desigualdade social

Jovens prestam vestibular: medo e pressão atrapalham a escolha da carreira na Geração Z – Ilustração: Paulo Silvestre

Custos, retorno menor, desigualdade e inteligência artificial ameaçam valor da universidade

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Historicamente, o diploma de um curso superior era o passaporte para um emprego bem remunerado, que garantia um padrão de vida alto. Porém, mudanças no mercado de trabalho, novos interesses dos jovens e o avanço da inteligência artificial estão provocando questionamentos inéditos sobre dedicar anos à universidade.

Esse é um fenômeno global, mas com nuances locais. No Brasil, a universidade ainda guarda um forte valor simbólico e prático de ascensão social e profissional. Mas uma pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie revelou que o ensino superior precisa mudar para manter isso diante de jovens que buscam formações alinhadas a seus valores e conectadas às transformações sociais, culturais e tecnológicas.

Nos Estados Unidos, a situação é mais dramática. Um levantamento da plataforma de empregos Indeed indicou que 51% dos jovens da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) consideram a universidade um “desperdício de dinheiro”, contra 41% dos millennials (entre 1981 e 1996) e 20% dos baby boomers (entre 1946 e 1964).

Não é para menos. Os custos dos cursos universitários na terra do Tio Sam dobraram desde o ano 2000, enquanto os salários cresceram muito menos. Muitos profissionais precisam trabalhar até 20 anos para pagar pela sua formação. E por lá, a diferença entre a média dos salários das pessoas com e sem ensino superior não para de cair.

A explosão da inteligência artificial generativa ampliou esse dilema. Cada vez mais profissionais acham que saber operar bem essa tecnologia pode dispensá-los de fazer uma faculdade. Por outro lado, empresas estão contratando menos profissionais recém-formados, pois os gestores acreditam que a IA pode fazer tudo que eles fariam.

Essa “tempestade perfeita” pode levar a uma sociedade cada vez menos crítica, com profissionais incapazes de descobrir algo novo e dependentes da IA. Mas há esperança, e ela passa justamente pela transformação das universidades.


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Para Ana Lúcia de Souza Lopes, pesquisadora do programa de Educação, Arte e História da Cultura, que participou da pesquisa do Mackenzie, muitos jovens da geração Z, que cresceram vendo a tecnologia desconstruindo profissões tradicionais, preferem ser influencers ou gamers, que não exigem longas formações. “Uma das coisas que nos chamou muita atenção é a questão do medo, da pressão, da confusão sobre o processo de aquisição de conhecimento e até de pensar em uma carreira”, explica.

A pressão por decidir o futuro ainda no Ensino Médio se choca com uma geração emocionalmente frágil, bombardeada por narrativas instantâneas e espetaculares nas redes sociais. Isso reforça os “nem-nem”, jovens que não estudam nem trabalham. No Brasil, esse grupo se amplia em ritmo preocupante, refletindo uma realidade global de desalento profissional precoce.

A reforma do Ensino Médio, já em sua terceira versão, ampliou o abismo entre alunos das redes pública e privada. Enquanto escolas particulares focam no vestibular, a educação pública foi fragmentada em itinerários formativos que deixaram alunos menos preparados para o ensino superior.

Com isso, temos jovens privilegiados que fazem múltiplas graduações, buscando formação interdisciplinar. Por outro lado, cresce uma massa que busca alternativas em cursos técnicos, certificações digitais ou simplesmente desiste.

A substituição de recém-formados pela inteligência artificial cria um perigoso paradoxo profissional. Afinal, para se tirar bom proveito dela, é preciso saber o que e como lhe pedir, algo que se aprende na universidade e com experiência profissional. Mas se as empresas não contratam mais esses jovens, como esperam ter profissionais experientes no futuro, para operar a IA? Ninguém nasce sabendo!

É mais uma miopia que engrossa esse caldo, ameaçando a trajetória das pessoas, a sobrevivência das empresas e o desenvolvimento da sociedade. Com isso, corremos o risco de ter, em alguns anos, não mais uma massa de desempregados, mas de “inempregáveis”, pessoas que não terão habilidades para realizar qualquer trabalho.

