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A tecnologia pode PIORAR a educação?

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Ábaco - Foto: reprodução

Há alguns dias, fui bombardeado com discussões e reportagens sobre um estudo recente da OCDE sobre competências digitais dos alunos. O que mais me chamou a atenção foram afirmações de que o uso intensivo de tecnologia em sala de aula estaria piorando a qualidade do ensino, até mesmo o desenvolvimento das próprias habilidades digitais.

Aquilo me pareceu, no mínimo, contraditório, além de bater de frente com as minhas crenças sobre os benefícios de um bom uso de recursos digitais na escola. Mas se “contra fatos, não há argumentos”, fui atrás dos fatos e conversei com especialistas para entender essa aparente incoerência.

Felizmente o que o relatório “Estudantes, Computadores e Aprendizado: Fazendo a Conexão” propunha não era bem aquilo. Na verdade, o estudo, feito a partir do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2012, sugere que o simples investimento em tecnologia nas escolas não resulta necessariamente em um melhor desempenho das habilidades digitais dos estudantes.

Mas então de onde veio essa história de que a tecnologia piora a educação?

Acontece que nos países que tiveram os melhores resultados no levantamento, Coreia do Sul, China (especificamente Xangai e Hong Kong) e Japão, o uso da informática em sala de aula fica consideravelmente abaixo da média dos países avaliados. Por outro lado, os resultados de países como Suécia, Dinamarca, Noruega e Polônia, que usam pesadamente a tecnologia na escola, pioraram ou ficaram estagnados.

Evidentemente a OCDE não está sugerindo que as escolas abandonem o uso de computadores. A mensagem passada é que, se os professores não estiverem preparados para usar a tecnologia criativamente, uma escola cheia desses recursos não passará de marketing para atrair pais de alunos.

Agora as coisas começam a fazer sentido.

 

Uma escola para pensar

Na apresentação do relatório, Andreas Schleicher, diretor de Educação e Habilidades da OCDE, explicou que “é necessário que os sistemas escolares encontrem formas mais eficazes de integrar a tecnologia ao ensino e à aprendizagem para proporcionar aos professores recursos de instrução que apoiem as pedagogias do século 21”.

Trocando em miúdos, computadores, tablets, smartphones, lousas digitais e afins são poderosas ferramentas para ajudar o aluno a aprender a pensar. Não são imprescindíveis para isso, e o estudo acima deixa isso claro, mas, se bem utilizados, podem fazer uma enorme diferença.

O grande desafio é implantar com sucesso recursos que ampliam os horizontes dos alunos e lhes dão ampla liberdade de pensamento e ação em um modelo escolar originado na Revolução Industrial, em que o que se prezava era a obediência às regras sem questionamentos e a habilidade de reproduzir tarefas com precisão. Por mais que, nos últimos anos, vejamos alguns movimentos interessantes de subverter essa lógica perversa na educação, quase sempre essas iniciativas são isoladas e restritas às escolas das classes mais altas.

Para dificultar ainda mais, os professores, que deveriam ser os condutores dessas mudanças, não foram preparados para a tarefa. Sua formação até aborda teoricamente modelos pedagógicos inovadores, porém as próprias faculdades não seguem tais propostas. Mais que isso: usos criativos da tecnologia não são discutidos.

O resultado disso são professores que são usuários de computadores, tablets e smartphones no seu cotidiano, mas que não conseguem transpor essa experiência pessoal para seus planos de aula, algo compreensível na introdução de qualquer tecnologia inovadora em um processo consolidado. Seria como pedir que Sócrates passasse a usar com seus discípulos uma lousa. Justo ele que questionava a utilidade da escrita.

A introdução bem-sucedida dos recursos digitais na escola passa, portanto, por uma restruturação do próprio modelo educacional, repensando os papeis dos professores e dos estudantes no processo. A tecnologia se manifesta de diferentes maneiras no dia a dia dos alunos, permitindo que eles absorvam um enorme volume de informação, muitas vezes de maneira anárquica, sem orientação para discernir o bom do ruim com uma análise crítica. Por conta disso, estudantes de todas as idades chegam às salas de aula carregados com uma geleia indefinida de informação.

Eu, como professor, me deparo com isso o tempo todo. Preciso ter humildade para aceitar que, muitas vezes, o aluno terá mais informação que eu sobre determinado assunto. Justamente aí reside o novo papel do professor: deixa de ser o detentor do conhecimento, até então repassado a alunos que o absorviam passivamente, e passa a ser o orientador dessa turma, alguém que, com sua experiência, é capaz de organizar e transformar todo aquela informação difusa em conhecimento.

Alunos e professores ganham, portanto, funções muito mais nobres. E o uso correto da tecnologia pode maximizar esses resultados, por ampliar o pensamento livre e facilitar o acesso à informação.

Não é uma tarefa fácil! Se os professores não se apropriarem adequadamente das novas tecnologias, elas não cumprirão seu objetivo pedagógico e ainda podem se tornar fatores de dispersão, como indicou o relatório da OCDE. Aqueles que, por outro lado, conseguirem realizar a tarefa terão o prazer de conhecer a verdadeira nova educação, com alunos engajados e felizes, construindo, junto com o professor, seu conhecimento.

Estamos vendo o fim da TV, pelo menos como a conhecemos

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Wagner Moura como Pablo Escobar, na série "Narcos", lançada recentemente pelo Netflix - Foto: divulgação

Wagner Moura como Pablo Escobar, na série “Narcos”, lançada recentemente pelo Netflix

No dia 24 de novembro, “A Estrada do Futuro”, primeiro livro de Bill Gates, completará 20 anos. Como todo exercício de futurologia, apenas algumas de suas previsões se concretizaram, e nem sempre como se esperava. Mas uma delas está colocando em xeque algo que faz parte de nossas vidas há mais de meio século: a televisão.

Gates antecipou em seu livro o surgimento do vídeo sob demanda, termo técnico que define serviços online em que o consumidor assiste à programação que quiser, na hora que quiser, cujos dois maiores expoentes são o YouTube e o Netflix. Mas talvez ele não tenha imaginado que a popularização desse recurso ameaçaria o modelo de negócio das emissoras e redefiniriam o uso do aparelho de TV como se vê hoje.

O fato é que a tecnologia mudou a maneira de nos relacionarmos com qualquer tipo de conteúdo, e as empresas de comunicação demoraram muito a perceber a chegada desse tsunami. Agora que a onda as atingiu, estão se debatendo em uma tentativa atabalhoada de se salvar.

A primeira e decisiva mudança é que, com um smartphone, o cidadão comum abandonou a sua condição milenar de consumidor de mídia para se tornar produtor. Não chega a surpreender, portanto, que a câmera seja um dos recursos mais usados dos celulares: fotografamos compulsivamente tudo (inclusive nós mesmos, o fenômeno das selfies) e criamos nossos próprios programas, que compartilhamos não apenas com nossos amigos, mas com o mundo todo. E, quando alguém deixa de assistir à Globo para ver nossas produções, passamos a ser concorrentes da Vênus Platinada.

Aliado a isso, o vídeo sob demanda acabou de vez com o monopólio das emissoras sobre o que vemos. Por que eu tenho que assistir a uma novela só porque “é o que está passando agora”? Eu quero ver um filme nesse momento! Ou uma série ou desenho animado. Ah, eu também quero ver a novela, mas na hora que eu quiser! E tem mais: quero ver três capítulos na sequência.

Trocando em miúdos, a grade de programação, algo essencial no modelo de negócios das emissoras, está com os dias contados. Graças a ela, os executivos criam os espaços para a publicidade e controlam a liberação dos conteúdos seguindo seus interesses. Por isso, o novo consumidor ameaça não apenas a TV aberta, mas também a TV por assinatura.

Os números são impactantes e ilustrativos. Estudo recente do ConsumerLab, divisão da Ericsson que estuda o comportamento dos consumidores, feito com 22.500 pessoas de 20 países, indica que 36% do tempo diário em que os brasileiros assistem a vídeos é destinado a conteúdo sob demanda, 1% a mais que média mundial. E 66% dos brasileiros entrevistados afirmaram que não encontram nada interessante para assistir na TV tradicional, o que justifica o crescimento dos serviços de vídeo sob demanda.

 

O consumidor paga pelo conteúdo que lhe interessa

Engana-se quem acha que esse fenômeno é motivado pelo desejo de se consumir conteúdo de graça. Essa premissa, usada por executivos das mais diferentes “mídias tradicionais” (música, imprensa, TV, entre outros) é absolutamente falsa! O consumidor paga, sim, por conteúdo de toda natureza, desde que esse produto lhe traga um benefício claro. De fato, a pesquisa do ConsumerLab mostra também que 22% dos consumidores que nunca pagaram por uma TV por assinatura já estão pagando por serviço de vídeo sob demanda. E aí o Netflix mostra o caminho a ser seguido.

Apesar de a empresa não divulgar a quantidade de assinantes no Brasil (são 65 milhões no mundo), o mercado estima que esse número deve variar entre 2,5 milhões e 4 milhões. Colocando isso em dinheiros, a receita da empresa para esse ano por aqui deve variar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão. Na hipótese mais conservadora, o Netflix faturaria mais que a Band e a Rede TV!, quarta e quinta maiores emissoras nacionais; na mais arrojada, empataria com o SBT. Os números foram debatidos no congresso da ABTA (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura), no início de agosto, cujos membros afirmam que o Netflix é um concorrente desleal.

Não precisa ser gênio para juntar os números do Netflix e de outros serviços com conclusões de estudos como o do ConsumerLab e entender o que está acontecendo. A tecnologia deu ao consumidor o poder de escolha, abrindo-lhe os olhos para perceber que não é obrigado a consumir uma programação de qualidade rasteira em um formato que não lhe convém.

