All posts by Paulo Silvestre

O botão milagroso

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Clique no botão, assine a revista e salve-a de um destino pior que a morte

Clique no botão, assine a revista e salve-a de um destino pior que a morte

As muitas revistas de uma grande editora onde já trabalhei vêm sofrendo há bastante tempo o mesmo que se observa por aí no mercado: redução nas tiragens, queda na receita publicitária e com assinaturas e diminuição das vendas em bancas. Desde que surgiu, a Internet é apontada internamente como grande vilã desse cenário, o que aliás impede que a empresa invista com seriedade nessa “nova mídia”, temendo que seus próprios sites “canibalizem” (esse é o termo usado) as revistas, roubando-lhes leitores.

Nesse cenário de muita preocupação dos executivos da casa, vira e mexe eles surgem com uma ideia brilhante. Nos últimos dias, foi decretado que os sites de cada publicação deveriam dar destaque ao “botão assine”, aquele que convida o internauta a assinar a revista em papel. E aí vale tudo: jogar o botão para o alto, pintar o bichinho de vermelho e fazê-lo piscar, transformá-lo em uma animação espalhafatosa. Se poluir ainda mais o já complicado layout, azar.

É a típica visão distorcida dos fatos. Não que os sites não devam “ajudar” suas irmãs em couché, mas o buraco é mais embaixo. Conversando com uma gerente de assinaturas da mesma editora, ela confidenciou que, apesar dessa histeria das Redações diante da “ameaça digital”, que já dura anos, até hoje a Web não provocou diferenças significativas nas vendas de assinaturas e em bancas. Sim, é isso mesmo que você leu! Quem está maculando esses números, segundo ela, são o aumento do preço de capa e a redução dos descontos nas assinaturas.

Na verdade, ela tem uma visão parcial da coisa. Esses ex-consumidores de revistas continuam consumindo informação, mas em outro lugar. E esse lugar é justamente a Web. Eles deixam de investir em papel para consumir o mesmo material jornalístico (ou ainda melhor) em outra mídia, que oferece isso de maneira mais cômoda e mais barata, até de graça.

Daí vem o povo com a história do botão milagroso… Como dizia um velho amigo, “o pior cego é o que não quer ouvir”. Quantos títulos deverão ser fechados antes de pararem de enxergar seus sites como meros complementos das revistas e canais de venda de polpa de madeira impressa?

As blogueiras do sexo

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A Internet pode liberar as nossas mentes, mas a sociedade nem sempre está pronta para aceitar o que temos a dizer

A Internet pode liberar as nossas mentes, mas a sociedade nem sempre está pronta para aceitar o que temos a dizer

“Eu penso em sexo constantemente. Aquela coisa de os caras pensarem nisso a cada oito segundos, eu tenho uma pergunta: e quanto aos outros sete? Eu certamente sei no que estou pensando durante esse tempo.”

A declaração está no fim do primeiro post do blog Girl With a One-Track Mind, datado do dia de Ano Novo de 2004. A autora, Abby Lee, acabara de criar sua pequena publicação descompromissadamente, como acontece com a quase totalidade dos blogs. Ela adorava sexo, pensava nisso o tempo todo e achou que, escrevendo sobre seus pensamentos, poderia liberar a sua mente um pouco. Poucos meses depois, Lee tinha um público fiel de 250 mil internautas. Após dois anos, bateu 2 milhões de leitores no mês e foi eleito o melhor blog da ilha da Rainha.

Os posts de Girl With a One-Track Mind rapidamente evoluíram para descrições detalhadas dos encontros sexuais da autora. Mas o que atraiu essa multidão foi o fato de que não se tratava apenas de “mais um blog sobre sexo”. Lee, cujo verdadeiro nome é Zoe Margolis, uma típica balzaquiana londrina com uma vida regrada durante o dia, tinha muito a dizer sobre a sexualidade feminina e masculina, com inteligência e bom humor.

Lee e outras mulheres que deram asas na Web ao que ficou conhecido como “literatura do clitóris” foram as estrelas do documentário “As Blogueiras do Sexo”, que assisti ontem na série Selva Digital, na GNT. Em agosto de 2006, o blog foi transformado em um livro e o tablóide Sunday Times, que tentava incansavelmente “desmascarar” alguma dessas mulheres que falavam despudoradamente sobre sexo protegidas pelo anonimato da Internet, acabou com sua vida, não apenas dizendo quem ela era, mas também expondo publicamente sua família e seus amigos.

