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As redações atuais combinam o trabalho jornalístico tradicional com o apoio da inteligência artificial – Ilustração: Paulo Silvestre

O jornalismo precisa usar a IA enquanto se protege dela

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Em um mundo em que a inteligência artificial insiste em dar respostas “mastigadas” para tudo, precisamos tomar cuidado para que aqueles que se apresentam como nossos aliados não nos apunhalem pelas costas.

Nesta semana, debati sobre isso em um evento que analisava a influência da mesma IA no jornalismo. Como praticamente todos os setores do mercado, a comunicação vem sofrendo uma profunda influência dessa tecnologia. Mas, ao contrário de outros negócios, que podem vender mais produtos se aparecerem nas respostas dos chatbots, a imprensa se enfraquece com essa exposição.

Há efetivamente uma corrida para que mensagens comerciais sejam “aprendidas” pela IA, para que recomende produtos e serviços. Isso tende a se fortalecer à medida que as pessoas usam esses sistemas para pedir recomendações sobre qualquer coisa.

Com o jornalismo, acontece o contrário. Quanto mais os veículos de comunicação entregam seus conteúdos às IAs, mais elas lhes roubam o público. As pessoas se informam (ou se deformam) cada vez mais pelos chatbots, que resumem notícias de maneira muito convincente, mesmo quando estão completamente errados.

Não há qualquer retorno digno de menção das plataformas para os produtores de conteúdo. Seus créditos aparecem timidamente nas respostas, ou nem isso. Assim, o público deixa de saber quem apurou a notícia e não visita mais os sites jornalísticos.

De forma alguma, proponho que o jornalismo ou qualquer outro negócio deixe de usar essa tecnologia. Mas é preciso cuidar para que esse uso não permita que as big techs sequestrem o relacionamento com seus clientes.


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Se bem usada, a IA pode facilitar enormemente o trabalho dos jornalistas e até permitir a criação de novos produtos. Não faz sentido resistir à tecnologia. Porém, não se pode dar um passo adiante com seus benefícios e quatro para trás em razão desse relacionamento desequilibrado entre imprensa e big techs.

Essas gigantes de tecnologia também criaram uma armadilha em que a imprensa cai alegremente. Considerando que as pessoas estão buscando mais notícias na IA, quanto mais jornalismo confiável estiver disponível para esses sistemas, maiores as chances de eles responderem com informação correta em vez de desinformação. E os jornalistas devem informar bem a população, qualquer que seja o meio.

Por mais que as plataformas de IA procurem responder a qualquer coisa que as pessoas lhes perguntem, elas trabalham com probabilidades e produzem respostas convincentes sem que haja garantia de correção. Ao aumentar o jornalismo na sua base, pelo menos cresce a chance de suas respostas serem verdadeiras.

As eleições acendem um severo alerta vermelho. Na semana passada, a organização internacional de responsabilidade corporativa Ekō publicou um levantamento que mostra que o Grok, a Meta AI, o ChatGPT e o Gemini geram respostas com erros grosseiros sobre políticos e o processo eleitoral brasileiro, e até recomendam votos, o que é proibido por lei. Isso é gravíssimo, pois, da mesma forma que as pessoas usam essas plataformas para pesquisar um novo celular, também as usarão para escolher em quem votar.

Ironicamente, o jornalismo está cometendo o erro de entregar seu conteúdo a plataformas digitais de maneira ingênua pela terceira vez, e ele fica sempre mais grave. Na primeira, os buscadores se tornaram a porta de entrada para o noticiário, mas ainda levavam os usuários para os sites jornalísticos. As redes sociais pioraram o quadro, com resumos das notícias aparecendo nos feeds, mas ainda com a autoria clara. Agora, a IA reduz drasticamente o tráfego e a referência.

A cada um desses erros, a imprensa perdeu um pouco mais da sua capacidade de moderar o debate público, até que restasse muito pouco dessa função. Agora, a IA deve reduzir isso a níveis insignificantes.

 

Mordendo a mão que a alimenta

O jornalismo precisa de audiência para financiar seu trabalho, enquanto a IA precisa de informação confiável para melhorar suas respostas. Aparentemente, há uma relação virtuosa, mas os interesses não são congruentes. Quanto melhor for o conteúdo jornalístico incorporado pela IA, melhores tendem a ser suas respostas. Mas isso diminui o incentivo para o usuário consultar a fonte original.

A discussão sobre IA e comunicação costuma girar em torno de direitos autorais, remuneração e empregos. Mas não se pode ignorar o impacto na marca jornalística, que representa uma promessa de qualidade, método, linha editorial, memória e confiança. Quando o usuário entra em um site jornalístico, ele sabe onde está. Em uma plataforma de IA, ele só percebe a marca dela, fortalecida pela credibilidade da imprensa que a alimenta.

Um estudo da Universidade Villanova (EUA), publicado no dia 5 de agosto na revista científica “Judgment and Decision Making”, ajuda a compreender isso. Apesar de não avaliar jornalismo, e sim textos de ficção, concluiu que histórias feitas pelo ChatGPT são mais bem avaliadas em qualidade e envolvimento do que as escritas por pessoas. Segundo os autores, isso acontece porque os textos da IA são mais agradáveis e fáceis de entender, mesmo sendo genéricos e pouco inventivos.

Portanto, não é o caso de a imprensa impedir que a IA copie seu conteúdo. Os veículos de comunicação precisam preservar o valor percebido da autoria em um ambiente no qual o público talvez não consiga distinguir quem produziu o texto, ou talvez nem se importe com isso.

Eles devem tratar seus arquivos, reportagens e conhecimento acumulado como ativos estratégicos. Isso significa negociar não apenas pagamento pelo conteúdo, mas também atribuição clara, possibilidade explícita de acesso à fonte original, preservação da identidade editorial, mecanismos de descoberta e, principalmente, formas de transformar a exposição em relacionamento. Os acordos com essas plataformas devem necessariamente preservar e fortalecer a relação com o público.

O jornalismo precisa estar dentro da inteligência artificial, mas não pode desaparecer atrás dela. Depois de entregar aos buscadores a distribuição e às redes sociais a atenção, os veículos não podem cair nessa armadilha de novo. Seu desafio é garantir que, ao aprender com o jornalismo, a IA não faça o leitor esquecer de quem verdadeiramente produziu a informação, o que é essencial não apenas para os veículos, mas para o desenvolvimento da democracia.

 

Informar-se pelas redes sociais esconde uma ilusão perigosa de liberdade de escolha

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Quando o uso das redes sociais explodiu, ouvia-se muito que as pessoas não precisariam mais da imprensa, pois teriam a liberdade para escolher como se informar, indo direto às fontes dos fatos. Nas últimas duas décadas, essas plataformas vêm provocando mesmo grandes baixas na audiência do jornalismo, mas é um erro achar que elas nos oferecem tal liberdade.

No jornalismo, uma notícia nasce com um repórter investigando o fato, um editor analisando sua importância e o veículo o publicando, seguindo critérios transparentes e conhecidos. Com as redes sociais, existem influenciadores, sistemas de recomendação e inteligências artificiais entre a informação e os usuários.

Eles acreditam estar acessando as “fontes dos fatos”, mas acabam sendo iludidos por sistemas que filtram, priorizam e, cada vez mais, reescrevem as informações que consomem como verdades inquestionáveis. Não há preocupação com a veracidade ou com os interesses dos usuários, apenas a busca pelo engajamento a qualquer custo.

Essa ilusão confortável funciona. Segundo o Digital News Report 2026, publicado no dia 16 pelo Instituto Reuters e pela Universidade de Oxford (Reino Unido), pela primeira vez as pessoas se informaram mais pelas redes sociais que pela imprensa. Na média de quase 100 mil pessoas analisadas em 48 países (incluindo o Brasil), 54% usam essas plataformas para se informar, contra 51% dos que usam a imprensa.

Devemos tomar cuidado com a leitura superficial de que “as redes sociais venceram o jornalismo”, como tenho visto. O relatório mostra um cenário muito mais complexo, que ele chamou de “plataformização” da notícia. O risco disso não é que elas digam às pessoas como pensar, e sim que indiquem sutilmente sobre o que pensar. Isso influencia o debate público antes mesmo que qualquer opinião seja formada.


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Na faculdade de Jornalismo, aprende-se que tão importante quanto informar bem o cidadão é formar bem o cidadão. Um jornalista pode errar, mas sua missão é publicar o que considera mais relevante para a sociedade. E quando você escolhe um jornal, sabe quem decidiu a manchete, conhece a linha editorial, identifica o responsável pela publicação e pode confrontar aquela cobertura com outras fontes.

Ironicamente, o conteúdo continua sendo produzido por veículos profissionais, mas o acesso a ele ocorre cada vez menos por canais controlados pelos próprios jornais e cada vez mais por intermediários. A distribuição passou para as plataformas, que não se guiam pelo interesse público, e sim por prender a pessoa online.

Com isso, o que é mais importante para o desenvolvimento do cidadão é preterido pelo que chama mais atenção. Uma reportagem investigativa perde para um conteúdo indignado que provoca muitos comentários, assim como um escândalo político complexo fica atrás de um vídeo emotivo que gera compartilhamentos.

A “plataformização” da notícia também elimina o contexto. O jornalismo organiza os fatos, explica antecedentes, consequências, personagens e interesses envolvidos. Já nas plataformas, a notícia normalmente aparece fragmentada, em vídeos curtos, soterrada por comentários. Vira meme e pode ser ampliada por influenciadores sem preparo ou até ética. Ao final, o público acredita estar bem informado sem nunca ter visto a reportagem original, e isso empobrece muito o debate público.

Outro problema é que cada pessoa passa a viver dentro de uma agenda diferente. Por décadas, a população assistia aos mesmos telejornais ou lia as manchetes dos mesmos jornais, criando um conjunto mínimo de fatos compartilhados. Hoje, dois vizinhos podem abrir o celular na mesma hora e receber notícias completamente diferentes. Isso não os leva a viver em bolhas absolutas, mas certamente compartilham menos referências comuns, o que dificulta o diálogo democrático.

No final, a “plataformização” muda nossa relação com o conhecimento. Informar-se era uma atividade consciente quando se decidia comprar um jornal, ligar a TV para assistir ao noticiário ou entrar em um site jornalístico.

Hoje, informar-se tornou-se uma atividade passiva. Abrimos uma plataforma para conversar com amigos ou assistir a vídeos, e a notícia aparece misturada a publicidade, entretenimento e opiniões. Achamos que estamos escolhendo nossas fontes, mas escolhemos apenas a plataforma, e ela faz o resto.

 

Terceirização da realidade

Com esse movimento, terceirizamos a decisão sobre o que merece nossa atenção, em que ordem veremos os acontecimentos, quanto tempo dedicaremos a cada tema e quais perspectivas chegarão até nós, com enorme risco de o que realmente importa ficar de fora. E isso impacta pesadamente a confiança no noticiário.

Segundo o Digital News Report, ela atingiu o menor patamar em uma década, com apenas 37% das pessoas confiando no noticiário como um todo. No Brasil, esse índice é ainda menor: 36%, caindo de 62% em 2015.

Aí reside uma aparente contradição. Apesar de as pessoas usarem mais as redes sociais para se informar, apenas 22% confiam em notícias que consomem por elas. A confiança pelo noticiário vindo de plataformas de IA é ainda menor: 20%. No Brasil, todos os veículos jornalísticos analisados receberam um voto de confiança de mais de 50% do público, liderados pela CNN Brasil (62%). A explicação é que as pessoas usam mais as redes sociais por serem mais fáceis e divertidas, entretanto percebem que ali há muito mais ruído, opinião, manipulação e falta de responsabilidade editorial.

O Digital News Report mostra que, mais que produzir boas notícias, o maior desafio do jornalismo é permanecer visível em uma realidade em que a atenção se tornou o recurso mais disputado, e onde os intermediários digitais passaram a decidir, em grande medida, o que cada cidadão verá primeiro.

Já o público perde gradualmente sua autonomia informacional. Quanto mais dependemos de sistemas que selecionam automaticamente o que vemos, menos percebemos que estamos consumindo uma versão do mundo organizada segundo critérios que não definimos e não conhecemos, e que não podemos interferir.