O aparelho de TV cada vez mais é um poderoso computador conectado à Internet (e os fabricantes estão investindo nisso), diminuindo a importância de sua histórica função de receptor de imagens empurradas goela abaixo do telespectador. Permite que a escolha do usuário agora vá muito além dos canais acionados pelo controle remoto.

Além disso, a TV não é mais o único equipamento para se assistir a vídeos: ela ocupa apenas uma fatia do tempo do consumidor para esse fim. Uma fatia cada vez menor, diga-se de passagem, que vem sendo substituída pelo crescente uso dos dispositivos móveis, especialmente os smartphones. No caso de conteúdo sob demanda, 61% do total já é consumido nas pequenas telas, segundo o ConsumerLab.

 

Observem as crianças

É muito interessante observar as crianças, pois elas entendem e se apropriam de novas tecnologias com grande facilidade e velocidade. Por isso, são excelentes indicadores de como será o futuro breve. E, no assunto que aqui discutimos, elas têm um comportamento muito interessante: quando querem assistir sozinhas a um vídeo, fazem isso no seu smartphone, mesmo que estejam em casa. Por outro lado, quando se trata de uma experiência com outras pessoas, como a família, o melhor lugar para o YouTube e o Netflix é a smart TV da sala. Claro, faz todo o sentido!

Pago mensalmente um adicional de R$ 30 para ter os canais da HBO no meu plano de TV por assinatura. Quis usar o aplicativo de vídeo sob demanda HBO GO, incessante promovido em seus comerciais, mas não consegui, pois a minha operadora de TV a cabo não permite. Devo dizer que fiquei com uma vontade enorme de pagar os R$ 30 mensais diretamente à HBO, e não à operadora, que deixou de ser uma facilitadora para se tornar uma dificultadora.

Essa empresa e seus pares precisam urgentemente repensar seus modelos, assim como as emissoras precisam melhorar sua programação. Ou, em muito pouco tempo, as crianças de hoje enterrarão a TV como a conhecemos, transformando sua tela em uma ferramenta de liberdade e qualidade em que nenhuma dessas empresas fará parte.

Quem vigia os vigilantes (ou os políticos)?

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Foto: Chuck Patch (Creative Commons)

A Câmara dos Deputados está gestando três projetos de lei que, na prática, criam mecanismos de censura da Internet e ferem liberdades do indivíduo. O principal deles tem, como objetivo, a punição de quem publicar conteúdo ofensivo a parlamentares. O segundo oferece a qualquer “autoridade competente” o poder de exigir que serviços online forneçam os dados de seus usuários sem ordem judicial. E o pacotão de arbitrariedades é concluído com outro projeto que determina que qualquer um que poste conteúdos na Internet seja identificado por nome completo e CPF.

Os três projetos se completam e criam uma sensação de que o cidadão está indefeso diante daqueles que o deveriam defender, e que legislam sem controle ou limites, um caso clássico de “quis custodiet ipsos custodes?” A frase em latim, atribuída a Juvenal, poeta romano do início da era cristã, é normalmente traduzida como “quem vigia os vigilantes:” e se refere à dificuldade de controle das ações de quem está no poder.

Os projetos batem de frente com o Marco Civil da Internet, propondo sua alteração em uma de suas maiores conquistas: a garantia do sigilo dos dados dos usuários, que só pode ser violado por força de uma ordem judicial. Mas o primeiro dos três projetos, de autoria do procurador parlamentar, deputado Cláudio Cajado (DEM-BA), abre portas para que qualquer parlamentar cale a boca de qualquer um que, mesmo dentro do jogo da democracia, diga algo que o incomode.

Isso piora ainda mais a já desgastada imagem do Legislativo junto aos brasileiros. Em todas as esferas e em todos os rincões desse país, vemos parlamentares tentando silenciar aqueles que, mesmo munidos de provas irrefutáveis, dizem coisas contrárias a eles. As vítimas desse abuso de poder vão desde pequenos blogueiros até grandes veículos de comunicação. Para os pequenos, as coações são mais brutais; para os grandes, recorre-se a uma espécie de “censura de toga”.

Um exemplo foi a proibição, por ordem judicial, de o Estadão de falar mal da família Sarney na “Operação Boi Barrica” da Polícia Federal. Até mesmo sites de humor são vítimas da intolerância parlamentar: no mês passado, o deputado Marco Feliciano tentou calar e pedir indenização ao Sensacionalista, por ser alvo de piadas do site humorístico. A Justiça, dessa vez, não acatou as alegações do deputado.

A proposta de Cajado está em fase final de elaboração e deve ser apresentada em setembro, com o apoio do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Se virar lei, esse tipo de pressão tende a aumentar exponencialmente, pois o parlamentar se sentirá amparado em uma lei que lhe dá poder de punir os autores daquilo que não gosta, como também os serviços que hospedarem esses conteúdos.

 

Rito sumário e ignorância técnica

Mas a situação fica ainda pior quando o projeto de Cajado se combina com os outros dois, esses já apresentados.

O projeto de lei da deputada Soraya Santos (PMDB-RJ) abre um perigosíssimo precedente quando, no artigo 7º, diz que qualquer “autoridade competente” pode exigir (e receber) informações pessoais dos usuários de um serviço online. Mas o que é uma “autoridade competente”? O texto não especifica isso e, portanto, amparado pela lei, um soldado da PM ou delegado poderiam exigir informações confidenciais em nome daquele que estiver “representando”. Não se enganem: isso tipo de abuso já existe hoje, mesmo sem amparo legal. Novamente, se o projeto se transformar em lei, a tendência é que assistamos impotentes ao enorme crescimento dessa prática abjeta.

O terceiro dos projetos, de autoria do deputado Silvio Costa (PSC-PE), é uma pérola de desconhecimento básico da Internet. Ele propõe que “o provedor de aplicações de internet, sempre que permitir a postagem de informações públicas por terceiros, na forma de comentários em blogs, postagens em fóruns, atualizações de status em redes sociais ou qualquer outra forma de inserção de informações na internet, deverá manter, adicionalmente, registro de dados desses usuários que contenha, no mínimo, seu nome completo e seu número de Cadastro de Pessoa Física (CPF).”

Ou seja, segundo o deputado, para um simples “curtir” no Facebook, o usuário deverá informar nome e CPF ao serviço, que será obrigado a repassar essa identificação “às autoridades competentes” para a supostamente devida punição, antes de qualquer julgamento, sem ordem judicial. O objetivo está bem claro na justificação do projeto: “essa simples exigência irá, por certo, coibir bastante as atitudes daqueles que, covardemente, se escondem atrás do anonimato para disseminarem mensagens criminosas na rede.” Ou seja, contrariando a Constituição, todo mundo é, por definição, culpado, até que se prove o contrário.

Mas de “simples”, a exigência não tem nada. Dentro do território nacional, existem pessoas que podem legalmente usar redes sociais, mas não têm CPF. Que dizer então de pessoas que vivem em outros países, particularmente estrangeiros? Eles não têm, nem nunca terão CPF, independentemente do que o Congresso Nacional Brasileiro determinar. Mesmo assim, o que postarem nas redes sociais eventualmente chegará aos usuários brasileiros. Parte desse conteúdo pode estar em português e, seja verdade ou mentira, poderá incomodar alguém por aqui. Como resolver isso e atender o que propõe o projeto de lei? Mais que uma impossibilidade técnica, a proposta é inócua porque trata a Internet e todos os seus usuários no mundo como se estivessem sujeitos à legislação brasileira.

Os três projetos são, portanto, indefensáveis do ponto de vista técnico e da democracia. Qual seria o próximo passo? Talvez os deputados peçam que a Internet seja simplesmente “fechada” ou, quem sabe, absurdamente restringida no país. Estaríamos, assim, bem próximos a “nações progressistas”, como a Coreia do Norte.

Por que não vemos games nas salas de aula como vemos vídeos?

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Cenas de O Patriota e de Assassin's Creed III - Imagens: divulgação e reprodução

Que melhor maneira de estudar sobre a Revolução Americana, que assistindo a um filme como O Patriota, ou -melhor ainda- atuando diretamente nos seus eventos históricos, como em Assassin’s Creed III?

Meus filhos assistiram a Avatar na escola ontem. O objetivo era preparar os alunos para discutir sobre o processo de colonização. Apesar de vídeos já serem bem aceitos como ferramenta pedagógica, eu sempre me pergunto: por que os games ainda não gozam do mesmo status na sala de aula? Os dois recursos têm muito em comum e os games podem ser até mais eficientes no aprendizado.

A exibição da história de James Cameron e o debate subsequente foram atividades de uma “semana diferenciada” da escola. Além de apresentar com riqueza de detalhes os interesses conflitantes dos nativos e dos colonizadores, normalmente extrativistas mais avançados tecnologicamente e bem armados, um filme como esse cria um ambiente imersivo, melhorando a compreensão do assunto estudado. Quando chegou o debate, a facilidade da turma em transpor a fictícia Pandora para a América ou a África colonizada pela Europa fez valer cada um dos 162 minutos do filme.

Imersão é a palavra-chave, porque leva ao engajamento. Quando alguém se sente envolvido com um assunto, ele naturalmente usa seus recursos cognitivos para aproveitar ao máximo a experiência que está vivenciando, inclusive as pedagógicas. E é por isso que os games deveriam ser mais bem explorados pelas escolas. Pela própria natureza do produto, eles são capazes de tirar o estudante da posição passiva do processo de aprendizagem da escola tradicional, um desejo de todos eles

Eu gosto de citar, como exemplo, o estudo da Revolução Americana. Lembro-me de ter aprendido sobre ela nos livros, como parte do processo de independências das colônias na América. Toda a independência dos EUA cabia em uma página, com um parágrafo para o evento conhecido como “Festa do Chá de Boston” e outro para a própria declaração da independência. É muito, muito pouco para entender um evento tão complexo e tão importante da história mundial. E só me lembro disso porque tenho uma memória de elefante.

