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Exibicionismo nas redes sociais: por que as pessoas se expõem online

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Cena de “Janela Indiscreta”, clássico de Alfred Hitchcock de 1954 – foto: reprodução

Cena de “Janela Indiscreta”, clássico de Alfred Hitchcock de 1954

Desde as primeiras webcams, voyeurismo e exibicionismo inundam a Internet. Com os smartphones, ambos passaram a ser praticados a qualquer hora e lugar, ganhando uma legião de adeptos, inclusive entre adolescentes. Longe de qualquer discurso moralista, de vez em quando, as coisas fogem do controle, reabrindo o debate sobre os riscos do exibicionismo online.

Recentemente, tivemos dois exemplos extremos disso. Há alguns dias, uma adolescente se suicidou após suas amigas publicarem no Snapchat um vídeo dela tomando banho. Em outro caso, uma mulher está sendo processada por transmitir o estupro de uma amiga pelo Periscope. Apesar de, nesses dois episódios, os vídeos terem sido postados sem consentimento, esses dois aplicativos se tornaram ferramentas incríveis para esse “Big Brother pessoal”.


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Apesar de os termos de uso do Periscope e do Snapchat proibirem explicitamente conteúdo sexual ou pornográfico, não é difícil se deparar com isso nos dois serviços. Mas o que leva alguém a se expor dessa forma? E as pessoas realmente têm consciência do que estão fazendo?

O principal motivo é que, em tempos de vidas hiperconectadas, ver uma foto ou um vídeo seu sendo amplamente compartilhado e “curtido” causa um enorme prazer aos seus autores. O feedback instantâneo de comentários e de ícones de positivo e corações aquece o ego e incentiva uma corrida para se tornar uma microcelebridade online, seja entre seus amigos, seja em um grupo de desconhecidos em escala global.

Nessa busca pela “fama”, vale tudo. E poucas coisas são tão eficientes nessa jornada quanto erotismo e sexo.

O Snapchat tem uma curiosa característica de que todo o conteúdo publicado nele se autodestrói pouco tempo após ser visto pelo destinatário. Isso causa uma sensação de segurança, que tem favorecido o compartilhamento de imagens íntimas para “sexting”, ou seja, conversas online de conteúdo sexual.

Só que essa segurança é pura ilusão.

 

“Manda nudes”

O Snapchat realmente destrói os conteúdos logo após serem visualizados. Mas nada impede que os destinatários criem cópias dessas fotos e vídeos antes que isso aconteça. Portanto, aqueles “nudes” (fotos explícitas) podem ter uma vida nada efêmera.

Trocando em miúdos: sabe-se onde surge a imagem, mas não se sabe onde ela vai acabar. E aí está o problema: as pessoas nem sempre têm consciências disso.

Por exemplo, aquelas imagens enviadas cheias de confiança para o outro podem se transformar, no futuro, em outro fenômeno recente: a “revenge porn”, quando uma das partes espalha fotos íntimas da outra na Internet, normalmente por vingança pelo fim de um relacionamento.

No caso de adolescentes, a exposição de sua intimidade também pode estar associada a mais um fenômeno da cultura digital: o “cyberbullying”, quando as redes sociais são usadas para humilhar um desafeto. E imagens íntimas são ótimas para isso. Disso podem surgir atitudes extremas, como o suicídio mencionado no segundo parágrafo.

O fato é que não existe segredo na Internet. Por mais que se use os controles de privacidade das redes sociais, por mais que aplicativos garantam o anonimato, uma vez na rede, não tem volta: tudo corre o risco de vazar.

Mesmo lugares que são criados com a premissa da defesa da privacidade, não há garantia de segurança absoluta. Em 2014, James Comey, diretor do FBI, disse que existem dois tipos de grandes empresas: aquelas que já foram invadidas e aquelas que não sabem que já foram invadidas.

