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Falta “inteligência natural” para termos uma melhor inteligência artificial

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Tudo que puder ser automatizado será! Costumo responder assim quando me perguntam se determinado setor será impactado pela IA (inteligência artificial). Mais cedo ou mais tarde, em maior ou menor escala, todo negócio será transformado por ela. A ironia é que isso só não acontece mais rapidamente por falta de “inteligência natural”, de profissionais capacitados para criar esses sistemas.

Apesar do avanço galopante da IA, chegando a um ponto em que as plataformas começam a se “autoprogramar”, ela ainda depende essencialmente de seres humanos para seu desenvolvimento. E com seu uso sendo disseminado para as mais diversas áreas, está faltando gente. No Brasil, essa situação chega a ser dramática!

O estudo “O impacto e o futuro da inteligência artificial no Brasil”, divulgado na semana passada pelo Google for Startups em parceria com a Associação Brasileira de Startups e a agência Box1824, indica que 57% dos gestores dessas empresas que trabalham com inteligência artificial acreditam que a falta de mão de obra qualificada é o que mais prejudica o seu crescimento no país.

Isso acontece porque as escolas formam poucos profissionais, e formam mal. Além disso, apesar de ser uma tecnologia que impacta a vida de todos, esse é um setor com pouquíssima diversidade, o que resulta em plataformas com vieses que comprometem a qualidade de suas entregas. E isso exige muita atenção de todos nós.


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Para o estudo, foram entrevistados profissionais de 702 startups no Brasil. Desse total, 71% afirmam que as escolas apresentam pouquíssimos exemplos de profissionais bem-sucedidos em tecnologia, e 41% dizem que educar e conscientizar o mercado sobre IA é o mais importante para o futuro dessa tecnologia no país. Além disso, para 39% dos entrevistados, a vulgarização do termo, com empresas que entregam soluções ruins no que dizem ser IA, prejudica uma adoção mais ampla pelo mercado.

Sobre a baixa diversidade nessas empresas, 49% delas não têm mulheres em cargos de liderança, assim como 61% no caso de pessoas negras, 71% de pessoas LGBTQIA+ e 90% de pessoas com alguma deficiência. Além disso, essas empresas estão fortemente concentradas nas regiões Sudeste e Sul, que englobam 92,7% do total. O Estado de São Paulo sozinho detém 51,9% delas.

Quando se fala de inteligência artificial, essa baixa diversidade não resulta apenas em um problema social. Esses sistemas precisam ser desenvolvidos e “calibrados”, o processo em que literalmente aprendem os parâmetros para oferecer respostas mais assertivas depois. E equipes homogêneas treinam mal as plataformas.

Por exemplo, se um sistema na área de RH começa a aprender que, de todos os candidatos que ele sugere, a maioria dos que acabam contratados é branca e com menos de 35 anos, ele tende a fazer mais sugestões que reflitam essas escolhas dos recrutadores, eliminando pessoas com mais de 40 ou negras. Ou seja, ele reproduz um viés da equipe. E isso acontece mais quando as equipes são pouco diversas.

Esse é o tipo de problema que não podemos ter, tamanha a crescente influência da inteligência artificial nas tomadas de decisões de pessoas e empresas, e os negócios que isso gera. Segundo estudo global da consultoria McKinsey, divulgado em outubro de 2018, ela deve gerar US$ 13 trilhões no mundo até 2030. Na América Latina, deve responder por um aumento de 5% no Produto Interno Bruto (PIB).

 

Mudança social

Mas há desafios que a sociedade precisa enfrentar para chegar a isso. Segundo a McKinsey, eles podem ser agrupados em três tópicos.

O primeiro é uma implementação consciente. Isso envolve o governo, pois empresas precisam ser incentivadas a desenvolver e adotar a inteligência artificial. Além disso, a sociedade precisa se beneficiar dela de forma ampla.

Outro ponto destacado é o impacto disso no mundo do trabalho. As escolas precisam formar mais profissionais qualificados nessa área. De acordo com levantamento da Brasscom, a associação das empresas do setor digital, o Brasil terá uma demanda de 797 mil profissionais de tecnologia até 2025, mas forma apenas 53 mil deles por ano. Não se pode esquecer como a inteligência artificial impacta diversos setores, impondo mudanças profundas em como as pessoas trabalham, e até extinguindo funções.

Por fim, há o desafio de uma IA responsável. A população não pode perder a confiança na tecnologia por problemas de vieses (como explicado anteriormente), falhas na privacidade de suas informações ou usos mal-intencionados por empresas ou governos. A inteligência artificial só prosperará se trouxer benefícios a todos.

Empresas, escolas, a mídia e até o governo precisam trabalhar para que as pessoas entendam a inteligência artificial como ela é, desmistificando os conceitos da ficção científica, de máquinas inteligentes capazes de fazer tudo, que eventualmente se voltam contra o ser humano. Na sexta, por exemplo, o Estadão publicou uma série de reportagens sobre inteligência artificial, que explica alguns dos mais poderosos sistemas hoje disponíveis.

Não dá para fugir do tema. Na quarta passada, participei de uma mesa-redonda promovida pela lawtech Doc9 durante a Fenalaw, o maior evento da área jurídica da América Latina. No cardápio da transformação digital do Direito, a inteligência artificial apareceu com força. Já existem diversos sistemas que agilizam enormemente tarefas repetitivas dos escritórios, com alto índice de acerto. Essa digitalização só não está mais avançada pelas resistências culturais dos gestores e pela falta de profissionais que consigam combinar as características dos mundos jurídico e digital.

A inteligência artificial não é uma panaceia, nem tampouco uma ameaça a empregos ou à própria vida (na visão apocalíptica da ficção). Ela é uma tecnologia com um potencial de provocar mudanças profundas na sociedade, oferecendo serviços inimagináveis até bem pouco tempo atrás. Mas, para que isso seja conseguido, precisamos fazer os movimentos aqui descritos.

Merecendo atenção destacada, a inteligência artificial elevará a produtividade e o crescimento econômico do mundo, mas milhões de pessoas terão que mudar de ocupação ou aprimorar suas habilidades. Isso exige atualizações na maneira de se fazer negócios e principalmente em políticas educacionais. E infelizmente nós estamos nos mexendo muito pouco, principalmente no último.

Se não fizermos os movimentos necessários, podemos enfrentar, em pouco tempo, um crescimento expressivo do desemprego e o surgimento de uma massa de “inempregáveis”, ou seja, pessoas sem capacitação para qualquer trabalho. Não podemos deixar que uma tecnologia com incrível potencial crie esses problemas.

Se isso acontecer, a culpa não será das máquinas: será de nós mesmos.

 

Na Semana da Criança, perderam os professores e ganharam as armas

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Na quarta passada, Dia da Criança, fiquei abismado quando a prefeitura de Uberaba (MG) montou com a polícia e com o exército, em um evento dedicado aos pequenos, um estande para lhes explicar como funcionam diferentes tipos de armas e bombas. As crianças até mesmo tocavam nos equipamentos.

Já no sábado, Dia do Professor, o Instituto Semesp fez um alerta de que essa profissão, historicamente tão maltratada em nosso país, passa por um momento dramático, com grave insuficiência de profissionais. A carreira há muito deixou de ser atraente pelos baixos salários, por condições deploráveis de trabalho e, de uns anos para cá, por uma abominável perseguição dos professores pelo governo, por pais e até por alunos.

Crianças são fortemente influenciadas pelos adultos, especialmente “autoridades”, como os pais, os professores e até a polícia. Se crescerem vendo que o contato com armas no cotidiano é corriqueiro, aceitarão uma sociedade mais violenta, onde desavenças podem ser resolvidas pela força.

Por outro lado, assistimos a pessoas desqualificadas e sem vocação assumindo o fundamental papel do professor, no espaço deixado por aqueles que seriam bons mestres, mas que foram afugentadas por um ambiente hostil e sem perspectivas. Um bom docente não ensina apenas a parte acadêmica: ele forma melhores cidadãos, mais humanos, empáticos, tolerantes, colaborativos e resilientes.

Diante disso, essa semana nos convida a refletir sobre quais são os exemplos que realmente interessam às crianças, para que cresçam de uma maneira saudável. E, em muitos casos, o que elas precisam difere daquilo que alguns adultos defendem, inflamados por temas do momento ou por uma visão limitada do mundo.


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Segundo a prefeitura de Uberaba, o objetivo do estande da polícia e do exército era “afastar o medo culturalmente imposto nas crianças sobre as forças de segurança”. Achei a justificativa estranha: por que a população teria medo de quem a deveria proteger? Mas infelizmente isso acontece, especialmente entre os mais pobres.

A iniciativa contraria o que educadores defendem há anos. Eles tentam até mesmo tirar armas de brinquedo das mãos das crianças, para construir uma sociedade menos violenta.

E, por falar em educadores, o alerta do Instituto Semesp se baseia em estudo divulgado na última semana de setembro, que indica que o Brasil enfrentará um déficit de 235 mil professores em 2040. Vale notar que, entre 2010 e 2020, os ingressantes nos cursos de Licenciatura aumentaram 61%, mas os formandos cresceram só 4%, indicando uma enorme desistência da carreira antes de se formar.

Outro ponto importante demonstra que a imensa maioria desses estudantes estão em cursos a distância (EAD), o que é temerário, pois professores que terão que lidar com crianças em salas de aula estão sendo formados fora de uma sala de aula. Além disso, boa parte dos formandos já atuam como professores, o que indica uma baixa qualificação de muitos docentes atuais.

Com isso, o Brasil corre sério risco de ficar sem professores, à medida que os existentes abandonam a sala de aula ou se aposentam, sem que haja reposição suficiente. Isso já está acontecendo: a rede estadual de São Paulo não conseguiu preencher todas as vagas de professores temporários para o Novo Ensino Médio.

Isso implicará em salas mais lotadas e professores ainda mais sobrecarregados, com evidente piora na qualidade do ensino.

 

Todos perdem

Não é possível conceber um futuro para o país sem mais e melhores professores, e que eles tenham liberdade para exercer sua carreira em paz e com apoio. Tal liberdade pode chocar alguns pais, pois os professores trazem visões diversas do mundo, o que não tem sido bem aceito por algumas famílias, um sinal de nossos tempos que está na raiz da perseguição sofrida pelos docentes.

Mas as crianças precisam dessa oxigenação nas ideias, e os professores são perfeitos para isso, pois conseguem ver seus alunos de uma maneira diferente e menos idealizada que seus pais. Dessa maneira, as crianças se desenvolvem melhor, com uma visão menos enviesada da vida.

Quando eu tinha 17 anos, entrei na Escola Politécnica da USP, no curso de Engenharia Elétrica. Era o que curso e a escola que eu havia escolhido, enchendo meus pais de orgulho. Mas sentia que algo me faltava.

Lembrei da minha professora de Língua Portuguesa do Ensino Médio, que dizia que eu não deveria ir para a engenharia, e sim para algo na área de Humanas. Então, quando eu estava no segundo ano na Poli, conversando com ela, incentivou-me a tentar uma vaga de trainee na Folha de S.Paulo, apesar de não ter nada que sugerisse que conseguiria. Mas o fato é que deu certo, e aquilo mudou minha vida profundamente!

Se tivesse continuado na engenharia, possivelmente teria progredido bem na carreira. Mas a mudança para o jornalismo foi um dos meus maiores acertos! Em um primeiro momento, aquilo desagradou meus pais, mas sou feliz e grato à minha professora por ter percebido minha vocação e me incentivado a persegui-la.

Coincidentemente na semana passada, assisti ao episódio “O flautista”, da série coreana “Uma advogada extraordinária”, da Netflix. Ele aborda o caso de um jovem que “sequestra” um grupo de crianças da escola de sua mãe para levá-las a brincar durante uma tarde, devolvendo-as felizes e saudáveis no fim do período.