Os tablóides britânicos representam o que há de pior no jornalismo. Na verdade, tenho sérias reservas de classificar a maioria de seu material como jornalístico. Claramente há uma notícia ao se falar de uma personagem com Abby Lee, que se tornou uma celebridade sem jamais sair do anonimato, apenas por suas idéias e sua coragem em expô-las. Mas o que foi feito com Zoe Margolis é um crime, que editores, repórteres e fotógrafos do Sunday Times cometeram deliberada e conscientemente. É uma lástima, mas coleguinhas adoram invocar a liberdade de imprensa para cometer barbaridades como essa. Lee era a notícia; Margolis não tinha nada de interessante ao jornal ou ao público.

O documentário deixa a ideia de que ainda não é possível a mulheres -e, convenhamos, em menor escala também aos homens- exporem sua intimidade publicamente. A revolução que a Internet estaria propiciando seria apenas parcial. Claro: ela é apenas reflexo de nossas sociedades, não algo fora ou acima delas. E se expor desse jeito não é aceito.

Quanto a Margolis, felizmente ela sobreviveu, tornou-se articulista do The Guardian e está prestes a lançar o seu segundo livro. Lee também, assim como o seu blog, apesar de ele não ser mais o que já foi. Dez dias depois de ser exposta, ela publicou artigo no The Independent, onde concluiu: “se algo bom saiu de eu ter perdido meu anonimato, foi a esperança de que meus escritos poderiam ajudar no desafio a visões fora de moda e sexistas sobre a sexualidade feminina -uma batalha contínua da qual eu ficaria feliz de fazer parte.”

Vida longa a Margolis e Lee!

A Internet nos embrutece?

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Estamos diante de um cenário tecnológico que nos faz agir como carneiros?

Estamos diante de um cenário tecnológico que nos faz agir como seres de pensamento único?

Neste fim de semana, fui apresentado a duas discussões que, apesar de não relacionadas, me fizeram pensar unicamente sobre o assunto. A primeira aconteceu no LinkedIn, onde alguém questionava se mídias sociais não funcionariam como uma espécie de lavagem cerebral consentida, onde uma grande massa de pessoas gravitaria em torno de assuntos introduzidos por uns poucos. A outra surgiu em um curso de extensão universitária, onde foi questionado se a Internet seria capaz de mudar a maneira de as pessoas pensarem. Foi citado, como exemplo, o caso de pedófilos. Pelo argumento, se a Internet não existisse, talvez não “desenvolvessem” esse seu lado bizarro, pela dificuldade de encontrar pares para compartilhar seu gosto. Como a Grande Rede facilita a identificação dessas pessoas e a troca de informações, essa turma segue adiante.

Achei as duas conversas um tanto perturbadoras, pois elas jogam a culpa sobre a Internet por comportamentos questionáveis nos indivíduos. Nossa personalidade é moldada -sim- pelo nosso convívio social. Inicialmente acontece dentro da nossa família, depois entre amigos da escola, amigos de outros locais que frequentamos e assim sucessivamente, em um círculo cada vez mais amplo e diversificado. Nesse sentido, a Internet surge como uma ferramenta formidável para ampliarmos ainda mais os grupos com os quais nos relacionamos. Ela é particularmente importante para pessoas que, de outra forma, teriam dificuldade de se relacionar socialmente.

Mas ela não torna ninguém pedófilo ou pacifista ou seja lá o que for. Nem tampouco nos limita a capacidade de pensar, de discernir entre o certo e o errado, ou cerceia o nosso livre arbítrio. Somos o que somos com, sem e apesar da Internet. Tanto no mundo real quanto no virtual, buscamos pessoas com as quais nos identificamos, pois é mais fácil sustentar uma ideia quando temos ao nosso lado alguém que pense igual a nós. Isso nos torna humanos.

Apesar de discordar das premissas das duas discussões, gostei delas. Este post são os meus dois cents sobre isso. Penso -livremente- logo existo. O meu uso da Internet está sempre me desafiando a pensar mais. E melhor.