Mas que tal usar Mel Gibson como professor por um dia? Sim, pois ele estrelou o filme O Patriota, que conta a história de um fazendeiro americano que se vê forçado a lutar contra os ingleses. Apesar de o filme se concentrar em eventos fictícios da Revolução Americana, ele é capaz de envolver os alunos com o tema ao ponto de que alguns quererem pesquisar sobre isso por seus próprios meios e iniciativa, um processo conhecido como “aprendizado tangencial”.

Mas e se você pudesse ser transportado para a América Colonial do século XVIII, interagir com personagens históricos, como George Washington, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, e participar decisivamente de momentos-chave da história americana, como a própria “Festa do Chá de Boston” ou do “Grande Incêndio de Nova Iorque”? Bem, eu posso garantir que você passaria a entender a Revolução Americana de uma maneira definitiva e bem fixada. Longe de ser uma utopia, isso é perfeitamente possível, graças ao game Assassin’s Creed III, da Ubisoft. Em cada título dessa série, o jogador é capaz de reviver, como protagonista, eventos maiúsculos da história mundial, ricamente recriados.

Mais que imerso, o estudante estaria completamente fisgado pelo conhecimento.

 

“Por que game educativo tem que ser chato?”

Admito que provavelmente não verei Assassin’s Creed como material didático. Apesar dos inegáveis benefícios apontados, as ações da série são muito violentas, como o título leva a crer. Seria muito difícil para a equipe pedagógica justificar isso aos pais que não são gamers.

Tela da primeira versão do jogo "Where In The World Is Carmen Sandiego?"

Tela da primeira versão do jogo “Where In The World Is Carmen Sandiego?”

Felizmente, nem todo game que pode nos ensinar algo é violento. Muitos são bastante simples e até rudimentares para os padrões dos consoles atuais, mas sem deixar a diversão de lado. Um excelente exemplo é Where In The World Is Carmen Sandiego, lançado originalmente em 1985 para o finado Apple II. No game, você é um detetive que persegue vilões pelo mundo, enquanto aprende sobre a geografia dos países por onde passa. Tão simples quanto divertido, o game teve várias continuações, ganhou uma série em desenho animado e até está prevista uma adaptação para o cinema.

Mas o fato é que a maioria dos jogos educacionais são extremamente chatos. Afinal, quem é que tem que resolver uma equação de segundo grau para abrir uma simples porta? Esses desenvolvedores podem conhecer bem os Parâmetros Curriculares Nacionais, mas não sabem nada de diversão. Resultado: os alunos acham os livros mais divertidos que esses “games”.

Há alguns anos, fui convidado para uma mesa redonda sobre o uso de games em educação, como parte das comemorações do centenário do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. Antes do debate, alguns alunos dos ensinos Fundamental e Médio apresentaram games educativos que eles próprios tinham desenvolvido usando ferramentas gratuitas. Naturalmente eram iniciativas limitadas, mas eles cumpriam as duas premissas que todo game educativo deveria ter: ensinavam e eram divertidos. Lembro-me claramente de um dos pequenos desenvolvedores, de 14 anos, perguntando ao público, quase como um desafio: “Por que game educativo tem que ser chato?”

Ele entendeu tudo!

 

Então o que falta?

Enquanto não vemos games educativos realmente divertidos em profusão no mercado, cabe aos educadores encontrar maneiras criativas de usar “games não-educativos” para engajar seus alunos. E há muita coisa disponível. Por exemplo, que tal usar Angry Birds para exercitar o conceito de lançamento balístico?

A grande diferença no volume de uso de vídeos e de games na sala de aula pode ser explicada pelo fato de que professores assistem a filmes regularmente, mas quantos deles são gamers? Portanto, não adotam esse recurso em suas aulas porque simplesmente não conhecem as opções.

De forma alguma eu os estou julgando por isso. Mas então como resolver isso?

Seria excelente que toda escola tivesse o seu “especialista em games” para trabalhar com os professores possibilidades de seu uso no projeto pedagógico. Pois eu aposto que essa figura já está lá, apenas aguardando para ser descoberta. Por ser um professor, um funcionário de outras áreas ou até mesmo um aluno! Aliás, envolver alunos dessa forma tem potencial para transformar a atividade em algo riquíssimo, se for bem conduzido.

Deixo, portanto, um apelo às equipes pedagógicas: tragam games para o processo de aprendizagem. Longe de ser um fator de distração, isso ajudará seus alunos a passar de fase.

Você é o que você gosta

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Home page do serviço "Apply Magic Sauce" - Imagem: reprodução

Home page do serviço “Apply Magic Sauce”

Seus pais provavelmente lhe falavam: “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Mas em tempos de tecnologia ubíqua, o ditado, além de velho, parece ultrapassado. Para saber quem é você, o melhor é prestar atenção no que você gosta ou, mais especificamente, no que você “curte”.

Deixamos, o tempo todo, nossas pegadas digitais por aí, e elas são cada vez mais profundas e reveladoras. Há duas semanas, comentei aqui a crise causada pelo vazamento de informações dos assinantes do Ashley Madison, recomendando que pelo menos tentemos cuidar das informações pessoais que publicamos na Internet. O problema é que inadvertidamente fazemos pequenas ações que dizem muito sobre nós.

Quantas vezes você clica, todos os dias, no botão “curtir” do Facebook, seja nas páginas da própria rede social, seja naqueles que estão espalhados pelos mais diferentes sites? Não se sinta constrangido se a resposta for um número alto: essa ação inocente está tão integrada ao nosso cotidiano, que talvez nem saibamos responder a essa pergunta.

Mas não se engane: de inocente ela não tem nada. Mesmo quando “curtimos” uma pueril foto de gatinho ou uma piada tosca de um amigo, estamos afirmando um pouco do que somos. E a soma disso tudo pode ser surpreendente.

O Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido) criou, já há algum tempo, uma interessante ferramenta para demonstrar isso. Batizada de Apply Magic Sauce (algo como “Aplique o Molho Mágico”), o site faz, em poucos segundos, uma análise psicológica do usuário, incluindo os principais itens de sua personalidade, gênero, idade percebida, orientação sexual, inteligência, satisfação com a vida, orientação política e religiosa, educação e status marital. Detalhe importante: a única fonte de informação analisada são as suas “curtidas” no Facebook, nada mais. Nem mesmo o que você posta é considerado. E, mesmo o sistema estando calibrado para o idioma inglês, seus resultados têm uma precisão impressionante, quase assustadora.

Não é de se espantar que o nome da versão anterior da ferramenta era “You Are What You Like” (“Você é o que você gosta”).

 

Fazenda de dados

Imagem: reprodução

Se um instituto independente consegue tirar conclusões assim apenas a partir das “curtidas” do sujeito, que dizer então do verdadeiro “dono” da informação: o Facebook?

Mas a rede de Mark Zuckerberg está longe de ser a única empresa com esse poder. Seu maior rival, o Google, conseguiu colocar, no bolso da maioria de nós, um “rastreador” que carregamos alegremente. O Android, sistema operacional que dá vida à maioria dos celulares do mundo, é uma pequena maravilha na coleta de informações pessoais, de maneira quase inconsciente.

O “quase” acontece porque nós, de fato, autorizamos explicitamente essa coleta (e isso vale para qualquer sistema, não apenas o Android). Ao configurar um novo aparelho, respondemos afirmativamente várias perguntas que, na verdade, sequer entendemos do que tratam. E reafirmamos esse nosso “desprendimento” quando baixamos novos aplicativos. Eles invariavelmente listam toda informação pessoal a que terão acesso (muitas delas completamente desnecessárias para seu funcionamento). E nós graciosamente concedemos isso, ao clicar no botão “aceito”, quase sempre sem sequer ler a relação do que lhes repassaremos. A ânsia por baixar o novo aplicativo é tão grande, que o “aceito” do botão poderia ser perfeitamente substituído por um “me dá logo!”

É um fenômeno social maiúsculo o que vivemos. Grupos de proteção à privacidade pressionam governos para tentar limitar o acesso das corporações às informações pessoais. Por outro lado, as pessoas estão cada vez mais lenientes com o compartilhamento de seus dados em troca de serviços que efetivamente tornam suas vidas mais eficientes e divertidas.

Estou absolutamente certo que ninguém deixará de usar seu celular ou o Facebook só pelo que eu disse acima. Eu não deixarei! Mas precisamos estar cientes de que as empresas nos conhecem muito mais que nossas mães, talvez mais que nós mesmos! E, quem sabe, passar a ler a lista do que estamos dando antes de clicar “aceito”.

Se não souber como falar com seu público, ele o abandonará

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“Quem não comunica se trumbica”: os veículos de comunicação deveriam prestar mais atenção à célebre frase do Chacrinha - Foto: divulgação

“Quem não comunica se trumbica”: os veículos de comunicação deveriam prestar mais atenção à célebre frase do Chacrinha

Recentemente assisti a uma entrevista com a youtuber Kéfera Buchmann, que já tem mais de 5,5 milhões de seguidores e está fazendo um bom dinheiro com seu canal. Na hora, pensei na Info, que não resistiu e anunciou, no dia 12 de agosto, o fim da sua versão online (a impressa já não circulava desde fevereiro). Mas, afinal, o que uma coisa tem a ver com a outra?

Não, esse não é mais um melancólico post lamentando a morte de um veículo de comunicação. A proposta aqui é debater como o sucesso da primeira e a derrocada da segunda têm muito a ver com o uso adequado da linguagem.

Kéfera é bonita e divertida, e seus vídeos, apesar se resumirem a mostrar situações prosaicas de seu cotidiano, têm uma boa produção. Mas seu grande trunfo é usar uma linguagem adequada para seu público, que ela conhece bem. E, por linguagem, não me refiro apenas às palavras que ela escolhe. O ritmo, a edição e os efeitos aplicados nos vídeos são importantíssimos elementos para quem quer ter sucesso no YouTube. Seu bom manejo da linguagem digital continua em como promove seu conteúdo (e a si mesma) e como interage com seus fãs nas redes sociais, aproveitando-se das peculiaridades de cada uma. Ou seja, nada de tentar empurrar uma mesma chamada para todas ou ignorar as pessoas!

