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A Grécia está prestes a ser varrida da História

By | Educação | 6 Comments

Composição sobre imagem de VisualHunt.com/Creative Commons

Uma proposta que está sendo gestada em Brasília pode apagar a Grécia da História. Ironicamente ela não afetará nenhum cidadão grego, mas pode ser devastadora para os brasileiros.

Não, o Brasil não mandará tropas ao mar Egeu. A proposta se refere a mudanças no que as quase 200 mil escolas brasileiras deverão ensinar aos seus alunos em todas as disciplinas, a chamada Base Nacional Comum Curricular. Uma organização assim é bem-vinda. Entretanto, para ser benéfica, deve ser muito cuidadosa nos conteúdos propostos. E aí está o problema.

A íntegra da proposta está disponível para consulta pública no site do ministério até o dia 15 de março e o documento vem sendo bombardeado por especialistas. Qualquer brasileiro pode deixar lá sua opinião.

Neste artigo, vou me concentrar em História. É importante também deixar claro que este texto trata apenas de aspectos educacionais, fugindo de qualquer discussão política ou partidária. Mas é impossível não mencionar a característica fortemente ideológica e doutrinária do documento do MEC.

Evidentemente a educação é a mais poderosa ferramenta de controle de um povo. E a disciplina de História tem papel crucial nessa tarefa, pois apresenta elementos capazes de moldar a moral do cidadão. Não é de se espantar, portanto, que todos os regimes totalitários lancem mão desse recurso odioso.

No Brasil mesmo, temos o exemplo do currículo imposto pelo governo militar, que distorceu à vontade a história do país para criar uma geração dócil e pouco contestadora. O próprio currículo atual está longe de ser perfeito, sendo resultado de um arremedo do que sobrou do currículo militar com discussões mal-ajambradas da academia desde então, além da ideologia de cada autor.

No século passado, tivemos também outros excelentes exemplos de doutrinação pela escola, na Alemanha nazista, na União Soviética e na China. E atualmente temos o caso da Coreia do Norte, “o país sem cidadãos tristes”.

Claro que podemos afirmar que não há um currículo escolar sem viés político, pois a História nos mostra (pelo menos para aqueles que tiveram a oportunidade de ter uma visão mais ampla dela) que ela é contada sempre pelo vencedor. Seja o vencedor de uma guerra, seja o vencedor das últimas eleições. E nem precisa ser algo de grande monta: estamos cansados de ver prefeitinhos mequetrefes criando “conteúdos pedagógicos” para as escolas de seus municípios que desqualificam seus opositores e o que pensam.

Mas, afinal, o que o MEC está propondo para História?

 

Ameríndios e africanos versus europeus

A proposta do MEC parte de um pressuposto interessante é válido: como os fatos culminaram na atual sociedade brasileira. Mas a situação se deteriora rapidamente quando observamos os conteúdos propostos para se atingir esse objetivo pedagógico.

Pela proposta, o ensino de qualquer coisa anterior às Grandes Navegações foi eliminado, incluindo aí a formação dos povos mesopotâmicos, egípcios, hebreus, gregos, romanos, além de todos os Estados europeus, pedras fundamentais da cultura ocidental, inclusive da brasileira.

O currículo atual, bastante centrado na Europa, daria lugar a uma proposta fortemente focada em civilizações ameríndias e africanas. Todo o estudo da Antiguidade, Idade Média, Renascimento é eliminado, incluindo o surgimento e a disseminação do Cristianismo, do Judaísmo e do Islamismo. Em seu lugar, entram o contexto político dos povos indígenas brasileiros e da África subsaariana às vésperas da Conquista. E até temas para lá de questionáveis para a formação do cidadão brasileiro, como a independência do Haiti e a Revolução Boliviana ocupariam as aulas de história.

É inegável a influência dos índios e dos africanos em nossa cultura e elas merecem ser mais bem apresentadas do que são hoje. Mas de forma alguma isso pode acontecer em prejuízo de outros elementos definidores dela, a maioria mais importantes que os agora propostos. Pois, queiram ou não, nossa cultura e nossas organizações social, política, legal tem base europeia.

Pela nova proposta, eventos históricos europeus só são considerados naquilo que, de alguma forma, se relacionem com o Brasil. Mas como entender a independência do nosso país sem entender que a Corte portuguesa só veio ao país fugindo das Guerras Napoleônicas? É como entendê-las sem compreender a formação do Estado francês, que por sua vez está ligado, em suas raízes, ao fim do Império Romano. Esse, por sua vez, construído sobre a cultura de um país por eles dominado militarmente (mas não culturalmente) séculos antes: os mesmos gregos do início deste artigo.

A própria Revolução Francesa, que ajudou a moldar todo o Ocidente -e posteriormente parte do Oriente, por influência de nações como Inglaterra e EUA- fica reduzida a um estudo no 8º ano de como ela influenciou o nosso processo de independência e do pensamento liberal no país. E não há sequer menção à Revolução Industrial, que cristalizou os conceitos do Capitalismo e abriu espaço para a luta de classes e, portanto, do Socialismo. Que dizer então da Guerra Fria e sua influência decisiva na formação geopolítica global? Também não está lá. E estes são apenas alguns exemplos.

Essa proposta, que, a despeito da consulta pública, é completamente desconhecida da população, precisa ser, portanto, discutida e modificada dramaticamente! Entretanto, o pouco tempo disponível (cerca de seis meses) e a falta de divulgação e transparência nos processos me fazem sinceramente temer pelo resultado final.

A História, apresentada de maneira ampla e sem viés ideológico, é uma essencial para a formação, manutenção e evolução de qualquer sociedade. Estamos em um momento precioso para fazer isso direito, mas a proposta atual corre exatamente em sentido contrário.

Afinal, como nós estudamos na escola, conhecendo a história, compreendemos o presente e criamos um futuro melhor para todos. Mas, com a proposta em questão, temo que nossos filhos e netos não terão a mesma oportunidade de desenvolver essa visão crítica do mundo.

 

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O que resta à mídia nesse ano que começa?

By | Jornalismo, Tecnologia | 6 Comments

Entregador de jornal - autor desconhecido - domínio público

Esse ano promete para o jornalismo brasileiro! O país está em polvorosa e, assim mesmo, será palco de grandes eventos. Mas 2016 também deve ser o ano em que o meio digital assumirá um papel de protagonista no noticiário. E isso acende uma lâmpada vermelha nos chamados “veículos tradicionais”.

Teremos, em agosto, as Olimpíadas no Rio de Janeiro. Dois meses depois, será a vez das eleições municipais. Sem falar na crise econômica e no turbilhão político, que pode contar até com o impeachment da presidente da República. Ou seja, considerando apenas o noticiário nacional, assunto não faltará!

A questão é: quem fará a melhor cobertura? Os eventos acima exigem musculatura, muito dinheiro, grandes equipes. Portanto, os “suspeitos de sempre” –Globo, Folha, Estadão e afins– serão os responsáveis pela cobertura mais extensa. Mas isso não quer dizer que ela será a melhor, pelo menos sob a ótica do público.

O principal problema dos impérios de comunicação brasileiros é uma crise de credibilidade e de representatividade que só cresce. Isso é a morte para um veículo, pois sua existência só se justifica enquanto ele tiver um público que represente e que o busque para se informar. Mas o que temos visto nos últimos anos, cada vez mais, é o público bradar “esse veículo não me representa”. Chegamos ao cúmulo de jornalistas serem agredidos enquanto trabalham (e as vítimas mais comuns disso são os profissionais da Globo).

Esse movimento não é gratuito ou inesperado. Especialmente graças ao surgimento de alternativas jornalísticas no meio digital –e muitas nem podem ser classificadas como “veículos”– fica cada vez mais evidente o comprometimento da mídia tradicional com interesses econômicos e políticos (de oposição ou de situação). Isso ter interferido decisivamente na qualidade e na isenção editorial, ficando claro que o veículo está a serviço dos interesses da empresa e se lixando para a verdade e para o público.

Sem esse mesmo público, as tiragens despencam, os anunciantes fogem e os veículos desaparecem. O exemplo mais dramático é o da Editora Abril, que já repassou 17 revistas para a Editora Caras. Outros tantos títulos importantes foram simplesmente fechados (como a Info) ou perdidos (como a Playboy). Segundo fontes internas, as duas últimas revistas relevantes da casa dos Civita, Veja e Exame, já estão à venda, mas não há compradores interessados. A situação está tão ruim, que, desde o primeiro dia de 2016, a editora não cuida mais da praça Victor Civita, que leva o nome do seu fundador e é uma das mais modernas da cidade. Ela fica ao lado da imponente edifício-sede em Pinheiros, que, cada vez mais vazio, deve ser desocupado ainda neste ano, com os funcionários voltando para o velho prédio da Marginal Tietê, onde fica sua gráfica.

Em menor escala, mas de maneira igualmente preocupante, os outros grandes grupos de comunicação veem suas receitas caindo, junto com o interesse pelos seus produtos.

É o fim?

 

O renascimento no digital

De forma alguma! Apesar de magnatas da comunicação estarem sofrendo, o jornalismo vive um período emocionante de transformação. E o resultado disso são produtos jornalísticos mais modernos em sua forma e modelos de negócios, resgatando o fundamental vínculo com o público.