Essa ilusão é discreta, mas há anos mostra seus efeitos duradouros sobre a forma como indivíduos e sociedades constroem sua compreensão da realidade. É assim que os brasileiros vêm deixando para trás a imagem de “povo cordial” e se tornando uma sociedade mais polarizada e menos tolerante a quem pensa diferente.

 

“O Diabo Veste Prada 2” mostra que não dá para baixar a guarda nas redes sociais

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Duas décadas são suficientes para abalar ícones e demolir modelos de negócios outrora bem-sucedidos, se não forem bem cuidados. A crise da revista “Runway”, retratada em “O Diabo Veste Prada 2”, demonstra didaticamente como ninguém está imune a isso, não importa seu tamanho ou setor.

O filme estreou com força nos cinemas, trazendo novamente Meryl Streep, como a impiedosa editora Miranda Priestly, e a idealista Andy Sachs, vivida por Anne Hathaway. O drama da publicação reflete o do jornalismo e escancara um movimento que vem transformando decisivamente a sociedade. Ao longo de 20 anos, a imprensa perdeu sua posição de farol do debate público e, com isso, a polarização se instalou.

Não se trata de se ter menos jornalismo. O grande problema da mídia profissional é que ela se desconectou do seu público, algo grave para qualquer negócio, mas mortal para uma atividade cuja própria existência se justifica pela representatividade social.

As redes sociais perceberam o vazio formado e o ocuparam de forma avassaladora. As big techs prenderam o jornalismo em uma gaiola e agora, seguindo apenas seus interesses opacos, enterram uma notícia importante para promover uma grande porcaria engajadora. E a inteligência artificial deve agravar esse quadro.

Aí reside a grande crise: engana-se redondamente quem pensa que isso é um problema do jornalismo. Esse poder de vida ou morte das plataformas digitais paira sobre as cabeças de todas as pessoas e todas as empresas.

Estamos perdendo o controle sobre como as pessoas nos veem, e quanto do que fazemos é visto e compreendido corretamente por elas.

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No filme, Peter (Patrick Brammall), interesse romântico de Andy, discute com ela a “evolução” inevitável de qualquer negócio, de jornalismo a farmácias. Para ele, formatos e produtos devem se adaptar à conveniência do consumidor. Andy reage a isso, argumentando que a conveniência não pode matar a essência de uma operação, e que há preços éticos e humanos altos demais para serem pagos.

Esse choque de visões define o mundo atual, pois os dois lados têm argumentos válidos, mas que parecem ser irreconciliáveis. É verdade que a experiência do cliente nunca foi tão decisiva, mas exagerar nesse remédio pode transformá-lo em um veneno que mata os valores e a identidade que vincularam o produto a seu público.

A solução óbvia é encontrar um equilíbrio entre os dois, mas falar é muito mais fácil do que fazer, especialmente em um cenário em que as plataformas digitais conseguem convencer as massas de que seus interesses corporativos deveriam ser os de todo mundo. O bom jornalismo se recusa a flexibilizar sua ética e boas práticas, o que é louvável, mas falha em criar a tal conveniência. E, nessa dificuldade, estão muitas outras empresas que parecem incapazes de escapar do ostracismo digital.

Como em qualquer crise, ela não veio da noite para o dia. Incontáveis reportagens dos próprios veículos de comunicação a anunciaram, mas eles ignoraram olimpicamente as mudanças de mentalidade que o meio digital promoveu. Ironicamente, o jornalismo continua existindo e até pautando muito do que se fala nas redes, mas o que é visto e principalmente como é visto acabam sendo determinados pelos donos dos algoritmos.

Viver em função do gosto constantemente variável dos algoritmos é um erro fatal. Em um primeiro momento, pode fazer sentido, pois as plataformas digitais dão visibilidade àqueles que se submetem a elas. Mas esse fôlego é curto, e todos são jogados ao mar quando não interessam mais às big techs.

 

“Porteiro” digital e fragmentado

Do jornalismo às farmácias, a Internet fez com que o interesse público deixasse de ser organizado em torno de poucos intermediários confiáveis para se tornar uma arena fragmentada, guiada por algoritmos e disputas permanentes por atenção.

Qualquer pessoa passou a disputar espaço com grandes marcas. Mas os algoritmos não privilegiam qualidade ou veracidade, e sim engajamento apenas, em que futilidades e conflitos costumam gerar mais cliques do que apuração cuidadosa.

Com isso, pilares da sociedade passaram a ser questionados continuamente, incluindo imprensa, ciência, universidades e governos. Isso revelou falhas dessas instituições, mas também abriu espaço para campanhas organizadas de descredibilização, frequentemente impulsionadas por grupos que se beneficiam do caos informacional.

Nem a outrora poderosa “Runway”, que gastava facilmente US$ 300 mil em um ensaio fotográfico, resistiu. No novo filme, sua edição impressa ficou tão fina que poderia ser usada como fio dental, nas palavras da própria Priestly.

Curiosamente, a moda pode nos indicar caminhos para escapar desse dilema. Quem constrói sua identidade, carreira e visão em torno dela tende a envelhecer com o hype. Por outro lado, aqueles que mantêm certa distância crítica atravessam mudanças sem depender das próximas ondas de validação coletiva, cada vez mais curtas.

Hoje, as tendências vão além das roupas e do comportamento, moldando opiniões, consumo, tecnologia e até posicionamentos políticos. As plataformas digitais aceleraram esse mecanismo, garantindo visibilidade instantânea ao que está “na moda”, enquanto o que exige reflexão costuma perder espaço.

“Não seguir a moda” não implica em rejeitar toda novidade ou assumir uma postura elitista de negação do presente. Significa preservar autonomia intelectual, cultivando a diferença entre entender uma tendência e ser absorvido por ela.

Quem não tenta desesperadamente acompanhar tendências pode construir algo mais duradouro e original. Algumas das ideias mais relevantes surgiram de pessoas que resistiram a consensos rasos do momento, e isso vale para a imprensa, farmácias e qualquer outro negócio.

Em um mundo feito tóxico pela desinformação, o jornalismo se faz mais necessário do que nunca, mesmo deixando de ocupar o centro da conversa. O desafio da imprensa e de todos nós passou a ser a compreensão do espírito desse tempo em que vivemos, sem nos tornar reféns dele.

 

Graças à tecnologia, hoje um único profissional pode fazer o que antes exigia equipes inteiras – Foto: Freepik/Creative Commons

IA favorece a criatividade, mas piora a vida dos criadores de conteúdo

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A economia criativa global segue crescendo, mas os criadores estão ficando para trás. Essa é a tensão central do relatório “Re|Shaping Policies for Creativity”, publicado recentemente pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Com dados de 133 países, ele alerta sobre uma transformação estrutural acelerada pela digitalização e pela inteligência artificial, que está redesenhando quem ganha, quem perde e quem controla a produção cultural no mundo.

Nunca foi tão fácil criar, distribuir e acessar conteúdo. O mercado global de bens culturais atingiu US$ 254 bilhões em 2023. Mas isso vem junto com o aumento da precarização do trabalho criativo. O documento destaca que há pouco emprego estável para criadores, os modelos de remuneração são frágeis e as plataformas digitais concentram valor. Com isso, o órgão projeta uma queda de até 24% na receita dos criadores até 2028, impulsionada pela IA e pelo uso não autorizado de conteúdos.

O estudo indica que as redes sociais deixaram de ser espaços de interação para impactar a democracia, o bem-estar e a regulação global. Há uma preocupação crescente com saúde mental, governança das plataformas e desinformação.

Nesse sentido, é inevitável pensar em como essas mudanças atingem o coração do jornalismo contemporâneo. Quando se fala em perda de receita, desintermediação e captura de valor pelas plataformas, estamos falando exatamente da crise que o setor vive há pelo menos duas décadas. Isso se agrava com a IA generativa, pois não só as redações perdem o controle de seu produto, como ele ainda passa a ser reprocessado e reapresentado, sem tráfego para a fonte. Isso se enquadra no que o relatório chama de desvalorização da criatividade humana.

A cultura é um ativo econômico relevante como vetor de inovação e como ferramenta de desenvolvimento. Mas o sistema que a sustenta está deslocando valor dos criadores para intermediários tecnológicos. Temos mais produção e circulação, porém menos remuneração. E esse desequilíbrio corrói um pilar de qualquer sociedade.


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Há um lado inegavelmente positivo da IA, que acelera processos e permite que mais pessoas produzam conteúdo em escala e com qualidade. Hoje, um único profissional pode fazer o que antes exigia equipes inteiras. O próprio relatório reconhece esse potencial ao apontar que tecnologias digitais podem democratizar o acesso à cultura e estimular novas formas de expressão, como uma infraestrutura criativa.

Por outro lado, quando a produção explode, o valor individual tende a cair, e a tecnologia acelera esse processo. Por isso, o estudo destaca que 79% dos profissionais culturais veem a IA como ameaça à sua subsistência. E não se trata de resistência à tecnologia e sim de uma percepção de perda de controle econômico.

A questão central não é, portanto, a capacidade de criar, e sim a de capturar valor. A IA se alimenta de conteúdos existentes, muitas vezes sem remuneração proporcional (ou qualquer remuneração), e depois entrega produtos derivados que competem com os próprios criadores. É uma cadeia na qual quem produz é o elo mais frágil.

Não se trata de “usar bem ou mal a IA”. O relatório aponta um vazio regulatório relevante, indicando que há 148 leis relacionadas à inteligência artificial em 128 países, mas apenas uma trata especificamente de cultura. Como de costume, a tecnologia avança mais rápido do que as regras que deveriam equilibrar seus efeitos, mas sem regulação, o mercado tende a favorecer quem escala e não quem cria.

A Unesco aponta ainda para uma séria ameaça à diversidade cultural. A IA passou a influenciar diretamente como conteúdos culturais são produzidos e acessados, mas ela opera com critérios de engajamento. Além disso, os modelos são treinados com grandes volumes de dados do hemisfério norte ocidental. Isso cria um risco estrutural de repetição de estilos, de redução de diversidade estética e de concentração de narrativas.

 

Uma tecnologia contraditória

A IA não é neutra nem inevitavelmente boa ou ruim. Esses resultados escancaram a necessidade de regras claras de remuneração, transparência no uso de dados e mecanismos de proteção aos criadores. Sem isso, a Unesco aponta que teremos cada vez mais gente criando, mais conteúdo circulando e menos pessoas vivendo disso.

O caso do jornalismo é emblemático. A pressão por produtividade em tempo real agora se combina à dependência de ferramentas automatizadas pela redução das equipes. A IA chega como uma ferramenta ambígua, que amplia a capacidade, mas também incentiva atalhos perigosos, especialmente em ambientes de alta pressão. Se o seu modelo econômico enfraquece, o impacto vai além dos profissionais, afetando a própria democracia. Menos receita significa menos investigação, menos diversidade e mais dependência de automação, o que pode aumentar a desinformação.

Um caminho para toda a economia criativa é a criação de remunerações obrigatórias pelo uso de conteúdo em sistemas de IA. O próprio relatório aponta a fragilidade dos atuais sistemas de propriedade intelectual. Sem isso, qualquer medida será paliativa.

A regulação parece inevitável, mas exige cuidado. Regular demais pode inibir inovação, mas regular de menos consolida abusos. O desafio é definir regras claras no uso de dados para treinamento de IA, na transparência sobre como conteúdos são usados no seu treinamento e na responsabilidade sobre o que ela gera.

Obviamente não se trata de rejeitar a IA, mas sim de aprendermos a usá-la de forma estratégica. Precisamos desenvolver habilidades técnicas e pensamento crítico sobre seus benefícios, seus riscos e as implicações éticas de seu uso.

Talvez a mudança mais difícil seja repensar a própria lógica de distribuição. As plataformas se tornaram intermediários dominantes e é preciso equilibrar essa intermediação. Mas isso só acontecerá com vontade política. A IA não respeita jurisdições nacionais, mas os direitos dos criadores ainda dependem delas.

