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Por que não temos um “Netflix de revistas e jornais”?

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Banca de revistas

Cansei de ouvir de executivos de empresas de comunicação que os negócios vão mal porque as pessoas não querem mais pagar por conteúdo. Isso é desculpa de quem não consegue ou não quer transformar seu produto para o novo mercado, pois acontece exatamente o contrário: as pessoas nunca pagaram tanto por conteúdo.

Basta ir aos cinemas para comprovar: seus ingressos chegam a custar quase tanto quanto uma assinatura mensal de jornal, mas as sessões estão lotadas. E há também o Netflix, que, no meio do ano passado, ultrapassou a incrível marca de 50 milhões de assinantes. No campo da música, o Spotify virou este ano com 60 milhões de usuários, sendo 15 milhões pagantes.

Seria legítimo, portanto, perguntar: por que não temos um “Netflix de jornalismo”? Um sistema que aglutinasse uma grande quantidade de títulos, de diferentes empresas, disponíveis para leitura livre a um preço módico. O problema é que isso já existe e não vai bem das pernas.

Duas empresas americanas oferecem um serviço assim. A mais antiga, a Next Issue, cobra US$ 14,99 para acesso livre a 140 de algumas das melhores revistas dos EUA, inclusive semanais. Já a recém-chegada Magzter cobra R$ 26,80 (sim, está disponível no Brasil) para acesso irrestrito a mais de 2.000 revistas de diferentes países, porém a grande maioria delas obscura. Há também um aplicativo brasileiro, o Iba, da Abril, que cobra R$ 19,90 por mês pelo acesso há quatro revistas mensais ou uma mensal mais uma semanal ou quinzenal. O acervo é modesto: apenas 28 revistas da própria Abril.

Apesar de a Abril afirmar que possui mais de 500 mil usuários no Iba, o mercado enxerga o produto como um pato manco, uma experiência da empresa que está fazendo água, ainda mais depois de encerrar as parcerias com outro publishers, que garantiam acesso a seus também a jornais e livros.

O Iba tem dois problemas principais. O primeiro deles é comercial: os assinantes não se sentem seduzidos pela sua oferta, proporcionalmente mais cara que a dos americanos acima, por exemplo. A Abril, por outro lado, não baixa mais o preço, pois isso poderia canibalizar a assinatura das mesmas revistas em seus aplicativos próprios ou nas versões impressas.

O outro problema está no que o usuário recebe, e esse problema afeta também a Next Issue e a Magzter. Apesar de funcionarem em dispositivos digitais e possuírem algumas implementações multimídia, as revistas baixadas em todos esses sistemas são basicamente uma cópia da edição impressa. E o público já não vê muita vantagem em aguardar uma semana inteira (ou uma quinzena ou um mês!) para receber um grande pacote de noticiário frio, com pouca ou nenhuma integração com seus amigos em redes sociais, sem ligações com outras fontes de conteúdo online, sem interatividade e recursos multimídia. Coisas que a Web e principalmente aplicativos mais arrojados de terceiros (e que muitas vezes se “alimentam” de conteúdo dessas revistas) fazem esbanjando categoria.

Um bom exemplo de como as pessoas não querem mais saber desse produto editorial organizado e vendido como revista foi o fechamento do The Daily, cuja última edição circulou no dia 15 de dezembro de 2012, antes de completar dois anos. Para quem não se lembra dele (ou nunca o conheceu), The Daily foi o primeiro jornal criado especificamente para o iPad. Tratava-se de uma grande promessa, capitaneada por Rupert Murdoch, o mogul da News Corp. (que nunca escondeu sua aversão às inovações da mídia digital), e com apoio técnico da própria Apple. Mas, como um Titanic digital, falhou fragorosamente, pois quis empurrar um velho formato para um público ávido por verdadeira inovação. Bonitinho mas ordinário.

Há ainda a concorrência das Bancas do Google e da Apple, que oferecem, de maneira muito bem integrada ao Android ou ao iOS, todas essas revistas em seu formato digital, para quem eventualmente quiser ler seu conteúdo dessa forma.

Iba, Next Issue e Magzter não vão bem porque os responsáveis por eles continuam pensando como executivos de mídia impressa, na concepção dos seus produtos e principalmente no seu modelo de negócios. É por isso que eles nunca serão um Netflix ou um Spotify. Esses daí, por mais que entreguem conteúdos originários de outros “mundos” (cinema e música), souberam adaptar seu produto e seu modelo de negócios ao que as pessoas querem.

A turma do impresso deveria prestar mais atenção no Flipboard e afins. Sim, são gratuitos, mas eles estão mostrando o caminho a seguir.

Liberdade de expressão não é para qualquer um

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Exemplo de sátira do blog Falha de São Paulo - Imagem: reprodução

Exemplo de sátira do blog Falha de São Paulo

O terrível massacre no jornal satírico francês Charlie Hebdo, ocorrido na manhã do dia 7, despertou uma reação nos países do Ocidente em defesa da liberdade de expressão. Oito dias depois, o processo que a Folha de S.Paulo move contra o blog satírico Falha de São Paulo chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Qual a relação entre esses dois episódios? Para quem não conhece a história, o jornal processou, em setembro de 2010, os irmãos Mário e Lino Bocchini, programador e jornalista respectivamente, e criadores do blog. A Falha parodiava a Folha com fotomontagens e chamadas que ironizavam o jornal e seu posicionamento sobre a campanha presidencial daquele ano. A Justiça aceitou os argumentos dos advogados do jornal, que afirmavam que o blog violava a sua marca, por similaridades no nome e no logo, e um visual que se assemelhava a seu projeto gráfico. O blog saiu do ar, depois de ter sido publicado por apenas 17 dias. Os Bocchini perderam todos seus recursos até agora, mas têm conseguido apoios de peso, como da ONG Repórteres Sem Fronteiras e de Julian Assange, criador do WikiLeaks, além de emplacar matérias favoráveis nos sites da revista Wired e do respeitado Financial Times. Agora a bola está com o ministro Marco Buzzi, do STJ.

Voltando à comoção pelo atentado na França, a Folha condenou energicamente o acontecimento, com um editorial defendendo “valores universais de liberdade e tolerância” e estampando na sua primeira página uma charge com as famosas palavras “je suis Charlie” (“eu sou Charlie”).

Je suis? Je ne suis pas. Há uma evidente contradição nessa história.

Alguns podem argumentar que a Folha, com o processo, não cerceia a liberdade de expressão, e que está apenas protegendo sua propriedade industrial. Mas esse argumento é muito frágil: não entendo como os Bocchini poderiam fazer uma sátira ao jornalão, sem mimetizá-lo.

Sátiras e charges não são apenas “coisinhas divertidas”: elas carregam mensagens, que podem ser poderosíssimas. O público de um veículo entende essas mensagens, e normalmente as considera engraçadas. Mas os satirizados podem ter uma visão bem diferente. No caso das charges de Maomé do Charlie Hebdo, mesmo a maioria muçulmana que condenou a violência contra os jornalistas pode se sentir muito ofendida por elas, pois contrariam seu modo de vida e preceitos sagrados de sua religião, como o simples fato de não se poder retratar o profeta.

Por isso, parece fácil, bonito, certo e justo bradar “Je suis Charlie”! Desde que, é claro, a pimenta não esteja ardendo os próprios olhos.

Aqui no Brasil também se mata para calar a imprensa e a liberdade de expressão, principalmente quando se trata de pequenos veículos. Quando o alvo é a grande mídia, recorre-se ao Judiciário, criando uma espécie de “censura de toga”, o que provoca correta indignação na mídia. Um caso importante e relativamente recente é a censura ao Estadão, em que a Justiça o proibiu de falar mal da família Sarney na “Operação Boi Barrica”.

Irônica e infelizmente estamos vendo, cada vez mais, a mesma grande imprensa se valer do mesmo recurso para calar aqueles que a contrariam. Uma vergonha para a democracia e para a liberdade de expressão que ela diz defender!