Naturalmente o digital está envolvido até o último bit nesse processo. O primeiro motivo é a própria mídia: é muito raro encontrar alguém com menos de 30 anos lendo uma revista ou um jornal impresso. Mais precisamente, a maior parte de seus públicos já tem mais de 50. E isso explica por que, há alguns anos, ouvi do gerente de assinaturas de um grande jornal paulista que ele acabara de criar uma nova linha na planilha de motivos para o cancelamento da assinatura: morte! Sim, a assinatura havia sido cancelada porque o assinante tinha morrido. O mesmo fim de qualquer produto que não consegue renovar seus clientes.

Nesse cenário, os gigantes digitais já perceberam que estão com a faca e o queijo nas mãos. Estudo publicado pelo prestigiado Pew Research Center demonstrou que o Facebook e o Twitter já podem ser considerados como fonte de noticiário: 63% dos americanos usam pelo menos uma das plataformas para se informar. Não é de se estranhar, portanto, que ambos, além de Apple e Google, tenham criado produtos que facilitam o consumo do noticiário neles mesmos. Lançado primeiro, os “artigos instantâneos” do Facebook já tiveram adesão de grandes veículos, inclusive brasileiros. Ótimo para essas plataformas; nem tanto para os veículos, que podem ser reduzidos a meros produtores de conteúdo.

Mas a grande mudança está acontecendo nas novas publicações, que já nasceram digitais. Não ficam, portanto, se martirizando para tentar migrar modelos de produção, distribuição e negócios moribundos para uma nova plataforma. Mesmo os que foram criados por egressos dos veículos “tradicionais” têm as equipes editoriais e de negócios cheias de “millennials”, cujos comportamentos, gostos e percepções são determinantes para o futuro dessas empresas. Procuram estar em todas as plataformas disponíveis, e criam produtos específicos para cada uma: afinal, os objetivos e a linguagem usados no Facebook não são as mesmas do YouTube, que também diferem, por exemplo, de um aplicativo ou do site do próprio veículo.

Por fim, há outra característica muito interessante nesse novo jornalismo: os veículos não criam enormes estruturas para cobrir todo tipo de assunto. Normalmente são focados em um tema específico, mas fazem aquilo muito bem. E isso faz todo sentido! Afinal, por que comprar um jornal ou uma revista que podem ser muito bons em política, mas péssimos em esportes? Muito melhor é consumir cada conteúdo de um especialista no assunto. E a “integração” da experiência informativa é feita pelo smartphone ou pela plataforma digital de preferência do usuário.

Então 2016 será o ano em que a mídia impressa vai morrer? Claro que não! Mesmo que continuem fazendo tudo errado, os impressos ainda têm muitos anos de sobrevida. Cada vez mais restritos, é verdade, mas ainda têm seu espaço garantido, pois, apesar de tudo, têm o seu público.

E há o ótimo exemplo que vem sendo dado por Jeff Bezos, dono da Amazon, que comprou The Washington Post em 2013 e está promovendo um verdadeiro renascimento do jornalão de 138 anos, colhendo resultados muito expressivos. O segredo? “Digitalizou” os modelos de negócios e de produção e manteve a excelência editorial do impresso.

Portanto, 2016 será um ano de grandes oportunidades para o jornalismo! Mas será melhor ainda para quem souber –e quiser– fazer a coisa certa.

 

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Quantos cartões de Natal você recebeu neste ano?

By | Tecnologia | No Comments
Composição de fotos: dodô (BazzaDaRambler) e cartão (Viscious-Speed)/Creative Commons

O dodô e o cartão de Natal: extintos?

Os cartões de Natal, um dos símbolos dessa época do ano, caminham para se juntar ao dodô no rol das coisas extintas. As pessoas naturalmente continuam desejando boas festas, mas algo mudou, e não é apenas a troca do papel e selos pela Internet: há um componente comportamental interessante.

Até há poucos anos, eu recebia cartões suficientes para forrar a minha árvore de Natal. Eles vinham de familiares, de amigos, de empresas com as quais eu tinha alguma relação. O volume em todo país era tão grande, que as entregas dos Correios sempre atrasavam nessa época do ano. Hoje não chega nenhum, nem para remédio! Aliás, nem vi para comprar.

Lá pelos idos de 1997, começaram a surgir os primeiros sistemas de “cartões virtuais”. A ideia era simples: ao invés de se mandar um cartão pelo correio, criava-se um na Web, e o sistema o entregava ao destinatário por e-mail. Prático e de graça, o que era um apelo interessante. Ainda assim, tratava-se de um cartão composto pelo remetente para cada um dos seus destinatários para desejar-lhe o tradicional “feliz Natal e próspero ano novo”.

Isso certamente representou o início do fim dos cartões em papel, mas nunca acabou com eles, nem de longe. Além do mais, de um jeito ou de outro, as pessoas continuavam mandando essas mensagens.

A digitalização do “feliz Natal” ganhou uma nova escala com as redes sociais e os smartphones. Agora é possível enviar os mesmos votos a várias pessoas individualmente. Mais fácil que isso: basta mandar para meia dúzia de grupos do WhatsApp que englobem quase todos os conhecidos. Ou ainda escrever os votos na linha do tempo do Facebook e esperar que ele entregue o desejo de boas festas.

Ou torcer. Pois, nesse caso, a rede social é quem decidirá quem será “merecedor” para receber os votos, seguindo seu critério de relevância.

 

Digitalizando lembranças e emoções

Não estou pregando aqui qualquer tipo do moralismo ou defendendo os fabricantes de desejos natalinos impressos. Acho apenas que é interessante ver como a oferta tecnológica, de certa forma, transformou o significado do envio de cartões de Natal.

Peguemos um outro exemplo: aniversários. Admito: eu hoje me lembro do aniversário de muito mais gente! Quer dizer, quem se lembra é o Facebook, que gentilmente cria uma lista diária de aniversariantes que devo cumprimentar. Antes disso, muitos deles passavam em branco, inclusive de algumas pessoas relativamente próximas a mim, assim como eu também era muito menos lembrado pelo meu dia.

Isso não quer dizer que saio mandando parabéns para todo mundo. Talvez eu seja bobo, mas não vejo muito sentindo em mandar um “post de aniversário” para um amigo da minha primeira infância que é meu “amigo” no Facebook, mas com quem, de verdade, não falo há uns 30 anos.

Mas fico feliz que o Facebook sirva como meu elefante particular, que não me deixa esquecer de (quase) nada. Entretanto, eu me reservo o direito de decidir o que fazer com essa informação. Mais que isso, usarei Facebook, WhatsApp e o que mais tiver disponível para enviar, do jeito que eu quiser, meus votos de aniversário, Natal ou Star Wars Day.

Apenas me decepciono quando vejo as pessoas operando no piloto automático na hora de fazer isso. A tecnologia existe para nos atender, deixar nossa vida mais produtiva e mais divertida. Ela trabalha para nós, e não o contrário.

Dessa forma, não temos que sair dizendo “feliz aniversário” só porque o Facebook nos avisou, ou delegar às redes sociais o trabalho de criar e enviar cartões de Natal às pessoas que ela mesma escolher. Os recursos estão aí e eles são fascinantes! Devemos usá-los, porém precisamos parar, pelo menos por um minutinho, para entender qual é o significado dessas funcionalidades e dos gestos que elas estão captando. Eles não devem ser banalizados.

Pois, por mais irônico que possa parecer, mesmo a mais sofisticada tecnologia tem o poder de nos tornar mais humanos. Basta usá-la com sentimento.

 

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Por que as pessoas dependem tanto do WhatsApp?

By | Tecnologia | No Comments

Foto: montagem a partir de reproduções

Contrariando todas as expectativas, o item mais comentado nas redes sociais na semana passada não foi a estreia do novo Star Wars, e sim a decisão judicial que tirou o WhatsApp do ar em todo o Brasil. A impossibilidade de se comunicar pelo programa deixou muita gente nervosa. Mas por que esse comunicador ficou tão importante na vida das pessoas?

Para quem não sabe, a decisão da juíza Sandra Regina Nostre Marques, que obrigou as teles a bloquear conexões aos servidores do aplicativo por 48 horas, foi tomada depois que os responsáveis por ele terem repetidamente desrespeitado ordens judiciais. Acabou sendo revertida pelo desembargador Xavier de Souza, 12 horas depois.

O WhatsApp tem cerca de 100 milhões de usuários no Brasil. São pessoas que o usam para trabalhar, para conversar com familiares e amigos. Pela sua rede, passam coisa séria e papagaiada em um volume colossal. Portanto, subitamente impedir o uso desse recurso enfureceu os usuários.

Marques afirmou que a decisão está amparada pelo Código Civil e pelo Marco Civil da Internet, que regula o uso da rede no Brasil. Ironicamente, o mesmo Marco Civil da Internet é a base dos que afirmam que a juíza foi longe demais.