 

Para que serve a universidade

Lopes reforça o risco de se olhar para a universidade de forma apenas utilitarista. A sociedade está reduzindo a educação a uma transação comercial, em que se investe tempo e dinheiro para se receber um emprego. Mas quando essa equação não se sustenta, o sistema entra em colapso.

“A universidade tem toda uma dinâmica de vivência que contribui para a formação de quem é esse profissional”, afirma a pesquisadora. Para ela, “isso é muito importante na formação desse humano que pensa e que precisa entender a complexidade do mundo, enxergando os dilemas da sociedade”.

O fenômeno de desvalorização da universidade é, portanto, complexo e multifacetado. Há exagero e desinformação, ampliados por sensacionalismo nas redes sociais e por influenciadores que vendem a falsa ideia de que bastam carisma e um celular para enriquecer. Mas também há falhas reais, como currículos “engessados”, modelos pedagógicos ultrapassados e pouca conexão com os dilemas contemporâneos.

Isso pode nos levar a uma elite cada vez mais poderosa, conectada e formada globalmente, e a uma grande maioria deslocada, desorientada e sem as ferramentas básicas para se posicionar no mundo. E isso cria uma “bomba-relógio social”.

A sociedade precisa se unir para solucionar o problema. As universidades devem flexibilizar seus currículos, sem dispensar a profundidade crítica. Escolas precisam se reconectar com a realidade e formar cidadãos, não apenas candidatos ao vestibular. Empresas devem reavaliar o uso da IA, abrindo espaço para aprendizes e fomentando programas de desenvolvimento de talentos. Por fim, o governo deve garantir equidade no acesso ao ensino de qualidade, especialmente para os mais vulneráveis.

Paradoxalmente, a própria IA reforça a importância das competências desenvolvidas em um bom curso superior. Enquanto algoritmos executam tarefas repetitivas, humanos precisam definir estratégias, tomar decisões éticas e navegar por complexidades que máquinas não compreendem. Profissionais com formação sólida estão mais bem preparados para comandar a IA, e não serem comandados por ela.

A escolha não pode recair, portanto, entre fazer faculdade ou se apoiar na tecnologia, mas entre ser protagonista ou coadjuvante da própria carreira e da vida. Em um mundo em que máquinas fazem cálculos probabilísticos incríveis, humanos bem formados fazem a diferença ao definir quais desses cálculos realmente importam.

 

IA pode ampliar capacidades de profissionais de diversas áreas, mas apenas 21% dos brasileiros a usam - Foto: Freepik/Creative Commons

Inteligência artificial pode ampliar abismo social no Brasil

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Cresce o consenso de que a inteligência artificial pode oferecer um grande salto de produtividade para profissionais das mais diferentes áreas. Ironicamente isso pode ampliar o abismo social no Brasil. Somos um país em que pouca gente tem acesso a essa tecnologia, o que pode fazer com que a produtividade dos profissionais mais bem preparados se distancie ainda mais da dos menos capacitados.

Uma pesquisa da Genial/Quaest, divulgada na semana passada, indica que apenas 21% dos brasileiros já usaram alguma ferramenta de inteligência artificial. A grande maioria deles está entre pessoas com curso superior e em classes sociais mais altas.

São os mesmos indivíduos que já têm um acesso mais amplo e de melhor qualidade a equipamentos eletrônicos e à Internet. Em um mundo profundamente digital, isso representa um inegável ganho competitivo.

Ainda há muita gente sem acesso a elementos essenciais de bem-estar no Brasil, como saneamento básico e eletricidade. Assim, preocupar-se com isso pode parecer luxo e até futilidade. Mas se encararmos a Internet e a inteligência artificial como as ferramentas de transformação social que são, entenderemos por que devem ser incluídas no pacote civilizatório que precisa ser oferecido a todos os cidadãos.

O abismo digital que reforça o social é um problema de décadas em nosso país, que não dá sinais de melhoria. A popularização dos smartphones, que poderia indicar um aspecto positivo, não resolve verdadeiramente o déficit digital da população.


