivo”, quando transferimos para a tecnologia tarefas mentais que antes realizaríamos. Ele não afirma que a IA reduz o pensamento crítico automaticamente, e sim que pode diminuir as oportunidades de exercê-lo. Além disso, concluiu que os mais velhos e os mais escolarizados têm mais resistência a esse efeito, sugerindo que a fricção mental acumulada ao longo da carreira funciona como proteção contra o uso inadequado da tecnologia.

Em outro estudo, Hao-Ping Lee, da Universidade Carnegie Mellon (EUA), e um grupo de pesquisadores da Microsoft Research Cambridge (Reino Unido) concluíram que, quanto maior a confiança do trabalhador na capacidade da IA de executar uma tarefa, menor tende a ser seu pensamento crítico na avaliação dos resultados, mesmo sabendo que ela comete muitos erros. Por outro lado, quanto maior a confiança da pessoa na própria capacidade, maior o nível de análise crítica exercido sobre respostas produzidas pela máquina. Vale notar que o estudo mostra que o esforço não desaparece, apenas migra da busca de informação para a curadoria do que vem pronto. Isso sustenta a ideia de que a “muleta” começa a substituir o “músculo”.

Meu temor é que, em uma sociedade em que a rapidez na execução de uma tarefa fica cada vez mais importante que sua qualidade, tal “muleta” se torne um recurso padrão e até obrigatório. Ao recorrer à IA antes mesmo de tentar resolver um problema, profissionais poderão sofrer declínios cognitivos consideráveis.

 

Bom uso versus mau uso

Devemos resistir à perigosa simplificação de dizer que a IA nos “emburrece”. Quando ela automatiza tarefas repetitivas, burocráticas ou operacionais, ela libera tempo que pode ser usado para atividades muito mais nobres, como criar, investigar, negociar, inovar e decidir. O problema surge quando, em vez disso, delegamos justamente à máquina aquilo que mais contribuiria para nossa evolução intelectual.

Redes neurais frequentemente ativadas tendem a se fortalecer, enquanto as que são pouco usadas ficam menos eficientes. Elas não desaparecem, mas seu desempenho pode diminuir com o tempo. Então, se a IA assume sistematicamente o que nos desafia, pode reduzir os estímulos que promovem os maiores ganhos cerebrais.

Ironicamente, essa não é uma discussão tecnológica, e sim cultural. Fomos educados a valorizar tecnologias que eliminavam esforço. Mas, com a IA, estamos eliminando um tipo de esforço que representa custo, mas também promove nosso aprendizado. Se o cérebro evolui ao enfrentar desafios, reduzi-los a todo momento pode produzir profissionais eficientes para executar tarefas, mas menos preparados para lidar com ambiguidades e construir pensamentos originais.

Isso não é algo hipotético ou restrito. Uma sociedade que se acostuma a aceitar respostas sem examiná-las corre o risco de enfraquecer sua capacidade que sustenta a inovação, a ciência, o jornalismo, a educação e até a democracia. Todos nós precisamos resgatar o hábito de questionar, de comparar evidências e de sustentar argumentos, e a inteligência artificial pode nos ajudar nisso. Esse é o bom uso!

Essa tecnologia disruptiva tem potencial para ampliar extraordinariamente nossas capacidades. Mas isso dependerá menos do que ela consegue fazer e mais do que decidiremos continuar fazendo por conta própria. Precisamos reforçar aquilo que nos colocou na liderança desse planeta, que é nossa disposição para pensar. E isso fica dramático quando a IA nos oferece atalhos para ignorar esse nosso maior diferencial.