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Frances Haugen, ex-gerente de integridade cívica do Facebook, afirma que a empresa coloca os lucros à frente do bem-estar dos usuários

As redes sociais que nos afastam uns dos outros

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Estamos a dois meses da eleição presidencial mais estranha de nossa história. Apenas dois candidatos têm chance de ir ao segundo turno. A vitória deve ser decidida por quem as pessoas não querem no cargo ao invés de quem elas querem. E ela representará o clímax da influência das redes sociais em nossas escolhas, um movimento global iniciado há cerca de uma década.

Esse poder das redes sociais sobre o que e como pensamos vai muito além de aspectos políticos, e vem deformando a sociedade. Essas plataformas têm uma capacidade sem precedentes de identificar nossas preferências e nos empurrar para extremos que, na prática, nos afastam das outras pessoas. E isso é tão mais verdade, quanto mais o assunto mexe com nossas paixões e valores, como política, religião e até futebol.

No limite, podemos chegar a um ponto em que nos tornaremos seres antissociais, graças à influência de sistemas que se dizem “sociais”, uma ironia digna de George Orwell. Sua obra-prima “1984” vira “café pequeno” diante da distopia que essas redes oferecem ao mundo.


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Esse efeito nocivo do meio digital talvez não tenha sido previsto pelos criadores dessas plataformas, mas não se pode dizer que ele aconteceu por acaso. O sucesso das redes sociais depende de ficarmos mais tempo nelas, aumentando a chance de clicarmos nos anúncios que elas trazem, sua principal fonte de receita.

Para isso, elas precisam nos proporcionar um fluxo infinito de conteúdo que nos agrade e nos inspire a nos engajar com ele. O “engajamento”, conceito cunhado pelo Facebook nos seus primeiros anos, é o motor dessa sofisticada máquina. Curtidas, comentários e compartilhamentos servem para o sistema nos conhecer melhor, além de funcionar como uma curadoria feita continuamente por bilhões de pessoas para informar aos algoritmos o que deve ser entregue a cada uma. É uma ideia verdadeiramente genial!

O problema é que, como já detalhado em incontáveis artigos e vídeos, inclusive nesse espaço, isso rapidamente nos “aprisiona” em bolhas de pensamento único. Como somos expostos apenas àquilo que gostamos, deixamos de ser impactados pela necessária diversidade social, o que acaba reforçando nossas visões de mundo, para o bem e para o mal.

Para agravar a situação, nossa natureza humana faz com que sejamos atraídos por conteúdos extremos, como aquilo que nos emociona, nos dá medo, nos excita ou nos dá raiva. Trata-se de um mecanismo evolutivo para aumentar a chance de sobrevivermos.

Isso foi detalhado na entrevista que Frances Haugen concedeu ao jornalista Pedro Bial na quinta passada. A ex-gerente da equipe de integridade cívica do Facebook ficou famosa em outubro passado, quando veio a público para dizer que a empresa conscientemente coloca seus lucros à frente do bem-estar de seus usuários. Para corroborar suas acusações, ela vazou milhares de documentos da empresa, em um escândalo que ficou conhecido como “Facebook Papers”.

“Se você criar uma conta nova em folha, sem amigos e sem interesses, e seguir interesses bem corriqueiros, um pouco à esquerda ou um pouco à direita, você será empurrado para a extrema-esquerda ou a extrema-direita em poucas semanas”, disse Haugen na entrevista.

“Quando recompensamos o engajamento ao invés de comunicação construtiva, ao invés de colaboração, acabamos dando mais alcance às ideias mais extremas”, acrescentou a cientista de dados.

 

“Isso nunca acontecerá comigo!”

Há uma falsa ideia de que apenas pessoas com menos instrução ou predispostas a comportamentos extremistas seriam vitimadas por esse controle das redes sociais. Mas o fato é que, em maior ou menor escala, essas plataformas conseguem nos convencer sobre os mais variados assuntos.

Como pesquisador, cansei de ver pessoas dizendo que elas jamais seriam vítimas desse controle das redes sociais. Elas tentam se “proteger” seguindo fontes de diferentes naturezas, misturando, por exemplo, conteúdos políticos de esquerda e de direita, para “furar as bolhas”.

Ter um comportamento mais democrático na rede e um consumo de informações mais equilibrado e de fontes confiáveis certamente ajudam nesse processo. Mas infelizmente não são suficientes. Por mais que tomemos esses cuidados, os algoritmos têm uma incrível capacidade de descobrir do que realmente gostamos e passar a privilegiar publicações, falas e argumentos que reforcem nossas ideias.

Os brasileiros têm um agravante, que é o enorme tempo que gastamos nas redes sociais. Segundo a edição 2022 da pesquisa Global Digital Report, organizada pelas consultorias Hootsuite e We Are Social, estamos entre os líderes mundiais nessa métrica: 3 horas e 41 minutos nas redes todos os dias, contra uma média global de 2 horas e 27 minutos.

Se quisermos melhorar esse quadro, precisamos entender e aceitar que estamos sendo moídos por essa engrenagem. Se alguém tiver alguma dúvida, basta olhar a sua volta e verificar o inevitável crescimento da intolerância, que ainda por cima é incentivada por grupos de poder que se beneficiam disso. E eles usam esses mesmos recursos digitais para atingir seus objetivos.

Sempre fomos um povo conhecido pela cordialidade, união e alegria. Infelizmente, esses traços de nossa cultura parecem ter sido soterrados por um discurso de ódio e de exclusão generalizado e até de uma eugenia praticada por alguns. Se nada for feito, chegaremos a um ponto em que a cor da camisa usada ou o escudo do time no peito poderão colocar literalmente em risco a sua vida ao sair na rua. Isso não é um exagero, diante de casos recentes de violência exacerbada.

“Sem a construção do consenso, sem recompensar o centro, não conseguiremos seguir adiante juntos”, explicou Haugen, que concluiu: “a maneira como as mídias sociais funcionam atualmente, os modelos de negócios, as escolhas de produto dificultam muito uma democracia construtiva.”

Quero crer que, mesmo em seus maiores devaneios de poder, Mark Zuckerberg e os criadores de todas as redes sociais jamais pensariam que elas causariam isso na sociedade. Mas aquelas plataformas, que surgiram com objetivos pueris de encontrar velhos amigos, se tornaram ferramentas para neutralizar novos inimigos.

Por isso, elas não podem se furtar de sua responsabilidade e atuar ativamente na anulação do mal que causaram. Estão fazendo muito pouco nisso! Por outro lado, cada um de nós precisa se policiar para não cair nessa armadilha cotidianamente.

 

O Brasil sentou-se em uma bomba chamada WhatsApp

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Lá pelos idos do ano 2000, quando eu era gerente de produtos da AOL (America Online) e tinha sob minha responsabilidade as versões brasileiras do Instant Messenger e do ICQ, percebi que a empresa que oferecesse o melhor aplicativo de mensagens conquistaria o coração dos internautas. Duas décadas depois, essa empresa é a Meta, com seu Facebook Messenger e principalmente seu WhatsApp.

Isso é tão verdade que hoje um presidente compra briga com outro poder da República por causa desses programas. Na mais recente bravata, nesse sábado, Jair Bolsonaro disse que não aceitará o acordo da Meta com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que fará com que novos recursos sejam incorporados ao WhatsApp apenas após a eleição desse ano.

Mas, afinal, o que há de tão especial nesse programa a ponto de provocar essa balbúrdia toda?


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O WhatsApp hoje é usado por 120 milhões de brasileiros, o que o coloca muito à frente de qualquer outra forma de comunicação por aqui. Estima-se que esteja instalado em 99% dos smartphones no país. Por isso, as mensagens distribuídas pelas plataformas têm uma incrível capacidade de se disseminar rapidamente.

O comunicador da Meta teve um papel importante nos resultados das eleições de 2018 e 2020: os candidatos que melhor dominaram a plataforma conseguiram muitos votos assim, não raro valendo-se de farta distribuição de notícias falsas. Por isso, o TSE firmou um acordo com as principais plataformas digitais para minimizar o problema com ações em conjunto na campanha desse ano, tentando “desarmar essa bomba” que o aplicativo se tornou. Participam da iniciativa a Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp), o Google (dono do YouTube), o Twitter, o TikTok e o Kwai.