Qualidade versus quantidade de jornais

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“Eu não acho que seja algo tão ruim ter menos jornais… se eles forem melhores.” A declaração foi publicada há quatro dias no blog FishbowlNY. O autor da fala é Ben Bradlee, editor executivo do The Washington Post na época do escândalo de Watergate e atual vice-presidente do periódico. Ele continua: “quando eu era editor do Post, existiam algo como 7.500 jornais e agora existem 1.200.”

Bradlee está (ou pelo menos disse estar) otimista diante da atual crise da indústria jornalística. Apesar de o Post estar perdendo dinheiro, ele acha que tudo vai se ajeitar com o tempo. “Contanto que os jornais que sobrevivam sejam bons, não será um desastre.”

Não concordo totalmente com isso. A visão acima é de quem está no topo da cadeia alimentar desta indústria, de quem convive cotidianamente com vencedores do Prêmio Pulitzer em um dos jornais mais respeitados do mundo. É uma visão distante do “jornalismo de base”, aquele que cobre o noticiário da comunidade onde circula, o jornalismo em seu estado mais fundamental. O Rocky Mountain News, que deixou de circular no dia 27 de fevereiro, depois de 150 anos de serviço, provavelmente cobria o noticiário de Denver melhor que o The Washington Post. Ok, ainda “sobrou” o The Denver Post (sem relação com o jornal de Washington), mas ele agora está sozinho na cidade: o leitorado local perde muito com essa falta de concorrência.

Já fui editor na Folha e já fui dono de um pequeno jornal. Sei que existem jornais (principalmente os chamados “jornaizinhos” de bairro) que não valem a tinta que os imprime, pois prestam verdadeiros desserviços a suas comunidades. Mas receio que não seja deles que Bradlee falava. E certamente não era o caso do Rocky Mountain News e do Tucson Citizen. Por isso, em nome dos leitores locais, sou a favor da qualidade dos jornais, mas também sou a favor da quantidade de publicações.

Mais vale um Twitter na mão que dois na concorrência

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O mercado acredita que o passarinho do Twitter pode cair em breve na arapuca do Google

O mercado acredita que o passarinho do Twitter pode cair em breve na arapuca do Google

Esquentam os rumores de que o Google estaria prestes a fazer uma oferta pelo Twitter. O TechCrunch já colocou até um preço: US$ 250 milhões em dinheiro ou equivalente. O mesmo post afirma que o passarinho já recusou uma oferta de US$ 500 milhões feita pelo Facebook há alguns meses, mas havia a diferença de que, naquele caso, boa parte do pagamento seria feito em ações, que poderiam estar com seu valor inflado.

Você usa o Twitter? Se nem sabe o que é, recomendo que veja o vídeo que pode ser disparado da home page do serviço. Não estou sugerindo que, se não usa, você está por fora da revolução tecnológica. Na verdade, o produto é mais um dos sucessos estrondosos da Internet que a mídia explora à exaustão, como aconteceu com o Second Life há uns três anos. Mas há uma pergunta a ser feita aqui: o que faria o Google despejar quarto de milhão de dólares em algo que muita gente acha que não passa de um hype? Por que não compraram também o Second Life então?

A resposta é que o Twitter tem algo que muito interessa ao Google que o Second Life não tem: informações reais sobre pessoas reais, em tempo real. E é justamente organizando quantidades astronômicas de informação que o Google ganha dinheiro. Eles são capazes de extrair dinheiro ao avaliar os movimentos não apenas do mercado, mas do mundo, da vida cotidiana das pessoas e das empresas. Os caras têm a mão no pulso do planeta. E é exatamente o que o Twitter oferece.

Será que o Google vai pegar esse passarinho? Se conseguir, será mais um golpe na sua concorrência direta: Microsoft e Yahoo!

Steve Case volta à AOL

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O co-fundador da AOL voltou à empresa para levantar o moral da tropa... mas só como visitante

O co-fundador da AOL voltou à empresa para levantar o moral da tropa... mas só como visitante

O homem que transformou a AOL no primeiro grande gigante online, Steve Case, voltou, depois de anos, à companhia que ajudou a fundar. Mas apenas como visitante. O objetivo era incentivar os atuais funcionários a manter a confiança em um mercado que a empresa já liderou com enorme folga, mas onde agora vem sangrando por anos a fio, ultrapassada principalmente pelo Google.

