Category Archives: Jornalismo

“Uso mais que justo”: remunerado

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O Google e a mída: quem carrega quem?

O Google e a mída: quem carrega quem?

Na última reunião anual da Associação de Jornais da América, Eric Schmidt, CEO do Google, defendeu, em sua palestra, que o Google News ajuda os jornais, conduzindo gratuitamente tráfego para seus sites. Assim, os veículos faturariam com publicidade em suas páginas. Seria, portanto, um “uso justo” de porções desses conteúdos para viabilizar o Google News, tentando diminuir a crescente gritaria de que o serviço estaria pirateando trabalho alheio em seu único benefício.

Esse é seu ponto de vista.

No meu post Limites do “uso justo”, no dia 16, analisei essa idéia. Ela é legítima e pesquisas subsidiam e idéia de Schmidt. Só há uma falha nesse raciocínio: por mais que os internautas caiam nas páginas dos veículos, isso não é suficiente para salvá-los do atual desastre econômico. Apesar de o CEO do Google ter parecido arrogante para muitos (e talvez tenha sido mesmo), sou obrigado a dizer que os responsáveis por esse fracasso da mídia na Internet são as próprias casas editoriais, que sempre menosprezaram suas publicações online. Muitas ainda fazem isso, mas agora, com a água no pescoço, bradam palavras de ordem contra a inevitabilidade dos fatos online.

Maureen Dowd, colunista do The New York Times, resumiu esse sentimento em um artigo publicado no último dia 14. Em determinado ponto, ela escreveu: “por que o Google não nos assina um gordo cheque por usar as nossas histórias, de modo que possamos manter salários e balanços e continuemos a oferecer ao buscador nossas histórias?”

Bom, esse é outro ponto de vista válido.

E então vem o renomado consultor de mídia Steve Outing, com quem costumo concordar, e sugere em seu blog que o Google News passe a exibir mais publicidade (hoje ela é bem tímida), distribuindo uma porcentagem de seus ganhos aos provedores de conteúdo que forem clicados em cada uma das páginas do serviço. Dessa forma, o Google ajudaria, segundo Outing, os jornais a saírem da lama em que se encontram e evitaria um movimento non-sense de muitos dinossauros da (grande) mídia, que querem fechar o seu conteúdo apenas para assinantes, algo que não interessaria ao internauta ou ao próprio Google.

Dessa vez, concordo apenas parcialmente com Outing. Não acho que caiba ao Google -ou a qualquer um- salvar jornais de sua própria incompetência econômica. Tampouco gostei do tom quase ameaçador do tipo “ajude-os ou você ficará sem conteúdo”. As coisas não funcionam assim.

O bom jornalismo é algo crítico para todas as sociedades. Sem ele, nossa cidadania se reduz gradativamente. Felizmente a crise atual não acabou com ele: dos recém-entregues Prêmios Pulitzer, muitos foram para alguns dos veículos mais afetados pela situação da economia. O The New York Times levou cinco deles, seu segundo melhor desempenho da história, apesar do prejuízo de US$ 74,5 milhões anunciado na semana passada.

O gigante de buscas já tem acordos com a Associated Press e com a France Presse pelos seus conteúdos usados no Google News. Os jornais podem aprender muito com a turma online sobre como ganhar dinheiro nesse novo cenário econômico. Mas precisam se despir de preconceitos e de idéias vetustas que os levaram ao buraco em que estão.

Não deu… não daquele jeito

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Pois é, Alex, o modelo de assinaturas não deu certo, mas existem outros!

Pois é, Alex, o modelo de assinaturas não deu certo, mas existem outros!

Esse post é uma atualização do post “Jornalistas salvando jornais“, de três dias atrás. Nele eu mencionei a iniciativa de 35 ex-jornalistas do recém-finado Rocky Mountain News que decidiram lançar um site para tentar ocupar, na Internet, o espaço que o Rocky deixou no jornalismo local de Denver. Nada de papel: apenas online. Para que desse certo, eles calcularam que precisariam de 50.000 assinantes que pagassem US$ 4,99 por mês. O conteúdo do InDenverTimes.com é irrestritamente aberto: os pagantes teriam o privilégio de “fazer parte” do produto, participando de ferramentas de criação de comunidades e, o que mais me chamou a atenção, tendo acesso direto aos jornalistas.

Apesar de criativo, questionei no post anterior que talvez isso não fosse o suficiente em um momento em que as pessoas justamente consomem mais conteúdo que nunca, mas que paradoxalmente não querem mais pagar por ele. E foi o que aconteceu: o deadline que o próprio site se deu para arrebanhar os assinantes foi ontem, quando o Rocky completaria 150 anos. E não deu: não atingiram essa meta.

“Nós acreditamos que existe dinheiro no jornalismo local, feito por jornalistas locais, e que há um oportunidade única em Denver com o fim do Rocky Mountain News”, disse David Milstead, jornalista de economia e um dos criadores do inDenverTimes.com. A equipe buscará agora viabilizar a publicação com modelos de negócios alternativos.