O jovem apenas brincou com elas, sem nenhuma intenção obscura. Para ele, as crianças precisam brincar, ser saudáveis e felizes. Sua ação se deve a uma revolta com o estilo educacional da escola da mãe, em que as crianças precisam estudar diariamente por 12 horas, mal têm tempo para comer e podem ir ao banheiro apenas uma vez por dia. Ainda assim, acabou preso. Afinal, as atividades recreativas foram dadas sem a autorização dos pais, quando seus filhos deveriam estar estudando.

Claro que essa foi uma atitude extrema, ainda que bem-intencionada. Mas serve para a reflexão: afinal, do que as crianças precisam para se desenvolver? Estudar 12 horas por dia? Aprender como funcionam armamentos pesados?

Há o momento de estudar e o de brincar! Sem isso, seu desenvolvimento ficará prejudicado. O brincar é um treino para a vida adulta, por isso educadores defendem que as armas fiquem de fora.

Pais devem se aliar a professores, apoiando esses profissionais, para reforçar o respeito de seus filhos aos mestres. Isso não quer dizer que precisem concordar em tudo! Mas, no caso de divergências ideológicas, culturais ou acadêmicas com algo dito em sala de aula, os pais não devem simplesmente tentar cesurar ou ameaçar os professores. Pelo contrário, devem conversar com eles, entender seu ponto de vista e tentar encontrar um consenso. Além disso, os pais sempre podem apresentar seu ponto de vista aos filhos em casa.

Essa é uma maneira madura e positiva de colaboração entre pais e professores. E assim essas crianças crescerão com uma visão mais real e ampla do que é o mundo.

Crianças precisam ser crianças, e a educação deve sempre permitir isso.

 

Jovens esperam que empresas resolvam problemas da sociedade

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Costumo dizer que a melhor maneira de se “prever o futuro” é observando os mais jovens, em suas crenças e atitudes. Afinal, daqui a poucos anos, serão eles que conduzirão a sociedade. E esses jovens –representados agora pela Geração Z– desejam uma sociedade mais igualitária, diversa, preocupada com a natureza, e com relações mais transparentes entre pessoas e entre pessoas e empresas.

É um prognóstico animador. Esse pessoal, hoje entre seus 14 e 26 anos, traz também uma visão interessante sobre como chegar a isso: eles esperam que as empresas assumam um protagonismo na solução de problemas sociais, e estão dispostos a premiar com compras e fidelidade aquelas que adotem esse posicionamento.

Não se trata de um modismo e não é pouca coisa. O estudo internacional “A nova dinâmica da influência”, recém-divulgado pela consultoria americana Edelman, mostra que as pessoas estão tão preocupadas com seu país quanto com seu futuro pessoal, e os brasileiros lideram esse ranking, muito à frente da média global.

Além disso, na era da “economia da experiência”, em que estamos permanentemente online e com um acesso sem precedentes à informação, influenciamos e somos influenciados até por quem não conhecemos. E ninguém hoje tem um poder de influência sobre o que compramos e como nos posicionamos tão poderoso quanto a Geração Z.


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As empresas simplesmente não podem se dar ao luxo de ignorar isso!

No Brasil, 72% dos entrevistados afirmaram que compram de marcas em que confiam, mesmo se não forem as mais baratas, e 78% se disseram fiéis a essas marcas, até se algo der errado. Por outro lado, 59% dos brasileiros deixam de comprar de empresas em quem não confiam. Além disso, por aqui, 77% são mais propensos a comprar de marcas que se posicionam em temas ligados à saúde, 76% a direitos humanos e a justiça racial, 75% a mudanças climáticas e 64% a igualdade de gênero.

Na Geração Z, esses índices de compra e fidelidade são ainda maiores: 78% e 83% respectivamente. E os brasileiros premiam muito mais as marcas em quem confiam que os cidadãos dos outros países: essas médias globais são de apenas 58% e 67%.

O estudo da Edelman entrevistou pessoas de 14 países, incluindo o Brasil. Foram mais de 13.700 adultos com mais de 18 anos e mais de 6.700 adolescentes entre 14 e 17 anos, ouvidos entre maio e junho.

Outro aspecto apresentado pelo estudo é que os mais jovens influenciam fortemente como as famílias compram, como geram mudanças, sua cultura de trabalho e até suas finanças. Mas é interessante notar que essa influência também é muito grande sobre aqueles que não tem filhos.

De cada 10 brasileiros, 6 praticam ativismo ao escolher as marcas, chegando a 67% entre os membros da Geração Z. Por isso, 63% afirmam que as empresas devem facilitar que suas posições sobre esses temas relevantes sejam identificadas.

No final das contas, 6 em cada 10 brasileiros, especialmente entre 14 e 41 anos, veem as empresas como mais eficientes que o próprio governo para solucionar os problemas da sociedade.

 

Posicionamento nas redes

Quando uma parcela considerável da população passa horas nas redes sociais todos os dias, era de se esperar um papel crítico dessas plataformas em como as pessoas se posicionam. Assim, 74% dos brasileiros entendem que suas publicações podem mudar o mundo. E nós postamos muito! No Brasil, 74% dos integrantes da Geração Z fazem isso uma ou mais vezes por semana; 40%, uma ou mais vezes por dia!

Em seu livro “Marketing 4.0” (2017), Philip Kotler referiu-se a essas pessoas como netizens, um neologismo formado pelas palavras em inglês “net” (rede) e “citizen” (cidadão). O guru do marketing moderno os considera como “conectores sociais” e, segundo ele, “como netizens são mais visíveis do que outros usuários da Internet, exercem uma influência enorme”.

Atrair esse público torna-se, portanto, essencial para as empresas. A dificuldade é chamar sua atenção em um mundo inundado de informações que competem pelo nosso tempo. Para isso, muitas companhias já descobriram o papel dos influenciadores digitais e criadores de conteúdo. Mas a Geração Z está demonstrando que o que menos interessa nisso é a quantidade de seguidores ou de curtidas: o que lhes importa é a transparência, a sinceridade e o domínio do assunto.

Esses jovens podem até ser fãs, mas não colocam seus ídolos em pedestais. Pelo contrário, como conhecem o cotidiano desses criadores de conteúdo, percebem facilmente quando a mensagem tenta apenas promover um produto. Eles esperam que os influenciadores sejam especialistas no assunto e alguém que efetivamente use o produto. Por isso, esperam que suas recomendações sejam baseadas em experiências reais e que esses criadores de conteúdo lhes ensinem algo novo.

As marcas devem, portanto, escolher muito bem quem contratarão como influenciadores, pois a pressão aumenta à medida que se tornam mais transparentes na sua comunicação. Pode parecer contraditório, mas isso faz todo sentido quando se está querendo construir uma relação de mais qualidade. Os negócios bem-sucedidos nisso avançam na inovação e estabelecem a cada vez mais necessária confiança.

Os consumidores, com destaque aos da Geração Z, devem ser convidados a participar da criação de sua experiência com as marcas. Isso não quer dizer necessariamente trazê-los para o processo de produção: basta ouvir genuinamente o que têm a dizer. E, a partir dessa informação, os gestores devem ajustar seus produtos, seus modelos de negócios, sua comunicação e seu posicionamento social, indo muito além das próprias entregas, cuidando da sociedade.

No mesmo dia em que o estudo da Edelman foi publicado, o historiador israelense Yuval Noah Harari concedeu uma entrevista ao Estadão, por causa de seu mais recente livro, “Implacáveis: Como Nós Dominamos o Mundo”, curiosamente voltado para leitores a partir dos 9 anos. Em determinado momento, ele afirma que “se alguém realmente vai mudar o mundo, não são as pessoas que agora têm 50 anos, são as que agora têm 10”.

Ele está certíssimo! Os mais velhos estão “batendo cabeça” com temas desgastados, muitas vezes egoistamente manipulando as massas pelas redes sociais, apenas para ampliar seu poder, sem querer verdadeiramente melhorar a sociedade. Basta olhar a nossa volta no Brasil e no mundo.

Enquanto isso, os mais jovens querem propor mudanças tangíveis para problemas que realmente impactam nosso cotidiano e o futuro. E, como os governos (de qualquer ideologia) andam falhando miseravelmente nesses seus papeis, a Geração Z está dando às empresas a oportunidade de ocuparem um novo e valioso espaço.

Há esperança para um futuro melhor, afinal!

 

Inteligência artificial ajuda 41% das empresas brasileiras, mas muitas nem sabem disso

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Uma boa tecnologia é aquela que entrega o prometido de maneira tão integrada ao cotidiano, que as pessoas nem percebem sua existência (pelo menos até que ela falhe). É o caso, por exemplo, da rede de energia elétrica. Com a digitalização galopante da vida, a IA (inteligência artificial) começa a ocupar também essa categoria, com enormes benefícios para pessoas e empresas. Mas justamente por ser tão poderosa, precisamos estar atentos a seu crescimento.

Na quarta passada, a IBM divulgou um estudo global que indicou que 41% das empresas brasileiras já adotam IA em seus negócios. Considerando que o levantamento engloba representantes de todos os segmentos e portes, inclusive os pequenos, a porcentagem impressiona.

Ainda assim, não é absurda. Muitas companhias adotam essa tecnologia sem saber. Isso acontece porque a inteligência artificial está por trás de muitas aplicações que se tornaram corriqueiras no que fazemos. Nós a carregamos para todos os lados em incontáveis aplicativos em nossos smartphones, que só existem graças à inteligência artificial. Nas empresas, diferentes automações também bebem nessa fonte.

Não é pouca coisa! Tomamos decisões importantes apoiados nas informações oferecidas por essa tecnologia. Isso reforça a necessidade de não apenas estarmos conscientes de sua ação, como também de compreender seu funcionamento.


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A pesquisa global foi realizada pela consultoria americana Morning Consult para a IBM. Foram ouvidos 7.502 executivos com alguma influência sobre a área de TI de suas empresas, entre 30 de março a 12 de abril. Na América Latina (especificamente Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru), foram 1.000 entrevistas.

“Todo mundo teve que acelerar a digitalização com a pandemia, foi uma necessidade”, explica Marcela Vairo, diretora de software da IBM Brasil. “O uso de inteligência artificial foi um destaque, e o Brasil está bem, até se comparado a países mais avançados.”

Na América Latina, as empresas vêm usando a inteligência artificial para sistemas de segurança cibernética, e de conversação (linguagem natural), ambos indicados por 44% dos entrevistados. A tecnologia também aparece em 30% das empresas em plataformas de marketing e vendas, mesma porcentagem das que a usam para melhorar suas próprias operações de TI. A IA também está sendo aplicada para criar negócios mais sustentáveis. O estudo indicou que ela pode fornecer informações mais precisas ​​sobre fatores de desempenho ambiental (43%) e conduzir processos de negócios e operações mais eficientes (37%).

Além dos 41% das empresas brasileiras que já a adotam, 34% estão explorando seu uso. Isso vem sendo impulsionado por avanços que a tornam mais acessível às empresas (56%), sua crescente incorporação em aplicativos de negócios (48%) e a necessidade de reduzir custos e automatizar processos-chave (39%). Por outro lado, 29% dos entrevistados indicaram que os custos atrapalham sua adoção, seguidos pela dificuldade em implantar esses projetos (20%), a complexidade na gestão dos dados (17%) e o conhecimento na área (17%).

“A principal barreira hoje, não só para inteligência artificial, mas para todas as tecnologias, é mão de obra: tem muita gente aprendendo a programar, mas, mesmo assim, falta gente”, afirma Vairo. Essa observação está em linha com um estudo da Brasscom, a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais, divulgado em dezembro passado. Segundo a entidade, o Brasil terá uma demanda de 797 mil profissionais de tecnologia até 2025, mas forma apenas 53 mil deles por ano.