O evento também marcou a primeira aparição de Tim Armstrong como novo CEO da AOL, função que ele oficialmente assume no próximo dia 7. Ted Leonsis, vice-presidente emérito da AOL e outra estrela dos tempos de glória da companhia, também estava lá.

Armstrong deixou a posição de vice-presidente justamente no Google (onde também era presidente do Google Americas) para assumir a cadeira que pertencia a Randy Falco, que deixa a companhia. Jeff Bewkes, CEO da Time Warner (que controla a AOL), anunciou a mudança com um discurso otimista, sugerindo que Armstrong é a pessoa certa para resgatar os bons tempos do braço online do grupo.

O mercado, entretanto, acredita cada vez mais em indícios de que a Time Warner deve se livrar logo de toda a AOL ou pelo menos de parte dela. O próprio Google já ventilou que pensa em vender a sua participação de 5% na empresa sediada em Dulles, na Virginia (EUA). Por outro lado, boatos como esses existem há anos, e, até agora, a AOL continua lá, “cambaleante, mas firme”. Há alguns anos, mudou o seu modelo de negócios radicalmente, com resultados positivos (mas insuficientes para lhe devolver seu brilhantismo do passado).

Fica a pergunta, por que Armstrong trocaria a sua posição no Google por essa na AOL?

Quanto a Case, ele sempre foi visto como um ídolo interno na AOL, uma espécie de “irmão mais velho” dos funcionários. Com a fusão de US$ 164 bilhões da AOL e da Time Warner em 2001, ele se transformou em CEO da operação resultante, mas não conseguiu resistir no cargo, diante da turbulência causada pelo estouro da bolha ponto-com e de escândalos financeiros. Deixou o cargo dois anos depois, permanecendo ainda no conselho do grupo por outros três. Após isso, sua participação tanto na AOL quanto na Time Warner terminou.

Pá de cal sobre a Silicon Graphics

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Velociraptor no primeiro "Parque dos Dinossauros": o pior "vilão" que saiu de uma Silicon Graphics

Velociraptor no primeiro "Parque dos Dinossauros": o pior "vilão" que saiu de uma Silicon Graphics

A Rackable Systems, empresa que oferece soluções para call centers de grande porte, anunciou ontem a intenção de comprar a Silicon Graphics (SGI), que já foi sinônimo de computadores tão poderosos quanto “cool”, e estava em concordata desde 2006. O negócio ainda depende da aprovação de órgãos reguladores e, se tudo der certo, deve estar concluído em 60 dias.

O valor oferecido é relativamente uma ninharia: US$ 25 milhões em dinheiro. É bem pouco, se considerarmos a história da SGI, que teve grandes momentos, como o fornecimento das máquinas que criaram os dinossauros digitais do filme “Parque dos Dinossauros”, capazes de tirar o fôlego até hoje pelo seu realismo.

Eu me lembro das poucas máquinas da Silicon na Poli, alguns dos “brinquedos acadêmicos” mais bacanudos da USP na época. É uma pena que a empresa não tenha conseguido se adaptar aos movimentos do mercado. Se quiser ler o anúncio oficial da transação, clique aqui.

“Vou estar utilizando” este serviço. E você?

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Qualquer um agora pode cadastrar telefones fixos e celulares para não serem mais perturbados pelo telemarketing

Qualquer um agora pode cadastrar telefones fixos e celulares para não ser mais perturbado pelo telemarketing

Desde o dia 27 de março, o site da Fundação Procon-SP oferece um serviço que permite a qualquer um cadastrar gratuitamente os números de telefones fixos e celulares que NÃO devem mais receber ligações do telemarketing ativo. Os bloqueios passam a valer 30 dias após o cadastro. Os desbloqueios -assim como reclamações- podem ser feitos no mesmo site.

O sucesso foi imediato: em seis dias, 50 mil pessoas disseram não aos atendentes que falam no gerúndio, capazes de ligar em um domingo de manhã para oferecer os mais obscuros produtos e serviços. A iniciativa atende ao previsto na Lei 13.226/2008, regulamentada pelo Decreto Estadual 53.921/2008, e afeta também empresas de outros Estados.

Mas nem todo mundo gostou desse brilhante uso da tecnologia para facilitar a vida do cidadão. As empresas de telemarketing prometem entrar na Justiça para que o serviço seja declarado inconstitucional. A conferir.