A confusão começou na quinta, quando a Meta anunciou novos recursos do WhatsApp, que serão liberados gradativamente para usuários do mundo todo a partir das próximas semanas. Mas, pelo acordo com o TSE, eles chegarão aos smartphones brasileiros apenas após o segundo turno das eleições.

A principal novidade é o recurso de “comunidades”, que permitirão a união de até dez grupos em um único espaço. Como cada grupo permite hoje até 256 usuários, uma mensagem publicada em uma comunidade poderia atingir imediatamente até 2.560 usuários. A Meta ainda estuda dobrar a capacidade de cada grupo para 512 usuários. No Telegram, concorrente direto do WhatsApp, os grupos podem conter 200 mil usuários.

Outros recursos do pacote de melhorias são a possibilidade de se realizar chamadas de voz com até 32 pessoas simultaneamente e a transferência de arquivos com até 2 GB. Atualmente esse limite é de 16 MB para arquivos no celular e 64 MB no WhatsApp Web.

Todos esses recursos seriam muito úteis em uma campanha eleitoral, sem dúvida. Postergar seu lançamento para depois da eleição é um grande revés para candidatos que usam muito essas plataformas. Isso explica a reação de Bolsonaro, que chamou a decisão de “inadmissível”.

A Meta reforçou que o WhatsApp não deve ser usado para atividade política, mas obviamente nenhum candidato ou seus apoiadores deve respeitar isso.

 

Baixando a guarda

Existem várias explicações para essa incrível capacidade de convencimento pelos aplicativos de mensagens instantâneas. Ao contrário de e-mails, que trazem blocos inteiros de conversas, desestimulando os interlocutores a fazer muitas trocas, os programas como o WhatsApp, com suas mensagens curtas, informais e divertidas, favorecem isso. Essa mistura de serviço de mensagens com rede social torna a comunicação mais fluida, o que é positivo para a troca de ideias, mas faz com que os usuários “baixem a guarda” e acreditem muito mais facilmente no que chega por ali.

Esse é o motivo pelo que o WhatsApp se tornou o canal preferido por criminosos para aplicar diferentes tipos de golpes digitais. Não se trata de falhas técnicas da plataforma: os bandidos se valem justamente dessa vulnerabilidade das pessoas para enganá-las, às vezes com mentiras em que raramente cairiam em outros casos.

Os políticos usam exatamente a mesma estratégia, porém de maneira orquestrada e em escala industrial.

A criação de suas mensagens agrada a sua base de eleitores, essência, aliás, do jogo político. A diferença é que, com as plataformas digitais, essas ideias são distribuídas com uma velocidade avassaladora, inicialmente por robôs, e depois pelos próprios usuários, que gostariam que aquela informação acontecesse, mesmo que seja uma mentira deslavada. Com os aplicativos de mensagens, elas se espalham de maneira exponencial, podendo atingir rapidamente uma porcentagem muito expressiva do eleitorado.

Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolph Hitler, disse que “uma mentira dita uma vez é apenas uma mentira; já uma mentira dita mil vezes se torna verdade”. Foi assim que convenceu os alemães na década de 1930 a apoiarem seu Fürher contra os “inimigos do povo”, levando à Segunda Guerra Mundial e ao Holocausto.

Hoje a mentira é dita aos milhões, e esse recurso é usado por políticos no mundo todo! No ano passado, a Universidade de Oxford (Reino Unido) divulgou um estudo que indica a disseminação dessas táticas. Segundo os autores, no Brasil, as “tropas cibernéticas” se dedicam principalmente a atacar opositores e aumentar a polarização na sociedade, que lhes é benéfica.

Os aplicativos de mensagens se constituíram na ferramenta perfeita de disseminação de mentira, mas um ponto que não pode ser desprezado é que as pessoas acreditam no que lhes for mais conveniente.

Outro estudo demonstra isso claramente. Publicado na capa da revista Science, a mais importante publicação científica do mundo, no dia 9 de março de 2018, ele mostra que, a despeito das ações de robôs, são as pessoas as grandes responsáveis pela disseminação das fake news. Isso acontece, em parte, porque a desinformação dispara mecanismos emocionais que induzem ao engajamento com esse material.

Bons tempos aqueles do AIM, do ICQ e do MSN Messenger, em que esses aplicativos de mensagens eram usados apenas por pessoas querendo conversar alegremente com seus amigos. A inclusão desses recursos de disseminação em massa de mensagens, ainda que bem intencionada, transformou essas plataformas em “bombas” que colocam em risco o próprio conceito de sociedade organizada.

Como nós, os usuários, somos o elo frágil nessa corrente, acreditando em muito do que nos chega por esse canal, cabe à Justiça e aos próprios desenvolvedores desses produtos cuidarem desse incrível espaço de comunicação. Não se pode encarar inocentemente todo esse poder de convencimento, ou a população corre o risco de ser convertida em um bando de robôs teleguiados.

 

Entramos no ano mais digital de nossas vidas

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Este promete ser o ano mais digital de nossas vidas. Por isso, entender o que aconteceu nesse setor em 2021 pode nos ajudar a aproveitar melhor o que a tecnologia tem de bom a nos oferecer e a fugir de enormes arapucas que já armaram para todos nós. E a maioria das pessoas não tem esse conhecimento.

Por exemplo, no final de novembro, o dicionário Collins escolheu NFT como a “palavra do ano”. Como toda seleção assim, ela é controversa, mas essa representa bem os efeitos da digitalização galopante de nossas vidas, dando o tom do ano que começa. Essa sigla indica um conceito que poucos conhecem e que, mesmo entre os que já ouviram falar dele, muitos não entendem. E há ainda uma multidão completamente de fora, por não ser tão digital assim.

A pandemia acelerou incrivelmente esse processo, abrindo oportunidades para empresas e indivíduos, mas aumentando o risco de se criar “cidadãos de segunda categoria” entre os “menos digitalizados”. Governos, instituições e companhias precisam ajudar para que isso não ocorra, e cada um de nós deve abraçar o digital com consciência, evitando, de um lado, o deslumbramento e, do outro, o medo.


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Para quem nunca ouviu falar, NFT é a sigla em inglês para “tokens não-fungíveis”, uma comercialização de arte digital que combina tecnologia e mudança cultural. Com ela, ao comprar uma obra, a pessoa passa a ser sua legítima dona, mas isso não lhe garante nenhum controle ou remuneração por qualquer reprodução do material. Além disso, os direitos autorais continuam sendo do autor da obra.

É como o Museu do Louvre ser dono da Mona Lisa, mas ele não tem como impedir que as pessoas fotografem o quadro, e usem isso como quiserem. Mas, se algum dia quiser vender o original, o Louvre receberá uma fortuna.

O que dificulta o entendimento do NFT é que o original pode ser algo simplório como um meme famoso, facilmente reprodutível com um clique do mouse. Ainda assim, em maio, o meme “Disaster Girl” foi vendido por incríveis R$ 2,5 milhões.

NFT venceu, entre os pesquisadores do Collins, a palavra metaverso, outro conceito digital que certamente impactará muito mais nossas vidas em breve. Se bem usado, esse mundo virtual abrirá uma infinidade de oportunidades de trabalho, aprendizagem e diversão. Trata-se de um ambiente digital em que as pessoas entrarão com seus avatares para interagir mesmo com quem estiver do outro lado do mundo e com ferramentas que só existem ali.

Apesar de não ser algo novo, o metaverso ganhou holofotes em 2021 pela disposição do Facebook de investir pesadamente nessa tecnologia. Mas o que a torna tão incrível também inspira muitos cuidados. Por ser um ambiente completamente imersivo, há um enorme risco de manipulação dos usuários, muito maior que o já visto nas redes sociais. Além disso, por exigir equipamentos poderosos para ser usado, ele pode ampliar o abismo digital entre os mais ricos e os mais pobres.

Mas a virtualização de nossas vidas já acontece com força de outras formas. Desde que a Internet comercial foi lançada, em 1994, realizamos cada vez mais atividades de nosso cotidiano pelo meio online. A popularização dos smartphones, há uma década, acelerou muito esse processo.

