Monthly Archives: janeiro 2026

Manifestantes afirmam que não se vacinar é “liberdade de escolha”, argumento comum de influenciadores antivacinas - Foto: reprodução

Influenciadores precisam deixar de ser foco de desinformação e se profissionalizar

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O mercado de influenciadores pode estar diante de um sopro de seriedade. A ocupação cresce vertiginosamente há anos, graças à falsa ideia de que, para se tornar famoso e rico, basta ligar a câmera do celular e falar, mesmo não tendo qualquer preparo para tal. Agora isso pode mudar.

Vários países, inclusive o Brasil, estão criando leis para disciplinar, em maior ou menor escala, a atividade dos criadores de conteúdo digital. Pelo menos em tese, isso oferece algumas garantias a esses profissionais, assim como diminui práticas condenáveis, incluindo a desinformação (consciente ou não).

Essas regras ficam ainda mais importantes em tempos de inteligência artificial generativa. Graças a ela, pessoas sem qualquer conhecimento sobre determinado assunto conseguem produzir conteúdo que parece verdadeiro, mas que pode estar completamente errado. Como não são capazes de avaliar a produção da IA, passam a bobagem adiante, que pode ganhar grande escala e afetar decisivamente o público.

A OpenAI, criadora do ChatGPT, está atenta a isso. Desde novembro, ele oficialmente não oferece mais “aconselhamento” jurídico, financeiro ou sobre saúde, passando a se comportar menos como um “consultor” e mais como uma “ferramenta educacional”.

Segundo um estudo da organização de saúde americana KFF, 17% dos americanos adultos usam a IA todos os meses para informações sobre saúde (25% se tiverem menos de 30 anos), mas 56% deles não têm certeza se a informação é correta. Por isso, a mudança no ChatGPT visa evitar processos por informações erradas, mas ela impacta diretamente aqueles que usam o serviço para criar seus conteúdos digitais.

Influenciadores têm um papel central em como as pessoas se informam hoje, mas muitos seguidamente demonstram despreparo e até falhas éticas graves. Por isso, as novas regras são muito bem-vindas para profissionalizar essa atividade.


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No Brasil, a lei 15.325/2026, sancionada em 6 de janeiro, reconhece o “profissional de multimídia” como trabalhador multifuncional, apto a atuar em criação, produção, captação, edição, gestão e distribuição de conteúdos digitais em diversas plataformas, incluindo redes sociais, games, sites e animações. Profissionais de outras áreas que exerçam funções assim poderão pedir um aditivo em seu contrato de trabalho.

Apesar de dar reconhecimento jurídico à profissão, especialistas criticam a lei porque ela não exige nenhuma formação profissional, além de não possuir mecanismos de combate à desinformação ou deveres claros das plataformas. Isso significa que casos recentes de médicos passando informações falsas de saúde ou de influenciadores indicando apostas digitais como investimento continuarão inundando as redes.

Por outro lado, na China, desde outubro, criadores de conteúdo que queiram falar de finanças, educação, saúde ou área jurídica precisam comprovar qualificação formal na área. As plataformas digitais são obrigadas a coletar documentos que comprovem isso, verificar sua autenticidade e só então permitir esse tipo de conteúdo. Quem desrespeitar pode ter a conta suspensa, seu conteúdo apagado e receber multas que chegam a 100 mil yuans (cerca de R$ 75 mil).

O governo justifica a lei pelo alto volume de dicas enganosas, especialmente em saúde e investimentos, com o cidadão leigo não conseguindo distinguir entre um especialista e um influenciador. Assim, a influência deve deixar de ser só uma questão de popularidade e passa a se apoiar em capacitação comprovada. Isso é uma boa notícia para profissionais formados nessas áreas, que hoje concorrem com o carisma de influenciadores e até com charlatanismo digital. Por isso, analistas sugerem que esse tipo de lei pode inspirar outros países que enfrentam problemas semelhantes.

Alguma organização desse setor também pode ser encontrada em leis do Reino Unido, França, Itália, Espanha, Austrália, Nova Zelândia, Índia e Hong Kong, a maioria priorizando autorregulação com punições.

Não dá mesmo para continuar “deixando solto” um setor que, só no Brasil, “emprega” 10 milhões de autointitulados influenciadores com, pelo menos, mil seguidores. Segundo o banco Goldman Sachs, esse mercado deve movimentar quase US$ 500 bilhões (cerca de R$ 2,7 trilhões) até 2027, vindo principalmente de companhias com marketing de influência e pela monetização de plataformas de streaming ou de redes sociais.

