Daily Archives: 5 de outubro de 2026

Os professores Rosental Calmon Alves e Tom Rosenstiel, durante o 27º Simpósio Internacional de Jornalismo – Foto: reprodução

Diante da IA, o jornalismo deve vender compreensão do mundo, não notícias

By | Jornalismo, Tecnologia | No Comments

Nunca foi tão barato produzir uma “notícia”. Em segundos, a inteligência artificial escreve, resume, traduz e espalha um conteúdo. Em compensação, o que exige gente e responsabilidade, como apuração, verificação, contextualização e capacidade de separar o que importa do ruído, ficou mais raro e complexo. Hoje, cada informação vale pouco sozinha, mas poder confiar nela vale cada vez mais.

Tal abundância atinge duramente o jornalismo, mas sua crise não se resume à perda de leitores e anunciantes. A imprensa sempre selecionou e hierarquizou assuntos, confrontou versões e ajudou a formar uma agenda comum. A mediação não desapareceu, apenas parte dela mudou de mãos. Há pelo menos uma década, são as plataformas digitais que organizam o que vemos, movidas pela busca de atenção e de engajamento, não por relevância ou interesse público. Com isso, o jornalismo perdeu parcialmente o caminho entre o fato e o cidadão.

Essa transformação deu o tom das discussões do 27º Simpósio Internacional de Jornalismo (ISOJ), que aconteceu nos dias 17 e 18 de setembro, na Universidade do Texas em Austin (EUA). Jornalistas, pesquisadores e executivos de mídia discutiram sustentabilidade, confiança, inteligência artificial, jovens, comunidades e novos modelos de negócio. Apesar dessa variedade, o assunto comum foi como fazer o jornalismo voltar a ser relevante para as pessoas.

Isso não significa que se produza menos jornalismo ou que ele tenha piorado. Há muita investigação, reportagem e análise de qualidade, mas rigor não garante utilidade. Uma apuração impecável pode não explicar ao leitor o que aquilo tem a ver com ele. Muitas redações ainda pensam em matérias e cliques, enquanto as pessoas vivem às voltas com dinheiro, saúde, trabalho e filhos.

Nesse cenário, o dilema da imprensa é o que vender às pessoas, se a informação está em todo lugar e parte do público não enxerga mais utilidade no jornalismo.


Veja esse artigo em vídeo:


O professor da Universidade de Maryland (EUA) Tom Rosenstiel defendeu no ISOJ a passagem do “jornalismo da atenção” para o “jornalismo do valor”. A imprensa capturava leitores e alugava a atenção deles a anunciantes, mas hoje disputa isso com plataformas digitais. “Para ser sustentável, precisamos criar um jornalismo tão útil na vida das pessoas que elas paguem por ele”, afirmou. O produto, portanto, não pode mais ser apenas a notícia, passando a ser a capacidade de compreender a realidade.

Isso significa descobrir e verificar o que aconteceu, mas também contextualizar fatos, organizar informações dispersas, mostrar quem é afetado, explicar consequências e deixar claro o que ainda não se sabe. Essa é a diferença entre informar que algo aconteceu e ajudar as pessoas a entender por que aquilo interessa a elas.

Essa capacidade não importa apenas para a democracia, orientando decisões cotidianas sobre dinheiro, saúde, trabalho e muito mais. Uma informação errada sobre juros pode afetar as finanças de uma família, assim como uma compreensão ruim sobre inteligência artificial pode influenciar escolhas profissionais. Compreender o mundo não é luxo intelectual, e sim uma competência para viver.

O jornal já reuniu política, empregos, classificados, esportes, previsão do tempo, cultura e programação da TV, mas a imprensa não deve querer restaurar esse modelo. “Com muita frequência, estamos tentando recriar o passado em vez de criar um novo futuro”, criticou Richard Gingras, presidente do conselho da Village Media. O que precisa ser recuperado é a utilidade.

As pessoas só compram aquilo em que confiam, e só confiam no que lhes é útil. “Confiança não é algo que se conquista falando sobre confiança ou publicando mais informação”, explicou Jody Chong, diretora-executiva do City Bureau. Esse sentimento não nasce de campanhas, mas de experiências consistentes com informações corretas, apurações transparentes, investigações reveladoras e erros corrigidos.

 

Os impactos da IA

É aqui que a IA expõe uma contradição. Ao baratear resumos, traduções e vídeos, ela aprofunda a desvalorização da informação, mas também facilita o que é difícil, como analisar milhares de documentos, cruzar dados, recuperar arquivos e encontrar padrões. Quanto mais barato fica produzir informação, mais o jornalismo precisa investir no que não se resolve produzindo mais conteúdo.

Com a IA, o acervo de uma publicação pode virar uma base de conhecimento capaz de dizer ao leitor o que um fato significa para ele. Mas, se essa resposta chegar por agentes de outras empresas, o jornalismo repetirá o erro cometido com as redes sociais, produzindo o conhecimento enquanto outros controlam a relação com o público.

Competir com as máquinas na produção de conteúdo em escala é uma batalha perdida. O valor do jornalismo deve estar no que exige julgamento, como investigar, selecionar, contextualizar e assumir responsabilidade. Para que ele seja reconhecido, a reportagem precisa deixar de ser apenas um texto em uma página e se tornar um conhecimento verificável, com fontes, evidências e autoria claras.

Quando alguém pergunta algo à IA, a resposta chega em segundos, muitas vezes sem deixar claro qual reportagem a sustentou, que fontes foram usadas ou quem se responsabiliza por ela. A mesma tecnologia, a serviço do jornalismo, permite ao leitor conversar com arquivos, comparar períodos e explorar investigações, mas alguém precisa responder pelo que é dito.

Então, não basta reinventar o produto jornalístico, sendo necessário mudar a empresa que o produz. A organização deixa de ser uma fábrica de conteúdo e passa a funcionar como uma instituição de conhecimento público, capaz de produzir informação original, verificar fatos, preservar memória, organizar contexto e ajudar a sociedade a entender o mundo. Assim, a empresa jornalística do futuro não venderá notícias, e sim a capacidade de compreender a realidade.

Nunca tivemos tanto conteúdo, e nem por isso compreendemos melhor o mundo. Muitas vezes, ficamos mais confusos, polarizados e cheios de certezas apressadas. O jornalismo não deve ser medido pelo que publica ou alcança, mas pelo quanto amplia essa compreensão. Seu papel mais nobre e o caminho para sair da própria crise passam por tornar a informação mais valiosa para quem vive cercado por ela.