Afinal, apesar de ser um ato extremo para fazer a empresa fazer o que a Justiça determinou, prejudicou diretamente 100 milhões de pessoas que não têm nada a ver com isso. É como se a Justiça determinasse que o serviço telefônico em todo o país fosse suspenso até que as teles cumprissem alguma determinação.

Mas o pessoal não tem como falar de outra forma?

 

Efeito manada

Naturalmente sim. Afinal a humanidade chegou até aqui se comunicando, e o WhatsApp tem apenas seis anos. Sem mencionar que existem vários programas alternativos.

Entretanto os comunicadores instantâneos despertam coisas interessantes em nós. A primeira delas é que caminhamos sempre para onde as pessoas estão. O que faz todo sentido, considerando-se a finalidade do produto. Se o grupo migra para outro sistema, logo vamos atrás.

Tanto é assim que o WhatsApp detém essa liderança hoje, mas ela é bem recente. Quem se lembra do ICQ, messenger com uma primazia aparentemente inabalável no fim dos anos 1990? Tinha uma base de apenas poucos milhões de usuários, mas a própria Internet era muito menor. Acabou sendo superado, depois de alguns anos, pelo MSN Messenger, que passou a parecer inalcançável. A Microsoft tentou depois migrar seus usuários para o Skype, mas não teve sucesso. O espaço já estava sendo ocupado pelo Facebook Messenger e pelo próprio WhatsApp: era lá que as pessoas estavam.

 

Um novo jeito de conversar

Tais programas e seu uso em smartphones oferecem duas possibilidades que estão redefinindo a maneira como conversamos. A primeira delas é que, com eles, podemos falar com quem quisermos, a qualquer hora e em qualquer lugar. E mais: sem incomodar quem estiver ao lado. Para muita gente, é a solução para reuniões intermináveis e aulas chatas.

Outra característica é a possibilidade de falarmos com várias pessoas ao mesmo tempo, seja mantendo várias conversas simultaneamente, seja por enviar mensagens a grupos, aliás um dos recursos mais populares do WhatsApp.

Podem parecer tolices, mas a prática demonstra que isso realmente está alterando a forma como nos comunicamos e até mesmo regras de etiqueta. Não é raro ver, por exemplo, várias pessoas em uma mesa de bar teclando em seus celulares. E podem estar enviando conteúdos para quem está ao seu lado.

As pessoas se apropriaram dessa tecnologia e fizeram do WhatsApp algo central no seu cotidiano. O ato da juíza Marques foi, portanto, inadequado, ainda que justificado do ponto de vista legal. Se o Facebook, dono do WhatsApp, se recusa a cooperar com a Justiça, essa é outra questão delicada, que fica para ser discutida em outro artigo.

A proibição do aplicativo entra para a lista de trapalhadas de decisões que tentaram derrubar serviços online inteiros por conta de questões pontuais. Já passou da hora da Justiça entender o espaço que os recursos digitais ocupam na vida das pessoas.

 

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Por que os jornais não aprendem logo com Star Wars?

By | Jornalismo | No Comments

Foto: reprodução

Amanhã estreia no Brasil “O Despertar da Força”, o filme mais aguardado do ano. O sétimo episódio de Star Wars deve movimentar multidões que lotarão as salas de cinema por semanas! Enquanto isso, a mídia impressa continua minguando, abraçada ao argumento de que as pessoas não mais pagam por conteúdo. Nada mais falso e descolado da realidade!

Qual é a diferença essencial entre a saga dos Skywalker e a mídia tradicional, do ponto de vista de negócios? A resposta é simples: a última esqueceu como produzir um produto pelo qual as pessoas estejam dispostas a pagar. Já a história criada por George Lucas continua encantando o mundo.

Não passa de chororô de mau perdedor, então, essa desculpa de que os jornais e as revistas estão morrendo, um após o outro, porque os leitores não querem mais pagar por um conteúdo “de alto valor agregado”. É exatamente o contrário disso! Nunca se pagou tanto por conteúdo! Só para ficar no exemplo do cinema, basta ir às salas IMAX, que estão entre as mais caras da cidade, e comprovar que suas sessões estão sempre cheias. E, pelo que sei, aquelas pessoas não entraram ali de graça.

O problema da mídia tradicional é que as pessoas não querem pagar pelo SEU conteúdo. E isso acontece porque, de alto valor agregado, ele tem muito pouco ou nada! Essa fantasia só existe na mente dos seus publishers.

É só comparar as primeiras páginas dos principais jornais: muito provavelmente elas terão as mesmas manchetes. Há grande chance de as demais chamadas serem também iguais, assim como as fotos. Pior que isso: quase todo o conteúdo provavelmente terá origem em denuncismo ou jornalismo palaciano. Furos e grandes reportagens tornaram-se raridades há anos.

Se analisarmos as revistas semanais, quaisquer que sejam os seus alinhamentos políticos, a situação é ainda pior: vivem um vale-tudo editorial para impor os seus pontos de vista. Claro que isso agrada àqueles que pensam na mesma linha, mas (felizmente) esse tipo de leitor, que não gosta muito de usar o cérebro, vem diminuindo. Aos trancos e barrancos, de uma maneira tortuosa, estamos vendo o surgimento de cidadãos e consumidores mais críticos.

Esse pessoal adora Star Wars. Mas não assina jornais.

 

Novos modelos

O fato é que as pessoas só gastam seu rico dinheirinho com algo em que vejam valor, produtos, serviços e até filantropia que faça sentido para elas. Essa é a razão de os cinemas continuarem cheios e os jornais ficarem cada vez mais finos.

É curioso que é muito fácil conseguir assistir a um filme hoje pagando muito pouco ou nada: discos piratas e torrents estão aí para quem quiser. Entretanto, ir ao cinema é mais que ver um filme, que passa a ser apenas mais um elemento de uma experiência que, como disse antes, o público vê sentido em pagar.

Isso não vem de hoje: a primeira grande vítima dessa mudança de comportamento do consumidor foi a indústria fonográfica, cujo principal negócio, a venda de discos, foi pulverizado. Começou com a troca de arquivos MP3, e se cristalizou com o iTunes, que -veja só- é pago e transformou a Apple de um fabricante de computadores em uma gigantesca empresa de mídia! É interessante observar que esse modelo também já está sendo substituído pelo streaming do Spotify. E a Apple, ao invés de ficar em um mimimi, criou o seu próprio serviço de música por streaming, o Apple Music.

Muitos podem argumentar que nada disso é jornalismo, que as pessoas não querem mais pagar pelo conteúdo de alto valor agregado, que custa caro para se produzir, e blá-blá-blá… Que preguiça desse pessoal!

Existem vários novos veículos jornalísticos surgindo e produzindo conteúdo de altíssima qualidade. No Brasil, sem pensar, eu citaria o Vice Brasil, o Catraca Livre, o Omelete, o Judão. E há ainda grandes veículos supertradicionais, que estão se reinventando e colhendo bons frutos, como The Washington Post, esse aliás impulsionado por Jeff Bezos, criador e dono da Amazon, que comprou o jornalão há dois anos e vem promovendo mudanças incríveis nos modelos de negócios e de produção.

No fim das contas, nenhum deles depende apenas da velha dobradinha publicidade-assinatura. Cada um deles encontrou várias fontes de receita que viabilizam seus negócios. Assim como não dá mais para ganhar dinheiro com música só vendendo discos.

A mídia tradicional deveria olhar com mais atenção para Star Wars.

Que a Força esteja com os publishers do futuro!

 

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By | Educação | 12 Comments
Alunos da Quest to Learn realizam atividade na escola com um jogo de mesa - Foto: divulgação

Alunos da Quest to Learn realizam atividade na escola com um jogo de mesa

Muitos alunos sonham com uma escola em que todo o ensino aconteça com jogos. Mas essa escola existe e é pública! Fica em Nova York e os resultados acadêmicos de seus estudantes são impressionantes.

Trata-se da Quest to Learn, com 360 alunos, que nasceu da proposta da ONG Institute of Play a partir de uma demanda da prefeitura da cidade, que buscava uma maneira de melhorar os indicadores pedagógicos e reduzir os números de evasão escolar do município (3 milhões de americanos abandonam o equivalente ao Ensino Médio todos os anos). E, de fato, nessa escola o índice de faltas e de evasão escolar são ínfimos (6% e quase zero, respectivamente), os professores adoram trabalhar no local (90% não a deixam) e os pais a apoiam fortemente (88% de aprovação).

 

 

Todo o programa educacional é cumprido, porém de uma maneira completamente inovadora. Não apenas os livros são substituídos por games e jogos de tabuleiro, como também alunos, professores e funcionários entendem que fazem parte de um processo de colaboração mútuo, em que todos ensinam e aprendem. A escola também adota outras técnicas de ensino avançadas, como aprendizado baseado em problemas, uso criativo de tecnologias e espaços físicos flexíveis.

A equipe da escola produz a maior parte dos jogos usados, mas eles também trabalham com produtos comerciais. Por exemplo, para estudar problemas ambientais de uma cidade, os alunos jogam o clássico “Sim City”. Já para estudar geografia, história, cultura e governo da Grécia Antiga, usam o game interno “I Spy Greece”, onde o aluno precisa cumprir missões como espião Persa.

