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“Medo do ChatGPT” não pode impedir o avanço tecnológico

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Tecnologias muito inovadoras costumam gerar igualmente expectativa e temor, diante de suas possibilidades. Por ainda não dominarmos totalmente seus recursos, não temos real dimensão do que podem provocar em nossas vidas. Diante disso, há sempre o grupo dos “deslumbrados” –que abraçam o novo como se não houvesse amanhã– e o dos “resistentes” –que evitam seu uso tanto quanto possível.

Não dá para segurar o futuro, mas ele precisa ser bem compreendido!

A “bola da vez” nesse cenário é o ChatGPT. Desde que foi lançado, no dia 30 de novembro, a plataforma de inteligência artificial ocupa o centro do debate tecnológico. Sua incrível capacidade de produzir textos complexos a partir de comandos simples impressiona e vem provocando questionamentos até sobre o futuro de profissões que antes se sentiam “seguras” contra uma eventual substituição por máquinas.

O que o torna tão único é que sua automação avança sobre o campo cognitivo, capaz de criar conceitos e de responder de maneira convincente praticamente qualquer pergunta. Com isso, muitos temem que ele abra portas para um “emburrecimento” da humanidade, com pessoas preguiçosas demais para pensar, ficando ainda mais dependentes das máquinas.

Para muita gente, isso jamais acontecerá! Mas esse medo propõe um debate válido.


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Nessa hora, não dá para não lembrar da animação “Wall-E” (2008). Na história, a Terra se tornou inabitável no futuro pela quantidade de lixo que a humanidade produziu. As pessoas então abandonam o planeta, passando a viver em gigantescas espaçonaves, onde até suas mínimas necessidades eram atendidas por robôs. Nem andar precisavam, pois passavam o tempo todo sobre cadeiras móveis.

Tanta comodidade teve efeitos nefastos, porque várias gerações viveram nesses gigantescos “cruzeiros espaciais”. Sem perceberem, passaram aos poucos a serem dominadas pela inteligência artificial. Até andar ficava difícil, pois nunca abandonavam suas cadeiras, ganhando muito peso e ficando com músculos atrofiados.

Não é o que está acontecendo agora, naturalmente. Mas se passarmos a ter máquinas que façam tudo por nós (até “pensar”), isso pode, sim, levar a consequências indesejadas. Afinal, máquinas são ferramentas que devem nos ajudar a realizar nossas tarefas, e não que façam tudo por nós.

Por outro lado, essa hipótese indesejável não pode servir de motivo para “impedirmos o futuro”. Como cantava Elis Regina, “o novo sempre vem”. O que temos que fazer é entendermos tudo que chega com ele, para aproveitarmos o que traz de bom e contornarmos o que for indesejável.

“O ChatGPT ainda é um assunto muito novo, mas o medo das mudanças tecnológicas já é bem tratado”, explica Rodrigo Guerra, doutorando do Departamento de Políticas Científicas e Tecnológicas da Unicamp. “Ele deixou mais concreta a visão de que a inteligência artificial pode substituir o homem agora no trabalho cognitivo”, acrescenta.

Existe um fator ético associado a esse medo. Em muitas ocasiões, empresas como a OpenAI, criadora do ChatGPT, lançam produtos sem um debate com a sociedade e sem avaliar adequadamente possíveis consequências disso. Fazendo outro paralelo com “Wall-E”, o que tornou a Terra inabitável foi um consumismo desenfreado das pessoas, promovido pela megacorporação Buy-n-Large. Ironicamente, as naves que “salvaram” a humanidade (mas provocaram todos aqueles “efeitos colaterais”) também eram da empresa, indicando que o problema se perpetuava.

“Aí entra a importância do pensamento crítico e da capacidade do ser humano de gerar narrativas próprias para pensar eticamente essas tecnologias”, sugere Marina Martinelli, doutoranda em 5G pela Unicamp. Para ela, “temos que pensar nessas ferramentas disruptivas para que funcionem de forma que a sociedade evolua e caminhe para frente”.

 

A dor da mudança

Costumamos olhar para o lado bom de tecnologias estabelecidas, mas raramente pensamos nos problemas que muitas delas provocaram quando surgiram. O exemplo mais emblemático disso foi a Revolução Industrial, iniciada no século XVIII.

Ninguém sequer cogita um mundo sem indústrias. Mas quando as primeiras fábricas surgiram, elas levaram a dolorosas mudanças sociais, com artesãos ficando sem trabalho, enquanto multidões operavam as máquinas nas fábricas, com jornadas de trabalho extenuantes e sem qualquer cuidado.

Eventualmente a sociedade encontrou um equilíbrio para que aqueles problemas fossem controlados, restando benefícios cada vez mais para todos. “Depois que a transição acaba e entra na fase mais estável, todo mundo aproveita”, explica Guerra.

É natural que busquemos máquinas que tornem nossas vidas mais fáceis. Um carro permite que percorramos grandes distâncias rapidamente e com conforto, muito mais que a cavalo ou andando a pé. Mas não por isso deixamos totalmente de andar! Pelo contrário, hoje a sociedade combate conscientemente os riscos do sedentarismo.

Nesse sentido, o medo de tecnologias como o ChatGPT levarem pessoas a pensar menos não é de todo infundado. E, sendo claro, muitas pessoas farão isso tanto quanto puderem, assim como deixam de fazer contas quando têm acesso a uma calculadora.

Nosso papel é evitar que isso aconteça de maneira descontrolada, levando a esse temido “embrutecimento mental”. Essa e outras tecnologias continuarão chegando, cada vez mais fantásticas e cada vez mais acessíveis. Mas elas não podem deixar de ser vistas como ferramentas!

Ironicamente, a melhor maneira para isso é ampliar o uso dessas plataformas, ao invés de proibi-las, como algumas pessoas propõem. E isso deve ser feito com o apoio e, se possível, a supervisão de professores, que expliquem como usar tanto poder para expandir nossas possibilidades mentais, ao invés de comprometê-las.

Como seria a vida de alguém hoje, que não soubesse usar, ainda que minimamente, um computador ou um smartphone? Essa pessoa provavelmente teria até dificuldade para conseguir um emprego, mesmo básico!

Em muito pouco tempo, a inteligência artificial será tão popular em nosso cotidiano quanto esses equipamentos. Estamos naquele momento doloroso de mais uma transição tecnológica, mas para Martinelli, todo esse barulho em torno do ChatGPT “é muita fumaça e pouco fogo”.

Essa é a hora em que temos justamente que abraçar a novidade sem medo, mas também sem deslumbramento. Como na maioria das coisas da vida, o melhor caminho é aquele que se afasta de qualquer extremo. Não abrace nem os “deslumbrados” e nem os “resistentes”.

 

ChatGPT não ameaça educação, mas nos desafia a repensar como aprendemos e ensinamos

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Educadores estão em polvorosa, diante de uma nova plataforma de inteligência artificial. Apesar de ter sido liberada há apenas dois meses, o ChatGPT vem provocando discussões éticas, tecnológicas e profissionais sobre se o digital poderá substituir seres humanos em tarefas intelectuais em que ainda nos sentíamos “seguros”. Nas escolas, esse temor chegou quando estudantes começaram a apresentar trabalhos que haviam sido escritos pela máquina.

Diante da qualidade dos argumentos e da fluência da escrita naquelas tarefas, professores passaram a se perguntar se perderiam a capacidade de identificar “plágios” de seus alunos. Outros, mais fatalistas, já se questionam se a própria profissão poderia desaparecer, sendo substituídos pelas máquinas.

Essas perguntas estão erradas! E a escola, mais que ensinar boas respostas aos alunos, deve ensiná-los a fazer as perguntas certas na vida.

Entendo que professores estejam preocupados. Esse desafio não pode ser ignorado, mas ele não pode servir como motivo para bloquearem a entrada da inteligência artificial nas aulas. Isso, sim, seria uma ameaça à manutenção de seu ofício.


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O ChatGPT é uma plataforma criada pela empresa OpenAI capaz de escrever textos complexos a partir de comandos em linguagem natural. Ele simula uma conversa com uma pessoa, permitindo o encadeamento entre respostas e perguntas. Funciona em vários idiomas, inclusive no português, e suas produções vêm surpreendendo especialistas e o público, pela qualidade.

Os mais entusiasmados dizem que poderia até ameaçar a supremacia do Google como ferramenta de busca. Tanto que, no dia 23, a Microsoft fez um investimento bilionário na empresa (o mercado estima em algo como US$ 10 bilhões), para incluir essas funcionalidades em seus produtos, como o Office e o Bing.

“A tecnologia, desde a invenção de Gutenberg, entra cada vez mais no âmago do humano”, explica Lucia Santaella, professora-titular da PUC-SP. “Com a inteligência artificial, ela penetra nas questões que a gente considera o mais nobre do humano, que é a sua capacidade de pensar e de falar.”

De fato, essa interação como conversa é decisiva para seu sucesso. “Ele é baseado em perguntas, e é da natureza do humano a investigação, a pergunta, a exploração e a conversa”, afirma Ana Paula Gaspar, especialista em tecnologia e educação.

Para muitos, o ChatGPT pode vencer o “teste de Turing”, método criado há 70 anos para descobrir se uma máquina é inteligente. Ele prevê que uma pessoa tenha uma longa conversa por texto e, ao final, não consiga distinguir se falou com outra pessoa ou um robô.

“É uma visão totalmente equivocada achar que a tecnologia é uma mera ferramenta”, sugere Santaella. “Ela é linguagem!”

 

Ferramenta pedagógica

Tanto que o caminho para resolver os temores escolares já citados passa pelos professores se apropriarem da inteligência artificial, ao invés de tentar bloqueá-la.

“Toda tecnologia, quando aparece, muda comportamentos”, afirma Diogo Cortiz, professor da PUC e especialista em IA. “Isso causa medo, espanto, porque a gente não sabe muito bem o que vai acontecer.”

“A grande questão é de educação do humano para utilizar bem esse recurso”, propõe Ana Lúcia de Souza Lopes, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “E o que a escola faz? A escola se retira!”

Os entrevistados são unânimes ao afirmar que tentar impedir que os alunos usem a ferramenta é inócuo, pois encontrarão maneiras de burlar as restrições. Mas manter os processos atuais de aprendizagem e de avaliação é igualmente inadequado.

A tecnologia deve ser usada como aliada para alunos ganharem recursos para entender o porquê do que aprendem, abandonando o infame “decoreba”. “A partir do momento em que tem um desafio que o algoritmo vence, eu preciso liberar o estudante cognitivamente para tarefas mais complexas”, explica Gaspar.

Como exemplo, pode ser usada para uma produção colaborativa dos alunos, em que avaliem a qualidade e a precisão do que o robô gerou. Ela também pode ser usada como apoio para debates e até estudo de idiomas. “Devemos colocar os estudantes para usar essa ferramenta, mas sempre com um olhar muito crítico”, indica Cortiz.

A inteligência artificial faz parte do nosso cotidiano de maneiras que nem suspeitamos, como viabilizando, de maneira transparente, alguns dos recursos mais incríveis de nossos celulares. E ela cresce de maneira exponencial: o ChatGPT deu apenas mais visibilidade ao tema. Ainda assim, essas transformações têm acontecido sem debates com a sociedade sobre suas consequências.

As escolas –as universidades especialmente– têm um papel importantíssimo nesse processo. São elas que realizam as pesquisas sobre seus impactos sem um viés econômico. As empresas criadoras desses recursos deveriam, por sua vez, fazer o mesmo, mas nem sempre isso acontece, preferindo promover inconsequentemente seus lançamentos que podem lhes render bilhões em lucros. “A gente tem que entender qual é a responsabilidade que a gente tem quando a gente põe um conhecimento no mundo”, alerta Lopes.

É nas escolas também onde crianças e adultos precisam entender a se apropriar desses recursos para aprender mais e melhor. Um uso da inteligência artificial que respeite isso favorecerá nossa própria inteligência humana. Como explica Santaella, “a inteligência é metabólica, então ela cresce através do aprendizado.”