“Obamas” podem ficar sem seus jornais

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A cidade do presidente dos EUA é a primeira do país a ter seus dois principais jornais em concordata

A cidade do presidente dos EUA é a primeira do país a ter seus dois principais jornais em concordata

Chicago, cidade onde o presidente americano Barack Obama tem sua residência pessoal, corre o risco de ficar sem seus jornais regionais. A mais recente vítima da crise da imprensa dos EUA é o Sun-Times Media Group, que publica o Chicago Sun-Times e mais 58 jornais. A empresa pediu concordata ontem. O grupo Chicago Tribune Company, que publica o Chicago Tribune, o Los Angeles Times e outros oito jornais (além de ter 23 canais de TV), já está nessa situação desde dezembro.

A capital de Illinois, uma das maiores cidades dos EUA, é a primeira a ter dois de seus principais jornais em estado pré-falimentar. Ambos continuam suas operações sem maiores mudanças, mas seus ativos estão à venda.

Na semana passada, o The New York Times, maior jornal americano, demitiu cem funcionários da área comercial e cortou em 5%, até o fim do ano, o salário de quem ficou. O Washington Post, outro gigante da terra do Tio Sam, anunciou um plano de aposentadoria antecipada para sua equipe. E o Seattle Post-Intelligencer agora só circula na Internet: nada mais de papel.

Demissões, redução de salários, jornais fechando as portas ou se transformando em operação online apenas… Muitas lições podem ser tiradas disso.

“Paraguais” derrubam secretária

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Paulo Renato disse que "manterá o bom trabalho e a equipe" de Maria Helena

Paulo Renato disse que "manterá o bom trabalho e a equipe" de Maria Helena

Dez dias depois de o governador José Serra anunciar que recolheria apostilas que traziam um mapa da América do Sul com o Paraguai em duas posições (ambas erradas), a secretária da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, caiu hoje. As apostilas, produzidas pela Secretaria da Educação com a Fundação Vanzolini, seriam distribuídas para alunos do 6º ano da rede estadual de ensino.

Antes de pedir o recolhimento, Serra chegou a dizer que “não é um erro grave, mas é um erro” e cogitou recolher apenas 1,55% dos cadernos impressos, que supostamente seriam os atingidos pela falha. Além de minimizar o problema, a Secretaria da Educação tentou se isentar da responsabilidade, jogando-a sobre a Vanzolini, que se isentou da culpa, afirmando que o material foi produzido por professores indicados pela secretaria. No final, ficou decidido que a Fundação recolheria todos os 500 mil exemplares e arcaria com as despesas. Mas agora, depois de todo esse circo, Maria Helena vai embora “por motivos estritamente pessoais”.

Em seu lugar, assume Paulo Renato, o aclamado ex-ministro da Educação de FHC. Entrou prometendo manter todo o bom trabalho e a equipe de sua antecessora. Justiça seja feita: Maria Helena conseguiu alguns avanços tão importantes quanto polêmicos, como pagamento de bônus a professores mediante resultados mensuráveis e sistema de metas por escolas. Ela também reformulou o Saresp -exame estadual de escolas- e criou o Idesp -índice para avaliar o nível de aprendizado dos alunos da rede pública.

Chega a ser uma pena vê-la cair por um erro tão estúpido. Estúpido, mas grave, ao contrário do que declarou Serra.

O Volp da discórdia

By | Educação | No Comments

Linguistas brasileiros estão questionando a iniciativa da ABL (Academia Brasileira de Letras) de lançar a quinta edição do “Volp”, o “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”. A publicação traz a grafia “oficial” das palavras do idioma, segundo as regras do acordo ortográfico entre os países de língua portuguesa, em vigor desde o dia 1º de janeiro.

Os críticos argumentam -com razão- que a obra foi organizada unilateralmente pela ABL, sem ouvir Portugal ou os outros países signatários, que podem questionar a grafia adotada pelos brasileiros para palavras polêmicas diante das novas regras. A maioria das dúvidas se refere a palavras grafadas com hífen (ou não).

A ABL se defende, dizendo que suas decisões foram bem embasadas e que não devem gerar polêmica com os outros países. Pode ser mesmo que estejam certos, mas a atitude foi um tanto arrogante. Se outros países contestarem o Volp, será legítimo.