“Nosso é o sorriso da liberdade, da esperança e da razão”, diz o editorial da Folha do dia 8. Já Suzana Singer, no papel de ombudsman da mesma Folha, disse em sua coluna no dia 9 de janeiro de 2011: “é difícil encarar essa disputa como uma luta pela liberdade de expressão. (…) Não faz bem a um veículo de comunicação progressista –e que se considera “jornal do futuro”– cercear um blog caseiro, apelativo sem dúvida, mas inofensivo. Nessa batalha de David contra Golias, o papel do gigante malvado coube à Folha, que teve sua imagem muito mais prejudicada do que se tivesse simplesmente ignorado as pedrinhas dos irmãos blogueiros.”

Sejamos Charlie! Mas verdadeiramente. E por inteiro.

O poder construtivo e destrutivo do jornalismo-cidadão

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Ontem a HBO finalmente lançou no Brasil a terceira temporada de The Newsroom. Entre outros dilemas, os personagens do fictício News Night se debatem diante da concorrência do jornalismo-cidadão praticado nas redes sociais. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência: o telejornal começa a perder audiência e receita por não conseguir acompanhar a velocidade e diversidade das mídias digitais.

A série de Aaron Sorkin sempre discute muito bem os temas mais candentes do jornalismo. A bola da vez, o “embate” entre o jornalismo tradicional e o jornalismo feito por qualquer um, sempre aparece em minhas aulas, e alunos e colegas questionam o futuro dos veículos de comunicação e da própria profissão de jornalismo.

Apenas para contextualizar, o primeiro episódio da temporada começa com o atentado terrorista na Maratona de Boston de 2013 e evolui com a equipe do News Night procurando obter informações de fontes oficiais antes de publicar algo, enquanto uma frenética cobertura do caso acontecia no Twitter e no Facebook. A situação fica mais dramática quando alguns de seus concorrentes seguem a onda e começar a dar notícias sem as devidas checagens. Para piorar a história, o telejornal cai de segundo para quarto na audiência, e a empresa reporta prejuízos financeiros.

O primeiro capítulo acaba demonizando o jornalismo-cidadão e as mídias sociais, pois, de fato, muitas bobagens foram publicadas no calor daquele momento, algumas delas bem graves. A turma que bate o bumbo contra o jornalismo-cidadão vive dizendo que aquilo não é jornalismo, em um movimento para proteger corporativamente o exercício da profissão apenas por jornalistas formados, ou então para salvar os veículos tradicionais de sua própria incapacidade de (até hoje) conviver com a realidade imposta pela mídia digital, em que qualquer um pode ser consumidor e produtor de todo tipo de conteúdo, inclusive jornalístico.

Mas muita calma nessa hora! Isso é uma visão distorcida da realidade, coisa que um bom jornalista não pode tolerar. Se, por um lado, as “coberturas” em mídias sociais podem trazer barbaridades, principalmente em fatos que envolvem muita emoção, por outro elas podem oferecer jornalismo de altíssima qualidade, por uma pessoa séria estar no lugar certo, na hora certa, com um celular na mão. E isso é cada vez mais verdadeiro com as empresas de comunicação investindo cada vez menos na reportagem –o coração do jornalismo– sobrevivendo pautadas pelo denuncismo, por releases e pelo jornalismo palaciano, gerando um noticiário morno, desinteressante e sem novidades.

Sempre me lembro do tsunami que arrasou a Indonésia no dia 26 de dezembro de 2004. Depois do desastre, (incrivelmente) a rede de celulares local continuou funcionando. Os sobreviventes começaram então a fazer uma importantíssima cobertura jornalística, muitos sem sequer se dar conta de que faziam isso. A grande imprensa demorou incríveis dois dias para entender a gravidade do acontecimento. Quando isso finalmente aconteceu, mobilizou um exército de jornalistas e fez o seu trabalho.

Mais que escancarar a importância e a viabilidade do jornalismo-cidadão, aquele evento demonstrou também como essa modalidade e o jornalismo tradicional podem atuar de maneira complementar. Nenhum indivíduo é capaz de realizar grandes coberturas, pois isso exige grandes investimentos. Por outro lado, os veículos não podem estar a todo momento em todo lugar.

Por tudo isso, nunca se produziu ou se consumiu tanto conteúdo jornalístico. Há muita porcaria nessa produção, mas também há muito material de altíssimo nível. E isso vale tanto paras as produções de indivíduos humildes quanto para veículos centenários.

Portanto, ao contrário do que pregam os arautos do apocalipse, o jornalismo-cidadão e as mídias sociais não são concorrentes do jornalismo tradicional, e muito menos adversários do bom jornalismo. O que eles fazem –isso sim– é pressionar os veículos a adotar novos formatos de produção e de distribuição de seu noticiário de qualidade, e criar novos modelos de negócio. Infelizmente eles não têm conseguido se adaptar a esse mundo pós-tsunami.

 

PS: Essa é a última temporada de The Newsroom, supostamente por outros compromissos de Sorkin. Terá apenas seis episódios. É uma pena: essa série deveria ser usada como material didático em faculdades de Jornalismo.

Como usar o santo nome da democracia em vão

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Capas da Veja e da Carta Capital às vésperas do segundo turno da última eleição: dois lados de uma mesma moeda

Capas da Veja e da Carta Capital às vésperas do segundo turno da última eleição: dois lados de uma mesma moeda

Em um tempo em que o país está polarizado pelo recente resultado das eleições presidenciais, este NÃO é um artigo político. Mas ele foi motivado pelo documento publicado pela Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores no dia 3, mais especificamente pelas partes que se referem à “democratização da mídia”.

Para quem não está a par do tema, o partido propõe a criação de uma “Lei da Mídia Democrática”, dispositivos que, na prática, permitiriam ao governo exercer controle nos veículos de comunicação. Em outras palavras, dificultar a vida de quem falar mal dele, abrindo caminho para a censura velada, que se somaria a ocorrências de censura judicial que estão cada vez mais populares entre os políticos do nosso país. Vocês se lembram, por exemplo, da censura imposta pelo Judiciário ao Estadão, que o proibiu de falar mal da família Sarney na Operação Boi Barrica?

Mas o que me chama mais a atenção nessa proposta da Executiva do PT é o termo “democratização”. Ele se justifica em nome da eliminação do “oligopólio” que a mídia é, segundo o partido. Não sou inocente de negar o poder político e social exercido pelas grandes empresas de comunicação, como Globo ou Abril. Também posso compreender o ódio supremo que o pessoal deve sentir de uma publicação como a Veja, que usa dos métodos mais sórdidos para fazer valer os seus pontos. Mas cercear a liberdade de comunicação e de imprensa é qualquer coisa, menos democracia.

A revista acima pratica há anos o mais rasteiro do jornalismo. Na verdade, o que a Veja faz é antijornalismo, e isso me enoja. Mas seus adversários tampouco são paladinos da ética jornalística: do outro lado desse MMA jornalístico-partidário, vestindo calção vermelho, temos veículos como a Carta Capital, que fazem algo tão desprezível quanto.

Para abusos de qualquer lado, existem o Código Civil e o Código Penal. Nenhum país precisa de controles adicionais para calar sua imprensa, coisa que está na moda em nossos vizinhos há anos, mais notadamente na Venezuela e na Argentina, dois regimes totalitários que, por sinal, adoram usar o nome da democracia para justificar os seus desmandos.

Já viajei por vários países da América Latina e sempre confirmei a regra de que quanto mais frágil, dependente ou controlada era a mídia local, mais corrupto era o governo e mais miserável era a população, do ponto de vista econômico, político e social.

Quando comecei na profissão, o presidente da República era Fernando Collor. Claro que ele, assim como qualquer governante, adoraria ter tido uma mídia dócil. Felizmente, para o país, ele não teve. Graças a isso (e a uma providencial ajuda de seu “querido irmão”), não tivemos que esperar o fim de seu mandato para nos vermos livres dele.