Voltemos à Info: para muitos, o fim da publicação era inevitável. Como me disse um colega, um dos melhores jornalistas de tecnologia do país, “não há mais espaço para revistas de tecnologia em Língua Portuguesa, há espaço para sites”.

Opa, mas a Info já era apenas um site desde fevereiro!

Muita gente vai dizer que o problema da publicação era o mesmo que assola a imprensa escrita de forma generalizada: a enorme queda das receitas publicitárias, acompanhando a fuga de leitores. Mas será que isso é tudo, especialmente em um veículo segmentado, talvez o melhor que já cobriu o noticiário de tecnologia do país?

A Info já sofria a concorrência de sites havia muitos anos. Chegou a ela antes de outros títulos, pela natureza de seu assunto e de seu público. Esse enfrentamento provocou, há uns cinco anos, uma mudança editorial que desfigurou a revista: a Info passou a ser menos técnica e a cobrir assuntos da “vida digital”, com pautas sobre negócios e até comportamentais. Na minha opinião, essa decisão foi desastrosa, e acabou afastando parte considerável de seu público mais fiel e antigo.

Junto com a mudança nas pautas, veio uma mudança na linguagem, que tentou ser mais descontraída. Isso pode ter reforçado a distância do leitor mais tradicional da revista, sem conseguir atrair o público de sites de tecnologia, que já nasceram com essa proposta. Apesar de ser um dos títulos mais vanguardistas da Editora Abril na adoção de novas formas de distribuição digitais, é um fato que a Info nunca conseguiu fazer aquilo que a Kéfera faz com extrema desenvoltura. Nesse ponto, o veículo ficou sem uma identidade clara. Tempere tudo isso com a crise do setor, e o desfecho da Info estava definido.

 

Atualizar sem se perder

Uma mudança de linguagem não implica em um veículo perder a sua essência. Um exemplo bastante interessante vem acontecendo no Jornal Nacional. William Bonner e sua equipe não se limitaram às tradicionais mudanças cosméticas do cenário e implantaram alterações significativas editoriais e técnicas, conferindo ao telejornal um novo ritmo, mas sem deixar de ser o JN.

Além de uma linguagem muito mais próxima do público e reportagens mais longas, o uso de um truque de câmeras combinado a um enorme telão permite que os âncoras conversem de pé com os jornalistas que fazem entradas ao vivo como se estivessem lado a lado. Vale destacar também a reinvenção da previsão do tempo (um noticiário tradicionalmente relegado ao segundo plano) com Maria Júlia Coutinho, que ganhou um destaque que poucos têm no JN. A nova “moça do tempo” não apenas informa a previsão, mas também explica o porquê dos fenômenos climáticos para o público. Além disso, o próprio Bonner extrapola os limites da telona e faz um bom uso de sua conta no Twitter, mesclando algum humor, tuítes pessoais e promoção do Jornal Nacional do dia.

 

“Quem não comunica se trumbica”

A famosa frase do Chacrinha é uma dessas obviedades da vida que muitas vezes passam despercebidas no cotidiano. Mas é inaceitável que uma empresa de comunicação não consiga praticar isso.

É claro que a crise financeira parece ser o maior dos problemas dessas companhias, metidas em um buraco que teima em ficar cada vez mais fundo. Ontem mesmo O Globo e Extra demitiram cerca de 60 jornalistas (aparentemente os de salários mais altos), no seu segundo “passaralho” do ano (o primeiro aconteceu há seis meses). Mas esse problema é uma “crônica de uma morte anunciada” diante da inabilidade (ou teimosia) dessas empresas em insistir em um modelo de negócios que não se sustenta mais há anos (e debatido exaustivamente neste blog).

A situação fica desesperadora quando notamos que há ainda essa crise de linguagem nos veículos tradicionais. Qualquer um sabe que não se deve usar as mesmas palavras de uma mesa de bar com os amigos ao se escrever um e-mail comercial, que, por sua vez, também não serve para um artigo científico.

Cada público e cada ocasião têm a sua maneira de se comunicar. Isso vale também para os meios digitais, e cada um deles tem suas peculiaridades. Quem não respeita isso assiste impotente a seu público ir embora. Kéfera explica.

Você tem um segredo? Não o publique na Internet!

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Hackers desmentiram todos os selos de segurança da home page do Ashley Madison

Hackers desmentiram todos os selos de segurança da home page do Ashley Madison

No dia 18, hackers expuseram publicamente dados pessoais de 37 milhões de usuários de um site. Isso já seria muito ruim em qualquer caso. Mas, se considerarmos que se tratavam de assinantes do Ashley Madison, site que promove relacionamentos extraconjugais, o acontecimento foi devastador. A questão é: isso poderia ter sido evitado?

Com o slogan “a vida é curta, curta um caso”, o Ashley Madison é o tipo de serviço que deveria ser construído sobre discrição e segurança de dados. Não obstante, os hackers liberaram os arquivos demonstrando que as informações estavam todas lá sem sequer uma criptografia básica.

Os incautos usuários acreditavam que protegiam sua privacidade criando um nome de usuário e um e-mail exclusivo para as puladas de cerca virtuais. Mas, para pagar pelo serviço, precisam informar os dados reais de seu cartão de crédito. E o site armazenou tudo isso. Com o vazamento, pode-se agora buscar, nesse gigantesco banco de dados, o nome verdadeiro de cada assinante, os dados de seu cartão, seu endereço, fotos que postou, as pessoas com quem falou e até mesmo as conversas.

Imaginem a situação dessas pessoas! A polícia canadense investiga dois suicídios que podem ter sido motivados pelo vazamento. Vale lembrar que o Brasil é o segundo país com mais usuários no serviço e São Paulo é a cidade com mais assinantes no mundo.

O Ashley Madison demonstrou grande amadorismo por guardar as informações sem criptografia e por armazenar dados dos cartões de crédito, para dizer o mínimo. Nesse caso, seus usuários não tinham alternativa. Mas será que cuidamos bem das informações que colocamos na Internet o tempo todo?

A resposta simples: não.

Em 2009, Eric Schmidt disse: “se você tiver alguma coisa que não quer que os outros saibam, não a publique na Internet.” O então CEO do Google explicava que não existe segurança absoluta e que eventualmente essa informação aparecerá em um buscador.

 

Superautoexposição

Obviamente ele não estava sugerindo que deixássemos de usar serviços digitais. E o que mais fazemos é colocar a nossa vida na Internet. Os mais espertos ainda usam com inteligência os recursos de privacidade de redes sociais, mas eles são apenas um controle mínimo, facilmente burlável, às vezes até sem querer.

Mas o buraco é mais embaixo. Vivemos em uma época em que as pessoas deliberadamente querem se expor, e fazem isso muitas vezes de maneira irresponsável e até perigosa. O meio digital criou uma falsa sensação de que tudo podemos, sem consequências.

Naturalmente isso não existe. De virtual, nosso “eu digital” não tem nada. Nossa vida online e nossa vida presencial são diferentes representações de uma única realidade.

Em tempos de smartphones que são poderosos computadores permanentemente conectados, compartilhamos nossa vida cada vez mais, muitas vezes sem que saibamos. Ou você acha que aquela oferta de um produto que você deseja em uma loja que está bem a sua frente chegou ao seu celular por pura coincidência?

 

O valor da informação

Algumas empresas já aprenderam a usar esse mar de informações que graciosamente oferecemos para entregar serviços e produtos cada vez mais personalizados e úteis. Ninguém faz isso melhor que o Google e o Facebook. Tudo aparentemente de graça! Mas, se você usa algo sem pagar nada por ele, não se engane: você não é o consumidor, é o produto.

Por mais assustador que isso pareça, é muito pouco provável que alguém deixará de usar produtos do Google ou do Facebook por estarem fazendo dinheiro com nossos dados. Mesmo que essas empresas saibam mais sobre nós que o Grande Irmão da sociedade distópica da obra 1984, de George Orwell, a esmagadora maioria está muito longe de se sentir oprimida por elas. Conscientemente ou não, achamos tudo isso um preço justo pelos produtos e serviços que recebemos em troca.

Precisamos apenas (tentar) garantir que nossa intimidade continue só nossa tomando cuidado com o que colocamos na rede. Afinal, nunca se sabe quando um grupo de hackers exporá a todos os segredos do Grande Irmão.

 

Atualização: diante de alguns comentários que este post recebeu, acho importante deixar claro que, de forma alguma, estou julgando os usuários do Ashley Madison. Por mais que, para muita gente, o que eles fazem é errado, essas pessoas foram vítimas tanto da incompetência do serviço, quanto dos hackers que os expuseram. São livres para fazer o que quiserem, e é absolutamente desproporcional alguém perder a própria vida por uma eventual traição conjugal. Meu alerta no post segue a linha do que propôs Eric Schmidt: não podemos simplesmente acreditar que a Internet protegerá magicamente nossas informações. Podemos colocar nela o que quisermos, mas precisamos ter consciência que essa informação nunca estará completamente segura.

Jeff Bezos mostra o caminho ao Washington Post (e à “mídia tradicional”)

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Fachada da sede do Washington Post, na capital dos EUA

Fachada da sede do Washington Post, na capital dos EUA

“Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.” A frase (incorretamente) atribuída a Albert Einstein ajuda a explicar os frutos que o Washington Post vem colhendo sob a batuta de Jeff Bezos, dono da Amazon.

Quando anunciou a compra do jornalão em agosto de 2013 (concluída em outubro), o executivo disse que não se intrometeria na linha editorial, promessa que aparentemente cumpriu. Mas isso não quer dizer que ele não faria mudanças no Post: afinal, havia colocado US$ 250 milhões do próprio bolso em um negócio que estava naufragando pela incompetência de seus antigos gestores. E Bezos não é do tipo que joga dinheiro fora.