“O segundo ponto principal é o dado em si”, explica Vairo. “O dado é o combustível da inteligência artificial: se ele não estiver bem filtrado, o resultado final também não será tão bom.”

 

“Garbage in, garbage out”!

A inteligência artificial não faz milagres: se os sistemas não forem concebidos ou alimentados com dados de qualidade, suas conclusões serão ruins, levando a erros nas decisões cotidianas de empresas e de pessoas. Como se diz desde os primórdios da computação, “se entra lixo, sai lixo”.

A situação se agrava no caso da inteligência artificial, que tem, como uma de suas premissas, absorver gigantescas quantidades de informações para identificar e analisar padrões. “A máquina não é um ser humano, mas ela não só digere padrões”, explica a diretora da IBM. “Ela consegue aprender a partir dali, está evoluindo para o que a gente chama de ‘reasoning’, de ‘raciocinar’, algo mais que a análise fria do dado, com contexto.”

Aí reside a beleza e o problema da inteligência artificial. A máquina processa grande quantidade de informação, aprendendo o que é considerado o “certo” e oferecendo resultados cada vez mais assertivos a partir disso. Mas, para tanto, precisa ser programada e alimentada com bons dados. Caso contrário, ela pode desenvolver vieses ou preconceitos, que farão com que tire conclusões ruins.

Podemos fazer uma analogia com o aprendizado de uma criança. Se ela for constantemente exposta a exemplos ruins, aprenderá e reproduzirá isso quando crescer. Por exemplo, se ela for criada em uma família racista, existe chance de se tornar um adulto racista, pois o preconceito terá sido normalizado no seu cotidiano.

A preocupação da comunidade de tecnologia com os vieses na inteligência artificial é tão grande, que foi um dos assuntos que mais ouvi durante o World Summit AI Americas, um dos maiores eventos do setor no mundo, que aconteceu em maio em Montréal (Canadá). Na palestra de abertura, Cassie Kozyrkov, cientista-chefe de decisões do Google, sugeriu que essas plataformas precisam de regras para corrigir o rumo se algo der errado. “Você precisa testar rigorosamente e construir redes de proteção”, sugere.

Vairo destaca dois pontos a serem observados para minimizar o problema. O primeiro é a “explicabilidade” dos dados, para entender e cuidar da sua natureza. O outro é ter diversidade nas equipes que cuidam da inteligência artificial, para diminuir os vieses.

Essa questão ética é fundamental, até mesmo para balizar boas práticas e legislações. A partir do momento que a inteligência artificial determina os rumos dos mais diversos sistemas, e eles, por sua vez, são usados para que empresas e pessoas tomem decisões críticas, a máquina precisa dessa supervisão.

“A inteligência artificial não é mágica, não pode ler sua mente”, provocou Kozyrkov no Summit. Ela precisa dos seres humanos. Criamos uma parceria com as máquinas. Se quisermos que ela nos ajude, precisamos ajudá-la a aprender com bons exemplos, ou seja, dados de qualidade.

Se fizemos a nossa parte nesse acordo, a inteligência artificial pode nos oferecer grandes ganhos. Mas, se formos negligentes com a sua “educação”, ela pode aprender e propagar todo tipo de preconceito na sociedade.

 

Uma década de Tinder: o digital mudou nossos relacionamentos

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Onde é mais fácil conhecer alguém hoje: em uma festa ou em um aplicativo?

O Tinder, que acaba de completar uma década de “pegação”, não foi o primeiro e está muito longe de ser o único sistema para pessoas encontrarem parceiros. Ainda assim, ele se tornou referência na categoria e é o maior deles, tendo sido baixado mais de 530 milhões de vezes e viabilizado mais de 75 bilhões de “matches” nesses dez anos.

O sucesso dessas plataformas é inegável, desde que o pioneiro Match.com foi lançado em 1995. A chance de “atingir” uma enorme quantidade de pretendentes ao mesmo tempo e as ferramentas para se combinar interesses são vantagens claras. De uns anos para cá, a inteligência artificial e a geolocalização tornaram essas buscas ainda mais eficientes. Mas isso também desperta alguns questionamentos.

Esses recursos digitais teoricamente aprendem nossos gostos, para fazer ofertas cada vez mais assertivas. Nós, por outro lado, confiamos no julgamento da máquina. Mas qual a garantia de ela está certa? Além disso, estamos entregando a escolha de nossa “alma gêmea” a um software, abrindo mão de uma característica essencial de nossa humanidade.

Tudo isso “queima etapas” no jogo da sedução. Mas, ao fazermos isso, não estamos justamente perdendo tudo de bom que a sedução oferece?


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Nem sempre foi assim! Lá pelos idos de 1996, quando eu fazia parte do grupo pioneiro do UOL, lançamos as salas de bate-papo, uma grande inovação para a época. Não demorou para que casais começassem a se formar entre os usuários. Até que, naquele ano ainda, aconteceu o primeiro casamento no Brasil de pessoas que se conheceram online, algo que virou notícia nos jornais!

Esses sistemas na época não iam além de combinar características e preferências. Mas isso está longe de ser suficiente para uma pessoa se apaixonar por outra. Em muitos casos, relacionamentos em que ambos gostam das mesmas coisas simplesmente não evoluem por isso mesmo! A “química” entre duas pessoas surge de fatores muitas vezes improváveis.

A inteligência artificial das plataformas atuais tenta solucionar isso, mas acaba tendo alcance limitado, pois ela depende das escolhas dos usuários no “cardápio de gente” em que elas se transformaram. Como essas decisões são tomadas a partir de um punhado de fotos e informações oferecidas por cada um, acabam sendo deficientes.

O sucesso dessas plataformas passa pela sua interface minimalista, que agiliza o processo. No caso do Tinder, ao se deslizar para a direita uma foto, o usuário demonstra interesse naquele perfil. Se o outro lado fizer o mesmo, as partes podem conversar, e o que vier depois fica por conta e risco de cada um. Para quem não quiser investir muito tempo e energia e estiver disposto a experimentações, essa simplicidade atrai.

Por isso, o “algoritmo perfeito” seria a coisa mais importante para qualquer um desses serviços, pois aumentaria a satisfação (e o prazer) de seus usuários. Infelizmente isso não é simples de se obter, tendo até inspirado a ficção, no episódio “Hang the DJ”, o quarto da quarta temporada da série “Black Mirror”, que demonstra o funcionamento surpreendente das entranhas de um aplicativo de namoro.

 

Administrando as frustrações

As plataformas de encontros têm outro apelo inegável: o controle das frustrações. Nem sempre as paqueras dão certo, e as rejeições podem ser desagradáveis. Mas isso faz parte do jogo!

É curioso que, com esses aplicativos, as negativas continuam acontecendo e até em quantidade maior. Mas, como não se investe tempo e energia em cada tentativa e elas acontecem às dezenas (às vezes às centenas), a enorme quantidade de rejeições não chega a doer. Até mesmo porque estar por trás de uma tela supostamente nos “protege’ e, pelo volume, sempre haverá alguém que diga “sim”.

Não quer dizer que a experiência seja sempre agradável. O estudo “As virtudes e desvantagens do namoro online”, publicado em fevereiro de 2020 pelo instituto Pew Research Center, indica que 30% dos americanos já usaram uma dessas plataformas, mas 42% deles não tiveram uma boa experiência. A situação é pior para as mulheres, com 48% delas sendo abordadas mesmo depois de dizer que não tinham interesse, 46% recebendo mensagens ou imagens explícitas sem ter pedido, 33% sendo xingadas e 11% sendo ameaçadas fisicamente.

É inevitável pensar no “Amor Líquido”, de Zygmunt Bauman (editora Zahar, 2004). Para o filósofo e sociólogo polonês, falecido em 2017, a ampla queda da qualidade das relações é compensada por uma quantidade enorme de parceiros. “Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar”, escreveu.

Com isso, a relação social construída com uma responsabilidade mútua é substituída pelo que ele chamou de “conexão”. Para o filósofo, o grande apelo desses sistemas está na facilidade de se esquecer o outro, de se “desconectar”: troca-se, sem qualquer remorso, os parceiros que deixam de ser “interessantes” por outros “melhores”.

Outra estudiosa da área é Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e autora dos livros “Alone Together” (“Sozinhos Juntos”, em uma tradução livre, Basic Books, 2017) e “Life On The Screen” (ou “A Vida na Tela”, Simon & Schuster, 2011). Ela afirma que, com o aumento da conexão digital das pessoas, suas vidas emocionais diminuem. Para a pesquisadora, apesar de estarmos constantemente nos comunicando com os outros pelas redes sociais, essas trocas acabam não sendo autênticas e nos levam à solidão.

Se for realmente assim, essas plataformas digitais podem ser um incrível serviço para se conseguir parceiros em quantidade, mas a qualidade continuará dependendo de nos expormos, demonstrando nossa realidade e entrando em contato com o outro. Para Bauman, apenas quando nos damos conta de que nossa voz é ouvida e de que nossa presença é sentida, entendemos que somos únicos e dignos de amor. E precisamos do outro em um contato de qualidade para nos fazer perceber isso.

Devemos, portanto, usar esses aplicativos como poderosas ferramentas de “pesquisa”, mas não podemos entregar a eles nossa capacidade de nos apaixonar. Nosso senso crítico não pode ser achatado a ponto de nos relacionarmos apenas com quem os algoritmos nos indicam.

Ainda citando Bauman, “amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama.” E continua: “no amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado para o mundo.”

Que não percamos a capacidade de contribuir assim, que nos torna tão humanos.

 

Cena do filme “Morango e Chocolate” (1993), em que um estudante que espionava um artista acaba se aliando a ele ao conhecê-lo melhor

Eu só quero um pouco de paz!

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As redes sociais não nos deixam em paz!

Não falo da característica essencial de seus algoritmos, que nos mantêm continuamente estimulados para que compremos todo tipo de quinquilharia. Estou me referindo ao permanente bombardeio ideológico que cria dispostas a importunar, humilhar e deliberadamente prejudicar desconhecidos, apenas porque pensam de maneira diferente.

Quem faz isso não são os sistemas: são as pessoas que os usam! Poucas delas comandam o processo; a imensa maioria serve de massa de manobra.

Todos nós potencialmente somos vítimas, em maior ou menor escala. Isso acontece desde aquele primo que vota em outro candidato e por isso fala mal de você no “grupo da família”, até manadas que atacam, com processos orquestrados de destruição de reputação, quem pensa de outro jeito.

A vítima não fez nada de errado! Em muitos casos, é agredida justamente por fazer bem o que se espera dela. Isso acontece porque, enquanto um democrata convive e aprende com as diferenças, um totalitário tenta calar e, se possível, destruir qualquer voz dissonante.

Mas, como diz o ditado, “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Quem hoje pratica esse horror e pede a cabeça de quem está no coliseu amanhã pode virar comida de leão. Não dá para acalmarmos a alma desse jeito!


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Um exemplo tristemente emblemático aconteceu na terça passada, quando o deputado Douglas Garcia (Republicanos-SP) agrediu a jornalista Vera Magalhães, durante o debate da TV Cultura entre os candidatos ao governo de São Paulo. Já há bastante tempo, ela vem sendo atacada não por ter cometido algum erro, mas justamente por estar fazendo bem o seu trabalho de fiscalizar o governo.

Todo governante comete erros: alguns mais, outros menos. Uma as funções da imprensa é identificar, investigar e apresentar isso à população. Dessa maneira, o jornalismo protege a sociedade dos abusos dos poderosos. Quem se dedica a enaltecer governantes não pode ser chamado de jornalista.

