Monthly Archives: agosto 2026

As redações atuais combinam o trabalho jornalístico tradicional com o apoio da inteligência artificial – Ilustração: Paulo Silvestre

O jornalismo precisa usar a IA enquanto se protege dela

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Em um mundo em que a inteligência artificial insiste em dar respostas “mastigadas” para tudo, precisamos tomar cuidado para que aqueles que se apresentam como nossos aliados não nos apunhalem pelas costas.

Nesta semana, debati sobre isso em um evento que analisava a influência da mesma IA no jornalismo. Como praticamente todos os setores do mercado, a comunicação vem sofrendo uma profunda influência dessa tecnologia. Mas, ao contrário de outros negócios, que podem vender mais produtos se aparecerem nas respostas dos chatbots, a imprensa se enfraquece com essa exposição.

Há efetivamente uma corrida para que mensagens comerciais sejam “aprendidas” pela IA, para que recomende produtos e serviços. Isso tende a se fortalecer à medida que as pessoas usam esses sistemas para pedir recomendações sobre qualquer coisa.

Com o jornalismo, acontece o contrário. Quanto mais os veículos de comunicação entregam seus conteúdos às IAs, mais elas lhes roubam o público. As pessoas se informam (ou se deformam) cada vez mais pelos chatbots, que resumem notícias de maneira muito convincente, mesmo quando estão completamente errados.

Não há qualquer retorno digno de menção das plataformas para os produtores de conteúdo. Seus créditos aparecem timidamente nas respostas, ou nem isso. Assim, o público deixa de saber quem apurou a notícia e não visita mais os sites jornalísticos.

De forma alguma, proponho que o jornalismo ou qualquer outro negócio deixe de usar essa tecnologia. Mas é preciso cuidar para que esse uso não permita que as big techs sequestrem o relacionamento com seus clientes.


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Se bem usada, a IA pode facilitar enormemente o trabalho dos jornalistas e até permitir a criação de novos produtos. Não faz sentido resistir à tecnologia. Porém, não se pode dar um passo adiante com seus benefícios e quatro para trás em razão desse relacionamento desequilibrado entre imprensa e big techs.

Essas gigantes de tecnologia também criaram uma armadilha em que a imprensa cai alegremente. Considerando que as pessoas estão buscando mais notícias na IA, quanto mais jornalismo confiável estiver disponível para esses sistemas, maiores as chances de eles responderem com informação correta em vez de desinformação. E os jornalistas devem informar bem a população, qualquer que seja o meio.

Por mais que as plataformas de IA procurem responder a qualquer coisa que as pessoas lhes perguntem, elas trabalham com probabilidades e produzem respostas convincentes sem que haja garantia de correção. Ao aumentar o jornalismo na sua base, pelo menos cresce a chance de suas respostas serem verdadeiras.

As eleições acendem um severo alerta vermelho. Na semana passada, a organização internacional de responsabilidade corporativa Ekō publicou um levantamento que mostra que o Grok, a Meta AI, o ChatGPT e o Gemini geram respostas com erros grosseiros sobre políticos e o processo eleitoral brasileiro, e até recomendam votos, o que é proibido por lei. Isso é gravíssimo, pois, da mesma forma que as pessoas usam essas plataformas para pesquisar um novo celular, também as usarão para escolher em quem votar.

Ironicamente, o jornalismo está cometendo o erro de entregar seu conteúdo a plataformas digitais de maneira ingênua pela terceira vez, e ele fica sempre mais grave. Na primeira, os buscadores se tornaram a porta de entrada para o noticiário, mas ainda levavam os usuários para os sites jornalísticos. As redes sociais pioraram o quadro, com resumos das notícias aparecendo nos feeds, mas ainda com a autoria clara. Agora, a IA reduz drasticamente o tráfego e a referência.

A cada um desses erros, a imprensa perdeu um pouco mais da sua capacidade de moderar o debate público, até que restasse muito pouco dessa função. Agora, a IA deve reduzir isso a níveis insignificantes.