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“A desigualdade social no Brasil se revela na diferença entre escolas públicas e privadas no acesso a computadores e Internet, por exemplo, e saltou aos olhos na pandemia, quando as crianças e jovens mais pobres não tinham como ter aulas online, por não terem computador ou acesso à internet em casa”, explica Felipe Nunes, fundador da Quaest. “O resultado da pesquisa é mais um dado dessa desigualdade.”

De fato, quando as escolas estavam fechadas por conta do Covid-19, mesmo as públicas ofereciam aulas online. Mas muitos alunos não conseguiam aproveitar bem esse recurso, porque não tinham computador em casa, e a experiência na tela pequena dos smartphones não era tão boa. Outros problemas enfrentados eram os pacotes de dados limitados e a residência ter apenas um aparelho, que precisava ser compartilhado entre todos os membros, para suas atividades diárias.

A pesquisa da Genial/Quaest também indica forte correlação do uso da IA com as faixas etárias, pendendo para os mais jovens: 33% dos brasileiros entre 16 e 34 anos já usaram a inteligência artificial, contra 19% entre 35 e 59 anos, e apenas 6% entre os que tem 60 ou mais.

A criação de textos é, de longe, a aplicação mais conhecida, tendo sido usada por 48% dos brasileiros que já aproveitaram a IA, seguido pela organização de arquivos (18%) e geração de imagens (16%). Sobre a percepção sobre os resultados, 76% dos usuários acharam a experiência positiva, 19% disseram que foi regular, e apenas 3% não gostaram.

Entre os usuários, 46% acharam que a IA é uma oportunidade para a humanidade, enquanto 37% a viram como uma ameaça e 17% não souberam o que dizer sobre isso. Há também medos em relação à IA, como ela ser usada para aumentar a desinformação (apontado por 82% das pessoas), para tornar grupos perigosos mais poderosos (81%), controle da população por governos autoritários (80%), manipulação da opinião pública (76%) e justamente piora na desigualdade social (76%).

Esses números sobre medos são expressivos, ainda mais se considerarmos que a maioria acha a IA uma oportunidade, com ampla vantagem para os que a veem como positiva. Mas uma coisa é sentir os benefícios da tecnologia em seu cotidiano, outra é entender os riscos que ela oferece.

“A IA é um campo imenso de possibilidades, que ainda estamos longe de compreender inteiramente”, explica Nunes. “Acredito que todo mundo tem atualmente apenas uma pequena ideia do que está por vir”, afirma.

 

Inclusão digital

Segundo a edição mais recente da TIC Domicílios, pesquisa sobre o uso de tecnologia nas residências no país, divulgada em agosto de 2023 pelo Cetic.br, 29,4 milhões de brasileiros não têm acesso à Internet, sendo 17,2 milhões deles das classes DE e 10,3 milhões na classe C.

O acesso feito exclusivamente pelo smartphone acontece em 58% da população conectada, mas esse número chega a 87% no caso da classe DE. Isso impacta diretamente as habilidades digitais dos usuários. Por exemplo, 71% das pessoas que estão online pelo computador e pelo smartphone verificam se uma informação que receberam é verdadeira, contra apenas 37% das conectadas apenas pelos celulares.

Dar acesso à Internet e à inteligência artificial é, portanto, cada vez mais crítico para o desenvolvimento pessoal e profissional do indivíduo. Mas é preciso também melhorar o nível do letramento digital das pessoas, para que façam um uso verdadeiramente positivo desses recursos tão poderosos.

Isso está se tornando um direito humano, considerando a digitalização galopante de nossas vidas e como esses recursos melhoram praticamente todas as atividades em que são usados. Governos, escolas, empresas e outros membros da sociedade civil precisam se engajar para a oferta de acesso à tecnologia, mas também para sua compreensão e domínio consciente e ético.

Caso contrário, veremos a inteligência artificial empurrando ainda mais para o fundo aqueles que já ocupam uma posição mais baixa na sociedade. Afinal, não é essa tecnologia que roubará seus empregos, e sim aquelas pessoas que estiverem se apropriando e usando melhor seus recursos.