Não deixa de ser curioso que aqueles que hoje atacam a imprensa há bem pouco tempo a aplaudiam por fazer o seu trabalho expondo os malfeitos dos governos anteriores. E não será surpresa se voltarem a aplaudir esses profissionais, caso aconteça uma alternância de poder nas próximas eleições presidenciais.

É muito triste que os agressores de Vera Magalhães não consigam conviver com seus erros sendo expostos. Ao invés de aprender algo com isso, tentam “matar o mensageiro”, como se, ao silenciar aqueles que expõem os fatos, seus pecados deixassem de existir.

Trazendo para a realidade cotidiana de quem não tem a visibilidade de uma das mais importantes jornalistas políticas do país, o processo de destruição de reputação também acontece. Nesse caso, ele se dá pelo nefasto “cancelamento” nas redes sociais, em que pessoas incentivam que grande quantidade de usuários ofenda e bloqueie quem lhes incomoda, mesmo que a vítima esteja certa.

Nesse cenário, pensar livremente se transformou em um campo minado difícil de ser transposto. Quaisquer que sejam nossas ideias, elas sempre desagradarão algumas pessoas. Mas, se antes isso não causava nenhum problema, em tempos de redes sociais, seus algoritmos usarão esse desalinhamento para atrair grande quantidade de indivíduos dispostos a nos agredir.

Como resultado, muita gente boa, que poderia contribuir positivamente com a sociedade, deixa de se expor, pelo medo de ser atacada em seu altruísmo.

Nessa hora, todos perdem!

 

O ódio de uma nação

Esse comportamento destrutivo de manada foi antecipado pelo episódio “Odiados Pela Nação” (“Hated in the Nation”), o sexto da terceira temporada da série de ficção científica britânica Black Mirror, lançado em outubro de 2016. Na história, pessoas começam a morrer misteriosamente após sofrerem ataques no Twitter de quem não gostava de suas ideias ou posicionamentos. Entretanto, no final, todos que tuitaram contra as vítimas também acabam sendo assassinadas.

A sociedade é naturalmente plural. Mesmo em ditaduras, em que líderes políticos ou religiosos tentam impor um pensamento único, as diferenças entre as pessoas continuam existindo. Quando muito, elas são sufocadas pelo medo da força bruta ou da truculência ideológica. Ainda assim, a diversidade não morre. Quando há espaço e oxigênio, ela germina.

A “manada” precisa ser impedia de ver o “outro lado”, pois, ainda que não goste de suas ideias, pode perceber que é possível conviver em harmonia com as diferenças e até construir com o outro. Isso aparece em outra ficção, o filme cubano “Morango e Chocolate” (1993). Nele, as autoridades de uma Cuba de 1979 determinam que um estudante universitário se aproxime de um artista descontente com a atitude do governo contra a comunidade LGBT e com a censura cultural. O objetivo é que o primeiro espione o segundo para a máquina de repressão estatal. Mas, no final, ao conhecer e entender o lado do artista, o estudante se torna seu amigo e o apoia.

Somos muito mais parecidos que diferentes dos que têm outras visões de mundo. Quando esquecemos ou somos estimulados a ignorar isso, engrossamos a coluna do “nós contra eles”, que vem crescentemente deformando a sociedade brasileira há uns 20 anos.

As redes sociais não podem se transformar em novos tribunais da Santa Inquisição, pois a fogueira pode ser acesa para qualquer um. Do lado de todos nós, devemos abandonar o hábito de “cancelar” aqueles que pensam de outra forma e passarmos a ver o que essas pessoas têm de bom.

Essas plataformas digitais, por sua vez, precisam melhorar suas regras e seus sistemas, para impedir que a “política de cancelamento” continue a fazer vítimas, cujo direito de defesa é simplesmente eliminado pela massa transloucada pelos algoritmos. Do jeito que funcionam hoje, todos parecem ter o direito de ser sumários juízes e algozes de qualquer caso, o que corrói os princípios básicos de convivência.

E ainda se dizem “redes sociais”!

Quanto aos “intolerantes de carteirinha”, precisam entender que as pessoas com pensamentos diferentes dos seus ajudam a desenvolver a sociedade, justamente porque enxergam o que eles não são capazes de ver, assim como veem a mesma coisa de maneira diversa.

A paz se materializa por uma divergência respeitosa e construtiva.

 

Escolas e mídia precisam se unir na busca pela verdade

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A menos de três semanas do primeiro turno das eleições, as pesquisas indicam que a imensa maioria dos eleitores já escolheu em quem votará para presidente. Isso explica por que, a despeito dos esforços dos candidatos, os índices de intenção de voto se mantêm relativamente estáveis semana após semana. Mas vale questionar o quanto de tanta convicção vem de informações confiáveis e análises conscientes, e o que se deve ao processo de desinformação ou simplesmente da raiva de um ou outro nome.

O questionamento é pertinente, pois se observa que os candidatos que lideram todas as pesquisas se dedicam mais a atacar um ao outro, inflamando a polarização social. Enquanto isso, aqueles preocupados em apresentar ideias mais consistentes para os problemas do país não decolam na preferência dos eleitores.

Esse não é um fenômeno recente, mas se tornou determinante nesse pleito. Isso se explica pelo ápice (pelo menos até o momento) da influência das redes sociais em nossas decisões e pela histórica baixa educação midiática do brasileiro.

A solução do problema é tão mais eficiente quanto mais cedo começar. A escola e a mídia são os principais responsáveis por reverter esse quadro. Não é de se estranhar, portanto, que esses políticos combatam ostensivamente esse trabalho de professores e de jornalistas, desacreditando-os e até os agredindo.


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O recém-divulgado “Estudo global sobre alfabetização da informação” indicou que 55% dos entrevistados dizem que já compartilharam informações falsas porque achavam ser verdadeiras, sendo que um terço fez isso impulsivamente. Ainda assim, muitos disseram que “estavam ocupados demais” para verificar se o que passavam adiante era verdade.

A pesquisa foi realizada pelo Instituto Poynter para Estudos da Mídia, o projeto MediaWise e a consultoria YouGov, com apoio do Google. Foram ouvidas 8.585 pessoas na Alemanha, Brasil, Estados Unidos, Índia, Japão, Nigéria e Reino Unido.

O levantamento indica ainda que 62% dos entrevistados dizem ser impactados por informações falsas online toda semana, mas a maioria, especialmente os mais velhos, relutam em corrigir pessoas que publicam informações falsas.

Outro estudo, publicado no ano passado por pesquisadores da Universidade de Stanford (EUA) a partir de entrevistas com estudantes do ensino médio americano, indicou que eles têm enorme dificuldade em identificar notícias falsas, sendo facilmente enganados por dados mentirosos ou maquiados. Em um exemplo gritante, 97% deles acreditaram em um site que alegava trazer fatos sobre estudos do clima. Na verdade, ele defendia a indústria de combustíveis fósseis, que o patrocinava.

Os autores do estudo afirmam ser crítico que a educação midiática seja incluída nas escolas, e que os estudantes aprendam como jornalistas e agências de verificação trabalham. Segundo eles, isso deve integrar, de maneira transversal, todas as disciplinas, “de História a Matemática”.

Felizmente, há esperança, mesmo em uma sociedade fortemente polarizada e vítima da desinformação, como a brasileira. No sábado, o Datafolha divulgou pesquisa que aponta que mais brasileiros buscam informações jornalísticas para decidir em quem votar. Foram avaliados o impacto das notícias na TV, nas redes sociais e no rádio.

O índice dos que consideram as notícias muito importantes para o voto para presidente cresceu em todas elas, frente ao que se observava na eleição anterior, em 2018. No caso da TV, isso subiu de 43% para 48% dos entrevistados, indo de 38% para 44% de notícias nas redes sociais, e de 39% para 42% no rádio.

 

Desde pequeno

Educadores afirmam que a educação midiática deve começar com as crianças, especialmente porque elas ficam online cada vez mais cedo. Assim como pessoas que começam a fumar muito jovens desenvolvem um vício mais resistente, a polarização pelas fake news é mais poderosa e nociva se começa já com adolescentes.

A escola é o melhor lugar para isso, até pela diversidade do ambiente. Educadores precisam usar os recursos do mundo digital na tarefa, ensinando os alunos a verificar diferentes fontes, a fazer pesquisas eficientes em buscadores, a usar as agências de checagem de fatos, a desconfiar do que lhes chega por redes sociais e comunicadores, e a entender que mesmo um conteúdo “viralizado” pode ser falso.

A mídia vem realizando campanhas de esclarecimento da população, mas ainda está distante de uma colaboração ativa com as escolas. Isso precisa mudar! Afinal devem desenvolver um senso crítico apurado, mas não apenas nos adultos.

A escola não pode ser apenas um lugar para se aprender as disciplinas tradicionais, como linguagem e matemática. Deve ser um espaço de desenvolvimento de cidadania, diversidade, inclusão e tolerância. Por isso, erra quem diz que não devam debater política de maneira construtiva com seus alunos.

Os estudantes devem ser auxiliados a entender não apenas como funcionam as instituições democráticas, mas também como a política influencia nossas vidas de maneira determinante, e o papel ativo de cada um de nós no processo democrático.  Isso não tem nada a ver com partidarização da escola, e sim de consciência cívica, para que as crianças cresçam com menos chance de ser tornarem adultos manipuláveis pelos diferentes grupos de poder.

Nesse esforço essencial para a democracia, educadores e jornalistas precisam cuidar apenas para inadvertidamente não criar um efeito indesejado de as pessoas ficarem tão críticas a ponto de achar que todas as fontes de informação são igualmente suspeitas. Risco maior seria desenvolver um tipo de niilismo sugerindo que todas teriam algum tipo de motivo oculto para querer manipular a população. Esse, aliás, é uma tese difundida por aqueles que se beneficiam da desinformação.

Quando eu era adolescente, tive a felicidade de contar com essa orientação de meus professores, que contrapunham ideias progressistas e conservadores, ajudando-me a elaborar uma compreensão ampla do mundo, que é necessariamente diverso. Educadores devem ser ajudados e orientados, nunca censurados ou constrangidos.

Também tive a felicidade de ter uma robusta educação midiática desde pequeno, aprendendo o papel essencial do jornalismo na manutenção da democracia. E assim aprendi a “separar o joio do trigo” desde cedo.

Temos que parar de acreditar que “política, religião e futebol não se põem à mesa”. Isso só serve para criar cidadãos mais “dóceis”, que não se envolvem com temas delicados, aqueles que convidam a pensar e a melhorar a sociedade. Com isso, tornam-se mais suscetíveis a comandos de líderes em quem acreditam.

Em um mundo em que a desinformação conseguiu levar a sociedade à beira de um precipício fatal, aqueles que trabalham com a verdade, com a ciência, com a cidadania e com o bem comum precisam se unir para ajudar jovens e adultos e escapar do sedutor mecanismo da desinformação. A democracia não pode continuar sendo usada para destruir a própria democracia.

 

Montagem sobre recorte da tela “A Proclamação da Independência”, pintada pelo artista francês François-René Moreaux em 1844

Independência digital ou morte social

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Estamos na semana da Pátria. E não é qualquer uma: nesse 7 de Setembro, comemoramos 200 anos da independência do país. O Brasil merecia estar em melhor forma para uma data tão emblemática. Mas chegamos aqui com nossa sociedade rachada ao meio porque nossas paixões foram exacerbadas pelo meio digital, para o bem e para o mal. A quem isso interessa?

Não se trata de um fenômeno visto apenas no Brasil. A polarização social pelas redes floresceu nos Estados Unidos e se espalhou como uma erva daninha pelo mundo. Mas, por aqui, ela encontrou terreno fértil, pois adoramos redes sociais.

