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Devemos formar as crianças para o mundo em que elas vivem

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Crianças usam notebooks educacionais em escola nos EUA - Foto: divulgação

Crianças usam notebooks educacionais em escola nos EUA

Recentemente entrei em um debate com uma mãe que se vangloriava de, nessa ordem, ter “tirado o computador” do filho de dez anos e que, por conta disso, ele estaria fazendo coisas “que uma criança deve fazer”, como jogar bola e subir em árvores. Perguntei a ela para que mundo ela estava formando seu filho. E ela se ofendeu.

Pais, pelo menos os conscientes, procuram sempre dar o melhor a seus filhos, incluindo a educação que eles consideram a mais adequada. Entretanto, “melhor” é algo que varia de acordo com a pessoa, com o lugar e com a época. Precisamos ser flexíveis às mudanças que acontecem a nossa volta, mesmo quando não gostamos dos resultados delas.

Tive uma infância feliz e saudável, onde joguei bola, subi em árvores e fiz coisas que a mãe acima provavelmente desaprovaria, como participar de animadas batalhas campais com amigos, todos armados com estilingues e usando semente de mamona como munição. Aquela era a realidade em que vivia e nunca fui privado dela pelos meus país. Além disso, tive a sorte de eles incentivarem, inclusive com grande esforço financeiro, o meu interesse por computadores já no começo da adolescência. Isso em uma época em que se ter um computador em casa era algo muito raro, mesmo em famílias abastadas.

Chamo de “sorte” a chance de ter tido acesso, alguns anos antes que a esmagadora maioria, a algo que em pouco tempo, mudaria completamente o mundo. Apesar de nunca ter me transformado em um profissional de TI, o contato com a nascente computação pessoal me permitiu desenvolver várias habilidades cognitivas que se converteram em diferentes vantagens na minha vida.

Por mais que eu gastasse horas com aquela máquina incompreensível para meus pais, eu nunca deixei de fazer minhas outras atividades por conta daquilo. Ou seja, o livre acesso à tecnologia não me privou de nada: pelo contrário, foi algo que apenas me acrescentou habilidades que não teria de outra forma.

Não concordo, portanto, com pais que restringem o acesso de seus filhos a computadores, videogames ou celulares, sob o pretexto de que assim as crianças não fariam mais nada, se pudessem. Uma criança só se comporta dessa forma se não lhe forem oferecidas alternativas. E, nesse caso, a culpa será dos pais, não dos filhos.

É exatamente a mesma coisa que acontecia há uns 20 anos, quando os pais reclamavam que seus filhos passavam o dia diante da TV. Contestavam a qualidade da programação, mas nunca aceitavam que aquilo acontecia simplesmente porque aquelas crianças não tinham muito mais a fazer.

Felizmente, nem todos são assim. Mas a “turma do contra” prefere matar a vaca a acabar com o carrapato. Não se importam em afirmam categoricamente que os games deixam seus filhos violentos, mas se recusam a enxergam que não reservam o tempo necessário para se dedicar genuinamente às crianças, inclusive para lhes dar o carinho necessário para sua boa formação. Entendo que isso não é algo fácil de conseguir, especialmente com a vida corrida que lhes é imposta. Mas é crítico que seja feito.

Portanto, vão “tirar o computador” para que seu filho possa subir em árvores? Francamente, para que mundo estão formando seus filhos?

A importância do caviar para o jornalismo

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Exemplos de capas do Estadão e da Folha de um mesmo dia: dois veículos de uma mesma empresa, feito de jornalismo palaciano, agências e assessorias? Imagem: reprodução

Exemplos de capas do Estadão e da Folha de um mesmo dia: dois veículos de uma mesma empresa, feito de jornalismo palaciano, agências e assessorias?

No dia 10, durante o 7º Fórum da Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner), em meio às discussões sobre a crise das empresas de comunicação impressa, Juan Giner, presidente do Innovation Media Group, sugeriu que os veículos precisam investir na produção de um jornalismo de alta qualidade, relevante e exclusivo, se quiserem que alguém pague pelo seu produto. Parece óbvio, mas não é, pois isso não se vê por aí.

“Temos que produzir um ‘jornalismo-caviar’, que seja nobre, raro e sofisticado, e principalmente que não seja encontrado em qualquer lugar”, disse Giner aos participantes do evento. “Mas 80% dos veículos de todo o mundo ainda não atingiram esse nível de sofisticação, exclusividade e relevância em seu noticiário. Precisamos produzir caviar”, alfinetou Giner.

Ele está certíssimo: as pessoas pagam pelo conteúdo que consomem, desde que ele mereça isso. O assunto já foi debatido neste mesmo blog mais de uma vez. Mas é uma pena constatar que a maioria do jornalismo por aí está mais para fast food que para caviar. É como se as empresas de comunicação, asfixiadas pelos seus balanços desfavoráveis, estivessem esquecendo como fazer bom jornalismo, preferindo as fórmulas fáceis, baratas e ruins. Não sabem mais onde está o caviar (e não procuram), e se contentam em oferecer hambúrguer de baixa qualidade. E isso não é uma exclusividade dos veículos impressos: permeia diferentes mídias.

Mas, agora discordando de Giner, apenas produzir jornalismo-caviar não é mais suficiente para salvar esses veículos. Para tornar a situação mais dramática, existe muita gente que despreocupadamente produz jornalismo (às vezes bom) de graça simplesmente porque aquilo não é o seu core business, mas precisa desse tal “conteúdo” para sustentar o que realmente lhe dá dinheiro. Isso não é nenhuma novidade: em 1996, quando o UOL foi lançado, as teles não queriam saber de oferecer acesso. Coube aos então chamados “provedores de acesso” criar a infraestrutura e oferecer a conexão. Naquela pré-história da Web, o conteúdo jornalístico da casa (no exemplo do UOL, vindo dos veículos da Folha e da Abril) era um “brinde” para convencer alguém a pagar pelo “acesso”, seu verdadeiro negócio.

Os portais de hoje não são muito diferentes disso. Talvez a maior ironia seja o fato de eles lucrarem muito distribuindo (pagando ou por parcerias) jornalismo da chamada “mídia tradicional”, que não aprendeu até hoje a lucrar nessa nova modalidade. E o problema reside em insistir em um modelo que foi criado no século 19, quando o leitor precisava pagar pelo jornal inteiro, mesmo que quisesse ler apenas uma notícia. Isso acontecia porque não era possível vender o jornal fatiado. Mas hoje isso é perfeitamente factível.

Não estou propondo micropgamento, algo difícil de implantar do ponto de vista técnico e financeiro. Mas o modelo “pague para levar tudo ou não receba nada” não se sustenta mais. Sim, é possível cobrar uma assinatura, mas por outro tipo de produto jornalístico que tire real e amplo proveito do que a tecnologia oferece, ao invés de simplesmente transpor o impresso para a tela. É isso que as pessoas não querem e que as empresas insistem em empurrar ao mercado. Para consumir notícia dessa forma, melhor ficar com a revista em papel mesmo.

E aí voltamos à história do tal jornalismo-caviar. Os novos leitores não consideram a hipótese de consumir notícias em papel. E os leitores antigos não querem mais pagar pelo jornalismo rasteiro e desqualificado que lhes é oferecido. As pessoas incensam o paywall do The New York Times, mas suas análises simplistas não vão além da exigência de pagamento para quem quiser ler mais conteúdo.

É uma visão míope e limitada do trabalho que a turma da “velha dama cinzenta” fez. Esquecem que o conteúdo gratuito é suficiente para atender às necessidades mensais de leitura de 90% dos visitantes de seu site, leitores eventuais (portanto, cobram apenas dos que realmente veem valor no produto e o consomem mais). Esquecem também que quem chega a uma notícia de buscadores ou de redes sociais não tem a leitura computada em sua quota, fortalecendo assim a sua relevância nessas importantes portas de entrada. Esquecem que os produtos digitais da casa são muito bons e não se resumem a transpor o impresso para a tela. Por fim, esquecem que quem assina o jornal impresso leva todos os produtos digitais de graça. Sobre tudo isso, uma generosa cobertura de jornalismo-caviar.

E continuamos com o nosso cachorro quente.

A falta de inovação do Mídia Ninja

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Bruno Torturra e Pablo Capilé, no Roda Viva do último dia 5 - Foto: Reprodução

Bruno Torturra e Pablo Capilé, no Roda Viva do último dia 5

Desde as megamanifestações que sacudiram o Brasil em junho, muito se fala sobre o Mídia Ninja, um grupo de jornalismo que tem sido incensado como revolucionário em seus formatos editoriais e de financiamento. Cheguei até a ter a esperança de que a cambaleante “mídia tradicional” poderia aprender algo com eles. Mas acabei concluindo que, na verdade, as propostas dos Ninjas não têm nada de inovadoras.