Isso não é uma crise passageira. O que está em jogo vai além da renda de criadores, definindo o tipo de ecossistema cultural que queremos sustentar. Se houver intervenção coordenada, a inteligência artificial pode, de fato, ampliar a criatividade humana em vez de substituí-la economicamente. A diferença entre esses dois futuros possíveis não é tecnológica, e sim política, econômica e, no limite, cultural.

 

Imagens reais (à esquerda) e gerada por IA (à direita) do ditador Nicolás Maduro chegando preso a Nova York – Fotos: reprodução

Em um mundo dominado por IA, redes sociais e escroques, o jornalismo se torna essencial

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Este ano eleitoral mal começou e alguns acontecimentos já deixaram claro que a combinação de inteligência artificial, redes sociais, oportunismo e mau-caratismo enterraram a verdade em um bloco de concreto que o cidadão comum não consegue romper. Nesse cenário, o jornalismo surge como o contraponto urgente, e, por isso mesmo, sofre ataques de quem se beneficia da enorme mentirada.

O primeiro caso veio com a prisão de Nicolás Maduro, que desembarcou em Nova York usando um agasalho de uma famosa marca americana, que inundou as redes sociais com a foto do ditador venezuelano usando o seu produto. Até aí, é o marketing sendo marketing. Mas não se pode ignorar como isso capturou o debate digital com uma mensagem do tipo “preferida até pelos criminosos”. E houve ainda as incontáveis imagens falsas dessa prisão geradas por IA, aumentando a desinformação.

Pior que isso foi o recente ataque orquestrado nas mesmas redes sociais contra o Banco Central e autoridades financeiras envolvidas com a liquidação do Banco Master. Até perfis de fofoca tentaram tirar a legitimidade de uma ação bem-feita.

Há ainda as agressões contra a jornalista Malu Gaspar, de “O Globo”, por realizar seu trabalho jornalístico, ao apresentar fatos suspeitos envolvendo um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e sua esposa com o mesmo banco. Esses atentados se enquadram em três categorias ou na combinação livre entre elas: desconhecimento do trabalho jornalístico, manipulação das massas ou má-fé de interessados no caso.

Qualquer que seja o motivo e diante do enorme barulho que esses temas estão criando, é preciso esclarecer como funciona o jornalismo e por que ele se torna, cada vez mais, essencial para a sociedade, especialmente com a proximidade das eleições.


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Os detratores de Gaspar afirmam que ela atua com interesses políticos, visando desmoralizar ministros do STF, e que ela faz acusações sem provas. Cabe então explicar como a imprensa funciona e por que ela é tão fundamental, especialmente em sociedades como a nossa, que se tornam tão obtusas por ações nas redes sociais.

Um jornalista investiga os fatos e eventualmente coleta informações que podem servir como provas, mas esse não é o seu trabalho. Quem produz provas é a autoridade policial, que pode ser provocada a agir por informações da imprensa. Mas o jornalista não é policial. Sem tais informações, talvez nunca houvesse investigação e justiça em um dado caso.

Um dos recursos mais valiosos dessa investigação são as fontes, pessoas que têm informações privilegiadas sobre um assunto e interesse em divulgá-las. Elas usam o jornalista para que aquilo ganhe notoriedade, enquanto o jornalista usa a fonte para obter informações valiosas que, de outra forma, continuariam restritas.

Shakespeare escreveu que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a tua filosofia.” Se hoje a sociedade busca a verdade nesse angu de caroço do Banco Master, é porque algumas pessoas sempre souberam de tudo nesses bastidores, e contaram pelo menos parte dela à jornalista, que deu visibilidade a essas informações, ampliadas depois por outros veículos, como o Estadão e a Folha.

Os agressores de Gaspar exigem que ela divulgue quem são essas pessoas, mas esse pedido é descabido. A despeito do seu interesse em divulgar o que sabem, muitas não podem aparecer, e esse anonimato é garantido pelo artigo 5º, inciso XIV da Constituição, que estabelece que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício da profissão”. Sem essa proteção, muita gente guardaria para si informações importantes.

O grande desafio do jornalista é não ser manipulado por uma fonte, interessada em propagar uma mentira. O profissional deve confirmar que a informação é verdadeira e de interesse público. Em caso afirmativo, tem a obrigação de publicá-la, para que, dessa forma, a sociedade corrija imperfeições e melhore. Foi o que Gaspar fez. E, depois dela, uma enxurrada de fatos suspeitos ou mal explicados corroborou tudo.

Vale dizer que os que a acusam de interesses políticos são os mesmos que aplaudem a imprensa quando ela usa os mesmos métodos para expor falcatruas “do outro lado”. E a boa imprensa fiscaliza qualquer tipo de poder, não importa quem estiver lá.

 

Jornalismo versus redes sociais

De 15 anos para cá, aqueles que se beneficiam de uma sociedade sem essa visão emplacaram a ideia de que, com as redes sociais, o cidadão não precisaria mais da imprensa, pois teria acesso direto à origem dos fatos. Infelizmente boa parte da população comprou essa lorota. E casos como os que analisamos aqui demonstram que, enquanto o jornalismo profissional insiste em desenterrar a verdade, as redes sociais massacram a sociedade com mentiras.

Foi o que aconteceu no dia 27, em um ataque coordenado de perfis com milhões de seguidores contra instituições e autoridades ligadas à liquidação do Banco Master. Limitado a 36 horas, ele foi identificado pela Febraban e divulgado pelo Estadão. Alguns influenciadores vieram a público para dizer que lhes foi oferecido muito dinheiro para participar do ataque à reputação dos envolvidos. Vale dizer que muitos dos perfis envolvidos não tratam de finanças: a maioria se dedica a fofocas.

Como de costume, a massa alheia às notícias e com seus interesses cuidadosamente inflamados pelos produtores de desinformação repercutiu as mentiras. De novo, enquanto os jornalistas sérios informam, as redes sociais deformam. Infelizmente a manipulação é tão grande, que a turba não vê que se tornou massa de manobra.

Agora, com as eleições chegando, tudo isso se tornará café pequeno e as imagens falsas de Maduro parecerão piadinhas. A inteligência artificial não para de dar mostras de que infelizmente também se presta a refinar a desinformação, para que se torne absolutamente crível, incluindo aí a produção de fotos, áudios e até vídeos que retiram de cada um de nós a capacidade de identificar uma verdade diante de nossos olhos.

Nesse mundo de cacofonia extrema, pulverizado com armadilhas da “hipersuasão” descrita pelo filósofo da informação Luciano Floridi, em que a IA capta nossos valores e desejos mais íntimos para nos enganar, a curadoria cuidadosa de profissionais da imprensa desponta como esperança de fugirmos da manipulação. E isso vale para todo o espectro político, e não apenas um “lado”.

Afinal, se as redes sociais construíram seu negócio sobre a desinformação ruidosa e visceral disseminada por criminosos, os jornalistas sérios continuam tentando encontrar os fatos muito além das obviedades do nosso cotidiano, seja digital ou não.

 

O filósofo italiano Luciano Floridi, que afirma que a IA pode ser usada para o que chama de “hipersuasão” – Foto: Creative Commons

Em um ano eleitoral, IA deve se tornar uma máquina de desinformação

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Estamos com 2026 batendo às nossas portas, ano de Copa do Mundo e de eleições, inclusive presidenciais. Como acontece de maneira crescente desde 2018, essa campanha será fortemente influenciada pela desinformação nas redes sociais, agora potencializada pela inteligência artificial.

Infelizmente, a mesma IA que nos oferece recursos incríveis também se presta àqueles que se beneficiam de uma população ignorante e contaminada por fake news. Nossa capacidade de nos mantermos bem-informados sofre dupla ameaça: a de conteúdos propositalmente falsos, porém mais críveis, e a de fontes pouco confiáveis capturando crescentemente a nossa atenção.

Nesse caldo, surgem pretensos “veículos de comunicação” totalmente criados por inteligência artificial, dispensando a ação de jornalistas ou de qualquer ser humano. Eles propõem que, ao delegar para a máquina a escolha dos assuntos e a produção dos conteúdos, seriam livres dos vieses que toda pessoa carrega e, por isso, mais confiáveis e relevantes que os veículos jornalísticos profissionais.

Para uma mente desavisada, isso pode parecer uma grande ideia. Infelizmente, ela, por si só, é falsa de diferentes formas. Por isso, penso que os criadores dessas plataformas são, no melhor dos casos, inocentes ou ignorantes e, no pior, intelectualmente muito desonestos. Qualquer que seja a situação, suas propostas enfraquecem o jornalismo e tornam a população ainda mais suscetível à manipulação de grupos de poder, algo que se torna mais perigoso em ano de eleições.

Vale observar que, quanto mais poderosa se torna a inteligência artificial, mais importante fica a nossa humanidade, para preservarmos o nosso protagonismo na sociedade. Ao abrirmos mão de nosso senso crítico, corremos o risco de sermos dominados pelas máquinas e –o que é pior– por pessoas que aprenderam a usá-las para impor seus interesses. E infelizmente é o que está acontecendo.


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Já em 2024, o filósofo Luciano Floridi, diretor do Centro de Ética Digital da Universidade de Yale (EUA), publicou um artigo em que aprofundou o termo “hipersuasão” para descrever esse problema. O italiano, uma das maiores autoridades globais na filosofia da informação, considera a IA a máquina perfeita de convencimento, pela sua capacidade de nos conhecer profundamente e de produzir conteúdos muito convincentes a partir das características e valores de cada indivíduo.

“A avaliação do poder de hipersuasão da IA é negativa e até potencialmente aterrorizante, por causa de todos os atores malignos que poderiam usá-la para os piores tipos de atos horríveis”, escreveu Floridi. “Milhões de pessoas poderiam estar sujeitas a tal hipersuasão e incapazes de resistir a ela criticamente”, acrescentou.

Para ele, “em uma sociedade decente, as formas aceitáveis de hipersuasão deveriam ser regulamentadas, enquanto as inaceitáveis deveriam ser banidas”. Floridi acredita que pessoas bem-educadas e engajadas minimizariam esse risco, mas reconhece que isso é utópico. “Um público mais instruído, que exprima coletivamente preocupações e participe em discussões sobre a utilização ética da IA como tecnologia persuasiva, pode influenciar os debates políticos e os processos democráticos.”

Um exemplo de veículo de comunicação totalmente feito por IA é o NewsGPT, cujo slogan é “a verdade não humana”. Sua descrição diz que “por ser uma plataforma orientada por IA, ele se baseia em dados e algoritmos –não em humanos– para gerar artigos jornalísticos, eliminando opiniões pessoais e agendas”. Afirma ainda que “tem a capacidade de processar enormes volumes de informação de diversas fontes, resultando em cobertura de notícias 24 horas por dia, em todo o mundo”.

Não é o que acontece, a começar porque, em muitos dias, o serviço não publica notícia alguma. Suas produções rasas têm apenas três parágrafos, com textos e imagens com erros grosseiros. Além disso, não há nada relevante nos assuntos. Neste momento, entre seus destaques, estão textos sobre um casal que morreu em um incêndio em uma sauna em Tóquio, um rapper americano que foi preso na Romênia por fumar maconha no palco e o jogo de abertura da Copa Africana de Nações.

A plataforma incentiva seu público a denunciar o que considere notícias falsas. Mas as pessoas raramente têm preparo para identificar isso. É comum disseminarem o que gostam, mesmo que seja mentira, e denunciarem o que lhes desagrada, ainda que verdadeiro. Isso destrói a premissa de imparcialidade e precisão da plataforma.

 

Antijornalismo

O desserviço prestado pelo NewsGPT continua quando ele propõe criar “notícias personalizadas, adaptadas às preferências de cada espectador (…) entregando um noticiário personalizado, feito especialmente para você”.

Novamente, isso parece uma boa ideia. Mas o bom jornalismo nunca pode manter o público em sua zona de conforto. As pessoas precisam ser informadas sobre tudo que importa, mesmo que elas não gostem. Infelizmente, além de coisas divertidas, o mundo está repleto de casos tristes ou incômodos, que precisam ser conhecidos.

