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Proibição de lives no Discord esconde um problema sistêmico das redes sociais

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A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou na quarta (12) a suspensão preventiva das transmissões ao vivo do Discord no Brasil, depois que uma adolescente se suicidou em uma live. O prazo para cumprir a determinação vence hoje (17), mas a empresa já pediu prorrogação. O bloqueio tem provocado polêmica, mas traz apenas um lampejo sobre a pouca disposição das redes sociais de resolver um problema sistêmico que elas criaram e que está na essência desses serviços.

Além do Discord, plataformas digitais como Roblox, TikTok, Instagram, Telegram e WhatsApp possuem características como anonimato relativo, comunicação privada, formação de comunidades fechadas, recomendação de conteúdo e mecanismos de viralização. Apesar de suas arquiteturas serem diferentes, tudo isso dificulta a supervisão adulta do que crianças e adolescentes fazem online.

Nesse sentido, a suspensão das lives funciona como uma medida emergencial necessária, mas não resolve o verdadeiro problema, que é estrutural. Representantes do próprio Discord disseram que, com o bloqueio, os criminosos simplesmente migrarão para outro serviço, e que o grupo que coagiu a menina de 13 anos a se matar se organizou em outras redes.

Isso sugere que regular uma ou outra plataforma digital nunca será suficiente, pois as ameaças que elas embutem estão disseminadas, em algum grau, em todos esses serviços. Medidas razoáveis, porém enérgicas, devem ir além de buscar saber qual tecnologia é perigosa. O que deve ser considerado é qual arquitetura cria um risco específico, quem deve ser responsável por mitigá-lo e como isso deve ser feito.

O fato de um problema ser difícil de resolver não nos permite ignorá-lo. Pelo contrário, isso exige uma ação conjunta e vigorosa da sociedade em busca de uma solução real, fugindo dos tradicionais discursos corporativos inócuos. E qualquer que seja a solução, ela exigirá mudanças estruturais nas redes sociais.


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O caso que deflagrou essas ações aconteceu no dia 22 de julho. A adolescente, moradora de Naviraí (MS), foi induzida por outros jovens, durante uma live restrita a quem tinha convite, a atos de automutilação, que culminaram na sua morte. A sala permaneceu no ar por quase duas horas antes de ser encerrada, após notificação da polícia. Cinco menores foram apreendidos e um homem de 18 anos foi preso.

A ANPD determinou a suspensão preventiva das lives e de recursos de vídeo do Discord, não do serviço inteiro. A medida vigorará até que a empresa comprove ter implantado proteções efetivas para crianças e adolescentes, diante de episódios de violência, assédio e indução à automutilação ou ao suicídio, sob pena de multas que podem chegar a R$ 50 milhões por infração.

O Discord pediu a revogação da medida e contestou a competência da ANPD para determinar a suspensão, classificando-a como prematura e rebatendo a ideia de omissão deliberada. A empresa afirma que já adotava medidas de segurança e que o caso envolveu atividades criminosas também em outras plataformas. Disse ainda que está tomando providências para cumprir a ordem, mas “sob protesto”.

Segundo a empresa, o pedido decorre da complexidade de bloquear as transmissões apenas no Brasil. Ela afirma que três dias úteis não são suficientes para implementar e testar uma mudança dessa magnitude, e que a ANPD não forneceu diretrizes técnicas suficientemente claras sobre o que deveria ser bloqueado. Os representantes pediram, então, 15 dias úteis para implantação e outros 15 para avaliação de seus resultados.

Há ainda outro aspecto fundamental nesse caso que exige atenção. Os próprios representantes do Discord admitiram que havia indícios de risco na live, mas eles não foram suficientes para disparar um “alerta confiável”.

 

Inteligência artificial insuficiente

Plataformas como o Discord possuem sistemas de inteligência artificial para identificar riscos em conversas. Mas, na live em que a adolescente se matou, a IA atribuiu apenas 0,12 ponto, abaixo do 0,95 necessário para enviá-la para revisão humana. Segundo a empresa, o servidor era novo e pequeno, o que dificultou a detecção.

No sábado (15), o vice-presidente de Segurança e Confiança do Discord, Jud Hoffman, disse, ao jornal “O Globo”, que a resposta da plataforma falhou. “Não fomos rápidos o suficiente, mas estamos sempre trabalhando para melhorar esses modelos e os esforços de segurança”, admitiu.