Todo o processo de aprendizagem se organiza em fases. E outra grande diferença do ensino tradicional reside no fato de que, na Quest to Learn, o erro não é combatido, e sim valorizado. Os educadores entendem que, assim como em qualquer game, o aluno aprende com as falhas. Mas isso só acontece quando o erro não é punido, e sim encarado como parte do processo. Até as avaliações fogem da tradicional prova. Elas foram substituídas pela “fase do chefe”.

O ensino baseado em games se baseia em sete princípios: “todos são participantes”, “desafio”, “aprendizado na prática”, “feedback imediato e contínuo”, “entender a falha como uma oportunidade”, “tudo está conectado” e “sensação de estar jogando”. Mas se engana quem pensa que a escola é só diversão. O ensino é coisa séria na Quest to Learn! Tanto que a escola foi campeã na olimpíada de matemática de Nova York nos últimos três anos e seus indicadores pedagógicos são superiores aos da média das instituições da cidade. E a escola existe há apenas seis anos.

Parece perfeito! Então por que esse novo modelo não se espalha para as outras escolas, inclusive no Brasil?

 

Modelo disruptivo

A ONG pretende expandir o seu formato. Mas, apesar do aparente sucesso, isso não é algo simples de acontecer.

O principal obstáculo é que se trata de um modelo que rompe completamente com o que se conhece por escola. A Quest to Learn não nasceu da adaptação do modelo tradicional para uma nova realidade. Ela foi concebida a partir do zero para uma nova realidade.

Para muitos educadores e muitos pais, isso é um choque grande demais para ser absorvido. Portanto, a decisão de criar uma escola assim passa por uma escolha de negócios muito séria!

Além disso, apesar do enorme índice de satisfação com o trabalho entre seus profissionais, o modelo não é facilmente aplicável pela maioria dos professores. Apesar de a Quest to Learn afirmar que o professor precisa ser apenas formado em sua área do conhecimento para dar aula ali (eles naturalmente passam por um processo de treinamento interno), é fácil identificar que existe um fortíssimo componente cultural exigido dos docentes, para que se adaptem a um ambiente tão dramaticamente diferente daquilo que estão acostumados a entender como seu ofício.

Há ainda um fator ingrato, mas decisivo. A Quest to Learn forma estudantes que preferem colaborar a competir. Em sociedades (e mesmo em famílias) com conceitos capitalistas muito selvagens (como é o caso dos próprios EUA), isso pode não ser visto com bons olhos. Além disso, um aluno que passou toda a sua vida escolar em um ambiente assim, pode sofrer um enorme choque ao chegar a uma universidade, com um ensino tradicional. Isso quando não tiver que conviver com professores universitários que não demonstram qualquer interesse pelo aluno, e mal se relacionam com ele.

Então afinal vivemos em um mundo em que não há espaço para uma escola assim?

Claro que há! Apesar de todos os obstáculos acima, não há dúvida que modelos inovadores como o da Quest to Learn são muito bem-vindos. Um dos maiores desafios da educação hoje é diminuir a diferença de linguagem entre professores e alunos, que é enorme e fica cada vez maior à medida que a diferença de idade dos dois grupos se amplia. E, por linguagem, quero dizer estrutura frasal, palavras usadas, interesses culturais, manuseio de tecnologias e muito mais.

Uma iniciativa assim não apenas oferece uma experiência imersiva e envolvente para professores e alunos, facilitando a aquisição de conhecimentos e melhorando a retenção dos conteúdos, como também diminui essa diferença de linguagem.

As maiores barreiras a ser vencidas são, portanto, políticas e do marketing da escola. Então que tal começar um projeto-piloto na escola, apenas para alunos que se interessarem, no contraturno?

É preciso coragem e muito trabalho para uma mudança dessa magnitude, sem dúvida nenhuma. Mas permanecer no modelo tradicional, pela falta dessa coragem, não é uma opção. A educação grita por mudanças.

 

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A Internet está mudando seu jeito de falar

By | Educação, Tecnologia | 2 Comments

Foto: reprodução

Nesta semana, as linhas do tempo do Facebook de muita gente foram invadidas por um confuso Vincent Vega, personagem vivido por John Travolta em Pulp Fiction. A cada aparição, ele estava em um lugar diferente e inusitado, como em um ponto de ônibus, em um quadro do artista Escher, em um clipe da banda A-Há ou no planeta Tatooine. Trata-se de um “meme”, fenômeno cultural típico das redes sociais. Junto com “emojis”, “emoticons” e afins, eles estão moldando a maneira como as pessoas se comunicam e se expressam.

Para quem não sabe o que são, “emoticons” –junção dos termos em inglês “emotion” e “icon”– são sequências de caracteres usados para acrescentar algo de linguagem corporal a um texto escrito. Por exemplo, : – ) é um rosto feliz (experimente inclinar a cabeça para a esquerda). Eles se popularizaram com sistemas online nos anos 1980 e, com o avanço da tecnologia, surgiram versões gráficas 🙂 a partir de 1997. Chamados de “smileys”, os pequenos desenhos acabaram se combinando com os símbolos japonses “emojis” –junção dos termos em japonês “e” (imagem) e “moji” (letra)– criados originalmente para celulares da NTT DoCoMo. Com os smartphones, as “carinhas” se popularizaram de vez, sendo até mesmo incorporadas aos seus teclados. E já são mais de mil! Já os “memes de Internet” são imagens que se popularizam entre os internautas, que as usam para transmitir ideias ou fazer piadas, acrescentado textos ou alterando o visual, como no caso do Travolta confuso acima.

Usuários de smartphones e de redes sociais, especialmente os mais jovens, encaram essas novas formas de comunicação de maneira totalmente integrada ao cotidiano. Tanto que elas já extrapolaram os limites do mundo digital, sendo reproduzidas até na TV e no cinema. A publicidade também está tirando proveito disso, como nas campanhas do Itaú (exemplo abaixo):

 

 

Muita gente já encara os emojis como novas letras, ou pelo menos ideogramas, a exemplo do formato dos alfabetos orientais. E isso não é piada!

O ponto é: quem não entende –e usa– os símbolos na sua comunicação pode ser considerado um novo tipo de analfabeto?

 

Sai a “letra de mão”; entram as “carinhas”

Paralelamente à inclusão desses novos símbolos de compreensão universal nos “alfabetos” das pessoas, há um movimento pedagógico que propõe que a escrita cursiva, a chamada “letra de mão” deixe de ser ensinada às crianças nas escolas.

A justificativa: as crianças vivem em um mundo onde todo o conteúdo é escrito com letras do tipo bastão, as “letras de forma”. Além disso, todas as formas de entrada de texto digitais –smartphones, tablets, computadores e até TVs– oferecem basicamente essa opção. Dessa forma, a “letra de mão” estaria ultrapassada e seria desnecessário conhecê-la. Em grande parte das escolas brasileiras, a alfabetização já se dá com letras bastão, partindo para a letra cursiva lá pelo terceiro ano do Ensino Fundamental, quando a coordenação motora está mais refinada e o processo de alfabetização está praticamente concluído.

Quem me conhece sabe que sou um liberal e, entre outras coisas, defensor ferrenho da língua viva. Mas acho que tudo na vida deve ser encarado com equilíbrio.

Apoio, portanto, o uso de memes e emojis na comunicação. Acredito que podem até mesmo extrapolar textos informais, sendo usados, por exemplo, em material jornalístico. Claro, não em todos: não estou sugerindo que encontremos “carinhas” nas páginas de economia do Estadão, por exemplo. Mas em outros veículos, com uma proposta mais jovem, eles são não apenas aceitáveis, como bem-vindos.

Quanto à eliminação da letra cursiva nas escolas, não vejo com bons olhos. Entendo perfeitamente a justificativa da proposta, e as coisas realmente acontecem assim. Mas a “letra de mão” continua existindo, inclusive nas telas digitais, como opção de formatação. É uma competência que não deve ser perdida, nem que seja para que as crianças consigam entender materiais escritos assim depois. Porém é mais que isso!

Afinal, a tecnologia nos oferece a oportunidade de enriquecer nossa comunicação, sem precisarmos empobrecê-la em outro canto.

A Internet conhece você melhor que sua mãe

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Foto: Adam Mancini / Creative Commons

Nessa semana, fui apresentado a mais um sistema online que parece conhecer meus amigos melhor que eu mesmo, e é capaz de detectar traços da minha personalidade que talvez nem minha própria mãe saiba. Isso tudo sem responder a nenhuma pergunta, em poucos segundos. Quando me deparo com algo assim, sempre penso que vivemos na era do fim da privacidade, liquidada pela combinação de algoritmos astutos, enorme capacidade de processamento e nossa vida cada vez mais online.

Não se trata do primeiro serviço que faz isso. Facebook e Google, só para ficar nos mais óbvios, detêm uma quantidade inimaginável de informações parametrizadas sobre cada um de nós, que sabem como transformar em dinheiro. Nesse mesmo espaço, já discuti também sobre o Apply Magic Sauce, criado pela da Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido), capaz de realizar uma impressionante análise psicológica do usuário, tendo, como base, apenas suas “curtidas” no Facebook.