As “bolhas de filtro”, promovidas pelo NewsGPT como um diferencial, são, na verdade, a raiz da polarização patológica em que as redes sociais lançaram o mundo ao longo dos últimos 15 anos. Com seus algoritmos exibindo apenas o que cada um gosta, as pessoas abandonaram o jornalismo sério, que insiste em lhes mostrar o mundo como ele é, para abraçarem alegremente a ilusão de mentiras confortáveis.

Não podemos esquecer que, a despeito das falácias sobre as quais esses falsos veículos de comunicação se constroem, a própria IA possui vieses em sua concepção. A tecnologia os herda dos dados de seu treinamento, dos algoritmos e de escolhas humanas de design, mesmo que busque mitigá-los com verificação cruzada.

Não há garantias de que o NewsGPT não esconda uma agenda política, pois ele não divulga detalhes sobre seus acionistas, algoritmos ou auditorias externas de neutralidade. Mesmo assim, propostas como essa enfraquecem o jornalismo tradicional, pois as pessoas se acostumam a consumir um pretenso noticiário focado em seus gostos. Ao abandonarem os veículos sérios, eles ficam cada vez mais descapitalizados, perdendo a capacidade de fazer um bom trabalho informativo.

“O risco é que a hipersuasão explore as vulnerabilidades dos indivíduos ou os oriente para decisões contrárias aos seus interesses”, alerta Floridi. “Aproveitá-la de forma frutífera e responsável é factível, a questão em aberto é se o faremos”, conclui.

Mas infelizmente muita gente usará as redes sociais e a IA para mentiras confortáveis.

 

O jornalista e pesquisador Rodrigo Mesquita, durante do evento “O jornalismo entre a sobrevivência e a relevância” - Foto: reprodução

Enquanto o digital achata a crítica, o jornalismo deve revalorizar o pensamento

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Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas nunca fomos tão manipulados. Em 15 anos, as big techs tomaram de assalto o debate público, sem qualquer contrapeso democrático, guiadas pela busca de lucro que atropela até o bem-estar dos usuários. Enquanto isso, o jornalismo, a instituição democrática mais talhada para impedir abusos de poder, perdeu seu papel de mediador. O resultado é um ambiente em que a verdade compete com a engenharia do engajamento e, na maioria das vezes, perde.

Esse foi o eixo do evento “O jornalismo entre a sobrevivência e a relevância”, que aconteceu no dia 13, organizado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP. O debate foi construído a partir do artigo “Crise do jornalismo deixou terreno fértil para erosão da democracia”, do jornalista e pesquisador Rodrigo Mesquita, que lá estava.

A Internet comercial surgiu em 1995, com a promessa de ser um bem-vindo canal de comunicação democrático e desintermediado. Mas esse ideal idílico caiu por terra em poucos anos, com as plataformas digitais capturando, com seus algoritmos, desejos e sentimentos de toda a humanidade, transformando-os em uma máquina de convencimento eficientíssima, muito maior que a própria mídia, governos e religiões.

O jornalismo, que até então organizava a informação cotidiana do mundo e promovia o debate para que as pessoas construíssem sua sociedade, ficou paralisado. Por um misto de arrogância e incompreensão de que seu público não aceitava mais informação unilateral, ainda sofre para lhe oferecer uma experiência participativa.

A mídia também é um negócio, com poucas empresas importantes controlando muito do que se noticia. Mas elas obedecem a regras claras de funcionamento, que protegem a sociedade. As big techs, por outro lado, apesar de serem muitíssimo mais poderosas, não cansam de demonstrar seu desprezo por qualquer instrumento democrático que ameace minimamente seus lucros.

Diante disso, passa da hora de descobrirmos quem controla hoje a esfera pública e como fazer com que, seja lá quem for, necessariamente trabalhe para os cidadãos.


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“A informação deixou de ser um serviço público e passou a ser um insumo para modelos de negócios baseados na vigilância e na previsibilidade do comportamento humano”, afirmou Mesquita, em sua fala de abertura. Para ele, “o que está em jogo é mais do que a sobrevivência do jornalismo: é a reconstrução das formas de mediação que sustentam a democracia”.

E lembrou que, apesar de as big techs adotarem um discurso de neutralidade, seus algoritmos são exatamente o oposto disso. Eles manipulam o público em escala industrial, para garantir unicamente os seus interesses, recusando qualquer controle.

“Foi brutal a metamorfose das promessas de transparência e liberdade expressiva das redes sociais na disseminação do ódio, dos cancelamentos, da guerra cultural, das narrativas conspiratórias e dos extremos destrutivos”, acrescentou Lucia Santaella, professora da PUC-SP. Segundo a professora, uma autoridade global em semiótica, “tudo isso é aliado à monetização da presença, ao capitalismo comunicacional, que transforma qualquer virtude em manipulação consentida”.

Os diferentes pesquisadores que debateram o assunto em diversas mesas ao longo do dia concordam que essa distopia informacional reforça o valor social do jornalismo, mas reconhecem que ele atua em franca desvantagem. “As grandes redações ainda são referências de verificação e responsabilidade pública, essenciais para o debate democrático”, disse Mesquita. “Mas disputam atenção dentro de um sistema projetado não para informar, mas para reter o usuário no ciclo da monetização.”

“A arrogância impediu que as redações e as empresas entendessem o que vinha pela frente”, afirmou o jornalista Eugenio Bucci, professor da USP. “Mas à parte dessa face econômica e dessa face tecnológica, a crise da imprensa é uma crise de pensamento”, sugeriu.

De fato, quando o papel do jornalismo de ajudar a sociedade a se organizar com informações de qualidade se enfraquece, ele perde parte de sua razão de existir. Isso fortalece os grupos de poder que se beneficiam da desinformação e que, por isso, justamente combatem a imprensa.

 

Instituições sob ataque

O jornalismo é uma força civilizatória por oferecer elementos para que a sociedade se reconheça, converse consigo mesma e melhore a partir de informações confiáveis. As redes sociais, por sua vez, vampirizam a mesma sociedade, pois dependem de tecnologias de segmentação e de vigilância, que fragmentam a conversa pública e dissolvem o terreno comum da deliberação para construção de consensos.

Uma das maiores tragédias disso é observar diferentes instituições democráticas, como as universidades, representação política e até a Justiça, sendo forçadas a adotar essa lógica distorcida, para não serem alvejadas pelos seus públicos, polarizados e incendiados pelas redes sociais. E o jornalismo também sofre desse problema, quando critérios editoriais sérios são tragicamente subjugados por uma suposta “otimização do noticiário” que garanta audiência.

Assim, esses pilares sociais vêm sendo carcomidos pelo digital, perdendo sua essência e levando a própria democracia com eles. “Sem dispositivos concretos de accountability, toda a ética corre o risco de ser convertida em mero adereço discursivo, uma fachada moralizante que encobre, sem enfrentar, as estruturas que perpetuam as assimetrias”, afirmou Santaella. “O que se exige, em última instância, é uma prática que não apenas nomeie os problemas, mas que atue sobre eles com densidade política, coerência institucional e compromisso de cada um de nós.”

No mundo todo, e no Brasil com muita força, o meio digital se permitiu instrumentalizar para hostilidades a adversários, ataques ao jornalismo e deslegitimação de instituições. “Uma sociedade que não discute com base na razão e nos fatos os seus problemas comuns começa a discuti-los com base no fanatismo”, conclui Bucci.

Se a imprensa tivesse conseguido manter o seu papel de mediador social, a crise criada pela desinformação não teria sido tão grande. Basta observar os países escandinavos, que teimosamente combinam indicadores altos de qualidade de vida, felicidade do povo, ótima educação e uma imprensa forte e atuante.

Se desejamos resgatar uma sociedade mais civilizada e buscar uma vida melhor para todos, o jornalismo precisa deixar de ser apenas um produtor de conteúdos e retomar seu papel na reorganização da esfera pública em torno de vínculos mais legítimos e mediações mais civilizadas. Isso exige a sua reinvenção, tornando-se mais transparente e interativo, inclusive valendo-se dos recursos digitais, mas sem se submeter à lógica algorítmica.

Devemos entender que os cidadãos, mesmo os de bom nível educacional, não conseguem fazer frente ao controle das redes sociais, e isso tende a se agravar com a inteligência artificial. As big techs disfarçam seus interesses e a resistência feroz a qualquer tipo de regramento como se fossem “liberdade de expressão”. Essa é uma mentira perversa, pois faz muita gente atuar contra seus próprios interesses, em favor dos dessas empresas.

A sociedade precisa se organizar para que essa máscara caia, e os cidadãos possam usar os recursos digitais para seu benefício, sem pagar com sua própria autonomia e até saúde mental. Os mais diferentes atores sociais precisam se engajar nessa causa, incluindo, entre outros, governos e universidades.

O jornalismo, obviamente, tem papel central nisso, mas precisa fazer as suas próprias necessárias transformações. Como disse Mesquita, “essa é, em essência, a tarefa histórica do jornalismo no século XXI: reconstruir as bases cognitivas da democracia em um mundo mediado por máquinas”.

 

Mitali Mukherjee, diretora do Reuters Institute, Richard Fletcher (centro) e Nic Newman, autores do Digital News Report - Foto: reprodução

Influenciadores e IA ocupam espaço deixado pelo jornalismo e ameaçam a verdade

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Nunca consumimos tanta informação e nunca estivemos tão longe da verdade. Essa é uma das principais conclusões do Digital News Report, estudo sobre o jornalismo publicado anualmente pelo Reuters Institute, divulgado no dia 16. E essa constatação, longe de interessar apenas a profissionais de comunicação, exige ações de toda a sociedade.

A edição desse ano mostra que as pessoas continuam se informando cada vez mais pelo meio digital (especialmente smartphones) e menos por mídias tradicionais, uma tendência observada há uma década. Mas vale notar que, mesmo online, a imprensa perde espaço, enquanto influenciadores crescem. E pela primeira vez o estudo identificou o uso da inteligência artificial como fonte de noticiário, adotada por 7% dos entrevistados.

Apesar do crescimento desses influenciadores, com 44% dos jovens de 18 a 24 anos os considerando como sua principal fonte de notícias, 47% da população declara que eles são os maiores criadores e propagadores de informações falsas ou enganosas, equiparando-os a políticos. No caso da IA, 41% dizem que notícias geradas por robôs têm menos valor do que as produzidas por jornalistas, preferindo conteúdos com curadoria e apuração humana.

Estamos diante de um paradoxo inquietante: mesmo com 58% dos entrevistados se dizendo preocupados com sua capacidade de distinguir entre verdade e mentira, o público se informa cada vez mais por influenciadores.

Isso é grave, pois as pessoas, mais ou menos conscientemente, estão decidindo se informar por fontes que reconhecem oferecer conteúdo enviesado ou falso. Por outro lado, os jornalistas, mesmo buscando a verdade, não conseguem se conectar com o seu público como antes. E as duas coisas representam sérios riscos para a sociedade.


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O distanciamento entre jornalistas e público vem de fatores como linguagem distante, falta de empatia, excesso de negativismo, formatos rígidos, presença tímida nas redes e principalmente uma comunicação pensada de dentro para fora. A imprensa tradicional insiste em falar como instituição, enquanto os influenciadores falam como pessoas. E em um mundo da conexão emocional, isso faz toda a diferença.

Eles ganham espaço porque escutam, respondem, compartilham bastidores e se mostram vulneráveis. Se erram, pedem desculpas; se acertam, comemoram. Produzem com o público, e não para o público. Tudo isso cria um vínculo afetivo que o jornalismo tradicional perdeu ao manter a postura de “dono da verdade”. Lamentavelmente, o conteúdo veiculado por muitos desses influenciadores é superficial, errado ou deliberadamente enganoso. Mas, ainda assim, cativa.

Outro fenômeno preocupante é o da evasão informativa. Segundo o relatório, hoje 40% dos entrevistados evitam o noticiário propositalmente, contra 29% em 2017. Cansados do efeito negativo no seu humor (39%) e da sensação de estarem sobrecarregados pela quantidade de notícias (31%), eles preferem se alienar.