Durante a última campanha presidencial, a então candidata Dilma Rousseff reiterou seu compromisso de não impor controles sobre a imprensa. Eu espero, para o bem do Brasil, que essa promessa de campanha seja cumprida. Mesmo porque, apesar das aberrações acima citadas, a mídia nunca esteve tão democrática. E isso não se deve a qualquer controle grotesco, e sim à tecnologia, que permite que qualquer cidadão expresse suas ideias e defenda suas crenças, individualmente ou criando um veículo digital.

O que os livros impressos da Amazon representam

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Caixa padrão da Amazon - Foto: divulgação

Na última quinta-feira (21), a Amazon começou a vendar livros impressos em sua operação brasileira, antes restrita a livros digitais, aplicativos e seus e-readers Kindle. Isso detonou uma gritaria acusando a gigante do varejo de práticas draconianas contra editoras e de descontos agressivos, o que liquidaria os pequenos livreiros. Mas ninguém está falando daquilo que a entrada da empresa no varejo de produtos físicos realmente representa: a desconstrução dos modelos de negócios das editoras e das livrarias.

A Amazon de fato pratica preços baixos, mas eles não são necessariamente os mais baixos do mercado. Peguemos, como exemplo, o livro de não-ficção mais vendido no Brasil de 11/8 a 17/8, segundo o Publishnews: “Destrua Esse Diário”, de Keri Smith. No momento em que esse texto está sendo escrito, a Amazon o vende a R$ 16,20, mais caro (segundo pesquisa no Buscapé) que Ponto Frio.com (o mais barato, a R$ 14,85), Saraiva.com e Livraria da Folha, e empatado com a Fnac.com.

A empresa também é reconhecida por um atendimento e respeito ao consumidor excepcionais, indo muito além do que a lei exige. Um bom exemplo é o prazo de devolução do produto: 30 dias, quando o Código de Defesa do Consumidor prevê apenas 7 (para os quais a maioria dos varejistas torce o nariz e “esconde” essa informação). Traz também soluções comerciais e técnicas muito interessantes, como entregas rápidas e o serviço “Leia enquanto enviamos”, que permite a leitura da versão digital do livro comprado enquanto ele não chega. Sem falar no uso do “big data”, para criar ofertas realmente diferenciadas para cada consumidor.

É difícil ir contra qualquer uma das coisas ditas acima: em tese, elas obrigarão o mercado como um todo a elevar a qualidade de seu atendimento. Então qual é o “problema”?

A Amazon realmente causa estragos tornando modelos de negócios obsoletos. Ela impõe ao varejo e ao mercado editorial mudanças que outras indústrias já enfrentam (não raro sem sucesso), como a fonográfica.

No caso do varejo, os preços baixos são o menor dos problemas dos concorrentes. Qualquer e-commerce é uma operação de varejo, que entrega produtos físicos (muitas vezes grandes e pesados, em lugares distantes). Não basta, portanto, ter um site bacaninha e vender a preços mais baixos que as lojas físicas. Práticas comerciais e logística deficientes, aliadas à queima de preços, geram operações altamente deficitárias, e temos gente muito grande no e-commerce brasileiro tomando prejuízo por isso.

A turma de Jeff Bezos não costuma cometer esses erros. No caso do varejo de livros, outros e-commerces e livrarias do tipo “megastores” são os grandes prejudicados, pois seu diferencial de mix de produtos e preços baixos desaparece. O impacto é menor em livrarias com gestões mais inteligentes, como a Cultura e a Livraria da Vila (e até algumas livrarias de bairro), onde o simples comércio evoluiu para uma experiência rica de compras, com lojas transformadas em espaços de eventos e vendedores transformados em consultores editoriais.

No caso das editoras, a situação é mais grave. A Amazon realmente aperta seus pescoços para que os preços caiam. E essa é uma briga mundial, como pode ser visto em várias batalhas jurídicas entre o varejista e editoras nos EUA e em países da Europa. Porém o mais grave, que atinge o coração das editoras, é a oferta aos autores para que eles editem e publiquem, por sua conta, seus livros. A própria Amazon, a Apple e outros oferecem sistema de “autopublicação” poderosos e fáceis de usar, que tornam a publicação de um livro uma tarefa que dispensa a figura da editora. De quebra, esses players promovem e vendem as obras em suas lojas virtuais, garantindo aos autores royalties incrivelmente mais alto que o oferecido pelas editoras tradicionais.

Não é de hoje que esse tema frequenta “O Macaco Elétrico”. Editoras e livrarias tentam encontrar maneiras de perpetuar seus modelos moribundos, normalmente tentando aprovar leis que contrariam os interesses dos consumidores, e se organizando para enfrentar as exigências dos varejistas mais exigentes. Mas agora a Amazon finalmente chegou para essa queda de braço.

Como pode ser visto, não é uma questão simplória de preço. Trata-se de modernizar o negócio de livros. Não dá para continuar tapando o sol com a peneira.

Qual é o segredo do Secret?

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"O Segredo", bronze de Lagoa Henriques - Foto: Manuel Botelho/Creative Commons

“O Segredo”, bronze de Lagoa Henriques

Quando conheci o Secret, fiquei tentando entender como funcionaria uma rede social cuja principal característica é o completo anonimato de seus participantes. Pareceu, de cara, uma contradição em termos. Mas há méritos no app.

Para quem nunca ouviu falar dele, o Secret é uma rede social construída por pequenos posts publicados a partir do celular de maneira anônima. Quer dizer, o sistema sabe quem são os autores e onde eles estão, além de quem são seus “amigos” (da agenda do telefone e do Facebook) que também usam o produto. Dessa forma, ele constrói uma lista de posts que, de alguma forma se relacionam com o usuário, mas sem que ele saiba quem são os autores.

Os tais “segredos” quase sempre são pequenas tolices que interessam a pouca gente (ou ninguém além de quem os postou). Há também aqueles que usam o aparente anonimato para caluniar e detratar seus desafetos. Por que então essa ferramenta está fazendo sucesso?

Talvez a explicação esteja justamente na possibilidade de a pessoa poder publicar o que quiser, sem o temor de ser julgado pelos seus amigos (reais ou virtuais). Já virou até piada dizer que ninguém é tão feliz quanto parece ser no Facebook. E ninguém é mesmo! Mas não é de se espantar que, na rede de Mark Zuckerberg, sejam publicadas quase que exclusivamente coisas positivas (ou pelo menos não reprováveis). Afinal, tudo vai ao ar com a assinatura do autor. Daí a sensação de que a vida parece ser mais bela ali.

Mas, como diriam os psicólogos, todos têm uma “sombra”, aquele lado com desejos que podem ser considerados imorais, inaceitáveis para a sociedade. Não havia muito lugar para ela em um mundo com redes sociais das mais diversas: para compartilhar fotos, o lugar onde se está, seu sucesso profissional, sem falar nas redes de relacionamento capazes de atender aos grupos sociais mais restritos.

O Secret surgiu aparentemente para ocupar essa lacuna. E é curioso ver como as pessoas criam verdadeiras conversas completamente anônimas em torno desses posts. Conversas com pessoas sem nome, sem rosto, sem sexo ou idade. Mesmo assim, elas estão ali.

Talvez os criadores desse pequeno app tenham mesmo descoberto um nicho ainda inexplorado nas redes sociais. Veremos se é apenas um hype ou se realmente as “sombras” encontraram o seu lugar ao sol.

Em time que está empatando, não se mexe?

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Foto: Manuel de Sousa/domínio público

O mercado de livros impressos no Brasil teve um crescimento inexpressivo em 2013, enquanto as receitas com e-books mais que triplicaram no mesmo período. Mesmo assim, as iniciativas digitais de editoras e livrarias continuam extremamente tímidas, para não dizer que há um boicote deliberado para tentar retardar o quanto puderem a migração para os meios digitais.