O que me chamou a atenção sobre o novo serviço, chamado Crystal, é que ele não precisa ter acesso à conta do Facebook, Google, Twitter, LinkedIn ou qualquer outra do indivíduo. Na verdade, você pode saber como a pessoa é sem sequer ser amigo dela. Basta digitar o seu nome e identificá-la entre possíveis homônimos. A “mágica” se dá pela análise de conteúdos públicos na Internet atribuídos ao indivíduo.

O sistema oferece uma estimativa de precisão, que cresce à medida que encontra mais informações na rede sobre o pesquisado. Se encontrar pouca coisa, informa que o relatório pode não ser confiável. Por outro lado, se atinge um patamar mínimo, ele sugerirá como você deve se comportar quando estiver conversando com a pessoa, enviando-lhe um e-mail ou trabalhando com ela. Ainda dirá o que é natural ou não para o pesquisado.

Sobre mim, o Crystal lembra que, ao falar comigo, não se deve perder o foco no todo, enquanto é aceitável usar emoticons em e-mails. Também é bem-vindo, por exemplo, usar tempo para explorar novas ideias quando trabalhar comigo. Acerta quando diz que falo sem rodeios e que não me ofendo com piadas de gosto duvidoso.

Tudo isso só a partir de um nome.

 

Somos livros abertos

Nunca a expressão “minha vida é um livro aberto” foi tão verdadeira. Só não é perfeita porque as informações hoje não são mais tão coletadas dos livros, e sim da Internet.

O problema é que nem sempre o “dono do livro” gostaria que ele estivesse assim escancarado. Mas, verdade seja dita, é um problema cada vez menor, pois as pessoas vivem um momento de deliberadamente se expor ao mundo, especialmente nas redes sociais, muitas vezes de maneira exagerada e até perigosa.

Mais sensível que isso é o fato de que aparentemente falta à população a consciência da amplitude desses seus atos. Embarcamos na superexposição por diferentes motivos: para “fazer parte do grupo”, para nos sentirmos queridos (ou vistos), para expressar nossos sentimentos e crenças (boas e ruins). Há também o compartilhamento de informações, às vezes íntimas, com aplicativos nos celulares ou nas redes sociais: abrimos mão da nossa privacidade pelo simples desejo de usar algo novo, desde uma incrível inovação, até um simplório brinquedinho.

Conscientemente ou não, espalhamos nossas pegadas digitais o tempo todo. Essa é a realidade posta, e não há volta disso. Crystal, Apply Magic Sauce e todos os recursos do Google e do Facebook são exemplos de como alimentamos o sistema, e dele recebemos algo em troca.

Não é tão ruim quanto as ficções distópicas de “1984” ou de “Matrix”, mas estamos sendo sempre vigiados nessa nossa relação simbiótica com o sistema. Mas nem mesmo Neo ou o Grande Irmão pensaria em algo tão complexo e eficiente.

A liberdade não pode ser vítima da guerra ao terror

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"A Liberdade Guiando o Povo", de Eugène Delacroix - Imagem: reprodução

“A Liberdade Guiando o Povo”, de Eugène Delacroix

O jornal Le Figaro divulgou ontem uma pesquisa que indica que 84% dos franceses estariam dispostos a aceitar restrições a sua liberdade para se sentirem mais seguros. Claramente impulsionados pelo medo causado pelos atentados terroristas de sexta passada, esses números escondem o enorme risco de uma população abrir mão de seus direitos em um momento de crise e isso se perpetuar depois.

A França é tradicionalmente um dos países que mais defendem as liberdades e a privacidade do indivíduo. Mas agora está ferida por um inimigo que ninguém sabe quando, onde ou como atacará de novo. Essa sensação de impotência é terreno fértil para o crescimento de abusos de toda natureza. Na mesma pesquisa, 74% se disseram favoráveis à prisão de suspeitos de terrorismo, enquanto a retirada da nacionalidade francesa desse grupo é aceita por 53% de integrantes da esquerda e por assustadores 94% da direita radical. Vale ressaltar que se tratam de suspeitos, não de casos confirmados. Por fim, 62% dos franceses se dizem contrários à entrada de imigrantes no país (eram 47% há um mês).

Naturalmente a tentativa de controle de tudo que trafega na Internet também está na pauta do dia. Afinal, os terroristas usam os meios digitais para se comunicar, de maneiras bastante criativas (cheguei a ouvir –não-confirmado– que estariam até mesmo usando o inocente game Super Mario Maker para distribuir coordenadas de ataques).

Esse controle é um desejo antigo de políticos, principalmente dos mais sujos e medíocres, que não vira lei em países que prezam o indivíduo justamente pela enorme rejeição da sociedade. Mas o que impedirá isso na França em um momento como esse?

A Internet finalmente será controlada?

 

Não devemos deixar a coisa ainda pior

Não seria a primeira vez que o medo do terror patrocinaria a tentativa de se controlar as vidas digitais dos cidadãos. Principalmente depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, o governo americano tentou emplacar várias leis que legitimariam a espionagem online do governo (e conseguiu algumas), como o PATRIOT Act.

Claro que o governo americano usou largamente a Internet para se intrometer nos negócios de pessoas, empresas e governos do mundo todo. As revelações de Julian Assange e de Edward Snowden estão aí para documentar isso largamente. Mas o fato de isso permanecer no campo da ilegalidade pelo menos dificulta que a prática se dissemine para qualquer nível de poder, até os mais medíocres.

Já usei este espaço para discutir anteriormente os riscos de governos controlarem a Internet. Mencionei, inclusive, projetos de lei que tramitavam no Congresso Nacional e que permitiriam a qualquer “autoridade competente” arbitrariamente censurar publicações que lhe desagradassem e punir seus desafetos.

Hoje mesmo uma aluna me questionou como fica a liberdade de expressão em um momento como esse. Mais que isso, terroristas poderiam usar, por exemplo, o YouTube para fazer a sua odiosa propaganda? Respondi que a liberdade de expressão é um direito inalienável do ser humano, mas que, na prática, isso é algo bem difícil de se manter e de se exercitar. Defendo-a por princípio e tenho certeza que ela nos traz muito mais benefícios que perdas, por mais que, em muitas ocasiões, seja usada para propagar ideias das quais discordemos ou até mesmo abominemos. Mas essa é a regra do jogo.

Nesse exemplo, o próprio YouTube deve remover o vídeo, pois ele viola os seus termos de uso. Mas e no caso de o vídeo estar hospedado em um servidor dos próprios jihadistas? Além disso, como a imprensa deve tratar esse material? Ele é notícia? Deve ser usado em uma reportagem? Mais ainda: a imprensa tem o direito de querer publicar isso?

Isso nos leva a outro ponto: o exercício de liberdades, inclusive de expressão, está sujeito a critérios morais de cada um. Portanto, do meu ponto de vista, sim, a imprensa tem o direito de reportar as barbaridades, assim como tem o direito de editar o conteúdo para preservar o seu público dos momentos mais crus da exibição (que, diga-se de passagem, seriam desnecessários para as pessoas compreenderem o que estava acontecendo). Da mesma forma, as pessoas têm o direito de serem informadas, mesmo de coisas horrendas.

É uma situação muito delicada, sem dúvida. “Na guerra, a verdade é primeira vítima.” A frase, atribuída ao dramaturgo grego Ésquilo, poderia ser complementada perfeitamente por “seguida pela liberdade”. Os terroristas têm, pela natureza de sua ação furtiva, uma vantagem sobre os Estados que combatem. A esses últimos, cabe o dever de enfrentar o agressor da melhor maneira possível, a despeito de tal vantagem. Mas não podemos permitir que, em nome desse combate, os governos firam seus próprios cidadãos ainda mais, tirando-lhes a liberdade e a privacidade.

O absurdo de se usar o terror para comprovar um ponto de vista

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Foto: Giselle Garcia/Agência Brasil

Já nos bastasse o choque com os acontecimentos em Paris, fiquei muito triste ao ver que, mesmo diante dessa barbárie que comoveu o mundo, pessoas e instituições ainda encontraram lugar para usar a tragédia para fazer propaganda de seus ideais. E não me refiro a organizações terroristas, mas a jornalistas e veículos de comunicação se manifestando em redes sociais.

Há pouco mais de duas semanas, usei este espaço para fomentar o debate sobre como estar online afrouxa os limites morais de algumas pessoas. Naquela ocasião, eu me referia aos casos de assédio online contra uma participante do programa MasterChef Junior e a comentários infames postados contra o tema da redação do ENEM deste ano.

Desta vez, tive que ler coisas como “Entregue o destino das nações aos mercados; permita que instalem o caos e a incerteza; fomente o ódio; então se surpreenda: isso sangra e mata”, tuitado pela Carta Maior. Não foi a única (antes fosse), mas foi a que mais me chamou a atenção.

Sempre defendo em artigos, aulas e palestras que veículos de comunicação não apenas têm o direito de defender uma posição, como devem deixá-la clara para que o público consiga contextualizar adequadamente o que publicam. A Carta Maior faz isso muito bem.