Essa tendência cresce mais entre os mais jovens e entre quem se sente emocionalmente impactado por notícias negativas. Só que esse abandono deliberado do jornalismo enfraquece não só os veículos, mas o senso coletivo de realidade.

O estudo indica que os mais velhos ainda buscam jornais, televisão e portais para se informar, enquanto os mais jovens preferem redes sociais, vídeos curtos e creators. E agora entra em cena a IA, com seus resumos sintéticos e sua lógica algorítmica, que entrega o que o usuário quer, e não o que ele precisa saber, jogando por terra o pilar do jornalismo de informar o que for necessário, mesmo que indesejado.

O resultado é uma sociedade cada vez mais fragmentada, onde diferentes grupos vivem realidades informativas completamente distintas.

 

No Brasil

No nosso país, apenas 42% dos brasileiros confiam na imprensa, 20 pontos a menos que em 2015, mas ainda dois pontos acima da média global. Isso se agrava pela nossa alta penetração de redes sociais, concentração da mídia e uma tradição histórica de desigualdade no acesso à educação midiática. O ambiente político polarizado também estimula a desinformação e a desconfiança generalizada.

O jornalismo sério, nesse contexto, enfrenta uma batalha árdua para continuar relevante, respeitado e economicamente viável. Apenas 18% dos 97 mil entrevistados de 28 países pagam por notícias; no Brasil, são 17%.

Parece uma causa perdida, mas o jornalismo não precisa se render ao sensacionalismo nem à superficialidade para reconquistar o público. Deve reaprender a se conectar com ele, com linguagens mais acessíveis e formatos diversificados. Precisa estar presente nos canais em que as pessoas estão, ouvir mais e explicar melhor. Significa ser transparente sobre métodos, admitir erros e mostrar por que cada notícia importa. E, acima de tudo, é fundamental resgatar a missão do jornalismo de ajudar a sociedade a entender o mundo com lucidez e agir com responsabilidade.

Essa reinvenção não deve acontecer apenas dentro das redações. O público também tem um papel crucial. É preciso desenvolver uma consciência crítica em relação à informação, questionando fontes, checando antes de compartilhar, buscando diferentes perspectivas. A alfabetização midiática precisa ser ensinada nas escolas, incentivada nas famílias e promovida em políticas públicas. Quando qualquer pessoa pode se tornar uma produtora de conteúdo, saber consumir informação com discernimento é tão importante quanto produzi-la com responsabilidade.

Se o jornalismo falhar em reestabelecer sua relevância, a democracia perde. Em um mundo marcado pela ascensão de governos populistas e autoritários, pelo ataque sistemático à verdade e pela manipulação do público, um jornalismo enfraquecido abre caminho para regimes opacos, para o pensamento único e para o ódio como método.

Reverter esse quadro é uma missão que cabe aos jornalistas, ao inovarem e se reconectarem com o público, mas essa função não é só eles. As plataformas digitais precisam assumir sua responsabilidade editorial e as instituições de ensino devem priorizar a educação midiática.

É preciso que todos nós entendamos que um jornalismo forte é sinônimo de uma democracia saudável. Não se trata de defender uma categoria profissional, mas sim da possibilidade de viver em uma sociedade livre, informada e capaz de decidir seu destino.

 

Sede do The Washington Post, que acaba de fechar acordo para distribuir seu conteúdo pelo ChatGPT - Foto: Daniel O'Neil/Creative Commons

Direitos autorais põem em dúvida de quem são os “ombros gigantes” onde a IA sobe

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O lançamento do ChatGPT no fim de 2022 plantou uma incômoda dúvida se as novas plataformas de inteligência artificial generativa estariam construindo seus impérios sobre obras alheias, sem autorização ou remuneração. Dois anos e meio depois, ela persiste e se intensificou.

A controvérsia ganhou novos capítulos recentemente. De um lado, a OpenAI firmou uma parceria com o The Washington Post para que seu ChatGPT publique resumos de notícias do jornalão. Do outro, figuras importantes do mundo digital defenderam abertamente a eliminação das leis de propriedade intelectual, uma postura radical e potencialmente destrutiva.

Essa divergência expõe uma fratura profunda no entendimento sobre como o futuro da tecnologia deve se relacionar com a criação humana. Enquanto os defensores da IA argumentam pelo uso irrestrito de conteúdos sob a bandeira do “uso justo”, produtores de conteúdo, desde artistas independentes até organizações como o The New York Times, movem processos alegando apropriação indébita.

A própria OpenAI, que defende seu direito de usar conteúdos alheios sem compensação ou mesmo autorização, não hesitou em acusar a empresa chinesa DeepSeek de violar sua propriedade intelectual quando a última lançou sua plataforma de IA. Essa contradição evidencia a complexidade e a hipocrisia desse debate.

Não se sabe como compensar financeiramente todos os criadores de conteúdo usados no treinamento da IA, e mesmo se isso é devido. Mas está cada vez mais difícil “empurrar com a barriga” a conclusão dessa disputa, que pode impactar profundamente o mundo, graças à penetração que a IA já construiu em nossas vidas.


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Em outros tempos, esse posicionamento dos executivos das big techs seria descartado como provocação barata. Mas em uma época em que sua influência na formulação de políticas públicas cresceu dramaticamente com a aproximação escandalosa desses magnatas ao novo presidente dos EUA, isso fica muito sério.

As empresas de tecnologia argumentam que, sem a flexibilização do “uso justo”, o desenvolvimento da IA será inviabilizado, entregando a liderança global dessa tecnologia absolutamente decisiva para a China. A OpenAI chegou a afirmar, com grande drama à Casa Branca, que a corrida pela IA estaria efetivamente encerrada para empresas americanas.

Sua postura incongruente evoca a famosa frase atribuída ao físico Isaac Newton: “se eu vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes”. A afirmação reconhece que todo avanço intelectual se baseia em conhecimentos anteriores. Mas a OpenAI aplica essa filosofia apenas quando lhe convém.

A situação remete a Steve Jobs, que parafraseava Pablo Picasso dizendo que “bons artistas copiam; grandes artistas roubam” (na verdade, a frase de Picasso era “artistas menores tomam emprestado; grandes artistas roubam”). De fato, a história da tecnologia está repleta de casos assim, como a própria Apple, que desenvolveu a interface gráfica do Macintosh “roubando” conceitos da Xerox, cuja diretoria desprezou seus ícones e até o mouse, inventados pelos seus engenheiros da Califórnia.

Por outro lado, se os direitos autorais forem flexibilizados demais, corre-se o risco de desestimular a criação. Afinal, quem se dedicará a escrever livros, compor músicas ou apurar reportagens se souber que qualquer plataforma digital poderá usar o resultado de seu esforço, sem qualquer compensação, para alimentar máquinas que depois competirão com vantagem sobre seu próprio trabalho?

 

Impactos cognitivos e econômicos

Para além das questões legais, emergem preocupações sobre como essas tecnologias alteram nossa relação com a informação. Diferentemente dos resultados de um buscador tradicional, que apresenta diversas fontes e incentiva a navegação por diferentes perspectivas, as plataformas de IA oferecem respostas prontas, aparentemente definitivas.

Essa mudança tem implicações profundas do ponto de vista cognitivo. O usuário deixa de exercitar sua capacidade de análise, comparação e interpretação crítica de diferentes visões. Receber uma resposta “mastigada” pode parecer confiável, mas carrega riscos de imprecisão, viés e perda de contexto. Isso pode levar ao surgimento de uma geração com dificuldade para construir argumentos originais.

Essa lógica também ameaça a sustentabilidade dos sites de conteúdo. Se o usuário não precisa mais visitar as páginas originais, seu tráfego cai. Isso leva à diminuição de receitas de publicidade e assinaturas, fragilizando ainda mais o jornalismo profissional. É o paradoxo que o ChatGPT, ao destacar o bom jornalismo, contribui para sua erosão, reduzindo a diversidade das fontes disponíveis.

Há muitos conflitos nessa história para se oferecer uma saída simples. A parceria entre a OpenAI e o The Washington Post, com resumos autorizados, links e atribuição clara, precisa ainda ser validada, pois vejo os usuários se satisfazendo com o que a IA lhes trouxer, não sentindo necessidade de visitar as páginas originais.

A decisão dos EUA sobre essa questão terá repercussões globais. Se o país flexibilizar excessivamente os direitos autorais para beneficiar as big techs, outros países devem seguir o exemplo, desestabilizando indústrias criativas e potencialmente ampliando problemas como falsificação e pirataria.

A inteligência artificial já está entre nós, e não há como retroceder, pois seus benefícios são reais e inegáveis. Mas é urgente compreender seus impactos, e buscar equilíbrios.

Usuários, empresas de tecnologia, criadores de conteúdo, legisladores e a Justiça precisam debater de forma aberta, crítica e colaborativa como construir um ecossistema justo, com um ambiente onde os “gigantes” continuem a nos ajudar a enxergar mais longe, mas sem esquecer de quem são esses ombros.

Afinal, roubar com talento ainda é roubo. E a história mostra que os “piratas do Vale do Silício” sempre foram mestres nesse ofício.

 

Para Stephen Buckley, do “Dallas Morning News”, a reputação depende de transparência, responsabilização e humildade - Foto: reprodução

Desinformação escancara como o relacionamento pode salvar a confiança do público

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A confiança sempre foi essencial para o sucesso de qualquer relacionamento, inclusive os comerciais. Mas em uma época em que a desinformação se tornou uma ferramenta cotidiana para abalar reputações e conseguir clientes e apoiadores, o contato genuíno com o público pode reforçar laços e construir um vínculo duradouro.

Isso vale para qualquer atividade, mas é crítico para o jornalismo. Seu produto é a notícia, e a verdade é seu principal ativo. Por isso, a confiança do público foi um tema central no 26º Simpósio Internacional de Jornalismo Online, promovido na semana passada pela Universidade do Texas em Austin (EUA). Mas as conclusões do evento podem ser aproveitadas por profissionais de setores da economia bem diversos.

Apesar de ser um dos pilares de qualquer democracia, o jornalismo sofre como negócio. O “Digital News Report 2024”, publicado pelo Reuters Institute em junho, revelou que apenas 40% da população mundial acredita no noticiário. Mais grave que isso é que 39% dos entrevistados admitem evitar deliberadamente o consumo de notícias, uma perigosa escolha pela alienação, que vem crescendo ano após ano. No Brasil, a situação é ainda mais grave, com 47% da população evitando se informar.

Parte dessa desolação está sendo construída há duas décadas, por grupos de poder que veem na fiscalização jornalística um obstáculo a seus interesses escusos. Mas outro tanto cabe à própria mídia, que se distanciou do seu público, ao longo dos anos. Muitas pessoas a sentem como elitizada, longe de seus cotidianos, com linguagem e formato antigos, e “vendida”. E esses profissionais não conseguem reverter essa percepção, enquanto seus detratores se esbaldam com o apoio das redes sociais.

Ninguém tem o poder de decidir se é confiável ou sequer útil para a sociedade: são as pessoas que escolhem. Esse é um ingrediente essencial na confiança e uma verdade incômoda de que a credibilidade não é autoproclamada, mas conferida pelo outro. Por isso, jornalistas e qualquer outro profissional precisam encontrar o caminho para que seus públicos se sintam próximos, compreendidos e cuidados.


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Quando se trata de confiança, competência e caráter são fundamentais. A primeira refere-se à capacidade técnica de apresentar informações precisas, contextualizadas e aprofundadas. O segundo, menos tangível, mas igualmente decisivo, diz respeito às motivações, sinceridade e integridade percebidas pelo público.

Essa dupla exigência não se restringe à imprensa. Médicos, advogados, professores, empresários e muitos outros enfrentam o mesmo desafio: não basta dominar técnicas e conhecimentos específicos se falta a percepção de que existe uma genuína preocupação com o impacto do seu trabalho na vida das pessoas.

O desafio cresce no jornalismo, pois o público quer ouvir vozes como as suas, além de outras muito diferentes. A diversidade de perspectivas não é apenas uma questão de justiça social, mas um fator determinante para a credibilidade de qualquer instituição ou profissional.