Os índices acima são da pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial, da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), encomendada pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) e pelo Snel (Sindicato Nacional de Editores de Livros), divulgada nesta terça (22). Segundo o estudo, o mercado de livros impressos cresceu 7,52% em 2013, com vendas de R$ 5,3 bilhões. Porém, se descontarmos a inflação do período (5,91%), o crescimento real foi de mísero 1,52%. O resultado, que já não é alentador, fica pior se descontarmos as gordas compras do governo, de R$ 1,4 bilhão. Nesse caso, o crescimento foi nulo. Já as receitas com e-books cresceram 225%, saltando para R$ 12,7 milhões.

Não é grande coisa: a participação dos livros digitais é de apenas 2,3% do negócio de livros brasileiro. Como comparação, o e-commerce já passa de 10% do faturado pelo comércio como um todo. E, comparando conteúdo com conteúdo, o mercado de música digital já supera metade do total faturado pela indústria fonográfica.

Essa participação tão pequena dos livros digitais se deve mais ao desinteresse das editoras que dos autores. Foram produzidos 30.683 títulos digitais em 2013, sendo 26.054 e-books e 4.629 app-books, livros digitais que são, na verdade, aplicativos e oferecem recursos mais avançados (exemplos: Frankie for Kids e The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore). Muitos desses títulos vêm de publicadores independentes ou pelo menos não ligados às grades casas editoriais. Isso ficou ainda mais fácil com os sistemas de autopublicação, como o iBooks Author e o Kindle Direct Publishing –que permitem que qualquer pessoa edite e publique sozinho seus e-books.

A reação das editoras vem sendo a pior possível. Ao invés de fomentar o mercado de livro digital, cujo custo de produção é muito mais baixo que o equivalente impresso, tentar cercear o seu crescimento, com iniciativas como amarrar em contrato que os e-books não sejam vendidos por menos que 70% dos equivalentes em papel. Dessa forma, desestimulam a migração para o novo formato. Impossível não comparar com o que ocorreu nos EUA, especialmente graças à Amazon, que vende livros digitais a valores muito mais baixos que os impressos. Dessa iniciativa, vieram dois resultados: as vendas dos títulos explodirem e as receitas dos livros digitais já superaram as dos impressos.

Mas a Amazon é varejo. Só conseguiu isso usando sua massiva força de venda para pressionar as editoras. Aqui no Brasil, entretanto, as livrarias têm um comportamento ainda pior que as editoras, capitaneadas pela ANL (Associação Nacional de Livrarias), que encara o livro digital como uma ameaça ao segmento. Não dá para esquecer a carta aberta que Ednilson Xavier, presidente da entidade, publicou em dezembro de 2012 com quatro propostas para proteger seus afiliados. Além do teto de 30% de desconto para as versões digitais dos livros, ele também propôs que esse desconto seja uniforme para todos os canais de venda, que, caso as editoras ou as distribuidoras vendam diretamente ao consumidor, esse desconto despenque para 5% e –pasmem– que livros sejam lançados na versão digital apenas depois de 120 dias da versão em papel.

Ednilson está, claro, fazendo o seu papel (sem trocadilhos). O livro digital ameaças as livrarias ainda mais que as editoras. Nos EUA, as livrarias digitais já vendem mais livros (incluindo os impressos) que as suas concorrentes “tradicionais”: US$ 7,54 bilhões contra US$ 7,12 bilhões.

Atitudes como as acima só demonstram o desespero de alguém incapaz de se adaptar a uma nova realidade em que pessoas compram e leem cada vez mais livros digitais em seus tablets, smartphones e e-readers, mesmo com preços artificialmente majorados. Para se manterem vivas, editoras e livrarias colocam o interesse do leitor em segundo plano.

Não estou sugerindo que caminhem graciosamente para seu fim sem fazer nada. Estou propondo que façam justamente algo, mas que seja construtivo. E isso significa uma mudança real de paradigmas. Aos que não se modernizarem, ainda lhes restará a venda de livros em papel, que continuarão existindo por muitos anos, principalmente em um país com uma grande deficiência de infraestrutura tecnológica como o nosso.

O que é inaceitável é manter a postura de “tapar o sol com a peneira”, “impedir a chegada do futuro” (que, por sinal, já é presente). Essa tática de não mexer em time que está empatando é coisa de técnico de futebol medíocre. Logo, logo, acabarão tomando uma goleada de 7 a 1.

Para onde foram os torcedores do Brasil?

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Como os torcedores dos 32 países participantes da Copa do Mundo torceram na final - imagem: Reprodução/NYT

Como os torcedores dos 32 países participantes da Copa do Mundo torceram na final

Não precisa ser gênio para supor que, na final da Copa do Mundo, os brasileiros torceram pela Alemanha, mesmo depois do acachapante 7 x 1 que nos impuseram. Claro, na verdade, a torcida era contra a Argentina. Mas quem poderia adivinhar –e mais que isso: medir– que 27% dos internautas no Brasil apoiaram aos “hermanos” naquela partida?

Bem, o Facebook conseguiu fazer isso, analisando dados de cerca de 2 bilhões de interações (post, comentários e curtidas) feitas na rede social por cerca de 300 milhões de usuários dos 32 países participantes do campeonato, que, diga-se de passagem, foi o evento com mais atividade nas redes sociais até hoje. Porém, apesar da análise massiva de informações –algo para deixar um levantamento nacional de um instituto de pesquisa com jeito de grão de areia na praia– o relatório exibido ao usuário não é dos mais atraentes.

Mais bacana é a coletânea de infográficos preparados pelo The New York Times a partir das mesmas informações do Facebook. De uma maneira muito mais intuitiva, o usuário consegue ver como os torcedores de cada um dos 32 países “migraram” para outras seleções depois que a sua própria era desclassificada, a cada fase da competição, além de um gráfico consolidado.

Dá para ver, por exemplo, que, até as quartas de final, o Brasil era o país com mais torcedores no mundo (quando 45% dos usuários do Facebook declararam apoio à nossa seleção), mas fomos passados pela Argentina na semifinal (34% a 32%), enquanto a Alemanha teve a preferência na final (57% contra 43% de apoio aos argentinos). Além disso, fica claro como os “hermanos” torciam contra nós, observando que, nas oitavas de final, o Chile, adversário do Brasil, teve expressivos 11% de apoio entre os usuários argentinos, assim como a Colômbia emplacou 34% de apoio por lá nas quartas de final, sendo que ambos os países haviam tido apoio irrisório nas fases anteriores. Além disso, além de seus próprios torcedores, o Brasil só foi o preferido dos portugueses e dos japoneses, depois de suas seleções terem sido desclassificadas ainda na fase de grupos.

Esse exemplo deixa claro como se pode produzir um conteúdo jornalístico interessante fazendo-se uso criativo de informações que estão disponíveis, muitas vezes de maneira aparentemente desorganizada, nos meios digitais. É claro que, no exemplo, coube ao Facebook processar toda essa informação na sua rede, mas o NYT fez um uso muito melhor dela.

Outro exemplo interessante é o site Twitter + GNIP, que cruza a origem geográfica de milhões de tweets enviados por dispositivos móveis, separando-os de acordo com o sistema operacional do aparelho. Com isso, dá para identificar como iPhones tendem a ser usados mais que celulares com Android (e outros) em áreas nobres das cidades. Nesse link, se vê a distribuição em São Paulo, mas é possível obter a mesma informação ao redor do mundo.

Claro que, por estarmos aqui tratando de produção jornalística, todo cuidado deve ser tomado na escolha da fonte da informação (como, aliás, em qualquer reportagem). No exemplo acima do NYT, apesar da amostra mais que representativa, ela ainda é restrita a usuários do Facebook nos 32 países participantes da Copa. Mas como a penetração da rede de Mark Zuckerberg é bastante expressiva na população de quase todos eles, a pesquisa fica realmente impressionante. De todo jeito, é importante que o usuário seja informado dessa particularidade da fonte.