Porém, da mesma forma, os mesmos veículos devem dar voz a posições contrárias, pois, por mais que defendam um lado do debate, devem fornecer elementos para que o público tenha uma visão mais ampla dos fatos (que sempre têm vários lados) e possam construir o seu próprio entendimento. Muitos poderiam argumentar que, em tempos de experiência informativa totalmente pulverizada pela abundância de oferta e distribuição pelas redes sociais, isso não seria mais necessário. Não concordo com isso: ter a grandeza de publicar posições contrárias só aumenta a credibilidade do veículo.

Agora definitivamente não é aceitável valer-se de uma tragédia para propagar sua ideologia.

 

A insensibilidade de um robô

Diante de um noticiário cada vez mais violento, tem-se a sensação de que todos estão anestesiados com o drama do outro. O sofrimento alheio no noticiário funciona quase como se aquilo reforçasse a “sorte” de não se partilhar daquela dor.

Nós, jornalistas, como agentes desse noticiário, corremos ainda mais o risco de passar por esse processo. Afinal, qual o peso de se noticiar mais um roubo, uma chacina, um desabamento, um acidente ecológico, um atentado terrorista? Em mentes viciadas em produzir reportagens, levanta-se os fatos, agrega-se números, escolhe-se uma imagem e o texto é parido. De cócoras!

A frieza, o distanciamento, a insensibilidade fazem com que o jornalista pareça um robô. Não é de se estanhar, portanto, que tantos textos jornalísticos sejam hoje produzidos autônoma e automaticamente por software. E muitas vezes, dentro do que se propõem, ficam melhores que os equivalentes produzidos por humanos.

A miopia jornalística e a insensibilidade capazes de gerar um tuíte como aquele são as mesmas que fazem colegas classificar a descomunal tragédia humana e ambiental de Mariana como “acidente”. Pelo que entendi, os supostos tremores de terra jamais poderiam ter causado o rompimento da barragem. Tampouco ela foi atingida por um meteoro ou por algum monstro japonês. Portanto, paremos com a cobertura chapa-branca, que poupa as empresas e o governo.

As boas escolas de jornalismo ensinam que a mídia tem duas funções principais: a de informar e a de formar o cidadão. Ela é o farol da sociedade, que ilumina as mentes e abre os olhos para um mundo que as pessoas muitas vezes não conseguem ver sozinhas. É por isso que, em países com uma mídia fragilizada, a sociedade sofre todo tipo de abuso político e econômico. É por isso que ditaduras sempre têm na imprensa livre um de seus primeiros e principais alvos.

Desgraçadamente nossa imprensa vem falhando nas duas funções. Os colegas precisam urgentemente parar de se guiar pela busca pela audiência, de se debater para agradar anunciantes, de tentar bajular seu público já embrutecido pela desinformação. E, com a mesma urgência, precisam reaprende a ter suas ações como jornalistas comandadas pelo seu cérebro e pelo seu coração.

Se não for assim, é melhor passar o bastão para os robôs de texto.

Ativismo digital desperta engajamento e simboliza uma nova geração politizada

By | Tecnologia | No Comments

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Nas grandes manifestações que sacudiram o Brasil em meados de 2013, ficou famosa a hashtag #vemprarua, que conclamava a população a participar das passeatas que estavam acontecendo. Ela vinha de mãos dadas com a ideia crescente de que fazer política só pelas redes sociais não era suficiente. Porém, passados dois anos, percebe-se que esse discurso é enviesado e que o “ativismo digital” representa muito mais que simplesmente alguém que não quer sair do sofá para fazer política.

Na semana passada, a F/Nazca, com o apoio da cRica Consulting e do Datafolha, publicou os resultados da 15ª edição da F/Radar, pesquisa que investiga os impactos da tecnologia na cultura e no consumo. Ela gerou um documentário, batizado de “Democracia Conectada”, que pode ser visto abaixo:

Os resultados demonstram que a combinação da enorme penetração das redes sociais (especialmente o Facebook) e dos smartphones entre os brasileiros criou elementos que permitem o engajamento da população nas mais diferentes causas. Elas vão desde a organização de megamanifestações completamente desvinculadas de grupos políticos, até a defesa de pequenas causas urbanas, como a preservação de uma praça ou um parque.

Mas o que mais me chamou a atenção foram os números que apontem que, dos quase 30 milhões de ativistas digitais no país, 80% se envolveram com causas pelas redes sociais, e que metade dos que participaram online também o fizeram indo para a rua. E mais: 60% dos internautas acreditam que as redes sociais podem mudar sua opinião sobre algum problema social e 40% afirmam que a mobilização online contribui para que participem presencialmente.

São números que demonstram um comportamento novo.

 

No sofá sim; apático não

Conclusões políticas e comportamentais muito importantes e interessantes podem ser tiradas disso.

A primeira delas é que esse tipo de engajamento está totalmente alinhado com uma nova linguagem urbana, que vem se desenvolvendo em todas as classes sociais: cada vez mais as pessoas conversam pelo meio digital, especialmente pelos smartphones. E, apesar de esse diálogo ser, de alguma forma, empobrecido por não acontecer presencialmente, diante do interlocutor, ele acaba sendo muito amplo. Fala-se sobre mais temas, e com mais gente. E, nesse cenário, fala-se até com desconhecidos de uma maneira inimaginável há alguns anos.

Essa característica essencial das redes sociais parece ter sido definitivamente integrada ao comportamento do brasileiro urbano, especialmente entre os mais jovens. E está na base desse crescimento do ativismo digital reportado pela F/Nazca.

Outra coisa que se observa é o sentimento de que as redes sociais são um palanque tão importante quanto as ruas, talvez até mais. Dezenas de milhares de pessoas em uma passeata certamente causam um grande impacto, mas esses eventos não acontecem sempre, são pontuais. As redes sociais, por outro lado, estão continuamente no ar, e as postagens políticas de cada usuário têm potencial de se propagar rapidamente pela rede, seguindo os seus critérios. Dessa forma, graças à tecnologia, estamos assistindo a uma nova forma de se fazer política, que pode ser profundamente engajada, mesmo sem precisar sair do sofá.

Naturalmente há de se argumentar que possivelmente a maior parte disso tudo seja apenas ruído causado por discursos vazios. Muito se fala, muito se critica, pouco se propõe. Afinal, é divertido bater em quem não gostamos, principalmente quando o alvo já está em situação delicada. O ditado “chutar cachorro morto” ganha nova dimensão nas redes sociais, com os amigos que pensam igual sobre determinado tema surgindo para ajudar no linchamento online.

Sobre isso, faço dois comentários. Sim, esse comportamento existe e está até mesmo criando uma polarização na sociedade nunca vista no Brasil. Mas isso, por mais ocas que sejam as palavras, já é fazer política.

Além disso, quem tem participado das últimas grandes manifestações de rua percebeu que aquilo era um verdadeiro carnaval de ideias completamente dissociadas entre si, até mesmo antagônicas. Tudo debaixo de um mesmo guarda-chuva democrático, que também abrigava aqueles que estavam lá só para curtir. Nada mais natural: a passeata é uma manifestação materializada na rua do discurso nada virtual das redes sociais, que, aliás, foram usadas para organizar o movimento.

Tudo isso passa uma sensação de que temos ainda muito a evoluir na nossa consciência política, para que paremos de chutar o cão moribundo e passemos a criar propostas concretas para o nosso país. Mas vejo com bons olhos como os meios digitais estão promovendo uma mudança maiúscula em mais um elemento da nossa sociedade. Estamos vendo o nascimento de uma nova geração politizada, com linguagem e estilo próprios.

Globo Play não deve salvar a emissora nas novas gerações hiperconectadas

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Foto: Robert de Bock / domínio público

Nesta terça (3), a Globo lançou seu aplicativo Globo Play, um serviço de vídeo sob demanda que, a princípio, lembra produtos como Netflix: o usuário paga R$ 12,90 por mês e tem acesso a todo o seu acervo. Mas a novidade talvez tenha chegado tarde demais para salvar a emissora.

Muita gente pode achar um exagero o termo “salvar” para uma empresa que faturou R$ 12,4 bilhões em 2014. Isso representa cerca de metade da publicidade da TV aberta, segmento cujo market share supera, por sua vez, 50% de tudo que se anuncia no país.

Porém, no dia seguinte ao lançamento, a comScore e a IMS divulgaram os resultados de uma pesquisa com latino-americanos que assistiram a algum vídeo online nos últimos três meses. E, pelo menos para essas pessoas, o vídeo sob demanda já é mais importante que a TV.

O vídeo pela Internet faz parte do cotidiano de 81% do público pesquisado, contra apenas 70% da TV aberta. No Brasil, os números são ainda maiores: 82% dos entrevistados veem vídeo sob demanda regularmente, contra 73% da TV aberta. Em média, os entrevistados assistem a 13,2 horas semanais de vídeos digitais, 7,8 horas a mais que os das emissoras tradicionais. O dispositivo preferido para vídeos é o smartphone, usado em 80% dos casos. E o tempo gasto nessas telinhas, 5,2 horas semanais, é praticamente o mesmo dos dedicados à TV aberta e à TV fechada, que somam 5,4 horas semanais.