Não há nada de errado nisso, a princípio. Eu mesmo atuo fortemente nessas plataformas. O risco surge quando passamos a depender do que vemos nelas para tomarmos decisões cotidianas, terceirizando nosso senso crítico. É nessa hora, quando rebaixamos nossas defesas, que os oportunistas usam esses recursos digitais para nos manipular. E o resultado é um país que parece ter perdido sua capacidade de construir seu futuro de maneira unificada, como se, para um grupo satisfazer seus desejos, precisasse eliminar aqueles que pensam de maneira divergente.

Só que essa é a receita para o desastre!


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O poder de convencimento das redes sociais é tão fabuloso, que fica muito difícil escapar dele, por mais esclarecidos que sejamos sobre o problema. Afinal, elas trabalham com características essenciais de nossa psique. Em primeiro lugar, conseguem identificar do que gostamos e do que não gostamos, por mais que tentemos “furar a bolha”, seguindo pessoas e fontes de informação diversas.

Partindo dessa informação valiosíssima, elas privilegiam publicações que reforcem esses nossos desejos e medos, oferecendo elementos para se obter ou confirmar os primeiros e para fugir dos segundos. E isso é tudo que nosso instinto de autopreservação deseja. Por isso, acabamos confiando no que nos é jogado na cara.

Isso foi brilhantemente descrito no documentário “O Dilema das Redes” (Netflix, 2020). O mecanismo foi criado para nos vender todo tipo de produto, base do modelo de negócios dessas empresas. O problema é que tudo pode ser empacotado como um produto, até mesmo uma ideologia.

Políticos sempre mentiram e atacaram seus adversários. É como se não fosse possível fazer política sem lançar mão desses recursos. Mas, quando isso passa pelo efeito multiplicador das redes, as pessoas acreditam mais nas mentiras e muitas passam a encarar os adversários como verdadeiros inimigos. E isso não é debate político: é o império do ódio.

Podemos fazer um exercício e lembrar de como agíamos não muito tempo atrás. Tínhamos nossas preferências políticas, de quem gostávamos e de quem não gostávamos. Ainda assim, éramos capazes de conviver pacificamente com quem pensasse de maneira diferente de nós, e até trabalhar alegremente com essas pessoas. Hoje todo mundo conhece casos de familiares, amigos e colegas que cortam laços por esse motivo. Talvez nós mesmos já tenhamos feito isso!

Nessas horas, as redes sociais deixam de ser uma atividade divertida e se tornam um risco para a própria democracia. Nossa enorme dependência dessas plataformas promove a morte da sociedade.

 

Para onde caminhamos?

Afinal, estamos evoluindo ou regredindo como sociedade e como indivíduos?

A despeito de momentos sombrios como esse, que sempre permearam nossa história, entendo que a humanidade, na média, caminha para frente. Às vezes, voltamos um passo para depois avançarmos dois. E, em cada recorte, sempre haverá pontos em que avançamos e os que retrocedemos.

Temos as evoluções científicas, que crescem de maneira exponencial. Apenas para pegar um exemplo claro, basta ver a diferença de tratamentos e cuidados entre duas devastadoras pandemias, a da Gripe Espanhola e a da Covid-19, separadas por um século. Sem a tecnologia desenvolvida nesse intervalo, o novo coronavírus teria matado muitíssimo mais!

Avançamos também –e muito– em aspectos sociais. Nesse caso, as principais ferramentas são o debate e a informação de qualidade. Apesar de imperfeições, a mídia desempenha um papel crucial nesse sentido, informando a população sobre o que acontece tanto no seu bairro, quanto no mundo, apresentando novidades, apontando problemas, indicando caminhos.  Podemos usar o mesmo exemplo anterior, a pandemia de Covid-19: se não fossem os esclarecimentos feitos pela mídia, o total de mortos teriam sido terrivelmente maior.

Esse caso ilustra, de maneira bastante didática, porque não se deve acreditar no que chega até nós pelas redes sociais. As infames fake news são apenas uma ferramenta de um processo maior de desinformação que vem carcomendo nossa sociedade por dentro há muitos anos. Ainda em 2016, o Dicionário de Oxford elegeu “pós-verdade” como a palavra do ano, definindo-a como “relativa ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais.”

Às vezes, estar certo é quase uma maldição. Os editores da obra anteciparam o cenário em que vivemos hoje, descrevendo o funcionamento dos algoritmos de relevância das redes sociais e sua usurpação por diferentes grupos de poder.

“Desde a era da pedra, mitos foram reforçados a serviço da união da coletividade humana.” A afirmação é do historiador israelense Yuval Noah Harari, em seu livro “21 Lições para o Século 21” (2018). Ele continua: “O Homo sapiens conquistou esse planeta graças, sobretudo à habilidade humana única de criar e disseminar ficções.”

Em outras palavras, somos os únicos com a capacidade de acreditar em desconhecidos para construir algo com eles. A isso, damos o nome de sociedade! Dessa forma, se perdermos a capacidade de acreditar no próximo, deixaremos de fazer algo juntos, colocando a própria sociedade em risco!

A tomada de assalto das plataformas digitais pela política as transformou nas ferramentas perfeitas para que esses grupos atinjam e se mantenham no poder. A mecânica é elevar irresponsavelmente a polarização, a intolerância, o ódio a patamares perigosíssimos. Não é à toa que brasileiros estão literalmente resolvendo até pequenas diferenças a bala, nas ruas, no trânsito, em shows, em igrejas e até em festas de aniversário! Nesse ano, isso aconteceu assustadoramente em todos esses lugares, em diferentes regiões do país.

Isso não é democracia, não é independência. Precisamos resgatar nossa capacidade de pensar com um cérebro livre e sentir com um coração leve, ou teremos o triunfo da morte. E não era essa a proposta do aclamado “Grito do Ipiranga”.

 

Entenda como a “cloud computing” pode melhorar a tecnologia em seu negócio

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A “computação da nuvem” (ou “cloud computing”) está profundamente disseminada em nossa vida, até mesmo sem nos darmos conta disso. Muitos serviços que usamos no nosso cotidiano “rodam na nuvem”.

Do lado das empresas, ela vem se tornando cada vez mais popular nos últimos anos. Mas ainda há muitas dúvidas sobre o que ela é, como funciona e quem deve fazer uso desse serviço.

E é curioso que a tecnologia de “cloud computing” está longe de ser uma nova. ela já existe há muitos anos, mas vem ganhando notoriedade de uns tempos para cá, pois tem aparecido bastante na mídia.

Para explicar um pouco mais sobre a “computação na nuvem”, responder a essas dúvidas e como ela pode ajudar seus negócios, conversei com Thiago Araki, diretor de Tecnologia e GTM da Red Hat para a América Latina, um grande especialista no assunto. A Red Hat é a maior e mais importante empresa de software open source do mundo.

Confira a seguir a íntegra da conversa:

Mudanças comportamentais forçam cinemas a se transformar

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Neste sábado, explicava a alunos de marketing digital que a principal causa do fim de um produto não são novas tecnologias, concorrentes ou regulações. O que mata uma marca é seu próprio público, quando encontra uma alternativa que percebe como mais vantajosa para si. Por isso, as salas de cinema estão passando por um “momento da verdade”, com potencial de transformar um produto de massa em uma escolha de aficionados.

No centro dessa ameaça, estão mudanças comportamentais do público, derivadas da Covid-19 e do avanço de tecnologias digitais e da telecomunicação. Por isso, apesar de os estúdios estarem com sua produção cinematográfica a pleno vapor, as salas de exibição recebem pouca gente, em um nível preocupante.

Serviços de streaming –como Netflix e Disney+– normalmente levam a fama por esse esvaziamento dos cinemas, mas sua concorrência é só parte da explicação. Temos que pensar no público, que nunca consumiu tanto conteúdo audiovisual, mas agora prefere fazer isso de maneiras diferentes, em experiências que entendem como mais interessantes. As salas de exibição, por outro lado, fazem poucos movimentos para resgatar o vínculo perdido com seus clientes, esperando que eles voltem para um formato que não tem mais o apelo de antes.


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Tudo é uma questão de percepção! E não adianta ficar reclamando que os clientes não entendem que a experiência de se ver um filme nos cinemas é muito melhor e tem seu valor. Você e eu podemos até concordar com isso, mas cada um percebe o que quiser sobre qualquer coisa: não há percepção errada. Se as pessoas “não entendem” seu ponto de vista, isso não é problema delas: é problema seu!

Colocando isso em números, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) indica que foram vendidos 44,8 milhões de ingressos no país, entre janeiro e julho desse ano. No mesmo período de 2019, foram 88,3 milhões. A renda nominal também está baixa: neste ano, foram arrecadados R$ 873 bilhões, contra R$ 1,44 trilhão no primeiro semestre de 2019.

Já o levantamento “Hábitos Culturais III”, realizado pelo Itaú Cultural e pelo Datafolha e divulgado na quinta, mostra que o cinema foi a atividade cultural mais castigada pelo abandono do público no pós-pandemia. A edição atual da pesquisa aponta que só 26% das pessoas assistiram a pelo menos um filme nos cinemas nos últimos 12 meses. A anterior indicou que mais que o dobro –59%– fizeram isso em 2019, portanto antes da Covid-19.

Na sexta, realizei uma enquete no LinkedIn para saber se as pessoas estão indo mais ou menos às salas de exibição. Até o momento, 1.173 pessoas responderam, indicando que 24% estão frequentando as salas regularmente, 44% estão fazendo isso menos que antes da pandemia e 25% não estão indo (os 7% restantes indicaram outras respostas).

Os entrevistados destacaram o preço dos ingressos dos cinemas como um dos principais motivos pela diminuição. E com o valor de um ingresso para um filme 2D superando R$ 40 em São Paulo, o programa para uma família de quatro pessoas, incluindo estacionamento e pipoca, ultrapassa os R$ 200 com facilidade.

De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os ingressos para cinema ficaram 12,43% mais caros em 12 meses. Em comparação, o valor de um único ingresso do exemplo anterior dá e sobra para se assinar qualquer plataforma de streaming por um mês inteiro.

A comodidade de se ver o filme na própria casa, no horário que quiser, podendo dar pausa para ir ao banheiro e com um cardápio mais variado que o das caríssimas bombonieres dos cinemas também foi bastante destacada na enquete. Até a opção de se ver, no streaming, um filme com som original e legendas ao invés de se submeter à maior oferta de cópias dubladas nas salas foi apontado.

Em um país em que a inflação tira comida da mesa das pessoas, não são muitos os reais que sobram para o entretenimento. Eles precisam ser bem investidos.

 

“Assinatura de cinema”

Se dinheiro é problema, várias redes de cinema criaram pacotes de “assinatura” ou compras pré-pagas. Do lado do cliente, isso barateia os custos do ingresso. Do lado das salas, fideliza o cliente e garante um aporte com antecedência.

A rede Cinemark, por exemplo, lançou em abril o Cinemark Club, que oferece descontos, prêmios e ingressos pelo pagamento de uma mensalidade. Considerando apenas os ingressos, a economia supera 50%. A rede Itaú Cinemas, por sua vez, lançou pacotes de compra antecipada de 8 ou 16 ingressos, por menos da metade do preço normal. Já a rede Kinoplex criou o Kinopass, que permite a compra de cinco ingressos com desconto para qualquer dia e sessão.

Para trazer gente para as salas, vale até alugar os espaços para eventos corporativos e festas de aniversário. Tudo isso serve como incentivo para as pessoas voltarem, mas não deve ser suficiente. Como mostram as pesquisas, algo mudou na cabeça do consumidor quando descobriu, com a pandemia e o streaming, que é possível ter uma experiência boa de se ver filmes em casa –para alguns até melhor que ir aos cinemas.