A ausência dessa representatividade leva a coberturas jornalísticas enviesadas, mas também a serviços de saúde que ignoram especificidades culturais, sistemas educacionais que não contemplam diferentes formas de aprendizado ou empresas cujos produtos não consideram a diversidade de seus consumidores.

O simpósio dedicou atenção especial ao fenômeno dos influenciadores que, cada vez mais, ocupam espaços tradicionalmente reservados a jornalistas. As linhas entre jornalismo tradicional e conteúdo produzido por criadores independentes, e a fronteira entre noticiário e entretenimento ficam cada vez mais tênues, gerando debates sobre quem pode ser considerado fonte confiável de informação.

O fenômeno não se limita à comunicação. Consultores de saúde no lugar de médicos, coaches substituindo terapeutas, mentores digitais concorrendo com professores ilustram como a autoridade antes conferida por títulos e instituições agora é disputada com figuras que conquistam credibilidade não apenas por dominar os espaços digitais, mas pela sua capacidade de criar uma forte identificação com o público.

 

Concorrência heterogênea

Há de tudo nesses criadores de conteúdo, inclusive aqueles que se profissionalizam.

“Embora eu não me considere um jornalista ou mesmo alguém que dê notícias de última hora, se as pessoas me veem assim, então, em muitos aspectos, eu tenho a responsabilidade de fazer tudo o que o jornalismo tradicional faria, que é verificar os fatos para garantir que não esteja apenas espalhando desinformação”, explicou o uruguaio Carlos Eduardo Espina, um criador de conteúdo sobre direitos de imigrantes nos EUA, com 12,4 milhões de seguidores no TikTok, 3 milhões no Facebook e 1,2 milhão no Instagram. “Mas vemos muitas pessoas que simplesmente vão para as mídias sociais e mentem, pois isso é bom para o engajamento”, afirma, expondo um dilema que muitos jornalistas também enfrentam: o de serem envolventes e, ao mesmo tempo, responsáveis.

Outro ponto importante debatido é que grande parte do público não compreende como funciona o trabalho jornalístico, o que pode gerar desconfiança e esconder o trabalho minucioso e ético desses profissionais, que aumentaria muito a sua credibilidade, se fosse conhecido. Este problema se repete em diversos campos, por exemplo com as linguagens técnicas de médicos e advogados. Cada termo não explicado, cada processo não compartilhado torna-se um tijolo no muro da desconfiança.

Diante disso tudo, a transparência surge como uma poderosa aliada para se aproximar do público e reconstruir a confiança. Ela manifesta-se na clareza sobre processos, fontes de financiamento e valores editoriais, admissão de limitações, reconhecimento de vieses e, crucialmente, no reconhecimento e correção de erros.

“Jornalistas passam muito tempo responsabilizando outras pessoas e, portanto, faz todo o sentido que nós mesmos sejamos responsabilizados”, explicou Stephen Buckley, editor do “Dallas Morning News”, que disse que fica feliz quando percebe que muitas pessoas genuinamente tentam entender o trabalho dos jornalistas e até querem ajudá-los a fazer um trabalho melhor. Para ele, a conexão com o público e o aumento da reputação dependem de três pilares profissionais: transparência, responsabilização e humildade.

“Não estamos acima ou abaixo das pessoas: estamos com as pessoas”, afirmou Buckley. “Essa é uma mensagem realmente importante e ressonante, e as pessoas entendem isso e sentem quando estamos agindo assim”, concluiu.

 

Mark Zuckerberg, CEO da Meta, durante anúncio de medidas como o fim da moderação de conteúdo em suas redes - Foto: reprodução

Por que a guinada de Zuckerberg sobre conteúdo é uma tragédia social

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A grande notícia no mundo digital na semana passada foi o cavalo de pau que Mark Zuckerberg deu na política de moderação de conteúdo da Meta, afetando Facebook, Instagram e Threads. Com um intenso alinhamento às ideias do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, as medidas levantam preocupações legítimas sobre como isso impactará a qualidade das entregas das redes sociais e a própria democracia.

Especialistas diversos afirmam que o nível das publicações e dos debates nessas redes deve cair dramaticamente, empobrecendo seu papel social e corroendo a credibilidade da empresa. Pela sua descomunal penetração, isso deve agravar a polarização na sociedade. E a disposição manifestada pelo seu CEO de ativamente afrontar governos que contrariarem seus interesses pode desestabilizar nações.

Esse é o ponto mais grave desse movimento. Executivos das big techs cada vez mais se dão o direito de se colocar acima da lei e de valores, não apenas dos EUA, mas de países muito diferentes. Com uma grotesca distorção do conceito de liberdade de expressão, ameaçam a estabilidade social, uma influência nefasta e indevida nunca vista na história, que impõe seus interesses pessoais sobre populações inteiras.

Essa é uma perigosíssima nova ordem mundial que precisa ser combatida, sob o risco de desaguarmos em uma barbárie onde ninguém mais se respeite, colocando o próprio conceito de sociedade em risco.


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As políticas de moderação da Meta surgiram com o escândalo da Cambridge Analytica, que estourou em março de 2018. Os jornais “The Guardian” e “The New York Times” demonstraram que essa empresa coletou dados de 87 milhões de usuários do Facebook sem seu consentimento, para influenciar a primeira eleição de Trump e o referendo do Brexit, ambos em 2016. Isso escancarou a manipulação das redes, e o Facebook foi acusado pelo Congresso americano de não proteger seus usuários desse controle.

Trump, que teve suas contas no Facebook e no Instagram suspensas em 2021 por incitar a violência que levou à invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro daquele ano, comemorou o novo posicionamento da Meta. Em entrevista após o anúncio, disse, sem nenhum constrangimento, que provavelmente sua ameaça de prisão perpétua a Zuckerberg no ano passado pode ter pesado nessa decisão.

Mas não sejamos inocentes: o alinhamento dessas empresas a Trump lhes trará muitos benefícios. E com seu virtual controle dos três Poderes no país, as ameaças sobre as big techs que se unirem a ele tendem a desaparecer. “Na verdade, elas nunca quiseram combater desinformação”, explica Pollyana Ferrari, pesquisadora em mídias e professora da PUC-SP. “Eram mais ações isoladas para dizer que faziam algo, porém agora os bilionários não precisam mais disfarçar seus objetivos.”

“Em 2017, Chris Cox, então diretor de produtos do Facebook, descobriu que havia uma correlação entre maximizar o envolvimento do usuário e inflamar as tensões, e que reduzir a polarização significaria prejudicar o engajamento”, relembra Magaly Prado, pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da USP. Então, mesmo sabendo que algumas eram “anticrescimento”, propôs várias soluções, mas elas não foram implantadas. “As big techs que abrigam as redes sociais não estão nem aí com as pessoas que eles costumam chamar de usuários”, acrescenta.

O anúncio de Zuckerberg provocou protestos de especialistas do mundo todo, que pedem que as mudanças sejam revertidas. Em resposta, a Meta tomou mais medidas na mesma linha, como acabar com seu programa de Diversidade e Inclusão.

“O mais preocupante não é apenas o fim do programa de checagem, mas o fato de que Zuckerberg encerrou essa iniciativa com um ataque perigoso e infundado a um trabalho que vinha sendo feito de forma criteriosa”, diz Clara Becker, jornalista especializada em desinformação e diretora da ONG de educação midiática Redes Cordiais. “Em vez de fortalecer o combate à desinformação, a Meta escolheu um caminho que descredibiliza os esforços existentes e agrava ainda mais o cenário de manipulação e polarização nas plataformas”, alerta.

 

O que Zuckerberg quer?

Ao se alinhar aos interesses de Trump, o CEO da Meta espera diminuir seus custos e ganhar um aliado para combater países que ameaçarem seus negócios, além de apoio contra pressões políticas e legais domésticas.

“Atuar contra regulações locais pode ser percebido como uma forma de neocolonialismo digital, prejudicando a autonomia de países e minando a confiança em governança global”, adverte Marcelo Crespo, coordenador do curso de Direito da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Para ele, “promover políticas alinhadas exclusivamente a interesses americanos pode agravar tensões globais e alimentar narrativas antidemocráticas”.

Zuckerberg quer fazer o que bem entender na sua companhia, o que, a princípio, é seu direito. Mas redes sociais não são empresas como outras, pela sua absurda influência sobre o mundo! Portanto, dizer que defende a liberdade de expressão é, no mínimo, hipócrita, pois ninguém sabe como seus algoritmos promovem e escondem o que quiserem.

“O discurso de garantir a liberdade de expressão é falacioso, na medida em que a remoção de conteúdos inverídicos, falseados, criminosos não configura censura”, explica Crespo. “No Brasil, não há liberdade plena de expressão, por isso a Constituição determina que é vedado o anonimato, justamente para responsabilizar quem cometer abusos.”

Duas situações podem surgir disso. Na primeira, governos, Justiça, empresas e outros membros da sociedade reagem para elaborar regras equilibradas para evitar a desinformação, exigindo uma responsabilidade e uma transparência que as redes sociais nunca tiveram, o que seria muito positivo. Na outra, ruim, a proposta de Zuckerberg avança e seus algoritmos privilegiam lucros ao invés de segurança, explodindo os conteúdos nocivos, como aconteceu no X de Elon Musk, criando sociedades instáveis, em que as pessoas não concordam, nem constroem coisas juntas. Por isso, segundo Prado, “é inevitável e fundamental que possamos debater a justiça dos dados, as leis que vão reger quem provoca o distúrbio informacional”.

“A moderação de conteúdo é um dos grandes desafios do século XXI, e não há sistema infalível para lidar com desinformação e discurso de ódio”, afirma Becker. “O cenário ideal seria aquele que promove um equilíbrio entre liberdade de expressão e responsabilidade, garantindo que conteúdos enganosos, discursos de ódio e incitações à violência ou discriminação sejam eficazmente controlados”, conclui.

A desinformação deve ser combatida com boa informação. Quando Zuckerberg confirma a anarquia das redes sociais, isso reforça a importância do jornalismo e da checagem de fatos profissionais. Mas infelizmente eles não são suficientes, pois os algoritmos continuarão promovendo o conteúdo nocivo, que lhe é mais lucrativo.

Por tudo isso, deve-se exigir mais transparência das plataformas, ao invés de aceitar o contrário, que nos está sendo imposto. A verdade não pode ser opcional, devendo ser cuidada por todos como um bem público, ou corremos o risco de ter consolidado um animalesco Estado sob a lei do mais forte.

 

Criada por IA, Ren Xiaorong é a âncora do telejornal “Diário do Povo”, controlado pelo governo chinês - Foto: reprodução

IA agora produz e publica notícias, aumentando os riscos de desinformação

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O que você sentiria se o presidente da República telefonasse a você para lhe convencer de algo? Ou se alguém bem próximo, como um sobrinho ou até um filho, enviasse um áudio pedindo dinheiro? Muita gente desconfiaria que se trata de um golpe. Mas o rápido avanço da inteligência artificial está tornando esse tipo de engodo cada vez mais crível, fazendo vítimas em todos os estratos sociais.

Portanto, cuidado ao gritar que jamais cairá em algo assim. Por muito menos, todo mundo já acreditou em alguma fake news!

A ameaça cresce quando se observa que o uso da IA vai muito além da produção de textos, áudios e vídeos bem-feitos. Os robôs agora constroem sequências de notícias falsas sobre temas que lhes forem solicitados. Além disso, eles as distribuem de maneiras cada vez mais criativas, até como se fossem jornalistas humanos.

Não por acaso, em janeiro, o Fórum Econômico Mundial apontou a desinformação potencializada pela inteligência artificial como o maior risco que a humanidade enfrentará nos próximos anos.

As big techs, responsáveis pela criação dessas plataformas, estão se mexendo. No mesmo Fórum, Nick Clegg, presidente de assuntos globais da Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp), anunciou que a empresa está trabalhando com os principais nomes do setor para criar mecanismos que identifiquem claramente que um conteúdo foi sintetizado por IA. O executivo classificou a iniciativa como “a tarefa mais urgente” da indústria tecnológica atualmente.