Outro dado emblemático revelado pela pesquisa é a idade dos consumidores de vídeo online. O maior grupo, de 15 a 24 anos, representa 30% do total, seguido pelo de 25 a 34 anos (26%) e o de 35 a 44 anos (22%). Ou seja, 56% dessas pessoas estão na faixa etária que liderará a vida econômica de seus países nas próximas décadas, começando agora.

E é aí que a situação da Globo e das outras emissoras se complica.

 

Modelo caduco

Então por que o Globo Play não seria suficiente para recolocar a Globo no caminho desse grupo de telespectadores? Porque, apesar de ter um modelo de cobrança e uma tecnologia semelhantes aos da Netflix, ele insiste em um estilo que as pessoas não aceitam mais.

Uma diferença fundamental entre os dois serviços é que, quando a Netflix lança uma nova série, ela publica todos os episódios de uma só vez. Já o Globo Play não coloca na Internet nada que não tenha passado antes na telona. Nada de ver, portanto, todos os capítulos da série de uma só vez, como clientes do Netflix estão acostumados a fazer.

Ou seja, o usuário da Vênus Platinada continua preso à grade da programação, um modelo que caducou na cabeça das novas gerações. Cada vez menos, essas pessoas podem ser chamadas de espectadores, pois querem assumir o controle de sua experiência: o horário nobre é aquele que elas definirem, e o que passa nele é o usuário que escolhe.

Sempre gosto de observar crianças e adolescentes: eles são ótimos gurus de como será o comportamento da sociedade nos próximos anos. E algo que tenho constatado cada vez mais é que essa turma simplesmente não assiste a nada na TV aberta. A telona serve para ver alguma coisa na TV por assinatura ou se conectar a serviços de vídeo sob demanda, o que realmente lhes interessa mais, de Netflix a ídolos teen no YouTube, conteúdos que consomem vorazmente. E o relatório da comScore corrobora minha observação, ao indicar que, entre o grupo pesquisado, a TV por assinatura já tem mais público que a TV aberta, indicando uma preferência por segmentação de programação.

O último movimento da Globo é interessante, sem dúvida, mas não o vejo como suficiente para convencer as gerações já acostumadas a ter o total controle do seu consumo de conteúdo a pagar por ele. No final das contas, continua sendo a velha TV, apenas com um novo formato tecnológico. O que o público quer, entretanto, é uma verdadeira ruptura de modelo.

E nem entrei no mérito da qualidade da programação da TV aberta…

Violência contra a mulher começa em casa, passa pelo MasterChef e desagua nas redes sociais

By | Educação, Tecnologia | 3 Comments

Foto: CMYKane / Creative Commons

A edição mirim do MasterChef começou no dia 20 com uma de suas participantes, Valentina, de 12 anos, sendo alvo de comentários sexistas nas redes sociais. Cinco dias depois, o tema da redação do ENEM abordou justamente a violência contra as mulheres, e novamente o assunto inundou a Internet. Sempre acredito que o debate enriquece ideias, mas o que eu vi nesses dois casos é assustador.

No caso de Valentina, apenas uma criança, os impropérios dirigidos gratuitamente a ela já seriam imperdoáveis por si só. Mas o que se viu foi as redes sociais funcionando como caixas de ressonância para as barbaridades. Pessoas curtindo tudo aquilo e outras engrossando o caldo do horror, sem a menor preocupação de serem identificados a partir de seus perfis.

Os assediadores acham que tudo isso é mais que normal: seria perfeitamente aceitável pela nossa sociedade. E essa sensação tem origem no fato de que, no Brasil, a coisa é mais ou menos assim mesmo. A culpa recai sobre a vítima, como se ela fosse culpada pelo problema.

Fico imaginando o que Valentina teria feito para ser alvo de tudo aquilo e simplesmente não consigo encontrar nada. A começar porque nada justificaria o fato.

Meu sentimento foi reforçado pelo ENEM. Muita gente, candidatos ou não, se sentiu ofendida com a proposta da redação, como se estivessem sendo forçados a assumir uma posição “feminista” (a menos, é claro, que quisessem levar um zero) e isso fosse uma ofensa a sua honra, talvez sua masculinidade. Era como se escrever um texto combatendo à violência contra as mulheres, o que pode ser facilmente extrapolado para violência contra seres humanos, fosse algo penoso, que lhe fosse suprimir algum direito bizarro.

As aspas em “feminista”, no parágrafo anterior, foram propositais. Fica muito claro que a maioria das pessoas não entendem o que o termo significa (vou dar uma ajudinha com duas boas definições, do site Significados e da Wikipedia). De volta às redes sociais, assisti perplexo a pessoas com seu discurso de ódio contra a prova, baseado nas premissas acima. Também vi gente dizendo que a prova era uma doutrina “da esquerda” e que até se tratava de uma ameaça à família. Mas a minha esperança de uma sociedade melhor foi realmente abalada quando eu vi mulheres dizendo isso tudo.

Mulheres criticavam publicamente uma crítica à violência contra a mulher.

 

Impunidade e idiotismo

As redes sociais despertam características curiosas em alguns indivíduos.

A primeira delas é uma falsa sensação de impunidade, quase como se não pudéssemos ser alcançados em nossa “vida online”. Nela, fazemos coisas que jamais faríamos “presencialmente”, e essa característica se manifesta com bastante força nas redes sociais. Sempre gosto de usar, como exemplo, um álbum de fotos da família. Quem iria a uma praça e ficaria mostrando as fotos de seus filhos a desconhecidos? Então por que fazem isso nas redes sociais?

Isso explica parcialmente porque as pessoas publicaram tudo o que foi dito acima sobre o ENEM e sobre Valentina com os seus perfis reais. Estão lá para serem inequivocamente identificados, mesmo quando o que diziam poderia ser considerado crime em diferentes artigos do Código Penal. É verdade que muitos trogloditas diriam tudo aquilo também presencialmente, mas outros o fizeram apenas por se sentirem protegidos por esse véu inexistente da “vida online”.

Acontece que não existe essa história de “vida online” e “vida presencial”. As duas são apenas diferentes expressões de uma única realidade. Somos seres indivisíveis e, como tal, respondemos pelo que fizermos em qualquer lugar, mesmo no ciberespaço.

A segunda característica, prima da anterior, é uma espécie de ciberidiotismo. Assim como estar online causa a algumas pessoas a sensação de estar acima da lei, também destrava em um grupo o pior de sua personalidade, derrubando qualquer limite moral que tenham para fazer valer suas premissas.

Entendo que muita gente não goste do atual Governo Federal, e não estou aqui julgando ninguém por isso. Mas de repente notei que esse posicionamento político legítimo se misturou ao tema da redação. Afinal, por esse raciocínio, se o ENEM é feito pelo Ministério da Educação, logo tudo que ele propõe deve ser ruim, uma “doutrinação de esquerda”, uma “lavagem cerebral terrível” e, portanto, até mesmo combater a violência contra mulheres na redação deve ser algo condenável.

É triste ver a tecnologia sendo usada em atitudes que pioram a nossa sociedade, a despeito de seu potencial para melhorá-la. Para casos como os descritos acima, vejo o Direito e a Psicologia como as disciplinas do conhecimento humano necessárias para corrigir os excessos e os desvios.

Sobre a prova do ENEM, só posso dizer que ela cumpriu bem o propósito de levantar uma discussão tão importante na sociedade, ainda que o caminho tenha sido mais tortuoso que o que seria necessário. E, para Valentina, espero que o amor e o carinho de familiares e amigos a ajudem a passar por esse assédio da melhor maneira possível.

Depois de mudar o jeito de ver TV, Netflix agora mira o cinema e até o jornalismo

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Cena de "Beasts of No Nation", primeiro filme da Netflix para o cinema - Foto: divulgação

Cena de “Beasts of No Nation”, primeiro filme da Netflix para o cinema

Na última sexta, a Netflix estreou “Beasts of No Nation”, seu primeiro longa-metragem para cinema. Dois dias antes, seu CEO, Reed Hastings, e seu diretor de conteúdo, Ted Sarandos, anunciaram a intenção de investir em jornalismo nos próximos anos. Se fosse outra empresa, essas poderiam ser apenas duas decisões isoladas, mas, nesse caso, elas podem representar o início de mudanças maiúsculas no mundo cinematográfico e do noticiário.

O Netflix é uma das empresas mais inovadoras do momento, não apenas pela sua eficiência e pela simplicidade de seu produto, mas porque, graças a elas, conseguiu modificar a maneira como as pessoas veem televisão. Ela não inventou o conceito de vídeo sob demanda, mas o popularizou em uma interface simples e presente em todo tipo de plataforma tecnológica, a um preço justo.

Porém a verdadeira mudança deriva disso tudo: dar ao consumidor a capacidade de escolher o que assistir, na hora que quiser e com o dispositivo que preferir. E esse poder fica ainda mais evidente nas séries, cujos capítulos de uma temporada são oferecidos todos de uma só vez, e não mais um por semana. Dessa forma, se o consumidor quiser, pode assistir a todos na sequência. Pode parecer uma bobagem, mas essa possibilidade coloca em xeque o conceito de grade de programação, algo sobre o qual se monta os modelos de negócios das emissoras de TV abertas e por assinatura

Beasts of No Nation” (sem título em português) estreou em apenas 31 salas independentes nos EUA (nenhuma no Brasil). Isso é insignificante em um país com cerca de 40 mil salas de cinema. Não se trata de um filme ruim: pelo contrário, “Beasts” traz um retrato cru e contundente do flagelo das crianças-soldado na África, elaborado meticulosamente para tentar abocanhar prêmios importantes, inclusive algum Oscar.