Uma das mudanças aconteceu justamente na redação. Ao contrário do que se vê em quase todos os jornais, o Post começou a contratar mais jornalistas –e bons jornalistas. Bezos não colocou o dedo no editorial, mas sabe que um conteúdo de qualidade é condição necessária (mas não suficiente) para o sucesso de um produto dessa indústria.

Em compensação, o criador da Amazon parece ter colocado todos os dedos em outras áreas do jornal, transformando um negócio moribundo em uma empresa revigorada. A primeira e mais importante das mudanças é uma marca da Amazon: “preste mais atenção em seus consumidores que em seus concorrentes”. Isso pode parecer óbvio para quem tem a cultura digital no sangue, mas os veículos tradicionais ainda se preocupam demais com os outros veículos. Esquecem-se que os verdadeiros concorrentes hoje nem sempre são eles; E pouco ou nada sabem de seu público. Quem são eles? O que gostam em seu produto? Como o consomem? Onde está o valor dele para cada pessoa (e cada um tem a sua preferência)?

Dessa forma, sob a orientação de Bezos, a equipe de tecnologia começou a alimentar a redação com uma infinidade de dados sobre seus leitores para a tomada de decisões outra característica da Amazon. Não se trata apenas de ajustar a pauta das edições, mas também como esse conteúdo será entregue para cada um de seus usuários.

Ubiquidade

Nesse ponto, vemos uma outra mudança interessante no Post: hoje é possível encontrar o seu conteúdo em uma grande variedade de devices e ambientes. A ideia é que o público tenha a sensação de que ele está em todos os lugares. Além de seu site e seus aplicativos, o Post hoje é distribuído por agregadores, como o Flipboard, e por portais, como a MSN. E –claro– o Post tem ótimo destaque nos devices Kindle, da própria Amazon. Versões digitais a um precinho camarada ou simplesmente de graça, de acordo com o caso.

O melhor conhecimento e entendimento de seu público também permitiu à equipe editorial refinar a promoção dos conteúdos, a exemplo de players nativamente digitais, como BuzzFeed, Vox e Vice. E pode apostar que ele também estará disponível nos Artigos Instantâneos do Facebook e no Apple News, quando esses estiverem amplamente disponíveis.

Os mais puritanos podem torcer o nariz para isso, dizendo que o jornal se rendeu “chamadas caça-cliques”. Isso é puro preconceito com novos formatos! Afinal, o que diferencia um post capaz de gerar engajamento de uma boa chamada na primeira página de um jornal exposto em uma banca? Os dois têm o mesmo objetivo: captar a atenção do leitor e convencê-lo a ler o conteúdo. Mas o formato das chamadas tradicionais tem pouco apelo nos meios digitais, especialmente nas redes sociais. Logo, não se trata de “caça-cliques”, e sim de adaptar a linguagem ao formato esperado nessa mídia.

Bezos quer que as pessoas leiam o Post, de um jeito ou de outro. Uma jogada comercial interessante foi a criação de uma rede de mais de 300 jornais regionais que dão acesso gratuito ao conteúdo digital do Post a seus assinantes. Não há troca de dinheiro entre o Post e os outros títulos, mas essa é uma combinação que aumenta o valor percebido das assinaturas desses títulos e injeta muita gente nova nas propriedades digitais do Washington Post. Fazendo uma “conta de padaria”, se apenas 5% dos mais de 10 milhões de assinantes desses jornais visitarem o Post, isso significa mais de 500 mil novos usuários.

Para receber toda essa gente, além dos usuários tradicionais do Post, muito investimento em tecnologia vem sendo feito. Não apenas em infraestrutura, mas também na construção de seus produtos para atender todos os formatos descritos anteriormente. Até o carregamento das páginas ficaram incrivelmente mais rápidas, se comparado ao da era pré-Bezos. Tudo para melhorar a experiência do público.

“Construa e eles virão”

O Washington Post não divulga informações financeiras, mas a sua audiência vem crescendo rápida e continuamente, como pode ser visto no gráfico abaixo, com dados da Comscore:

NYTxWP unique visitors

Além de praticamente dobrar a quantidade de pessoas que visitam seu site desde que Bezos assumiu a companhia, o Washington Post colou no antigo rival New York Times nessa métrica. Se as tendências de crescimento de ambos se mantiverem, o Post pode passar o Times no ano que vem.

Nesse cenário, vale destacar dois pontos importantes. O primeiro é que o Times acabou de comemorar a marca de um milhão de assinantes de sua versão digital, um feito memorável. O outro, favorável ao Post, é que seus usuários usam mais o celular para consumir seu conteúdo que os do Times. E isso é excelente, pois as pessoas usam cada vez menos desktops e notebooks, e cada vez mais smartphones e tablets.

Muitos podem questionar que audiência por si só não significa receita, ou pelo menos não o suficiente para manter a operação. Esse, aliás, é o dilema da maioria dos veículos de comunicação tradicionais, cujas receitas digitais crescem, mas estão longe de ser suficientes para compensar a queda dramática nas receitas “tradicionais”.

Mas Bezos é um empresário que sabe valorizar a visão de longo prazo. Sabe investir sem a ânsia de obter resultados rapidamente, para fortalecer suas empresas e viabilizar suas estratégias. Foi assim que construiu a Amazon. E pode estar fazendo o mesmo com o Post.

Ele sabe que a única maneira de atrair o público é oferecendo algo que eles queiram, da maneira que gostem, até que faça sentido o pagamento. E assume o risco que nem sempre acertará. Mas, como costuma dizer, “se você dobra seus experimentos, você duplica sua inventividade”.

A única coisa inaceitável é manter tudo do mesmo jeito e esperar um resultado diferente. Exatamente o erro que a mídia tradicional insiste em cometer. Aposto mais no modelo Amazoniano.

O conteúdo tem que tomar seu rumo. Ou por que as bancas de jornal morreram

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Telas do Apple News (à esquerda) e do Flipboard

Telas do Apple News (à esquerda) e do Flipboard

Quando foi a última vez que você foi até uma banca para comprar um jornal? As respostas da maioria das pessoas que estiverem lendo isso provavelmente variarão de “há muito tempo” a “nem me lembro”.

Várias são as causas disso, mesmo entre aqueles que já foram ávidos consumidores de jornais. Mas uma delas é fundamental e crescente: apesar de nunca terem consumido tanta notícia como agora, cada vez menos as pessoas ativamente buscam por esse conteúdo. Acontece exatamente o contrário: a notícia precisa encontrar o caminho até seu público e se apresentar a ele da melhor maneira possível.

E não vale qualquer conteúdo. As pessoas querem consumir um noticiário que lhes interesse, sem ter que levar junto um monte de coisas “desinteressantes”. O problema é que o conceito de “interessante” varia de indivíduo para indivíduo e, mais que isso, varia dentro do mesmo indivíduo, de acordo com o seu momento.

Por exemplo, alguém que goste de futebol (não um fanático) fica mais interessado no noticiário esportivo nos dias dos jogos do seu time, e eventualmente dos times rivais. Notícias dos demais times não lhe são tão interessantes. Além disso, a relevância desse assunto diminui nos outros dias.

Outra mudança de comportamento interessante é a flexibilidade sobre a origem do noticiário. Os leitores costumavam assinar um jornal ou uma revista porque se identificavam com sua linha editorial. Hoje as pessoas misturam, dentro da sua experiência informativa, conteúdos da Veja e da Carta Capital sem o menor problema, desde que isso lhes faça sentido naquele momento.

Apenas no meio digital podemos encontrar conteúdos de fontes tão distintas lado a lado, como se fossem de uma mesma revista.

O renomado Pew Research Center publicou, no dia 14, um estudo que coloca em números como as pessoas mais e mais usam redes sociais como fonte de noticiário jornalístico: o Twitter e Facebook servem para isso para 63% dos americanos (era respectivamente 52% e 47% há dois anos).

O Facebook percebeu isso, com os “artigos instantâneos”. O Twitter também, com seu “Projeto Lightining”. E, mais recentemente, a Apple sacou que o futuro não está em ficar distribuindo edições digitais de publicações consagradas, e sim em entregar seus conteúdos de maneira desintegrada, com foco na experiência do consumidor.

Ruim para as marcas, salvação para os veículos

A novidade recém-anunciada pela empresa da maçã é o Apple News, um aplicativo que integrará a próxima versão do sistema operacional dos iPhones e iPads, o iOS 9. Seu design e sua tecnologia lembram as do consagrado Flipboard, criando uma elegante publicação dinâmica e totalmente individualizada, misturando conteúdo de diferentes fontes, selecionados e organizados de acordo com os gostos de cada usuário.

Seu modelo de negócios é o mesmo dos também recém-lançados “artigos instantâneos” do Facebook. Assim como nesses, apesar de suas páginas serem inteiramente construídas com noticiário de outros veículos, elas não exibirão nenhum dos anúncios que estiverem em seus sites de origem, apenas peças vendidas especificamente para o Apple News. Se o vendedor for o próprio veículo, ele fica com 100% da receita; se a venda tiver sido feita pela Apple, ela abocanha 30%.

A diferença fundamental entre os serviços da Apple e do Facebook é que o primeiro rodará encapsulado em um aplicativo, considerando as preferências do indivíduo, enquanto o segundo funciona dentro do próprio Facebook, com seus diversos critérios de relevância e uma presença quase ubíqua na vida dos internautas. O serviço do Zuckerberg leva vantagem.

Mas há também uma semelhança fundamental: nos dois casos, a percepção do usuário é que ele está consumindo o noticiário “no Apple News” ou “no Facebook”, ao invés de “no Estadão”, “na Globo”, “na Folha”, “na Veja”, “na Carta Capital”, “no The New York Times”.