Não é a primeira vez que os cinemas precisam enfrentar uma ameaça tão grande. Na década de 1980, com a popularização das fitas VHS, que deu origem às videolocadoras, muitos chegaram a decretar a morte das salas. Afinal, por um valor muito menor, as pessoas alugavam os filmes para assistir em casa.

O curioso é que a experiência do VHS era ruim, com imagem e som de baixa qualidade nas telas bem pequenas das TVs da época. O problema é que os cinemas eram igualmente ruins, com telas relativamente pequenas, projeção escura, som abafado e ambientes desconfortáveis.

Se nada tivesse sido feito, possivelmente as previsões apocalípticas sobre o fim das salas poderiam ter se concretizado. Mas, nessa época, começaram a surgir as grandes cadeias que temos hoje, que transformaram as salas bolorentas em uma experiência muito superior ao que se poderia ter em casa. E isso salvou os cinemas!

Esse é o grande desafio dos exibidores hoje: criar uma experiência que esteja tão à frente do streaming e a um preço razoável, que as pessoas queiram novamente sair de casa. O que oferecem hoje claramente não está sendo mais suficiente.

Isso não será feito com meias-medidas ou meras adaptações do que já existe. Os cinemas precisam parar de olhar apenas para sua crise e suas necessidades e passar a prestar atenção no que o consumidor realmente deseja. E não bastam os cinéfilos, que continuam confortáveis com a oferta disponível. Afinal, o cinema é um fenômeno de massas.

 

Mark Zuckerberg, CEO da Meta, controladora do Facebook, do Instagram e do WhatsApp

Zuckerberg tornou-se o cabo eleitoral mais cobiçado do mundo

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Com a campanha eleitoral oficialmente na rua, a temperatura nos caldeirões políticos aumentou. E, assim como aconteceu em 2018, o vencedor para o cargo de presidente da República será decidido, em grande parte, com o apoio das redes sociais. A diferença é que, nesses quatro anos, os principais atores dessa disputa aprenderam a manipular ainda mais esse recurso, para que suas mensagens cheguem aos eleitores de maneira contundente.

Resta saber se o resto da sociedade consegue lidar com as consequências disso.

As plataformas digitais também entenderam seu papel determinante nesse cenário, tanto pela sua capacidade de influenciar os eleitores, quanto pelos efeitos que têm nisso. A última eleição presidencial americana escancarou o problema, deixando os Estados Unidos rachados ao meio até hoje, 19 meses após a catastrófica invasão do Congresso americano por seguidores do ex-presidente Donald Trump. Graças à incapacidade das plataformas digitais de lidar com as fake news e o discurso de ódio, aquelas pessoas ainda acreditam que Trump teve sua reeleição roubada, a ponto de tentar impedir à força a confirmação da vitória de Joe Biden.

Agora, a menos de dois meses do primeiro turno das eleições brasileiras, é legítimo questionar se as redes sociais aprenderam algo com isso, e o que nós podemos aproveitar da experiência americana.


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Essas empresas parecem estar dispostas a colaborar para que o cenário americano não se repita por aqui. Tanto que a Meta (controladora do Facebook, do Instagram e do WhatsApp), o Google (dono do YouTube), o TikTok, o Twitter e o Kwai firmaram um acordo de colaboração com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em fevereiro. O LinkedIn (pertencente à Microsoft) se juntou a eles em março e o Spotify fez o mesmo em maio. O Telegram veio na sequência, após ser ameaçado de ser banido do país, por não combater notícias falsas e discurso de ódio.

Os acordos não garantem, entretanto, o fim desse conteúdo. “É muito mais uma boa vontade de dizer que estarão mais a postos para tentar cumprir rapidamente as decisões judiciais”, explica Marcelo Crespo, coordenador do curso de Direito da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). “A legislação eleitoral tem prazos muito curtos, alguns até em horas, justamente pela importância e urgência do tema”, explica.

O TSE não tem como verificar ativamente se as plataformas estão cumprindo o acordo, e nem é assim que funciona. A Justiça, por padrão, age após ser acionada por outros agentes da sociedade, como a polícia, advogados e até cidadãos. “Se tiver uma situação em que o acordo escandalosamente está sendo descumprido –e a mídia acaba repercutindo isso– isso chega ao conhecimento Tribunal, e aí existe esse tipo de ação”, explica Crespo. Ainda assim, isso se limita basicamente a pedidos de colaboração às plataformas, por exemplo para removerem rapidamente conteúdos comprovadamente nocivos.

De toda forma, criou-se uma expectativa de que as plataformas digitais atuassem fortemente para combater tais publicações. Mas não é o que está acontecendo.

As empresas se esquivam de detalhar o investimento em equipes e tecnologias (especialmente inteligência artificial) adotadas para essa finalidade. Devido ao enorme volume de conteúdo publicado pelos seus usuários, os algoritmos fazem a primeira filtragem do que é inapropriado, mas pessoas são necessárias para verificar casos duvidosos e calibrar o sistema. Ambos são necessários para um combate eficiente.

Relatório divulgado recentemente por pesquisadores do INCT.DD (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital), da UFBA (Universidade Federal da Bahia), demonstra que, apesar do memorando entre essas empresas e o TSE, seus sistemas ainda apresentam muitas brechas que são exploradas pelos propagadores de notícias falsas. Além disso, em muitos casos, esses conteúdos, mesmo identificados, não são removidos, tendo apenas o seu alcance restringido.

Aí reside uma das grandes críticas internacionais a essas plataformas. Por piores que sejam, esses conteúdos geram enorme audiência, o que é bom para seu negócio. Logo, se eles fossem todos eliminados, isso iria contra seus interesses comerciais.

 

O “ouro do bandido”

Frances Haugen confirma isso. A ex-gerente da equipe de integridade cívica do Facebook ficou famosa em outubro, ao dizer que a empresa conscientemente coloca seus lucros à frente do bem-estar de seus usuários, no escândalo conhecido por “Facebook Papers”. “Quando recompensamos o engajamento ao invés de comunicação construtiva, ao invés de colaboração, acabamos dando mais alcance às ideias mais extremas”, disse.

Em julho, ela participou de uma audiência pública da Câmara dos Deputados sobre o tema. Lá explicou que, por isso, essas empresas não são tão transparentes. Haugen acusou a Meta de se empenhar mais no combate a conteúdos nocivos onde sofre mais risco de ser regulamentada, como os Estados Unidos. Por isso, depois da eleição americana, teria sobrado pouco daquela estrutura de combate à desinformação para o Brasil. Explicou ainda que os sistemas de inteligência artificial são menos eficientes para idiomas que não o inglês.

Tudo isso facilita a vida de quem se beneficia das fake news. Para tornar o cenário ainda mais desafiador, eles usam plataformas de uma empresa para promover conteúdos em serviços de concorrentes, como destacar no Telegram vídeos com desinformação no YouTube. Como são concorrentes, eles não trabalham juntos nesse combate, e a Justiça não tem mecanismos para fazer tal verificação cruzada.

Quero crer que Mark Zuckerberg não pensava em nada disso quando criou o Facebook em seu dormitório estudantil de Harvard, em 2004. Mas é inegável o poder de convencimento que essas empresas têm sobre bilhões de usuários. Ainda que elas não atuem politicamente, suas ferramentas se prestam a pessoas inescrupulosas, criando uma máquina de mentiras quase perfeita, sem precedentes na humanidade.

De certa forma, essas empresas se tornaram muito mais poderosas que os países onde atuam. “Eu acredito que tamanho poder precisa, de alguma forma, ser regulado”, afirma Crespo. Mas o professor explica que isso não pode ser feito de modo a censurar ou a coibir a inovação. Além disso, ele lembra que leis que tentam regular tecnologias de maneira muito detalhada acabam ficando obsoletas rapidamente.

Por tudo isso, a menos de dois meses das eleições, a colaboração entre as big techs e o TSE não está conseguindo conter o esperado aumento do discurso de ódio, da intolerância e de todo tipo de notícias falsas nas plataformas digitais. Parte da sociedade assiste atônita à escalada da violência explícita e até de discursos a favor de um golpe militar.

Que saudades dos tempos em que as redes sociais eram usadas apenas para atividades saudáveis, como encontrar amigos. Só espero que elas não levem o Brasil ao mesmo abismo em que jogaram a sociedade americana.

 

Cursos de curta duração podem ensinar habilidades pontuais, mas não oferecem todo o necessário para um mercado cada vez mais exigente

Os desafios na formação de um profissional moderno

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Com a busca pelo emprego cada vez mais competitiva e a educação se tornando um negócio milionário, a formação profissional do brasileiro vem se transformando, com muitos solavancos nos últimos anos. A graduação se tornou condição básica de acesso ao mercado de trabalho, restando à pós-graduação a tarefa de qualificar a mão de obra. E aí muita gente coloca tudo a perder.

Se agora essa etapa cria a diferenciação profissional, poderíamos supor que cursos mais longos, como especializações ou mestrados, em instituições consagradas, seriam os mais procurados. Entretanto, essas turmas estão cada vez mais vazias, dando lugar a cursos de curta duração, muitas vezes ministrados por escolas ou pessoas desconhecidas, e ofertados nas redes sociais a preços módicos.

Isso se deve a duas coisas em falta por aqui: tempo e dinheiro. Por isso, são raros os que conseguem estender seus estudos por mais alguns anos. As pessoas preferem aprender qualquer coisa para usar imediatamente, conseguir um emprego e colocar comida no prato.

Fica difícil criticar alguém por isso. Mas, a longo prazo, o Brasil corre o risco de se deparar com um enorme contingente de profissionais com habilidades limitadas, incapazes de enfrentar os desafios de um mercado cada vez mais exigente.


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Nesse país que parece ter perdido o direito de pensar a longo prazo e busca soluções instantâneas, a educação não foge da regra. “Eu sinto, nessa busca por cursos curtos, o imediatismo de resultado, uma falta de visão de se conectar a repertórios distintos, a vivências, a pensamentos diversos”, adverte Cátia Lassalvia, consultora e doutora na área de linguagens e tecnologias. Ela acrescenta que “os estudantes têm essa necessidade de ‘aprender urgentemente’, aquela coisa da sociedade da rapidez, da fluidez, do mundo líquido, junto com uma crise econômica.”

Celso Kiperman, CEO da +A Educação, concorda. Segundo o executivo, “a geração atual tem uma necessidade de soluções mais imediatas, tem menos paciência e menos tolerância, por isso procuram as que deem respostas mais rápidas e mais efetivas.”

Cursos de curta duração têm naturalmente grande valor. Eles são um caminho eficiente para corrigir falhas na formação profissional ou para adquirir novas habilidades. Mas, por serem muito mais fáceis de serem oferecidos, exigem cuidados adicionais do estudante. É preciso verificar as credenciais da instituição de ensino e dos professores, para evitar cair em verdadeiras arapucas, que proliferam se aproveitando da necessidade e inocência dos candidatos. “Para quem estiver querendo um diploma rápido, vai ter cada vez mais faculdades ofertando”, afirma Lassalvia.

A consultora vê uma precarização de políticas públicas educacionais, com a gestão da carreira deixada maquiavelicamente para uma pessoa às vezes mal preparada e desassistida. “Se ela estudou e se deu bem, é empreendedora de si mesma, mas, se não se deu bem, é problema dela”, explica.

“Pode até ter havido uma diminuição da qualidade, mas houve uma democratização”, contrapõe Kiperman. De fato, esse cenário facilita que mais pessoas adquiram novas habilidades rapidamente e sem gastar muito. “É então algo pontual, pragmático, para preencher lacunas, o que não é formação, mas informação”, afirma Lassalvia.