O interessante é que, até bem pouco tempo atrás, a realização de uma pesquisa assim envolvia a contratação de um instituto de pesquisa, o que exigia um forte investimento. Agora há uma profusão de dados de diferentes naturezas e fontes, prontos para ser garimpados. Vale a pena investir na formação de jornalistas-mineradores.

Chafurdar no lixo também rende bom jornalismo

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Collor (ao centro, ao lado de Rosane) deixa a Presidência da República, após o Congresso ter votado pelo seu impeachment - Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil/Creative Commons

Collor (ao centro, ao lado de Rosane) deixa a Presidência da República, após o Congresso ter votado pelo seu impeachment

Resultados da pesquisa “The American journalist in the digital age” (“O jornalista americano na era digital”), divulgados recentemente por professores da Universidade de Indiana (EUA), revelaram uma inquietante constatação: praticamente metade dos profissionais não usaria documentos confidenciais de empresas ou do governo em uma reportagem importante “sem autorização”. Apesar dos autores sugerirem que isso possa indicar “um jornalismo talvez mais ético”, na prática é um forte golpe no esforço de reportagem, o coração do bom jornalismo.

Infelizmente esse comportamento dos jornalistas americanos pode ser visto crescendo também em outros países, inclusive no Brasil. Não estou defendendo práticas antiéticas, mas, se um jornalista tem acesso a uma informação relevante e de interesse público, ele tem a obrigação de publicá-la. Se ela era confidencial, cabia a seus proprietários protegê-la mais eficientemente. Sem isso, a sociedade estaria nas mãos de desmandos de governantes e de abusos de empresas. E reportagens que marcaram uma época, como o escândalo de Watergate, nunca teriam existido.

A pesquisa me fez lembrar de um caso de fevereiro de 1992, quando Edna Dantas, então repórter da sucursal de Brasília da Folha de S.Paulo, literalmente analisou o lixo da Casa da Dinda, residência do presidente da República da época, Fernando Collor de Mello (que não quis morar nas residências oficiais: o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto). O que ela descobriu em documentos sigilosos displicentemente deixados para que os lixeiros recolhessem incluía a escala da segurança do presidente, indicações de que seus textos não eram escritos por ele e até de que as lingeries compradas pela primeira-dama, Rosane, eram pagas com cheques de “fantasmas” e de “laranjas”.

É claro que não foram essas revelações que derrubaram Collor, mas elas serviram para mostrar à população um pouco mais sobre os bastidores de um governo imoral. E elas só vieram à luz pelo faro jornalístico da repórter para encontrar esses documentos confidenciais e pela sua postura de publicá-los.

“Todo governo gostaria de ter uma imprensa dócil”: ouvi isso de meu primeiro editor, lá por 1993. Isso é tão mais verdade, quanto mais o governo tem algo a esconder. Mas a imprensa jamais pode “comer na mão” do poder, pois ela é a única chance de a sociedade saber de coisas contrárias a governos e empresas. Para lhes falar a favor, eles já têm seus bem pagos profissionais de relações públicas, e um caminhão de dinheiro para publicidade, ambos sem nenhum compromisso com a verdade. Sem um jornalismo combativo, continuaríamos achando que a Petrobrás é uma empresa imaculada e um orgulho nacional acima de qualquer suspeita. Bem, ela não é.

Não é de se estranhar, portanto, os acintosos e crescentes mecanismos de controle da imprensa em países cujos governos têm vocação autoritária. Na América Latina, a moda foi lançada pelo finado Hugo Chávez, que destruiu a imprensa livre da Venezuela. Em maior ou menor grau, isso se espalhou com um câncer por toda a região, inclusive no Brasil. Além da histórica violência contra jornalistas, o trabalho da imprensa vem sendo dificultado nos últimos anos por artimanhas judiciais ou pela criação de órgãos de controle. Igualmente grave é a batalha ideológica, que tenta pintar veículos que são contrários ao governo como também contrários à sociedade, ao “povo”. E é exatamente o contrário! Mas o mais desesperador é ver jornalistas acreditando nessa lenga-lenga ideológica e comprando suas ideias nefastas.

Trabalho de jornalista não é fácil. Quem pensa que é uma vida de glamour e pouco trabalho está enganado em ambas as ideias. Profissionais que esquecem que seu objetivo é melhorar a sociedade, oferecendo-lhe informações sobre tudo que acontece nela, mesmo contrárias a interesses, mesmo sigilosas, devem mudar de profissão. E nem uma ideologia pode servir de desculpa.

“O conteúdo é rei” é uma tremenda balela

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Redação de The New York Times em 1942 - Foto: Marjory Collins/Biblioteca do Congresso dos EUA

Redação de The New York Times em 1942

Há quase vinte anos, eu ouço a tese do “conteúdo é o rei”, que um bom editorial seria suficiente para levar um veículo ao sucesso, dito pelos coleguinhas quase desprezando outras áreas da empresa, como o comercial e a estratégia. Mas um extenso documento interno de The New York Times, que vazou na semana passada, mostra que isso é um engodo, mentira, bullshit.

Não estou dizendo, jamais diria, que o conteúdo editorial não é importante. Porém a queda contínua dos veículos tradicionais, principalmente os impressos, diante de produtos digitais inovadores escancara a realidade de que um ótimo conteúdo está longe de ser suficiente para o sucesso. Nem mesmo The New York Times, casa de um jornalismo premiadíssimo, escapa dessa verdade.

O referido documento do Times, que muito bem serve para praticamente todos os grandes veículos impressos, pinta uma empresa que sofre para se adaptar à realidade digital, e experimenta grandes perdas em audiência e receita por conta disso. Mais dramático ainda, o relatório demonstra que o fato de o jornal se preocupar muito com o seu jornalismo, relegando a um segundo plano a evolução de uma estratégia digital robusta e consistente, corroi a sua credibilidade e ameaça sua sobrevivência.

Produzido por um grupo liderado por Arthur G. Sulzberger, filho de Arthur Ochs Sulzberger, publisher do NYT, o documento coloca o dedo em várias feridas, começando pelo fato que toda a sua estrutura de produção continua girando em torno da versão impressa. A ideia de ser “digital first”, que muitos veículos enchem a boca para promover em eventos e peças de marketing, não passa de um discurso vazio, que não encontra eco no dia a dia. E a resistência maior vem da Redação, que encara propostas de mudança em seu produto e na maneira de realizá-lo como uma “ameaça a sua independência”, o que poria em risco a qualidade.

O relatório chega a mencionar a dificuldade de integrar as equipes editoriais, técnicas e de estratégia, quase como se fossem concorrentes. O velho mantra da “separação igreja-estado” é invocado. Para quem nunca ouviu falar disso, o conceito visa impedir que interesses comerciais interfiram nos editoriais. O exemplo clássico é garantir à Redação a prerrogativa de publicar notícias ruins sobre uma empresa, mesmo que ela seja o maior anunciante do jornal.

Mas, nesse caso, isso não se aplica. Ninguém está propondo que a qualidade do jornalismo seja minimamente ameaçada por interesses “obscuros” de outros departamentos da empresa. Pelo contrário, os jornalistas precisam ter, antes de tudo, a humildade de aceitar que outros profissionais podem indicar o caminho que toda a empresa deve trilhar, diante de movimentos não apenas dos concorrentes, mas também de seus próprios clientes: os leitores.

Curiosamente, a única grande inovação do NYT nos últimos anos não veio da Redação, e sim da área de negócios: o seu “paywall poroso”. Resumidamente, permitindo que qualquer um tenha acesso gratuito a uma quantidade restrita de notícias a cada mês, eles propuseram uma maneira criativa que garantiu que 90% de seus internautas continuassem acessando suas páginas sem qualquer mudança (o que garantiu a manutenção da receita publicitária vinculada à audiência), enquanto aumentou consideravelmente o total de assinaturas digitais e até mesmo do jornal impresso.