Os líderes do movimento, Bruno Torturra e Pablo Capilé, tentaram explicá-las no Roda Viva do último dia 5. Durante grande parte do programa, os entrevistadores se concentraram em como o movimento se financia, e não faltaram sugestões de que os Ninjas seriam, na verdade, aparelhados pelo PT. Não entrarei aqui na questão política: quero debater o que eles estão trazendo para o jornalismo.

Assistindo à entrevista, concluí que a o movimento está infelizmente muito longe de um caminho viável. Suas propostas me lembraram de visões românticas e às vezes inocentes típicas das start-ups de tecnologia que naufragam com uma boa ideia nas mãos.

A principal falha na proposta dos Ninjas é depositar pesadamente no público a responsabilidade pelo financiamento da produção jornalística. Curiosamente isso não é diferente do que propõem os donos dos grandes veículos, principalmente da mídia impressa, que vem sofrendo de maneira mais dramática com o naufrágio do seu modelo de negócios.

Claro que o ideal é que qualquer jornalismo seja financiado pelo seu próprio público, quanto mais, melhor. Assim garante-se um dos valores mais caros da atividade, que é a sua independência. Mas, como disse acima, calcar seu modelo de negócios nisso demonstra que os Ninjas terão que mudar de ideia rapidamente se não quiserem desaparecer. E o próprio Bruno admitiu no programa que só pensará em vender anúncios a empresas, quando “o dinheiro público, DO público (ops, a falta inicial dessa contração foi um ato falho?) fracassar”. Oras, é um modelo que então já prevê o seu fracasso?

Essa tentativa de convencer o público de canais online a pagar pelo conteúdo já vem sendo tentado de diferentes maneiras há uma década por gente muito boa (dos pontos de vista tecnológico e jornalístico), sem sucesso. As pessoas estão dispostas a pagar sim pelo que consomem, mas está cada vez mais difícil convencer alguém a pagar pelo conteúdo em si: elas pagam quando ele faz parte de algo maior, de um serviço que transcende o jornalismo na maneira como ele se insere em suas vidas.

A incapacidade de entender isso é o que está matando, por exemplo, os jornalões, que veem seus assinantes e anunciantes diminuindo continuamente. Mas eles ainda têm algo nas mãos, pois partiram de um grande volume construído historicamente. No caso dos Ninjas, que estão partindo do zero, correm o risco de fazer um “microjornalismo” para 300 ou 400 pessoas, como os shows dos artistas incubados pelo Fora do Eixo, movimento irmão do Mídia Ninja focado em atividade artísticas. Nesse caso, perdem outro valor importante para o jornalismo, que é a representatividade social. Não se faz jornalismo apenas para seus colegas, para quem pensa igual a você ou para quem já conhece a história: jornalismo deve ser feito de maneira ampla, para a sociedade.

Jornalista cidadão

Os Ninjas se apoiam em uma meia verdade, quando dizem que é possível fazer jornalismo com baixos custos. A parte em que isso é verdade acontece justamente em coberturas como as realizadas nas manifestações de junho, que tornaram o grupo famoso. Nesse caso, basta sem a pessoa certa, no lugar e na hora certos. Com celulares, é possível sim fazer esse tipo de bom jornalismo a um custo baixo.

O melhor exemplo disso para mim não é de hoje e nem é dos Ninjas. Ele aconteceu em 26 de dezembro de 2004, após o tsunami que devastou o sudeste asiático, principalmente a Indonésia. Naquele desastre, alguns sobreviventes realizaram uma grande cobertura jornalística usando seus celulares (que eram muito mais primitivos que os atuais), praticamente a única coisa que continuou funcionando após a tragédia. A grande mídia demorou incrivelmente um par de dias para perceber o que havia acontecido naquele lado do mundo, desembarcando atrasada (e em massa) para sua cobertura, como a cavalaria chegando e tocando sua corneta, depois que pioneiros e índios já tivessem se massacrado.

E justamente aí reside a metade falsa da premissa do movimento. Sim, tanto os Ninjas nas manifestações de junho, quanto os sobreviventes do tsunami realizaram uma cobertura de qualidade a custos baixos. Mas e se ninguém tivesse feito isso naquele 2004 indonésio e restasse à grande mídia executar essa tarefa, ainda que tardiamente? Custa muito dinheiro mobilizar rapidamente uma grande equipe e enviá-la ao outro lado do mundo para fazer jornalismo. E isso acabou acontecendo em um segundo momento, de maneira complementar ao trabalho inicial dos sobreviventes.

Vale ressaltar outra diferença entre o Mídia Ninja e iniciativas típicas de jornalismo cidadão, como no caso do tsunami de 2004. Os Ninjas querer fazer parte da noticia, ao invés de noticiá-la. Isso ficou claro quando seus líderes disseram no Roda Viva que filmaram detalhes das manifestações e fizeram entrevistas específicas para deliberadamente proteger os manifestantes.

Não há nada de errado em se fazer isso, desde que seja como manifestante, e não como jornalista. Nesse segundo caso, deve-se fazer a sua cobertura para apurar os fatos, e eles sempre têm muitos lados. Por mais que odeiem os policiais que estavam descendo a borracha nas pessoas, eles devem ser ouvidos para que deem a sua versão dos acontecimentos. Assim como os manifestantes pacíficos, os black blocs, os políticos, o cidadão que estava lá só de passagem. Todos eles têm sua versão dos mesmos fatos, e devem ser ouvidos. Sem isso, o público, mal informado, se afasta da verdade, e o trabalho vira antijornalismo.

A contribuição dos Ninjas

Então o Mídia Ninja não inova em nada? Penso que não. Mas eles trouxeram sim uma importante contribuição. Não por terem inventado algo novo, mas por terem resgatado um princípio importantíssimo do jornalismo que anda meio esquecido nas grandes redações e que a nova geração de colegas pouco viu: uma reportagem destemida, que, para apurar uma notícia, vai até o fim, pensa de maneira criativa e até impertinente, e que não se deixa intimidar.

Incentivados por uma política de redução de custos que prefere que os jornalistas saiam pouco das Redações, os grandes veículos se transformaram em espaços de denuncismo, insuflados por fontes com interesses nem sempre nobres ou confiáveis. E essa prática condenável divide o espaço com um jornalismo chapa-branca, com pautas políticas ou empresariais sonolentas, com uma mesmice chata e acomodada. Até a opinião dos veículos, fora de assuntos políticos, parece anêmica.

A chamada “grande imprensa” deveria prestar atenção a essa turma que “vai para cima” apenas com um celular na mão. Não para desprezar os seus erros, mas para resgatar com eles o que perderam ao longo dos anos. E –sim– se reinventar.

Nesse caso, um novo, sério e robusto jornalismo poderia surgir das cinzas do cruzamento dos veículos centenários e dessa nova turma. Se isso acontecer, o Mídia Ninja terá dado a sua contribuição à sociedade, afinal.

O que Jeff Bezos quer com The Washington Post

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Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, que acaba de comprar The Washington Post - Foto: Steve Jurvetson/CC

Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, que acaba de comprar The Washington Post

A semana começou com uma notícia que sacudiu a indústria de mídia. Na segunda, The Washington Post, um dos mais respeitados jornais do mundo, anunciou sua venda (juntamente com toda a unidade de jornais da empresa) para Jeff Bezos, criador e CEO da Amazon. Mas, desde então, apesar de inúmeras reportagens e artigos sobre a transação, ninguém ainda respondeu categoricamente a pergunta que muitos estão fazendo: afinal, o que Jeff Bezos quer com The Washington Post?

O magnata da Internet, que ajudou a cunhar o conceito de e-commerce começando a Amazon em uma garagem em 1994, pagou US$ 250 milhões pelo Post, uma relativa pechincha, cujo valor representa cerca de 1% de sua fortuna pessoal. É importante observar que a aquisição foi feita com seu dinheiro pessoal: não foi a Amazon que fez a compra.

Apesar de Bezos afirmar que não pretende fazer mudanças no jornal, que não ocorrerão demissões e que toda a diretoria editorial será mantida, seus novos funcionários ficaram chocados com a novidade. Até uma carta aberta, assinada pelo colunista Gene Weingarten, foi publicada. O empresário também já deixou claro que não mudará de Seattle, de onde controla a Amazon, para a capital dos EUA.

No meio desse cenário de palpitações, uma coisa se pode afirmar com boa dose de segurança: o que Bezos realmente comprou não foi um jornal, especialmente por ser um jornal que, a despeito de sua qualidade e importância social e histórica, apresenta seus números todos apontando para baixo. O que ele realmente adquiriu foi uma marca robusta e um grupo de pessoas talentosas que sabem como fazer bom jornalismo. E isso não tem nada a ver com o papel que ainda distribui grande parte desse conteúdo.