 

A desgraça do nosso país passa por reduzir sua profissão mais importante a um “bico”

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Anúncio da rede Anhanguera, oferecendo formação de professores como “segunda carreira” - foto: reprodução

Anúncio da rede Anhanguera, oferecendo formação de professores como “segunda carreira”

A terrível crise que draga o Brasil há pelo menos quatro anos continua firme e forte. A sociedade bate cabeça tentando explicar como chegamos a isso e principalmente como sair dessa situação. Nesse cenário, duas péssimas notícias ligadas à educação brasileira, que ganharam as manchetes recentemente, servem para nos ajudar a entender tudo isso.

A primeira delas se refere a dois infames anúncios publicados recentemente pelas redes Anhanguera Educacional e Unopar, ambas da Kroton Educacional. A outra se refere à agressão a uma professora de Santa Catarina por um aluno adolescente. Não proponho aqui uma simples defesa dos professores, mas sim trazer para o debate como a má educação está na raiz das mazelas do nosso país, e como uma boa educação pode nos levar a vencer tudo isso.


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Desde sempre, defendo como a educação é o melhor caminho para que o país resolva os seus problemas. A explicação é simples: qualquer país que tem uma população (e isso vale para todos seus cidadãos) bem educada, conhecedora de seus direitos e também de seus deveres, com consciência cívica e responsabilidade social, progride a passos largos. E isso acontece porque cada um sabe e cumpre seu papel, e também cobra adequadamente que todos –e não apenas os governantes– façam o mesmo.

A realidade é, entretanto, muito mais complexa, e nos afastamos cada vez mais do bom caminho. Nossa educação, do ensino infantil à pós-graduação, coleciona indicadores vergonhosos. Mas ela é apenas o reflexo de uma sociedade que se orgulha e folcloriza o ‘jeitinho brasileiro”, um nome “fofo” para a corrupção que cada um de nós pratica no dia a dia. É o país que criou a “Lei do Gerson”, onde “esperto” é aquele que tira vantagem de tudo, mesmo que isso inevitavelmente signifique prejudicar o próximo. Essa também é a sociedade cada vez mais radical em suas visões políticas, em que “você está comigo ou contra mim”, quando, na verdade, são todos farinha do mesmo saco (e, pior, sabemos disso).

E por falar em farinha, se o que manda é o conceito de que “farinha pouca, meu pirão primeiro”, como esperar que a boa educação, capaz de formar cidadãos que queiram construir uma sociedade justa para todos, seja valorizada?

 

Por que o professor vale tão pouco

Nos anúncios da Anhanguera e da Unopar, a mensagem é contundente: “torne-se professor e aumente sua renda”. Em outras palavras, a atividade de professor é vendida como um “bico”.

As peças publicitárias provocaram uma enxurrada de críticas, a ponto de as terem que ser retiradas de circulação, com um pedido de desculpas pela nota abaixo:


“Erramos. Nós, da Anhanguera, pedimos desculpas pela mensagem equivocada sobre a função e a importância dos professores. A campanha de marketing que causou mal-estar não representa o que nós, como instituição de ensino, acreditamos, e foi retirada do ar. Nossa intenção com o curso de Formação Pedagógica é incentivar que profissionais já formados possam ter também essa habilitação e contribuir para a resolução do déficit de professores que o Brasil enfrenta. Acreditamos que, promovendo a docência, temos o caminho para o desenvolvimento social e econômico do país. Por fim, esclarecemos que, esta campanha, em específico, não foi submetida à análise prévia do Luciano Huck e de sua equipe”.


Não vejo problema de outros profissionais investirem seu tempo livre na sala de aula. Muito pelo contrário: nada melhor que pessoas capacitadas compartilhando o que sabem! Mas que façam isso por vocação, por prazer, não apenas para “ganhar uns trocados”.

O mais triste nessa história toda não é a péssima mensagem passada pelas peças, mas o fato de alguém ter pensado nelas. Não nos enganemos: se a equipe criativa da agência bolou a campanha e alguém do grupo educacional a aprovou é porque, ainda que no seu subconsciente, essas pessoas realmente acreditam que ensinar pode ser um “bico”.

E nem podemos crucificar esses indivíduos, pois eles pensam assim porque a sociedade brasileira, de uma maneira geral, pensa exatamente dessa forma! Qual professor nunca ouviu a infame pergunta de seus alunos: “além de dar aula, você trabalha?” Eu mesmo já ouvi isso várias vezes.