Por tudo isso, plataformas como o ChatGPT não podem ser temidas nas escolas. Pelo contrário, precisam ser abraçadas pelos educadores, para prepararem seus alunos para um mundo já inundado pelo digital. Precisamos reaprender a aprender diante de tantas e incríveis possibilidades. E quem melhor que os próprios professores para nos ensinar a fazer isso?

 

A futurista casa dos Jetsons, animação que foi ao ar em 1962 e 1963, foi ultrapassada pela tecnologia das atuais “casas inteligentes”

“Casa inteligente” ganha novos “poderes”, mas ainda é um luxo para pouquíssimos

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Esqueça os simples comandos de voz para tocar músicas ou acender luzes. A CES (Consumer Electronics Show), maior evento global de eletroeletrônicos, mostrou no começo do mês inovações para as “casas inteligentes” que vão de consumo otimizado de energia a cuidados com pets. Apesar de muitos parecerem ter saído da ficção científica, já estão disponíveis para compra. Ainda assim, continuam restritos a bem pouca gente.

É uma pena, pois as “smart homes” vão muito além de simples “brinquedos” digitais. Quando plenamente implantadas, terão o poder de revolucionar o conceito de moradia em uma escala que rivalizará com a do surgimento dos primeiros eletrodomésticos, há mais de cem anos. Esses estão tão integrados a nossas vidas, que mal percebemos sua existência. Mas experimente ficar uma semana sem sua geladeira!

A grande inovação da “casa inteligente” (ou “conectada”) não se resume ao aspecto divertido da coisa, e sim ao fato de que ela nos permitirá fazer tarefas que hoje não podemos ou que são muito demoradas. Exatamente o que fizeram os eletrodomésticos do começo do século XX.

Mas, para tal, precisamos ter acesso a tudo isso.


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A maioria das pessoas associa as “casas inteligentes” a assistentes virtuais, como a Alexa (da Amazon), o Google Assistente ou a Siri (da Apple). Eles funcionam em alto-falantes inteligentes, celulares, smart TVs e computadores. Conseguem realizar algumas tarefas por comandos de voz e controlam uma variedade limitada de aparelhos, como lâmpadas e alguns eletrodomésticos. Um pouco menos conhecidas, existem automações para sistemas de segurança (como fechaduras, câmeras e detectores de fumaça), de plataformas de entretenimento e de rotinas domésticas.

Mas o que foi visto na CES, que aconteceu em Las Vegas (EUA) de 5 a 8 de janeiro, foram dispositivos tomando decisões sozinhos, com inteligência artificial. Esses equipamentos também começam a compartilhar informações entre si, de maneira colaborativa, deixando de ser domínios isolados de cada fabricante. E são essas inovações que realmente podem transformar a maneira como vivemos.

“Não temos apenas a missão de aprimorar a conectividade dos produtos, mas também de viabilizar novas experiências, proporcionando uma vida mais saudável, melhores opções de entretenimento e fomentando estilos de vida mais sustentáveis”, explica Ricardo Tavares, gerente-sênior de Home Appliances da Samsung Brasil. A gigante coreana foi uma das marcas que mais investiram em “smart home” na CES.

Esse mercado é puxado pelos EUA e pela Europa. A empresa Statista estima que ele terminou 2022 com uma receita global de US$ 117,6 bilhões, podendo chegar a US$ 222,9 bilhões em cinco anos. Hoje cerca de 14,2% das residências seriam inteligentes, devendo chegar a 28,8% até 2027. A maior parte dessa receita vem dos EUA, respondendo sozinhos por US$ 31,5 bilhões, em 54 milhões de lares. O Brasil está bem atrás, com apenas US$ 1,3 bilhão em cerca de 5 milhões de domicílios.

Os números indicam que, além de termos menos “casas inteligentes”, elas são menos conectadas. Isso acontece pela população desconhecer suas possibilidades, pelo alto custo e porque muitos desses equipamentos simplesmente não chegam ao Brasil.

 

Tudo precisa “conversar”

Em novembro, tive a oportunidade de visitar um local com esses e outros recursos funcionando. Criada temporariamente em uma casa em São Paulo pela empresa de software alemã SAP, ela demonstrava a clientes como a tecnologia já pode facilitar muito a vida doméstica.

Entre outros recursos, a casa verificava se algum produto estava faltando na geladeira sempre que era aberta, fazendo uma cotação e comprando o que tivesse acabado do varejo da região. Além disso, todos os dispositivos elétricos eram conectados para garantir seu funcionamento e otimizar o consumo de energia, considerando variáveis como a presença de pessoas nos cômodos e condições climáticas. O home office era integrado com as empresas dos moradores, para melhorar seu trabalho. E até o espelho no closet simulava maquiagens e acessórios nas pessoas, permitindo a compra online, se desejado.

Para uma casa assim existir, é preciso que todos os equipamentos troquem dados entre si, algo que nem sempre acontece. Cada fabricante adota um padrão, criando uma espécie de “reserva de mercado”. Felizmente isso está mudando com a criação de protocolos abertos, como o Matter. A própria Samsung o adota em sua plataforma SmartThings. “Ele foi projetado para a interoperabilidade, mas, para que isso continue sendo uma realidade, as maiores empresas de tecnologia precisam estar comprometidas”, afirma Tavares.

Um risco que muitos especialistas apontam nas “casas inteligentes” é a coleta incessante e gigantesca de dados sobre a própria casa e seus moradores. Muitas dessas informações trafegam de maneira aberta pela Internet, podendo até ser processada remotamente. Isso abre sérios riscos de segurança, não apenas dos dados, mas da residência em si: e se bandidos conseguissem abrir trancas e desativar alarmes pela Internet? Há também o temor que esses dados sejam usados pelos próprios fabricantes para finalidades desconhecidas dos moradores.

Tudo isso precisa ser endereçado por essas empresas, do ponto de vista comercial, tecnológico e ético. E nesse pacote entra também a inteligência artificial, cada vez mais presente em equipamentos de diversas categorias. Ela permite que eles aprendam o comportamento dos moradores, ajustando suas configurações para que sejam cada vez mais eficientes para cada pessoa, de maneira autônoma.

Mesmo com essas ressalvas, minha visão para as “casas inteligentes” é otimista. Como toda nova tecnologia, precisa ainda aparar muitas arestas, para que pareça menos um protótipo e mais algo que possa estar realmente integrado ao nosso cotidiano, como nossas geladeiras.

Por fim, os fabricantes devem encontrar maneiras para baratear os custos envolvidos. Somos um país com um enorme abismo digital. Se alguém tinha alguma dúvida de como isso prejudica profundamente o desenvolvimento das pessoas, basta ver o que aconteceu no auge da pandemia, quando pessoas de baixa renda tiveram grande dificuldade de trabalhar e de estudar em casa, pelo acesso restrito a equipamentos e a conexões de qualidade.

Se esse aspecto não for resolvido, as diferenças digitais em breve ampliarão outro abismo de nosso país: o da moradia.

 

Enquanto big techs e e-commerce demitem aos milhares, livrarias vivem renascimento

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De um lado, “unicórnios”, big techs e gigantes do varejo digital demitem sem parar. Do outro, livrarias físicas, para muitos condenadas, mostram sinais de um inusitado ressurgimento. Naturalmente não são todas, mas o fato de algumas estarem com esse vigor merece uma análise. Afinal a raiz desse sucesso pode ser replicado em outros negócios: oferecer uma boa experiência ao cliente e uma administração responsável.

O cenário do primeiro grupo é desolador. Os demitidos nas empresas de tecnologia nos últimos 12 meses giram em torno de 100 mil em todo mundo, inclusive no Brasil. Entre as causas, acabou o “dinheiro fácil” de investidores, usado para crescer rapidamente: a crise global moveu esses recursos para negócios mais estáveis. Há também um realinhamento após volumosas contratações durante o distanciamento social, para dar conta da repentina digitalização de nossas vidas. Por fim, essas empresas estão efetivamente fazendo menos dinheiro no pós-pandemia.

Algumas livrarias, por outro lado, colhem os frutos de mudanças em seus modelos de negócios e na própria visão do que fazem, atualizando empresas com muita história. Com isso, não apenas estão fazendo dinheiro, como estão crescendo.


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Talvez o caso mais emblemático seja o da cadeia de livrarias americana Barnes & Noble. Fundada em 1886, em 2008 chegou a ter 726 lojas em todos os estados do país. O setor já vinha sofrendo forte concorrência do e-commerce e dos leitores de livros digitais, e isso só aumentou de lá para cá. Ainda assim, em meio a concorrentes tradicionais fechando as portas, a empresa conseguiu se segurar e terminou o ano passado com 600 lojas. Mas o sinal mais interessante é que pretende abrir 30 novos endereços em 2023.

O “bicho-papão” do setor, a quem se atribui grande parte dessa quebradeira, é a também americana Amazon, com sua máquina de vender de tudo –inclusive livros, aliás sua origem– e seu leitor eletrônico Kindle. Ela provocou grandes mudanças no comportamento do consumidor. As pessoas estão lendo mais, com o digital ganhando mais espaço, tanto no formato, quanto na forma de comercialização. Livrarias e editoras que não conseguiram se adaptar a isso foram colocadas para fora do mercado.

As 600 lojas das Barnes & Noble podem passar a falsa impressão de que os problemas da rede não são tão grandes. Eles são e cresceram à medida que a empresa tentou bater a Amazon em seu terreno. Chegou até a lançar seu próprio leitor de livros eletrônicos, o Nook, em 2009. Mas em 2018 a empresa perdeu US$ 18 milhões e demitiu 1.800 funcionários, inclusive seu CEO, Demos Parneros, sob acusações de assédio sexual.

A virada aconteceu com James Daunt, um britânico conhecido por fazer “mágica” no setor de livros, que assumiu o posto de CEO em agosto de 2019. Ao chegar lá, disse que as lojas eram “crucificantemente chatas”. E então começou seu trabalho, que, de mágico não tem nada, apesar de contrariar o que executivos do setor defendem.

Ele eliminou descontos, com a crença de que diminuem o valor percebido dos livros. Além disso, não aceita dinheiro das editoras para promover títulos, pois não quer ser forçado a empurrar obras ruins goela abaixo dos leitores. Pelo contrário, faz questão que seus vendedores sejam amantes da literatura, e ofereçam livros realmente bons para cada cliente, mesmo que não sejam best-sellers.

Na pandemia, com lojas fechadas, Daunt determinou que vendedores reorganizassem as lojas segundo critérios que achassem que favoreceriam livros e leitores, eliminando espaço de produtos “concorrentes”, como brinquedos e bugigangas. Agora, ironia das ironias, algumas das novas Barnes & Noble podem ocupar lojas onde recentemente a Amazon tentou sem sucesso vender livros nos EUA.

Para muitos, Daunt pode apenas ter sorte. Mas não é nada disso e não está sozinho!

 

Respeite o cliente

Essa mudança bem-sucedida sugere o fim das megalivrarias, que reuniam incontáveis serviços para atrair o público, desde café até eventos musicais. Era como se os livros não fossem mais suficientes para atrair clientes.

Quando isso se alastrou pelo mundo há 30 anos, muitas boas livrarias sucumbiram àquele novo poder impulsionado pelo dinheiro. Isso aparece no filme “Mensagem para Você” (1998), em que Tom Hanks interpreta o dono de um conglomerado (que poderia ser a Barnes & Noble da época) que quebra uma livraria de bairro, sem saber que a dona, vivida por Meg Ryan, era a mulher por quem havia se apaixonado online.

Se são necessários café e brinquedos para vender livros, talvez o negócio não seja… livros. Como em qualquer caso, a boa venda acontece quando se conhece o produto e o cliente, e quando se é capaz de se oferecer o produto certo para cada necessidade, sem forçar a “bola da vez”. Por mais que exista “dinheiro de incentivo”, a longo prazo as pessoas comprarão mais daqueles que os atenderem genuinamente bem.

Esse é o segredo da Amazon. Sim, é de amplo conhecimento que a empresa tem práticas consideradas abusivas contra fornecedores e funcionários, problemas que precisam ser resolvidos. Mas seus algoritmos e seus atendimento focam no cliente.