 

Mordendo a mão que a alimenta

O jornalismo precisa de audiência para financiar seu trabalho, enquanto a IA precisa de informação confiável para melhorar suas respostas. Aparentemente, há uma relação virtuosa, mas os interesses não são congruentes. Quanto melhor for o conteúdo jornalístico incorporado pela IA, melhores tendem a ser suas respostas. Mas isso diminui o incentivo para o usuário consultar a fonte original.

A discussão sobre IA e comunicação costuma girar em torno de direitos autorais, remuneração e empregos. Mas não se pode ignorar o impacto na marca jornalística, que representa uma promessa de qualidade, método, linha editorial, memória e confiança. Quando o usuário entra em um site jornalístico, ele sabe onde está. Em uma plataforma de IA, ele só percebe a marca dela, fortalecida pela credibilidade da imprensa que a alimenta.

Um estudo da Universidade Villanova (EUA), publicado no dia 5 de agosto na revista científica “Judgment and Decision Making”, ajuda a compreender isso. Apesar de não avaliar jornalismo, e sim textos de ficção, concluiu que histórias feitas pelo ChatGPT são mais bem avaliadas em qualidade e envolvimento do que as escritas por pessoas. Segundo os autores, isso acontece porque os textos da IA são mais agradáveis e fáceis de entender, mesmo sendo genéricos e pouco inventivos.

Portanto, não é o caso de a imprensa impedir que a IA copie seu conteúdo. Os veículos de comunicação precisam preservar o valor percebido da autoria em um ambiente no qual o público talvez não consiga distinguir quem produziu o texto, ou talvez nem se importe com isso.

Eles devem tratar seus arquivos, reportagens e conhecimento acumulado como ativos estratégicos. Isso significa negociar não apenas pagamento pelo conteúdo, mas também atribuição clara, possibilidade explícita de acesso à fonte original, preservação da identidade editorial, mecanismos de descoberta e, principalmente, formas de transformar a exposição em relacionamento. Os acordos com essas plataformas devem necessariamente preservar e fortalecer a relação com o público.

O jornalismo precisa estar dentro da inteligência artificial, mas não pode desaparecer atrás dela. Depois de entregar aos buscadores a distribuição e às redes sociais a atenção, os veículos não podem cair nessa armadilha de novo. Seu desafio é garantir que, ao aprender com o jornalismo, a IA não faça o leitor esquecer de quem verdadeiramente produziu a informação, o que é essencial não apenas para os veículos, mas para o desenvolvimento da democracia.

 

Proibição de lives no Discord esconde um problema sistêmico das redes sociais

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A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou na quarta (12) a suspensão preventiva das transmissões ao vivo do Discord no Brasil, depois que uma adolescente se suicidou em uma live. O prazo para cumprir a determinação vence hoje (17), mas a empresa já pediu prorrogação. O bloqueio tem provocado polêmica, mas traz apenas um lampejo sobre a pouca disposição das redes sociais de resolver um problema sistêmico que elas criaram e que está na essência desses serviços.

Além do Discord, plataformas digitais como Roblox, TikTok, Instagram, Telegram e WhatsApp possuem características como anonimato relativo, comunicação privada, formação de comunidades fechadas, recomendação de conteúdo e mecanismos de viralização. Apesar de suas arquiteturas serem diferentes, tudo isso dificulta a supervisão adulta do que crianças e adolescentes fazem online.

Nesse sentido, a suspensão das lives funciona como uma medida emergencial necessária, mas não resolve o verdadeiro problema, que é estrutural. Representantes do próprio Discord disseram que, com o bloqueio, os criminosos simplesmente migrarão para outro serviço, e que o grupo que coagiu a menina de 13 anos a se matar se organizou em outras redes.

Isso sugere que regular uma ou outra plataforma digital nunca será suficiente, pois as ameaças que elas embutem estão disseminadas, em algum grau, em todos esses serviços. Medidas razoáveis, porém enérgicas, devem ir além de buscar saber qual tecnologia é perigosa. O que deve ser considerado é qual arquitetura cria um risco específico, quem deve ser responsável por mitigá-lo e como isso deve ser feito.