Crescemos aprendendo a confiar e até a gostar dessas marcas. Eram referências de confiabilidade e sabíamos, de alguma maneira, o que encontraríamos em suas páginas. Mas quanto isso é realmente importante hoje para o usuário?

Essas mudanças no comportamento das pessoas são devastadoras para as marcas das empresas de comunicação, mas pode ser a salvação para os veículos tradicionais, que estão caindo um a um, como castelos de cartas (nesta sexta, 17, mais um jornal deixou de circular: o Brasil Econômico). E isso acontece não porque a qualidade de seu produto piorou (ok, isso também aconteceu em muitos deles), mas porque seus antigos leitores hoje estão consumindo noticiário de outras fontes, especialmente de algumas que sequer existiam há alguns anos. Como explicaria Darwin, sobrevive não o mais forte, e sim o mais adaptado às mudanças.

Os veículos correm, portanto, riscos ao publicar nessas plataformas. Mas eles simplesmente não têm alternativa, dada a sua incompetência em se adaptar aos novos tempos: terão que se render aos fatos para continuar vivos.

Continuam achando que suas marcas e sua história são suficientes para atrair os usuários. Continuam achando que a cobrança pelo conteúdo e a venda de publicidade do impresso podem ser transferidos com pequenas mudanças para o meio digital e dar certo. Continuam achando que um “paywall poroso”, como o do The New York Times pode salvar suas operações. Mas nada disso é verdade, e até o aclamado paywall só deu certo no NYT porque ele é apenas uma engrenagem de uma sofisticada estratégia de produto que conseguiu até mesmo angariar novos assinantes para o jornal impresso. O paywall sozinho não funciona.

Ponto sem retorno

Os veículos há muito tempo passaram do “ponto sem retorno” da migração para o digital. Parece ridículo dizer isso a essa altura do campeonato, mas deixa de ser se vemos que insistem em fazer tudo como antes e achar que as coisas vão se acertar magicamente.

Esses veículos não morreram, não ainda, e podem se salvar. Mas precisam primeiramente aceitar que nunca mais ganharão dinheiro como ganhavam antes, e certamente não com os mecanismos de antes. Tampouco voltarão a ter a relevância e a influência que tiveram.

Nessa realidade que vivemos, precisam aprendem a abraçar genuinamente o meio digital, e pulverizar e superdistribuir seu conteúdo, ganhando migalhas por cada exposição, mesmo daquelas que apareçam lado a lado às do seu mais ferrenho concorrente. E assim, de grão em grão, a galinha pode voltar a encher o papo.

“Onde fica essa tal de Internet?”

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Primeira home page da Folha, a FolhaWeb, em julho de 1995 - Imagem: reprodução

Primeira home page da Folha, a FolhaWeb, em julho de 1995

Há exatos, 20 anos, eu colocava no ar a FolhaWeb, primeira iniciativa da Folha na então recém-nascida Internet comercial. Aquilo foi um caldeirão de inventividade sem limites, muito trabalho e diversão, e algum risco.

“Você vai enterrar sua carreira nisso!” “Internet é só um modismo que não vai pegar!”

Ouvi frases como essas aos montões de colegas do jornal, que viam a Internet como uma bobagem de nerds que nunca deveria ter deixado os limites das universidades. Quando eu propus a entrada da Folha na Web, em janeiro de 1995, eu era repórter de Ciência. Quando decidi deixar o jornal para cuidar apenas do rebento digital, que já tinha completado um mês no ar, era editor-interino. Poderia ter mesmo continuado cuidando da minha carreira no impresso, que estava decolando. E, naquela época, quem diria que os jornais chegariam à situação que enfrentam hoje?

Felizmente não dei atenção àqueles colegas, e fui em frente!

Mesmo porque não havia sido fácil conseguir publicar aquele pequeno site, e não queria perder o pouco que tinha conseguido. Eu e meu editor, Claudio Cssillag, ficamos sovando a direção do jornal por meses para conseguir a autorização para a iniciativa. Enquanto ouvíamos perguntas do tipo “onde fica essa tal de Internet” ou “para quem terei que pagar para publicar na Internet”, todos os jornalões brasileiros publicavam suas versões online primitivas.

O pulo do gato para conseguirmos a liberação foi a reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que, naquele ano, aconteceria no Rio de Janeiro. A Folha cobriria o evento, como fazia todos os anos. Meu editor teve então a brilhante ideia de propor a “primeira cobertura online do Brasil”. Entendam: isso não tinha, nem de longe, qualquer semelhança com uma cobertura online de hoje. Basicamente eu publicava à noite as notícias sobre o evento que estariam no jornal do dia seguinte. Mas o uso da palavra “primeira”, muito apreciada no jornal, foi um golpe de mestre do meu colega.

Além disso, alguns dias antes, a Folha havia dado ampla cobertura à Parada LGBT que havia acontecido no Rio de Janeiro, uma das primeiras do gênero no Brasil. “Já que demos tanto espaço aos gays, vamos dar agora aos cientistas”, ouvi na época. E assim o projeto foi liberado.

Assim, depois de realizar minhas tarefas diárias no jornal, ia até a sala do então gerente técnico da Agência Folha, Lelivaldo Marques Filho, parceiro no desenvolvimento das primeiríssimas páginas, que também contaram com a ajuda técnica de Sérgio Esteves, analista de sistema da Folha. Tudo sob a batuta de Marion Strecker, diretora da Agência na época. E, como previsto, no dia 9 e julho, há 20 anos, as matérias enviadas por Ricardo Bonalume Neto, repórter da Folha na reunião da SBPC, foram para o ar na espartana página vista acima. A criação do logo ficou a cargo de Cássio Leitão. Elas estavam acompanhadas por alguns outros conteúdos, como o noticiário das editorias de Ciências e de Informática, e a coluna Netvox, da Maria Ercilia, uma das primeiras pessoas a escrever sobre Internet no Brasil.

O trabalho era artesanal. O código HTML de cada página era editado na mão, em Word. A princípio, uma ferramenta inadequada para o trabalho, mas eu havia criado nele macros que transformavam os comandos do sistema de publicação do jornal em equivalentes na linguagem da Internet. Isso agilizava bastante o trabalho de importação do conteúdo do jornal.

A Folha possuía outra iniciativa de digitalização correndo em paralelo, no Banco de Dados, porém não visava criar um site na Web. Esse grupo, capitaneado por Rodrigo Santaliestra e Margot Pavan, uniu-se à FolhaWeb poucas semanas depois.

Além dos dois e das pessoas citadas anteriormente, que já trabalhavam na casa, a FolhaWeb começou a contratar gente especificamente para o projeto: Thania Thadeu, Luciana Saito e Kerly Tanaka, todas reforços editoriais. E a salinha onde trabalhávamos definitivamente ficou pequena…

Foram meses intensos, quase selvagens. É muito raro ter a oportunidade de participar da criação de não apenas um produto, mas um verdadeiro novo meio de comunicação, especialmente um que foi o de mais rápida adoção pelas pessoas e provavelmente o que alterou suas vidas de maneira mais dramática em apenas poucos anos. Ter participado da gestação da FolhaWeb foi um ópio, uma experiência arrebatadora em que tudo se podia, pois não havia parâmetros, não havia literatura, não havia concorrentes, nada! E ter feito tudo isso com as pessoas citadas foi um privilégio.

Antes que o ano acabasse, Caio Túlio Costa já estava no barco, preparando a transformação da FolhaWeb no Universo Online, que se concretizaria no dia 28 de abril de1996. Mas essa é outra história…

Quando uma “legião de imbecis” é mais importante que Umberto Eco

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Sean Connery como William de Baskerville, na adaptação para o cinema de "O Nome da Rosa", obra-prima de Umberto Eco

Sean Connery como William de Baskerville, na adaptação para o cinema de “O Nome da Rosa”, obra-prima de Umberto Eco

Para Umberto Eco, as redes sociais dão voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” É uma crítica fácil, mas o escritor italiano foi míope em sua análise, por não ver que isso está no centro de uma mudança social irrefreável que é, na verdade, positiva.

A declaração foi feita anteontem, quando Eco recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim (Itália). Em seu discurso, disse ainda que “eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Deixe-me ver se entendi: os “imbecis” (segundo o critério de alguém) devem ser calados, confinados a sua “ignorância”?

Esse conceito, muito popular entre regimes e instituições totalitárias, serve também para calar aqueles que simplesmente pensam diferente do status quo. Curiosamente nesses dias estamos diante de um debate em torno do comercial de O Boticário para o Dia dos Namorados, que apresenta casais homossexuais em condição de igualdade a casais heterossexuais, o que despertou a ira de uma parcela da população que considera isso uma afronta à sociedade. Se quisermos ir mais longe, temos exemplos brutais de tentativas de se silenciar o diferente, como o nazismo e a Inquisição.

Portanto, é curioso ouvir isso do autor de “O Nome da Rosa”, uma obra que justamente debate, entre outros temas, a intolerância ao diferente dentro de uma abadia na Idade Média. E, para a Igreja, entre as pessoas com pensamento diferente do que pregava e que deveriam ser silenciados (ignorantes?), estiveram Galileu Galilei e Nicolau Copérnico.

Sim, é verdade que a Internet deu voz a qualquer um, para falar o que bem entender. E é claro que, no meio disso, encontramos dignos representantes da mais bela porcaria, discursos de ódio e intolerância, pedofilia, informações erradas e todo tipo de informações questionáveis. Mas isso nada mais é que reflexo do mundo que vivemos: não foram os meios digitais que criaram isso tudo.

O centro da questão passa por definir o que é “certo” e “errado”. Esses valores morais variam de acordo com o tempo, o local, o grupo social, a religião. O comercial mencionado acima é um belo exemplo disso: conseguiu polarizar a população brasileira. Devemos silenciar os “imbecis” e exultar os “corretos”? Mas, afinal, quem é quem?