Como esquecer do caso da invasão do site Ashley Madison, que promove relacionamentos extraconjugais, ocorrida em agosto de 2015? Subitamente não apenas os dados pessoais de milhões de usuários foram expostos pelos hackers, como também as pessoas com quem conversaram, o que disseram e até as fotos que trocaram.

 

O que fazer?

Mas então devemos parar de usar nossos smartphones? Abandonar as redes sociais? Deixar de enviar fotos a quem gostamos?

Claro que não! Não devemos renegar o mundo que vivemos, e sim usá-lo com sabedoria.

E isso significa, para começar, seguir o ditado que diz que “não devemos dar sorte ao azar”. Em outras palavras, ao fazermos alguma coisa, devemos pelo menos estar conscientes do que cada ato representa. Tirar uma foto sensual não é um problema; publicá-la online para um grande grupo de pessoas (especialmente se tiver desconhecidos nela), pode ser. A menos que a superexposição não seja um problema em absoluto para essa pessoa, e ela estiver muito segura disso.

No caso de se ter filhos na adolescência ou entrando nela, uma conversa sincera é fundamental. Nunca no sentido de proibição ou de amedrontamento, mas de conscientização. A melhor maneira de se evitar dissabores nesse sentido é oferecer aos filhos todos os recursos para que eles compreendam o que fizerem. Além disso, é fundamental que pais e filhos conversem com franqueza e confiança sobre tudo, para que os primeiros sejam o porto-seguro dos segundos, sempre que precisarem.

Tudo porque estamos vivendo um momento de grande transformação social. Não é necessário temê-lo. Tentar impedi-lo não é possível. A melhor coisa a se fazer é compreender as mudanças e usá-las com inteligência e a nosso favor: curti-las numa boa e com confiança!


O perverso coquetel da cultura do estupro, impunidade e redes sociais

By | Educação | 4 Comments

Foto: reprodução

Depois de barbarizarem uma jovem de 16 anos no dia 21, alguns de seus agressores, não satisfeitos, decidiram postar um vídeo do estupro coletivo nas redes sociais. Eu me pergunto: o que leva alguém a disseminar online algo que, por si só, já é uma violência inominável?

O tal vídeo viralizou mais rápido que rastilho de pólvora. E de toda essa brutalidade surgiram dois movimentos antagônicos. O primeiro deles, felizmente o da maioria da população, condenou veementemente não apenas o estupro, mas também a sua exposição online. Mas houve um inacreditável grupo que desfilou todo tipo de argumentos justificando tudo aquilo. E isso nos leva a algumas importantes reflexões sobre como os meios digitais atuam no comportamento humano.


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A pessoa que postou no Twitter o vídeo de 40 segundos que viralizou, onde a adolescente aparece ao lado de seus agressores (que não temem ser identificados pelas imagens), afirma que não conhecia a vítima ou os agressores, nem que se tratava de um estupro. Teria recebido as imagens em um grupo do WhatsApp e as republicado.

Na sua infeliz justificativa, pode ser identificada a raiz de todo esse problema. Apesar de a adolescente estar desacordada, nua, ferida e cercada de homens, ele não viu nada de errado ali: achou apenas muito engraçado, a ponto de fazer piadas enquanto passava adiante o show de horror.

A maior desgraça disso tudo é, portanto, perceber que nossa cultura é a grande responsável por esse completo descaso com a vida, com a honra e com a privacidade. E que os meios digitais se prestam a ampliar tudo isso!

Quando aprendemos, desde pequenos, que a mulher tem uma posição inferior, onde o homem pode tudo e ela não vale nada, criam-se os mecanismos para que mais de 30 sujeitos se unam para violentar uma adolescente, uma quantidade enorme de outros indivíduos ache isso divertido e divulgue o ato para o máximo de pessoas que puder, e uma parcela significativa da sociedade não apenas os aplauda, como também justifique toda essa barbárie.

