No dia 12 de março, o Tinder anunciou novos recursos com inteligência artificial para tentar corrigir um problema que ele ajudou a criar. Seu excesso de escolha transformou a busca por sexo e por amor em um exercício de fadiga. A promessa agora é trocar o malfadado “cardápio de gente” pela “curadoria de relacionamentos”. Resta saber se a IA terá sucesso onde os algoritmos tradicionais vêm falhando miseravelmente.
O uso da tecnologia para encontrar o par perfeito não é novo. Há três décadas, esses sistemas evoluem de formulários de características simples, como idade, religião e hobbies, para plataformas que cruzam dados, comportamento e preferências. As versões recentes tentam inferir e combinar padrões invisíveis ao próprio usuário, tornando-se, para muitos, o principal, se não o único, caminho para conhecer alguém.
Mas tanta “eficiência” tem cobrado um preço alto na saúde mental e na qualidade dos vínculos. Vemos uma distorção sistemática dos relacionamentos, resultando em laços extremamente frágeis e no fenômeno do “dating burnout”. Essa exaustão, derivada da esperança de que o próximo perfil será ligeiramente melhor, gera solidão, ansiedade e baixa autoestima. As pessoas nunca estiveram tão conectadas, mas raramente se sentiram tão sozinhas diante de uma lista infinita de opções descartáveis.
Esse cenário ecoa as ideias do filósofo polonês Zygmunt Bauman, que descreveu em 2003 o “amor líquido” como vínculos flexíveis e instáveis em uma cultura consumista. Isso dialoga também com a socióloga americana Sherry Turkle, para quem as pessoas passaram a esperar da tecnologia soluções eficientes para dilemas emocionais.
Se o amor nunca foi tão “mensurável”, tampouco foi tão instável. A dúvida é se a inteligência artificial pode, de fato, aproximar pessoas reais para relações saudáveis, ou apenas tornará mais eficiente um sistema que já vem sendo considerado falido pelos próprios usuários, pela pretensa “otimização” que corrói o investimento emocional necessário para relacionamentos de longo prazo.
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No “amor líquido”, os laços humanos tornaram-se bens de consumo que, se não trouxerem satisfação imediata, serão descartados. Na nossa realidade digital, o outro deixa de ser um indivíduo complexo para se tornar um objeto de gratificação momentânea. A tecnologia não apenas facilita esse processo, como o incentiva, ao transformar a busca pelo parceiro em um jogo de recompensas rápidas e superficiais.
Bauman argumentava que o grande dilema moderno é o conflito entre o desejo de segurança e o medo da prisão. As pessoas querem a estabilidade de um companheiro sem perder a liberdade de sair da relação ao menor sinal de tédio. Os aplicativos de namoro resolvem esse paradoxo de forma pragmática e cruel, ao oferecerem a ilusão de um vínculo que pode ser “desligado” com um clique, permitindo que o usuário mantenha um pé fora da relação enquanto ainda está nela.
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Isso reforça as ideias de Turkle sobre como esperamos da tecnologia saídas rápidas para problemas que são, por natureza, emocionais e lentos. Usamos esses sistemas como mediadores preferenciais porque exigem menos do que os seres humanos. Afinal, é mais fácil interagir com algo que nos oferece controle total que enfrentar a vulnerabilidade de uma conversa olho no olho, em que não há botão de “cancelar”.
A pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) explica que as pessoas buscam uma ilusão de companhia sem as exigências da amizade. E os aplicativos de namoro oferecem interação constante e validações do ego, mas com um custo emocional baixíssimo. Criam a “conexão pela conexão”, em um simulacro de intimidade que preenche o tempo, mas não o vazio da falta de uma presença real.
Vale dizer que a tecnologia não inventou o “amor líquido”, mas lhe ofereceu o terreno perfeito. Ao amplificar comportamentos que já vinham sendo moldados por décadas de individualismo e imediatismo na sociedade, ela ampliou uma aversão ao compromisso que já estava latente na cultura ocidental. E os smartphones aceleraram uma desintegração social iniciada muito antes do lançamento do primeiro aplicativo.
Culpar as plataformas é uma saída confortável, mas simplista. O problema não está na tecnologia em si, mas no tipo de vínculo que incentiva e nas expectativas que constrói.
“Traição líquida”
Em janeiro de 2025, o “The New York Times” contou o caso de uma americana de 28 anos, que é casada, mas tem um “amante de IA” com quem passa mais de 50 horas por semana, incluindo interações sexuais por texto. O marido sabe e não se incomoda, já que não há consumação física.
Sob a ótica de Bauman e de Turkle, ambos ganham com esse arranjo distópico. A mulher obtém a atenção ininterrupta e a validação de um sistema programado para agradar, enquanto o marido se livra da carga emocional de suprir todas as demandas da esposa. Criou-se uma relação em que ninguém se esforça, ninguém se sacrifica e ninguém se compromete de verdade. O vínculo humano é substituído por uma conveniência técnica que mantém a paz doméstica ao custo da profundidade.
Diante de casos como esse, cada vez mais numerosos, a sociedade precisa repensar conceitos como paquera, ciúmes e até traição. Estamos redesenhando o amor para que ele caiba nas limitações e facilidades dessas plataformas digitais, porém, se a nossa definição de relacionamento passa a aceitar uma simulação como equivalente ao real, podemos estar perdendo a bússola do que significa ser humano. O risco é nos tornarmos tão “eficientes” em evitar os desafios do amor, que acabemos esquecendo como sentir qualquer outra coisa que não seja o conforto falso dessas plataformas.
O cansaço emocional e a descartabilidade de fenômenos como o “dating burnout” mostram que há muitos relacionamentos mediados por tecnologia, mas pouca presença, escuta e continuidade. Isso reforça o diagnóstico de Turkle sobre vínculos frágeis em ambientes digitalmente mediados. As pessoas estão falando sem parar, mas sem escuta, e conectando-se com muitos, mas sem comprometimento. Estamos sempre “quase lá”, sem nunca estar inteiramente com alguém.
Se a inteligência artificial promete otimizar e prever o amor, talvez não devêssemos nos preocupar se isso é possível tecnicamente, mas se, com ela, o amor continuará sendo amor ou se acabará transformando-se apenas em uma “experiência eficiente”. Relacionamentos envolvem incerteza e vulnerabilidade, com chance real de se machucar. Ao tentar eliminar o risco, podemos estar retirando exatamente aquilo que torna o vínculo afetivo significativo.
É provável que a tarefa mais urgente não seja então delegar mais decisões aos algoritmos, e sim decidir, com alguma coragem, que tipo de humanidade queremos levar para nossas telas.