Penso que é exatamente o contrário disso: do debate, nossa sociedade pode evoluir. Estamos em um momento em que justamente as pessoas estão esquecendo como conviver com o diferente. E nada de bom pode surgir disso.

Não é a primeira vez que a Internet é acusada de ser “a destruidora da civilização” por dar voz a qualquer um. Em 2007, isso chegou a render um livro, “O Culto do Amador”, do cientista político britânico Andrew Keen. Na obra, ele afirma que a liberdade oferecida pela Internet destruiria a sociedade por colocar um palpiteiro em pé de igualdade com especialistas. Isso já foi inclusive discutido neste blog.

O fato é que nada impedirá que as pessoas falem o que pensam cada vez mais. O acesso democrático aos meios de publicação digitais combinado à ubiquidade de celulares cada vez mais poderosos mudou a maneira como nós nos relacionamos com a informação. Pela primeira vez, qualquer um pode criar e publicar seu conteúdo e atingir, ainda que hipoteticamente, qualquer pessoa no globo. Essa é a essência da crise das empresas de comunicação, por não aceitarem que seu modelo de negócios, baseado no monopólio dessa produção e distribuição, não encontra mais lugar no mundo.

Portanto, quando Umberto Eco conclui que “os jornais devem filtrar as informações da Web com uma equipe de especialistas”, está tentando segurar um tsunami com a mão. Os meios de comunicação devem, na verdade, trabalhar em sentido contrário: trazer essas pessoas, com tanto a falar, para dentro de seu processo, melhorando o seu produto e aumentando a sua relevância social.

Não são “imbecis”, e merecem ser ouvidos. Os interlocutores tampouco são “imbecis”. Cabe a cada um processar a informação como achar melhor.

Deus e o diabo na terra da mídia

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Montagem de Zuckerberg sobre o cartaz do filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol" - Imagens: divulgação e reprodução

Os artigos instantâneos, recurso lançado pelo Facebook na última quarta (13), podem representar uma grande oportunidade para a mídia. Entretanto muitos colegas temem que, ao adotar a novidade, os veículos de comunicação estejam abraçando o diabo.

Para quem não sabe do que se trata, a nova funcionalidade da rede de Mark Zuckerberg permite que os veículos publiquem seu conteúdo efetivamente nas suas linhas do tempo, ao invés de criar posts que remetam aos conteúdos em seus sites. Pode parecer uma sutileza tola, mas não é: a experiência do usuário com o conteúdo começa já na linha do tempo. Ao clicar no post, o conteúdo é aberto diretamente no Facebook, e não no site do veículo, de uma maneira muito mais rápida. Além disso, a plataforma oferece recursos editoriais interessantes, que podem tornar a experiência ainda mais envolvente.

Como o recurso por enquanto está disponível apenas no aplicativo do Facebook para iPhone, você pode ver como ele funciona no vídeo abaixo, do TechCrunch:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=yFDT3_7e0Gs]

O conteúdo publicado no novo formato não ganhará nenhuma relevância adicional, portanto a chance de aparecer no seu feed de notícias será a mesma de qualquer outro post do mesmo veículo. Em compensação, por ser mais envolvente, em tese ele será muito mais compartilhado pelos próprios usuários, aumentando consideravelmente sua audiência. Como os veículos ficarão com toda a receita dos anúncios que venderem para os artigos instantâneos (se o Facebook vender, ele fica com 30%), é uma maneira interessante de monetizar o conteúdo promovido na rede, algo de que os veículos de comunicação sempre reclamam por não ter bons resultados.

Parece bacana, não é? Então qual é o problema?

Há alguns pontos importantes a se considerar. Primeiramente, ao colocar o conteúdo efetivamente dentro do Facebook, o veículo de comunicação deve entender que o indivíduo não mais consumirá tal conteúdo em seu site ou aplicativo. Receita e audiência podem ser mantidos (e até ampliados) pelo compartilhamento de números com o Facebook, mas é um fato que o usuário estará fora do “ambiente” do veículo, o que pode limitar sua capacidade de incentivar o indivíduo a consumir mais conteúdo ou outros produtos da casa.

Outro medo é que, ao adotar as novidades, os veículos estejam alimentando um monstro que depois os engolirá. O Facebook hoje já é mais relevante na vida das pessoas que qualquer veículo de comunicação. Mas, apesar de ser um canal de distribuição formidável (para alguns grandes veículos, chega a responder por um terço de sua audiência), ele não produz nenhum conteúdo. Se começarem a publicar diretamente no Facebook, por mais que o material esteja dentro das páginas dos veículos, há um temor de que o usuário diga, cada vez mais, “vi no Facebook” ao invés de “vi no Estadão”, por exemplo. E, nesse caso, quem será o “dono” do conteúdo?

Por fim, mas não menos importante, hoje o modelo de negócios oferecido é francamente favorável aos veículos. Mas qual é a garantia que, lá na frente, quando a mídia estiver despejando toneladas de “artigos instantâneos”, o Facebook não mude as regras do jogo, tornando-o (muito) mais interessante para si? Fazendo um paralelo com jornais e revistas, é como se todos os caminhões da cidade decidissem cobrar o dobro para entregar os impressos.

Apesar de tudo isso, alguns dos principais nomes da mídia abraçaram a novidade em seu lançamento: The New York Times, National Geographic, BuzzFeed, NBC News, The Atlantic, The Guardian, BBC News, Spiegel Online e Bild. Alguns deles, veículos com muita estrada, já têm boas iniciativas online, como The Guardian e The New York Times. E há também o BuzzFeed, digno representante da mídia nativamente digital e que já tem íntima relação com o Facebook. É muita gente boa abraçando o diabo! Será que os truques do Coisa-Ruim enganaram todos eles? Quero crer que não.

Qualquer um poderia dizer: “se o negócio ficar ruim depois, o veículo pode simplesmente abandonar o formato”. Isso é verdade. Mas talvez o Facebook já terá se transformado do jacaré atual em um tiranossauro. E pular fora de seus domínios poderia eventualmente diminuir ainda mais a relevância de qualquer veículo.

Nesse jogo de xadrez, o novo recurso foi uma jogada de mestre de Zuckerberg. Agora é a vez dos veículos jogarem. Talvez o Facebook nunca use esses “lances do mal” descrito acima. Talvez os “artigos instantâneos” não cheguem a fazer sucesso com os usuários. Quem sabe? Isso é tudo especulação afinal.

O que é certo é que os veículos batem cabeça há 20 anos na mídia digital, sem conseguir criar um modelo realmente vencedor que garanta a sua continuidade. Pelo contrário: continuamos vendo veículos, alguns centenários, fechando suas portas. E o culpado por isso não é o Facebook, o Google ou, em um sentido mais amplo, a Internet.

Os culpados são os próprios veículos, que parecem ter esquecido como ser relevantes para seu público. Estão tão preocupados com sua minguante receita publicitária, que não dão tanta importância para ele, sua razão de existir.

A maioria dos veículos que hoje agonizam nasceram nos séculos 19 e 20 para atender a comunidade onde estavam, um grupo social ou um ideal. Cresceram fieis a isso. Mas acabaram se tornando máquinas muito bem azeitadas de fazer dinheiro, que já não vinha tanto de seu público, e sim da publicidade. Não estou condenando a publicidade de forma alguma, mas isso só funcionou (e funcionou por muitas décadas) enquanto esse público não tivesse algo com o que se sentisse mais bem representado.

Isso aconteceu com o fortalecimento da mídia digital. Para desgraça dos veículos, seus concorrentes deixaram de ser os outros veículos, uma batalha que eles conheciam, para ser qualquer site ou aplicativo que lhes roube o tempo que seu antigo público lhes dedicava. Com o declínio da audiência, a publicidade arrumou as malas e os deixou.

Parte da relevância perdida pode estar no conteúdo, que muitas vezes já não atenda mais às expectativas das pessoas, e até mesmo ao alinhamento político e econômico dos veículos. Isso vem ficando cada vez mais claro nos últimos anos, com as crescentes críticas a veículos tradicionais. De todo jeito, isso é um problema editorial, que pode ser resolvido.

Mas outra parte do problema está justamente em como qualquer produto chega a seu público. O veículo pode produzir o conteúdo mais incrível e alinhado a ele, mas de nada adianta se isso não impactar as pessoas. Elas não assinam mais um monte de papel que inexoravelmente chegará a suas portas para ser consumido. Agora, cada pílula de conteúdo precisa trilhar o seu caminho até seu consumidor, de maneira individual. Se for competente, carregará o usuário para outros conteúdos da mesma marca.

Portanto, nada mais burro e anacrônico que ficar brigando com o Google, por causa de seu Google Notícias, como fazem os jornais. Isso só demonstra como eles estão descolados das pessoas, o que nos remete ao problema de relevância acima.

Os veículos têm obrigação de entregar o seu conteúdo de todas as maneiras que conseguirem, principalmente as mais criativas. Isso embute riscos enormes, como os descritos acima? Claro! Mas eles foram –e continuam sendo– absurdamente incompetentes em criar maneiras efetivas de manter seu público e conquistar novos consumidores. Insistem em transpor seus produtos tradicionais e especialmente seus modelos de negócio anacrônicos para uma nova realidade. Mas isso é impossível.

Nesse cenário, o Facebook é outra noiva com um dote gigante demais para ser ignorada. Não sei se essa moça bonita é o diabo como dizem alguns, mas os veículos devem considerar esse abraço. E torcer para isso gerar filhotinhos bonitos e saudáveis.

NÃO estamos diante do fim do jornalismo

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Venda de jornais nos EUA

Venda de jornais nos EUA

Há alguns dias, ainda sob influência das recentes demissões no Estadão, na Folha e em outros veículos, li o artigo de Sylvia Moretzsohn no Observatório da Imprensa, sobre a crise que assola as empresas de comunicação e a “moral da tropa”. Ela faz importantes reflexões, mas o texto tem um tom pessimista com o qual não concordo. Apesar dos fatos, vejo o momento do jornalismo profissional como de transformação e não como seu “fim”.