Apesar de US$ 250 milhões ser muito dinheiro, se tudo der errado, Bezos não ficará pobre. O que quero dizer é que seu investimento pessoal representa um risco baixo para ele. Mas não se deve pensar que esse movimento foi uma excentricidade ou aventura do empresário. Bezos é um reconhecido visionário e um astuto homem de negócios. Não iria simplesmente torrar 1% da sua grana. Ele –claro– sabe de algo que nenhum de nós sabe, nem mesmo a turma do The Washington Post: a resposta à pergunta do primeiro parágrafo.

O conteúdo não é mais o rei

Até há poucos anos, os diretores de redação das diferentes mídias, inclusive da digital, bradavam que “o conteúdo é o rei!” Honestamente quem inventou essa história deve ter sido um colega jornalista. Parecia fazer sentido então, mas, se fosse verdade, a mídia impressa, onde provavelmente mais se produz bom jornalismo, não estaria ladeira abaixo.

É óbvio que conteúdo de qualidade é e sempre será importante. As pessoas sabem disso, e consomem mais conteúdo que nunca. Porém ele sozinho não sustenta mais as empresas. O “modelo de negócios”, termo indissociável quando se discute a crise da mídia, é o que mudou. E quem está ganhando dinheiro hoje com conteúdo (próprio ou dos outros) é quem conseguiu enxergar e surfar nessa mudança. E adivinhem só: são principalmente as empresas de tecnologia, não as de mídia. Apesar de as últimas alimentarem as primeiras com seu conteúdo.

Aí entra Bezos. Como novo dono do The Washington Post, ele poderá aproveitar o excelente conteúdo que sua nova equipe é capaz de produzir de maneiras que os Graham, os donos do Post pelos últimos 80 anos, jamais pensaram (ou ousaram). Apenas para ficar na mais óbvia, não me espantaria se, em breve, proprietários de Kindles, os e-readers e tablets que são a joia da coroa da Amazon, passassem a ter acesso irrestrito aos produtos do Post, enquanto o resto do mundo teria que pagar algo por isso. É um belo apelo de vendas para o Kindle, especialmente para o consumidor americano.

Nesse caso, The Washington Post poderia trocar a tendência dos jornais fadados ao desaparecimento pela tendência das empresas de mídia que são financiadas por negócios muito maiores e mais robustos que precisam de conteúdo, ainda que isso não seja o seu core business.

Nesse caso, quem diria, Bezos poderia salvar o jornalão por não pensar como os jornalistas. Não os da Redação, mas os da administração. Acompanharei detalhadamente o desenrolar dessa compra e torcerei pelo sucesso da operação. Não apenas por isso poder jogar um pouco de luz para uma importante indústria que está se debatendo para sobreviver, mas porque me entristece muito a morte de um jornal.

Quem vem depois?

Por que os próprios publishers não pensaram –eles próprios– em algo assim? Claro que é mais fácil quando se é dono da Amazon e do Kindle, e se compra um dos bastiões do jornalismo mundial como a maioria de nós compra uma televisão.

O fato é que eles poderiam –e ainda podem– aproveitar várias oportunidades que estão quicando na área. Mas me atrevo a dizer que lhes falta ousadia e também humildade.

Muita gente acha que The New York Times será o próximo a trilhar esse caminho do The Washington Post. A turma da capital mesmo escreveu sobre isso.

E no Brasil, alguém vai comprar os jornalões e reinventá-los antes que eles desapareçam? Até 2010, parecia que a crise dessa indústria ainda não tinha chegado aqui com força.  Alguém duvida hoje que essa água já está no pescoço?

A quem (ou para que) serve a mídia?

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Veículo do SBT é vandalizado ao lado da prefeitura de São Paulo, durante as manifestações do dia 17 de junho de 2013

Veículo do SBT é vandalizado ao lado da prefeitura de São Paulo, durante as manifestações do dia 17 de junho de 2013

Nas manifestações que vêm sacudindo o país nos últimos dias, entre suas diferentes bandeiras, demandas e aspirações, uma delas me chamou a atenção particularmente: fora imprensa! Poderíamos pensar que se trata de mais uma reação a tudo que representa um poder instituído, e a mídia certamente se enquadra nisso. Porém, analisando melhor, o buraco é mais embaixo: a população não se sente mais representada pela imprensa. E isso me disparou um alerta.

Nas minhas andanças por esse mundão, pude comprovar a máxima de que uma sociedade é tão mais evoluída quanto mais forte e independente é sua imprensa. Só assim, a sociedade pode ter uma contraposição às ideias hegemônicas difundidas por qualquer governo e ver os fatos de diferentes ângulos. Não é a toa que governos com vocação autoritária tentam cercear ou controlar a imprensa, valendo-se de meios legais ou não, exatamente como temos visto na América Latina na última década.

No Brasil, os veículos que se consolidaram como “grande imprensa” não tiveram origem como representantes de suas comunidades. Os mais antigos eram ligados a oligarquias, como o Estadão, ou até mesmo defendiam o recém-deposto Império, como o Jornal do Brasil. A Folha até que surgiu com a intenção de informar a crescente massa urbana de São Paulo, mas a maioria, nas diferentes mídias, foram apenas títulos lançados com objetivos empresariais (o que não é um problema, que fique claro).

Mas isso é muito diferente do nascimento da mídia nos EUA, intimamente ligada à comunidade onde estava cada veículo. Basta pensar nos estabelecimentos típicos de qualquer pequena cidade americana no século 19: o xerife, o saloon, o ferreiro, o hotel e o jornal. A função deste último era informar sua comunidade sobre o que acontecia nela mesmo e no resto do mundo. E o mais interessante é que ele era mantido pela própria sociedade que representava.

Apesar dessa diferença, esses grandes veículos brasileiros sempre trabalharam como agentes das liberdades e defensores do país (diferentemente de governos), trabalhando bem para seu desenvolvimento. Mas, de uns 20 anos para cá, algo aconteceu e os interesses empresariais próprios começaram a falar muito alto, interferindo de uma maneira cada vez mais decisiva –e escancarada– na linha editorial, principalmente nas revistas semanais de informação. Tais interferências começaram a afugentar leitores e abriram espaço para movimentos politizados de “resistência”, como os que passaram a classificar os grandes veículos como integrantes do “PIG” (“Partido da Imprensa Golpista”).

Até então, esse descontentamento com a mídia não aparecia com tanta força: na maioria das vezes, essas discussões acabavam restritas aos próprios jornalistas, não chegando às massas. Mas aparentemente isso mudou, o que é muito preocupante, pois, se uma imprensa livre e forte é essencial para uma sociedade melhor, como grupos que estão indo às ruas com esse objetivo podem pedir o “fim” da mídia?

O pior de tudo isso é que os responsáveis por esse sentimento são os próprios veículos, pela desvirtuação descrita acima. A sociedade está deixando de se sentir representada por eles, e seus jornalistas estão perdendo a credibilidade. Basta ver o que aconteceu com Caco Barcellos, um expoente do jornalismo nacional, que foi expulso do Largo da Batata no dia 17 e levou um soco na Praça da Sé dois dias depois. Por mais que o “alvo” talvez fosse a Rede Globo, o profissional foi a vítima. E, para um jornalista, tão ruim quanto uma agressão física, é a perda de sua credibilidade, seu bem mais valioso.

Apesar de toda essa animosidade, os movimentos têm sido palco de excelentes reportagens, exemplos do melhor do jornalismo, produzidas por profissionais ou pessoas que simplesmente registravam brilhantemente o que estavam presenciando. É o tal jornalismo-cidadão, incompreendido (e combatido) pelos grandes veículos. Essa resistência, aliás, ajuda a explicar o distanciamento das redações de seu público. E isso foi muito bem descrito em artigo de Otavio Frias de Oliveira, diretor de redação e um dos donos da Folha, escrito para justificar o lançamento de uma “nova Folha”, o “jornal do futuro”, no dia 22 de maio de 2010. Segundo ele, “os blogs e o jornalismo cidadão parecem oportunidades promissoras, mas quase sempre seu alcance fica limitado, seja em termos de recursos ou abrangência, seja porque expressam visões demasiado particulares e engajadas.” E conclui: “para piorar, o jornalismo que emerge está eivado de entretenimento, culto à celebridade, inconsequência.”