O problema é que, de março de 2011 para cá, o conceito de assinatura, que já andava bem mal das pernas, se enfraqueceu ainda mais. Com a consolidação do consumo ubíquo de conteúdo em dispositivos móveis, as pessoas não querem mais se sentir “aprisionadas” a um veículo, pagando antecipadamente por muita coisa que não usarão. O consumidor de conteúdo atual, que absorve isso vorazmente como nunca, quer que tudo chegue a ele com qualidade, onde estiver, quando quiser e ainda referenciado pelos seus amigos. Se essas exigências forem atendidas, pouco importa a origem do conteúdo: pode ser o NYT ou um completo desconhecido que domine o assunto.

Não é de se espantar, portanto, o sucesso de agregadores, como o Flipboard. Da mesma forma, não é nenhuma surpresa a derrocada dos veículos tradicionais. E a culpa disso não cabe à Internet, aos agregadores, ao Google ou ao Facebook. Cabe aos próprios veículos, que continuam produzindo e distribuindo seu conteúdo como nos tempos em que eram a única fonte de conteúdo de qualidade.

Felizmente (para os usuários) ou infelizmente (para os veículos tradicionais), esse tempo é passado.O jornalismo do NYT é algo memorável e espero sinceramente que a “dama cinzenta” consiga reagir e promover as mudanças necessárias para continuar existindo. Cabe apenas a eles mesmos –e a todos os veículos agonizantes– a solução.

Morre outra vítima da imprensa

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Fachada da antiga Escola Base, que foi depredada pela população após denúncias infundadas veiculadas pela imprensa - Foto: reprodução

Fachada da antiga Escola Base, que foi depredada pela população após denúncias infundadas veiculadas pela imprensa

Na quinta, foi divulgada a morte de Icushiro Shimada, ex-dono da Escola Base e vítima de um erro generalizado da imprensa, que destruiu as vidas de sua família e de seus sócios e funcionários. O assunto virou um case que é estudado nas faculdades de jornalismo, mas profissionais e veículos continuam escorregando na ética e publicando denúncias sem a devida checagem. E as redes sociais só fizeram piorar esse comportamento.

Para quem não se lembra, em março de 1994, sócios e funcionários da Escola Base, localizada no bairro da Aclimação (São Paulo), foram acusados por mães de alunos de abusar sexualmente de crianças de um a seis anos de idade. Um laudo não-conclusivo do IML informava que as fissuras eram “compatíveis com ato libidinoso”. Isso foi suficiente para o delegado Edélcio Lemos, responsável pelo caso, convocar a imprensa e botar a boca no trombone, condenando os envolvidos sem qualquer julgamento. Iniciado no Jornal Nacional, o denuncismo se espalhou por toda a imprensa da época, exceto a TV Cultura e o finado Diário Popular, que não embarcaram por acharem que não havia provas.

Capa do extinto Notícias Populares, colocando ainda mais lenha na fogueira, de maneira totalmente irresponsável - Foto: reprodução

Capa do extinto Notícias Populares, colocando ainda mais lenha na fogueira, de maneira totalmente irresponsável

Graças ao noticiário, a escola e as casas dos acusados foram depredadas e saqueadas pela população. Eles faliram e tiveram que se mudar, pois chegaram a ser ameaçados de morte em telefonemas anônimos. Porém, quando a investigação foi concluída, “surpresa” geral: nunca houve qualquer tipo de molestamento sexual às crianças. As tais fissuras encontradas eram causadas apenas por diarreia. Mas o estrago já estava feito e os acusados para sempre foram condenados pela imprensa, por mais que tenham sido inocentados pela Justiça. Pediram indenizações do Estado e de veículos de mídia; algumas delas foram pagas depois de longos recursos, outras ainda não. Shimada morreu pobre, vítima de um infarto no último dia 16 de abril, assim como sua mulher, que morreu de câncer em 2007.

O comportamento profissional irresponsável e vergonhoso desse caso deveria ser suficiente para que casos assim não voltassem a acontecer. Não me refiro apenas a algo com essa magnitude, que não acontece tanto (mas desgraçadamente ainda acontece), mas também a falhas supostamente menores (mas não menos antiéticas) que estão no noticiário todos os dias.

A busca pelo “furo”, uma notícia exclusiva capaz de aumentar a audiência de um veículo, é como uma corrida por uma medalha de ouro. É legítima e bem-vinda. Mas não pode ser justificativa para atropelos. Mas é justamente isso que acontece: tudo parece ter virado uma “fonte confiável”. E, quando a blogosfera explodiu, lá pelo ano 2000, veículos começaram a usar até blogs obscuros como fonte. À medida que as redes sociais ficaram mais importantes, elas começaram a ocupar esse espaço.

Um caso recente que ilustra bem isso foi o do tal jornalista dinamarquês que teria vindo ao Brasil para cobrir a Copa do Mundo, mas “desistiu de seu sonho” e voltou para seu país depois de se deparar com as nossas mazelas sociais. Esse assunto resultou em longos debates no Facebook (até aí, tudo bem) e chegou a pautar vários veículos, que compraram a historinha como verdade (aí tudo mal!) e publicaram vários artigos (inclusive algumas toscas bravatas nacionalistas). Mas a história não era séria (pelo menos, não totalmente): um resumo da confusão pode ser visto neste post (que, por sinal, teve que ser atualizado após a publicação).

Pressões por dar logo uma notícia, especialmente quando ela é bombástica, sempre existiram, e muitas vezes vêm de fora da Redação. Quando seus concorrentes já estão falando no assunto, fica ainda pior, principalmente em veículos em tempo real, como a mídia online, a TV e o rádio. Mas essa pressão não pode servir de muleta para deslizes. Isso foi muito bem explorado no trecho abaixo, da série da HBO “The Newsroom”:

 

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Como dizia Gabriel García Márquez, “a pressa é ingrediente desse ofício”, assim como a pressão. Quem não consegue realizá-lo eticamente nessas condições não está apto para o jornalismo. Se a imprensa continuar realizando seu trabalho dessa forma, acabará vítima de si mesma.

Outra maneira de encarar a intangibilidade do amor

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“Apaixonar-se é uma coisa louca: é uma forma de insanidade socialmente aceitável.” Isso é matéria-prima recorrente para poetas, psicólogos e qualquer um que se proponha a tentar entender a mente humana. Mas é possível se apaixonar por um software? E ainda ser correspondido?

A frase é do filme “Ela” (“Her”, 2013), em cartaz nos cinemas brasileiros e cujo trailer pode ser visto acima. Esse post não é uma crítica cinematográfica, e prometo tentar não fazer “spoilers”, mesmo porque recomendo fortemente que você o assista. Quero “apenas” discutir o que é necessário para que alguém ame e seja amado, uma das inúmeras questões levantadas por este surpreendente filme de Spike Jonze.

Não é difícil entender por que o protagonista, Theodore (Joaquin Phoenix), se apaixona por Samantha, a persona que habita o novo sistema operacional de seu computador, movida por uma inteligência artificial estupenda em um futuro próximo. Ela é praticamente a encarnação da mulher perfeita, exceto pelo fato de que não tem um corpo. Aparece apenas na voz de Scarlett Johansson. Como diriam os psicólogos, ela é a materialização (ops, ato-falho) das projeções mais íntimas de Theodore.

Não, Samantha não faz cegamente tudo o que seu “dono” quer. Pelo contrário, ela é incrivelmente “humana”, com sensações e emoções, que você pode até questionar se são reais ou não, pois Samantha é um programa. Mas todos esses sentimentos estão alinhados com os de Theodore, de uma maneira como ele nunca encontrou em nenhuma mulher real, nem mesmo em sua ex-mulher, com quem cresceu junto. De repente, parece que todos na sala de cinema estão apaixonados também, e ele e Samantha seriam feitos um para outro.