É verdade que a situação não está fácil para ninguém, e que vejo a toda hora colegas desesperançosos com o futuro da profissão. Mas tudo isso é “crônica da morte anunciada”, seja do lado das empresas, seja dos profissionais. O “jornalismo como conhecíamos” não consegue mais se sustentar como negócio ou profissão. Mas isso jamais deve implicar em mudanças de seus fundamentos: compromisso com a verdade e com o público, investigação, persistência, pluralidade. Bom jornalismo hoje é o que sempre foi e sempre será bom jornalismo.

Por isso, a despeito do pessimismo, concordo com muito do que a Sylvia diz em seu artigo, especialmente com o trecho “o jornalismo precisa corresponder ao ideal que o justifica e o legitima socialmente.”

As reclamações atuais não passam do velho mito de que “a Internet vai matar o jornalismo” em nova roupagem, com o Facebook ganhando destaque como vilão. Nada mais falso: se você estiver lendo esse texto, a chance de ter chegado aqui a partir da rede do Zuckerberg é muito grande.

Empresas e colegas acusam o Facebook, o Google, o jornalismo-cidadão e outras “novidades digitais” de corromper os fundamentos acima em favor de amadorismo e de fórmulas baratas de “roubar” o público. É claro que existem coisas (muito) ruins na Internet, muitas delas travestidas de noticiário. Também é verdade que muitas delas têm público. E que, gostemos ou não, uma porcaria pode tirar audiência de um belíssimo trabalho, se for apresentada adequadamente às pessoas que servem de público para ambos. Mas pessoas sempre foram seduzidas por fórmulas fáceis e apelativas, e isso tampouco foi criado pela mídia digital: é tão velho quanto a imprensa profissional e tem vários nomes: sensacionalismo, jornalismo marrom e por aí vai. Portanto, não servem de desculpa para a perda da audiência dos “veículos sérios”.

Claramente muitos colegas e empresas estão perdidos nesta realidade de novas ferramentas de apuração e de publicação e -principalmente- do novo público. Diante da sua inabilidade, metem os pés pelas mãos, pioram o jornalismo, demitindo seus melhores profissionais e falhando ao tentar se adaptar ao novo cenário, e, por isso, não conseguem mais se sustentar.

Sou otimista quanto ao futuro do jornalismo: apenas precisamos tirar essa grossa camada fuligem: ele continua brilhando por baixo dessa sujeita velha. E isso só é verdade porque as pessoas querem ser informadas, e BEM informadas.

Jornalistas e empresas de comunicação precisam, sim, se reinventar, mas isso, de forma alguma, significa “se degradar” (nesse ponto, discordo do artigo da Sylvia). É exatamente o contrário disso! Devem melhorar ainda mais o seu conteúdo, enquanto aprendem a se diferenciar no mar de conteúdo qualquer-nota com que disputam a atenção e o tempo das pessoas. Quem conseguir fazer essas duas coisas, não apenas sobreviverá, como prosperará.

Os problemas de forçar um conteúdo nacional

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Frank Underwood (Kevin Spacey), o anti-herói da série House of Cards, um dos símbolos do Netflix

Frank Underwood (Kevin Spacey), o anti-herói da série House of Cards, um dos símbolos do Netflix

A Ancine (Agência Nacional do Cinema) está tramando a exigência de uma cota mínima de filmes e séries brasileiras em serviços de vídeo sob demanda, como o Netflix e o HBO Go. Com o argumento de fomentar as produções nacionais, esse tipo de intervenção pode matar a vaca para acabar com o carrapato.

Essa regra já funciona para os canais de TV paga, que são obrigados a dedicar pelo menos 30% de sua grade a programas brasileiros. De fato, temos hoje produção nacional de ótima qualidade, mesmo em canais internacionais, como a série O Negócio, na HBO. Mas esse alto nível está longe de ser padrão, com alguns conteúdos de interesse e qualidade limitados, sem falar na enxurrada de programas de culinária que criam variações sobre o mesmo tema nem sempre tão criativas.

O grande problema desse tipo de regra é tirar do consumidor o seu direito de escolher o que assistir. Quem paga por um serviço de TV por assinatura quer justamente fugir da qualidade rasteira da programação dos canais abertos. Ao forçar que um terço da grade de um canal pago seja preenchido com qualquer conteúdo local, apenas por ser brasileiro, esse direito de escolha é prejudicado.

Os serviços de vídeo sob demanda representam a maximização da escolha do consumidor, que agora não precisa sequer se ater às grades de programação: assiste o quiser, quando e onde quiser, uma liberdade inédita que está redefinindo o próprio jeito de se ver televisão.

No Brasil, o Netflix oferece cerca de 4.000 filmes e séries em seu acervo. Desse total, cerca de 5% é composto por produções brasileiras. Se a Ancine emplacar a mesma exigência feita aos canais de TV por assinatura, o Netflix precisaria ampliar o seu acervo -o que pode encarecer o produto- ou reduzir o volume de conteúdo internacional oferecido. Nas duas situações, quem perde é o consumidor.

Até a minha adolescência, o cinema brasileiro era desprezível, dominado pelas pornochanchadas e pelos filmes dos Trapalhões. Até que Carlota Joaquina, Princesa do Brazil estreou em 1995, seguido no mesmo ano por O Quatrilho e outras grandes produções, que inauguraram uma nova fase do cinema nacional, de alta qualidade. Disso surgiram obras-primas, como Central do Brasil, e Tropa de Elite. Entretanto, de uns anos para cá, as salas têm sido invadidas por uma enorme quantidade de comédias, muitas delas de gosto bastante duvidoso e pouco originais, mas todas com o logo da Ancine na abertura.

Por isso, sou favorável à constante ampliação da oferta de produções nacionais de qualidade. Mas isso não pode ser feito por decreto, principalmente quando contraria os interesses e fere os direitos do cidadão, que é, afinal, o cliente de tudo isso, pagando pelo cinema, pela TV por assinatura e pelo Netflix. Não abro mão do meu direito de assistir a House of Cards, Game of Thrones e afins em favor de programas de culinária fofinhos ou de comédias caça-niqueis.

Por que algumas pessoas estão odiando a imprensa

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Ilustração da primeira sede do Estadão, um sobrado da rua do Palácio, atual rua do Tesouro, no centro de São Paulo: depois de 140 anos, o jornal continua vivo - Imagem: reprodução

Ilustração da primeira sede do Estadão, um sobrado da rua do Palácio, atual rua do Tesouro, no centro de São Paulo: depois de 140 anos, o jornal continua vivo

Recentemente o Brasil 247 retirou parte de uma conversa de Rodrigo Mesquita do contexto e, a partir dela, publicou “Herdeiro do Estadão: os jornais estão mortos“. Não discutirei o sensacionalismo barato do post, mas me preocupou muito a longa cadeia de comentários destilando um enorme ódio contra a imprensa e seus principais veículos. Algo na linha de “o Estadão tem mais é que morrer mesmo, e levar a Globo junto!”

A primeira coisa que pensei é que aquilo tudo era um rescaldo da hiperpolarizada eleição presidencial, que dividiu o país entre “azuis” e “vermelhos”, e onde alguns veículos da imprensa, mais notadamente a Veja, jogaram pesado -e às vezes sujo- no exercício da oposição. Mas, pensando melhor, isso não deveria ser suficiente para causar tamanha aversão, pois ela já vinda aparecendo com muita força desde as grandes manifestações de rua de 2013, quando alguns jornalistas que faziam sua cobertura chegaram a ser agredidos pela população, pelo simples fato de serem jornalistas.

Há algo muito perigoso nisso. Apesar de o jornalismo existir desde o Império Romano, sua versão moderna data do século XIX. Aqueles veículos rudimentares informavam a população de onde circulavam sobre os acontecimentos do local, do país e, quem sabe, do mundo. Eventualmente defendiam causas e tinham seu alinhamento político. De qualquer forma, a população se sentia representada pelo “seu jornal”.

Essa representação é um dos pilares do jornalismo. Uma imprensa livre é fundamental para a construção e manutenção de uma democracia. Por isso, a cartilha de qualquer ditador reza que a imprensa deve ser domada e silenciada o quanto antes. O finado Hugo Chávez refinou essa técnica, incutindo na população a ideia de que uma imprensa contrária ao governo é automaticamente contrária ao povo, quando, na verdade, normalmente acontece o contrário.

Se um veículo não consegue mais representar seu público, então ele perdeu sua razão de ser. Quando se radicaliza, como nos casos de Veja e Carta Capital, abre mão de parte da população em nome do que defende, mas ainda há um outro grupo que o apoia. Do lado do público, se alguém não gosta de um veículo, sempre haverá outro com o qual se alinhe. Mas o que vejo desde junho de 2013 é uma parcela crescente da população aparentemente abominar toda imprensa.

Não há dúvida que essa abjeta característica do chavismo chegou e se consolidou no Brasil, em grande parte por uma propaganda muito bem orquestrada nas redes sociais. Mas a grande imprensa não está ajudando em nada para reverter esse quadro. Já se foi o tempo em que a massa consumia sem questionar o que os veículos publicavam. As suas radicalizações são como gritos aos ouvidos de quem consome seu noticiário de maneira crítica (a melhor maneira, por sinal). Não estou dizendo que as publicações não devam defender uma posição ou mesmo se alinhar a um candidato em uma eleição. Isso é legítimo e saudável, desde que não esqueçam que, como veículos jornalísticos que são, devem realizar suas coberturas abrindo espaço para os outros lados, sem mentir ou destruir reputações apenas para fazer valer as suas teses.

Os próprios veículos -e ninguém mais- podem resgatar a confiança de seu público. E eles precisam se esforçar, genuína e rapidamente, nessa tarefa, ou a provocação barata do Brasil 247 acabará se concretizando.