Não bastasse esses veículos estarem morrendo pela sua absoluta incompetência em criar um novo produto e modelo de negócio adequados à nova maneira como as pessoas se relacionam (ou seja, não apenas consomem, mas também produzem) com conteúdos jornalísticos,  eles se afundam ainda mais na lama por entender cada vez menos as mudanças editorias que lhe são impostas. Não estou defendendo de forma alguma a “inconsequência”, falta de apuração, pluralidade de informações. Mas não há mais espaço para o jornalismo palaciano, previsível, desengajado e organizado por interesses comerciais, que a grande imprensa vem produzindo.

Precisamos de uma imprensa forte e livre (inclusive para resistir a pressões dos poderosos). Mas ela precisa lembrar a quem ela serve.

Mais um round entre a mídia míope e o futuro

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Logos da Rede Globo em 1965 e hoje

Logos da Rede Globo em 1965 e hoje: o grupo está perdendo a capacidade de olhar para o futuro?

Os profissionais dos diferentes veículos das Organizações Globo estão proibidos de colocar links nas fan pages dos próprios veículos no Facebook. Continuam fazendo chamadas, mas nada de link, apenas frases toscas como “Leia a reportagem no site de ÉPOCA”. O G1 radicalizou: usa uma imagem padrão agrupando indiscriminadamente seus títulos, três a três, sem qualquer outra preocupação: uma “antichamada”.

Chega a ser patético o apelo para que os usuários entrem no site do veículo e saia procurando pelo conteúdo que quer ler, uma tentativa medíocre e desesperada de aumentar a audiência valendo-se de um desserviço ao próprio usuário. A iniciativa só não é mais ridícula que a falta de raciocínio que levou a ela: para os executivos da Globo, o Facebook “rouba” audiência de seus portais, assim como agregadores ou leitores de RSS. Segundo essa visão com miopia beirando a cegueira, usuários estariam se “satisfazendo” com as chamadas criadas pelos próprios jornalistas e as três primeiras linhas do texto que o Facebook automaticamente replica na chamada.

Se isso fosse verdade, tiraria algumas conclusões. A primeira seria que o conteúdo de todos os produtos da Globo seria uma porcaria tão rasteira, que ninguém se interessaria em ler nada além daquelas poucas palavras na chamada. Também poderia concluir que os responsáveis pelas fan pages seriam tão incompetentes que nada que eles produzissem convenceria os usuários a visitar suas páginas.

Felizmente não é nada disso: os conteúdos da Globo normalmente são bons, e os únicos incompetentes nessa história são os que propuseram essa iniciativa lamentável. Esse é apenas o mais recente capítulo da briga entre a mídia tradicional, que, apesar de ainda ser capaz de produzir bom jornalismo, tem uma visão de negócios cada vez mais decadente. Diante de sua constatação de ser incapaz de controlar o futuro, tente impedir sua chegada, parando de dar corda no próprio relógio.

Por que o Facebook incomoda tanto esses arautos do ostracismo? Porque ele, assim como o Google, agregadores e outros produtos e serviços que ditam as tendências de distribuir conteúdo de uma maneira inteligente e pensando no usuário, diminui ainda mais a relevância das home pages de portais e sites desses veículos. Até havia alguns anos, quando eles ainda detinham o poder sobre a produção e distribuição do conteúdo jornalístico, a melhor maneira de se informar era entrando nessas home pages. Com elas, as empresas promoviam o conteúdo que consideravam pertinentes e dirigiam os usuários dentro de sua estrutura de navegação. De quebra, geravam dezenas de milhões de page views nesse processo, o que significa dinheiro extra entrando no caixa. E até hoje elas ainda representam uma porcentagem muito considerável no total de page views desses sites. Portanto, para eles, qualquer coisa que ameace essa vaca leiteira deve ser combatido.

Mas o mundo mudou. Desde que “o Facebook se tornou o jornal e seus amigos os editores”, as home pages deixaram de ser importantes. Para as pessoas, é muito mais interessante ler o que seus amigos estão promovendo que as escolhas feitas pelos editores. Por isso, atitudes retrógradas como essa adotada pela Globo só demonstram como os executivos das empresas de mídia estão descolados do mundo que seus veículos cobrem. Não reverterão em nada a linha descendente de sua audiência e ainda desestimularão as pessoas a dar links para seus conteúdos.

Ao invés de continuar combatendo o futuro, os executivos das empresas de mídia precisam aprender a tirar proveito do que ele tem a oferecer, incluindo aí o Facebook, o Google, os agregadores e tantas outras coisas que eles insistem em demonizar. Não é “dar de graça” seu trabalho, e sim apresentá-lo da maneira que seus clientes querem, para assim continuarem sendo seus clientes.

Ah, normalmente eu daria links para fan pages de veículos da Globo. Mas não farei isso.

A nova pressa do jornalismo

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Duas versão da primeira página do fictício The Sun - Imagens: reprodução

De “GOTCHA!” a “They Didn’t Do It”: a mesma notícia, a mesma foto, o mesmo veículo, porém com mais ética e menos pressa

Vivemos um momento de riqueza e pobreza simultâneas no jornalismo. Riqueza no volume de notícias, e pobreza na qualidade da maioria do material publicado. Esse paradoxo pode ser, pelo menos em parte, explicado pela pressa com que os colegas trabalham hoje.

Nas faculdades de jornalismo, a pressa é apresentada como um ingrediente do ofício. A notícia não pode esperar e o furo é quase uma medalha para o jornalista.  As empresas de comunicação adoram isso, pois o furo vende mais. E, desde que o jornalismo aprendeu a usar os recursos digitais cada vez mais abundantes, onipresentes e poderosos, essa pressa se aproxima da instantaneidade. Pois é justamente nesse cenário que o profissional precisa aprender a ter menos pressa.

Quando o furo se torna uma meta histérica, corre-se um enorme risco de se sacrificar a apuração, a confiabilidade da reportagem. Esquece-se que a melhor notícia não é a dada primeiro, mas a publicada com mais precisão. Em muitas vezes, a verdade depende do ponto de vista de cada um, e não raro é surpreendente. Por isso, o jornalista deve ouvir todos os lados possíveis do que está apurando, para ter subsídios para uma análise crítica e ampla dos fatos. Mas como fazer isso estando com pressa de soltar a notícia?

O fechamento da edição é um mecanismo interessante que limita o trabalho do jornalista com um deadline previamente conhecido. Deve-se fazer o melhor trabalho possível até aquele horário. De certa forma, organiza os recursos disponíveis para se conseguir uma boa reportagem.

Mas o jornalismo digital aboliu o fechamento. Apura-se e publica-se. Se for necessário, depois se edita o que já foi publicado, se amplia e –o pior– se corrige, atropelando a ética. Esquece-se que a notícia publicada incorretamente pode ter efeitos desastrosos para quem é a notícia, e que correções posteriores normalmente não reparam o dano causado. Portanto, é uma falácia que o jornalismo digital não tem “erramos”, que a última versão da reportagem é a que vale, que se deve publicar primeiro e corrigir depois. Isso é antijornalismo e a pressa nunca justificou sua prática, por mais que a usem de muleta.

E sejamos francos: esse tipo de desvio moral não é invenção do jornalismo digital, apesar de ele oferecer “ferramentas” e “motivos” para que ele se intensifique. Isso chegou até a ser brilhantemente retratado no filme O Jornal, de Ron Howard, com Micheal Keaton e Glenn Close (trailer abaixo).

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=4NeHWLZbs0g]

 

Lançado em 1994 (portanto antes do surgimento do jornalismo digital), o filme mostra uma maneira de se fazer jornalismo que esta desaparecendo. O roteiro demonstra como é possível ser ético mesmo em um jornal sensacionalista de Nova York, que falas como “deus nos livre de uma manchete sem ponto de exclamação” podem coexistir com “jamais publicamos uma história errada”. Pois a primeira descreve a forma, e a segunda descreve a essência do bom jornalismo.

Assisti a esse filme no cinema, quando ainda estava nos primeiros anos da minha carreira. Nunca mais esqueci o que aprendi com ele. Ele deveria ser obrigatório no conteúdo dos cursos de Jornalismo. Pois a pressa é mesmo ingrediente do nosso ofício, mas não é para ela que trabalhamos.

Jogador, gostaria de lhe apresentar George Washington

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Cenas de O Patriota e de Assassin's Creed III

Que melhor maneira de estudar sobre a Revolução Americana, que assistindo a um filme como O Patriota, ou -melhor ainda- atuando diretamente nos seus eventos históricos, como em Assassin’s Creed III?

Há alguns dias, tive o prazer de conhecer “pessoalmente” George Washington, quando frustrei uma tentativa de assassiná-lo. Também andei pelas ruas e conversei com os habitantes de Boston e de Nova York do século 18, sentindo o calor de uma população que crescentemente se revoltava contra o domínio britânico sobre o que hoje são os Estados Unidos. Sim, eu estava lá e pude entender, sentir e participar da cadeia de eventos que culminou na Revolução Americana.