Mas foi a pandemia que definiu um novo patamar aí.

 

Tudo de casa

Possivelmente a mudança mais profunda e permanente que o vírus nos apresentou foi o home office. Antes do lockdown (aliás, a palavra de 2020 para o mesmo dicionário Collins), trabalhar de casa era algo inimaginável ou pelo menos visto com enorme desconfiança por gestores de empresas de todo tipo. Mas hoje isso se tornou tão aceito, que muitas empresas adotaram, mesmo com a retomada das atividades nos escritórios, o trabalho híbrido, em que os profissionais desempenham suas tarefas de casa em alguns dias da semana. Há casos em que o trabalho remoto se tornou definitivo. Dessa forma, os escritórios ficaram menores ou simplesmente desapareceram.

Primo dessa mudança é o crescimento explosivo do ensino a distância. O tempo em casa permitiu que as pessoas experimentassem e gostassem desse jeito de aprender, vencendo muitos preconceitos contra o EAD. Agora, muita gente faz cursos que antes eram inacessíveis pela distância ou por horários inflexíveis.

Mas tanto o home office quanto o EAD reforçam as diferenças entre a população digitalizada e a “nem tanto assim”. Afinal, para participar dessas atividades é preciso ter uma boa conexão com a Internet e um computador, pois a experiência pelo celular acaba sendo de pior qualidade. E nem todos têm isso.

O e-commerce também se enquadra nessa mudança de comportamento. Apesar de crescer consistentemente na casa dos dois dígitos percentuais desde que surgiu, as vendas online praticamente dobraram seu faturamento nos primeiros 12 meses da pandemia. Com a reabertura das lojas físicas, esse crescimento perdeu um pouco de fôlego, mas o e-commerce permaneceu em um patamar muito superior ao que tinha antes da Covid-19. Graças a isso, muitas entregas, que antes levariam dias para serem feitas, passaram a acontecer em algumas horas.

O e-commerce pelo menos é um pouco mais democrático: funciona bem em praticamente qualquer smartphone.

 

Virtualização de valores

O Pix, sistema de transferências e pagamentos instantâneos do Banco Central, também poderia concorrer à palavra do ano, se não fosse restrito ao Brasil. Ele já é usado por 71% dos brasileiros, com aprovação de 85% deles, segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos). Já há mais Pix que TED, DOC e cheque juntos! Entre os jovens de 18 a 24 anos, a aprovação chega a 99%, semelhante aos 96% da faixa seguinte (de 25 a 44 anos). A maior resistência fica entre as pessoas de baixa renda e os de menor escolaridade, mas ainda com adesão superior a 50%.

Muita gente tem medo do Pix devido aos incontáveis golpes que usam essa tecnologia. Essa, aliás, é outra coisa que explodiu nesses dois anos e que infelizmente deve se ampliar em 2022. Vale lembrar que o ano passado começou com o maior vazamento de dados da história do Brasil e terminou com um suspeito “ataque hacker” aos sistemas do Ministério da Saúde que gerenciam os dados relativos à Covid-19 e à vacinação, que demoraram semanas para serem restabelecidos.

As pessoas precisam de orientação para escapar desses problemas, que acabam atingindo mais os de renda inferior ou os menos informados. O que nos leva a um último flagelo digital que vem crescendo com força nos últimos anos e deve chegar às raias da loucura em 2022: a desinformação. O que me faz lembrar que, em 2016, outro importante dicionário, o de Oxford, elegeu pós-verdade como a palavra daquele ano.

Ela explica que importam menos os fatos e mais as versões construídas a partir deles (ou da ausência deles). Assim, quem elaborar as versões mais “palatáveis” para o público convencerá as pessoas com suas ideias, por mais bizarras que sejam.

Isso fica particularmente mais grave em anos de eleições, como esse que estamos começando. Políticos sempre mentiram, mas a combinação da pós-verdade com as redes sociais criou as fake news, que se tornaram a ferramenta suprema de manipulação da sociedade. E políticos que mais dominam esse recurso vêm se elegendo.

Por isso, se puder desejar algo a todos nesse ano que se inicia, minha escolha é conhecimento e informação, para que possamos usar o mundo digital que tivermos a nossa disposição –seja muito, seja pouco– da melhor maneira possível. Ele deve ser usado para melhorarmos (e muito) nossa vida, e não para sermos controlados por quem quer que seja.

 

A mentira dita mil vezes

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O governo federal parece ter agora apenas um único objetivo: desacreditar as urnas eletrônicas e instituir o voto impresso. A pandemia, o desemprego e tantas outras mazelas do Brasil parecem ter sumido, pois o ataque ao sistema eleitoral brasileiro se tornou um assunto onipresente nas falas de Bolsonaro. É de se perguntar o porquê dessa insistência insana.

Para quem conhece um pouco da história e da política, esse movimento é facilmente explicável. Ele segue um padrão de convencimento popular formalizado há cerca de 90 anos, mas que foi reforçado pelo advento das redes sociais.

Na quinta, o mandatário não cumpriu a promessa de demonstrar as falhas da urna eletrônica, em uma transmissão recheada de vídeos antigos e argumentos falsos, todos largamente desmentidos por autoridades e especialistas. Ainda assim, insiste na tese e convoca seus apoiadores para lutar por ela.

Essa linha de ação segue o conceito de que “uma mentira dita uma vez é apenas uma mentira; já uma mentira dita mil vezes se torna verdade”.


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Essa tese foi organizada por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolph Hitler, para legitimar suas atrocidades. Foi dessa maneira que os alemães na década de 1930 apoiaram a política do seu Fürher contra os “inimigos do povo”, com a qual se consolidou no poder, tornou-se ditador, promoveu a Segunda Guerra Mundial e realizou o Holocausto. As ações dos apoiadores do líder nazista podem ser vistas no premiado documentário “Arquitetura da Destruição” (disponível gratuitamente e legendado no YouTube).

Aquilo parece monstruoso a nossos olhos, mas, guardadas as proporções, é exatamente o mecanismo atual, com o agravante de que se espalha mais rapidamente pelas redes sociais. Agora, para se tornar “verdade”, uma mentira não se repete mais mil vezes, e sim um milhão de vezes, o que torna o processo mais eficiente.

Esse modus operandi não tem nada a ver com um governo ser progressista ou conservador, de esquerda ou de direita. Tem a ver com um governo ser autoritário e querer se perpetuar no poder a qualquer custo.

A história é pródiga em demonstrar isso, sendo que alguns de seus mais perfeitos expoentes foram legitimamente eleitos em um primeiro momento, como Donald Trump, Hugo Chávez e Adolph Hitler. Dos três, o único que fracassou em seus objetivos foi o primeiro, mas não sem deixar um grande custo, com os Estados Unidos rachado ao meio, culminando com a grotesca invasão do Capitólio, em que seus apoiadores invadiram violentamente o Congresso para tentar impedir o anúncio da vitória de seu opositor, Joe Biden.

 

“Engana que eu gosto”

Não se trata de uma loucura coletiva. Por uma característica evolutiva de autopreservação da espécie, as pessoas acreditam naquilo que lhes for mais conveniente, mesmo que a manutenção de alguns de seus privilégios prejudique muitas pessoas ou até coloque a democracia em risco.

Quando são expostas a apenas uma narrativa, baseada em fatos, na ciência ou em instituições de grande reputação, acatam mesmo o que não gostam, resignando-se. Mas, na primeira oportunidade de alguém lhes apresentar uma versão contrária e mais palatável, abraçam cegamente o mentiroso, como uma tábua de salvação.

Esse mecanismo de interesse de manada contra a verdade foi descrito em 2016 pelo renomado Dicionário Oxford. Naquele ano, seus organizadores elegeram “pós-verdade” como a “palavra do ano”. Na sua definição, ela é “relativa ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais.”

Mas isso precisa ser construído! A narrativa mentirosa, que interessa a esses grupos específicos, precisa fazer frente à realidade, sufocando os fatos e expondo incansavelmente a alternativa por todos os métodos disponíveis.

