Em um mundo em que a inteligência artificial insiste em dar respostas “mastigadas” para tudo, precisamos tomar cuidado para que aqueles que se apresentam como nossos aliados não nos apunhalem pelas costas.
Nesta semana, debati sobre isso em um evento que analisava a influência da mesma IA no jornalismo. Como praticamente todos os setores do mercado, a comunicação vem sofrendo uma profunda influência dessa tecnologia. Mas, ao contrário de outros negócios, que podem vender mais produtos se aparecerem nas respostas dos chatbots, a imprensa se enfraquece com essa exposição.
Há efetivamente uma corrida para que mensagens comerciais sejam “aprendidas” pela IA, para que recomende produtos e serviços. Isso tende a se fortalecer à medida que as pessoas usam esses sistemas para pedir recomendações sobre qualquer coisa.
Com o jornalismo, acontece o contrário. Quanto mais os veículos de comunicação entregam seus conteúdos às IAs, mais elas lhes roubam o público. As pessoas se informam (ou se deformam) cada vez mais pelos chatbots, que resumem notícias de maneira muito convincente, mesmo quando estão completamente errados.
Não há qualquer retorno digno de menção das plataformas para os produtores de conteúdo. Seus créditos aparecem timidamente nas respostas, ou nem isso. Assim, o público deixa de saber quem apurou a notícia e não visita mais os sites jornalísticos.
De forma alguma, proponho que o jornalismo ou qualquer outro negócio deixe de usar essa tecnologia. Mas é preciso cuidar para que esse uso não permita que as big techs sequestrem o relacionamento com seus clientes.
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Se bem usada, a IA pode facilitar enormemente o trabalho dos jornalistas e até permitir a criação de novos produtos. Não faz sentido resistir à tecnologia. Porém, não se pode dar um passo adiante com seus benefícios e quatro para trás em razão desse relacionamento desequilibrado entre imprensa e big techs.
Essas gigantes de tecnologia também criaram uma armadilha em que a imprensa cai alegremente. Considerando que as pessoas estão buscando mais notícias na IA, quanto mais jornalismo confiável estiver disponível para esses sistemas, maiores as chances de eles responderem com informação correta em vez de desinformação. E os jornalistas devem informar bem a população, qualquer que seja o meio.
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Por mais que as plataformas de IA procurem responder a qualquer coisa que as pessoas lhes perguntem, elas trabalham com probabilidades e produzem respostas convincentes sem que haja garantia de correção. Ao aumentar o jornalismo na sua base, pelo menos cresce a chance de suas respostas serem verdadeiras.
As eleições acendem um severo alerta vermelho. Na semana passada, a organização internacional de responsabilidade corporativa Ekō publicou um levantamento que mostra que o Grok, a Meta AI, o ChatGPT e o Gemini geram respostas com erros grosseiros sobre políticos e o processo eleitoral brasileiro, e até recomendam votos, o que é proibido por lei. Isso é gravíssimo, pois, da mesma forma que as pessoas usam essas plataformas para pesquisar um novo celular, também as usarão para escolher em quem votar.
Ironicamente, o jornalismo está cometendo o erro de entregar seu conteúdo a plataformas digitais de maneira ingênua pela terceira vez, e ele fica sempre mais grave. Na primeira, os buscadores se tornaram a porta de entrada para o noticiário, mas ainda levavam os usuários para os sites jornalísticos. As redes sociais pioraram o quadro, com resumos das notícias aparecendo nos feeds, mas ainda com a autoria clara. Agora, a IA reduz drasticamente o tráfego e a referência.
A cada um desses erros, a imprensa perdeu um pouco mais da sua capacidade de moderar o debate público, até que restasse muito pouco dessa função. Agora, a IA deve reduzir isso a níveis insignificantes.
Mordendo a mão que a alimenta
O jornalismo precisa de audiência para financiar seu trabalho, enquanto a IA precisa de informação confiável para melhorar suas respostas. Aparentemente, há uma relação virtuosa, mas os interesses não são congruentes. Quanto melhor for o conteúdo jornalístico incorporado pela IA, melhores tendem a ser suas respostas. Mas isso diminui o incentivo para o usuário consultar a fonte original.
A discussão sobre IA e comunicação costuma girar em torno de direitos autorais, remuneração e empregos. Mas não se pode ignorar o impacto na marca jornalística, que representa uma promessa de qualidade, método, linha editorial, memória e confiança. Quando o usuário entra em um site jornalístico, ele sabe onde está. Em uma plataforma de IA, ele só percebe a marca dela, fortalecida pela credibilidade da imprensa que a alimenta.
Um estudo da Universidade Villanova (EUA), publicado no dia 5 de agosto na revista científica “Judgment and Decision Making”, ajuda a compreender isso. Apesar de não avaliar jornalismo, e sim textos de ficção, concluiu que histórias feitas pelo ChatGPT são mais bem avaliadas em qualidade e envolvimento do que as escritas por pessoas. Segundo os autores, isso acontece porque os textos da IA são mais agradáveis e fáceis de entender, mesmo sendo genéricos e pouco inventivos.
Portanto, não é o caso de a imprensa impedir que a IA copie seu conteúdo. Os veículos de comunicação precisam preservar o valor percebido da autoria em um ambiente no qual o público talvez não consiga distinguir quem produziu o texto, ou talvez nem se importe com isso.
Eles devem tratar seus arquivos, reportagens e conhecimento acumulado como ativos estratégicos. Isso significa negociar não apenas pagamento pelo conteúdo, mas também atribuição clara, possibilidade explícita de acesso à fonte original, preservação da identidade editorial, mecanismos de descoberta e, principalmente, formas de transformar a exposição em relacionamento. Os acordos com essas plataformas devem necessariamente preservar e fortalecer a relação com o público.
O jornalismo precisa estar dentro da inteligência artificial, mas não pode desaparecer atrás dela. Depois de entregar aos buscadores a distribuição e às redes sociais a atenção, os veículos não podem cair nessa armadilha de novo. Seu desafio é garantir que, ao aprender com o jornalismo, a IA não faça o leitor esquecer de quem verdadeiramente produziu a informação, o que é essencial não apenas para os veículos, mas para o desenvolvimento da democracia.