Isso tudo aconteceu, mas dentro de Assassin’s Creed III. Para quem não conhece essa séria de games da Ubisoft, seu roteiro se constroi sobre um personagem que consegue reviver as memórias de seus antepassados com o auxílio da tecnologia. Dessa forma, participa de eventos históricos, como as Cruzadas, a Renascimento e a própria Guerra da Independência dos Estados Unidos, como se realmente estivesse naquela época e local. E o jogador é convidado a interagir com esse mundo passado, garantindo que tudo aconteça como deve ser.

Além da impressionante qualidade técnica e de uma cuidadosa recriação de fatos e de ambientes, o que mais me chamou atenção no game foi a possibilidade de se “estudar” história (no caso, americana) com ele. Do que me lembro dos meus tempos de escola, o material didático que tinha disponível sobre o assunto se resumia a uns poucos parágrafos sobre a Festa do Chá de Boston e a própria Declaração da Independência. Agora pude participar ativamente não apenas desses dois eventos, como também de vários outros que os antecederam e sucederam e que, juntos, explicam e justificam a independência dos EUA.

Assassin’s Creed não é o primeiro jogo que coloca o jogador como protagonista de eventos históricos, favorecendo o aprendizado tangencial, já discutido neste blog. Mas é a bola da vez, com rumores de que pode até ser transformado em um longa-metragem hollywoodiano.

É uma maneira inovadora e muito eficiente de se ensinar um conteúdo acadêmico, que serve de fio condutor em um game cuja diversão a princípio não tem nenhum interesse educacional. Mais eficiente até que assistir a um filme como O Patriota, com Mel Gibson interpretando um fazendeiro que se vê forçado a participar da Revolução Americana. Que por sua vez é muito mais eficiente que os parágrafos do livro didático acima citado, pois traz muito mais informação, contexto e –claro– diversão associada ao aprendizado.

A vantagem do game é que o estudante-jogador abandona a posição passiva e participa ativamente dos fatos, algo que nem os filmes podem oferecer. No melhor estilo do “aprender fazendo”, a informação é, mais que decorada, assimilada e entendida por se ter participado dela, ainda que virtualmente.

Sei que é difícil sugerir que um game como esse seja adotado como material didático, pois o custo é elevado e a ação é extremamente violenta, do começo ao fim, como se pode imaginar pelo título. Mas o que proponho aqui é o uso criativo de ferramentas inusitadas e que fazem parte do cotidiano dos alunos para se atingir fins pedagógicos.

Há muito material para isso para história universal e ciências naturais, por exemplo. Infelizmente não há muitos games que retratem o Brasil e sua história, mas há bastante material assim na teledramaturgia, especialmente da Rede Globo. Fica o desafio às equipes pedagógicas de garimpar isso de acordo com seus planos de aula.

As editoras de material didático deveriam também investir nisso, mas elas têm uma enorme dificuldade de ousar nesse sentido. A começar porque a produção de um material como esse é caríssima, e dificilmente se pagaria vendendo às escolas que topassem adotá-lo. Talvez devessem então começar a pensar sob a ótica do aprendizado tangencial, e produzir games para um público muito além do escolar, ao invés de continuar apenas com suas iniciativas bastante… “limitadas” de conteúdo didático digital.

Ou daqui a pouco verão a indústria de games ganhando as licitações do MEC.

A hora e a força das autopublicações

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Foto: Maximilian Schönherr

A combinação de sistemas como o iBooks Author e o Kindle Direct Publishing –que permitem que qualquer pessoa edite e publique sozinho seus e-books– com a chegada oficial no Brasil das grandes livrarias virtuais –no dia 6 de dezembro, a Amazon e o Google Play se juntaram ao iTunes e ao Kobo– pode fazer de 2013 um ano marcante para quem quiser lançar suas obras dispensando editoras, os “autopublicadores”. Mas há algumas pedras no caminho.

Até havia bem pouco tempo, publicar um livro era algo que exigia o apadrinhamento de uma editora ou –na imensa maioria dos casos– o pagamento antecipado de uma tiragem mínima, normalmente 500 exemplares. No primeiro caso, a editora cuidava de tudo, mas ficava com a parte do leão, restando ao autor royalties diminutos. No outro, o investimento na composição e impressão da obra não era pequeno para quem estava começando. Além disso, com os livros nas mãos, cabia ao autor a tarefa de vendê-los, o que muitas vezes terminava em um grande encalhe de exemplares –e consequente prejuízo.

Há poucos anos, surgiram no Brasil empresas especializadas em impressão sob demanda: o exemplar do livro só é impresso depois de ser vendido. Dessa forma, elimina-se o problema do encalhe, mas, em contrapartida, a impressão de cada exemplar fica muito mais cara.

Agora, editar e publicar sua obra são quase tão fáceis quanto escrever o seu texto em um processador eletrônico. E os novos sistemas ainda permitem a inclusão de recursos interativos e de multimídia poderosos, fazendo com que as obras compostas pelos próprios autores não fiquem devendo nada às criadas pelas grandes editoras.

Restava ainda solucionar a questão da distribuição, que normalmente restringia as vendas dos autores-empreendedores a poucas dezenas de exemplares. Grandes livrarias não dão destaque a autores desconhecidos –isso quando sequer reservam algum espaço em suas prateleiras a eles. A Amazon e afins resolvem esse problema com sua capacidade virtualmente infinita de comercializar a quantidade de obras que quiser.

E aí o conceito de “cauda longa”, onde qualquer título, por mais específico que seja, encontra o seu público, ganha força. Uma prova disso aconteceu na própria Amazon brasileira nos primeiros dias de sua operação: durante dois dias, o livro mais vendido foi “Organizando a Vida com o Evernote”, do desconhecido Vladimir Campos. Ok, pode-se argumentar com razão que isso resultou de peculiaridades do início da operação. Mas Campos jamais repetiria o sucesso –em dois meses, vendeu quase 1.500 e-books a R$ 16– na abertura de uma nova loja física de uma grande livraria. Possivelmente não venderia nenhum exemplar no mesmo período.

Outro exemplo interessante é “Frankie for Kids”, uma versão (em português e inglês) de Frankenstein encapsulada dentro de um aplicativo com ilustrações e interatividade para crianças. Primeira iniciativa no mercado de livros do casal de jornalistas Fernando Tangi e Samira Almeida, chegou a encabeçar a lista de mais vendidos da categoria no iTunes logo após seu lançamento.

Por tudo isso, há uma grande chance de experimentarmos no Brasil algo que já se nota em alguns países há alguns anos: a força dos autopublicadores. Erika Leonard James, autora da coqueluche do momento, a trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”, começou assim. Os três títulos da sequência viraram um sucesso primeiramente como e-books e impressão sob demanda (as versões digitais inclusive garantiam a discrição de suas leitoras na hora da compra e da leitura, importante para muitas delas, pela natureza erótica da obra). Apenas no ano seguinte, uma grande editora comprou os direitos e relançou a obra (já um sucesso), para inundar onipresentemente as vitrines das livrarias físicas.

Turma do contra

A combinação dos sistemas de autoria e as livrarias virtuais democratizam a leitura e facilitam o surgimento de novos autores, que podem lançar obras cobrando menos e ganhando mais, por eliminar custos típicos das obras impressas e das editoras. Isso é uma excelente notícia, especialmente em um país em que as pessoas leem pouco, em parte pelos altos preços dos livros.

Mas nem todo mundo está feliz. Os primeiros a torcer o nariz são as próprias editoras. Há quase um ano, repercuti uma carta aberta do publisher Arnaldo Saraiva, em que ele afirmou categoricamente que as editoras de livros (no caso, didáticos) não têm mais nada a oferecer a seus autores. As reações ao post (e à carta) foram mistas: os leitores concordaram; as editoras estrilaram.

Outros que naturalmente têm a perder são as livrarias. Se os leitores começarem a comprar e-books (ou mesmo livros impressos) das livrarias virtuais, seja pela comodidade, seja pelos preços mais baixos, como fica sua situação?

As editoras brasileiras conseguiram amarrar em contrato que os e-books não sejam vendidos por menos que 70% dos equivalentes em papel, apesar de os custos serem muitíssimo mais baixos nas versões digitais, o que permitiria descontos ainda maiores. Isso já é bastante questionável. Mas o pior mesmo tem sido a reação das livrarias.