 

Despreparo e falta de ética

De fato, grandes empresas vêm recorrendo cada vez mais a influenciadores para suas campanhas. Apesar de isso lhes garantir muita visibilidade, nem sempre o resultado é positivo, pois, ao contrário de veículos de comunicação, cujo mercado é bem regulamentado, os influenciadores se comportam como pessoas físicas sem regras. Por isso, suas ações às vezes questionáveis podem respingar na reputação das marcas.

Alguns casos emblemáticos no Brasil são o de Monark, que, em 2020, relativizou a existência de um partido nazista no país, o de Karol Conká, que apresentou um comportamento agressivo e humilhante na sua participação no Big Brother Brasil 21, ou o de Gabriela Pugliesi, que publicou um vídeo de uma festa que promoveu no momento mais crítico da pandemia de Covid-19, ironizando as regras sanitárias. Em todos eles, as companhias que os patrocinavam rescindiram contratos.

As empresas têm culpa no problema. Ao contratar influenciadores apenas pela sua exposição, ignoram o alinhamento dos valores da pessoa com os da marca. Em muitos casos, eles são conflitantes, e isso gera crises que poderiam ter sido evitadas.

Em dezembro, influenciadores de grande alcance fizeram um ataque coordenado contra o Banco Central e seus diretores, para proteger o Banco Master, que havia sido liquidado pela instituição. A maioria daqueles criadores faz publicações de fofocas, sem qualquer relação com finanças ou economia. O caso demonstrou como a falta de ética no segmento permite que se compre mecanismos para moldar a opinião pública.

Casos recentes de influenciadores de saúde vêm provocando grande prejuízo ao público, inclusive no Brasil. Além da promoção de produtos inócuos e até perigosos, médicos vêm atacando vacinas e protocolos consagrados, como a mamografia. Entre as consequências disso, está a queda da vacinação, levando ao aumento de doenças antes erradicadas, como o sarampo.

O fenômeno dos influenciadores criou a maior máquina de convencimento da história. Muito longe de configurar censura, disciplinar essa atividade é vital para que não nos afundemos ainda mais em todo tipo de desinformação, um problema que já foi banalizado. A sociedade precisa se organizar para que informações com base na ciência e bem apuradas se sobreponham ao despreparo e à falta de ética.

 

Avatares da plataforma digital Roblox, que implantou novas medidas de segurança - Foto: reprodução

Revolta no Roblox mostra que a proteção digital infantil exige mais do que barreiras virtuais

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O Roblox é uma das plataformas de jogos mais populares entre crianças no mundo, com 151 milhões de usuários, a maioria abaixo dos 13 anos. Nas últimas semanas, implantou restrições em seu chat e exigiu verificação facial para tentar proteger seus usuários contra predadores digitais. Mas ironicamente essas medidas de segurança despertaram uma revolta visceral nas crianças, como se a proteção fosse uma afronta à sua liberdade de brincar, com protestos no próprio ambiente.

Longe de se limitar a um problema em um jogo, isso reflete dilemas de uma sociedade conectada. Casos trágicos, como o suicídio do jovem americano Ethan Dallas após sofrer extorsão iniciada no Roblox, mostram que as consequências do que ocorre nesses ambientes virtuais transbordam, muitas vezes de forma irreversível, para o mundo físico e para a estrutura familiar.

Os protestos parecem espontâneos, mas a forma coordenada como surgiram, com cartazes cheios de erros exagerados de grafia e linguagem infantil, levanta dúvidas. Não se pode descartar a hipótese de que adultos mal-intencionados, que se beneficiam da falta de regulação, estejam manipulando os menores para manter o acesso facilitado.

Embora as mudanças pareçam robustas na teoria, a eficácia dessas barreiras é questionável diante da criatividade humana para burlar regras. A tecnologia, por mais avançada que seja, frequentemente corre atrás do prejuízo, tentando remediar problemas que o próprio design da plataforma permitiu.

Resta a dúvida se tais ações vieram para resolver um problema estrutural ou apenas como uma resposta paliativa para conter uma crise de reputação. O fenômeno observado no Roblox é um microcosmo do que acontece em diversas redes sociais, no qual empresas aplicam correções superficiais para aplacar a opinião pública, enquanto a arquitetura que permite o risco permanece intacta e lucrativa.