Na época em que a Amazon se preparava para operar no Brasil, eu trabalhava para uma grande editora nacional. E ficava chocado quando, nas reuniões semanais da diretoria, a preocupação era buscar mecanismos para atrapalhar ao máximo a chegada da gigantesca concorrente. Em nenhum momento eram propostas soluções para a experiência dos clientes passar ser melhor que a oferecida pela Amazon.

Resultado: hoje a Amazon está bem estabelecida no Brasil, enquanto aquela marca nacional é uma pálida sombra do que era há uma década.

Muitas livrarias brasileiras, outrora fantásticas, também tiveram destino semelhante, como a Cultura e a Saraiva. Por outro lado, é uma alegria ver que muitas outras, como a Livraria da Vila, a Travessa e a Curitiba, escolheram caminhos mais alinhados com o de Daunt. Elas estão crescendo, mesmo com a crise, mesmo com a pandemia, mesmo em um país conhecido por ter cidadãos que leem pouco. E elas conseguem isso porque atendem bem o público no seu negócio, que é vender livros.

Isso é respeito e até uma forma de amor pelas pessoas e pelo que se faz. A ideia pode ser aplicada a qualquer negócio. Não há nada de errado em querer diversificar, desde que isso não o tire do seu foco e o afaste de seu público. Eu tenho muitas atividades, mas amo jornalismo, e por isso estou aqui “conversando” com vocês, e espero fazer isso sempre bem.

Talvez seja o caso de gestores perguntarem o que amam.

 

Na batalha da desinformação, a verdade foi a primeira vítima e agora todos sofremos

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Na primeira semana do novo governo, uma das ações mais polêmicas foi a criação da Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia, vinculada à AGU (Advocacia-Geral da União). Polêmica que ficou nanica diante do violento ataque à democracia cometido neste domingo, em Brasília. Mas justamente por esses atos antes impensáveis, essa análise ganha ainda mais importância, pois o problema não está distante, e sim algo que toca todos nós, em nossas telas de smartphones e computadores.

A polêmica em torno da criação da nova Procuradoria, que tem como um dos objetivos o combate à desinformação, gira, entre outras coisas, pela definição apresentada para o próprio termo, o que, argumentam alguns, poderia transformá-lo em um instrumento de censura.

Existe uma máxima que diz que, “em uma guerra, a primeira vítima é a verdade”. Isso acontece porque, qualquer que seja o lado do conflito, seus cidadãos nunca têm acesso ao ponto de vista e a informações do inimigo. Assim, seus governantes podem manipular os fatos e usá-los como uma “verdade” para seu benefício próprio. É o que se observa hoje claramente na guerra da Ucrânia.

Mas em tempos de redes sociais onipresentes e onipotentes, todos nós sofremos os efeitos de outro tipo de guerra inescapável, que culminou na destruição generalizada na praça dos Três Poderes neste domingo: a da dita desinformação, que tem nas fake news sua maior arma.

Na desinformação, apesar de estarmos todos “do mesmo lado”, cada pessoa recebe informações filtradas pelos algoritmos que a ajudam a reforçar pontos de vista existentes, incluindo preconceitos e mentiras. E, também nesse caso, os grupos de poder manipulam os fatos, para criar “suas verdades”.

Por tudo isso, ninguém questiona a necessidade de se combater a desinformação, que rachou a sociedade brasileira e a levou à beira desse precipício político nunca visto desde a redemocratização.


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O ponto central da polêmica no combate à desinformação foi como ela foi definida pelo novo órgão: “mentira voluntária, dolosa, com o objetivo claro de prejudicar a correta execução das políticas públicas com prejuízo à sociedade e com o objetivo de promover ataques deliberados aos membros dos Poderes com mentiras que efetivamente embaracem o exercício de suas funções públicas”.

Em tese, essa definição é válida. O problema é que não deveria dar espaço a interpretações livres dos envolvidos, mas acaba abrindo brechas para isso com adjetivos, advérbios ou pontos que dependem de comprovação.

A preocupação é legítima pelo histórico de governos de diferentes ideologias de usarem a musculatura estatal e brechas da legislação para legitimar atos questionáveis de aliados e questionar ações legítimas de opositores ou de quem simplesmente os critique. A imprensa é vítima costumaz desse mecanismo, com censuras judiciais e, em anos mais recentes, com a perseguição violenta e até a desumanização de jornalistas por iniciativa de governantes. E, graças ao enorme poder de convencimento das redes sociais, uma parcela significativa da população comprou essa ideia e a pratica.

A AGU declarou, em nota, que “desinformação e mentira são diferentes do sagrado benefício da liberdade de expressão” e que “não há a menor possibilidade de que a AGU atue de forma contrária à liberdade de expressão, de opinião e ao livre exercício da imprensa”.

“A gente precisa compreender que, quando se fala em desinformação, precisamos partir de um conceito mais amplo para ‘dar um norte’ sobre o que a gente está conversando”, explica Marcelo Crespo, coordenador do curso de Direito da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). “Mas também é importante entender que esse conceito mais amplo não pode ser o que vai definir o resultado de uma ação contra a desinformação.”

Ele lembra que a AGU não é uma instituição de governo, é sim de Estado. Dessa forma, não faz parte de suas atribuições defender governantes, apesar de ser responsável pela orientação jurídica do Poder Executivo.

Assim a instituição não poderia censurar ou punir ninguém, um papel do Judiciário. O risco recai no histórico de governos de extrapolar esses limites e, de certa forma, usurpar suas atribuições em anos anteriores.

 

A maltratada liberdade de expressão

Nada disso seria necessário se a sociedade não tivesse descambado nesse vale-tudo em que se incite ou efetivamente se pratique diversos crimes e que, depois, isso seja “desculpado” com uma “aparentemente magia” chamada liberdade de expressão.

“O que aconteceu nesses últimos anos é que discursos golpistas, autoritários, desinformativos foram propagados sob uma chancela de que se estava praticando liberdade de expressão”, explica Crespo. “Como isso foi feito durante muitos anos, em sequência, por muitas pessoas de diferentes instituições, ficou parecendo que liberdade de expressão é isso”.

Mas ela não determina tudo o que pode ser dito. Pelo contrário, em tese, pode-se falar qualquer coisa, desde que isso não configure um crime, contravenção, invada a liberdade de outra pessoa ou a coloque em algum tipo de risco, por exemplo.

Nesse sentido, a iniciativa da AGU pode ser muito positiva, desde que seja bem executada e respeitada pelo próprio governo, pois, em empresas e na sociedade, as pessoas seguem o exemplo de seus líderes. “Quando os nossos dirigentes políticos adotam comportamento violadores da ética, dos bons costumes, das boas práticas, das boas maneiras, da inclusão, da diversidade, do respeito, é muito mais fácil insuflar a população a ir contra isso tudo também”, sugere Crespo.

Em outras palavras, a guerra conta a desinformação tem diversas frentes. Oferecer uma boa definição, que não crie mais dúvidas que certezas, é uma delas. Precisamos também que os órgãos dos três Poderes da República executem adequadamente suas funções, deixando ao Judiciário o papel de proibir ou punir.

Sobre isso tudo, precisamos de bons exemplos de expoentes diversos de nossa sociedade, figurando, em primeiríssimo lugar, nossos governantes. A situação dramática em que estamos vivendo, com nosso tecido social feito trapo e a democracia sob ataque, resulta de um consistente processo destrutivo dos últimos anos.

Resta saber se o novo governo resistirá ao apelo fácil de fazer o mesmo com a desinformação, apenas com outra ideologia. Torço para que resista a isso e tenha sucesso na reconstrução de nossa sociedade, sem fazer mais vítimas nessa guerra contra a desinformação.

 

O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, durante apresentação que simulou sua proposta do que deve ser o metaverso, em outubro de 2021

Esse será o ano da “virtualização”

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Uma das características essenciais do mundo digital é seu dinamismo, mas ele nem sempre segue o que usuários e empresas desejam. Algumas tecnologias que despontam como grandes promessas nunca deixam de ser apenas isso. Foi o caso do deep fake, que ganhou notoriedade em 2019 com a criação de convincentes vídeos falsos com rostos alheios. E como não mencionar a visão de metaverso de Mark Zuckerberg, apresentado como a grande promessa de 2022? Por enquanto, não virou nada muito útil e ainda corroeu cerca de 70% do valor de mercado da Meta, empresa dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp.

Agora que começamos 2023, outras tecnologias prometem grandes mudanças em nossas vidas. Agrupei-as debaixo de um guarda-chuva que chamei de “virtualização”, indo muito além de usos óbvios nas redes sociais. Essa nova proposta envolve recursos que de fato ampliam digitalmente nossas habilidades.

Com ela, esse pode ser o ano em que experimentaremos a ampliação da inteligência artificial que vemos (como as plataformas criadoras de textos e imagens) e a que não vemos (que, por exemplo, aumenta o poder de nossos smartphones). A realidade mista –que mistura realidade virtual e realidade aumentada– deve também ficar mais próxima de nós. E até o metaverso pode finalmente acontecer no nosso cotidiano.

Agora é ver o que disso tudo realmente se concretizará nos próximos 12 meses.


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Quero começar com o afamado metaverso. Para mim, não é uma questão de “se” acontecerá, e sim de “quando”. Antes de prosseguir, vale definir o termo. O metaverso, como uma plataforma em que pessoas se encontram para realizar atividades em um ambiente digital tridimensional, já existe há 20 anos. Mas aqui me refiro à proposta de Zuckerberg, como um espaço altamente imersivo, formado pela combinação de diferentes tecnologias, em que poderemos “entrar” com equipamentos de realidade virtual e onde poderemos até manipular à distância objetos virtuais ou reais.

A principal barreira para sua adoção são os equipamentos necessários para viabilizar plenamente essa experiência, cujos preços são proibitivos para a imensa maioria das pessoas. Enquanto não ficarem mais baratos, o metaverso continuará sendo uma aplicação de nicho e comercialmente pouco atraente. Para 2023, a Meta promete novos dispositivos, e ela terá concorrência de empresas como Apple e Sony.

Isso pode baixar o preço dos equipamentos a médio prazo, o que é bem-vindo. Mas há também o software envolvido. Para o metaverso ocupar o espaço que hoje está com as redes sociais, ele precisa ser “aberto”. Ou seja, será difícil prosperar se cada empresa oferecer uma plataforma que não converse com as demais. Nesse sentido, é interessante notar que quase todas as big techs aderiram ao MSF (sigla em inglês para Fórum de Padrões do Metaverso), que prevê essa interoperabilidade.

Uma ausência importante desse grupo é a Apple, que, como de costume, tentará manter seus usuários dentro de sua própria solução. Se ela prosperar nisso, poderemos ver outras grandes seguindo por esse caminho. Mas imagine como teria evoluído a Web se cada site só funcionasse em um navegador: provavelmente nunca teria se tornado onipresente em nossas vidas.

A consultoria Gartner divulgou um e-book com tendências globais de tecnologia para 2023. O metaverso aparece na categoria “pioneirismo”, devendo se concretizar, segundo o estudo, em um horizonte de dois a três anos.

 

Ganhando “superpoderes”

Outra tendência que deve se fortalecer na esteira do metaverso, graças aos novos equipamentos, é a realidade mista. Se a realidade virtual nos coloca em um ambiente digital totalmente imersivo e a realidade aumentada projeta elementos virtuais no “mundo real”, a realidade mista combina o melhor de ambos. Por exemplo, poderemos experimentar o funcionamento de equipamentos reais com a adição de peças virtuais. Ou ainda participar de um “game em primeira pessoa” com elementos digitais e outros jogadores projetados em um cenário real.

Com tudo isso, a “virtualização” praticamente nos confere “superpoderes”. Poderemos “ver” o que não víamos, estar onde não estávamos e realizar tarefas antes impossíveis no seu escopo ou no tempo. É onde entra com força a inteligência artificial, aliás também destacada no estudo do Gartner de duas formas: no gerenciamento de confiança, risco e segurança, e na chamada “IA adaptável”.

O crescimento da inteligência artificial é galopante em diferentes áreas. Longe de ser novidade, até poucos anos atrás ela ainda era limitada, caríssima e pouco eficiente. Hoje ela faz parte de nossas vidas, até mesmo sem que saibamos.