Isso desmonta a narrativa da indústria tecnológica de que basta criar sistemas cada vez melhores de IA para detecção automática e moderação para resolver o problema. Essa confiança excessiva em sistemas limitados representa um risco aos usuários.

Precisamos saber se aceitamos as decisões de uma plataforma sobre remover um conteúdo potencialmente perigoso e preservar milhões de interações legítimas. Falsos positivos são inconvenientes, mas falsos negativos podem ser fatais.

Simplesmente aumentar a sensibilidade do sistema pode criar uma espécie de censura algorítmica, com bloqueios injustificados e vigilância excessiva. Mas o problema pode ser mitigado com uma extensa avaliação humana dos conteúdos sinalizados pelos robôs, liberando o que for legítimo.

Isso exigiria um custoso exército de avaliadores, mas é o preço a se pagar para oferecer um serviço que cria riscos elevados a seus usuários. A segurança digital é um problema de decisão, e não apenas de tecnologia.

Na entrevista, Hoffman disse que “o verdadeiro sucesso é deter os grupos extremistas completamente, e não apenas expulsá-los do Discord”. De fato, seria lindo se todas as pessoas usassem as plataformas digitais de maneira cândida. Mas a proposta implica em erradicar a maldade na raça humana, o que é infinitamente mais difícil que bloquear recursos em sistemas.

Sem isso, casos como esse continuarão acontecendo. A IA não falhou por não ser competente o bastante para ver o risco, mas porque alguém definiu que interromper uma violência em andamento exigia mais evidências do que ela era capaz de fornecer.

Esse caso está sendo o primeiro grande teste do ECA Digital, que vale desde o dia 17 de março. A sociedade precisa decidir se uma empresa que não consegue identificar e intervir a tempo em uma live de alto risco deve ser autorizada a oferecer esse recurso a crianças e adolescentes.

 

O deputado federal Guilherme Boulos, que pediu a suspensão do Discord, pelo uso por extremistas - Foto: Pablo Valadares/Creative Commons

Plano contra público de Lady Gaga ameaça equilíbrio entre liberdade e segurança

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No dia 6 de maio, o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) pediu ao Ministério Público Federal a suspensão do Discord no Brasil. A iniciativa veio depois de a Polícia Civil do Rio de Janeiro revelar que extremistas usaram a plataforma para planejar um atentado com explosivos durante o show da cantora Lady Gaga, em Copacabana, no sábado anterior. O alvo era a comunidade LGBTQIA+ presente no evento.

O deputado afirma que a plataforma tem sido instrumentalizada para crimes de ódio e violência, e pede a responsabilização das empresas de tecnologia que não colaboram com as autoridades. O Discord naturalmente respondeu que diverge da proposta, dizendo que contribui com as investigações e que possui políticas rigorosas contra o ódio. Afirmou ainda que investe em ferramentas de segurança e de moderação, e que trabalha com as autoridades para encontrar soluções, preservando a liberdade.

Essa não é a única acusação grave contra o Discord nessa temática. Entretanto, a plataforma está longe de ser a única no mundo digital a ser usada para a realização de crimes variados, que já levaram muitas pessoas à morte. Mas ela reforça a sensação de impotência de autoridades no mundo inteiro contra esses criminosos, que se valem da letargia dessas empresas na busca de soluções, por se sentirem protegidas por leis criadas há muitos anos sob a luz da liberdade que norteou o surgimento da Internet.

Criou-se assim uma eficiente armadilha para a sociedade, que corretamente quer a manutenção de sua liberdade, mas clama por segurança contra o avanço galopante das barbaridades nas redes, perpetradas por criminosos e pelas próprias empresas.

Proteger a população é uma função primordial de qualquer governo. Essa obrigação está prevista em constituições, leis e em acordos internacionais. O desafio recai em equilibrar a liberdade e proteger a sociedade de riscos e abusos, evitando tanto a censura quanto a permissividade excessiva que ameace outros direitos.


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O posicionamento dessas empresas segue uma lógica reativa, e não preventiva. Seu padrão é aguardar que o dano aconteça, ganhe repercussão e pressione a opinião pública. Só então movimentam-se minimamente para abafar o escândalo. Portanto, seus discursos não combinam com os seus atos insuficientes e sua ética frouxa.