O problema de se fazer apenas esses cursos é justamente sua proposta de ensinar algo pontual. Isso não confere ao estudante a capacidade de conectar conteúdos complexos e diferentes, dando grandes saltos na carreira. “Essa busca por cursos em formato de pílula é muito bacana como algo complementar, mas não pode ser a formação principal”, explica a consultora. “Se o sujeito estiver fazendo algo e aparecer uma exigência maior, aquele aprendizado não comportará mais.”

 

Aprendendo a aprender

Talvez essa seja a grande diferença entre cursos pontuais e os mais longos, especialmente mestrados e doutorados: a capacidade de desenvolver conhecimento por conta própria, diante de novos desafios. É como ser capaz de misturar ingredientes para criar um novo prato, ao invés de ser restrito a seguir receitas sem questionamentos.

Isso só é possível graças a professores muito capacitados e que não se restringem a atender demandas imediatas, podendo se debruçar na pesquisa. Mas ironicamente uma crítica contundente de muitos profissionais tangencia justamente isso: a distância entre a universidade e o que mercado precisa.

“A academia é muito conservadora, reagindo lentamente às demandas da sociedade, às vezes a reboque delas”, afirma Kiperman. “O desenvolvimento tecnológico, antes capitaneado pela academia, hoje está dentro das empresas: de uma Amazon, de um Google, de um Facebook”.

Lassalvia acrescenta que as instituições de ensino precisam acompanhar a modernização do mundo. E isso não significa apenas investir em tecnologia. “É preciso trabalhar com metodologias ativas, é tentar inserir um pouco da vida fora da escola dentro dela”, sugere. “Não pode ser mais somente ensino baseado em conteúdo, que eu encontro no Google, no livro.”

Kiperman explica que, até 1998, as universidades brasileiras não podiam ter fins lucrativos. Isso fazia com que as poucas universidades então existentes se concentrassem na excelência acadêmica, deixando em segundo plano as necessidades do mercado. Por isso, as empresas pouco colaboravam financeiramente com as instituições. Isso criou um afastamento que permanece, em alguma escala, até hoje, apesar de ser desinteressante para todos.

O Brasil nunca demonstrou apreço pela educação, o que explica em parte a nossa dificuldade de nos consolidarmos como uma nação desenvolvida. Isso aparece, por exemplo, no desprestígio e nas condições de trabalho ruins dos professores, que chegaram a seu nível mais baixo nos últimos anos, com demissões em massa, perseguições e até agressões verbais e físicas.

Acompanho todos esses movimentos com apreensão. O surgimento de novos trabalhos muito bem remunerados e que exigem pouco estudo, como influenciadores digitais, pode diminuir ainda mais o apreço pela educação. Mas não podemos achar que basta ligar uma câmera para ficar rico. “Assim a gente vai ter um abismo de formação maior do que a gente teve nessas últimas décadas”, afirma Lassalvia.

Cursos rápidos são ferramentas modernas e eficientes para a formação profissional, desde que ministrados por professores qualificados, em instituições que se preocupem com a qualidade do ensino. Mas eles não podem levar à extinção de formações mais sofisticadas que, em última instância, são as que impulsionam toda a sociedade a patamares superiores de qualidade de vida e desenvolvimento.

Todos nós temos um papel nisso, ao valorizar a escola como espaço de aquisição de conhecimento e de valores de colaboração, tolerância, inclusão e respeito. As instituições de ensino, por sua vez, precisam se aproximar da sociedade e se modernizar no conteúdo e na forma. Enquanto tudo isso não acontecer, o Brasil continuará andando de lado no seu desenvolvimento.

 

O músico britânico Elton John, que em 2007 propôs que a Internet fosse “fechada”, pois estaria prejudicando a qualidade das músicas

A “ditadura dos fãs” pode piorar a cultura e nossas vidas

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Em agosto de 2007, Elton John sugeriu que a Internet fosse fechada por cinco anos, pois ela estaria prejudicando a qualidade das músicas. Segundo o artista britânico, isso aconteceria porque as pessoas não saíam mais de casa para interagir entre si, piorando as composições. Vale lembrar que o “Rocket Man” sempre se disse avesso à tecnologia. Ainda assim, hoje usa as plataformas digitais, onde tem milhões de seguidores, para se relacionar com seu público.

Apesar de despropositada, há um ponto que merece ser considerado na ideia do cantor com o avanço da tecnologia. Da mesma forma que as redes sociais nos deram o poder de dizermos o que quisermos, elas mudaram a relação entre artistas e seus fãs. Se antes esses últimos eram passivos e devotados, hoje ocupam um papel que chega a ser determinante na obra e até na vida de seus ídolos, que se veem extremamente expostos.

Cresce o número de pessoas que afirmam que essa exposição constante e inescapável pode prejudicar a criatividade e a diversidade cultural. Com suas “curtidas”, os consumidores não apenas de música, mas de todo produto podem determinar seu sucesso ou sua derrocada.

Involuntariamente cria-se uma “ditadura dos fãs”, que indica o que é “bom” e o que é “ruim” em tudo. Muitos autores, para continuar vendendo, passam a alterar e até a “piorar” suas entregas para seguir tais determinações. E isso vem provocando diversas mudanças em nossas vidas, muito além da música.


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Os fãs sempre foram essenciais para o sucesso de qualquer artista, mas, até pouco tempo atrás, não tinham como realizar a interferência vista hoje. O artista seguia sua intuição, suas vivências e seu estilo para compor, e o público gostava ou não do resultado.

Hoje muitos artistas trabalham seguindo diretrizes de algoritmos: as músicas dos próximos shows, as cidades das turnês, o estilo e a duração das canções e até aspectos da vida pessoal do artista são influenciados por dados extraídos das plataformas de música. Elas informam em tempo real o que está agradando, e isso oferece aos autores informações para estratégias para se conectar com sua audiência.

Essa é uma informação riquíssima, especialmente porque ninguém mais ganha dinheiro vendendo álbuns há muito tempo. As plataformas de streaming, por sua vez, pagam uma miséria pelas faixas reproduzidas, mas elas são essenciais para manter uma celebridade ativa e para o surgimento de novos nomes.

O dinheiro dos artistas agora vem de apresentações ao vivo. Por isso, a exposição e os dados das plataformas digitais se tornaram essenciais para sua sobrevivência, criando uma relação simbiótica muito maior que a existente com as antigas gravadoras.

Questiona-se se atualmente o artista não pode continuar sendo “apenas um artista”. Anitta nada de braçada nesse cenário. Por outro lado, a cantora americana Halsey desabafou recentemente, criticando sua gravadora, que a estaria impedindo de lançar uma música como single, pois ela não seria “boa para o TikTok”.

Será que grandes sucessos do passado, apesar de longos e fora do convencional, como “Bohemian Rhapsody”, do Queen, ou “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin, “dariam certo” hoje?

 

“Audição ansiosa”

A pergunta é legítima!

Produtores pedem que os artistas agora criem músicas com menos de três minutos de duração. O motivo é simples: o público atual não “toleraria” canções mais longa que isso, abandonando a faixa antes do fim, o que diminui sua relevância perante os algoritmos. Com isso, ela passa a ser menos sugerida pelas plataformas a outros ouvintes, o que é ruim para os negócios.

Essa mudança de comportamento já tem até um nome: “audição ansiosa”. E ela determina que é melhor ter uma música de dois minutos tocada três vezes que uma música de seis minutos ouvida uma vez ou –pior– nenhuma vez.

Tradicionalmente as músicas se dividem em uma introdução, uma melodia crescente e um auge, como uma história. Pelos novos parâmetros, elas devem ser “diretas”, criando um impacto logo no início. Seguindo o mesmo raciocínio, é melhor lançar uma música de cada vez, no lugar de um álbum inteiro, pois as pessoas não teriam paciência para absorver tantas faixas em um único pacote.

Isso tudo pode parecer absurdo, mas o Spotify recebe, por dia, mais de 40 mil novas músicas do mundo todo. Como competir com tudo isso? É como se houvesse mais músicas disponíveis que pessoas para ouvi-las, especialmente se considerarmos que as preferidas do algoritmo acabam sendo muito privilegiadas.

Chegamos a um dilema do tipo “ovo e galinha”: as pessoas estão ansiosas por influência dos algoritmos ou os algoritmos refletem a ansiedade de nosso tempo? Afinal, as plataformas digitais vivem de nos manter excitados e ansiosos. O excesso de estímulos e de informações fazem com que tenhamos que gastar muita energia para “dar conta de tudo”.

Mas temos mesmo que fazer isso?

Como gestor de customer experience, sempre defendo que coletemos os dados de nossos usuários de maneira ética e legal, para oferecermos produtos e modelos mais alinhados com seus desejos. Mas há limites! Se o público for convencido, por alguma bizarrice nas redes sociais, que salva-vidas de concreto são mais eficientes, os fabricantes de coletes não podem abraçar isso, pelo simples fato de que é absurdo!

Criou-se um perigoso círculo vicioso! Estamos nos tornando pessoas ansiosas e rasas, pois essa dinâmica digital dificulta que nos aprofundemos em qualquer assunto. Queremos tudo e queremos agora!

As empresas, assim como os artistas, tentam satisfazer essa demanda insana, retroalimentando o processo. Mas isso precisa ser interrompido, pelo resgate do valor da qualidade em tudo que se oferece.

Claro que sempre existiram produtos de qualidade mais baixa, destinados a atender uma parcela da população que, por qualquer motivo, prefere isso. Mas eles não podem ser o modelo a ser replicado.

O poder que o meio digital concedeu ao público está, portanto, criando uma “ditadura”. Mas nenhuma ditadura é boa! Mesmo que, a curto prazo, possa parecer que está trazendo benefícios ao povo, não tarda para a verdade transparecer, com resultados piores para todos.

 

As belezas e as dores do ensino a distância

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Dizem que, nos últimos anos, a grande agente da transformação digital foi a Covid-19. Infâmias à parte, é um fato que a pandemia nos ensinou a fazer muitas coisas novas ou a usar a tecnologia para recriar atividades cotidianas. Uma das mais impactadas foi a maneira como estudamos. E isso trouxe benefícios, mas também problemas.

Como professor, vi alunos irados em março de 2020, quando seus cursos passaram a ser oferecidos online, por causa da doença. Mas o movimento foi inevitável, atingindo do Ensino Infantil à pós-graduação. Hoje, mesmo com as escolas reabertas há mais de um ano, observo uma crescente preferência por cursos a distância, até mesmo superando os presenciais.

Esse é um movimento sem volta! São inegáveis as vantagens, como comodidade e economia, ao se estudar em casa. Mas o uso inadequado da tecnologia na educação pode piorar muito a qualidade do ensino.


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Não se pode olhar de maneira homogênea para todos cursos e momentos da formação de uma pessoa. “Isso é o futuro para a parte da população que quer se qualificar”, afirma Yuri Lima, pesquisador do Laboratório do Futuro da COPPE/UFRJ. “Mas há uma perda de qualidade do ensino, principalmente para quem está em uma primeira graduação”, explica. Para ele, “existe incoerência se eu disser que o futuro do trabalho virá de trabalho em equipe, empatia, negociação, criatividade ou qualquer outra soft skill, e concordar que um curso online conteudista suprirá tudo isso”.

A opinião é compartilhada por David de Oliveira Lemes, diretor da Faculdade de Estudos Interdisciplinares da PUC-SP. “Na graduação, faz muito mais sentido o presencial, pela convivência universitária, pela troca de experiências, porque é uma idade de transição para a vida adulta”. Ele explica que há habilidades exigidas pelo mercado que o aluno precisa do ensino presencial para desenvolver. “Mas, mesmo para as especializações, alguns momentos presenciais, nem que seja para networking, são fundamentais”, acrescenta.