Em entrevista à Folha, Evanildo Bechara, que coordenou o Volp, disparou: “se os portugueses seguirem o acordo que eles assinaram, o vocabulário será igual.” Feio! Muito feio! Quem lhe deu a autoridade para dizer isso?

Ora pois!

Internet, essa “coisa malvada”

By | Tecnologia | 13 Comments
O Culto do Amador, que sugere que a Internet vai acabar com tudo

O Culto do Amador, que sugere que a Internet vai acabar com tudo

A Veja desta semana publicou uma resenha sobre o livro “O Culto do Amador”, do cientista político britânico Andrew Keen, que passou de empreendedor digital a ferrenho crítico da Internet. Na obra, tenta demonstrar como a Internet e especialmente o que se convencionou chamar de Web 2.0 se transformaram em um Caixa de Pandora do século XXI, capaz de, como diz logo na capa, “destruir nossa economia, cultura e valores”.

Pelo raciocínio de Keen, a possibilidade de qualquer indivíduo ser capaz de publicar conteúdo na Internet é aterrador. Essa liberdade toda destruiria coisas boas que nossas sociedades construíram ao longo da História, colocando um palpiteiro em pé de igualdade com especialistas. E mais: a rede aparece como destruidora do direito autoral e até como responsável pela crise dos jornais nos EUA.

Bem, como diria uma velha professora, “calma com o andor, que o santo é de barro”. A Internet é uma ferramenta que de fato nos dá poder para amplificarmos tudo o que somos. E isso vale para o bem e para o mal. Mas o bem e o mal não foram criados pela Internet: colocamos nela apenas o que somos (toda a sociedade). A Grande Rede funciona apenas como um espelho disso.

Andrew Keen, que passou de empreendedor digital a crítico da Internet

Andrew Keen, que passou de empreendedor digital a crítico da Internet

Keen cita a Wikipedia como o exemplo acabado da vitória da massa ignorante sobre os especialistas. E isso é absolutamente tendencioso! Não quero parecer um deslumbrado que acha que a Wikipedia é a “perfeição pelas mãos de todos”, mas todas as enciclopédias erram. O autor não citou (talvez tenha se esquecido) estudo feito pela Nature, a revista científica mais séria do mundo (e conduzida por especialistas), que concluiu que a Wikipedia e a Enciclopédia Britannica possuem proporcionalmente a mesma incidência de erros e imprecisões. Também conta meias verdades quando diz que as pessoas navegam completamente anônimas, livres para cometer todo tipo de crime e barbaridade.

Qual seria a “solução” para isso? Aceitar a idéia que Elton John teve em 2007, propondo o fim da Internet, pois ela estaria “destruindo a indústria musical e as relações interpessoais”? Acho que não. Gosto das músicas dele e lamento que ele esteja vendendo menos CDs, mas sempre temos -todos nós- que nos adaptar a mudanças. A Internet é só mais uma.

Para arrematar, Keen compara a Web 2.0 ao conceito de que, se um grupo de macacos batucasse infinitamente sobre máquinas de escrever, eventualmente comporiam uma obra coerente algum dia. Bom, prefiro 30 obras coerentes de um milhão de macacos que apenas uma feita por cem biólogos do zoológico. É um direito dos macacos e eles têm algo a dizer.

Mas talvez eu seja um pouco suspeito ao defender macacos 😉

Notebook versus lápis

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Tendência aponta que estudantes preferem escrever em notebooks a usar o lápis

Tendência aponta que estudantes preferem escrever em notebooks a usar o lápis

A Folha publicou nesta segunda uma reportagem sobre como escolas já permitem que alunos levem notebooks pessoais para a sala de aula, como parte de seu material escolar. A reportagem me chamou a atenção em dois pontos: primeiramente porque foi a primeira vez que vi isso fora do ensino superior; em segundo lugar, e mais inusitado, porque os alunos começam a questionar o porquê de se escrever à mão.

Esse questionamento pode parecer absurdo -e é, pelo menos enquanto não dispusermos de infra-estrutura tecnológica que nos permita dispensar de vez papel e lápis-, mas é perfeitamente compreensível para alguém que manipula um PC com a mesma naturalidade que a TV. Esses membros da “Geração Z” realizam os seus trabalhos escolares -mesmo os mais prosaicos- em PowerPoint ou em sequências em Flash.