No início de dezembro, a ANL (Associação Nacional de Livrarias) divulgou uma carta aberta com quatro propostas para proteger seus afiliados. Além do teto de 30% de desconto para as versões digitais dos livros, Ednilson Xavier, presidente da ANL, que assinou a carta, também quer que esse desconto seja uniforme para todos os canais de venda, duas práticas totalmente contrárias aos interesses do consumidor. Pior que isso: outro ponto propõe que, caso as editoras ou as distribuidoras vendam diretamente ao consumidor, que esse desconto seja de ridículos 5%.

O último ponto é o mais grotesco de todos: a ANL sugere que livros sejam lançados na versão digital apenas depois de 120 dias da versão em papel. Diante de tudo que foi exposto acima, isso é evidentemente uma tentativa de impedir o futuro (na verdade, o presente) para preservar um negócio à custa dos consumidores e dos autores.

Xavier evoca as regras do mercado cinematográfico, em que um filme sai primeiro nos cinemas, para depois seguir a mídias domésticas e só então à TV (fechada e depois aberta). Quanto a esse ponto, vale ressaltar que, na época do surgimento do VHS, quando muitos decretaram a breve morte das salas de cinema, elas eram desconfortáveis, com imagem e som ruins. Diante da ameaça que lhes foi apresentada, os cinemas passaram por uma incrível transformação de infraestrutura e de tecnologia, criando uma nova experiência com a qual nem mesmo os atuais discos blu-ray podem se equiparar. Reinventaram seu negócio e não apenas mantiveram sua relevância, como a ampliaram. E isso foi mais importante que qualquer regulamentação.

Propostas como essa me fazem lembrar da famigerada “Lei da Informática”, que vigorou no Brasil de 1984 a 1992. Em resumo, ela impediu a entrada de fabricantes internacionais de computadores no país, em nome de fortalecer a então recém-criada indústria brasileira de informática. Na prática, o que se viu foi o consumidor brasileiro sendo obrigado a comprar equipamentos nacionais obsoletos e a preços abusivos (ou recorrendo ao contrabando), sem que a indústria se preparasse para a competição internacional. De fato, após o fim da reserva de mercado, o que se viu foram os fabricantes brasileiros abandonando seus projetos para se transformarem em revendas ou montadores dos mesmos produtos estrangeiros até então proibidos.

“Libertas Quae Sera Tamen”

Sou um liberal e, dessa forma, condeno intromissões governamentais que, por mais que ajudem um segmento econômico, sejam contrárias ao interesse da maioria. Isso é típico de países que querem até impedir, por força de lei, que sua língua sofra influência de outros idiomas, um disparate em tempos de Internet onipresente.

É importante ressaltar que os pequenos livreiros já sofrem uma concorrência brutal, quase desleal: a das redes de livrarias, que compram das editoras grandes lotes de obras a preços mais baixos. Para esse pessoal, o drama já está posto há muitos anos, e novas tecnologias e players pouco impactarão em suas vendas já espremidas.

As grandes livrarias –essas sim– podem sofrer mais, pois seus clientes são justamente os consumidores de tablets e de e-readers, e já estão comprando obras digitais. Porém, assim como eles forçaram as pequenas livrarias a se posicionar para sobreviver, devem agora transformar seu negócio para que ele não pereça. Fica o exemplo da Cultura, que já é a representante nacional do Kobo e transformou suas lojas em espaços de convivência cultural.

A única coisa que não se pode admitir ou tolerar são controles contra a liberdade, que impeçam a queda no preço das obras e o surgimento de novas E. L. James. Eles atrapalham que a sociedade evolua e progrida.

Empresas estão em crise; o jornalismo, não

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Foto: Notsureifsrs - Creative Commons

Manifestante do Movimento #15M, que rendeu o prêmio Ortega Y Gasset a Carmela Ríos pela sua cobertura pelo Twitter

Nesta quarta, o Grupo Estado anunciou a demissão de 20 pessoas do Estadão.com (uma semana depois de dispensar cerca de 100 profissionais da área administrativa) e a Ejesa fez o mesmo com número semelhante de jornalistas de O Dia e do Meia Hora. No mesmo dia, eu participava do MediaOn, seminário internacional que discute muito bem o futuro da profissão, focando no jornalismo online. E alguns colegas no evento me abordaram com a mesma pergunta: “o jornalismo está em crise?”

Para mim, está muito claro que o jornalismo NÃO está em crise. Na verdade, eu acredito que ele vive um momento notável, com um crescimento incrível no número de publicações e profissionais desafiando com sucesso modelos há muito consolidados. Além disso, nunca se consumiu tanta notícia, de diferentes assuntos e formas (algumas inexistentes há bem poucos anos).

Quem está em crise –e brava– são as empresas de comunicação tradicionais. São elas que vêm promovendo demissões em massa, como as citadas acima, e fechando títulos. E essa crise não está mais restrita ao hemisfério norte (no dia 31 de outubro, perdemos o outrora glorioso Jornal da Tarde) ou a veículos impressos (The Daily deixará de circular no dia 15 de dezembro).

Coincidentemente, o MediaOn deste ano contou com a participação da espanhola Carmela Ríos (@CarmelaRios), editora-geral do Terra Espanha. Durante sua participação, ela contou como passou do jornalismo televisivo para o digital quase que por acaso, quando, do meio de uma reportagem, tuitou de seu Blackberry que a CNN+, canal para o qual trabalhava, havia acabado de encerrar suas operações.

Mal sabia ela que, naquele momento, estava divulgando a notícia em primeiríssima mão, imediatamente após ela ser avisada do fato por seus colegas que estavam na Redação. Experimentou então um resultado imediato e explosivo vindo de seu tuíte, o que a fez encarar o jornalismo digital com outros olhos. Tanto que, alguns meses depois, fez toda a cobertura do Movimento #15M (foto acima) pelo Twitter, o que lhe conferiu o prêmio Ortega Y Gasset de jornalismo. Hoje faz jornalismo digital no Terra, onde diz ter se encontrado.

Esse debate foi um dos maiores ganhos desse MediaOn. De um lado, representantes de empresas de mídia tradicionais tentando sustentar, talvez inconscientemente, talvez vestindo um discurso institucional de seus empregadores, modelos anacrônicos que insistem em transpor para uma nova plataforma. De outro, jornalistas com experiências arrebatadoras, resultado de insights ou simplesmente de não conformismo com o que viviam antes.

Por isso, estou muito confiante com o futuro do jornalismo, por mais que esteja, por outro lado, bastante preocupado com o das empresas de comunicação tradicionais. Mas elas estão no lugar que elas –e apenas elas– se colocaram e de onde aparentemente não querem sair. Quanto aos colegas, o futuro também pode ser brilhante a eles: basta fazer jornalismo de uma maneira que não seja a das velhas empresas.

Por que The Daily não deu certo

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Já não espanta mais ninguém o anúncio de um jornal centenário deixar de circular: a crise da mídia impressa se arrasta há anos (ontem The New York Times confirmou que iniciará um pacote de demissão voluntária). Mas hoje foi noticiado o encerramento de um jornal totalmente digital, isso sim algo menos comum. E não é um veículo qualquer: trata-se do The Daily, a tentativa de Rupert Murdoch transpor o seu modelo de jornalismo para o mundo digital, cuja última edição circulará no dia 15 de dezembro.

O produto foi lançado com grande exposição em fevereiro de 2011, alardeado como “o primeiro jornal apenas para iPad”. A promessa era interessante: criar um jornal diário de cobertura nacional, leitura fácil, com bons recursos multimídia e conduzido por uma Redação de primeira linha, com mais de cem pessoas. Tudo por uma assinatura de US$ 0,99 por semana ou US$ 39,99 por ano. A parte técnica teve apoio da própria Apple e o investimento inicial foi de US$ 30 milhões. A expectativa era chegar a 500 mil assinantes em cinco anos.

Então por que o The Daily fechará suas portas antes de seu segundo aniversário?

A resposta é muito simples, e antecipei o motivo dois meses antes do lançamento do produto.

O problema é que The Daily tentou recriar, em uma plataforma extremamente inovadora, um produto e um modelo de negócios do século 19. Murdoch nunca escondeu sua aversão a produtos digitais moderninhos, que corroíam as margens de lucro dois jornais da sua News Corp. The Daily era sua aposta para demonstrar que podia perpetuar a fórmula nos tablets, que pareciam cair muito bem ao seu propósito.

Muita gente ficou de olho no experimento e até investiu nele. Afinal, se The Daily desse certo, ele poderia indicar um caminho de sobrevivência para uma combalida mídia impressa.

Mas não é isso que os usuários de tablets querem. The Daily poderia ser descrito como um jornal para quem não gostava de jornal em papel. Mas o que essas pessoas rejeitam não é o papel, e sim um produto que se atualiza apenas uma vez por dia, que exige assinatura de todo o seu conteúdo mesmo para quem quer consumir apenas algumas matérias, que não tira proveito das redes sociais, que sequer pode ser indexado pelo Google.