Por isso, a boa imprensa sempre é uma pedra no sapato de governantes, especialmente dos autoritários. A despeito de suas imperfeições, ela tem a função essencial de fiscalizar todo governo, impedindo-o de extrapolar suas prerrogativas. Se um veículo não fizer isso, não está fazendo bom jornalismo.

Goebbels sabia e censurou a imprensa, classificando as vozes dissonantes de “inimigos do povo”. Os nazistas não viam problema em desqualificar, censurar, prender e até matar quem se opusesse a eles. Por outro lado, como se vê em “Arquitetura da Destruição”, todos os recursos eram usados para reforçar sua visão, como eventos populares, o esporte, a cultura, as artes e até a arquitetura.

 

As redes sociais e a mentira

Em democracias consolidadas, calar a imprensa não é tarefa simples. Como os veículos de comunicação alcançam milhões de pessoas, sua voz tem enorme poder.

Mas ela ganhou um contraponto há cerca de 20 anos, com o surgimento das redes sociais. Pela primeira vez, as ideias de qualquer pessoa poderiam potencialmente atingir uma enorme quantidade de indivíduos, até mesmo em outros países.

Em um primeiro momento, foi incrível, pois a informação parecia ser mais democrática. Mas, de uma década para cá, grupos de poder aprenderam a usar esse recurso para impor a sua “pós-verdade”, travestindo-a de “voz do povo”. Obviamente trata-se de um engodo! Mas, como os algoritmos não têm ética e nem moral, é o suficiente para convencer milhões de pessoas.

Os “robôs” são essenciais nesse cenário para dar o primeiro empurrão e apresentar as mentiras nas redes sociais para quem deseja que aquilo seja verdade. A partir daí, essas pessoas espalharão essas fake news. Mas ainda não é suficiente. É preciso criar um discurso uníssono para consolidar a falcatrua. Exatamente como se faz agora contra as urnas eletrônicas.

Elas são perfeitamente auditáveis, enquanto os votos impressos (mesmo impressos automaticamente) são facilmente fraudáveis. E não é preciso adulterar uma enorme quantidade de votos impressos: apenas o suficiente para criar uma diferença entre essa contagem e o das urnas eletrônicas, para se criar uma insegurança jurídica em torno dos resultados da eleição. A partir daí, pode-se querer impugnar o resultado com o respaldo de uma parcela considerável da população, que acredita na farsa.

As circunstâncias nunca foram tão favoráveis para que uma mentira dita mil vezes se torne verdade. Para que uma democracia sobreviva, as pessoas devem ter acesso a fontes de informação diversas e confiáveis.  Precisam também ser convidadas a pensar e a contestar o que chega para elas, especialmente quando parece ser incrivelmente suculento para os seus valores e os seus desejos.

E isso é bem difícil. Mas é exatamente aí que reside a mentira que quer se tornar verdade!

A responsabilidade das redes sociais nos ataques à democracia

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O mundo assistiu horrorizado, na quarta passada, ao Congresso americano sendo invadido e depredado por apoiadores do (ainda) presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O ato, sem precedentes na história do país, se torna ainda mais emblemático porque foi incentivado pelo próprio mandatário, que incendiou a turba, gritando palavras de ordem em frente à Casa Branca, protegido por um vidro blindado.

Mas isso não aconteceu de uma hora para a outra. Foi o dramático clímax de um movimento que se constrói há uma década, com uma hábil combinação de neurolinguagem, observação política, oportunismo e domínio de plataformas digitais.

No centro disso tudo, como principal ferramenta, estão as redes sociais. Tanto que, depois do ataque, Mark Zuckerberg suspendeu as contas de Trump no Facebook e no Instagram até pelo menos a posse de seu sucessor, Joe Biden, no dia 20. Já o Twitter baniu Trump de sua plataforma para sempre. As empresas justificaram as medidas como necessárias para evitar uma escalada ainda maior da violência provocada por Trump.

Mas tais ações pontuais são suficientes? Por que não foram tomadas antes? E ainda outra pergunta que não pode ficar para trás: as redes sociais sairão limpas dessa história?


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Trump sabia exatamente o que estava fazendo, mas para sorte da democracia, seu objetivo fracassou. Infelizmente não sem antes deixar um rastro de destruição e cinco mortos, incluindo um policial.

A pergunta que surge imediatamente nas mentes que separam o certo do errado é: como isso pôde acontecer na autoproclamada maior democracia do mundo e na incontestável maior potência militar da Terra?

Empresas, políticos e grupos de toda natureza descobriram nas redes sociais uma caixa de ressonância para fazer valer suas ideias, mesmo as mais grotescas. Potencializaram o risco de aglutinar um grande grupo de pessoas descontentes ou com necessidades não atendidas, e muito ódio para fazer valer suas pautas.

Trump soube identificar esses elementos no povo americano. Aproveitou-se do fato de os algoritmos de relevância das redes falarem diretamente com as camadas mais primitivas de nosso cérebro, responsáveis pela nossa autopreservação sem recorrer à racionalidade. Com isso, milhões de pessoas passaram a se recusar a ver as verdades que não lhe convinham e a combater qualquer um que dissesse o contrário, a todo custo.

O congressista republicano Mike Gallagher, que apoia Trump, descreveu bem o resultado. Segundo ele, o incidente no Capitólio (como é chamado o Congresso americano) transformou os Estados Unidos em uma “república de bananas”.

Trump digitalizou uma fórmula de dominação de massas há muito conhecida. Trata-se da cartilha escrita por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolph Hitler, usada para legitimar as atrocidades do Fürher. Foi dessa maneira que o povo alemão da época apoiou a política de conquista de outros países, a expropriação de bens dos “inimigos do povo” e o confinamento e posterior extermínio de judeus e outros grupos. Isso parece monstruoso a nossos olhos, mas o que se vê hoje é a mesma coisa, apenas em uma etapa anterior; Por outro lado, atinge escala planetária, graças às redes sociais.

 

Enfrentado o homem mais poderoso do mundo

Bater de frente com o presidente dos Estados Unidos não é tarefa fácil. Agora que Trump dá suas últimas baforadas na Casa Branca, parece que os gigantes do Vale do Silício finalmente resolveram agir.

Ele se faz de vítima, dizendo que está sendo perseguido, que o querem calar. É exatamente isso, mas pelas barbáries que promoveu. E não foi sem lhe emitir diversos avisos prévios.

Trump disse na sexta que criará a sua própria rede social. Ninguém pode impedir uma pessoa de fazer isso, ainda mais um milionário. Mas dificilmente ele repetirá o sucesso que teve nas plataformas globais, com centenas de milhões de usuários.

Além disso, o Vale do Silício resolveu agir também contra os seguidores e contra o próprio discurso de ódio. Por exemplo, no sábado, a Apple e o Google tiraram de suas lojas o aplicativo da rede social Parler. A Amazon, por sua vez, suspendeu a hospedagem do serviço em seus servidores na AWS (Amazon Web Services).

O Parler é uma plataforma que diz se basear na “liberdade de expressão”. Ele se tornou o destino de apoiadores de Trump banidos do Twitter e do Facebook, onde destilam o pior de seu veneno. Além disso, aparentemente a “liberdade de expressão” só existe nele para usuários conservadores. Os progressistas são banidos da plataforma.

Isso não é liberdade de expressão!

É verdade que, para falar, basta te boca. Mas existem leis, e grande parte do discurso desses usuários pode ser facilmente enquadrado em crimes de intolerância, calúnia, difamação, injúria entre outros. Portanto, a liberdade de expressão não dá direito a alguém falar o que bem entender impunemente.

Trump abusou disso, mesmo antes de se tornar presidente. Criou essa máquina de desinformação, que provocou um “travamento cerebral” em grande parte da população. Isso acabou o levando à Casa Branca, onde seus danos foram multiplicados pelo poder natural do cargo.

É verdade que o contexto importa e faz toda a diferença. A invasão do Capitólio fez com que as plataformas se posicionassem diante de algo que elas sempre deixaram passar, apesar de saber que estavam alimentando um enorme monstro, que feria repetidamente seus termos de uso.

Resta agora saber se elas serão coerentes e terão o mesmo comportamento com outras autoridades do mundo que seguem a cartilha trompista, ou se continuarão alimentando esses “monstros regionais”.