Possivelmente você já usou algum sistema impulsionado por ela hoje mesmo, no seu celular. Alguns dos recursos mais incríveis de nossos smartphones nem acontecem nele, que funciona apenas como uma janela para sistemas de inteligência artificial que rodam em um servidor do outro lado do mundo, que usamos de maneira transparente.

A grande novidade de 2022 e que deve se expandir muito em 2023 é a chamada inteligência artificial generativa, aquela capaz de produzir conteúdos inéditos em texto, som, imagem e vídeo a partir de comandos simples do usuário. Elas também já estão por aí há alguns anos (por exemplo, em sistemas de produção de contratos), mas atingiram uma eficiência e uma popularidade inéditas há alguns meses, com o gerador de textos ChatGPT e o criador de imagens DALL-E 2 e Lensa.

As redes sociais foram inundadas com suas produções, criadas a partir de comandos simples de texto. Todas elas são verdadeiramente inéditas e tão bem-produzidas, que fica difícil distingui-las das feitas por profissionais humanos.

Em 2023, devemos ver essas ferramentas sendo cada vez mais usadas até mesmo em ambiente profissional. É inevitável! Como costumo dizer, o que puder ser automatizado será.

Mas isso abre um complexo debate ético e trabalhista. Até onde será legítimo usar um sistema que pode tirar empregos de pessoas, sendo que ele entrega suas produções a partir do que aprende do trabalho de outros profissionais (e, vale dizer, sem remunerá-los)? Deslumbrado com essas possibilidades tecnológicas, o mercado não vem dando ao tema a atenção necessária.

Temos diante de nós 12 meses para ver como e quanto de cada uma dessas tecnologias se materializará ou quanto ainda continuará como promessa. Qualquer que seja o caso, precisamos compreender e nos apropriar de cada uma delas, para que nos tragam benefícios a muitos, sem causar riscos ou prejuízos a ninguém.

 

Esse foi o ano do “ciberpopulismo”

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Nos meses de novembro, os principais dicionários do mundo elegem suas “palavras do ano”, verbetes que, mesmo não sendo necessariamente novos, refletem fatos de grande impacto no período. Com a globalização, muitas dessas palavras valem para o mundo todo, mas as escolhas desse ano se demonstraram muito regionalizadas. Por isso, decidi, de maneira pessoal, escolher uma palavra que representasse bem algo que moveu decisivamente o Brasil em 2022: “ciberpopulismo”.

Esse neologismo une a palavra em inglês “cyber” (em referência ao que se dá no mundo digital) a “populismo”. Ele procura definir como as redes sociais passaram a atuar decisivamente na política nos últimos anos. No populismo, cria-se a figura de um líder capaz de “salvar” o povo dos interesses de uma “elite” ou das ações de um “inimigo comum a todos”. Por depender de um conjunto de narrativas bem arquitetadas, o meio digital surgiu como a ferramenta perfeita de convencimento das massas, amplificando as ideias do populista.

O “ciberpopulismo” vem sendo amplamente usado no Brasil há pelo menos seis anos, mas atingiu a sua maturidade em 2020, com a pandemia de Covid-19. As suas fórmulas usadas durante a crise sanitária pavimentaram o caminho para as eleições de 2022, criando um cenário de polarização política inédito em nossa história, que rachou o país e que continua incendiando corações, mesmo dois meses após o fim do pleito. Daí essa minha escolha.


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O populismo não é um conceito novo. O termo surgiu no século XIX, na Rússia czarista, e propunha dar mais poder político a camponeses com uma grande reforma agrária. De lá para cá, tem sido usado por diferentes grupos, ganhando definições bem variadas, de acordo com o pensamento do autor. Por isso, não há um consenso definitivo sobre ele, e há até uma discussão se o populismo seria, afinal, bom ou ruim: um meio para melhorar a vida do povo ou uma ferramenta para sua manipulação pelos poderosos.

Nas últimas décadas, consolidou-se no Ocidente uma definição do populismo como um conjunto de práticas políticas para obtenção e manutenção do poder, sendo igualmente usado por governantes conservadores ou progressistas em todo mundo, indo do nazismo de Hitler ao chavismo venezuelano. Via de regra, todos eles têm alguns pontos em comum: um povo que se sente oprimido por algum tipo de elite ou agente externo, um inimigo em comum (verdadeiro ou na maioria das vezes imaginário) e um líder apresentado como o único capaz de conduzir a sociedade a sua “salvação”.

Como o populismo depende necessariamente da criação de uma narrativa que legitime a figura e as ideias do seu “líder ungido”, os meios de comunicação acabam sendo peça-chave no processo. Para a cristalização de um pensamento único, os veículos simpáticos à “causa” devem ser promovidos, enquanto os demais devem ser silenciados. E, nos últimos anos, as redes sociais ocuparam esse espaço. Elas diminuíram o poder de mediação da imprensa (que filtra extremismos) e deram voz a todos, especialmente ao “cidadão comum” que antes não se sentia representado pela mídia.

Grupos de poder com valores semelhantes a esses indivíduos perceberam isso e aprenderam a usar, antes dos outros, os recursos digitais, apostando nos extremos e dando origem a esse movimento. Essa dinâmica é bem explicada no livro “Ciberpopulismo” (editora Contexto), lançado no ano passado pelo filósofo e comunicador Andrés Bruzzone. Para ele, nesse cenário, “quem tenta pensar fora dos polos dificilmente será ouvido e certamente não terá espaço nos grandes debates.”

“A combinação eficiente de técnicas de propaganda do século XX com as possibilidades abertas pela tecnologia no século XXI já mostrou sua capacidade de causar alterações estruturais nos países e na geopolítica”, escreveu. E, de fato, observa-se esse fenômeno em países muito diferentes pelo mundo.

 

Aldeia global em chamas

O “ciberpopulismo” vem legitimando barbaridades em muitos países há anos, e não foi diferente em 2022.

A mais grave delas é a guerra na Ucrânia. Com o pretexto de salvar russos que lá viviam de “perseguições nazistas”, o presidente russo, Vladimir Putin, invadiu o vizinho. O mandatário diz abertamente que pretende anexar a Ucrânia como seu território, não reconhecendo sua soberania. Os “inimigos do povo” seriam a União Europeia, a OTAN e –diante do inesperado e decisivo apoio militar dos EUA– todo o “Ocidente”. E com uma fortíssima censura local da imprensa e das redes sociais, a maioria da população acredita nisso tudo e que a Rússia estaria vencendo o conflito.

Os EUA também têm suas assombrações. Ao longo desse ano e do anterior, tiveram que lidar com as consequências do bizarro ataque ao Congresso no dia 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores do ex-presidente Donald Trump, inconformados com sua derrota na tentativa de reeleição, tentaram impedir a confirmação da vitória de seu opositor, Joe Biden. Foi o maior ataque da história à democracia do país. Vale dizer que Trump é o maior expoente global do “ciberpopulismo”.

Em outro exemplo, no dia 7, o governo alemão deflagrou a maior operação de contraterrorismo em 70 anos. O alvo foi um grupo que cresceu nas redes sociais e pretendia derrubar a república e reinstalar a monarquia, que vigorou até 1918 no país. Eles pretendiam ainda matar 18 pessoas, incluindo o chanceler, Olaf Scholz.

Nossos vizinhos também sofrem com isso. A Argentina tem uma política e uma economia em frangalhos há décadas. No Peru, o presidente Pedro Castillo foi destituído do cargo e preso no mesmo dia 7, depois de tentar um autogolpe. A vice-presidente, Dina Boluarte, assumiu como sexto presidente do país em seis anos.

Como se pode ver, o “ciberpopulismo” atende bem a interesses da “direita” e da “esquerda”. As aspas são propositais, pois ambas são mais parecidas que diferentes quando se trata de manipulação online. De toda forma, a segunda só agora está aprendendo a jogar a versão digital desse jogo e, para isso, está sujando as mãos também.

Receio que tenhamos que ver ainda mais crescimento do populismo anabolizado pelas redes sociais antes de experimentarmos o seu recuo, com a sociedade regressando aos trilhos de uma vida harmônica e colaborativa, em que ideias divergentes levem à evolução e não a um conflito beligerante. Precisamos voltar a ter apenas adversários para contrapor, ao invés de inimigos a eliminar.

Como Bruzzone explica em seu livro, o contrário do populismo é o pluralismo: a crença de que não há duas visões únicas do mundo. “Pluralista é quem entende que a verdade não se obtém derrotando um inimigo, mas que é o resultado de um processo construído a muitas vozes”, escreveu.

Adoraria voltar a esse espaço no fim de 2023 e dizer que a minha “palavra do ano” seria então “ciberpluralismo”. Mas sinto que teremos que descer ainda mais fundo nessa fossa política antes que as massas entendam a importância dessa diversidade. Nas últimas duas décadas, o populismo, e nos últimos anos o “ciberpopulismo” criaram raízes profundas em nossa sociedade.

Por isso mesmo, está em nossas mãos –e não nas de qualquer “líder”– o poder de diminuirmos a fervura nas redes sociais e reencontrarmos esse bom caminho.

 

O escritor e filósofo italiano Umberto Eco: “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”

O mundo de hoje é pior que o de ontem ou o digital distorce a realidade?

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Estamos nos aproximando do fim do ano, tempo de se fazer balanços do período e preparar resoluções para o que está chegando. Talvez pelo meu ofício, estou sempre “entrevistando” as pessoas, inclusive sobre o que 2022 lhes representou. E, para muitos, a virada de ano chegará encharcada de esperança, depois de anos muito difíceis.

Uns tantos chegam a dizer que foram os anos mais difíceis de suas vidas. Mas longe de julgar os motivos de cada um, será que foram mesmo? Ou os problemas vêm sendo amplificados por uma complexa combinação de sentimentos ruins e desinformações inoculadas pelas redes sociais, a intolerância decorrente disso e a perda do “norte” de cada um?

A humanidade já passou por períodos muito piores, como a Idade Média, a Inquisição, a Gripe Espanhola (que foi muito mais grave que a Covid-19) e as duas Grandes Guerras, só para citar alguns exemplos terríveis. Sobreviveu a todos eles e até prosperou, em vários aspectos impulsionada pelos males associados a essas crises.

Como diz o ditado, “depois da tempestade, vem a bonança”. Mas não dá para ficarmos esperando sentados que as nuvens se dissipem. Temos que fazer nossa parte, e isso inclui nos blindar da influência nefasta da lente de aumento do meio digital para o lado mais feio da vida.


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Claro que tivemos que enfrentar problemas sem precedentes para essa geração nos últimos anos, a começar pela pandemia de Covid-19, que afetou fortemente todo mundo. Não minimizo a gravidade disso ou do ódio que rachou nações inteiras, incluindo a brasileira. Mas precisamos colocar isso em perspectiva.

Hoje temos acesso a um volume de informações inimaginável há 20 anos. Os agentes que viabilizaram isso foram os smartphones e as redes sociais. Os primeiros atingiram uma quase onipresença, mantendo-nos permanentemente em contato com pessoas, serviços e conteúdos diversos. Já as redes sociais criaram uma eficientíssima plataforma para disseminar todo tipo de informação.

Em um primeiro momento, isso parece ótimo: podemos fazer mais e melhor quando somos bem-informados. Mas justamente aí reside o problema: a imensa maioria desse conteúdo é de baixa qualidade ou propositalmente distorcido ou mentiroso, as infames fake news, que já debatemos nesse espaço incontáveis vezes.

A imprensa profissional deveria servir como um porto-seguro contra os efeitos nocivos desse coquetel. Mas apenas recentemente está aprendendo a se posicionar nessa nova realidade informativa, depois de muita autocrítica, sofrimento e estudo. Lamentavelmente parte dela ainda não encontrou esse caminho ou deliberadamente se rendeu aos métodos questionáveis das redes sociais, em busca de audiência.

Esse é um embate desigual! A verdade muitas vezes produz notícias monótonas e até incômodas, pois ela é o que é. Já a mentira pode produzir conteúdos suculentos e alinhados com o que cada indivíduo deseja, pois não tem compromisso com os fatos.