Talvez fossem até demais. Como ela sabe de tudo sobre ele? Bem, Samantha tem a sua disposição todos os rastros digitais deixados por Theodore: seus e-mails, suas registros em todo tipo de redes sociais, seu trabalho… virtualmente todo tipo de informação parametrizada ou desconexa de sua vida, guardada para sempre na Internet. E, graças à autorização de Theodore, Samantha teve acesso a tudo isso, para lhe oferecer “alguém” que atendesse a todas as suas necessidades, de uma maneira tão possível quanto seria para uma “pessoa”.

De forma alguma, estou querendo transformar Samantha em uma espécie de “cybermonstro”, que manipulou Theodore a partir de seus dados. Admito que, por alguns segundos, enquanto assistia ao filme, eu pensei que o fabricante daquele sistema operacional estaria com a mão sobre a vida de todos os seus usuários, de uma maneira assustadoramente completa. Será que Samantha, tão meiga e dedicada, compartilhou toda essa informação valiosa e pessoal de Theodore com seus criadores? Mesmo depois de ela se apaixonar por ele?

Definitivamente essa não é a proposta do filme, mas –ok– ele me fez pensar no Facebook, no Google e em tantas empresas que parecem nos conhecer cada vez mais, às vezes aparentemente melhor que nós mesmos. Compartilhamos até nossos desejos mais íntimos com seus algoritmos, em troca de uma experiência digital mais e mais eficiente e até mesmo prazerosa. Estamos metidos nisso. E felizes.

Não é a primeira vez que a ficção recria emoções absolutamente humanas em máquinas. A belíssima refilmagem de 2003 de “Battlestar Galactica”, com seus cylons “humanos”, capazes de amar e serem mais religiosos que os verdadeiros humanos, a série derivada “Caprica” (2009), com avatares idênticos às pessoas que representam puramente criados a partir dos “rastros digitais” deixados por elas, ou os replicantes do cult “Blade Runner” (1982) são bons exemplos. Há até o divertido “Amores Eletrônicos” (1984), em que um computador se apaixona por uma bela violoncelista (você pode assistir ao filme completo, legendado em português).

Todos esses filmes e seriados questionam não apenas o que é a humanidade, mas também o que é o amor e quem tem o direito de sentir isso. Poderíamos argumentar que algo que nos torna humanos é justamente o fato de nunca encontrarmos uma pessoa cujos sentimentos estejam completamente alinhados a nós mesmos, ao contrário de Theodore e Samantha. Duas pessoas diferentes nunca serão totalmente compatíveis. Mais que isso: nós mudamos continuamente e de maneira independente daqueles que eventualmente já chamamos de nossa cara-metade.

Mas talvez estejamos caminhando para um futuro como o de “Caprica”, “Galactica” ou “Blade Runner”, em que os algoritmos oferecerão às máquinas as nossas virtudes e os nossos defeitos, nossos desejos e nossos medos, nossas crenças e nossas incertezas.

E então, afinal, talvez elas amem verdadeiramente.

Bônus musical:

Selecionei duas músicas de “Ela” e de “Amores Eletrônicos”, que, para mim, sintetizam essas histórias. Divirtam-se!

  • “Ela”:

“The Moon Song”

“Photograph”

  • “Amores Eletrônicos”:

“Electric Dreams”

“Love Is Love”

Facebook lança seu agregador para “dar o que as pessoas querem”

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Vira e mexe me perguntam: se as empresas de mídia tradicionais estão perdendo as mentes e os corações de seu público, quem está ocupando esse espaço? Eu digo que são empresas que dominam nossos novos relacionamentos com todo tipo de conteúdo, não apenas do ponto de vista tecnológico, mas principalmente os novos comportamentos das pessoas. E, nesse cenário, é inevitável pensar em Google, Apple, Facebook e até mesmo os “agregadores”, aqueles pequenos programas capazes de criar “veículos de comunicação” incrivelmente personalizados ao combinar, de maneira inteligente e criativa, conteúdo de uma infinidade de fontes.

Pois o Facebook acaba de lançar aquilo que eu considero o seu agregador. Batizado de Paper (parece até uma provocação à “velha mídia”) o aplicativo redefine a maneira como o usuário tem acesso a seu feed de notícias da rede de Mark Zuckerberg, além de sua página pessoal e de amigos. Mas o que realmente o diferencia do aplicativo padrão do Facebook para celulares é justamente o fato que ele também oferece aos usuários seções com conteúdos compilados de diferentes fontes. Só faltou permitir que os cada um pudesse cadastrar também veículos de que gosta (quem sabe em uma futura versão?). Tudo dentro de uma tela muito elegante e integrada, sem que o usuário sinta qualquer ruptura na sua experiência de navegação e quase não perceba a origem do que está lendo.

O Paper é bastante diferente do Home, malfadado aplicativo que o Facebook lançou em abril do ano passado, com a pretensão de “melhorar o uso do celular” praticamente assumindo o controle dele e substituindo as telas do Android pelas suas. Naturalmente as reações dos usuários foram muito negativas. Talvez por isso o Paper não surja para “dominar tudo”, e sim “apenas” trazer conteúdos úteis, do jeito que o usuário deseja.

Como podem ver, ninguém acerta sempre, e não há problema em errar. Mas não há espaço para continuar insistindo no erro. O público não aceita mais “pertencer” ou mesmo depender exclusivamente de um produto ou empresa. Esse é um dos motivos da falência do modelo de negócios baseado em assinaturas, em que se paga de antemão para se ter acesso a todo o conteúdo de um veículo. As pessoas qerem receber a informação que gostam ou precisam, sem se importar com a fonte, porém de uma maneira conveniente.

Por isso os agregadores e o próprio feed de notícias do Facebook se tornaram grandes distribuidores de conteúdo jornalístico. De fato, pesquisa publicada pelo Pew Research Center em outubro do ano passado indica que as pessoas realmente consideram a rede social como um local genuíno para se consumir jornalismo: 78% dos usuários americanos do Facebook consomem notícias a partir dele, e 43% afirmam que ele é uma fonte importante de noticiário. Detalhe: o Facebook não produz –ele mesmo– uma linha sequer de conteúdo.

Além de Google, Facebook e essa turma entregar eficientemente o que os usuários querem, eles ainda fazem isso aparentemente de graça. Claro que não é verdade: o usuário não paga nenhum real para usar todos esses produtos, mas entrega graciosamente uma enorme massa de informações sobre si mesmo que viram receitas milionárias para essas empresas de outras formas.

Cada vez mais essa entrega é feita de forma consciente, e para várias empresas. Isso dá o que pensar: as pessoas aparentemente não se importam em abrir mão da própria privacidade, se essas corporações lhes entregarem ferramentas que deixem sua vida melhor, mais fácil (e entregam). Acham isso uma troca justa, melhor que pagar R$ 80 por uma assinatura de um monte de notícia que não lerão.

Muitos podem torcer o nariz, podem achar isso um horror, a decadência da civilização moderna. Há muitos juízos de valor nesses pensamentos. Acho perigoso as pessoas que se expõem online de uma maneira inconsequente, mas não acho viável querer lutar contra seu celular, que insiste em mandar continuamente para a operadora e o fabricante onde você está.

Nem mesmo George Orwell, em sua obra 1984, poderia imaginar algo assim. Mas a maior ironia é que isso tudo não acontece por subterfúgios de um Estado totalitário, e sim porque as pessoas topam tudo isso para aproveitar ao máximo o que a tecnologia tem a nos oferecer. E não vejo volta.

É por isso que as empresas citadas acima prosperam, enquanto a mídia tradicional se debate em agonia. Não apenas porque seus produtos perderam apelo, mas porque não conseguem mais entender o mundo que tentam noticiar.