Essa mudança no público se deve, em parte, às universidades, que ofereceram diversos cursos online gratuitos no começo da pandemia. Isso fez com que muita gente descobrisse que é possível aprender de casa, economizando dinheiro e tempo. Em contrapartida, vimos uma explosão de cursos de qualidade duvidosa, até mesmo de instituições conhecidas. Elas viram no ensino a distância uma maneira de aumentar exponencialmente seus lucros em detrimento da qualidade pedagógica.

O desafio para os alunos é descobrir quais cursos lhes garantirão um aprendizado satisfatório. Já as instituições de ensino precisam se apropriar desses recursos com ética, para levar a educação a um novo patamar de excelência.

A educação não é só erudição, especialmente para os mais pobres. Para essas pessoas, é um caminho para mudar de vida, especialmente –mas não exclusivamente– em um país com grandes desafios sociais, como o nosso.

Segundo o estudo “O Estado da Educação Superior 2022”, produzido pelo Instituo Gallup e pela Fundação Lumina, dos dez motivos para se cursar o ensino superior, seis se relacionam a melhorias no trabalho. De fato, de acordo com a consultoria LABORe, o salário médio no Brasil em dezembro de 2018 saltava de R$ 2.147, pago a quem estudava até o Ensino Médio, para R$ 5.869, para quem concluía a faculdade.

 

A busca pela comodidade

Há alguns dias, realizei uma pesquisa informal no LinkedIn para saber como as pessoas preferem estudar hoje. Com 1.763 votos, o ensino presencial apareceu na frente com 38% das preferências, seguido de perto pelo ensino a distância com aulas ao vivo (33%) e pelo ensino a distância com aulas gravadas (28%).

Isso está em linha com o Censo da Educação Superior 2020, divulgado em fevereiro pelo MEC (Ministério da Educação). Naquele ano, o país registrou, pela primeira vez, mais matrículas em graduações a distância que nas presenciais. Se considerarmos apenas instituições privadas, isso já acontece dede 2019.

“Se for apenas para conteúdo expositivo, o EAD é muito melhor”, afirma Lemes. O professor explica que o tempo em uma sala da aula presencial deve ser aproveitado com metodologias que ajudem na formação do aluno, como debates e projetos.

O alerta acende quando os cursos presenciais são substituídos pelo EAD apenas para aumentar os lucros. “O online ao vivo já passa por uma precarização quando coloca um professor para dar aula para até mil alunos”, afirma Lima, sobre instituições que substituem várias turmas presenciais por uma enorme turma online. Mas a situação fica dramática quando o curso se resume a aulas gravadas, com um tutor (que muitas vezes nem tem a formação acadêmica adequada) “gerenciando” até 5.000 alunos!

Lima explica que, quando se olham listas de profissões do futuro, o professor aparece, pois suas tarefas estão entre as “menos automatizáveis”. Entretanto, esse uso inconsequente do ensino a distância vem provocando uma onda de demissões de professores no Brasil. “A gente está substituindo a educação presencial como um todo por um modelo de negócios que dispensa a existência do professor”, afirma Lima.

Isso aparece claramente no Censo da Educação Superior. A quantidade de professores no Ensino Superior privado vinha estável por volta de 210 mil. Em 2020, houve uma grande queda, para 195 mil. Já o Ministério do Trabalho aponta 30 mil professores demitidos no Ensino Superior entre março de 2020 e dezembro de 2021.

Lima explica que menos turmas presenciais exigem menos professores, sem diminuir a quantidade de alunos nas enormes turmas online, aumentando os lucros das instituições. “Para que eu vou investir no presencial, que me traz a metade da minha margem do online?”

A própria formação de novos professores vem sendo impactada. Levantamento divulgado no dia 18 pelo movimento Todos pela Educação mostra que 61% dos formandos de cursos de Pedagogia e Licenciatura em 2020 no país estudaram a distância. Nos demais cursos superiores, o índice foi de 24,6%. A instituição considera isso “extremamente grave”, pois essa formação seria de baixa qualidade.

“Quando a gente pensa na degradação do trabalho docente, na verdade é porque isso está degradando a qualidade do ensino”, afirma Lima. Mas ele relembra que a culpa não é do ensino a distância, e sim de seu mau uso. “Eu não acho que ele seja uma panaceia e também não acho que seja o fim do mundo.”

Lemes aponta que o professor está tendo que se reinventar o tempo todo. “Sempre vai ter espaço para professor, talvez não aquele que ele tinha antes”, explica, dizendo que não sabe se há uma precarização, mas que há transformação das suas funções.

Sou um defensor da transformação digital nos mais diversos segmentos. A educação obviamente também melhora com a tecnologia. Mas, como em todos os casos, isso precisa ser feito com responsabilidade. O EAD não é vilão, nem tampouco algo a ser abraçado inconsequentemente.

Empresas de educação são negócios muito particulares, pois todos os demais segmentos dependem da qualidade de sua entrega. Naturalmente devem ter lucro, mas elas não podem sacrificar seu crítico papel social por ele.

O Brasil já padece de uma educação de qualidade muito baixa há anos, e que só vem piorando. Não é de se estranhar que soframos com um severo déficit profissional, em quantidade e principalmente em qualidade. Não podemos nos dar ao luxo de isso ficar ainda pior!

 

Frances Haugen, ex-gerente de integridade cívica do Facebook, afirma que a empresa coloca os lucros à frente do bem-estar dos usuários

As redes sociais que nos afastam uns dos outros

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Estamos a dois meses da eleição presidencial mais estranha de nossa história. Apenas dois candidatos têm chance de ir ao segundo turno. A vitória deve ser decidida por quem as pessoas não querem no cargo ao invés de quem elas querem. E ela representará o clímax da influência das redes sociais em nossas escolhas, um movimento global iniciado há cerca de uma década.

Esse poder das redes sociais sobre o que e como pensamos vai muito além de aspectos políticos, e vem deformando a sociedade. Essas plataformas têm uma capacidade sem precedentes de identificar nossas preferências e nos empurrar para extremos que, na prática, nos afastam das outras pessoas. E isso é tão mais verdade, quanto mais o assunto mexe com nossas paixões e valores, como política, religião e até futebol.

No limite, podemos chegar a um ponto em que nos tornaremos seres antissociais, graças à influência de sistemas que se dizem “sociais”, uma ironia digna de George Orwell. Sua obra-prima “1984” vira “café pequeno” diante da distopia que essas redes oferecem ao mundo.


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Esse efeito nocivo do meio digital talvez não tenha sido previsto pelos criadores dessas plataformas, mas não se pode dizer que ele aconteceu por acaso. O sucesso das redes sociais depende de ficarmos mais tempo nelas, aumentando a chance de clicarmos nos anúncios que elas trazem, sua principal fonte de receita.

Para isso, elas precisam nos proporcionar um fluxo infinito de conteúdo que nos agrade e nos inspire a nos engajar com ele. O “engajamento”, conceito cunhado pelo Facebook nos seus primeiros anos, é o motor dessa sofisticada máquina. Curtidas, comentários e compartilhamentos servem para o sistema nos conhecer melhor, além de funcionar como uma curadoria feita continuamente por bilhões de pessoas para informar aos algoritmos o que deve ser entregue a cada uma. É uma ideia verdadeiramente genial!

O problema é que, como já detalhado em incontáveis artigos e vídeos, inclusive nesse espaço, isso rapidamente nos “aprisiona” em bolhas de pensamento único. Como somos expostos apenas àquilo que gostamos, deixamos de ser impactados pela necessária diversidade social, o que acaba reforçando nossas visões de mundo, para o bem e para o mal.

Para agravar a situação, nossa natureza humana faz com que sejamos atraídos por conteúdos extremos, como aquilo que nos emociona, nos dá medo, nos excita ou nos dá raiva. Trata-se de um mecanismo evolutivo para aumentar a chance de sobrevivermos.

Isso foi detalhado na entrevista que Frances Haugen concedeu ao jornalista Pedro Bial na quinta passada. A ex-gerente da equipe de integridade cívica do Facebook ficou famosa em outubro passado, quando veio a público para dizer que a empresa conscientemente coloca seus lucros à frente do bem-estar de seus usuários. Para corroborar suas acusações, ela vazou milhares de documentos da empresa, em um escândalo que ficou conhecido como “Facebook Papers”.

“Se você criar uma conta nova em folha, sem amigos e sem interesses, e seguir interesses bem corriqueiros, um pouco à esquerda ou um pouco à direita, você será empurrado para a extrema-esquerda ou a extrema-direita em poucas semanas”, disse Haugen na entrevista.

“Quando recompensamos o engajamento ao invés de comunicação construtiva, ao invés de colaboração, acabamos dando mais alcance às ideias mais extremas”, acrescentou a cientista de dados.

 

“Isso nunca acontecerá comigo!”

Há uma falsa ideia de que apenas pessoas com menos instrução ou predispostas a comportamentos extremistas seriam vitimadas por esse controle das redes sociais. Mas o fato é que, em maior ou menor escala, essas plataformas conseguem nos convencer sobre os mais variados assuntos.

Como pesquisador, cansei de ver pessoas dizendo que elas jamais seriam vítimas desse controle das redes sociais. Elas tentam se “proteger” seguindo fontes de diferentes naturezas, misturando, por exemplo, conteúdos políticos de esquerda e de direita, para “furar as bolhas”.

Ter um comportamento mais democrático na rede e um consumo de informações mais equilibrado e de fontes confiáveis certamente ajudam nesse processo. Mas infelizmente não são suficientes. Por mais que tomemos esses cuidados, os algoritmos têm uma incrível capacidade de descobrir do que realmente gostamos e passar a privilegiar publicações, falas e argumentos que reforcem nossas ideias.

Os brasileiros têm um agravante, que é o enorme tempo que gastamos nas redes sociais. Segundo a edição 2022 da pesquisa Global Digital Report, organizada pelas consultorias Hootsuite e We Are Social, estamos entre os líderes mundiais nessa métrica: 3 horas e 41 minutos nas redes todos os dias, contra uma média global de 2 horas e 27 minutos.

Se quisermos melhorar esse quadro, precisamos entender e aceitar que estamos sendo moídos por essa engrenagem. Se alguém tiver alguma dúvida, basta olhar a sua volta e verificar o inevitável crescimento da intolerância, que ainda por cima é incentivada por grupos de poder que se beneficiam disso. E eles usam esses mesmos recursos digitais para atingir seus objetivos.

Sempre fomos um povo conhecido pela cordialidade, união e alegria. Infelizmente, esses traços de nossa cultura parecem ter sido soterrados por um discurso de ódio e de exclusão generalizado e até de uma eugenia praticada por alguns. Se nada for feito, chegaremos a um ponto em que a cor da camisa usada ou o escudo do time no peito poderão colocar literalmente em risco a sua vida ao sair na rua. Isso não é um exagero, diante de casos recentes de violência exacerbada.

“Sem a construção do consenso, sem recompensar o centro, não conseguiremos seguir adiante juntos”, explicou Haugen, que concluiu: “a maneira como as mídias sociais funcionam atualmente, os modelos de negócios, as escolhas de produto dificultam muito uma democracia construtiva.”

Quero crer que, mesmo em seus maiores devaneios de poder, Mark Zuckerberg e os criadores de todas as redes sociais jamais pensariam que elas causariam isso na sociedade. Mas aquelas plataformas, que surgiram com objetivos pueris de encontrar velhos amigos, se tornaram ferramentas para neutralizar novos inimigos.

Por isso, elas não podem se furtar de sua responsabilidade e atuar ativamente na anulação do mal que causaram. Estão fazendo muito pouco nisso! Por outro lado, cada um de nós precisa se policiar para não cair nessa armadilha cotidianamente.