É aí que a verdade sucumbe e os problemas se agigantam.

 

“Certezas” sobre o desconhecido

Esse acesso desmedido a informações boas e ruins, misturadas e sem identificação, nos dá “certezas” sobre tudo, como os bastidores da política, a melhor maneira de nos proteger de doenças e até a receita do bolo de fubá perfeito.

Que saudades do tempo em que éramos “apenas 200 milhões de técnicos de futebol”! Poderíamos estar agora debatendo na mesa de um bar os motivos da desclassificação do Brasil e do triunfo da Argentina na Copa do Mundo.

Tanta “certeza sobre tudo” nos torna intolerantes, alimentando inconscientemente esses monstros do cotidiano. A necessidade de se opinar em qualquer tema, mesmo sobre o que não temos ideia, pode transformar um singelo calango no Godzilla.

E aí salve-se quem puder!

Temos que identificar o tamanho real dos problemas e, para isso, precisamos de informações confiáveis. Elas definitivamente não vêm das redes sociais, e sim da escola, da ciência e da imprensa séria.

Nisso reside outro desafio dessa geração, pois os grupos de poder que se beneficiam da desinformação conseguiram plantar firmemente em parte da sociedade a ideia de que esses três agentes informativos não são confiáveis e devem até ser combatidos. Como toda atividade humana, eles não são perfeitos e têm seus interesses. Mas eles estão muito mais alinhados com as reais necessidades do público que estão as redes sociais ou aqueles que as usam para se beneficiar do caos.

Basta ver que, na semana passada, Elon Musk, que comprou recentemente o Twitter para (segundo ele), “garantir a liberdade de expressão na rede”, bloqueou na plataforma jornalistas que criticavam seus questionáveis métodos de gestão.

Impossível não recordar de Umberto Eco nessa hora. Em junho de 2015, ele disse que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis”, que antes “eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel”. Para ele, “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Quando Eco disse aquilo, as redes sociais eram muito mais saudáveis, antes de se tornar o atual espaço de manipulação e ódio. O escritor e filósofo italiano parecia ter antecipado todos esses problemas que estavam por vir.

Mas podemos reverter isso tudo!

O fim de ano é um momento de reflexão e de recomeço. É uma pena, mas os problemas não desaparecerão. Ainda assim, temos a oportunidade de dar menos ouvido a “idiotas da aldeia” e olhar os problemas com atenção. Se os virmos menores que o que realmente são, não daremos a eles a importância devida. Se os pintarmos maiores que a realidade, nunca destinaremos recursos e atenção suficientes para sua solução.

Unidos e com consciência e serenidade, podemos resolvê-los de maneira melhor e mais justa para todos.

 

Imagens inéditas geradas pelo Lensa, que usa inteligência artificial para criá-las a partir de outras fotos do usuário

Como nos defender das armadilhas da inteligência artificial

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Se alguém ainda tinha dúvida de como a IA (inteligência artificial) está disseminada em nossas vidas, dois sistemas movidos por essa tecnologia possivelmente acabaram com ela ao inundar as redes sociais nos últimos dias com conteúdo que produzem. O primeiro foi o Lensa e seus retratos estilizados de nossos amigos, e o outro foi o ChatGPT com textos incríveis que escreve a partir de simples comandos. De quebra, ambos escancararam como podemos pautar escolhas pessoais pelas sugestões da IA, às vezes sem ter plena noção disso. E essa nossa inocência esconde um grave problema, pois, apesar de os resultados dessa tecnologia parecerem incríveis, podem embutir falhas graves, que nós engoliremos alegremente.

Sou um entusiasta do que a inteligência artificial pode nos brindar nos diferentes campos do saber. Se bem utilizada, ela pode trazer ganhos que nos levarão a um nível de produtividade inédito. Mas precisamos dosar a euforia e entender que não existe almoço grátis.

Tudo porque a inteligência artificial não é inteligente de fato! Sim, esses sistemas efetivamente aprendem à medida que são usados e com seus próprios erros. Mas a qualidade de suas entregas depende do material usado para sua “educação” e até da índole de seus usuários. Assim como acontece com uma criança, se ela for mal instruída, repetirá tudo de ruim que tiver aprendido.

A diferença é que, ao contrário da criança com seu alcance limitado, plataformas com inteligência artificial mal instruídas podem influenciar negativamente milhões de pessoas com isso.


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Em setembro, a IBM divulgou um estudo global que indicou que 41% das empresas brasileiras já adotam IA. Ironicamente, muitas não sabem disso, porque ela está por trás de aplicações que se tornaram corriqueiras. E, da mesma forma que a inteligência artificial se presta a criar inocentes retratos a partir de outras fotos, pode ser o motor de sistemas empresariais para se tomar decisões de milhões de reais.

Há um outro aspecto que não pode ser ignorado: a IA também está no coração de incontáveis aplicativos em nossos smartphones e nas redes sociais. E, como já debatemos nesse espaço incontáveis vezes, essas plataformas têm um incrível poder de nos influenciar.

Em outras palavras, uma IA “mal orientada” pode não apenas nos fazer perder muito dinheiro, como ainda provocar diferentes danos no âmbito pessoal.

Não entendam isso como uma visão apocalíptica da tecnologia. Pelo contrário, a inteligência artificial quase nos dá “superpoderes”, ou pelo menos habilidades que nós eventualmente não tenhamos, como tirar uma foto incrível, escrever um texto brilhante ou evitar grandes riscos nos negócios. Entretanto, precisamos estar atentos para não achar que ela é infalível.

Há ainda um aspecto profissional a ser considerado. Com sistemas tão sofisticados cuspindo sensacionais fotos, textos ou contratos (só para ficar em alguns poucos exemplos), fotógrafos, escritores e advogados estão com seus empregos sob risco?

Por enquanto, isso não acontecerá por dois motivos. Em ambientes corporativos, essas plataformas acabam sendo usadas principalmente para mastigar grande quantidade de informações específicas para produzir um resultado de qualidade. Mas ainda é necessário um profissional que entenda do assunto para dar os comandos aos sistemas e confirmar suas entregas, fazendo eventuais correções de rumo. São necessárias ainda pessoas que produzam os conteúdos “originais” que os alimentarão.

Na verdade, uma nova profissão pode surgir disso: os “prompt designers”, capazes de extrair o melhor dessas plataformas. E eles também precisam de conhecimento na área do saber que o sistema trabalho. Fazendo uma analogia, é como comparar alguém que sempre consegue boas respostas do Google porque sabe fazer boas perguntas com a maioria dos usuários, que só recebem as páginas mais óbvias.

 

Máquinas preconceituosas

Há ainda um ponto de atenção central nessa tecnologia: os vieses que ela pode desenvolver. Sim, uma máquina pode verdadeiramente se tornar preconceituosa! Tanto que esse foi um dos temas centrais do World Summit AI Americas, um dos maiores eventos do setor no mundo, do qual participei em maio, em Montréal (Canadá).

Como disse anteriormente, para sistemas de IA oferecerem boas respostas, eles precisam ser ensinados com bons conteúdos e por bons usuários. Quanto pior qualquer um deles for, piores serão os resultados. E isso vale também para preconceitos.

Um exemplo clássico são sistemas de recrutamento profissional com inteligência artificial. Eles analisam milhares de currículos e escolhem poucos candidatos que seriam os mais adequados para que o RH os entreviste. Se, a cada contratação, o sistema identifica que os recrutadores humanos nunca escolhem alguém com mais de 40 anos, ele passará a indicar apenas candidatos até essa idade. Ou seja, o sistema terá incorporado o preconceito dos recrutadores contra profissionais mais velhos.

Outro tipo de viés desses sistemas pode ter efeitos nefastos na autoimagem das pessoas. Filtros do Instagram e do TikTok, e o próprio Lensa já foram acusados de gerar imagens com a pele mais clara e lisa do que as pessoas realmente têm, com rostos mais simétricos e magros, com narizes mais finos e lábios mais carnudos e até com aparência mais jovem. Dessa forma, reforçam ideais de beleza, às vezes inatingíveis.

Muitas pessoas, especialmente mulheres, têm pedido a cirurgiões plásticos para ficarem como vistas nesses aplicativos, mas isso não é possível, podendo causar enorme frustração com o próprio corpo. E isso dispara sinais de alerta e abre muitas reflexões.

Pode parecer irônico que uma tecnologia nos faça avaliar muito de nossa própria humanidade. Afinal, por que tanta gente criou suas imagens com o Lensa? Foi só um “efeito manada”? É um movimento egocêntrico ou narcisista? Foram mais uma vez controladas pelas redes sociais? Ou estão, de alguma forma, querendo “reescrever” sua própria realidade?

Qualquer que seja a resposta, a inteligência artificial ocupará um espaço cada vez maior em tudo que fizermos, conscientemente ou não. Ela realmente tem o potencial de fazer nossas vidas mais fáceis, divertidas, rápidas. Apenas não podemos usá-la para distorcer a realidade ou –pior ainda– sermos vítimas desses vieses e preconceitos. Precisamos conhecer e nos apropriar da tecnologia para algo bom, sem nos afastar do que somos!

Afinal, por mais que a realidade possa ser dura às vezes, é nela que temos nossas melhores experiências, que desencadeiam as verdadeiras transformações em nós mesmos. E é a partir delas que crescemos como indivíduos.

 

“Matemática ruim” e baixa identificação de jovens com TI fazem Brasil importar tecnologia

By | Educação | No Comments

Na semana passada, publiquei nesse espaço uma reportagem que indicava como o setor de TI no país “rouba” profissionais de outras áreas para suprir um déficit de formação universitária que pode passar de meio milhão de trabalhadores até 2025. Mas, se a procura é tão grande e essa área paga tão bem, é natural perguntar por que então não temos mais pessoas procurando por essas graduações.

Apesar de a pergunta ser simples, a resposta é complexa. A procura existe, os cursos estão cheios, entretanto poderia ser mais. Isso começa por um interesse relativamente baixo pelo aprendizado de Matemática, passa por questões culturais e familiares, choca-se com barreiras para grupos sociais nessas profissões e desemboca em um Ensino Médio Técnico que poderia suprir muitas dessas necessidades do mercado.

É uma combinação que demonstra como o problema é sistêmico, prejudicando profissionais, empresas e a própria sociedade. Os primeiros perdem oportunidades, as segundas pagam caro por trabalhadores e a última enfrenta o fato de que importa tecnologia ao invés de produzi-la nacionalmente, aproveitando a criatividade brasileira.

Da mesma forma que todos sofrem com o problema, a responsabilidade para sua solução precisa envolver a sociedade como um todo.


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“A escolha da profissão tem a ver, entre outras coisas, com o status social”, explica Ana Paula Gaspar, especialista em tecnologia e educação. “Falta uma dimensão subjetiva e humana na análise desses fenômenos sociais, porque as pessoas não escolhem apenas por conta de quanto vão ganhar.”

Segundo ela, não se pode esperar que jovens se decidam por uma graduação de Engenharia se eles não tiverem acesso a produtos com boa engenharia. “Então é muito natural que uma criança deseje mais ser youtuber que astronauta, porque tem a ver com o que ela consome”, explica. “E há esses dados escabrosos que mostram que muitos ainda têm dificuldade de estar no mercado de trabalho por conta de preconceito de classe ou de raça”, acrescenta.

“É um pressuposto equivocado da cultura brasileira de que o profissional, para trabalhar, precisa sair do ensino universitário”, afirma Marcelo Krokosc, diretor do Colégio FECAP, em São Paulo. Segundo ele, países da América do Norte e da Europa têm um Ensino Técnico muito valorizado, que supre parte da demanda por profissionais. “O aluno que faz o Ensino Técnico sai preparado para o mercado de trabalho com 17 anos, porque já veio aprendendo aquilo que tem interesse”.

Alunos de cursos técnicos de TI levam vantagem se prosseguem na área no Ensino Superior. David de Oliveira Lemes, diretor da Faculdade de Estudos Interdisciplinares da PUC-SP, explica que muitos deles chegam com uma maturidade em Matemática e aspectos técnicos que os demais estudantes não costumam ter. “Já passaram por alguns percalços, já ‘sofreram’ com programação, com Matemática, com Lógica”.