Ou seja, The Daily deu errado porque as pessoas rejeitam sua proposta, a de um jornal tradicional. Nesse caso, o tablet é apenas a mídia, assim como o papel. Portanto, podemos ironicamente explicar a crise dos jornais impressos com a derrocada do The Daily.

Some a isso a ascensão de produtos como agregadores, que são praticamente a negativa do modelo acima: um “veículo” continuamente atualizado, construído com conteúdos de diferentes fontes, organizado por assunto e pelas preferências do próprio usuário e de seus amigos, totalmente integrado a mídias sociais.

Curiosamente, os jornais combatem os agregadores, o Google Notícias, a blogosfera. Tudo em nome de perpetuar seu passado glorioso, rejeitado pelos novos públicos. Os jornais estão morrendo com seus velhos assinantes, literalmente. Não será transpor o passado para um tablet que mudará isso. Já que estavam prestando tanta atenção ao The Daily, deveriam aprender algo com ele afinal, ainda que na hora da morte.

Quando um jornal morre

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Poucas horas depois de meu post anterior, em que mencionei que o JT estava com dias contados, o Grupo Estado confirmou a história. Quase praguejei o que tinha escrito, como se isso tivesse algum efeito sobre o desfecho do Jornal da Tarde.

Hoje fui até a banca em comprei um exemplar da última edição do JT, a de número 15.409. Esperava encontrar algum especial sobre a história do jornal e sobre tudo o que ele já representou. Na verdade, se eu pudesse, eu teria feito a edição interia sobre o próprio JT. Uma maneira digna de encerrar uma trajetória de 46 anos, que marcou o jornalismo brasileiro com tiradas arrojadas e muita inovação, protagonizadas por um veículo que incentivou muita gente boa a abraçar essa profissão apaixonante e incompreensível para quem não faz parte dela.

Mas não encontrei muita coisa nessa linha: apenas uma bonita capa, acima reproduzida, à esquerda (exatamente com a manchete que eu tinha “chutado” que seria), um editorial hermético, que não explicou nada sobre os reais motivos que levaram o JT a seu fim, e quatro páginas de história.

Então eu percebi que o JT tinha mesmo morrido, depois de uma longa agonia. Morreu de cegueira, resultante da “catarata” que acomete as empresas de comunicação, mencionada por Caio Túlio Costa durante o seminário “Os desafios éticos e legais nas empresas jornalísticas”, promovido pela ANJ (Associação Nacional de Jornais), no dia 26 de novembro passado. E foi cego até o fim, até referido o editorial, que resistiu e não contou ao leitor o que realmente aconteceu com o JT (e continua acontecendo com os jornais). Pelo menos não disseram que foi “essa Internet” que acabou com ele. O que realmente encerrou essa história foi a incapacidade empresarial de aceitar as mudanças que a tecnologia e principalmente o público estão impondo aos produtos jornalísticos e seu modelo de negócio.

Negócios mal geridos fecham. Mas jornais não são apenas negócios, não são apenas tinta no papel: eles carregam valores que muitas vezes se misturam com os de sua cidade. Por isso, eles morrem.

Por isso, agora estou de luto. Triste não apenas pelo fim do JT, mas também porque não foram capazes de salvá-lo. Triste porque ainda não entenderam que a única maneira de impedir que outros veículos tenham o mesmo fim em breve é desconstruir esse negócio e esse produto e refazê-los de outra forma.

O jornalismo não vai acabar. Pelo contrário: ele está pujante e hoje há espaço e mecanismos para que ele floresça como nunca! Mas bom jornalismo não é só dinheiro e tecnologia. Antes de tudo, ele é feito por bons jornalistas, tanto na Redação quanto na área de negócios. Sim, os homens de negócios também devem ser “jornalistas”, com ou sem aspas, pois colocar “executivos tradicionais” da indústria de alimentos (ou de qualquer outra) nessas cadeiras talvez não funcione, pois eles podem não entender essa loucura que é fazer notícia.

Lamento a morte do JT. E lamento que, daqui a bem pouco tempo, ninguém mais se lembrará dele. Mas não poderia ser diferente: jornalismo é a arte de sintetizar o mundo em um momento. No momento seguinte, tudo é desfeito e refeito do zero novamente, e novamente.

Nós, jornalistas, costumamos dizer que a nossa obra-prima de hoje amanhã embrulhará peixe. Isso é uma verdade literal, pelo menos para a imensa maioria das páginas. Mas algumas do JT nunca terão esse destino, como suas capas inesquecíveis.

Uma delas, a de 6 de julho de 1982 (no alto, à direita), sobre a desclassificação do Brasil na Copa da Espanha, é a melhor de todas para mim. A foto de Reginaldo Manente, que captou um misto de choro contido e orgulho do pequeno torcedor, representou com maestria o sentimento de toda a nação pela derrota da seleção.

Hoje essa capa representa o que eu sinto pela morte do JT. Que ela não tenha sido em vão!

A eleição que os jornais quase não cobriram

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A home page do Estadão anunciando a vitória de Haddad e a página de resposta do Google sem link para qualquer jornal

Com 100% das urnas apuradas no segundo turno, o Estadão não cobriu a eleição para a prefeitura de São Paulo. Calma, não se trata de uma reação maluca diante da vitória de Fernando Haddad. É apenas a impressão que o internauta teve se procurou pelo assunto no Google, que responde por mais de 90% das buscas no Brasil. Sua resposta a “resultado eleição são paulo” traz um link para o Estadão apenas em sua segunda página, na 17ª posição, atrás de links para o UOL, a Agência Notícias, o R7, o Terra, o Globo.com, o G1, o Yahoo!, a Veja, e até um site oportunista totalmente baseado em SEO, chamado eleicoes2012.info. A primeira menção à Folha surge só na terceira página de respostas. Se o usuário então clicar na seção “notícias” do Google, os jornais desaparecem por completo.

Isso é um resultado péssimo, já que a maioria dos internautas se satisfaz com os resultados da primeira página de respostas do buscador. Graças a esse mau posicionamento, os sites dos jornais perdem milhões de page views ao final do mês, podendo chegar a 10% de sua audiência global, o que certamente tem um impacto muito considerável em sua receita publicitária online.

Esse posicionamento só não foi pior porque as eleições representam o assunto mais importante do ano para os jornais, superando até mesmo as Olimpíadas de Londres. E, ao contrário da provocação do primeiro parágrafo, eles, sim, cobriram  –e muito bem– o pleito municipal. Com isso, subiram na classificação do Google. Mas se o mesmo internauta procurasse por “último capítulo de avenida brasil”, outro tema que causou comoção nacional recentemente, o único grande jornal a aparecer nas cinco primeiras páginas de resposta é a Folha, e timidamente com um link na quarta delas, na 48ª posição, atrás de sites absolutamente inexpressivos.

Em um primeiro momento, pode parecer que o Google está falhando ao trazer as páginas mais relevantes para seus usuários. Mas os resultados são igualmente ruins no Bing e na busca do Yahoo!. E não se trata de uma falha nos algoritmos dos buscadores. Na verdade, os jornais foram praticamente banidos porque explicitamente pediram isso.

A discussão já dura uns oito anos, e começou com os jornais internacionais acusando o Google de estar roubando as reportagens desses veículos para construir seus serviços, especialmente o Google News (ou Notícias). Desde então, muita discussão vem acontecendo. No Brasil, desde o ano passado, a ANJ (Associação Nacional de Jornais) recomenda a seus 154 associados que deixem o serviço, o que vem sendo seguido por todos.

Para isso, basta incluir um simples comando em todas as páginas de seu site, para que o Google deixe de exibi-las no Google Notícias e na seção “notícias” do buscador. O problema é que essa ação também derruba a relevância dessas mesmas páginas na busca orgânica, o que é a causa da situação descrita nos primeiros parágrafos deste post.

Os jornais são os detentores legítimos de seu conteúdo, ninguém questiona isso, nem mesmo os buscadores. Dessa forma, eles têm o direito legítimo de “proteger” seus produtos de quem estiver fazendo uso indevido deles.

Já os buscadores sempre argumentaram que os seus serviços são construídos com base no “uso justo”, ou seja, usariam pequenos trechos do conteúdo dos veículos, retribuindo-lhes com links diretos e crédito. Dessa forma, ninguém deveria nada a ninguém.