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Nesse universo, crianças são expostas a riscos graves, como o aliciamento sexual disfarçado de brincadeira e a troca de favores virtuais, conhecidos como “jobs”. Eles começam como uma interação inocente em busca de moedas para comprar itens para um avatar, mas podem degenerar rapidamente para situações de abuso e exploração, em que a fronteira entre o lúdico e o criminoso se dissolve pelo aproveitamento de fragilidades, carências e imaturidade emocional típicas da infância.

Essa dinâmica não é exclusiva do Roblox, mas fica dramática ali pela natureza imersiva da plataforma. Diferentemente de um feed de uma rede social, a interação simula presença física e contato direto, o que potencializa a vulnerabilidade. A sensação de intimidade criada pelo avatar pode baixar as defesas da criança de uma maneira que um texto ou uma foto em outras redes talvez não conseguisse.

O coordenador do curso de Direito da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Marcelo Crespo, explica que o Marco Civil da Internet acaba protegendo as plataformas contra a responsabilização automática pelo conteúdo de terceiros. “Mas ele não as blinda contra falhas de segurança, governança e desenho do serviço”, afirma, pois descuidos nessa arquitetura podem gerar consequências jurídicas.

A empresa argumenta que a captura de criminosos é dever do Estado, uma defesa comum entre big techs. No entanto, Pedro Teberga, professor da Faculdade Einstein e especialista em negócios digitais, contesta essa visão de neutralidade. “Ao gamificar a socialização, reduzir fricções de contato e permitir mundos criados por usuários com moderação descentralizada, a plataforma facilita estratégias de aproximação gradual típicas do aliciamento”, explica. Nesse sentido, ela atua como arquiteta do espaço e não pode transferir integralmente a responsabilidade ao Estado.

Outro ponto crítico é a coleta massiva de dados biométricos de menores para a verificação de idade. Dados biométricos não podem ser alterados como uma senha. Isso gera um passivo de segurança gigantesco e normaliza, desde cedo, a vigilância constante como pedágio para a vida digital. O risco de vazamento ou uso indevido dessas informações no futuro é uma ameaça que não pode ser ignorada.

A empresa informa que a inteligência artificial está no centro dessas medidas. Mas há questionamentos se ela realmente pode sanear esse ambiente.

 

O limite da tecnologia e o papel humano

A IA tem vantagens claras, identificando padrões, mapeando comportamentos suspeitos e agindo em escala, mas suas limitações são evidentes. “A IA atual é eficiente para identificar padrões comportamentais repetitivos, mas ainda é limitada para compreender nuances culturais, gírias locais e ambiguidades de linguagem antes que o dano ocorra”, alerta Teberga. O risco é agir sempre depois do estrago feito.

Talvez um erro fundamental seja classificar a plataforma apenas como um jogo, quando, na verdade, é uma rede social complexa. Crespo nos lembra que “quando você gamifica a sociabilidade, você também gamifica o risco”. Ao transformar a interação humana em mecânica de jogo, cria-se um terreno fértil para manipulações emocionais que escapam aos filtros tradicionais de segurança.

Muitos pais e educadores veem o Roblox como um “Lego digital” inofensivo, mas essa leitura precisa mudar, dando lugar a controles parentais, acompanhamento ativo e diálogo constante. Ensinar crianças a reconhecer desconforto e mudanças sutis de comportamento é tão importante quanto qualquer ferramenta técnica.

A nova legislação australiana que bane redes sociais para menores de 16 anos não proíbe o Roblox diretamente, mas força a empresa a endurecer suas regras para evitar sanções no país e, por consequência, em outros mercados. Isso prova que uma pressão regulatória bem desenhada pode obrigar as gigantes da tecnologia a priorizarem a segurança em detrimento do engajamento irrestrito.

O Roblox evidencia que, quanto mais lúdico for um ambiente, maior a percepção de segurança e menor a vigilância. Mas a sociedade precisa entender que as plataformas digitais não são neutras. Todas são criadas para engajar, monetizar e reter usuários.

Este caso revela como tecnologia, mercado e infância podem se entrelaçar de forma perigosa. Precisamos discutir o dever de cuidado, limites da automação e o papel ativo de plataformas na construção de ambientes digitais mais saudáveis. Proteger crianças não é apenas bloquear chats ou treinar algoritmos. Temos que repensar os espaços digitais, para quem eles existem e quais valores estamos normalizando desde cedo.