O bode está na sala, com seu cheiro insuportável e mastigando o sofá.

 

A responsabilidade pelo que se diz

Todos nós, inclusive presidentes, somos responsáveis pelo que dizemos, pelo que propagamos. Essa é uma responsabilidade que sempre tivemos, mas da qual muitos andaram se esquecendo por influência do falso véu do anonimato das redes sociais e do “efeito manada”.

Se a verdade absoluta é difícil de ser encontrada, temos que, pelo menos, identificar o que é legítimo. E isso se define pela defesa de valores inegociáveis, como o direito à vida, à liberdade, à igualdade e a democracia.

Trump sempre atuou no extremo oposto. Ele chegou a desenvolver uma linguagem própria, que foi mapeada pela linguista francesa Bérengère Viennot. Ela analisou centena de discursos, entrevistas e tuítes de Trump, para escrever o livro “A Língua de Trump”.

A pesquisadora identificou que, para facilitar a compreensão por qualquer um, as falas de Trump têm sintaxe truncada, vocabulário muito raso e repetições incansáveis das mesmas palavras. São carregadas de agressividade, ameaças, ataques à reputação, sexismo e cinismo. E ele nunca se arrepende ou pede desculpas por nada. Do ponto de vista de forma, abusa de aspas, pontuações descontextualizadas e palavras e frases inteiras grafadas em maiúsculas.

Por fim, Trump é seu próprio referente. Ou seja, a única realidade é a dele e quem disser o contrário está automaticamente mentindo, especialmente se for a mídia.

Segundo o Washington Post, depois do ataque ao Capitólio, centenas de funcionários do Twitter exigiram que seus executivos suspendessem Trump permanentemente, classificando as ações da empresa até então como “insuficientes“. Os funcionários também solicitaram uma investigação sobre os últimos anos de ações do Twitter, que culminaram no ataque.

As redes sociais devem mesmo ser responsabilizadas pelo que está acontecendo. Trump as utiliza há uma década para promover o ódio, a segregação, o ataque a instituições democráticas e à ciência.

Seu legado é o de muita gente achar que pode fazer qualquer coisa, porque seriam “ungidas” por um suposto direito que as colocaria acima de tudo e de todos, e que suas ideias e suas vontades seriam mais importantes que as do próximo. Mais que isso: qualquer coisa que fizerem estaria automaticamente perdoado pelo usurpado conceito de “liberdade de expressão”.

A sociedade e a democracia se enfraqueceram. O Capitólio depredado não é causa, e sem sintoma desse processo, para não deixar nenhuma dúvida do caminho que infelizmente a humanidade está tomando.

Somos seres viáveis apenas enquanto nos organizarmos em uma sociedade construtiva, colaborativa e tolerante.

Trump deve ser apeado do poder por mecanismos legítimos, mesmo que isso lhe abrevie em apenas um dia seu mandato. Será um importantíssimo símbolo de que ninguém está acima da lei e nem pode fazer tudo, nem os presidentes.

Quanto às redes sociais, devem indubitavelmente arcar com o seu quinhão nesse ataque à democracia.

Apesar da lentidão relativa, urna eletrônica reafirma seu valor contra fraudes

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Nesse domingo, aconteceu o primeiro turno das eleições municipais. Apesar de os resultados terem saído no mesmo dia, demoraram mais que o normalmente visto desde que as urnas eletrônicas foram implantadas. Isso deu munição àqueles que visam desmoralizar o sistema.

Ficamos mal acostumados com a velocidade e a segurança delas? Não: é assim que deve ser! O sistema eleitoral eletrônico brasileiro é hoje o mais moderno do mundo, e um exemplo do que toda transformação digital deve ser em qualquer negócio. Afinal, ele redefiniu a percepção do público sobre algo (no caso, a eleição), permitindo que se faça muito melhor o que já existia e que se tenha algo impossível antes.

A demora além da métrica definida pelo próprio sucesso aconteceu, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), por uma falha no supercomputador que totaliza as apurações dos Estados. O tribunal sofreu ainda um ataque de hackers durante o dia, que foi contido. Mas, pela eficiência do sistema, nenhum dos dois problemas afetou a segurança do pleito.

Mas, se o sistema funciona tão bem, por que algumas pessoas preferem adorar o passado e querem a volta dos ineficientes e inseguros votos em papel?


Veja esse artigo em vídeo:


Eu acompanho o desenvolvimento da urna eletrônica desde suas primeiras versões, e participei da primeira distribuição em tempo real dos dados da apuração para veículos de comunicação (do lado dos veículos), o que permite a criação dos seus sites que exibem os resultados ao público.

Dizer que o sistema eleitoral eletrônico brasileiro é perfeito e invulnerável seria inocência. Não existe sistema a prova de falhas! Mas dá para criar proteções que praticamente inviabilizam as fraudes, como é o caso aqui. Ele é, sem dúvida nenhuma, bastante seguro do ponto de vista técnico e conceitual, e certamente é muito mais seguro que qualquer votação com células em papel, muitíssimo mais fáceis de se fraudar.

Os críticos argumentam que o software das urnas eletrônicas poderia ser adulterado para beneficiar determinado candidato. Ou seja, o eleitor votaria em um candidato, mas o voto seria contabilizado para outro. Além disso, reclamam que o voto, mesmo que sem qualquer identificação do eleitor, não pode ser checado individualmente no caso de uma auditoria, pois as urnas guardam o resultado consolidado de todos os votos nelas.

Curiosamente, as urnas eletrônicas foram criadas para combater a grande fraude que existia na apuração dos votos em papel, uma verdadeira operação de guerra. Por exemplo, nas eleições de 1994, a última totalmente com votos em papel, a apuração contou com o trabalho de cerca de 170 mil pessoas! Ainda assim, demorou duas semanas para terminar.

 

Sistema antifraude

Não existe registro comprovado de fraude desde a primeira vez em que as urnas eletrônicas foram usadas, em 1996. Para isso, o TSE adota cerca de três dezenas de mecanismos de segurança para impedir fraudes e garantir o sigilo.

Todos os dados das urnas eletrônicas são criptografados e os equipamentos não possuem nenhuma foram de acesso à Internet ou qualquer rede, seja por Wi-Fi, por Bluetooth ou qualquer outra forma de comunicação. Para um hacker invadir uma urna, ele teria que fazer o processo na própria seção eleitoral, durante o horário da votação, na frente dos presentes, pois as urnas confirmam que estão sem nenhum voto quando são ligadas. Além disso, precisaria romper um lacre físico, desenvolvido pela Casa da Moeda, que, se for manipulado, muda de cor.

A fabricação das urnas, por mais que seja feita por empresas privadas, é toda controlada pelo TSE, que é o único capaz de testar os equipamentos. Nem o fabricante consegue fazer isso sozinho.

Além de todas essas proteções físicas, o processo eleitoral eletrônico brasileiro é composto por 94 sistemas exclusivos do TSE. Todos eles ficam disponíveis para que partidos políticos, o Ministério Público, a Controladoria Geral da União e outras entidades possam verificar sua integridade.

Antes de serem instalados nas urnas, os programas passam por um sistema de autenticação. Ele envolve a criação de hashes –uma espécie de garantia de inviolabilidade do código– e as assinaturas digitais do presidente do TSE, do procurador-geral da República e do secretário de tecnologia da informação do TSE. Se for preciso qualquer alteração nos programas, todo esse processo deve ser refeito, ou o novo software não será executado pela urna.

Logo após a votação ser encerrada, a urna automaticamente apura os votos nela e imprime os resultados da seção eleitoral, com o total de votos por partido e por candidato, total de votos nulos e em branco e a hora do encerramento da eleição. O relatório é afixado na seção eleitoral, garantindo que a informação fique imediatamente disponível ao público.

Os resultados consolidados são então criptografados e gravados em uma mídia digital removível. Ela é levada para um cartório eleitoral para ser transmitida por uma rede interna para um sistema totalizador. Os votos são então somados e publicados de uma maneira incrivelmente rápida: cerca de 150 mil votos por segundo!