Mas então por que tão poucos endereços estão exibindo a produção original da Netflix?

 

Boicote contra a inovação

Acontece que a empresa decidiu lançar o filme em sua plataforma no mesmo dia em que saía no cinema. Normalmente são exigidos pelo menos 90 dias de embargo após a estreia nas salas para que um filme chegue a qualquer outra plataforma ou mídia, temendo a canibalização das bilheterias. A Netflix acha que isso pode ser mudado. Os grandes conglomerados de exibição, como Cinemark e UCI, acham que não. Por isso, boicotaram “Beasts” em massa.

A inovação nem sempre é compreendida. Mas a indústria do cinema deveria, pois já foi ameaçada por inovações antes. A turma na faixa dos 40 anos deve se lembrar do frenesi causado pelo lançamento do VHS. Na época, dizia-se que as fitas acabariam com as salas de cinema. Em um primeiro momento, isso parecia ser verdade, pois muita gente começou a deixar de ir ao cinema para alugar filmes. Mas a culpa não era do VHS, que oferecia uma imagem ruim, exibida em uma TV de tubo pequena em nossas casas. A culpa era do próprio cinema: as salas eram quase sempre reduzidas, abafadas, cheirando a mofo, com projeção e som ruins, poltronas desconfortáveis e uma pipoca horrorosa. Diante dessa oferta, migrar para o VHS parecia uma alternativa vantajosa.

Foi quando as exibidoras deixaram o chororô de lado e investiram na criação de salas incríveis, que proporcionassem uma experiência realmente marcante. Algo que o VHS e seus sucessores DVD e blu-ray jamais poderiam imitar. Assim, cada um encontrou o seu lugar no mercado, e as salas de exibição estão cheias como nunca.

Mas agora podem argumentar que a Netflix está querendo acabar com o embargo, que sempre existiu. Isso é uma visão míope e protecionista, de alguém que quer matar no peito um tsunami que se aproxima.

Sempre se deve dar ao consumidor a escolha. E isso significa, nesse caso, a Netflix oferecer logo os filmes e as salas de cinema continuarem a oferecer uma experiência diferenciada. Uso pesadamente o serviço online, mas também estou sempre no cinema, que adoro. Aliás, adoraria ver “Beasts” na telona, se possível em uma sala IMAX.

Mas quero ter a opção em minhas mãos.

 

Um novo jornalismo

Agora a empresa vem com essa história de produzir conteúdo jornalístico próprio. Quem vai gritar contra?

Ao contrário do cinema, as grandes empresas de jornalismo estão quase todas moribundas. Chegaram a essa situação por culpa exclusiva delas mesmas, que resistiram (e ainda resistem) a mudar seu produto, seu modelo de negócios e o relacionamento com seu público, mesmo com as pessoas migrando para alternativas mais modernas e vantajosas.

Nesse caso, não vejo o Netflix enfrentando resistência, pois os veículos tradicionais não têm fôlego para isso. Contemplarão mais uma nova empresa fazendo bem a função em que antes eram mestres, pelo simples fato de realizar um trabalho sério e adequado a realidade vigente. E, novamente, dando ao consumidor o poder da escolha.

Jeff Bezos, criador e dono da Amazon, comprou The Washington Post há dois anos, e está salvando o jornalão com sua visão pragmática de negócios e com amplos investimentos em tecnologia e jornalismo. O futuro da notícia parece cada vez mais vinculado aos gigantes da tecnologia digital.

Se a Netflix ganhará o Oscar, só o tempo dirá. A premiação nunca foi exclusivamente por critérios artísticos, e os interesses dos exibidores certamente pesam entre os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. A empresa precisará convencer os decanos de Hollywood que não está destruindo o cinema. Ou então trilhar o caminho contrário: cativar irremediavelmente o público com sua nova proposta e esperar que a pressão popular faça o resto.

Uber mostra que políticos são reféns de máfias e ignoram economia compartilhada

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Taxistas do Rio protestam contra o Uber - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Creative Commons

Taxistas do Rio protestam contra o Uber

Na última quinta (8), Fernando Haddad, explicou como espera resolver a crise entre os taxistas da cidade e o Uber. Com um discurso pretensamente moderno, o prefeito de São Paulo não apenas piorou o imbróglio, como também, a exemplo de seu colega do Rio, Eduardo Paes, demonstrou que não entende absolutamente nada de economia compartilhada.

Esse novo conceito subverte modelos de negócios consolidados em favor da população, com usos criativos da tecnologia. Com ele, alguém que possua um recurso ocioso -no caso, um carro- pode oferecê-lo parcialmente a quem estiver disposto a pagar por isso. Dessa forma, minimiza-se a necessidade de se comprar novos carros, otimizando o uso dos já existentes. De quebra, os proprietários passam a ter uma renda extra, enquanto os consumidores ganham novas e interessantes ofertas de produtos e serviços.

A suposta “solução” da prefeitura foi a criação de uma nova categoria de táxis, batizado de “táxi preto”, uma referência à cor que os carros deverão ter, a mesma dos veículos do Uber. Também igual ao praticado pela empresa, os motoristas só poderão ser chamados a partir de um aplicativo, a ser fornecido pela prefeitura. Para participar da nova categoria, o motorista deverá ser agraciado com uma das 5.000 licenças que serão sorteadas pela administração municipal e ainda pagar uma taxa que pode chegar a R$ 60.000. Ou seja, contrário a tudo o que a economia compartilhada prevê.

Desde que o Uber chegou a São Paulo, tenho debatido o assunto com motoristas da empresa e com taxistas. Do segundo grupo, tirando os radicais que acham que “Uber bom é Uber morto”, ficou claro que o problema não é o novo serviço roubar passageiros deles. A própria prefeitura admite que há um enorme déficit de táxis na cidade: são 3 para cada 1.000 habitantes (no Rio, essa proporção é de 9 para cada 1.000). Ou seja, em uma cidade com cerca de 35 mil táxis rodando e uma demanda reprimida de pelo menos outros 20 mil, os atuais 1.500 carros do Uber (segundo dados dos motoristas) estariam longe de causar uma ruptura no negócio dos taxistas.

Onde o calo aperta é na desvalorização do alvará, concessão da prefeitura que permite a prestação de serviço de táxi na cidade. Apesar de concedido gratuitamente, São Paulo não emite novas licenças desde 1996. Com isso, criou-se um verdadeiro mercado negro de alvarás, que são comercializados para quem quiser ingressar na profissão, o que é contra a lei. Frotas de táxis em São Paulo detém uma enorme quantidade dessas concessões. E, pelo que ouvi de muitos taxistas, vereadores são donos de algumas das maiores frotas da cidade.

 

Máfia incomodada

Comprar um alvará é algo simples: basta perguntar a qualquer taxista, e ele provavelmente conhecerá o caminho até alguém que queira vender um. Antes da chegada do Uber, a transação facilmente superava R$ 100 mil. Para operar no ponto de Congonhas, o mais valioso da cidade, o alvará passava de R$ 150 mil! Com a chegada do novo serviço, o valor desse mercado negro despencou, sendo possível adquirir um alvará hoje por menos de R$ 50 mil.

Não é necessário ser gênio para se perceber que muita gente tomou um prejuízo milionário com a chegada do Uber à cidade. Afinal, para que pagar uma fortuna por um alvará, se ele não é mais necessário para se prestar o serviço? Mesmo com os motoristas do Uber não tendo acesso aos benefícios dos taxistas, como desconto para comprar veículos e outras isenções de impostos, fazer parte da economia compartilhada pareceu ser muito mais vantajoso, rentável, simples e justo.

Ironicamente, o prefeito disse que um dos benefícios da nova lei é combater a “máfia dos alvarás”. Como? Criando um novo, que já nasce pago e com um valor obsceno, tanto quanto o cobrado pelo mercado negro. Confesso que fiquei confuso sobre como esse combate se dará.

Haddad perdeu a chance de demonstrar uma visão moderna sobre o transporte individual em que o passageiro não é o próprio condutor. O Uber é amplamente aprovado pelos seus usuários, que teriam enviado cerca de 900 mil e-mails ao gabinete do prefeito pedindo que vetasse a lei aprovada na Câmara dos Vereadores, proibindo o serviço. Mas ele preferiu ficar refém de uma categoria que, apesar de, sim, possuir bons profissionais, prefere se acomodar em uma situação em que os próprios motoristas são explorados por uma máfia inescrupulosa, com a benção do poder público.

Resta a esperança de que a Justiça casse essa lei estapafúrdia e traga um pouco de modernidade aos setores mais rançosos de nossa economia. A Justiça do Rio já concedeu liminar tornando inócua a lei sancionada por Paes. Já é um primeiro passo.