 

Imagens reais (à esquerda) e gerada por IA (à direita) do ditador Nicolás Maduro chegando preso a Nova York – Fotos: reprodução

Em um mundo dominado por IA, redes sociais e escroques, o jornalismo se torna essencial

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Este ano eleitoral mal começou e alguns acontecimentos já deixaram claro que a combinação de inteligência artificial, redes sociais, oportunismo e mau-caratismo enterraram a verdade em um bloco de concreto que o cidadão comum não consegue romper. Nesse cenário, o jornalismo surge como o contraponto urgente, e, por isso mesmo, sofre ataques de quem se beneficia da enorme mentirada.

O primeiro caso veio com a prisão de Nicolás Maduro, que desembarcou em Nova York usando um agasalho de uma famosa marca americana, que inundou as redes sociais com a foto do ditador venezuelano usando o seu produto. Até aí, é o marketing sendo marketing. Mas não se pode ignorar como isso capturou o debate digital com uma mensagem do tipo “preferida até pelos criminosos”. E houve ainda as incontáveis imagens falsas dessa prisão geradas por IA, aumentando a desinformação.

Pior que isso foi o recente ataque orquestrado nas mesmas redes sociais contra o Banco Central e autoridades financeiras envolvidas com a liquidação do Banco Master. Até perfis de fofoca tentaram tirar a legitimidade de uma ação bem-feita.

Há ainda as agressões contra a jornalista Malu Gaspar, de “O Globo”, por realizar seu trabalho jornalístico, ao apresentar fatos suspeitos envolvendo um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e sua esposa com o mesmo banco. Esses atentados se enquadram em três categorias ou na combinação livre entre elas: desconhecimento do trabalho jornalístico, manipulação das massas ou má-fé de interessados no caso.

Qualquer que seja o motivo e diante do enorme barulho que esses temas estão criando, é preciso esclarecer como funciona o jornalismo e por que ele se torna, cada vez mais, essencial para a sociedade, especialmente com a proximidade das eleições.


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Os detratores de Gaspar afirmam que ela atua com interesses políticos, visando desmoralizar ministros do STF, e que ela faz acusações sem provas. Cabe então explicar como a imprensa funciona e por que ela é tão fundamental, especialmente em sociedades como a nossa, que se tornam tão obtusas por ações nas redes sociais.

Um jornalista investiga os fatos e eventualmente coleta informações que podem servir como provas, mas esse não é o seu trabalho. Quem produz provas é a autoridade policial, que pode ser provocada a agir por informações da imprensa. Mas o jornalista não é policial. Sem tais informações, talvez nunca houvesse investigação e justiça em um dado caso.

Um dos recursos mais valiosos dessa investigação são as fontes, pessoas que têm informações privilegiadas sobre um assunto e interesse em divulgá-las. Elas usam o jornalista para que aquilo ganhe notoriedade, enquanto o jornalista usa a fonte para obter informações valiosas que, de outra forma, continuariam restritas.

Shakespeare escreveu que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a tua filosofia.” Se hoje a sociedade busca a verdade nesse angu de caroço do Banco Master, é porque algumas pessoas sempre souberam de tudo nesses bastidores, e contaram pelo menos parte dela à jornalista, que deu visibilidade a essas informações, ampliadas depois por outros veículos, como o Estadão e a Folha.

Os agressores de Gaspar exigem que ela divulgue quem são essas pessoas, mas esse pedido é descabido. A despeito do seu interesse em divulgar o que sabem, muitas não podem aparecer, e esse anonimato é garantido pelo artigo 5º, inciso XIV da Constituição, que estabelece que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício da profissão”. Sem essa proteção, muita gente guardaria para si informações importantes.

O grande desafio do jornalista é não ser manipulado por uma fonte, interessada em propagar uma mentira. O profissional deve confirmar que a informação é verdadeira e de interesse público. Em caso afirmativo, tem a obrigação de publicá-la, para que, dessa forma, a sociedade corrija imperfeições e melhore. Foi o que Gaspar fez. E, depois dela, uma enxurrada de fatos suspeitos ou mal explicados corroborou tudo.