O fato de um problema ser difícil de resolver não nos permite ignorá-lo. Pelo contrário, isso exige uma ação conjunta e vigorosa da sociedade em busca de uma solução real, fugindo dos tradicionais discursos corporativos inócuos. E qualquer que seja a solução, ela exigirá mudanças estruturais nas redes sociais.


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O caso que deflagrou essas ações aconteceu no dia 22 de julho. A adolescente, moradora de Naviraí (MS), foi induzida por outros jovens, durante uma live restrita a quem tinha convite, a atos de automutilação, que culminaram na sua morte. A sala permaneceu no ar por quase duas horas antes de ser encerrada, após notificação da polícia. Cinco menores foram apreendidos e um homem de 18 anos foi preso.

A ANPD determinou a suspensão preventiva das lives e de recursos de vídeo do Discord, não do serviço inteiro. A medida vigorará até que a empresa comprove ter implantado proteções efetivas para crianças e adolescentes, diante de episódios de violência, assédio e indução à automutilação ou ao suicídio, sob pena de multas que podem chegar a R$ 50 milhões por infração.

O Discord pediu a revogação da medida e contestou a competência da ANPD para determinar a suspensão, classificando-a como prematura e rebatendo a ideia de omissão deliberada. A empresa afirma que já adotava medidas de segurança e que o caso envolveu atividades criminosas também em outras plataformas. Disse ainda que está tomando providências para cumprir a ordem, mas “sob protesto”.

Segundo a empresa, o pedido decorre da complexidade de bloquear as transmissões apenas no Brasil. Ela afirma que três dias úteis não são suficientes para implementar e testar uma mudança dessa magnitude, e que a ANPD não forneceu diretrizes técnicas suficientemente claras sobre o que deveria ser bloqueado. Os representantes pediram, então, 15 dias úteis para implantação e outros 15 para avaliação de seus resultados.

Há ainda outro aspecto fundamental nesse caso que exige atenção. Os próprios representantes do Discord admitiram que havia indícios de risco na live, mas eles não foram suficientes para disparar um “alerta confiável”.

 

Inteligência artificial insuficiente

Plataformas como o Discord possuem sistemas de inteligência artificial para identificar riscos em conversas. Mas, na live em que a adolescente se matou, a IA atribuiu apenas 0,12 ponto, abaixo do 0,95 necessário para enviá-la para revisão humana. Segundo a empresa, o servidor era novo e pequeno, o que dificultou a detecção.

No sábado (15), o vice-presidente de Segurança e Confiança do Discord, Jud Hoffman, disse, ao jornal “O Globo”, que a resposta da plataforma falhou. “Não fomos rápidos o suficiente, mas estamos sempre trabalhando para melhorar esses modelos e os esforços de segurança”, admitiu.

Isso desmonta a narrativa da indústria tecnológica de que basta criar sistemas cada vez melhores de IA para detecção automática e moderação para resolver o problema. Essa confiança excessiva em sistemas limitados representa um risco aos usuários.

Precisamos saber se aceitamos as decisões de uma plataforma sobre remover um conteúdo potencialmente perigoso e preservar milhões de interações legítimas. Falsos positivos são inconvenientes, mas falsos negativos podem ser fatais.

Simplesmente aumentar a sensibilidade do sistema pode criar uma espécie de censura algorítmica, com bloqueios injustificados e vigilância excessiva. Mas o problema pode ser mitigado com uma extensa avaliação humana dos conteúdos sinalizados pelos robôs, liberando o que for legítimo.

Isso exigiria um custoso exército de avaliadores, mas é o preço a se pagar para oferecer um serviço que cria riscos elevados a seus usuários. A segurança digital é um problema de decisão, e não apenas de tecnologia.

Na entrevista, Hoffman disse que “o verdadeiro sucesso é deter os grupos extremistas completamente, e não apenas expulsá-los do Discord”. De fato, seria lindo se todas as pessoas usassem as plataformas digitais de maneira cândida. Mas a proposta implica em erradicar a maldade na raça humana, o que é infinitamente mais difícil que bloquear recursos em sistemas.