E devem mesmo. O jornalismo local é o jornalismo em sua forma mais essencial (em diferentes acepções da palavra). Em um cidade de quase 600 mil habitantes, como Denver, um único jornal local -no caso, o The Denver Post- é muito pouco. E modelos alternativos também existem. Para um veículo que já se mostrou disposto a inovar na parte editorial, há espaço para inovarem também no seu modelo de negócios.

Deitados em berço esplêndido

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Enquanto nos EUA vemos os próprios jornalistas arregaçando as mangas e queimando os miolos para salvar os veículos onde trabalham ou pelo menos os seus próprios empregos, no Brasil, as coisas aparentam conforto. Isso estará associado à “marolinha”?

Não há dúvida que a situação da mídia, especialmente a impressa, está muito mais confortável aqui que nos EUA, que atravessa a maior crise da sua história. Segundo o Projeto Inter-Meios, do Meio & Mensagem, em outubro de 2008, os jornais abocanharam R$ 304,6 milhões em publicidade, que representam 4% de aumento em relação do outubro de 2007. As revistas levaram R$ 204,5 milhões no mesmo mês, alta de 9% sobre o ano anterior.

Apesar dos números para cima, os investimentos estão congelados e o facão já passou em várias Redações nesse ano. Revistas e jornais estão mais finos e com conteúdo editorial pior, em parte pelo sacrifício de pratas da casa em favor da contratação de focas, mais baratos.

Então por que ninguém se mexe? Será que necessitamos chegar à beira do abismo, a exemplo da Gringolândia, para colocarmos a massa cinzenta para funcionar?

Receio que o problema seja outro: falta coragem para se mexer em time que está “ganhando”. A mídia impressa continua sendo uma máquina bem azeitada, com faturamentos respeitáveis, que mantém vivas suas casas editoriais. Para seus diretores, que receberão seus gordos bônus mantendo o status quo, não importa que suas equipes de conteúdo digital continuem sendo apenas “a turma da Internet”. Mas o que me dá mais medo é que os colegas que estão na linha de frente da Redação pensem o mesmo e façam de tudo para que nada mude. Naturalmente, eles também não são avaliados pela performance do produto online.

É uma pena muito grande. Como falei no post anterior, 35 ex-jornalistas do agora defunto Rocky Mountain News estão tentando criar um veículo totalmente online para ocupar o lugar do finado periódico. Mas estão tentando fazer isso agora, ao invés de ter arriscado quando o Rocky ainda rodava. Quem é o culpado pelo imobilismo anterior?

Citando novamente o Inter-Meios, a única mídia que teve um crescimento expressivo no ano passado foi a Internet, cujo faturamento de outubro de 2008 foi 45,5% superior ao de outubro de 2007. Lamentavelmente, ela representa ainda apenas 3,5% do bolo publicitário, mas isso poderia ser certamente muito maior, se houvesse mais atitude dos envolvidos.

Jornalistas salvando jornais

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O InDenverTimes.com, publicação online criada por ex-jornalistas do Rocky, precisa arrebanhar 50 mil assinantes para que deixe de ser beta

O InDenverTimes.com, publicação online criada por ex-jornalistas do Rocky, precisa arrebanhar 50 mil assinantes para que deixe de ser beta

“A necessidade é a mãe das invenções.” O velho ditado explica bem algo que vem sendo observado nos EUA diante da crise vivida pela mídia, especialmente o jornalismo impresso. Lá, jornalistas estão tentando salvar os veículos onde (ainda) trabalham ou tratando de ressuscitar aqueles que já deixaram de circular. E vêm fazendo isso de maneira mais criativa e mais ousada que os donos do próprio negócio jamais pensaram.

Talvez façam isso porque profissionalmente não correm muitos riscos, pois seus empregos já viraram fumaça ou já estão em chamas no modelo de negócios atual. Mas o fato é que os colegas estão se mexendo, enquanto os moguls ficam se debatendo em torno de formas que garantiriam uma sobrevida a seu negócio, de preferência sem realizar grandes mudanças.

Aí reside o problema: chegamos (especialmente a mídia na Gringolândia) a um ponto em que mudanças de monta se fazem necessárias. Por conta do imobilismo, jornais estão fechando suas portas ou pedindo concordata. Os que sobrevivem -e isso certamente vale para a mídia impressa brasileira- estão cada vez mais finos, previsíveis e rasos em sua qualidade.

Qual a saída? A Redação do Star Tribune, em concordata há três meses, não sabe, mas não teve vergonha de vir a público para perguntar. Lançaram uma campanha pública, o Save the Strib. O objetivo do site é sensibilizar a população e eventuais interessados em comprar o jornal, para que ele não morra. Criou um abaixo-assinado e pede idéias e sugestões aos internautas, além de propostas de aquisição.