Foi justamente nesse ponto que o sistema “pipocou” na noite desse domingo, ficando abaixo de sua própria média histórica. Ainda assim, foi muito mais rápido que as eleições observadas no resto do mundo, como a americana. Mesmo com a “demora”, mais de 110 milhões de votos –já descontadas as abstenções– foram computados e publicados em apenas seis horas. Além disso, os votos podem ser auditados, se for necessário.

De novo, dá para garantir que o sistema é infalível? Por uma questão filosófica e técnica, não! Mas, para vencer toda essa combinação de proteções físicas e eletrônicas, os hackers precisariam de um procedimento que provavelmente nunca será feito por ninguém.

 

O ataque dos arautos do atraso

O que nos leva de volta à outra pergunta feita no começo: por que tem gente que deseja a volta do voto em papel, com todas as suas gigantescas desvantagens?

Bom, na melhor das hipóteses, é porque a pessoa desconhece o processo descrito acima, ou é mais uma vítima da guerra de desinformação nas redes sociais. Na pior faz hipóteses, é porque essa pessoa deseja mesmo fraudar as eleições, e o sistema eleitoral eletrônico inviabiliza os seus planos malignos. Até uma eventual contestação dos resultados na Justiça, como vimos no espetáculo grotesco dessa eleição americana, fica praticamente inviável.

Na prática, como também aconteceu nos EUA, isso não mudará em nada o resultado. Apenas atrasará a declaração do vencedor e custará muito dinheiro ao contribuinte.

Há ainda um terceiro tipo de pessoa que pode querer a volta do voto em papel: aquela que tem medo do desconhecido ou do que não tem controle –mesmo que seja um controle ilusório.

O medo é um sentimento necessário. Ele existe para nossa autopreservação e está associado aos momentos mais primitivos da nossa evolução como espécie. Ele pode ser paralisante. Mas como nosso trabalho hoje (felizmente) não envolve mais tomar decisões de caça diante de um tigre de dente de sabre, não podemos deixar que o medo nos controle.

Em tempos de transformação digital, com tantos e tantos benefícios, o medo pode ser, portanto, um fator que impede a inovação dos negócios e –por que não– de nossa vida.

Mas não tem jeito! Como cantava Elis Regina, na belíssima “Como Nossos Pais”, o novo sempre vem! Não dá para continuar amando o passado e insistindo em não ver isso.

 

A boa imprensa tem lado, opinião e age com responsabilidade

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Em uma semana com tantas notícias bombásticas que levaram à esperada vitória de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos, um acontecimento pode ter passado despercebido da maioria das pessoas. Na noite de quinta-feira, as três principais redes da TV aberta americana –ABC, CBS e NBC– e plataformas online de vários jornais do país literalmente cortaram no meio a fala ao vivo de Donald Trump. O motivo: para variar, ele estava despejando suas mentiras alucinadas. Dessa vez, atacava o sistema eleitoral americano pelo simples fato que sua derrota nas urnas era iminente.

Na hora, duas perguntas me vieram à cabeça.

A primeira é por que os veículos de imprensa nunca fizeram isso antes? Afinal, Trump é o “profeta do apocalipse das fake news” desde muito antes de ser presidente. E a imprensa sempre deu palco para esse maluco!

A segunda é: a imprensa pode fazer isso? Afinal, mesmo com Biden eleito, Trump ainda é o presidente, até que seu oponente vitorioso assuma o cargo, o que acontecerá apenas no dia 20 de janeiro.


Veja esse artigo em vídeo:


Em um primeiro momento, isso pode parecer só um dilema ético para jornalistas. Mas não é!

Todos nós, e não apenas os jornalistas, somos responsáveis pelo que dizemos, pelo que propagamos. Essa é uma responsabilidade que sempre tivemos, mas da qual estamos esquecendo por influência do falso véu do anonimato das redes sociais e do “efeito manada”.

Portanto, respondemos pelo que dizemos. Mais que isso: o que dizemos tem impacto real em quem está a nossa volta e, por extensão, na sociedade. Dessa forma, entender o papel e o poder da imprensa nos ajuda a entender o nosso.

Mesmo em tempos de domínio do Facebook e afins, a imprensa ocupa um papel de destaque nisso. Dessa forma, o jornalismo sério busca ser imparcial.

Mas, se é assim, as três grandes emissoras de TV americanas agiram certo ao cortar Trump? Isso seria censura?

A NBC, por exemplo, interrompeu a transmissão de Trump, e seu âncora Brian Williams disse “estamos aqui novamente na posição incomum de não só interromper o presidente dos Estados Unidos, mas também de corrigir o presidente dos Estados Unidos”.

E é exatamente isso que aconteceu!

Trump e todas suas cópias mal ajambradas pelo mundo, inclusive no Brasil, costumam bater no que chamam de “grande mídia”, dizendo que ela os censura, “calam o povo”, e que a verdade só existe nas redes sociais. Isso serve para usarem essas plataformas para mentir descaradamente sobre tudo, o tempo todo, para, assim, se manter no poder. E as pessoas que querem acreditar nisso, por qualquer motivo (além de um exército de robôs), legitimam seus crimes.

Ainda assim, se estamos em uma democracia, cortar Trump não é desrespeitar quem votou nele?

Essa é uma pergunta legítima. E eu a respondo com outra pergunta: o que você teria feito ao ver que o presidente da República estava usando você para espalhar mentiras perigosíssimas e ódio para a população, colocando em risco a própria sociedade?

 

O que é verdade?

Nesse ponto, podemos até mesmo questionar o que é a verdade. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche disse que “não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.”

Realmente elas são raras! Estão, por exemplo, em leis da ciência. Mas, para chegar a ser lei, uma teoria científica tem um longo caminho a percorrer.

Em muitos casos, a “verdade” pode ser um ponto de vista, e ainda assim ser apresentada como incontestável, mesmo de boa-fé.

O jornalismo encontrou, há muitos anos, uma maneira de minimizar esse problema, definindo que os profissionais devem ouvir o máximo de lados possível sobre um assunto. A verdade possivelmente será a média de todos eles.

A imprensa sempre foi o gatekeeper, aquele que decide o que deve e o que não deve ser visto, com o poder e o dever de não apenas informar, mas também de formar o cidadão. Isso é um poder gigantesco, que só pode ser exercido com grande responsabilidade.

Com a ascensão das redes sociais, esse poder se diluiu. Portanto a pergunta anterior, sobre o que todos nós devemos fazer diante de uma mentira, é justa.

Devemos escolher muito bem o que publicamos na “pequena mídia” que somos. Como temos observado nos últimos anos, em que todos se tornaram mídia graças às redes sociais, a disseminação de notícias falsas e de ódio tem um amplo poder destrutivo. Ecoar essas ideias irrestritamente, ainda que em nome de democraticamente dar voz a todos, é uma falácia, com consequências potencialmente desastrosas. Temos que entender, portanto, que isenção e independência não podem ser confundidas com irresponsabilidade ou deslumbramento sobre o que se publica, mesmo se quem tenha dito a barbaridade seja um presidente da República democraticamente eleito.

Todos merecem e devem ser ouvidos, desde que não estejam cometendo crimes ou deliberadamente mentindo para atingir seus objetivos. Como disse o cartunista e jornalista Millôr Fernandes, “as pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”.

 

Escolha responsável de lado

Ter um lado não significa não ouvir o outro, calar ou censurar. Ter um lado significa defender um ponto de vista dando também bom espaço a quem pensa de maneira diferente, desde que todos os lados sejam legítimos. Afinal crescemos ao sermos confrontados com a diferença. Quem tenta calar a diferença, quem trata o opositor como um inimigo que deve, se possível, ser destruído não é legítimo, pois faz de tudo para tornar quem está a sua volta menor, para se manter no topo com a sua própria pequenez.

Se a verdade absoluta é difícil de ser encontrada, temos que, pelo menos definir o que é legítimo: é o que defende valores inegociáveis, como o direito à vida, à liberdade, à igualdade e a democracia.

Em sua fala de quinta (e em incontáveis outras), Trump feriu isso. Logo, os veículos de comunicação acertaram ao interromper o que dizia para restaurar os fatos. Escolheram um lado e agiram com responsabilidade.