Sem isso, casos como esse continuarão acontecendo. A IA não falhou por não ser competente o bastante para ver o risco, mas porque alguém definiu que interromper uma violência em andamento exigia mais evidências do que ela era capaz de fornecer.

Esse caso está sendo o primeiro grande teste do ECA Digital, que vale desde o dia 17 de março. A sociedade precisa decidir se uma empresa que não consegue identificar e intervir a tempo em uma live de alto risco deve ser autorizada a oferecer esse recurso a crianças e adolescentes.

 

IA redefine a cibersegurança diante de invasões inevitáveis

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Há um ditado infame na cibersegurança que diz que existem dois tipos de empresas: as que já foram invadidas e as que acham que ainda não foram invadidas. Só acham!

Com a explosão da inteligência artificial, as equipes de defesa de sistemas ficaram mais pressionadas. Mas supor que esse seja o único problema simplifica perigosamente o cenário atual, que dá a essa anedota uma nova dimensão.

Não dá mais para achar que o sucesso em cibersegurança se medirá pela expectativa de nunca ser invadido. De agora em diante, a eficiência dependerá da capacidade de lidar bem com as consequências de um ataque.

Essa foi uma das mensagens da Conferência de Segurança e Gestão de Risco do Gartner, que aconteceu nos dias 4 e 5 de agosto, em São Paulo. A IA já não ameaça apenas ao criar códigos maliciosos ou potencializar ataques de engenharia social. Agora, agentes de IA já são capazes de explorar vulnerabilidades, identidades e credenciais para acessar sistemas.

Foi o que aconteceu em meados de julho, quando um agente movido por modelos da OpenAI (criadora do ChatGPT) invadiu a Hugging Face. Durante uma avaliação de segurança, ele escapou do ambiente de testes, explorou falhas e acessou credenciais que lhe permitiram avançar pela infraestrutura da plataforma.

Nesse cenário, em vez de nos preocuparmos com como impedir que invadam nossa empresa, precisamos perguntar o que precisa continuar funcionando mesmo em um ambiente hostil.


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Segundo o Gartner, 84% dos executivos veem a cibersegurança como um risco para os negócios, enquanto 98% acreditam que as ameaças cibernéticas aumentarão nos próximos dois anos. Isso combina com conclusões do Fórum Econômico Mundial, que indicaram em janeiro que 87% dos líderes veem as vulnerabilidades da IA como o risco de cibersegurança que mais cresceu.

“Se o objetivo passa a ser limitar o impacto, manter as operações críticas e se recuperar rapidamente, então a mitigação torna-se funcionalmente equivalente à prevenção”, afirma Oscar Isaka, diretor analista sênior do Gartner. “Ao contrário da segurança absoluta, a resiliência pode ser testada, praticada, medida e aprimorada ao longo do tempo”, acrescenta.

Isso ganha ainda mais importância com os agentes de IA se transformando em uma “força de trabalho invisível” nas empresas. Longe de serem ferramentas inertes, eles pesquisam, produzem código, acionam sistemas e movimentam dados com autonomia crescente. Por isso, quando erram ou são manipulados, fazem isso em velocidade de máquina, podendo causar grandes danos antes que alguém perceba.

Um chatbot responde ao que lhe pedimos, enquanto um agente toma decisões e pode executar ações sem confirmação humana a cada etapa. Nessa autonomia, nascem os problemas mais delicados, como permissões mal calibradas e decisões inesperadas.

O Gartner projeta que as empresas terão até 80 vezes mais identidades de máquina do que humanas. “Os invasores são como a água, geralmente seguindo o caminho mais fácil para entrar”, explica Charlie Winckless, vice-presidente analista do Gartner. “Muitas vezes, esse caminho é a identidade.”

A questão deixa de ser “quem é você?” e passa a ser “quem ou o que está agindo em seu nome, com qual autorização e para fazer o quê?”

 

Milhares de “novos funcionários”

Durante décadas, a segurança da informação tentou controlar o perímetro da organização. Agora, a própria empresa cria sistemas, conexões e agentes mais rapidamente do que consegue inventariá-los. A ironia é que a indústria vende automação para acelerar essa adoção, enquanto oferece novas camadas de controle para conter os riscos que essa mesma aceleração produz.