Já passamos há anos do ponto em que as versões ficaram mais “importantes” para o público que os fatos, e falhamos miseravelmente no combate a isso, com consequências desastrosas. Nesse ano, com mais de 2 bilhões de pessoas votando em 58 países, o desafio de todos passa a ser não apenas resgatar o valor da verdade, como também serem capazes de identificá-la.


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Isso já acontece, inclusive onde estão as sedes das big techs: os EUA. O país começou 2024 com a polarização nas alturas pela eleição presidencial em novembro, que deve colocar novamente o atual presidente, Joe Biden, frente a seu antecessor, Donald Trump. O primeiro já vem sendo vítima de vídeos falsos desde o ano passado.

Recentemente, eleitores do Estado de New Hampshire receberam telefonemas com a voz de Biden enganando-os para não votarem na eleição primária local. Isso fez com que o governo proibisse o uso de IA para simular vozes em ligações automáticas no país.

Legislações costumam chegar atrasadas e muitas vezes são ineficientes, diante da velocidade da inovação. O debate sobre regulamentar redes sociais e agora a inteligência artificial vem deixando claro que se focar nas tecnologias é infrutífero, devendo se concentrar na responsabilização dos desenvolvedores e dos usuários que usam esses recursos indevidamente.

O grande problema é que, com ou sem regras claras, os vilões –sejam empresas ou usuários– continuam fazendo o que bem entendem para garantir seus lucros ou outros objetivos. A IA deve facilitar esse processo ainda mais, e eles sabem disso.

A imprensa historicamente desempenha o papel de proteger a sociedade desse tipo de abuso, mas ela própria vem sendo impactada pela inteligência artificial, seja em seus próprios processos, seja na concorrência de “pseudojornalistas digitais” que tentam enganar o público.

O Reuters Institute divulgou em janeiro um detalhado estudo sobre as perspectivas para esse ano sobre jornalismo, mídia e tecnologia. O documento reconhece esses desafios, destacando que a maioria do conteúdo na Internet será produzido por IA já em 2026. Segundo os pesquisadores, isso exige que jornalistas e empresas noticiosas repensem seu papel e propósito urgentemente.

 

“Jornalistas sintéticos”

Essas empresas já observam queda na sua audiência vinda de redes sociais, que passaram a privilegiar criadores no estilo TikTok ao invés de jornalismo, pois isso lhes favorece. O desafio do jornalismo aumenta com o crescimento das “Experiências Generativas de Busca”, um recurso de buscadores como Google e Bing, em que a IA generativa redige parágrafos que explicam brevemente o que o usuário procura. Com isso, ele não precisa mais visitar as páginas de onde as informações foram tiradas.

Em outras palavras, os veículos de comunicação alimentam essas plataformas e não ganham nem mesmo a visita do usuário em troca. É quase como se cada um de nós agora tivesse um “jornalista sintético” a nossa disposição para nos explicar qualquer assunto.

Parece ótimo, mas isso embute um risco enorme: esses parágrafos podem misturar alegremente informações jornalísticas de qualidade com fake news bizarras. Portanto, podem se converter em poderosas ferramentas de desinformação, além de achatar a audiência dos veículos de comunicação.

Pesquisadores acreditam que, nesse ano, plataformas de inteligência artificial também passem a produzir grandes volumes de desinformação, não mais dependendo de comando individuais, mas seguindo diretrizes mais amplas. Como a publicação é automática, isso pode inundar as redes sociais com informações falsas, que soterrariam o conteúdo jornalístico diante dos algoritmos. Além disso, países como China e até Venezuela já usam avatares ultrarrealistas que se passam por jornalistas humanos e despudoradamente leem notícias que lhes forem ordenadas.

O relatório do Reuters Institute indica que as empresas de comunicação pretendem reforçar o contato direto com seu público, em detrimento das plataformas digitais. Mas isso pode afastá-las ainda mais de sua audiência mais jovem e menos instruída, que se sente satisfeita com as notícias geradas por IA.

A inteligência artificial é uma ferramenta fabulosa e estamos em um caminho sem volta para sua adoção em todos os setores da economia, inclusive na comunicação. Apesar de todos esses desafios, ela também oferece muitos ganhos ao jornalismo, se bem usada.

O risco a que todos nós –e não apenas jornalistas– temos que estar atentos é a possibilidade de decisões básicas da sociedade civil, como em quem votar, sejam sequestradas por robôs sem ética. As empresas de comunicação não podem repetir com a IA o erro que cometeram ao desprezar o poder das redes sociais, quando ainda estavam começando. Precisam compreender e se apropriar dessa tecnologia, e ajudar toda a sociedade a fazer o mesmo.

Caso contrário, seremos cada vez mais cidadãos teleguiados.

 

Um dos problemas derivados da queda na confiança na imprensa é a crescente agressão a jornalistas – Foto: reprodução

As razões para mordermos a mão que nos alimenta

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Um dos sinais da falência de uma sociedade é quando as pessoas deixam de acreditar nas instituições democráticas. Quando não se confia em nada ou em ninguém, perde-se a capacidade essencial de se buscar o bem comum com o outro. Por isso, pesquisas recentes do prestigioso instituto Pew Research Center, que demonstram a baixa confiança da população na imprensa, me impactam, mas não me surpreendem. E isso é um sintoma que deveria preocupar todo mundo.

Segundo os levantamentos, apenas 38% dos americanos adultos se informam “o tempo todo ou quase o tempo todo”. Além disso, só 15% acreditam “muito” e 46% “um pouco” nos veículos jornalísticos nacionais. Em compensação, 14% buscam notícias no TikTok (32% entre os que têm de 18 a 29 anos), que ainda fica atrás do Instagram (16%), do YouTube (26%) e do Facebook (30%).

O mesmo instituto já havia indicado que o aumento de informações nas redes sociais é inversamente proporcional a sua qualidade, e que o público que as utiliza como principal fonte de informação é menos engajado, informado e capaz de demonstrar bom discernimento, se comparado a quem se informa pela imprensa.

Pelas minhas observações, arriscaria dizer que temos números semelhantes no Brasil.

Todos perdem muito com esse divórcio entre a imprensa e seu público, e cada um tem seu papel e razões. Mas isso precisa ser revertido! As bolhas de pensamento único, que nos maltratam diariamente, impedem que vivamos em uma sociedade com cidadãos mais conscientes e capazes de se desenvolver.


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Há mau jornalismo hoje, como sempre houve, porém, há mais bom jornalismo que mau na mídia profissional. Entretanto parte da população aprendeu a ver só o que a desagrada, generalizando como se toda a imprensa fosse pouco confiável.

Vale notar que, até o início do século, não se questionava a importância do jornalismo para o desenvolvimento pessoal. Uma boa informação era um diferencial que resultava em melhores empregos e outras oportunidades na vida. Ler jornais era sinônimo de pertencer à elite intelectual, mesmo que não fosse da elite econômica. E ser jornalista era uma das profissões mais desejadas pelos jovens.

A grande diferença é que, com a ascensão das redes sociais, os veículos de comunicação deixaram de ser os únicos capazes de trazer notícias. Todos nós nos tornamos mídia e somos capazes de produzir enormes quantidades de informação (o que é muito diferente de notícia). Diante disso, muitos grupos de poder descobriram uma nova maneira de dominar as massas, mas, para isso, precisavam usar o meio digital para desacreditar a imprensa, que teima em lhes fiscalizar.

O combate à mídia pelos poderosos não é algo novo: apenas ganhou escala com o meio digital. Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler, foi essencial para seu poder, ao criar uma máquina de silenciar a imprensa e vozes dissonantes. Décadas depois, o venezuelano Hugo Chávez contribuiu com o processo, criando a ideia de que, se a mídia fosse contra ele, seria “contra o povo”. E demonstrando que o combate à imprensa não segue ideologia, Donald Trump se notabilizou por ignorar solenemente a verdade e usar o meio digital para impor seus interesses como fatos.

O Brasil também deu suas contribuições. Lula, desde seu primeiro mandato, desqualifica a imprensa e tenta lhe impor seu “controle social”. Jair Bolsonaro, por sua vez, instituiu ataques explícitos a jornais e jornalistas, especialmente mulheres, incendiando a população contra a mídia.

Como resultado, as pessoas só querem ver conteúdos que afaguem seu ego e concordem com seus pensamentos. E essa é uma perigosa zona de conforto.

 

Desagradando seu público

Mas o jornalismo não é feito para agradar. Na verdade, se estiver desagradando alguém, deve estar fazendo um bom trabalho.

Todo governo gostaria de ter uma imprensa dócil. Mas, se fizer isso, não é jornalismo: é relações públicas. Ela deve informar e formar o cidadão e protegê-lo dos interesses de grupos políticos, econômicos ou ideológicos, fiscalizando o poder.

Como disse certa vez o grande cartunista e jornalista Millôr Fernandes, “imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados.”

Às vezes, o jornalismo deve desagradar até seu próprio público, para forçá-lo a sair daquela zona de conforto perversa. Mas quando tudo vira “pão e circo”, isso coloca os veículos em uma situação delicada: como fazer isso se as pessoas –cada vez mais intransigentes– já estão “com um pé para fora” do jornalismo?

Os veículos têm sua culpa, ao se desconectar dos anseios e da linguagem do público. A distribuição e até seu modelo de negócios também estão ultrapassados. Diante disso, não é de se estranhar que tão pouca gente confie no jornalismo e menos ainda esteja disposto a pagar por ele. Os veículos de comunicação e seu público não conseguem mais ler os sinais uns dos outros.

Permitam-me aqui uma analogia abusada: um animal de estimação amoroso pode morder quem o alimenta como forma extrema de comunicar seu descontentamento. Um dos principais motivos é o animal não entender os sinais do tutor. Nesse caso, fica difícil saber quem é o cachorro e quem é o tutor, pois público e imprensa dependem um do outro, e nenhum está conseguindo entender os sinais alheios.

Mas em tempos tão sombrios e confusos, ambos precisam reaprender isso. Como qualquer atividade humana, o jornalismo é imperfeito, e essa atual situação faz com que sua margem de erro esteja reduzidíssima. Ele precisa ouvir novamente as demandas e falar a linguagem do público.

As pessoas, por sua vez, precisam colaborar, reconhecendo que, sem jornalismo profissional, perderiam elementos essenciais no seu cotidiano. Não saberiam, por exemplo, dos escândalos do governo atual, do anterior e de qualquer outro, ou as diferentes perspectivas sobre a guerra na Ucrânia e o conflito entre Israel e o Hamas. Não teriam se vacinado contra a Covid-19 (e muitíssimo mais gente teria morrido), e não conheceriam as potencialidades da inteligência artificial ou os riscos das redes sociais. Não saberiam dos bastidores dos filmes importantes, e nem compreenderiam a crise da Seleção Brasileira. Tudo isso se fala nas redes sociais, mas é o jornalismo que descobre, noticia e explica.

Não há atalho: a imprensa precisa se reconectar com o seu público e vice-versa. É preciso reconquistar a confiança perdida! Isso não se faz com “caça-cliques”, mas com seriedade e transparência.

O jornalismo não pode se render à lógica perversa das redes sociais, que disseminam ódio, intransigência e o pensamento único. A confiança é uma via de mão dupla e benéfica para toda sociedade. Mas ela só existe quando todos estiverem dispostos a falar e ouvir civilizadamente, sem morder a mão um do outro.

 

Entregador dorme sobre seus jornais, em imagem tirada em 1935 – Foto: City of Toronto Archives/Creative Commons

Reação da mídia ao ChatGPT pode favorecer as fake news

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Nas últimas semanas, diversas empresas de comunicação impediram que seus conteúdos continuassem sendo usados para alimentar o ChatGPT. Elas argumentam –com razão– que seus produtos têm valor e que não estão sendo remuneradas pela melhoria que proporcionam involuntariamente à plataforma geradora de textos por inteligência artificial da OpenAI.

Entre os que decidiram promover o bloqueio, estão os jornais americanos The New York Times e The Washington Post, o britânico The Guardian, a rede de TV CNN, as agências de notícias Reuters e Bloomberg, além de diversos veículos europeus. Até a gigante de e-commerce Amazon decidiu fechar a porta para esse robô.