Deveriam ter feito isso desde quando ele ainda era um pré-candidato à presidência dos EUA. Talvez nunca teria sido eleito, o que causou um dano gigantesco ao mundo todo, pela influência do cargo que ocupou por quatro anos. Em nome da democracia, deram espaço a suas ideias alopradas, talvez por que não achassem que aquele bufão pudesse ganhar qualquer coisa.

Mas ele ganhou! Até porque essa exposição permitiu que suas ideias ressoassem em grande parte da população, que “caíram no canto da sereia” e se viram representadas por ele.

Agora Donald Trump é o que os americanos chamam de “pato manco”: o presidente no período entre o resultado da eleição e a posse de seu sucessor. Ele ainda pode causar enormes danos aos Estados Unidos e ao mundo nesses dois meses e meio. Ficar dando palco a suas mentiras só permitirá que ele faça algo ainda pior.

A imprensa e todos nós devemos evitar isso!

Você pode dizer: “mas eu nem falo da eleição americana!” Correto! Ela foi apenas um gancho para esse debate.

O mesmo raciocínio se aplica ao cotidiano de cada um de nós. Não há nada de errado em escolhermos algo para defender. Muito pelo contrário! Mas devemos também dar espaço a ideias diferentes. Devemos acolhê-las, e não as silenciar! Caso contrário, usaremos esse grande poder que todos temos para nos tornarmos pessoas menores e também piorar a sociedade.

Isso ninguém quer. Precisamos escolher um lado, respeitar o outro e agir com responsabilidade.

 

O ano do “deep fake”

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Hoje o ano se inicia para valer! E faz isso com o alerta de algo que pode “bagunçar o coreto”, especialmente em um ano eleitoral: o “deep fake”. Trata-se de uma tecnologia capaz de criar vídeos absolutamente convincentes com pessoas agindo ou dizendo coisas que nunca fizeram.

Viabilizada pela inteligência artificial e pelas milhões de imagens nas redes sociais, ela chegou a uma tal sofisticação, que nem especialistas conseguem identificar um vídeo verdadeiro de um falso.

Quer entender como ela é feita e ver alguns exemplos? É só assistir ao meu vídeo abaixo:



As fotos e vídeos nas redes sociais são importantes porque servem como base para “calibrar” o sistema de reconhecimento fácil. Todos os rostos têm pontos específicos que servem para os identificar, quase como se fosse uma impressão digital. É assim que, por exemplo, o Facebook consegue saber instantaneamente quem está conosco nas fotos que subimos na rede social.

A inteligência artificial usa essa informação para que o computador aprenda como o rosto de uma pessoa se comporta, como ele fica em cada pose possível. A partir daí, ele consegue sintetizar, com incrível precisão, a imagem de qualquer pessoa realizando movimentos e falando coisas que outra pessoa -um “modelo”- executou em outro vídeo.

Essa tecnologia já é usada há anos por Hollywood em filmes como “Star Wars”, “O Senhor dos Aneis” ou “King Kong”. Mas lá são sistemas caríssimos e extremamente complexos. A diferença é que o “deep fake” pode ser realizado em um computador doméstico, com software gratuito. E qualquer um pode se tornar vítima disso hoje.

Surge a pergunta: como evitar que isso aconteça?

Tudo isso ganha ainda mais relevância se considerarmos que estamos em um ano eleitoral. É só pensar no estrago que as “fake news” vêm fazendo desde antes das eleições anteriores. E, diante do “deep fake”, as infames notícias falsas parecem brinquedo de criança.

O problema é mais grave que muitos podem perceber a princípio. Várias tentativas estão sendo feitas para “separar o joio do trigo”, mas infelizmente elas têm falhado na tarefa. A própria inteligência artificial que viabiliza o “deep fake” virou ferramenta, mas os resultados são frustrantes. Há ainda iniciativas “malucas”, como obrigar que todas as câmeras criem um “selo de autenticidade digital” nas imagens que produzirem ou que ainda as pessoas registrem continuamente o que fizerem, onde e com quem estiverem.

No final das contas, a solução mais razoável é a mesma que a das “fake news”: educar a população. O problema é que, se falhamos miseravelmente nessa tarefa, que dizer agora com o “deep fake”, muito mais convincente que escandalosos postagens falsas distribuídas pelo Facebook e pelo WhatsApp?

Uma vez mais, a responsabilidade para encontrar a verdade no meio de um mar de mentiras recai sobre a boa imprensa. Somente ela, tem esse poder, fazendo investigações reais, no mundo real, indo atrás da informação real.

Muitos podem dizer: “mas a imprensa é vendida e falha!” Há empresas e veículos que infelizmente são mesmo. Mas há também aqueles -e não são poucos- que, se não são infalíveis (pois isso não existe) buscam fazer um trabalho sério.

Quer saber quem está trabalhando bem? Veja quem é mais vítima dos ataques de governantes. Quanto mais atacados, provavelmente melhor o trabalho jornalístico. E, se o mesmo veículo for atacado por adversários políticos, então o trabalho deve estar sendo bem feito mesmo!

Só assim, teremos mais chance de não sermos feitos de bobo!


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A reforma da Previdência é um vespeiro que ninguém coloca a mão de verdade

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Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado/Creative Commons

Estamos às vésperas da eleição mais polarizada da história do Brasil.  Grande parte disso se deve ao uso eficiente das redes sociais por parte dos candidatos, que aproveitaram os recursos dessas plataformas para realizar comunicações incrivelmente assertivas com o público, jogando a TV para escanteio na importância do processo de tomada de decisão, como expliquei no vídeo abaixo. A questão é: quanto do que dizem é verdade e quanto é “encenação eleitoral”?


Vídeo relacionado (de 24 de setembro de 2018):


Pode-se argumentar, com muita tranquilidade, que isso “faz parte do jogo”, que sempre foi assim e sempre será. Mas a combinação de fatos, “fake news”, “bolhas” nas redes sociais e sistemas de coleta de informações de usuário tem sido tão eficiente, que os eleitores de um candidato, qualquer que seja sua linha, estão acreditando que o que diz (e até o que não diz) é a mais pura verdade. Portanto, não se trata de “direita” ou “esquerda”, conservadores ou liberais: todos (ou pelo menos os mais espertos) estão usando os meios digitais para fazer valer seus argumentos e, dessa forma, conseguir votos.

Peguemos, como exemplo, um tema absolutamente espinhoso: a reforma de Previdência, um dos maiores angus de caroço da República. Esse é um tema essencial para o futuro da Nação, mas não vejo nenhum candidato com uma proposta que demonstre seriedade para descascar esse abacaxi. Vejo um monte de “sou a favor” ou “sou contra”, de acordo com seu alinhamento político, e depois um monte de cortinas de fumaça (mais ou menos eficientes, de acordo com o caso), para fazer o eleitorado acreditar naquilo.

Claro! A resolução do problema necessariamente passa por medidas muito impopulares ou aumentar ainda mais o já grotesco rombo nas contas públicas para manter o sistema funcionando. E fazer isso em período de campanha é um verdadeiro suicídio político.

A importância disso se deve ao fato de a aposentadoria ser um direito de todos que está quebrando o país. É uma situação de “se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come”.

Para pagar um aposentado, precisamos de vários trabalhadores na ativa, contribuindo com o sistema. Isso funcionou por décadas, pois a balança sempre pendia fortemente para o lado dos que ainda trabalhavam.

Mas a população brasileira (assim como a da maioria dos países) está envelhecendo: de um lado, as pessoas estão vivendo mais; do outro, a taxa de natalidade vem caindo (às vezes, muito). Ou seja, o sistema começou a falhar lá atrás, quando as contribuições dos que ainda trabalham já não eram suficientes para pagar os aposentados.

Esse saldo negativo gera um rombo nos cofres públicos que o Tesouro precisa cobrir todos os meses. E esse buraco cresce mês a mês.

As soluções para o problema, como disse acima, são impopulares. Criar regras que dificultam a aposentadora, como aumentar a idade mínima para isso, ou aumentar a contribuição de quem está na ativa, diminuir o valor recebido de quem já se aposentou, estão entre elas. Outra possibilidade é o governo continuar bancando essa conta crescente, mas, para isso, precisa de mais dinheiro. E, quando o governo precisa de mais dinheiro (especialmente MUITO dinheiro), dificilmente ele remaneja isso de outras áreas: ele aumenta os impostos. E a experiência mostra que esse dinheiro acaba indo para outro lugar, no final das contas.