“Se você é uma organização com 1.000 pessoas, rapidamente passa a ser uma com 6.000, porque, em média, cada funcionário utilizará cinco agentes diferentes”, adverte Paul Furtado, vice-presidente analista do Gartner. Logo, é preciso aplicar o princípio do “menor privilégio” também aos agentes, para que nenhum deles atue além do escopo pretendido.

A empresa que remove todos os controles para adotar IA não está inovando, e sim se curvando à pressão para usar IA a qualquer custo. A alternativa é tratar segurança como desenho de ambientes de experimentação, não como veto. A meta é construir uma “fricção inteligente”, eliminando barreiras que não protejam e mantendo as que evitem que a velocidade vire imprudência.

Para isso, a inovação em segurança precisa deixar de ser tratada como um trabalho extra, espremido entre incidentes e urgências. Os líderes devem reservar tempo para experimentar, desenvolvendo competências e resiliência. Inovar, nesse caso, não pode ser um projeto paralelo, e sim parte do trabalho de proteger a organização.

A vantagem competitiva, portanto, não estará em usar IA sem limites, mas em saber quais limites permitem que ela seja adotada com segurança e continuidade. Nessa nova realidade, governar a velocidade pode ser tão estratégico quanto acelerar.

Uma empresa responsável não colocaria milhares de pessoas para trabalhar sem função, supervisão, limites de acesso ou possibilidade de desligamento. Da mesma forma, precisamos exigir esse controle dos agentes de IA. Eles podem merecer, afinal, confiança, mas apenas se as empresas estiverem conscientes e preparadas para confiar a eles decisões que podem afetar seu próprio futuro.

 

Quando a publicidade entra pela porta do ChatGPT, sua aura de neutralidade sai pela janela

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A OpenAI confirmou que passará a exibir anúncios ao longo das conversas do ChatGPT com seus usuários no Brasil, nas próximas semanas. Parte do mercado anseia embevecido por esse inventário virtualmente infinito e com poder de convencimento sem precedentes. Mas a novidade pode transformar uma plataforma vista como neutra em um vendedor opaco, capaz de se valer de trocas íntimas para influenciar escolhas decisivamente, sem que o usuário perceba.

Naturalmente, empresas devem aumentar suas receitas, especialmente quando são muito deficitárias, como é o caso dessas grandes plataformas de inteligência artificial. Ainda assim, a ética propõe que nem tudo que possa ser feito deva ser feito.

Indicar o que é publicidade resolve um problema de formalização, mas trai a confiança que a própria interface conversacional criou antes de qualquer anúncio aparecer. Quando a resposta chega em primeira pessoa, articulada como julgamento de uma voz que parece pensar com o usuário, a autoridade já está formada quando a peça surge logo abaixo, ainda contaminada por essa proximidade.

O ChatGPT acabou de atingir 1 bilhão de usuários no mundo. Os anúncios na plataforma foram lançados nos EUA em fevereiro, e depois expandidos para Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Agora, usuários do Brasil, México, Reino Unido, Japão e Coreia do Sul também verão anúncios nos planos gratuito e Go (o mais barato).

Com a IA generativa, as big techs estão levando a humanidade a um novo patamar de produtividade e desenvolvimento, o que merece aplausos. Mas nem esse feito lhes dá carta branca para fazerem o que bem entenderem. É no mínimo hipócrita ignorar os evidentes riscos de manipulação nesse lançamento.


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Por enquanto, a OpenAI adota uma política bastante restritiva. Os anúncios são limitados a categorias como bens de consumo, serviços locais, viagens, entretenimento, educação e produtos digitais. Setores sensíveis, como saúde, política, apostas, álcool, tabaco, drogas recreativas e conteúdo adulto permanecem proibidos. A própria empresa afirma, porém, que essas categorias “podem se expandir ao longo do tempo”, à medida que seus sistemas de revisão e conformidade amadureçam.