A novidade aí está na coragem da iniciativa. Mas há outros casos mais interessantes aparecendo em diversas regiões nos EUA. Em Denver, por exemplo, 35 ex-jornalistas do recém-finado Rocky Mountain News juntaram-se a três investidores e criaram o InDenverTimes.com. Atualmente em beta, o lançamento oficial está marcado para o dia 4 de maio, mas isso só acontecerá se conseguir juntar, até o dia 23 de abril (ou seja, quinta), pelo menos 50 mil assinantes dispostos a pagar US$ 4,99 por mês pelo produto. Longe de ser uma coincidência, essa data marcaria o 150º aniversário do Rocky, caso ele tivesse sobrevivido.

O conteúdo do veículo é completamente livre. O que os assinantes ganham? A possibilidade de conversar em tempo real com os jornalistas e também participar da comunidade em torno do site, como fóruns, comentando notícias e por aí vai. Em resumo, de fazer parte da publicação. O desafio da equipe é criar um produto pelo qual os cidadãos de Denver queiram pagar. E é um tremendo desafio, pois eles não conseguiram fazer isso no finado Rocky, impresso ou online. E, se por um lado US$ 5 parece nada, por outro passamos por um momento em que as pessoas cada vez menos querem pagar pelas notícias que consomem.

Para deixar o pacote mais suculento aos assinantes, a publicação promete a maneira de pensar do mundo ponto-com, afastando-se da arrogância típica da “mídia tradicional”, em que os jornalistas estão “acima de tudo e de todos”, dizendo o que é importante para os seus leitores (para dizer o mínimo). A cobertura passa a ter rosto: os jornalistas são pessoas próximas dos internautas, como eles, ao lado deles.

Honestamente, não sei se isso será suficiente para a turma arrebanhar os seus 50 mil assinantes. Como são nomes conhecidos (e muitos deles queridos) da população de Denver, uma cidade de quase 600 mil habitantes, talvez consigam, nem que seja a título de “colaboração” nesse primeiro ano. Mas como será no segundo ano?

De qualquer forma, é uma aposta válida, no mínimo por demonstrar que jornalistas podem fazer muito mais que aquilo a que costumam ser limitados nas grandes Redações e para deixar claro que o jornalismo ainda é um negócio viável.

Limites do “uso justo”

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O CEO do Google insiste na queda de braço do "uso justo" contra os executivos da indústria de mídia

O CEO do Google insiste na queda de braço do "uso justo" contra os executivos da indústria de mídia

No último dia 7, Eric Schmidt, CEO do Google, colocou o dedo na ferida: o Google News mais ajudaria que atrapalharia jornais, revistas e outras fontes de informações. Não é bem o que eles pensam. Na verdade, cresce o coro de executivos da mídia que acha que o serviço se apropria indevidamente de seus conteúdos para gerar a sua página de notícias automática. O Google rebate, afirmando que faz apenas “uso justo” (“fair use“) desse material alheio e que os jornais se beneficiam grandemente do tráfego que ele lhes gera, já que usa apenas pequenas porções de textos e imagens, remetendo os internautas aos sites de origem das notícias.

O discurso de Schmidt aconteceu em plena reunião anual da Associação de Jornais da América e foi seguido de perguntas relativamente comedidas da platéia, formada por líderes da indústria. O momento estava cheio de ganchos para a fala do CEO: a mídia -especialmente jornais dos EUA- está atravessando uma crise sem precedentes, com a bancarrota de vários títulos tradicionalíssimos, o Google começou a veicular anúncios no Google News e a Associated Press resolveu endurecer na proteção dos direitos de propriedade intelectual do material que ela distribui.

Essa discussão não é nova: em março de 2005, a France Presse processou o buscador, pedindo US$ 17,5 milhões de indenização pelo uso de seu material no Google News. O processo foi arquivado dois anos depois com um acordo entre as partes. Os detalhes não foram revelados, mas o Google News pôde continuar publicando material da agência francesa. Um ano antes disso, um acordo semelhante já havia sido firmado com a Associated Press (que nem chegou a processar o Google). E essa briga também remete a outro assunto que já rendeu acalorados debates, mas anda em baixa: o “deep linking“, que significa um site apontar diretamente para matérias ou artigos de outros sites, ignorando suas home pages. Exatamente como fazem os links nesse post, por exemplo.

A discussão atual gira em torno do que é “uso justo” do material de terceiros. Assim como no Brasil, nos EUA é legalmente aceitável usar porções limitadas de produtos alheios (até mesmo de concorrentes), dentro de condições específicas. Um exemplo clássico é o uso de até três minutos de imagens esportivas geradas por emissoras de TV nos programas jornalísticos de outros canais.

Porém, como acontece sempre que existe um juízo de valor envolvido, o limite entre “uso justo” e uso indevido é tênue. O próprio Schmidt disse no evento que isso depende da escola que o jurista seguir, mas fez questão de acrescentar que, na dúvida, a balança deve pender para o lado do consumidor. Nas entrelinhas, jogou a batata quente no colo dos donos de jornais: se não concordassem, poderiam ser taxados de anacrônicos e  contrários aos interesses dos internautas.

