Daily Archives: 19 de outubro de 2026

Smartphones e câmeras criaram um sistema de vigilância dos cidadãos ostensivo na Rússia – Ilustração: Paulo Silvestre

Rússia transforma conveniência digital em instrumento de vigilância inescapável

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Não é de hoje que as plataformas digitais nos oferecem comodidade em troca da coleta de nossos dados. Nossos celulares, que tanto nos ajudam, denunciam aspectos de nossa vida a empresas e governos, muitas vezes sem nosso conhecimento. Agora, a Rússia do presidente Vladimir Putin aperfeiçoou essa proposta, transformando equipamentos digitais em ferramentas inescapáveis de rastreamento e manipulação.

A ideia é simples. A sociedade russa passa por uma acelerada digitalização, que facilita mesmo tarefas prosaicas, como pegar o metrô. Usar o rosto serve, por exemplo, para pagar quase tudo. Em alguns casos, fazer a mesma tarefa por “métodos tradicionais” se torna difícil ou até impossível. Assim, mesmo com o fornecimento de dados biométricos sendo voluntário, o mecanismo praticamente inviabiliza que as pessoas não os entreguem.

O problema é que os dados podem ganhar finalidades que vão muito além do serviço utilizado. Os aplicativos usados pelos russos, combinados com centenas de milhares de câmeras nas cidades, permitem ao governo identificar pessoas e reconstruir parte de seus deslocamentos e, em muitos casos, o que estão fazendo e com quem.

A essa altura, o rastreamento digital parece inevitável. Mas nem tudo o que pode ser feito deve ser feito. O governo de Putin tem usado esse recurso para identificar e seguir opositores e dissidentes, não só em manifestações, mas no cotidiano.

Isso faz o controle do Grande Irmão da obra “1984”, de George Orwell, parecer algo limitado e ineficaz. A vigilância digital permanente pode se tornar uma das atitudes mais asfixiantes de um governo autoritário, subjugando o livre-arbítrio e até a liberdade de ir e vir dos cidadãos.


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Cerca de 10 milhões dos 145 milhões de russos já usam aplicativos baseados em biometria. Percentualmente, pode não parecer muito, mas a maioria deles se concentra nas grandes cidades, e esse número cresce impulsionado por uma forte campanha publicitária.

As vantagens não se resumem a pagamentos facilitados e acessos automáticos. O governo apresenta o reconhecimento facial como responsável por ganhos de segurança nas cidades russas, que eram sensivelmente mais perigosas há duas décadas. Alega ainda que o sistema oferece benefícios aos cidadãos superiores aos das democracias ocidentais.

Essa comparação ignora o progressivo fechamento do espaço político russo, que acontece há muitos anos. A invasão da Ucrânia deixou isso mais evidente. Em um Estado acusado de enviar jovens presos em manifestações contra o governo para a linha de frente no campo de batalha, qualquer ato de discordância pode tornar a vida muito mais difícil e até perigosa.

Jovens que se recusam a atender ao alistamento para a guerra relatam que não podem mais deixar o país, além de sofrer restrições em serviços básicos. Alguns temem até mesmo ser presos por simplesmente subir em um ônibus.

Cria-se então um dilema insustentável. As pessoas que quiserem escapar das garras governamentais e manter um nível saudável de autonomia e anonimato tornam-se cidadãos de segunda categoria, com restrições severas em suas vidas.

 

A vigilância em outros países

A Rússia não é o primeiro país a usar a tecnologia digital para espionar os próprios cidadãos. Desde 2014, a China vem aperfeiçoando o seu Sistema de Crédito Social, um conjunto de cadastros, listas de restrições e avaliações de pessoas e empresas. Há ainda o acréscimo de experiências locais de pontuação de “boas práticas sociais”, mas os mecanismos mais consolidados punem infrações e descumprimento de decisões judiciais.

Em 2013, o ex-analista de inteligência Edward Snowden revelou que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) mantinha programas de vigilância em larga escala, capazes de coletar dados telefônicos e acessar comunicações digitais. Ele também expôs a cooperação de empresas de tecnologia com o governo americano e a interceptação de tráfego na infraestrutura global da Internet.

Em grandes cidades europeias, a polícia usa reconhecimento facial para comparar rostos com listas de procurados, o que também gera riscos à privacidade, mas há diferenças nas salvaguardas e finalidades. Lá, a identificação biométrica policial em tempo real em espaços públicos é proibida, salvo exceções. Isso não elimina abusos, mas, em tese, impede o uso do sistema para perseguir opositores.

Durante o apagão de dezembro de 2025, a Prefeitura de São Paulo usou o Smart Sampa para rastrear equipes de manutenção da concessionária Enel, a quem o prefeito Ricardo Nunes atribuía a culpa pelas falhas no fornecimento. O episódio levanta dúvidas sobre a extrapolação da finalidade do sistema de segurança municipal e sobre o seu uso político.

Por caminhos distintos, os sistemas russo e chinês mostram como dados podem ampliar a capacidade de controle do Estado, algo que se tornou real depois de ser explorado pela ficção. No filme “Minority Report” (2002), de Steven Spielberg, câmeras identificavam cidadãos e sistemas gerenciavam abordagens em espaços públicos. O roteiro demonstra como, quando ninguém sabe se está sendo observado, a vigilância deixa de apenas controlar comportamentos e passa a inibir a liberdade, o anonimato e a própria disposição de contestar o poder.

Obviamente, não se propõe aqui abandonar a tecnologia, mas impedir que a conveniência se torne uma forma de coerção. Serviços essenciais devem oferecer alternativas à biometria, sem penalizar quem recusa “entregar o próprio rosto”. A sociedade precisa exigir limites à coleta, fiscalização independente e punição para quem transforma dados em instrumentos de perseguição. Quem deve prestar contas é o poder, não o cidadão que deseja preservar sua privacidade.

Também é preciso inverter a pergunta que sustenta essa vigilância. Em vez de exigir que cada pessoa explique o que tem a esconder, governos e empresas devem demonstrar por que precisam saber tanto sobre nós. Uma cidade inteligente não é aquela que reconhece todos os rostos, mas a que respeita quem não quer ser reconhecido. Se a modernização exige que sejamos permanentemente identificáveis, estamos atualizando ferramentas de autoritarismo, não de cidadania.