Apesar de seus argumentos legítimos, essa decisão pode favorecer a desinformação em um futuro breve. Os sistemas de inteligência artificial generativa tornaram-se um enorme sucesso, e as pessoas devem usá-los cada vez mais. Em uma situação extrema em que todos os produtores de bons conteúdos os neguem a essas plataformas, elas poderiam ficar restritas a sites dedicados a fake news e outros tipos de conteúdo de baixa qualidade para “aprender o que dizer” aos seus usuários.

Nesse cenário, o público poderia passar a consumir e a replicar o lixo desinformativo, em uma escala ainda maior que a já vista nos últimos anos. Seria terrível para o jornalismo –que luta para combater isso– e para a sociedade como um todo.


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Eu já vi uma história parecida antes. Quando foi criado, em 2002, o Google Notícias gerou protestos entre veículos de comunicação do mundo todo, que acusavam a empresa de se apropriar de sua produção para criar um concorrente. O Google Notícias sempre se defendeu, dizendo que fazia um “uso justo” de pequenos trechos dos veículos e que sempre enviava os leitores que clicassem nos seus links para a fonte da notícia.

Diante das reclamações, o Google criou um recurso para que os veículos impedissem que seu conteúdo fosse usado no Notícias. O problema é que isso também tirava os veículos do buscador, o que não era nada interessante para eles. Eventualmente as partes chegaram a acordos que permitiram que esse conteúdo continuasse sendo usado, enquanto o Google criava mecanismos de apoio ao jornalismo no mundo. Movimentos semelhantes também aconteceram com as principais redes socais.

No caso atual, há algumas diferenças significativas. Pela natureza da inteligência artificial generativa, ela sempre cria textos inéditos, a cada pedido dos usuários. Não há remuneração, referência e sequer um link para as fontes que foram usadas para o sistema escrever aquilo. Consequentemente não há nenhum ganho para os autores.

“Certamente as inteligências artificiais não produziriam o conteúdo que elas são capazes sem serem alimentadas com o conteúdo criado por humanos, que não autorizaram isso e que não estão sendo remunerados por isso”, explica Marcelo Cárgano, advogado de Direito Digital e de Proteção de Dados do Abe Advogados. “A grande questão, no final, é essa!”

No dia 6, 26 organizações do mercado editorial, inclusive a brasileira ANJ (Associação Nacional de Jornais), publicaram o documento “Princípios Globais para a Inteligência Artificial”. Ele traz regras que consideram essenciais para a prática do jornalismo frente ao avanço da inteligência artificial, cobrando o desenvolvimento ético da tecnologia e o respeito às propriedades intelectuais dos veículos.

Outra fonte de informação ameaçada pela inteligência artificial é a enciclopédia digital Wikipedia. Pela natureza mais perene de seus milhões de verbetes, as pessoas poderiam fazer perguntas a plataformas de IA ao invés de consultar suas páginas, o que já vem preocupando seus editores. Suprema ironia, uma das maiores fontes para o ChatGPT é a própria Wikipedia.

 

Atualidade e ética

Além da questão da falta de remuneração pelo uso de conteúdos alheios, há ainda o temor de que as plataformas de inteligência artificial acabem substituindo a Wikipedia e o próprio jornalismo.

Esse questionamento surgiu, na quarta passada, em uma mesa de debates da qual participei na Semana da Imprensa, promovida pelo jornal Joca, na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). O evento explica o jornalismo para crianças e adolescentes, o público do veículo.

Os participantes foram unânimes em negar essa possibilidade. O primeiro motivo é que esses sistemas, a despeito de seus melhores esforços, são imprecisos, cometendo muitos erros pela falta de uma verificação humana. Outro problema é que suas bases estão sempre desatualizadas (o ChatGPT só conhece fatos até setembro de 2021). Por fim, mas não menos importante, essas ferramentas não possuem qualquer iniciativa, ética ou transparência, essenciais a qualquer produto informativo.

“A função dos veículos de comunicação é particularmente importante para a democracia”, explica Cárgano, fazendo referência ao papel do jornalismo de promover debates críticos para a sociedade. “Mas eles também são empresas e têm que gerar lucro para sua própria viabilidade econômica”, acrescenta.

Toda essa confusão deriva do impacto que essa tecnologia já apresenta sobre pessoas e empresas. Ele é enorme, mas ainda pouco compreendido. Enquanto isso, todos buscam caminhos para aproveitar seus incríveis recursos, sem cair em possíveis armadilhas que podem surgir dela.

A decisão de impedir as plataformas de inteligência artificial de aprender com a sua produção pode ser ironicamente um “tiro no pé” do jornalismo. Se elas forem entregues a fontes de baixa qualidade, podem se tornar poderosas ferramentas de fake news, que fustigam os jornalistas e a própria imprensa como pilar que é de uma sociedade desenvolvida.

É preciso uma conscientização dos diferentes atores nesse processo. Do lado dos usuários, eles devem entender que a IA não é uma ferramenta que substitui o jornalismo ou mesmo um buscador, pois ela não garante a verdade no que produz. As empresas de inteligência artificial devem, por sua vez, melhorar ainda mais sua tecnologia, para corrigir as imperfeições existentes, e cuidar para não canibalizar suas próprias fontes, o que poderia, a médio prazo, inviabilizar seu próprio negócio.

As empresas de comunicação têm um papel fundamental na solução desse imbróglio. Obviamente elas precisam defender seus interesses comerciais, mas sem que isso crie riscos ainda inexistentes para o próprio negócio. Devem buscar uma compensação justa das plataformas de IA.

Vivemos em um mundo em que a verdade perde força diante de narrativas distorcidas por diferentes grupos de poder. Aqueles que a buscam deve se unir e somar as novas tecnologias às suas metodologias editoriais consagradas. Se forem bem-sucedidos nisso, todos ganharão!

 

Gabriel García Márquez, Nobel de Literatura e jornalista, que chamou o jornalismo “o melhor ofício do mundo” - Foto: reprodução

Por que a imprensa e a sua liberdade deveriam interessar a você

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Na quarta (7), comemora-se o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa. O tema está “na boca do povo”, junto com a afamada liberdade de expressão. Ainda assim, pouca gente sabe o que é de fato ou para que serve, especialmente porque, de uns anos para cá, parte da população perdeu sua fé no jornalismo. Isso traz um enorme risco à sociedade! Por isso, aproveito a data para tentar explicar por que um bom relacionamento entre a imprensa e seu público é essencial para todos.

Em primeiro lugar, é preciso definir para quem o jornalista trabalha. Não é para nenhum governo, nem empresas, nem mesmo anunciantes: é para seu público! Ficar sem anunciantes pode quebrar um veículo, especialmente quem ainda adota um modelo de negócios “mais tradicional”. Entretanto, ficar sem público é a sentença de morte para qualquer veículo. Ele é a sua razão de existência!

Como pretendo demonstrar, uma imprensa livre, vigorosa e comprometida é condição para uma sociedade vibrante e próspera. Aí mora nosso problema! Parte dessa desconexão atual se deve a alguns profissionais e veículos de comunicação esquecerem para quem trabalham.

Isso me leva a outro tema que se popularizou recentemente em meio a muita desinformação: a busca pela objetividade. Diante da confusão que muitos colegas fazem em torno dela, seus detratores aproveitam para exigir algo que, se fosse possível alcançar daquela forma, seria um grande desserviço à população.


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De uns anos para cá, muitos colegas abraçaram a ideia de que, pela sua própria humanidade, é impossível ser totalmente isento e objetivo. Isso é verdade: todas a pessoas são movidas por paixões e, portanto, sempre teremos nossas preferências em qualquer tema. Mas, no jornalismo, isso não pode servir para afrouxar a busca da verdade incluindo pontos de vista conflitantes com os seus. Ao fazer isso, muitos jornalistas caem em uma militância, seja real ou apenas aparente.

Isso dá munição àqueles que se beneficiam com o enfraquecimento da imprensa, pois vivem da mentira e da desinformação. Eles propagam a ideia de que o jornalismo deveria se limitar a “contar os fatos”, deixando que as pessoas tirassem suas conclusões. Na verdade, só querem a liberdade para distorcer esses fatos brutos para criarem narrativas que lhes sejam favoráveis.

É nessa hora que o bom jornalismo brilha e protege a sociedade! Ele não pode se limitar a “contar os fatos”: ele precisa explicá-los, contextualizá-los, sempre norteado pelo interesse do público e pela “verdade possível”. A combalida objetividade é sua ferramenta! Não aquela utópica, que só existiria em uma máquina, mas a melhor imparcialidade dentro das limitações humanas e de esforços sinceros.

Isso cria uma armadilha. Na ânsia de apresentar todos os lados de um tema com igual peso, jornalistas podem ironicamente criar visões distorcidas da realidade, colocando, lado a lado, completos absurdos e fatos comprovados. A imprensa pode mencionar as bobagens se também explicar, de maneira equilibrada, porque aquilo não deve ser considerado. Não podem cair na arapuca da falsa equivalência!

Quando falha nessa tarefa, permite o florescimento de teorias da conspiração, que podem ser catastróficas para a humanidade. Um exemplo é a de que vacinas seriam ineficazes e até perigosas, que recebeu um espaço muito maior que o devido na imprensa em nome de “ouvir o outro lado”. Por isso, muita gente acredita nessa aberração, e alguns grupos políticos até se beneficiaram disso.

A pandemia de Covid-19 foi uma dolorosa lição. Um enorme contingente desinformado deixou de se vacinar e, por conta disso, morreu. A situação só não foi mais dramática porque, diante da tragédia em curso, a maioria dos jornalistas e veículos assumiu seu papel e informou corretamente a população para que se vacinasse.

 

Fazendo as perguntas certas

Podemos, nesse ponto, aprender algo com o afamado ChatGPT. Afinal, obtemos boas respostas dele se fizermos boas perguntas, e vice-versa.

Bons jornalistas são justamente treinados para fazer as perguntas certas. Por isso, o valor da reportagem precisa ser resgatado. Uma boa entrevista é uma ótima conversa; uma ótima entrevista é uma sedução em busca da verdade. Deve existir uma ânsia genuína de querer aprender algo, com a mente aberta.

Jornalistas são contadores de histórias da vida real. Isso não quer dizer que têm que agradar alguém, pois o mundo nem sempre é bonito. Mas uma verdade feia é melhor que uma mentira agradável! Costumo dizer que, se fossem contos de fadas, jornalistas os contariam como os Irmãos Grimm, e não como as adaptações fáceis da Disney.

Vivemos em um mundo de obviedades e mesmice. Elas nos embrutecem, eliminam nossas individualidades e nos transformam em massa de manobra. O jornalismo protege a sociedade ao romper esse ciclo, contando as “histórias por trás das histórias”. Como escreveu em 1851 o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), “importante não é ver o que ninguém nunca viu, mas sim pensar o que ninguém nunca pensou sobre algo que todo mundo vê.”

Ao contrário do que muitos imaginam, não é um trabalho fácil de um bando “apenas contando o que viu e dando sua opinião”. Em 1996, o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), Nobel de Literatura e também jornalista, disse, sobre o jornalismo, que chamou de “o melhor ofício do mundo”, que “ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver apenas para isso poderia persistir em uma profissão tão incompreensível e voraz, cujo trabalho se encerra a cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não concede um momento de paz até recomeçar com mais ardor que nunca no minuto seguinte.”

Por isso, a liberdade de imprensa é um mecanismo celebrado em todas as democracias. Os jornalistas não são perfeitos (como ninguém é), mas são a última frente de resistência da sociedade contra os diferentes abusos de poder e, por isso, precisam ser protegidos.

Na verdade, precisamos ir além. Mais que “contar fatos”, esse trabalho deve ser encharcado de inteligência e de boa vontade, vibrando com as pessoas que formam o público. Elas, por sua vez, devem apoiar esses profissionais, em uma bem-vinda simbiose.

Fora disso, não há jornalismo: resta apenas a barbárie das redes sociais. E aí salve-se quem puder!