Os executivos, por outro lado, sentem-se pressionados para manter suas operações -mais que rentáveis- vivas em meio à crise. Muitos pensam em fechar o seu conteúdo, indo na contra-mão da indústria, outros estudam a adoção de micropagamento ou de outros modelos alternativos. Nesse cenário de incertezas, o Google News pode, em suas visões, ameaçar o “controle” dos produtores de conteúdo.

Então vem o Google e argumenta que, qualquer que seja o modelo de negócios adotado, ele é o maior parceiro do produtor de conteúdo, pois nada lhe geraria mais tráfego individualmente que o Google News e sua tradicional busca. E ele tem razão. Estudo realizado pela empresa de pesquisas Hitwise Intelligence mostra que, de todo o tráfego dos sites de notícias em março, 21,69% foi gerado pelo Google e outros buscadores. Os executivos da mídia sabem disse e declaram que não querem perder um “parceiro” tão importante.

Apenas não querem fornecer o conteúdo para que ele crie as páginas que lhes geram esse tráfego…

O botão milagroso

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Clique no botão, assine a revista e salve-a de um destino pior que a morte

Clique no botão, assine a revista e salve-a de um destino pior que a morte

As muitas revistas de uma grande editora onde já trabalhei vêm sofrendo há bastante tempo o mesmo que se observa por aí no mercado: redução nas tiragens, queda na receita publicitária e com assinaturas e diminuição das vendas em bancas. Desde que surgiu, a Internet é apontada internamente como grande vilã desse cenário, o que aliás impede que a empresa invista com seriedade nessa “nova mídia”, temendo que seus próprios sites “canibalizem” (esse é o termo usado) as revistas, roubando-lhes leitores.

Nesse cenário de muita preocupação dos executivos da casa, vira e mexe eles surgem com uma ideia brilhante. Nos últimos dias, foi decretado que os sites de cada publicação deveriam dar destaque ao “botão assine”, aquele que convida o internauta a assinar a revista em papel. E aí vale tudo: jogar o botão para o alto, pintar o bichinho de vermelho e fazê-lo piscar, transformá-lo em uma animação espalhafatosa. Se poluir ainda mais o já complicado layout, azar.

É a típica visão distorcida dos fatos. Não que os sites não devam “ajudar” suas irmãs em couché, mas o buraco é mais embaixo. Conversando com uma gerente de assinaturas da mesma editora, ela confidenciou que, apesar dessa histeria das Redações diante da “ameaça digital”, que já dura anos, até hoje a Web não provocou diferenças significativas nas vendas de assinaturas e em bancas. Sim, é isso mesmo que você leu! Quem está maculando esses números, segundo ela, são o aumento do preço de capa e a redução dos descontos nas assinaturas.

Na verdade, ela tem uma visão parcial da coisa. Esses ex-consumidores de revistas continuam consumindo informação, mas em outro lugar. E esse lugar é justamente a Web. Eles deixam de investir em papel para consumir o mesmo material jornalístico (ou ainda melhor) em outra mídia, que oferece isso de maneira mais cômoda e mais barata, até de graça.

Daí vem o povo com a história do botão milagroso… Como dizia um velho amigo, “o pior cego é o que não quer ouvir”. Quantos títulos deverão ser fechados antes de pararem de enxergar seus sites como meros complementos das revistas e canais de venda de polpa de madeira impressa?

As blogueiras do sexo

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A Internet pode liberar as nossas mentes, mas a sociedade nem sempre está pronta para aceitar o que temos a dizer

A Internet pode liberar as nossas mentes, mas a sociedade nem sempre está pronta para aceitar o que temos a dizer

“Eu penso em sexo constantemente. Aquela coisa de os caras pensarem nisso a cada oito segundos, eu tenho uma pergunta: e quanto aos outros sete? Eu certamente sei no que estou pensando durante esse tempo.”

A declaração está no fim do primeiro post do blog Girl With a One-Track Mind, datado do dia de Ano Novo de 2004. A autora, Abby Lee, acabara de criar sua pequena publicação descompromissadamente, como acontece com a quase totalidade dos blogs. Ela adorava sexo, pensava nisso o tempo todo e achou que, escrevendo sobre seus pensamentos, poderia liberar a sua mente um pouco. Poucos meses depois, Lee tinha um público fiel de 250 mil internautas. Após dois anos, bateu 2 milhões de leitores no mês e foi eleito o melhor blog da ilha da Rainha.

Os posts de Girl With a One-Track Mind rapidamente evoluíram para descrições detalhadas dos encontros sexuais da autora. Mas o que atraiu essa multidão foi o fato de que não se tratava apenas de “mais um blog sobre sexo”. Lee, cujo verdadeiro nome é Zoe Margolis, uma típica balzaquiana londrina com uma vida regrada durante o dia, tinha muito a dizer sobre a sexualidade feminina e masculina, com inteligência e bom humor.