E não pensem que isso está no inconsciente coletivo apenas das classes sociais mais baixas ou dos menos escolarizados. O anúncio da Dolce & Gabbana que abre este artigo deixa claro que isso acontece mesmo nas classes mais altas e refinadas. Quando foi publicado, causou comoção internacional, sendo acusado de apologia ao estupro coletivo. Para se defender, a marca disse que aquilo fazia parte das “fantasias femininas”.

Portanto, essa cultura do estupro existe, em maior ou menor grau, em todos os países. Infelizmente é muito arraigada na sociedade brasileira. Por isso, a diretora francesa Éléonore Pourriat encontrou uma maneira brilhante de explicar esse desequilíbrio de que “o homem pode tudo e a mulher pode nada”, com seu curta-metragem “Maioria Oprimida”, que pode ser visto abaixo na íntegra e legendado (10’43’’):



Nada como calçar os sapatos do outro, não é?

 

O mito da “vida online”

Infelizmente o caso da jovem carioca não foi o primeiro nem será o último de violência ampliada pela Internet. Aqui mesmo, nesse espaço, já discutimos o que aconteceu com a menina Valentina, participante do programa MasterChef Júnior do ano passado, que foi vítima de uma onda de assédio pelo simples fato de estar lá. Portanto, em uma sociedade completamente conectada, vale discutir o papel dos meios digitais nesse processo todo.

A Internet evidentemente não é culpada de nada disso. Ela não cria esses comportamentos, apesar de funcionar como uma caixa de ressonância daquilo que seus usuários pensam. Por isso, vemos casos assim se tornando populares. E aí surge a sensação de que, na “vida online”, vale tudo.

Quantas vezes não nos surpreendemos com o comportamento de amigos nas redes sociais, que vociferam barbaridades que parecem não combinar com aquela pessoa que conhecemos tão bem? Isso acontece porque, para muita gente, existe uma ilusória sensação de que, quando estão online, aquilo é uma “outra vida”, regida por outras regras, quase como se fossem outras pessoas.

Isso “destrava” elementos de suas personalidades que normalmente são guardados na sua parte mais profunda, justamente porque as convenções sociais fazem restrições a eles. O caso mais comum é o de pessoas que expõem o seu próprio corpo e pensamentos íntimos como se os estivesse confidenciando a um amigo próximo, quando, na verdade, a audiência chega a ser global!

Outro problema decorrente disso –e que tem muito a ver com os casos de violência da jovem do Rio e da menina Valentina– é a sensação de impunidade. Para muita gente, a Internet é uma terra sem lei, onde se pode tudo, mesmo as maiores atrocidades, e que nada os atingirá. Desde pequenas confissões até claramente assumir a participação em crimes, está tudo lá, documentado online.

Nada mais equivocado! Os meios digitais não são a “casa da Mãe Joana”, simplesmente porque não existe essa história de “vida online”: ela é apenas uma outra expressão da única vida que cada um de nós tem. Portanto, o que se faz na rede paga-se “online e off line”.

Se serve de consolo, diante de tanto horror, podemos tirar algo de bom. Se os meios digitais se prestam a disseminar o pior do ser humano, eles também são excelentes ferramentas para se criar debates saudáveis em torno desses temas, ajudando na conscientização das pessoas para que essas barbaridades aconteçam menos no futuro. Exatamente como estamos fazendo aqui.

Como não lembrar da campanha #primeiroassedio, criada justamente por conta dos ataques à Valentina? E agora vemos essa enorme mobilização nacional contra o estupro.

Das cinzas de tanto horror e de tanto sofrimento, temos que nos esforçar para extrair uma sociedade melhor, mais digna, mais humana. E as redes sociais, onde tudo aquilo apareceu, são, afinal, excelentes ferramentas para o bem.


Vamos falar sobre a linguagem certa para público certo na Social Media Week? Esse é o segredo do sucesso nas redes sociais. É só entrar nesta página e clicar no botão verde de CURTIR abaixo da minha foto.


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