Em março, a Polícia Civil de São Paulo instaurou um inquérito contra o Discord por apologia à violência digital, após a empresa ignorar um pedido emergencial para derrubar uma transmissão ao vivo de um adolescente se automutilando. Segundo a delegada Lisandréa Salvariego, do Núcleo de Observação e Análise Digital, os responsáveis pelo Discord não só deixaram de atender à solicitação, como tiveram a frieza de afirmar que não se tratava de um caso emergencial.

Essas plataformas tornaram-se terreno fértil para o aumento do extremismo e da radicalização, vitimando principalmente jovens entre 13 e 15 anos, faixa etária particularmente vulnerável pelas intensas mudanças físicas e hormonais, busca por pertencimento e imersão no ambiente digital em detrimento das relações presenciais.

As subculturas online nocivas proliferam com incrível velocidade, onde jovens suscetíveis absorvem elementos tóxicos de ideologias como misoginia, racismo, pedofilia e xenofobia, misturando-os em uma perigosa colcha de retalhos de ódio. Os casos mais extremos desembocam em tragédias reais, como mortes por “desafios online”, como o que incita jovens a inalarem desodorantes até perderem os sentidos.

O mais frustrante é que a legislação vigente acaba protegendo essas empresas. O Marco Civil da Internet, particularmente em seu artigo 19, criado sob a inspiração dos princípios de liberdade que nortearam o desenvolvimento da Grande Rede (que são válidos e devem ser protegidos) determina que as plataformas só devem remover conteúdo após notificação judicial. Esta norma, baseada no princípio de que seriam apenas “mensageiras”, transformou-se em escudo para corporações se esquivarem de assumir responsabilidades mais amplas.

 

Sofisma digital

Se em algum momento histórico esses argumentos foram válidos, hoje se tornaram anacrônicos. É absurdo esperar que o Poder Judiciário tenha capacidade para monitorar as redes e produzir notificações em tempo hábil. Depender exclusivamente desse mecanismo expõe a sociedade a riscos constantes e devastadores.

Igualmente falso é o argumento de que as plataformas são meros intermediários. Elas conhecem todo o conteúdo em suas páginas, tanto que identificam e classificam material para fins comerciais, proteção de direitos autorais e reconhecimento de imagens. Exercem controle evidente sobre ele, quando bloqueiam conteúdos que violam seus termos de uso. E, mais grave, possuem agenciamento direto sobre como, quando e para quem cada conteúdo será promovido, sempre visando seus interesses.

Elas não são, portanto, neutras. Agem como um carteiro que, ao receber uma bolsa de correspondências, decidirá quais serão entregues e quando, podendo ainda copiar cartas para entregá-las seguindo seus interesses. Ainda assim, insistem no discurso do “mensageiro inocente”, para manter o status quo que beneficia seus negócios.

Diante desta realidade perturbadora, os pais precisam manter diálogo aberto e franco com os filhos sobre os perigos digitais. Devem estabelecer limites claros de uso das redes, monitorar suas atividades online e ficar atentos a mudanças comportamentais, como isolamento ou obsessão por comunidades virtuais. As escolas, por sua vez, precisam intensificar a educação digital, promovendo pensamento crítico e reconhecimento de conteúdos problemáticos.

Faltam estudos acadêmicos sobre radicalização online, legislação específica e recursos nas agências de segurança para enfrentar adequadamente o extremismo digital. Nosso aparato institucional foi concebido para um mundo pré-internet e mostra-se tragicamente inadequado para os desafios digitais contemporâneos.

Precisamos urgentemente de um pacto global. Bloquear uma única plataforma, como o Discord, seria inócuo, pois os predadores simplesmente migrariam para outros ambientes digitais. A solução exige que as empresas de tecnologia abandonem seu discurso hipócrita de impotência e passem a utilizar todo seu impressionante arsenal tecnológico para proteger seus usuários, especialmente os mais vulneráveis.

Se essas corporações não criaram o mal que prospera em suas plataformas, hoje indubitavelmente se tornaram seus principais vetores. A sociedade não pode mais aceitar que gigantes tecnológicos, que monitoram meticulosamente nossos hábitos de consumo para otimizar lucros, aleguem incapacidade técnica para impedir crimes hediondos em suas redes. A liberdade da Internet, sonhada por seus visionários fundadores, foi sequestrada pelo lucro desenfreado. Está na hora de resgatá-la.