Lee e outras mulheres que deram asas na Web ao que ficou conhecido como “literatura do clitóris” foram as estrelas do documentário “As Blogueiras do Sexo”, que assisti ontem na série Selva Digital, na GNT. Em agosto de 2006, o blog foi transformado em um livro e o tablóide Sunday Times, que tentava incansavelmente “desmascarar” alguma dessas mulheres que falavam despudoradamente sobre sexo protegidas pelo anonimato da Internet, acabou com sua vida, não apenas dizendo quem ela era, mas também expondo publicamente sua família e seus amigos.

Os tablóides britânicos representam o que há de pior no jornalismo. Na verdade, tenho sérias reservas de classificar a maioria de seu material como jornalístico. Claramente há uma notícia ao se falar de uma personagem com Abby Lee, que se tornou uma celebridade sem jamais sair do anonimato, apenas por suas idéias e sua coragem em expô-las. Mas o que foi feito com Zoe Margolis é um crime, que editores, repórteres e fotógrafos do Sunday Times cometeram deliberada e conscientemente. É uma lástima, mas coleguinhas adoram invocar a liberdade de imprensa para cometer barbaridades como essa. Lee era a notícia; Margolis não tinha nada de interessante ao jornal ou ao público.

O documentário deixa a ideia de que ainda não é possível a mulheres -e, convenhamos, em menor escala também aos homens- exporem sua intimidade publicamente. A revolução que a Internet estaria propiciando seria apenas parcial. Claro: ela é apenas reflexo de nossas sociedades, não algo fora ou acima delas. E se expor desse jeito não é aceito.

Quanto a Margolis, felizmente ela sobreviveu, tornou-se articulista do The Guardian e está prestes a lançar o seu segundo livro. Lee também, assim como o seu blog, apesar de ele não ser mais o que já foi. Dez dias depois de ser exposta, ela publicou artigo no The Independent, onde concluiu: “se algo bom saiu de eu ter perdido meu anonimato, foi a esperança de que meus escritos poderiam ajudar no desafio a visões fora de moda e sexistas sobre a sexualidade feminina -uma batalha contínua da qual eu ficaria feliz de fazer parte.”

Vida longa a Margolis e Lee!

Qualidade versus quantidade de jornais

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“Eu não acho que seja algo tão ruim ter menos jornais… se eles forem melhores.” A declaração foi publicada há quatro dias no blog FishbowlNY. O autor da fala é Ben Bradlee, editor executivo do The Washington Post na época do escândalo de Watergate e atual vice-presidente do periódico. Ele continua: “quando eu era editor do Post, existiam algo como 7.500 jornais e agora existem 1.200.”

Bradlee está (ou pelo menos disse estar) otimista diante da atual crise da indústria jornalística. Apesar de o Post estar perdendo dinheiro, ele acha que tudo vai se ajeitar com o tempo. “Contanto que os jornais que sobrevivam sejam bons, não será um desastre.”

Não concordo totalmente com isso. A visão acima é de quem está no topo da cadeia alimentar desta indústria, de quem convive cotidianamente com vencedores do Prêmio Pulitzer em um dos jornais mais respeitados do mundo. É uma visão distante do “jornalismo de base”, aquele que cobre o noticiário da comunidade onde circula, o jornalismo em seu estado mais fundamental. O Rocky Mountain News, que deixou de circular no dia 27 de fevereiro, depois de 150 anos de serviço, provavelmente cobria o noticiário de Denver melhor que o The Washington Post. Ok, ainda “sobrou” o The Denver Post (sem relação com o jornal de Washington), mas ele agora está sozinho na cidade: o leitorado local perde muito com essa falta de concorrência.

Já fui editor na Folha e já fui dono de um pequeno jornal. Sei que existem jornais (principalmente os chamados “jornaizinhos” de bairro) que não valem a tinta que os imprime, pois prestam verdadeiros desserviços a suas comunidades. Mas receio que não seja deles que Bradlee falava. E certamente não era o caso do Rocky Mountain News e do Tucson Citizen. Por isso, em nome dos leitores locais, sou a favor da qualidade dos jornais, mas também sou a favor da quantidade de publicações.

“Obamas” podem ficar sem seus jornais

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A cidade do presidente dos EUA é a primeira do país a ter seus dois principais jornais em concordata

A cidade do presidente dos EUA é a primeira do país a ter seus dois principais jornais em concordata

Chicago, cidade onde o presidente americano Barack Obama tem sua residência pessoal, corre o risco de ficar sem seus jornais regionais. A mais recente vítima da crise da imprensa dos EUA é o Sun-Times Media Group, que publica o Chicago Sun-Times e mais 58 jornais. A empresa pediu concordata ontem. O grupo Chicago Tribune Company, que publica o Chicago Tribune, o Los Angeles Times e outros oito jornais (além de ter 23 canais de TV), já está nessa situação desde dezembro.

A capital de Illinois, uma das maiores cidades dos EUA, é a primeira a ter dois de seus principais jornais em estado pré-falimentar. Ambos continuam suas operações sem maiores mudanças, mas seus ativos estão à venda.