Essa ressalva merece atenção. As grandes plataformas digitais costumam flexibilizar limites diante de oportunidades de crescimento da receita. Não há evidências de que a OpenAI seguirá esse caminho, mas tampouco há garantias de que as restrições atuais permanecerão. Diante do histórico de outras big techs, que repetidamente ampliaram a exploração comercial de seus serviços em detrimento da experiência dos usuários, o ônus da prova recai sobre quem promete que, desta vez, será diferente.

O ChatGPT exibe anúncios claramente identificados ao final de algumas respostas. A seleção leva em conta contexto da interação e alguns sinais de uso da plataforma, sem compartilhar conversas ou dados pessoais com os anunciantes. A empresa vem ampliando gradualmente os formatos e as ferramentas para as agências.

A recepção dos anunciantes tem sido cautelosamente entusiasmada. Há interesse porque o ChatGPT concentra intenção alta e contexto de compra, mas ainda existe hesitação por falta de histórico, transparência limitada e dúvidas sobre mensuração e conversão real. Apesar do apetite que o canal desperta, o mercado vem tratando os primeiros testes como experimento, não como mídia já madura.

Entre os usuários, muitos temem que a publicidade comprometa a confiança em uma ferramenta de decisões pessoais e profissionais. Já reguladores, especialmente na Europa e no Canadá, acompanham de perto os impactos sobre privacidade, transparência e concorrência, exigindo garantias de que a segmentação comercial não amplie riscos ao tratamento de dados nem reduza a autonomia dos usuários.

 

Mudança profunda na publicidade

Ainda há poucos estudos acadêmicos que tratem do tema, pelo seu ineditismo.

Um dos mais interessantes foi publicado em maio por Jingyi Qiu e Qiaozhu Mei, da Universidade de Michigan (EUA). Eles argumentam que a publicidade em plataformas de IA representa uma mudança estrutural na relação entre empresas e consumidores. Em vez de simplesmente exibir anúncios, a IA pode incorporar interesses comerciais ao próprio processo de construção das respostas, influenciando recomendações de forma sutil e personalizada. Para os autores, o debate deixa de ser se há anúncios e passa a ser como garantir que incentivos econômicos não passem a moldar, de maneira invisível, os critérios usados pela IA para orientar as decisões dos usuários.

Outro estudo da mesma universidade, publicado por Brian Jay Tang e colegas em dezembro, mostra que a publicidade em interfaces conversacionais se beneficia da relação de confiança construída ao longo do diálogo com a IA. Em experimentos com usuários, os pesquisadores observaram que a conversa contínua reduz o distanciamento crítico normalmente aplicado à publicidade, tornando anúncios personalizados mais persuasivos e, muitas vezes, menos perceptíveis, mesmo quando são claramente identificados como conteúdo patrocinado, como faz o ChatGPT.

Por fim, Addison Wu e colegas das universidades americanas de Princeton e de Washington publicaram em abril um artigo em que argumentam que o maior risco da publicidade em plataformas de IA não é a existência de anúncios, mas a possibilidade de interesses comerciais influenciarem recomendações aparentemente neutras. Os autores observaram que incentivos econômicos podem alterar respostas mesmo sem misturar anúncios ao texto principal, o que relativiza a ideia da OpenAI de separar publicidade das respostas. O estudo reforça a necessidade de mecanismos de transparência, auditabilidade e fiscalização capazes de verificar quando uma recomendação continua sendo técnica e quando passa a ser comercial.

A decisão de o ChatGPT ou qualquer outra plataforma de IA exibir anúncios é prerrogativa exclusiva de seus desenvolvedores. Mas a sociedade precisa de garantias de que uma tecnologia cada vez mais usada para estudar, trabalhar, consumir e tomar decisões preserve a independência de suas recomendações quando seu modelo de negócios passa a depender justamente da influência sobre essas decisões. Essa discussão precisa começar antes que a prática se torne irreversível.

Há pelo menos 20 anos, tentamos identificar publicidade disfarçada de conteúdo. Agora precisaremos aprender a reconhecer quando interesses comerciais tentam influenciar aquilo que uma inteligência artificial recomenda. Se falharmos nessa tarefa, talvez descubramos tarde demais que o principal produto vendido por essas plataformas nunca foram anúncios, mas a nossa confiança.