O aprendizado deficiente em Matemática acaba atrapalhando na escolha e no desenvolvimento nessas carreiras. “A educação matemática no Brasil é muito pobre: entre alunos que saem do Ensino Médio, apenas 5% têm a proficiência necessária para essa etapa”, explica Gaspar.

“Nos anos iniciais, a escola deve manter o interesse pela Matemática da mesma forma como mantém pela alfabetização”, afirma Krokosc. Ele conclui que “as famílias devem vibrar quando o filho lê uma palavra, mas também quando faz uma conta”.

Gaspar explica que essa baixa qualidade matemática no país se deve a como ela chegou por aqui, por uma influência francesa de uma “matemática pura”, sem ser aplicada e com a “matemática do dia a dia” desvalorizada. “Se a matemática que chega na escola está muito distante da realidade dos alunos, é um problema”, conclui.

 

Novos caminhos

Lemes acredita que a nova BNCC –a Base Nacional Comum Curricular, o conjunto de regras que determina como escolas devem organizar seus currículos e propostas pedagógicas– pode melhorar o ensino da disciplina. Ele explica que, “com ela, os professores precisam aplicar a Matemática em situações dentro e fora da escola, não só naquele contexto da Matemática pura”.

Isso não pode ser encarado apenas como um problema escolar. Esses desafios afetam a sociedade em geral e todos precisam se unir para sua solução.

“A responsabilidade do governo é a formulação de políticas públicas, e a das instituições de ensino é a oferta, quantidade e qualidade de vagas”, explica Gaspar. Ela afirma que “o mercado ‘lava as mãos’ para a formação, porque acha que seu papel é dar emprego, fazer negócios e gerar renda”.

Mas essa é uma visão míope e ultrapassada, especialmente em uma área tão dinâmica quanto TI, em que o conhecimento envelhece muito rapidamente. Por isso, as empresas devem cuidar da formação contínua de seus profissionais.

Gaspar sugere que um profissional só poderia ser considerado sênior e fosse capaz de formar outras pessoas, mas isso hoje não é feito. “Daí fica todo mundo roubando sênior de todo mundo, ao invés de formar júnior”. E conclui: “se as pessoas não forem parte do resultado das empresas, a gente nunca vai sair desse buraco.”

Não há outro caminho viável: qualquer que seja a sua profissão, se você quiser continuar relevante no mercado, precisará continuar estudando até o último dia. Por outro lado, precisamos ajudar crianças e jovens a desenvolver as competências necessárias, tanto em linguagem, quanto em Matemática. Além disso, precisamos dar a eles exemplos e modelos para que façam escolhas profissionais conscientes.

Se apresentada do jeito certo, a Matemática pode ficar até mais divertida. “É muito interessante ver um aluno com o cubo mágico na mão ao invés do celular”, sugere Krokosc. Precisamos dela para uma leitura crítica do mundo e uma vida melhor.

“Fala-se que vai faltar muito programador, mas para qualquer profissão hoje, para ser cidadão no mundo, é preciso ter fluência em competências digitais”, afirma Gaspar. E não adianta que apenas um pequeno grupo social atinja isso, ou a sociedade não se desenvolverá plenamente, nem diminuiremos nossa dependência tecnológica de fora. Como diz Lemes, “a gente tem que ser o produtor de conhecimento!”

 

Mercado de TI sofre com baixa diversidade nas equipes, dominadas por homens brancos

Setor de TI “rouba” trabalhadores de outras áreas para compensar déficit profissional

By | Tecnologia | No Comments

A oferta de empregos de tecnologia vem crescendo de maneira mais acelerada que a de outras áreas no Brasil. Até agosto desse ano, o segmento cresceu 5,1% comparado ao fechamento de 2021, frente a 3,7% de todos os setores. Isso acirra a disputa por talentos em um mercado onde literalmente sobram vagas e para o qual as universidades não conseguem suprir suas demandas.

Com isso, empresas do setor investem na formação dos profissionais que necessitam e até os “roubam” de outras áreas, oferecendo capacitação e condições atraentes para quem tope fazer uma transição de carreira. ONGs e as próprias universidades também investem em capacitações pontuais para diminuir esse déficit e evitar que o setor entre em crise.

Até o momento, isso tem sido suficiente, mas a demanda cresce de forma exponencial. Por isso, não há garantia de que esses movimentos continuem “tapando o buraco” de um segmento cada vez mais crítico para a sociedade. Além disso, eles não resolvem uma dor histórica da área, que é a baixíssima diversidade entre os profissionais, o que leva a entregas menos alinhadas com o que o mercado precisa.

Uma pergunta que surge naturalmente é: se há uma demanda explosiva por esses profissionais, por que o Brasil não consegue formá-los?


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Esses dados fazem parte de um levantamento recente feito pela Brasscom, a associação das empresas de TI e comunicação. Em dezembro, outro estudo da entidade apontou que o mercado brasileiro demandará 797 mil profissionais de TI entre 2021 e 2025, mas nossas universidades formam apenas 53 mil pessoas no setor por ano. Ou seja, se o país depender apenas dessas graduações, faltará mais de meio milhão de profissionais até 2025.

“Já era para a gente ter colapsado, mas não é o que está acontecendo”, afirma Sergio Paulo Gallindo, presidente da Brasscom. Para esse ano, o estudo previa uma demanda de 132.765 profissionais de TI, o que está se concretizando. E a demanda vem sendo atendida. “São profissionais de outras áreas, profissionais que já estão em cursos superiores e fazem uma capacitação em programação, passam por um processo seletivo e pegam um estágio ou um trabalho”, explica Gallindo.

Essa demanda, entretanto, cresce exponencialmente. Para 2025, o cálculo é de que sejam necessários 206.940 profissionais de TI. Para o executivo, a solução paliativa que está funcionando hoje pode não dar conta daqui a pouco: “a gente tem um dever de casa gigantesco para esse negócio não colapsar”.

Não adianta ficar apenas tentando alargar a saída do funil se, na sua boca, ele capta poucas pessoas para o setor. “No Ensino Básico, a gente incentiva pouco essa curiosidade pela ciência, pela engenharia, pela matemática, deixando de criar a vontade no adolescente de buscar uma faculdade nisso”, sugere Gustavo Bodra, CTO da StartSe. “E, se não há demanda, as universidades não criam mais cursos”, conclui.

Se a digitalização de negócios e de nossas vidas já crescia de maneira rápida antes da pandemia, ela fez com que isso explodisse. É como se todas as empresas, de repente, passassem a ser também uma empresa de TI. Para Bodra, “quem ainda pensa que não é, seu concorrente vai passar na frente”.

“Houve esse boom e o mercado de tecnologia como um todo não conseguiu formar pessoas na mesma velocidade”, explica Fernanda Saraiva, diretora de RH da SAP Brasil. Ela acrescenta ainda outro fator para a oferta insuficiente: muitos jovens entram nas faculdades, mas não as concluem porque não conseguem pagar. “Daí fica todo mundo pescando no mesmo aquário para conseguir profissionais”.

“O interesse dos jovens por carreiras de tecnologia é um dos mais baixos”, afirma Gallindo. Quanto à evasão, o estudo da Brasscom aponta que, para graduações presenciais na área tecnologia, chega a 32%. “E ela afeta muito as camadas menos favorecidas, onde você encontra negros e negras”, explica.

 

Baixa diversidade

De fato, o setor de tecnologia no Brasil é fortemente dominado por homens brancos, longe de refletir a diversidade da população. Segundo o Censo do Ensino Superior de 2019, realizado pelo INEP, ligado ao Ministério da Educação, as mulheres são maioria no ensino superior no Brasil, respondendo por 56,1%. Mas se considerarmos apenas as carreiras de tecnologia, essa porcentagem desaba para apenas 14,8%. Além disso, para cada estudante negro, há seis estudantes brancos.

“A diversidade nesse mercado vai fazer com que ele tenha uma visão mais holística para soluções de tecnologia que permitam atender a sociedade tão diversa na qual nós vivemos”, explica Cecília Marshall, fundadora do projeto Ser Mulher em Tech, que incentiva meninas a escolher carreiras no setor. “A liderança feminina traz um olhar diferenciado, como se pôde ver na gestão da pandemia, em que países liderados por mulheres tiveram resultados mais positivos”, acrescenta.

De fato, para um setor que respira inovação, ter equipes em que todos são iguais tende a piorar o negócio. “Não tem forma melhor de inovar que trabalhar com diferentes pontos de vista”, afirma Saraiva.

Gallindo acrescenta que as habilidades para tecnologia são equivalentes em todos os gêneros e raças. O predomínio de homens brancos no setor deriva, portanto, de aspectos culturais e econômicos.

Todos eles afirmam que políticas públicas de ensino devem incentivar o gosto pela área entre os jovens e patrocinar a diversidade, mas as empresas têm um papel decisivo nesse processo. Elas devem não apenas apoiar as escolas e os professores, como também os estudantes. E isso pode ser feito com capacitações, bolsas de estudo e iniciativas que mostrem aos jovens que matemática e ciências podem ser divertidas, e têm o poder de mudar o mundo, mas em linguagens que eles entendam. Dentro de casa, as companhias precisam criar métricas de diversidade e promover modelos de liderança com mulheres e negros: eles servem para inspirar jovens desses grupos que pensam em abraçar essas carreiras.

É um dilema enorme e complexo, mas que precisa ser discutido, em busca de uma solução. O mercado exige profissionais mais completos em todos os setores. Se, de um lado, profissionais de TI não podem mais “fugir”, por exemplo, de habilidades de comunicação, os de Humanidades precisam aprender aspectos técnicos para se destacar.

Essa é uma incrível oportunidade, pois a combinação desses recursos cria uma sociedade melhor, o que tem muito valor para quem deseja crescer no mercado. Todos devem, portanto, se envolver no incentivo dos jovens e no fomento à diversidade.

 

“Horizon Worlds”, plataforma de metaverso que a Meta vem desenvolvendo, mas cujos próprios funcionários usam pouco

O que falta para o metaverso deixar de ser uma promessa

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As big techs estão ocupando grande espaço no noticiário nas últimas semanas, por causa de seus problemas e demissões: a Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp) mandou embora 11.000 pessoas, a Amazon 10.000 e o Twitter perdeu algo como 5.000 funcionários (entre os demitidos e os que pediram para sair). Esse último é o que tem feito mais barulho, por causa do estilo midiático de seu novo dono, Elon Musk. Mas o maior deles é o que pode nos afetar mais diretamente, com o metaverso idealizado por Mark Zuckerberg.

Apesar de o CEO da Meta ter prometido uma revolução há um ano e ter investido mais de US$ 10 bilhões na sua visão de um mundo digital incrivelmente imersivo e poderoso, sua entrega até agora foi mínima e decepcionante. Tanto que os investidores não o perdoaram, fazendo com que a empresa perdesse três quartos de seu valor de mercado no período.

Afinal, o que falta para o metaverso “virar”, tornando-se uma realidade na vida de todos nós? A resposta passa por entender que essa não é uma mudança essencialmente tecnológica, e sim cultural. O ser humano não pode ser retirado dessa equação.


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Isso ficou claro para mim no sábado, enquanto participava do painel “Comunicação, marcas e aspectos jurídicos no metaverso”, no Expo Metaverso. O conceito foi cunhado em 1992 por Neal Stephenson, no livro “Nevasca”. De lá para cá, apareceu em várias plataformas digitais, sendo a mais popular o Second Life, lançado em 2003.

Apesar dessa longevidade, poucas pessoas entendem o que ele realmente é e menos gente ainda está nele. E isso acontece porque esses sistemas, apesar de tecnicamente disruptivos, acabam oferecendo uma experiência ruim, ou pelo menos pior que alternativas já disponíveis, como sites, aplicativos e redes sociais.

O próprio Second Life é um exemplo emblemático. Desde sua concepção, era bem construído, sendo incrivelmente poderoso e flexível na sua proposta. Mas sempre exigiu computadores robustos para funcionar bem. Como poucas pessoas conseguem atender esse requisito, usar a plataforma chega a ser torturante para alguns, pela lentidão com que, por exemplo, seus avatares se movimentam ali.