Na semana passada, o The New York Times, maior jornal americano, demitiu cem funcionários da área comercial e cortou em 5%, até o fim do ano, o salário de quem ficou. O Washington Post, outro gigante da terra do Tio Sam, anunciou um plano de aposentadoria antecipada para sua equipe. E o Seattle Post-Intelligencer agora só circula na Internet: nada mais de papel.

Demissões, redução de salários, jornais fechando as portas ou se transformando em operação online apenas… Muitas lições podem ser tiradas disso.

Estudantes de jornalismo não lêem jornais

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Knight: “isso representa um risco maior para a mídia impressa que a crise econômica global ou a perda de receita publicitária para a Web”

Knight: “isso representa um risco maior para a mídia impressa que a crise econômica global ou a perda de receita publicitária para a Web”

Essa veio de longe, literalmente do outro lado do mundo, mas aposto que se aplicaria aqui também: estudantes de Jornalismo australianos não lêem jornais. Não, você não leu errado: os futuros jornalistas fogem do veículo que dá nome a sua profissão. Para eles, jornais são pouco práticos, desajeitados, não têm uma ferramenta de busca, ficam se “desmontando” e sujam as mãos.

A conclusão é resultado de uma pesquisa realizada pelo professor de Jornalismo e Estudos de Mídia Alan Knight, da Universidade de Tecnologia de Queensland, em Brisbane (Austrália). Ele entrevistou 200 alunos de primeiro ano da graduação de Jornalismo, e 90% deles dizem que não lêem jornais. Mas isso não quer dizer que eles não estão atualizados com os acontecimentos: 95% acompanham o noticiário regularmente, mas a mídia preferida é a TV, seguida por uma Internet que cresce rapidamente na preferência dos entrevistados.

“Se os jornalistas do futuro não querem ler jornais, quem lerá?”, disparou o professor no site da própria universidade. “Isso representa um risco maior para a mídia impressa que a crise econômica global ou a perda de receita publicitária para a Web.”

E agora saboreie a cereja do bolo: eles também não gostam de jornais porque tem que pagar pelas notícias. Essa é de matar: os futuros jornalistas não querem pagar para consumir aquilo que, em pouco tempo, será o seu ganha-pão. Como são mesmo aquelas histórias de micropagamento, Kachingle e afins? Espero que essa turma esteja pensando nisso.

Kindle mais barato que jornal

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A salvação dos jornais pode estar em abandonar o papel

A salvação dos jornais pode estar em abandonar o papel

Nicholas Carlson, do The Business Insider, fez um exercício interessante, calculando grosseiramente qual é o custo anual de impressão de um ano do The New York Times para cada um de seus assinantes e depois comparando com o preço de um Kindle. O resultado é, no mínimo, curioso: o e-book da Amazon custa menos que a metade do necessário para se imprimir um ano do NYT. Como já é possível ler o Times no Kindle, ele ventila a idéia de que a direção do jornal deveria considerar presentear seus assinantes com o gadget e economizar milhões de dólares com impressão todos os anos.

A idéia é extravagante, porém emblemática! Mas nem Carlson nem eu estamos sugerindo que a “velha dama cinzenta” faça isso. Primeiro porque o Kindle é bacana, mas ainda não dá para fazer tudo nele. Depois porque uma ação como essa certamente teria impactos em outras partes do negócio, como publicidade ou vendas em bancas. Mas, em tempos de crise brava na mídia, especialmente na americana, não podemos nos dar ao luxo de tapar os ouvidos a idéias inovadoras. A salvação pode estar no rompimento de paradigmas.

Por que todo jornalista deve ter um blog?

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O blog permite ao "coleguinha" se reciclar profissionalmente e ainda colher grande resultados editoriais

O blog permite ao "coleguinha" se reciclar profissionalmente e ainda colher grande resultados editoriais

Esse assunto já foi falado e refalado, mas há muitos irredutíveis “coleguinhas” que “ainda resistem ao invasor”. No caso, essa tal de Internet e como o jornalismo fica cada vez mais interessante nela. Por isso, vou me dar o direito de emitir os meus pitacos.

A desculpa de sempre dessa turma é “não tenho tempo para escrever para o blog, pois tenho que fechar a revista” (ou o jornal ou o que for). Trabalhei em umas das maiores e mais respeitadas revistas do país, e sua direção não queria que os jornalistas mantivessem blogs, para que “não se distraíssem de seu trabalho”. Na verdade, esse era o pensamento não só da revista, mas da empresa. Tosco! Nada mais dissociado da realidade! Ninguém está falando de -heh- “parar de trabalhar na revista” para se dedicar ao blog. Os posts saem naturalmente do material apurado (e muitas vezes desprezado por falta de espaço ou porque esfriou), de um insight enquanto se pensa na pauta ou se remoi os textos, de uma conversa no cafezinho… Sai na urina! Quem não entende isso ou não consegue fazer isso não merece ser chamado de jornalista!