Os dois lados têm, portanto, argumentos defensáveis. Mas façamos uma análise meramente monetária. Por ter seguido recomendação da ANJ, é razoável supor que um grande jornal brasileiro tenha “perdido” 10 milhões de page views em um mês, que não vêm mais do Google. Sendo muito conservador, podemos supor que as receitas médias com publicidade, somando todas as inserções, cheguem a R$ 0,05 por página, depois de todos os descontos. Ou seja, esse veículo vem deixando de faturar R$ 500 mil por mês.

Não me parece pouco. Ainda mais porque os jornais estão passando por tempos bicudos, demitindo e até encerrando títulos (o “Jornal da Tarde” parece ser o próximo da lista de defuntos, possivelmente deixando de circular em novembro, segundo o burburinho do mercado).

Mas o mais grave não é a perda financeira: é a incapacidade (ou seria teimosia?) de os jornais aceitarem que seu modelo de negócios, forjado no século 19 e sustentado pela publicidade e pela assinatura de um produto “consolidado” (onde o cliente paga por tudo, mesmo que consuma apenas uma parte), não encontra mais lugar no mundo.

Além de perderem a dinheirama acima, assistem praticamente imobilizados às mudanças da mídia, que os condena cada vez mais ao ostracismo. Sim, porque o Google Notícias é mídia, assim como o Flipboard e os outros agregadores, os blogs e tantas outros. Players que, se não “roubam” seus conteúdos, certamente levam embora seu público (que procura alternativas mais modernas e adequadas), e para os quais as empresas de comunicação tradicionais torcem o nariz e batem o pé, ao invés de aprender algo com eles.

Isso me lembra a fábula “A Raposa e as Uvas”, de La Fontaine. Mas me dá muita pena que, neste caso, as empresas de comunicação tradicionais são raposas que poderiam perfeitamente usar escadas para alcançar suas uvas. Mas se recusam a isso.

Em terra de cego, quem é tolo é rei

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Precisamos de mais tolos. De idealistas. De jornalistas. Arrisco a dizer que uma pessoa desprovida de idealismo jamais será um jornalista. E a sociedade depende dessas pessoas.

Nesta semana, a série da HBO The Newsroom (sem título em português) chegou ao final de sua primeira temporada com o episódio “The Greater Fool”. Não pretendendo fazer uma sinopse do capítulo, o tolo em questão seria o protagonista Will McAvoy, âncora do telejornal News Night, que, na ficção, foi capa da New York Magazine com essa alcunha.

“Greater fool” é o nome de uma teoria econômica que diz que alguém pode lucrar com algo por que pagou caro, desde que ache um tolo maior (daí o nome) para vender por ainda mais dinheiro. Ou seja, não haveria problema em pagar mais que o devido por algo, desde que se lucrasse em cima de um otário depois. Por conta disso, McAvoy, que lutou uma guerra pessoal ao longo da temporada para fazer jornalismo de qualidade, fica deprimido com a reportagem, pois entende que sua cruzada não foi convincente.

Mas há outra interpretação dessa teoria: o maior tolo seria alguém que equilibre idealismo e confiança para ter sucesso onde outros falharam. Ele percebe então que, de fato é o “greater fool”, mas não como pensava.

Felizmente. Em sua quixotesca jornada, ele não foi perfeito. Mas persistiu com o que acreditava, por mais que aparecessem obstáculos, muitos deles plantados pela própria empresa para a qual trabalha. Ganhou o jornalismo, seu público e seu país. Afinal, como lhe diz sua repórter de economia, “esse país foi criado por ‘maiores tolos’.”

É para se pensar. Há exatos dois meses, também falei da série, na sua estreia, propondo um debate sobre como se pode fazer jornalismo sério e de qualidade mesmo em um momento em que tudo parece jogar contra. Mas não dá para fazer isso ser sem idealista, sem ser tolo, sem insistir em algo em que ninguém mais aposta.

Imagino que esse sentimento impulsione pelo menos parte dos jovens que ainda buscam a faculdade de Jornalismo, mesmo com a queda da exigência do diploma para exercer a profissão. É a tal “síndrome de Clark Kent”. Pena que boa parte deles perde essa chama primordial ainda antes de se formar. Deveriam fazer um favor a si mesmos e à sociedade e procurar outra carreira.

Não quero menos jornalistas: quero mais! Essa é uma profissão apaixonante e que nos consome com nosso consentimento.

Não sou o único a pensar assim: Gabriel García Márquez fez um famoso discurso na 52ª assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa, em 1996, onde descreve aquele que chama de “melhor ofício do mundo” com sua maestria peculiar. Assim conclui:

“O jornalismo é uma paixão insaciável que só pode se digerir e se humanizar pelo seu confronto gritante com a realidade. Ninguém que não o tenha experimentado pode imaginar essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida. Ninguém que o não tenha vivido pode sequer conceber o que é a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo da primeira página, a demolição moral do fracasso. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir em um ofício tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não dá um momento de paz até que comece novamente com mais ardor que nunca no minuto seguinte”.

García Márquez estava certo. E McAvoy também.

Ainda sobre a cobrança pelo conteúdo

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Depois de meu post anterior, alguns colegas argumentaram comigo sobre a importância de se cobrar pelo conteúdo jornalístico. Concordo, mas não vejo com bons olhos a maneira como esse debate vem acontecendo. Essa campanha , patrocinada principalmente pelos jornais, é vazia, pois se apoia em uma premissa falsa. Portanto vale a pena retomar o assunto na tentativa de jogar um pouco de luz sobre ele.

A tal premissa é a de que as pessoas não querem mais pagar pelo conteúdo, querem consumir tudo de graça. Desculpem, isso não é verdade. As pessoas consomem hoje conteúdo em volume e em diversidade jamais vistos. E –pasmem!- elas pagam por muitos deles. Um bom exemplo é o cinema, que se recuperou de uma fase ruim, iniciada com a popularização do VHS. Hoje as salas estão cheias, e as pessoas pagam mais caro pelo ingresso para ver as sessões em 3D.

Outro bom exemplo é a Apple. Ela está (também) dominando o mundo sobre os cadáveres de outra indústria que cometeu suicídio por se recusar a aceitar as mudanças no comportamento dos usuários: a fonográfica. Enquanto as vendas de CDs batem no chão e as lojas praticamente os retiraram das prateleiras, o iTunes ultrapassou, em fevereiro de 2010, a incrível marca de 10 bilhões de faixas vendidas, com um modelo que combina qualidade (as músicas tem qualidade superiores às de CD), comodidade (você compra só a faixa que quiser, quando e onde estiver, com um clique) e preço baixo (ninguém pensa muito antes de gastar um único dólar).

Podemos tirar algumas lições desses dois exemplos. A primeira é que a Apple não acabou com a pirataria de músicas: estima-se que cada iPod e similares dos adolescentes americanos tenham cerca de 800 músicas baixadas ilegalmente, em média. Mas a função da Apple não é acabar com a pirataria: é vender. E ela faz isso para uma em cada quatro músicas vendidas nos EUA.

Quanto aos cinemas, ao invés de ficarem chorando sobre o videocassete, investiram na experiência que ofereciam. Quem vai ao cinema hoje, não faz isso apenas para assistir a um filme. Paga para ter isso em uma tela enorme, muitas vezes em 3D, com um som incrível, em salas confortáveis e comendo alegremente uma pipoca que custa quase tanto quanto o ingresso. Trata-se de uma experiência envolvente e positiva, que não existe em outro lugar.

Portanto, caros colegas, as pessoas querem –sim– pagar pelo conteúdo que consomem. Apenas não querem pagar por aquilo que lhes é oferecido pelos jornais, pois sua percepção indica que esse produto não merece ser pago.

Mesmo com a popularização dos tablets, os jornais ainda não perceberam que o problema reside no seu modelo de produto e de negócios, ultrapassados. Querem embarcar nesta plataforma popularizada pela Apple, sem entender o que fez da empresa o sucesso nos negócios, empurrando aos consumidores a mesma coisa que já ofereciam no papel.

E aí ficam se debatendo diante da recusa das pessoas em pagar, e combatendo quem realmente entendeu o novo momento da mídia, como o Google Notícias ou o Flipboard, só para ficar em dois exemplos básicos. Resistem bravamente ao futuro do seu negócio, que passa por “destruir” o seu produto, para recriá-lo com seu elemento primordial: jornalismo de qualidade.

Isso nos leva de volta ao post anterior. The New York Times e The Wall Street Journal vêm colhendo bons frutos com seus paywalls. Mas conseguem isso com um conteúdo que é realmente um diferencial. Além disso, o primeiro, desde que o jornalismo começou a flertar com a Internet, sempre se destacou por iniciativas criativas do uso da tecnologia, nem sempre bem-sucedidas.

O usuário paga pelo conteúdo. É só lhe oferecer algo que valha a pena.