Outra forma de conseguir mais dinheiro é combatendo a corrupção. Estima-se que metade do PIB brasileiro “desapareça” nos esgotos da corrupção. É muito dinheiro! Poderia resolver o problema da Previdência.

Mas quem vai mexer verdadeiramente nesse outro vespeiro? É melhor adotar as medidas impopulares!

A reforma da Previdência é só um exemplo. Escolha o seu tema e veja como os candidatos estão usando os meios digitais como um eficientíssimo canto da sereia. Portanto, não se deixe levar cegamente pelo que lê nas redes sociais: procure fazer uma análise crítica e desapaixonada. Isso o ajudará a tomar uma melhor decisão neste domingo.


E aí? Vamos participar do debate? Role até o fim da página e deixe seu comentário. Essa troca é fundamental para a sociedade.


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Fique de olhos nos meus próximos eventos públicos:

Nesse ano, elegeremos o presidente em um videogame

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Mario Bros para presidente do Brasil? Muita calma nessa hora! Imagem: composição com imagens de divulgação

Mario Bros para presidente do Brasil? Muita calma nessa hora!

Esse será o ano da eleição-videogame! Ganhará o pleito o candidato que souber as regras de jogo e como usar os recursos digitais das diferentes plataformas para “coletar moedas”, “vencer os chefes” e “passar as fases”. Não estou brincando, não! Os votos serão conquistados principalmente no meio digital, usando conceitos de jogabilidade. A parte chata é que nós teremos a ilusão de ter algum controle dessa narrativa, mas é grande a chance de acabarmos apenas como personagens secundários desse enredo. Como não sermos então manipulados nesse game?

Não se engane: a campanha já começou para valer, e há bastante tempo! Pré-candidatos de todo o espectro político já estão nas redes sociais coletando os nossos dados, analisando comportamentos de grupos, categorizando os eleitores e fazendo movimentos muito bem calculados, plantando informações de seu interesse nos lugares certos para mover as peças desse tabuleiro.

O mais incrível é que as pessoas não percebem isso, e participam alegremente do jogo. Em grande parte, isso acontece pela disseminação dos smartphones e pelo nosso uso permanente das redes sociais. A combinação desses fatores cria o ambiente perfeito para essa eleição feita de bits em três frentes principais.

A primeira é que o conceito de jogabilidade já foi totalmente assimilado por grande parte da população, mesmo entre pessoas que nunca ouviram esse termo. Graças aos joguinhos casuais nos smartphones e principalmente nas redes sociais –com destaque especial aos infames “brinquedinhos” do tipo “com qual celebridade você se parece” que inundam o Facebook– as pessoas já se acostumaram a ter algum benefício imediato se conseguirem cumprir alguma tarefa proposta pelo sistema. E as tarefas mais comuns consistem em prosaicamente entregar seus dados pessoais e depois compartilhar o resultado do jogo nas redes sociais.

Além disso, por carregarmos os smartphones conosco o tempo todo e aos aplicativos das redes sociais, nós estamos constantemente online. Não saímos nunca da Internet (ou é a Internet que não sai de nós?).

O que nos leva à terceira frente: somos permanentemente rastreados, seja o lugar onde estamos nas 24 horas do dia (e com quem estamos), nossos interesses em todos os campos, nossas ações e qualquer outra coisa que as marcas vejam valor. E muitas dessas informações são coletadas sem que tenhamos que tomar qualquer ação: o sistema se encarrega de tudo, muitas vezes (muitas mesmo!) sem que sequer tenhamos consciência disso.

O “Big Brother”, aquele Grande Irmão do livro “1984”, de George Orwell, era um amador com seu tosco controle da sociedade a partir de câmeras.

 

Criando cabos eleitorais superengajados

Você também sente que, nos últimos anos, as discussões políticas ficaram muito polarizadas e até mesmo radicais? É um tal de “se não estiver comigo, está contra mim”, amizades de muitos anos sendo desfeitas.

Isso é reflexo do game!

Os candidatos mais espertos já perceberam como ajustar o seu discurso para atender aos formadores de opinião nas redes. Transformam-se em personagens que vão de encontro aos anseios desses grupos e, dessa forma, cooptam esses usuários para espalhar suas mensagens, às vezes com grande virulência, radicalização e até agressividade. Graças às dinâmicas das redes sociais, esse comportamento agrupa uma grande quantidade de pessoas que pensam no mesmo, e o sistema vai se retroalimentando. Com isso, a visão do candidato sobre qualquer assunto rapidamente ganha ares de verdade incontestável, mesmo que seja a mais rotunda porcaria.

Uma versão mais sofisticada disso usa sistemas e algoritmos para coletar dados dos incautos usuários para classificá-los em grupos seguindo preferências nos mais diferentes campos. Com isso, a tarefa acima fica ainda mais eficiente!

É exatamente o que a empresa Cambridge Analytica fez para ajudar na eleição de Donald Trump, no escândalo que foi exposto em março. Em primeiro lugar, criou o “joguinho” “This Is Your Digital Life”, que foi baixado por cerca de 270 mil usuários, que compartilharam alegremente, via Facebook, não apenas os seus dados, mas também os de seus amigos. Como resultado, a Cambridge Analytica colocou as mãos em informações pessoais de 87 milhões de pessoas, que foram usadas para conhecer profundamente alguns desejos dessas pessoas. A partir disso, a campanha de Trump conseguiu ajustar seu discurso para se tornar mais convincente, fazendo uso até mesmo de “fake news”, habilmente plantadas seguindo as conclusões do sistema.

Pode-se argumentar que a política sempre foi um jogo, e sempre ganhou quem conseguiu construir uma mensagem mais adequada aos anseios do eleitorado. Mas nunca os candidatos tiveram recursos nem de longe tão poderosos para isso. O ganho de escala, de inteligência e de capacidade de processamento nos últimos anos são quase inacreditáveis!

E tem ainda quem distribua “santinhos”. Coitados!

 

“Política não se discute”

Lembra daquele velho ditado: “política, futebol e religião não se discute”? A sabedoria dos “antigos” estava certa: são temas que naturalmente causam polêmica.

Mas sempre discutimos tudo isso nas mesas de bar, em casa, no trabalho. E, por mais que um fosse Corinthians e o outro fosse Palmeiras, por mais que piadinhas infames fossem comuns, as pessoas não deixavam de ser amigas umas das outras por terem opiniões diferentes. Pelo contrário: as divergências eram construtivas, até aprendíamos com o pensamento do outro, por mais que continuássemos discordando dele.

Entretanto, graças aos algoritmos das redes sociais, às “fake news”, aos “candidatos player 1”, a radicalização está matando essa convivência pacífica. E, com isso, levando embora, a inestimável habilidade de aprender com o outro.

Portanto, deixo aqui um apelo: todos têm o direito de ter sua opinião, sua ideologia, seu alinhamento político, seu candidato preferido. Mas não se radicalize! Além disso, por mais que o seu candidato lhe pareça perfeito (e isso não existe em lugar nenhum), não acredite piamente em tudo que ele disser. Busque informações em diferentes fontes, especialmente em fontes com opiniões divergentes.

Em 11 de novembro de 1947, Winston Churchill, ex-primeiro-ministro do Reino Unido e considerado um dos maiores estadistas da história, proferiu uma de suas célebres frases: “Ninguém espera que a democracia seja perfeita ou infalível. Na verdade, tem sido dito que a democracia é a pior forma de governo, excetuando-se todas as demais formas.”

Entre muitas outras coisas sobre a democracia, Churchill sabia que ela só funciona bem pela contraposição de ideias. Pois não existe verdade absoluta. O que mais se aproxima disso está no meio das opiniões divergentes.  Quanto mais nos afastarmos do diálogo pluralista, mais nos enfiaremos na escuridão.

Portanto, nesse ano de eleição-videogame, agarre o joystick e seja o “jogador 1” da sua vida. Não se deixe enganar pelo canto da sereia nem dos candidatos, nem dos algoritmos. É o futuro de todos que está em jogo.


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