Esse argumento contrário grotesco acontecia até há bem pouco tempo. Felizmente (para eles), os blogs não são mais proibidos, e são até são incentivados. Alguns (poucos) veículos da casa já dão furos online, especialmente porque as revistas são, em sua maioria, mensais, o que inviabiliza o conteúdo quente.

Mas me dói, depois de tudo que falei, ver a “resistência”, a dificuldade de os colegas perceberem que blogs, ainda por cima, lhes trariam inúmeras vantagens profissionais! Trata-se da chance de exercitarmos um gênero textual novo, inexistente em publicações tradicionais. Os posts podem se tornar verdadeiras conversas com os consumidores de nossos trabalhos, sem intermediários, uma chance de melhorar nossos desempenhos profissionais com consultoria grátis. E daí vem outra vantagem: eles podem nos ensinar a ser mais humildes, a perceber que não estamos acima dos fatos, das leis, das pessoas, algo que falta a nós, jornalistas. E, de quebra, aprendemos a ser mais responsáveis, pois qualquer mancada no nosso blog é culpa só nossa: não dá para dividir com ninguém.

E para não ficar só no discurso vazio, alguns colegas da referida revista em que trabalhei -que desdenhavam os blogs- hoje se enchem de orgulho e batem no peito quando dão um furo em seu pequeno feudo e ele ganha uma chamada na home do UOL. Já vi colega até se esquecer que ainda está no site da revista, referindo-se ao sucesso instantâneo do “seu blog”.

Se nada disso ainda convencer, o colega deve pensar que, quando a publicação dele fechar as portas (a crise está aí!), ele ainda poderá continuar exercendo bom jornalismo. Em um blog.

Será que funciona no Brasil?

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A salvação do modelo econômico do jornalismo pode passar por sistemas como o Kachingle e os micropagamentos

A salvação do modelo econômico do jornalismo pode passar por sistemas como o Kachingle e os micropagamentos

Já que tenho falado de micropagamento, Kachingle e Steve Outing, ele tem posições bastante críticas quanto ao primeiro. Para Outing, esse sistema de remuneração simplesmente não funciona, pois seria contrário à natureza da Internet. Seu argumento: no micropagamento, o conteúdo continua fechado, dificultando seu compartilhamento entre os usuários e sua indexação pelos sistemas de busca. E, se você estiver fora do Google, está fora dos negócios. Para o guru, algo como a Kachingle faz muito mais sentido. O principal obstáculo para seu sucesso são os barões da mídia, que precisariam mudar de postura e convencer seus usuários a passar a pagar não apenas pelo seu conteúdo, mas sim para o conteúdo também de seus concorrentes. Afinal, o sistema distribui o dinheiro do usuário entre todos que ele considera merecedores.

Concordo com todas as posições de Outing acima, mas acho que essa é uma visão um pouco simplista e muito radical. Nesse momento, tudo o que NÃO precisamos são posições inflexíveis. Existem maneiras e maneiras de se implantar o micropagamento. Problemas como a indexação pelas spiders e a viabilidade de compartilhamento de links de conteúdo fechado já foram tratados, inclusive por aqui, pela Abril.

O que jamais se pode perder de vista é a simplicidade para o usuário acima de tudo. A Kachingle realmente faz mais sentindo, mas não estou totalmente seguro que ele vingará. E o motivo é apenas um: ele só é interessante se for onipresente e único, sem concorrentes. A partir do momento que aparecem três ou quatro desses sistemas, um site que eu apoiaria poderia estar com a Kachingle e outro estaria com o, digamos, “Letingle”. E aí, vou fazer depósitos em ambos? Já era, ficou difícil!

Há um outro fator que o Outing não menciona e nem poderia, já que ele não vive no Brasil: será que, por questões culturais, pelo famigerado “jeitinho brasileiro” de querer levar vantagem em tudo, pagaríamos pelo conteúdo que consumíssemos pela Internet? A massa prefere pagar R$ 1 por um DVD pirata, quando o original sai por R$ 12,99, um preço bastante razoável por um produto claramente superior -e nem entro aqui na questão da ilegalidade das cópias. Para o pessoal, é diferente assinar um jornal ou uma revista, pois o papel “tangibiliza” esse dinheiro pago. No final das contas, paga-se pelo… papel, pela sensação de ser “dono” de algo, mesmo que amanhã você use esse seu investimento para forrar a caixa de areia do gato.

Admitamos ou não, isso funciona diferentemente na Europa e principalmente nos EUA, onde as pessoas se sentem naturalmente compelidas a pagar por algo que poderia lhes ser entregue de graça, mas que lhes traz algum benefício, mesmo intangível. Ademais lá o jornalismo tem um caráter historicamente mais comunitário que aqui: ele nasceu não puramente como um negócio, mas sim como um serviço a sua comunidade local, que, em troca, o abraça.

Arrisco que a solução desse nó górdio está em algum lugar nesse post, mas eu tenho as hipóteses, não tenho a resposta. E você?