Para essas pessoas, é melhor investir o tempo em uma experiência que, mesmo sendo mais limitada, entrega o que promete e de maneira divertida, como as redes sociais. As próprias marcas entenderam isso, migrando toda sua atenção para essas plataformas mais eficientes, onde podem, ademais, fazer negócios com o público.

Entretanto, desde que Zuckerberg deu com a língua nos dentes em outubro do ano passado, apontando todos seus recursos para o metaverso, muitas empresas começaram a olhar para as incríveis possiblidades que ele oferece, e voltaram a investir em diferentes plataformas para criar novos canais com seus clientes.

Ainda não vi nada que pudesse ser considerado um sucesso de massas, mas esse movimento é válido. Afinal, se quisermos chegar a algum lugar, precisamos nos mover. E essas empresas estão fazendo isso.

 

Fugindo das caixas pretas

O norte-americano Henry Jenkins, professor da Universidade do Sul da Califórnia e considerado um dos maiores pesquisadores de mídia do mundo, forjou um conceito que se aplica muito bem para essa dificuldade de o metaverso “vingar”: a “falácia da caixa preta”.

Em seu best-seller “Cultura da Convergência” (publicado originalmente em 2006), Jenkins explica que há uma fantasia no mercado de que diferentes mídias convergirão e serão transformadas por um único dispositivo agregador, que ele chamou de “caixa preta”. Mas, segundo ele, “parte do que faz do conceito da caixa preta uma falácia é que ele reduz a transformação dos meios de comunicação a uma transformação tecnológica, e deixa de lado os níveis culturais que estamos considerando aqui.” E conclui: “tecnologias de distribuição vêm e vão o tempo todo, mas os meios de comunicação persistem como camadas dentro de um estrato de entretenimento e informação cada vez mais complicado.”

Os criadores do metaverso precisam prestar mais atenção nisso. Vale notar que as redes sociais nasceram mais ou menos na mesma época que as primeiras plataformas de metaverso e transformaram o mundo, tornando-se parte indissociável de nossas vidas. Em grande parte, esse sucesso se deve ao fato de que, apesar de se viabilizarem com tecnologias e conceitos muito inovadores, elas sempre colocaram o foco no benefício que traziam às pessoas. Tudo isso de uma maneira extremamente fácil e funcionando até em computadores e smartphones bastante simples.

Para o metaverso abandonar de vez seu aspecto experimental, precisa então se demonstrar útil não na perspectiva de quem cria as experiências, mas na do público que espera cativar. E isso deve funcionar nos equipamentos que todos nós já temos, e não apenas em óculos de realidade virtual que custam centenas de dólares.

As possibilidades que ele traz são imensas, em terrenos como trabalho, estudo, diversão e até relacionamentos. E é importante que fique claro que não se trata de substituir as experiências presenciais por equivalentes virtuais, e sim a chance de se fazer coisas que a distância e até a física não permitem, como manipular versões digitais de objetos com times distribuídos por vários países.

Há muitos riscos também, que não podem ser ignorados. Uma realidade virtual tão poderosa pode diminuir nossa capacidade de distinguir entre o presencial e o virtual, “enganando” nosso cérebro para acreditarmos que a simulação seja real. E nosso corpo reage a isso! Em um cenário extremo, as pessoas poderiam começar a usar o metaverso como uma fuga das limitações da realidade, como se fosse uma droga.

Já discutimos amplamente esses benefícios e riscos nesse espaço. Afinal, por muito menos, passamos mais horas que deveríamos nas redes sociais, “viciados” na dopamina que elas estimulam nosso cérebro a produzir. Um metaverso realmente eficiente pode potencializar todas essas sensações para o bem e para o mal.

Resta perguntar se as empresas que criam essas plataformas estão se preocupando com isso tudo, ou estão apenas pensando nos aspectos tecnológicos e financeiros do metaverso. A maior delas, a Meta, não tem um bom histórico de cuidado com seus usuários, como ficou claro no ano passado, no escândalo dos “Facebook Papers”.

Quanto a nós, os usuários, precisamos estar atentos! Quando (e não “se”) o metaverso realmente se tornar um fenômeno de massas, precisaremos aprender a tirar o máximo proveito de seus recursos, sem cairmos nessas armadilhas. O ser humano não pode ser ignorado nessa poderosa “caixa preta”.

 

Elon Musk chegou ao Twitter carregando uma pia, em um trocadilho em inglês que significa “deixe isso afundar (“let that sink in”)

Megademissões expõem o poder e a fragilidade das redes sociais

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No dia 4, o Twitter demitiu sumariamente metade de sua força de trabalho global, algo como 3.700 funcionários. Cinco dias depois, foi a vez da Meta, empresa dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, colocar na rua nada menos que 11 mil profissionais, equivalente a 13% de seu quadro no mundo. Isso vem deixando muita gente apreensiva com um possível novo “estouro da bolha ponto-com”, como o que aconteceu no ano 2000. Afinal, esses números maiúsculos demonstram que mesmo empresas poderosíssimas são suscetíveis a erros de administração.

A diferença é que, no caso das plataformas digitais, se elas quebrarem, impactarão profundamente a vida de incontáveis usuários e empresas no planeta, fazendo com que a crise do ano 2000 se pareça a um soluço. Hoje, em um mundo hiperconectado, o cotidiano dessas pessoas –incluindo você– é muito ligado aos feeds dessas redes.

Entretanto, apesar da proximidade dessas megademissões, não vejo um novo “estouro de bolha” ou muito menos um caos no mercado de tecnologia. Sim, Meta e Twitter estão com problemas seríssimos –ainda que diferentes– que precisam ser resolvidos, mas é pouco provável que quebrem. O que há de comum entre elas é a íntima ligação de suas crises com suas respectivas lideranças.


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No ano 2000, eu trabalhava na America Online (AOL), a mais reluzente ponto-com que o mundo havia visto até então. Em janeiro daquele ano, a empresa iniciou a compra do grupo Time Warner, uma fusão de US$ 360 bilhões, a maior da história, criando um conglomerado que cobriria virtualmente todos os pontos da “nova” e da “velha mídia”.

Parecia o casamento perfeito, até que, dois meses depois, a “bolha ponto-com” estourou, motivada pela desconfiança do mercado com incontáveis negócios digitais que não passavam de ideias brilhantes, mas altamente deficitários. Muitos grandes nomes subitamente desapareceram, arrastando centenas de outras empresas.

As ações da America Online derreteram! Além disso, decisões empresariais equivocadas e a resistência das empresas originais da Time Warner ao novo modelo minaram a fusão, que acabou desfeita em 2009. A AOL sobrevive até hoje, com um modelo de negócios completamente diferente do daquela época. Em 2015, a Verizon comprou a empresa por US$ 4,4 bilhões e ela agora é uma sombra do que já foi.

Como se pode ver, ninguém está imune a más decisões e ao humor do mercado.

É o caso do “novo Twitter”, sob a direção de Elon Musk. Depois de uma conturbada aquisição da companhia por US$ 44 bilhões, concluída no dia 28 de outubro, as ações do homem mais risco do mundo e também CEO da fabricante de carros elétricos Tesla e da companhia aeroespacial SpaceX têm sido no mínimo polêmicas.

Suas primeiras decisões foram demitir por e-mail os principais executivos e metade dos funcionários da empresa, com o apoio de pessoas de seus outros negócios. Isso fez com que vários sistemas do Twitter parassem de funcionar, fazendo com que alguns demitidos fossem convidados a voltar. Mas o que se vê é o êxodo de mais funcionários e de anunciantes de peso. Além disso, outras decisões provocaram a explosão de notícias falsas na plataforma nesses dias.

Já o negócio de Zuckerberg vem sofrendo –assim como outros que dependem da publicidade online– com a crise americana e a guerra na Ucrânia. Além disso, o TikTok vem se demonstrando um concorrente implacável e mudanças nos controles de privacidade dos iPhones feriram profundamente o modelo de negócios da Meta.

Mas o maior problema tem sido sua incapacidade de avançar no metaverso, caminho em que Zuckerberg apostou suas fichas há um ano. Por isso, suas ações perderem 76% do valor no período, equivalente a US$ 730 bilhões! A Reality Labs, unidade de produtos do metaverso, apresentou sozinha um prejuízo de US$ 12 bilhões.

 

Negócios inchados

Zuckerberg fez um mea culpa, dizendo que exagerou no otimismo durante a pandemia, contratando mais gente que deveria. Esse é, de fato, um problema de muitas dessas empresas, que incharam com o distanciamento social e agora sofrem com um choque de realidade.

Outro exemplo é a Amazon, que viu suas ações caírem após o anúncio de lucros menores que o esperado, fazendo seu valor ficar abaixo de US$ 1 trilhão pela primeira vez desde o início de 2020. Com isso, no dia 3, a companhia anunciou que interromperia todas as contratações até segunda ordem e agora iniciou a demissão de dez mil funcionários.

Notícias assim amedrontam mercados, mas é uma situação bem diferente da “bolha ponto-com” do ano 2000. A crise atual impacta negócios firmemente estabelecidos e resulta de decisões ruins de suas lideranças, que podem corrigir seus rumos. Além disso, o mercado de tecnologia continua aquecido, com uma acelerada digitalização de negócios de todos os setores. Essa é uma excelente notícia para os profissionais da área, inclusive no Brasil.

O que se deve prestar atenção é que redes sociais não são empresas comuns. Como já explicado, qualquer movimento que façam tem o potencial de provocar grande alegria ou tragédias a seus bilhões de usuários, e isso não é um exagero. Nos últimos anos, em eleições ao redor do mundo (inclusive no Brasil), essas plataformas digitais foram decisivas para o abalo nas democracias, a partir de polarização da sociedade pela enxurrada de fake news e do discurso de ódio em suas páginas.

Por isso, o mundo está de olho em Elon Musk, que prometeu afrouxar os controles do Twitter sobre o conteúdo publicado na plataforma, em nome de sua ideia de “liberdade de expressão”. Até agora, o que se viu com suas atabalhoadas decisões foi o aumento de desinformação em torno das “eleições de meio de mandato”, que elegeram governadores, senadores e deputados nos EUA na terça passada.

Musk levou os carros elétricos a um novo patamar e criou o conceito de corrida espacial privada, que são feitos memoráveis. Mas pode descobrir que o impacto de centenas de milhões de usuários na sociedade pode representar um desafio muito mais difícil de ser superado.

Quanto a nós, os referidos usuários tão dependentes dessas plataformas, precisamos entender que estamos na mão dos algoritmos. Temos que aprender a nos beneficiar deles, mas não de uma maneira umbilical. Afinal, mesmo que hoje brilhemos nas redes, amanhã eles podem nos tornar irrelevantes online. Sem falar que as próprias empresas podem desaparecer, com ou sem estouro de bolha.

 

Congresso Nacional ao amanhecer

Como diminuir o discurso de ódio

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A eleição passou, a apuração foi concluída e todas as autoridades (cada uma a sua maneira) reconheceram os resultados. Isso seria mais que suficiente para que o processo democrático prosseguisse normalmente. Mas, em um cenário inédito desde a redemocratização do país, parcelas da população se recusam a aceitar os vencedores e ocupam espaços públicos e as redes sociais, exaltados em um ódio que não pode ser ignorado como se fosse birra infantil.

Esse descontentamento tem um considerável potencial de destruição da sociedade. Ele está instalado nesses corações, que entendem que, em nome de sua liberdade e de seus valores, podem, por exemplo, obstruir estradas ou fazer uma perseguição na rua empunhando uma arma. Submete-se, assim, a ordem pública ao que consideram “certo”.

Leis existem para manter a sociedade funcionando, por isso não podem ser ignoradas por conveniência pessoal. O discurso de ódio, disseminado pelo meio digital, é o combustível dessa anarquia. E isso se agrava porque aqueles que se indignam com essas ações inconscientemente aumentam a fervura desse caldeirão, ao usar as mesmas plataformas digitais para distribuir muita ironia e mais ódio.