Além disso, a moderna pedagogia prega que as crianças hoje aprendam primeiro a letra bastão (ou, com se costumava dizer, “de forma”) em maiúsculas, passando depois para as minúsculas e apenas então passam à escrita cursiva (as “letras de mão”). Isso parece estar alinhado com o fato de que o mundo não é mais cursivo. Qualquer PC vagabundo com Windows oferece ao usuário dezenas de famílias de fontes para que experimente em seus escritos, e as crianças estão expostas a essa realidade. Dentro desse novo mundo, as pessoas, de todas as faixas etárias, escrevem e lêem mais que nunca. A questão deixa de ser se se deve escrever “à mão ou com letra de forma” e passa a ser se se deve escolher Arial ou Times New Roman para compor o texto.

Não estou advogando pelo fim da escrita à mão: muito pelo contrário. Mas os fatos estão postos. A questão é saber como pais, escolas e editoras lidarão com isso. Todos estão preparados para isso, pedagógica e até psicologicamente? Pais, professores e demais profissionais de educação conseguirão lidar com essa onda inovadora que ganha volume a cada dia, podendo chegar logo à escala de tsunami?

Não estão. Mas essa onda pega!

Fazendo água além-mar

By | Educação | 2 Comments

Se os brasileiros parecem estar dispostos a abraçar o novo acordo ortográfico, o mesmo não acontece entre os lusos. Pesquisa realizada em Portugal aponta que 57,3% deles são contrários ao acordo, sendo que 66,3% afirmam que não adotarão as novas regras. A situação é pior entre os mais jovens e os menos escolarizados.

Pode-se argumentar que se trata de um acordo de gabinete, criado sem apoio popular. Mas pensando friamente: haveria outro jeito de se fazer isso?

Particularmente as reações não me espantam: um acordo desse tira as pessoas de uma de suas maiores zonas de conforto, que é a maneira de escrever. Mas as regras estão aí, os governos estão apoiando o acordo. A grande imprensa e editoras têm papel fundamental para que isso aconteça, ainda que a longo prazo (uma década, provavelmente).

Em tempo: a pesquisa foi feita pela empresa Aximage, sob encomenda do “Correio da Manhã”. Trata-se do jornal mais vendido em Portugal. E que ainda não adota as novas normas em suas páginas. Ora pois!

Estudantes de jornalismo não lêem jornais

By | Jornalismo, Tecnologia | 2 Comments
Knight: “isso representa um risco maior para a mídia impressa que a crise econômica global ou a perda de receita publicitária para a Web”

Knight: “isso representa um risco maior para a mídia impressa que a crise econômica global ou a perda de receita publicitária para a Web”

Essa veio de longe, literalmente do outro lado do mundo, mas aposto que se aplicaria aqui também: estudantes de Jornalismo australianos não lêem jornais. Não, você não leu errado: os futuros jornalistas fogem do veículo que dá nome a sua profissão. Para eles, jornais são pouco práticos, desajeitados, não têm uma ferramenta de busca, ficam se “desmontando” e sujam as mãos.

A conclusão é resultado de uma pesquisa realizada pelo professor de Jornalismo e Estudos de Mídia Alan Knight, da Universidade de Tecnologia de Queensland, em Brisbane (Austrália). Ele entrevistou 200 alunos de primeiro ano da graduação de Jornalismo, e 90% deles dizem que não lêem jornais. Mas isso não quer dizer que eles não estão atualizados com os acontecimentos: 95% acompanham o noticiário regularmente, mas a mídia preferida é a TV, seguida por uma Internet que cresce rapidamente na preferência dos entrevistados.

“Se os jornalistas do futuro não querem ler jornais, quem lerá?”, disparou o professor no site da própria universidade. “Isso representa um risco maior para a mídia impressa que a crise econômica global ou a perda de receita publicitária para a Web.”

E agora saboreie a cereja do bolo: eles também não gostam de jornais porque tem que pagar pelas notícias. Essa é de matar: os futuros jornalistas não querem pagar para consumir aquilo que, em pouco tempo, será o seu ganha-pão. Como são mesmo aquelas histórias de micropagamento, Kachingle e afins? Espero que essa turma esteja pensando nisso.