Another one bites the dust

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Há três dias, publiquei um post aqui comentando sobre o crescente cumprimento do temor de que a Internet acabaria com a mídia impressa, citando o caso da morte do Rocky Mountain News. Quase caí da cadeira agora quando recebi, pelo feed da Editor & Publisher, a informação de que o também americano Tucson Citizen publicará sua última edição no dia 21 de março. O jornal, que foi citado no referido post, vai parar depois de 138 anos de jornalismo. Estava à venda desde janeiro, mas a Gannett Co. Inc., que controla o Citizen, não conseguiu compradores.

Outros grandes jornais dos EUA estão na berlinda. A Hearst Corp. já colocou uma marca de morte na testa do San Francisco Chronicle e do Seattle Post-Intelligencer: o segundo deve ser fechado no mês que vem se não conseguir um comprador. Já o Los Angeles Times, o Chicago Tribune e o The Philadelphia Inquirer pediram concordata recentemente.

Espero que eles tenham mais sorte que os colegas de Denver e de Tucson.

Conteúdo pré-pago (e pós-distribuído)

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Que tal um sistema que distribua o dinheiro que você der a todos os sites que você achar merecedores?

Que tal um sistema que distribua o dinheiro que você der a todos os sites que você achar merecedores?

Como escrevi nos posts anteriores, a indústria de mídia impressa, especialmente nos EUA, vive um ponto de inflexão, de onde alguns sairão fortalecidos, enquanto outros inexoravelmente quebrarão, como aconteceu recentemente com o sesquicentenário Rocky Mountain News, de Denver (EUA). O motivo é a dificuldade da chamada “mídia tradicional”, mais notadamente a impressa, de se adaptar ao Admirável Mundo Novo que a Web representa e, com isso, vê suas receitas sendo drenadas mais e mais.

Muita gente séria enxerga no micropagamento -resumidamente o usuário pagar poucos centavos por cada matéria que quiser ler- a salvação da viabilidade econômica do jornalismo de qualidade na Web. Mas, para isso, existem dois obstáculos a serem vencidos. O primeiro é que os moguls da mídia aceitem a inevitabilidade do fato de que seu produto virou commodity e que, como tal, seu preço no mercado despencou. O segundo é a criação de um sistema que permita ao internauta fazer essa compra de uma maneira muito, muito simples, tão facilmente (ou de preferência mais facilmente) quanto comprar uma música no iTunes.

Mas deve haver outras formas. Uma delas está sendo lançada por uma start-up californiana chamada Kachingle. A idéia é inovadora e boa, a ponto de arrancar elogios de Steve Outing, um dos maiores consultores de mídia dos EUA.

Eu a chamaria de “microprépagamento proporcional”. Como funciona? Você informa seus dados apenas uma vez, um registro universal que valerá para todos os sites de conteúdo que você visitar (pelo menos para aqueles associados da Kachingle). Depois você define voluntariamente quanto quer pagar pelo conteúdo que você consumir -a soma de todo ele- no mês. Por fim, quando visitar um site que você acha que mereça seu dinheiro, clica nele em um link do Kachingle uma única vez. Assim, informa ao sistema que aquele site é “elegível” de receber uma parte do seu dinheiro. E isso vale para tantos sites quanto você achar merecedores. Ao final do mês, a Kachingle soma a quantidade de visitas que você fez entre seus pré-aprovados e distribui proporcionalmente o dinheiro que você depositou entre eles. Como exemplo, se você visitou, ao longo do mês, a Folha Online 25 vezes, o Macaco Elétrico 15 vezes o Limão dez vezes, todos pré-selecionados, o primeiro receberá 50% do dinheiro que você reservou para conteúdo, o segundo 30% e o terceiro 20%. Outros sites pré-selecionados, porém não visitados, não receberão nada.

O sistema da Kachingle embute vários pulos do gato. Primeiramente, transforma o pagamento pelo conteúdo algo praticamente transparente para o consumidor. Em segundo lugar, é um sistema justo, onde quem é mais relevante para o usuário recebe mais dinheiro. Oferece ainda ao usuário a chance de definir quanto quer pagar pelo conteúdo que consumir, sem surpresas. Finalmente, permite que o internauta possa ler o mesmo conteúdo de uma maneira grátis e irrestrita, o que é bom para ele e também para os veículos, que passam a ter a chance de ganhar algo com esse usuário, nem que seja com uma mísera exposição de banners. No modelo atual, de conteúdo fechado, esse internauta é simplesmente perdido.

Parece tudo de bom, não é mesmo? Sem dúvida, mas, como diz o ditado, “as boas idéias morrem na execução”. A Kachingle é certamente uma alternativa viável e mais inteligente ao micropagamento, porém tudo isso ainda é especulação, mesmo nos EUA. De toda forma, esse debate é muito saudável e crítico para o futuro das empresas de comunicação. Meu medo é que, até que se descubra a fórmula, o jornalismo tenha sido destruído por constantes cortes em mão de obra e investimentos. No início de março, o diário espanhol ABC demitiu 238 de seus 456 profissionais, 84 deles na Redação. Nem relógio trabalha de graça.