As redes sociais servem assim a uma “espiral da morte” que traga o Brasil para um caos que só beneficia uns poucos, que vivem dessa desunião. Por isso, se desejamos reencontrar o crescimento, temos que desarmar todos os lados desse conflito.


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Nada disso aconteceu de uma hora para a outra. Tudo é resultado de um processo consistentemente construído ao longo de anos, um storytelling político eficiente que criou uma conexão genuína entre essa parcela da população e diferentes grupos de poder. Os valores e crenças dessas pessoas foram usados para que, sem se darem conta, fossem transformadas em soldados que defendem cegamente seus líderes.

O storytelling é um recurso amplamente usado no marketing e na construção de roteiros de filmes, séries e livros. Essa técnica cria estruturas narrativas com elementos intrínsecos da cultura de um grupo social para construir um vínculo tão forte, que as pessoas compram essas ideias como se fossem suas.

Uma campanha de marketing pontual não tem tempo para criar uma conexão muito forte. Mas, quando o público é bombardeado continuamente por uma mensagem consistente ao longo de anos, essa ligação pode se tornar inquebrantável, manifestando-se nos mais diferentes aspectos da vida do indivíduo.

Além dos casos já citados, ao longo da semana passada assistimos a muitas outras atitudes que beiram o bizarro, até mesmo na educação, onde deveria primar o debate sadio e o domínio da ciência. Por exemplo, um dia após a eleição, uma professora doutora em química da Unifap (Universidade Federal do Amapá) enviou mensagens a dois alunos dizendo que eles deveriam buscar outro orientador, pois ela “não queria esquerdistas no laboratório”, concluindo que “ou estão comigo ou contra mim”. Depois de a reitoria da instituição repudiar a postura da professora, ela pediu desculpas publicamente, dizendo que “no calor das eleições, se excedeu nas palavras”.

Isso afeta também adolescentes e até crianças. Vários casos de agressões verbais e físicas, assédio e racismo foram relatados nessa semana. Os jovens replicam o posicionamento de seus pais, muitas vezes sem compreender o que estão fazendo.

Em um caso de grande repercussão, na noite de domingo, alunos do Colégio Porto Seguro de Valinhos (SP) criaram um grupo de WhatsApp chamado “Fundação Anti Petismo”, que chegou a reunir 30 adolescentes. Nele compartilharam mensagens de ódio contra petistas, nordestinos, negros e mulheres, além de fazer apologia ao nazismo. Ainda propuseram uma “reescravização do Nordeste”, e fizeram ofensas racistas e ameaçaram um colega negro que havia declarado apoio ao candidato Lula. A escola acabou expulsando oito alunos envolvidos no caso.

Que país podemos esperar no futuro, quando suas crianças são criadas com ódio já na mamadeira?

 

A Jornada do “Herói”

Outro recurso amplamente usado por roteiristas também foi adaptado pela política: a “Jornada do Herói”. Trata-se de um conceito apresentado pelo mitólogo americano Joseph Campbell em 1949, em seu livro “O Herói de Mil Faces”. Após estudar diversas culturas em diferentes regiões e épocas, ele concluiu que existem elementos comuns a todas elas na maneira como as pessoas contam histórias. Logo, conteúdos construídos dessa forma têm muito mais chance de convencer o público, pois aquilo faz parte de um inconsciente coletivo.

Mas nem sempre o “herói” da jornada é mesmo um herói. Políticos e seus marketeiros descobriram como usar esse recurso, extremamente amplificado pelas redes sociais, para convencer grande parte da população de que eles são aqueles que os “salvarão”.

Nessa “Jornada do Herói” distorcida, em um mudo dominado pelo conflito, quando nos deparamos com alguém que pense diferentemente de nós e daqueles em quem acreditamos, ela serve para reforçar como “estamos no caminho certo”. E o resultado disso é ainda mais conflito, retroalimentando o processo.

Cria-se um “vilão” a ser destruído, em uma eterna narrativa de “luta do bem contra o mal”. Elementos masculinos, como a força, a virilidade e a violência se sobrepõem aos femininos, como a empatia, o cuidado e a visão do todo. Não há espaço para informações que contradigam o “herói”, e vozes dissonantes devem ser silenciadas.

Não adianta substituir um desses “heróis” por outro. Temos que tirar esse caldeirão do fogo, e isso implica em todos pararem de atacar, ironizar ou desprezar os demais. Entendo que seja isso complicado, pois pode ser entendido como “baixar a guarda” para novos ataques e crescimento dos oponentes. Além disso, os diferentes grupos políticos precisam criar líderes com propostas construtivas, afastando os “salvadores da pátria”. Esses são desafios que a sociedade precisa abraçar, sob o risco de nunca conseguir romper esse ciclo destrutivo.

As redes sociais, como via de disseminação do discurso de ódio, têm um papel central nesse processo. Elas precisam se engajar efetivamente nele, encontrando maneiras automáticas ou manuais de eliminar de suas páginas ataques e fake news. Por isso, preocupa a aquisição do Twitter por Elon Musk, que disse que afrouxará esses controles na plataforma, em nome de uma “liberdade de expressão” liberticida.

A escola também é peça fundamental nesse renascimento da nação. É um grande equívoco dizer que o ambiente escolar não deve falar de política. Pelo contrário: o debate construtivo e com ideias diversas deve fazer parte do currículo. Países europeus que fazem isso estão criando jovens mais conscientes de deveres e diretos, tolerantes e autônomos. Exatamente o contrário do que vemos hoje no Brasil, especialmente em escolas particulares que bloqueiam a política por medo de perder alunos.

Se quisermos resgatar um país digno para todos, precisamos reaprender a conviver com o outro em todas as esferas da sociedade. Não há espaço para essas agressões mútuas.

 

Tomamos decisões racionais o tempo todo, mas elas são fortemente influenciadas por emoções, como sugere a animação “Divertida Mente”

Somos escravos de nossos desejos e medos

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Passamos pela eleição mais tensa de nossa história, com uma polarização radical que fraturou a sociedade brasileira. Apoiadores de ambos os lados ainda se perguntam como alguns de seus familiares, amigos e colegas, que “consideravam razoáveis”, defendem ideias “do outro lado”. Mas tentar entender isso com argumentos racionais é uma tarefa inglória, pois esses alinhamentos são emocionais, por mais que os próprios indivíduos não tenham consciência disso.

Somos guiados pelos nossos sentimentos! Estudo da Faculdade de Psicologia da Universidade da California em Berkeley (EUA) sugere que temos 27 tipos deles. Entre emoções dessa lista, como alegria, ansiedade, empatia, tédio e excitação, duas são fundamentais para compreender esses tempos complexos: o desejo e o medo.

Desejar não é apenas querer algo ou alguém. É algo muito mais intenso e visceral! É um sentimento extremamente poderoso, que nos impulsiona e nos faz tomar decisões. Já o medo funciona em sentido contrário. Ele nos paralisa e impede de fazer escolhas.

Políticos sempre tentaram manipular as populações para conseguir votos. Entretanto, de uns anos para cá, descobriram que, se conseguissem se concentrar nesses dois sentimentos, trocariam eleitores por soldados dispostos a defender seus ideais contra tudo e todos. Essa é uma prática extremamente perigosa, pois pode estraçalhar o tecido social. Ainda assim, fizeram isso sem pestanejar! E o resultado é o que vivemos hoje e ainda viveremos por muitos anos.


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Em 2015, a Pixar lançou sua memorável animação “Divertida Mente”, construída sobre esse conceito. Na história, todos os seres vivos teriam, em seus cérebros, cinco “pequenos indivíduos”, cada um deles representando uma emoção: a Alegria, a Tristeza, o Medo, a Raiva e o Nojo. Lá, teriam acesso a um “painel de comando”, que determinava como cada pessoa agia.

Nosso cérebro é fabuloso! Com ele, tomamos nossas decisões. Entretanto, por mais racional que uma escolha seja, ela pode ser profundamente influenciada por emoções, como se os sentimentos fossem ingredientes dela. Esse é, aliás, o princípio dos “gatilhos mentais”, recursos dos quais equipes de marketing vêm abusando nos últimos anos, para que consumidores “escolham racionalmente” produtos a partir de emoções “plantadas” em suas cabeças pelas campanhas publicitárias.

De volta à realidade um tanto distópica em que estamos imersos, as redes sociais desempenham papéis fundamentais para que os políticos manipulem as massas. O primeiro deles é ajudá-los a descobrir o que as pessoas desejam e do que elas têm medo em dado momento. Afinal, não é possível construir qualquer narrativa visando o controle de mentes se não souberem isso.

A outra função dessas plataformas é servir de veículo para disseminar, em gigantesca quantidade, suas mensagens. Elas são cuidadosamente produzidas para que as pessoas vejam, em determinado candidato, aquele que viabilizará seus desejos e os protegerá de seus medos. E seus algoritmos de relevância se prestam cinicamente a esse serviço sujo, pois as redes sociais lucram com a polarização.

Logo, quem domina o meio digital tem mais chance de transformar suas ideias em “verdades”.

 

O campo de batalha online

Faz todo sentido, portanto, que “pós-verdade” tenha sido escolhida como a palavra do ano de 2016 pelo renomado Dicionário Oxford. Pela sua definição, o termo é “relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais”. Ou seja, as pessoas hoje preferem acreditar naquilo que esteja em linha com seus desejos, por mais que seja uma invenção escandalosa.

Disso vêm as fake news. Elas deliberadamente mentem para que determinado grupo atinja seus objetivos, manipulando as emoções da população. E não se trata de simples boatos, pois são produzidas com método, impactando primeiro aqueles que gostariam que aquilo fosse verdade: isso aumenta seu engajamento inicial, o que leva os algoritmos das redes sociais a distribuir a mentira em grande quantidade.

A série “The Boys”, da Amazon Prime Video, ilustra isso muito bem. Nessa paródia das histórias de super-heróis, superseres fazem ações heroicas midiáticas nas redes sociais apenas para que a população os ame e, assim, compre todo tipo de produtos com suas marcas. Mas, em sua segunda temporada, surge uma personagem que percebe que obter o amor das massas é cada vez mais difícil e pouco produtivo. Ao invés disso, descobre que é mais eficiente manipular o ódio da sociedade. Para ela, é muito melhor ter soldados que fãs, e que cinco milhões de pessoas movidas pelo ódio são mais efetivas que cinquenta milhões com amor. Ela entendeu que não vivemos mais no mundo da cultura de massas, e sim da “viralização”.

Políticos que usam esse método trabalham com o medo da população, pois ele é capaz de travar as pessoas e deixá-las cegas. E, uma vez que elas ultrapassem determinado limiar de ódio e de medo, são facilmente controláveis, até mesmo pelo mecanismo do “apito do cachorro”: comandos que as demais pessoas não percebem, mas que são eficientes para agitar os “comandados” para executar as ordens de seus líderes. Basta observar como costumam seguir ações de maneira coordenada.

Dessa forma, chegamos ao atual cenário de uma nação devastada pelo ódio. Mas há esperança, e ela vem dos mais jovens. O estudo internacional “A nova dinâmica da influência”, divulgado em 22 de setembro pela consultoria americana Edelman, mostra que a Geração Z (pessoas hoje entre 14 e 26 anos de idade) é movida –e não paralisada– pelo medo. Isso demonstra uma percepção mais madura sobre essa poderosa emoção, que existe para nossa autopreservação. Por isso, 70% deles estão envolvidos em causas sociais ou políticas.

Os mais jovens querem resgatar a política como uma ferramenta de transformação social para um mundo mais justo e igualitário, com relações mais transparentes e honestas. Segundo o estudo, eles se preocupam com temas ligados à natureza, saúde, direitos humanos, justiça racial e igualdade de gênero. Esperam ainda que as empresas atuem como parceiras para que esses objetivos sejam atingidos.

Costumo dizer que a melhor maneira de anteciparmos o futuro é olhando para os jovens. Nesse sentido, é reconfortante observar esse comportamento da Geração Z.

Nossas emoções nos definem! Precisamos ter consciência de nossos sentimentos para aprender e crescer com eles, e não ser dominados a partir deles. Os mais jovens já estão fazendo isso. Você consegue também?