Vale dizer que os que a acusam de interesses políticos são os mesmos que aplaudem a imprensa quando ela usa os mesmos métodos para expor falcatruas “do outro lado”. E a boa imprensa fiscaliza qualquer tipo de poder, não importa quem estiver lá.

 

Jornalismo versus redes sociais

De 15 anos para cá, aqueles que se beneficiam de uma sociedade sem essa visão emplacaram a ideia de que, com as redes sociais, o cidadão não precisaria mais da imprensa, pois teria acesso direto à origem dos fatos. Infelizmente boa parte da população comprou essa lorota. E casos como os que analisamos aqui demonstram que, enquanto o jornalismo profissional insiste em desenterrar a verdade, as redes sociais massacram a sociedade com mentiras.

Foi o que aconteceu no dia 27, em um ataque coordenado de perfis com milhões de seguidores contra instituições e autoridades ligadas à liquidação do Banco Master. Limitado a 36 horas, ele foi identificado pela Febraban e divulgado pelo Estadão. Alguns influenciadores vieram a público para dizer que lhes foi oferecido muito dinheiro para participar do ataque à reputação dos envolvidos. Vale dizer que muitos dos perfis envolvidos não tratam de finanças: a maioria se dedica a fofocas.

Como de costume, a massa alheia às notícias e com seus interesses cuidadosamente inflamados pelos produtores de desinformação repercutiu as mentiras. De novo, enquanto os jornalistas sérios informam, as redes sociais deformam. Infelizmente a manipulação é tão grande, que a turba não vê que se tornou massa de manobra.

Agora, com as eleições chegando, tudo isso se tornará café pequeno e as imagens falsas de Maduro parecerão piadinhas. A inteligência artificial não para de dar mostras de que infelizmente também se presta a refinar a desinformação, para que se torne absolutamente crível, incluindo aí a produção de fotos, áudios e até vídeos que retiram de cada um de nós a capacidade de identificar uma verdade diante de nossos olhos.

Nesse mundo de cacofonia extrema, pulverizado com armadilhas da “hipersuasão” descrita pelo filósofo da informação Luciano Floridi, em que a IA capta nossos valores e desejos mais íntimos para nos enganar, a curadoria cuidadosa de profissionais da imprensa desponta como esperança de fugirmos da manipulação. E isso vale para todo o espectro político, e não apenas um “lado”.

Afinal, se as redes sociais construíram seu negócio sobre a desinformação ruidosa e visceral disseminada por criminosos, os jornalistas sérios continuam tentando encontrar os fatos muito além das obviedades do nosso cotidiano, seja digital ou não.

 

Em 2026, a IA continuará no trono da tecnologia, mas seu reinado será marcado pela automação de decisões – Imagem: Paulo Silvestre

Em 2026, a IA avançará sobre decisões empresariais e da sociedade

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Neste ano que está começando, a inteligência artificial continuará no trono da tecnologia, mas seu reinado será muito diferente do que vimos até agora. Se nos últimos anos, ela impressionou por gerar textos, imagens e códigos, agora o debate se deslocará para a automação de decisões, a delegação de tarefas cognitivas e a reorganização do poder dentro das empresas e da sociedade, algo muito mais sensível.

Essa é a conclusão de conversas que tive com executivos de quatro das principais empresas de tecnologia que operam no Brasil. Essas lideranças apontam para um horizonte em que a “IA agêntica” não será mais uma novidade, mas um motor central de estratégias corporativas. A automação não mais se restringirá a tarefas repetitivas, passando a assumir processos cognitivos de julgamento e orquestração.

A pressão por produtividade não diminuiu, os custos de operação aumentaram e a paciência com experimentos sem retorno se esgotou. A evolução dos processadores especializados, a pressão por eficiência energética e a necessidade urgente de governança real sustentam essa visão. Por isso, as empresas buscam sistemas menores, mais inteligentes e capazes de operar dentro de casa, garantindo segurança e conformidade com leis cada vez mais rígidas.

Embora estejamos falando de tecnologia, o impacto na vida das pessoas e na rotina das empresas será profundo e, por vezes, invisível. Quando um sistema decide sozinho se concede um empréstimo, aprova um tratamento médico ou freia um carro autônomo, ele desloca o eixo da responsabilidade humana. Passamos a delegar à IA o julgamento moral e a capacidade de agir no mundo físico.

Isso nos coloca diante de um dilema que ultrapassa a engenharia e entra no campo da ética e da política. A pergunta que definirá 2026 não será, portanto, se esses sistemas serão eficientes, mas quem responderá quando eles inevitavelmente errarem.