Por que um médico, um engenheiro, um advogado (só para ficar em algumas das carreiras mais desejadas pelos jovens) nunca ouvem uma pergunta dessa? Porque o inconsciente coletivo brasileiro “sabe” que é necessário estudar muito para exercer tais profissões. Já o professor é visto como uma segunda carreira ou –e isso é de lascar– vai ser professor aquela pessoa que “não consegue ser mais nada”.

Essa ideia é reforçada pelas péssimas políticas educacionais, pela crescente e constante desvalorização do professor por todos os governos municipais, estaduais e federal, por condições deploráveis de trabalho e salários obscenos. Some tudo isso a esse inconsciente coletivo, e você começa a ter, na média, profissionais com nível cada vez mais baixo nas salas de aula. Claro! Haja vocação para insistir nessa carreira!

Como podemos esperar um país melhor se o profissional responsável por formar todos os demais profissionais não tem nenhum valor?

Não podemos.

 

Como construir um tigre asiático

Diante de tamanha desvalorização, vemos casos recorrentes de agressões contra professores, realizadas por pais e até mesmo por alunos. Foi o que aconteceu com a professora Marcia Friggi, de 51 anos, esbofeteada por um aluno de 15, cujo caso foi mencionado no início desse artigo. Mas o pior veio depois: nas redes sociais, muitas pessoas apoiaram a professora, mas também muitos outros a insultaram, dizendo que ela mereceu a agressão!

Difícil dizer o que é mais bizarro nesse caso.

A desvalorização do professor pela sociedade, culminando tanto nas agressões quanto na desmotivação dos docentes, foi brilhantemente explicado no documentário “Pro Dia Nascer Feliz”, de João Jardim (2005), que pode ser visto na íntegra abaixo (88 minutos):



Cria-se, portanto, um círculo vicioso: a sociedade não consegue melhorar e valorizar os professores, por isso eles ficam cada vez piores, e isso torna a sociedade ainda pior, desvalorizando mais e mais os docentes.

Olhando de fora, parece que não temos saída. É possível romper isso? Sim! Basta ver o exemplo da Coreia do Sul.

Trabalhei alguns anos na Samsung, onde aprendi muito sobre a cultura e a história do seu país de origem. Algumas coisas me surpreenderam, e poderiam ser aplicadas aqui.

Por exemplo, antes da guerra civil (1950 a 1953), que dividiu o país em dois, a Coreia era a nação mais pobre do mundo, muito mais pobre que o Brasil na época! Após a divisão, a Coreia do Sul, a despeito de inúmeros problemas políticos, investiu pesadamente em educação, de uma maneira consistente –ou seja, a coisa não ficava mudando a cada novo governo. Outra característica da educação sul-coreana é que apenas os melhores entre os melhores da sociedade podem ser professores. Portanto, ser professor lá é uma grande honra, uma carreira muito valorizada e admirada por todos.

Mesmo assim, foram necessários 30 anos para o país miserável se transformar em um tigre asiático. Como se pode ver, não se trata de uma tarefa simples nem rápida, mas é possível.

O Brasil de hoje está em uma situação econômica incomparavelmente melhor que a Coreia pré-divisão. E, apesar de vivermos a pior crise de nossa história, nada impede que criemos e implantemos uma política educacional séria, consistente e de longo prazo, ou seja, que transcenda o fim de cada governo.

A crise econômica, os escândalos políticos, a corrupção infinita e endêmica, o “jeitinho brasileiro”, a violência urbana, as desigualdades sociais… Tudo isso e muito mais só acontece porque somos uma nação mal educada.

Nada, nem mesmo inclusão econômica de classes menos favorecidas, resolverá qualquer um desses problemas. Se realmente quisermos um país que seja bom para vivermos e do qual nos orgulhemos, precisamos investir na educação. Isso significa cobrar dos governantes mais seriedade nessa área, participar ativamente das atividades das escolas de nossos filhos, colaborar, como empresas, com iniciativas educacionais. Todos precisam dar a sua contribuição!

Mas, acima de tudo, isso devemos valorizar o professor. Sem isso, nunca sairemos do buraco onde estamos.


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