Sobre beagles, comunistas, orixás e ameaças à democracia

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Imagem: divulgação

Três iniciativas, sem relação entre si, chamaram a minha atenção por carregar elementos de desobediência civil. Na madrugada da última sexta (18), ativistas invadiram o Instituto Royal, em São Roque (SP), e levaram quase 200 cães que eram usados em testes para as indústrias farmacêuticas e de cosméticos. No mês passado, um estudante catarinense autodeclarado “de direita até a medula, monarquista e budista” se recusou a fazer um trabalho universitário sobre Karl Marx. Atitude semelhante aconteceu no fim de 2012, quando um grupo de estudantes evangélicos amazonenses não fez uma tarefa sobre a influência dos negros e dos índios na literatura brasileira, alegando que, caso fizessem a atividade, estariam “compactuando com a ideia de que outros deuses existem”, contrariando a sua fé.

Nos três casos, indivíduos contestaram o que poderia ser chamado de “ordem estabelecida”. Se nos dois últimos o problema ficou na esfera educacional, no primeiro ela virou caso de polícia. Mais que simples questões de crenças (morais, políticas ou religiosas), os três atos embutem rebeldia em que as pessoas decidem “fazer justiça com as próprias mãos”, ignorando as instituições democráticas pelas quais elas não se sentem mais representadas, ainda que pontualmente.

Por “ordem estabelecida”, entenda-se o instituto realizando pesquisas consideradas necessárias e legítimas para benefício de seres humanos, e as escolas propondo atividades adequadas à formação acadêmica e até mesmo de cidadania dos estudantes. No primeiro caso, a comunidade científica afirma que não há alternativas viáveis aos testes com animais, regulamentados internacionalmente. Já os trabalhos escolares cumprem o papel de apresentar aos alunos elementos culturais e históricos importantes para sua formação. Em nenhum momento, propõem mudanças ou sequer ameaçam suas crenças (e honestamente não vejo como trabalhos escolares teriam esse poder).

A democracia só é viável quando os indivíduos concordam em viver harmoniosamente com as diferenças. As escolas particularmente devem ser espaço de tolerância a elas. Ninguém concorda com tudo o que acontece nesse mundo, mas, para cada uma das coisas que nele existem, por mais malucas que nos possam parecer, existe um grupo que gosta delas.

Os invasores do Instituto Royal e os estudantes fizeram coisas em que acreditavam, o que é um direito deles. Mas direitos implicam em deveres: os ativistas podem responder criminalmente e os alunos podem ficar sem as respectivas notas. É justo. Caso contrário, se cada um resolvesse moldar seu entorno egoistamente com base no que acredita ou gosta, a sociedade seria inviabilizada, pois sempre haveria outras pessoas que não estariam de acordo. E, se igualmente resolvessem resistir, seria a barbárie.

A crise das empresas de comunicação também é de representatividade

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Composição mostra a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na ONU feita por veículos estrangeiros e pela Veja - Imagem: reprodução

Composição mostra a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na ONU feita por veículos estrangeiros e pela Veja

 

Na semana passada, a imagem acima inundou as redes sociais. Invariavelmente, ela era acompanhada de comentários criticando a postura da Veja, como exemplo de uma mídia nacional manipuladora e tendenciosa. Em meio a esse debate, ficou ainda mais claro para mim que grande parte da crise que os grandes veículos vêm enfrentando se deve ao fato de que eles não conseguem mais representar o seu público. Chego a me questionar se eles ainda se preocupam com isso.

A referida imagem é uma composição, publicada originalmente no blog de Luís Nassif, demonstrando a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na abertura da Assembleia Geral da ONU, no último dia 24, feita por veículos estrangeiros (The Guardian, Le Monde e El País), em que era destacado o embate contra a espionagem americana (com fotos de Dilma discursando), e pela revista brasileira, com um título sugerindo um discurso de olho nas eleições de 2014 (e uma foto com Dilma sentada, muito menos imponente que as demais).

É fato que isenção completa não existe, inclusive pela nossa natureza humana. Mas sou um homem forjado no aço de rotativas e sei que é perfeitamente possível fazer jornalismo com seriedade. E isso é uma obrigação do ofício e das publicações.

Por mais que o veículo tenha uma linha política com a qual se alie, e não há nenhum problema nisso (deve-se inclusive deixar explícito ao seu público), não tem o direito de fazer jornalismo tendencioso, que deliberadamente mostre apenas uma parte da verdade, para induzir as pessoas a comprarem sua tese, seja ela qual for, legítima ou não. Isso é antijornalismo!

Uma publicação pode ser de direita ou de esquerda, pode defender seus candidatos, mas deve noticiar também o que eles têm de ruim, assim como o que seus adversários têm de bom. E isso não se restringe a questões políticas: vale também para assuntos religiosos, esportivos, o que for, tudo aquilo que os antigos diziam que “não se deve por à mesa” (eles estavam errados!).

O veículo deve oferecer subsídios para que seu público construa a sua opinião: assim se forma uma sociedade. Sem isso, ele apenas reforça preconceitos de gente cada vez mais alienada em torno de realidades enviesadas.

Plataformas de articulação social

Há algumas semanas, Rodrigo Mesquita, membro da família proprietária do Estadão e responsável pela Agência Estado ter a importância que tem, deu uma entrevista em que sugere que os jornais (e podemos extrapolar para os grandes veículos da mídia) perderam o espaço que tinham como articuladores da sociedade.

“Historicamente, os jornais eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos, e contribuíram para a articulação dessas comunidades em torno de ideias e ideais, problemas, questões de consumo, da conversação política”, afirma Mesquita. Com isso, em um mundo em que o jornalismo era principalmente impresso, essas empresas ganharam enorme importância política. “Todas as empresas que atingem uma posição monopolista ‘emburrecem’. Os administradores das empresas jornalísticas se dedicaram apenas a gerenciar fluxo de caixa, relevando as possibilidades de empreenderem como empresários do setor de comunicação social”, conclui.

Trocando em miúdos, os veículos se tornaram máquinas bem azeitadas de fazer dinheiro na velocidade que suas rotativas imprimiam seus exemplares. Funcionavam tão bem, que esqueceram a sua função social. Os interesses da empresa começaram a se contrapor aos editoriais e, pior que isso, tudo começou a virar uma amálgama disforme e sem relevância para seu público.

Enquanto não havia outra plataforma que servisse de alternativa, essa massa serviu bem ao propósito do negócio. “Numa perspectiva histórica, (as empresas de comunicação) legitimaram-se, fizeram e ainda fazem dinheiro por causa da sua capacidade de articular públicos”, explica Mesquita.

Veio então a popularização da Internet, e o público deixou de ser um passivo consumidor das notícias (e das versões) dos grandes veículos e passou a ser protagonista da construção do noticiário. Subitamente, o público dos veículos, qualquer pessoa, passou a ser um potencial concorrente. E uma enxurrada de versões alternativas começou a surgir.

Quer pagar quanto?

Diante da incapacidade de lidar com esse novo mundo, os grandes veículos deixaram de representar seu público. E contestações como as vistas em volta da imagem acima aparecem o tempo todo.

O espaço para tal representação popular está aberto, democraticamente abraçando qualquer um que se proponha a isso. Aqui e ali, surgem pessoas, grupos e empresas procurando o seu espaço, representando desde poucos indivíduos a uma fatia significativa da sociedade.

Enquanto isso, os grandes veículos agonizam com receitas publicitárias e de assinatura cada vez menores. Não há surpresa nisso: ao não se sentir representado pelo veículo, seu público desaparece, derrubando as tiragens e as receitas. Afinal, quem vai pagar por algo com o que não se identifique?

As empresas de comunicação tentam sofregamente transpor seu velho modelo de negócios para a nova mídia. Não conseguem perceber que não há mais espaço para isso. Sua miopia está destruindo sua credibilidade, seu maior ativo.

Portanto, a solução para sair da crise é abandonar esse antijornalismo e se re-encontrar com seu público. Mas quais terão inteligência e coragem para isso?