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Nesse cenário, o próprio sucesso deve ser repensado. Sandra Vaz, presidente da Red Hat Brasil, afirma que “a eficiência operacional continua relevante, mas ela deixa de ser suficiente”. Para ela, em 2026, “as empresas terão de medir o impacto estratégico e ser muito criteriosas na escolha dos dados utilizados para criar novas experiências para o cliente”. Afinal, decisões ruins automatizadas em escala podem destruir o valor de uma companhia em pouco tempo.

Rui Botelho, presidente da SAP Brasil, toca exatamente nesse ponto ao projetar a consolidação de uma IA capaz de orquestrar tarefas “do fechamento financeiro à gestão de talentos, sempre com governança e rastreabilidade”. Ele destaca que o diferencial estará em “combinar essa automação com dados de negócio confiáveis”. A credibilidade torna-se, portanto, uma moeda valiosíssima nesse novo mercado.

Essa transformação é descrita por Fabricio Lira, diretor de IA e Dados da IBM Brasil, como a criação de “ecossistemas onde múltiplos agentes colaboram, compreendendo dinâmicas de contexto, intenção humana e cenários complexos”. Para ele, isso permitirá “oferecer decisões autônomas e seguras em tempo real”.

Perceba que a palavra-chave é “decisão”. Estamos saindo da era da venda de software (Software as a Service) para a venda de trabalho (Service as a Software), em que a máquina entrega o resultado final, e não apenas o meio para alcançá-lo. Isso exigirá novos processos para gerenciar conflitos entre agentes e garantir que a autonomia da IA não quebre a lógica de negócios ou a segurança institucional.

Marco Stefanini, CEO Global e fundador da Stefanini, reforça essa visão, citando que “a previsão da IDC é de que 65% das empresas adotarão esses agentes até o final de 2026, com foco em valor imediato e apoio à decisão”. No entanto, ele faz um alerta fundamental sobre a natureza dessa mudança, lembrando que “IA não é mágica, é método”. “Modelos genéricos, treinados apenas com conteúdo da Internet, não dão conta da complexidade das operações corporativas”, explica.

 

Decisão como produto

Essas visões convergem para um cenário em que sistemas multiagentes começam a decidir em cadeia, coordenando ações, priorizando caminhos e resolvendo conflitos em tempo real. O ganho de eficiência é evidente, mas cria-se um sério risco de naturalização da delegação moral.

Se um conjunto de algoritmos toma decisões, cria-se uma zona cinzenta em que “ninguém decidiu sozinho”. Para mitigar isso, a governança deixará de ser um discurso bonito de marketing para se tornar um requisito de engenharia. Sem isso, empresas enfrentarão não apenas crises de imagem, mas barreiras legais severas.

Por trás desse debate ético e regulatório, crescerá exponencialmente uma disputa material em torno de uma tecnologia vendida como “imaterial”. A IA consome quantidades absurdas de energia e depende de escassos processadores avançados. A infraestrutura definirá o poder, e a soberania digital dos países dependerá de quem controla esses recursos.

Além das máquinas, há o desafio humano. Botelho ressalta que “nada disso se sustenta sem investimento contínuo em mão de obra qualificada”. Enquanto os agentes assumem tarefas cognitivas, os humanos precisam ser requalificados para gerenciar, auditar e corrigir essas inteligências. Vaz complementa dizendo que a tecnologia ficará mais sofisticada, com ferramentas “orientadas para a escala dos negócios e a capacitação das equipes”.

Com tudo isso, em 2026 nos depararemos com escolhas que não poderemos postergar. Precisaremos decidir quanta autonomia estamos dispostos a delegar às máquinas, como garantir que a eficiência não atropele direitos fundamentais e quem terá poder para treinar modelos em escala. A IA continuará ficando mais poderosa, mas continua valendo a máxima de que tecnologia sozinha não resolve nada.

De agora em diante, essa história exigirá menos deslumbramento e mais responsabilidade coletiva. Empresas, governos e sociedade civil precisarão construir juntos os mecanismos de supervisão, auditoria e responsabilização que ainda não existem. Não há atalho para essa maturidade, e fingir que as empresas de tecnologia se autorregularão é uma fantasia inocente e perigosa.

Ainda bem que estamos a tempo de fazer as escolhas certas.