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Quais são (ou deveriam ser) os limites da publicidade invasiva?

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Outdoor interativo e com realidade aumentada no filme “Blade Runner 2049”: a realidade já se aproxima da ficção – Foto: divulgação

Outdoor interativo e com realidade aumentada no filme “Blade Runner 2049”: a realidade já se aproxima da ficção

Os meios digitais provocaram uma incrível revolução na publicidade. É verdade que, para alguns casos, uma grande, cara e indiferenciada campanha de marketing de massa, daquelas que passam no break da novela e do Jornal Nacional, ainda faz sentido. Entretanto a publicidade migra continuamente para peças criadas para cada indivíduo, a partir do cruzamento das pegadas digitais que deixamos cada vez mais por toda parte, conscientemente ou não. Isso é bacana para o anunciante e para o consumidor, pois as peças trazem, em tese, produtos do interesse de ambos. Mas você já sentiu que às vezes esse negócio está invadindo a sua privacidade?

Se sentiu, você não está sozinho! E, de certa forma, é isso mesmo que acontece. O fato é que a privacidade, como nós conhecemos há alguns anos, morreu! Mas isso não é necessariamente algo ruim. A novidade é que isso está extrapolando os limites das redes sociais, dos buscadores e dos smartphones, as principais ferramentas para essa arapongagem digital, sobre as quais muita gente já está ciente. A coleta de informações sem aviso prévio vem acontecendo também, por exemplo, em TVs e até em outdoors!


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Peguemos como exemplo o tradicional telão publicitário em Piccadilly Circus. Essa verdadeira atração turística de Londres, lançada em sua primeira versão em 1908, foi reinaugurada na semana passada (como pode ser visto na reportagem no vídeo acima).  Ele agora funciona com uma impressionante tela Ultra HD de 790 metros quadrados, que exibe campanhas de diferentes marcas. O telão ainda oferece WiFi grátis para a região. Mas a grande novidade são câmeras escondidas na estrutura, que continuamente capturam as imagens das pessoas e dos carros que passam a sua frente, assim como as condições climáticas.

Essas imagens são usadas para personalizar as peças exibidas na tela em tempo real. Por exemplo, se um tradicional ônibus londrino de dois andares vermelho passa por ali, todas as peças podem adotar esse tom. Se ele for seguindo por um carro amarelo, as peças passam a ser amarelas. Divertido, né?

As peças também refletem as pessoas que estiverem ali na hora! O sistema continuamente verifica o gênero e a faixa etária dos pedestres. Mais que isso, tenta identificar a emoção dos indivíduos fazendo uma análise de suas expressões. Tudo isso para que a publicidade se adapte ao público.

A Landsec, empresa responsável pelo sistema, afirma que as informações não são armazenadas e nem cruzadas com outros bancos de dados para identificar as pessoas ali. Mas em uma cidade conhecida por ter a maior quantidade de câmeras em ambientes públicos do mundo, usadas, por exemplo, pela polícia para procurar automaticamente suspeitos a partir de algoritmos de reconhecimento facial, a única coisa que a impede de fazer isso é o respeito a questões éticas.

Afinal, ao contrário de redes sociais e smartphones, em que as pessoas ainda precisam aceitar “termos de uso” desses produtos, com os quais autorizam (quase sempre sem ler) o uso de suas informações pessoais para fins comerciais, isso não acontece com o telão.

Para andar na rua, ninguém assina termo algum, certo?

 

“Mi casa, tu casa”

Ninguém assina tampouco termo algum para assistir televisão. Mas as nossas smart TVs também podem estar nos espionando.

Não se enganem: as TVs atuais que compramos para nossas casas são poderosos computadores conectados permanentemente à Internet. E, ao contrário do que parecem, elas nunca estão totalmente desligadas. Tanto que muitos modelos podem ser ligados a partir de comandos de voz. Em outras palavras, mesmo com suas telas apagadas, as TVs com microfones estão nos ouvindo o tempo todo. E as que têm câmeras também podem estar nos vendo.

Acontece que, ao contrário do que é feito em smartphones e especialmente em computadores, não tomamos providências de segurança com nossas TVs. Ou alguém instala antivírus ou firewalls nelas? Os fabricantes tampouco parecem se preocupar muito com isso, pois as informações capturadas pela TV sequer são criptografadas antes de serem transmitidas.

Nada impede que um hacker invada a nossa TV e acione esses recursos para coletar informações pessoais. Muito mais provável é o próprio fabricante coletar informações dos usuários para decisões comerciais. E isso não acontece só em casa.

Por exemplo, as TVs expostas no varejo podem tentar identificar, a partir de sua câmera, o gênero e a faixa etária das pessoas que ficam diante de cada tela. Ou seja, enquanto as pessoas estão analisando a qualidade da imagem do modelo, a TV está analisando a pessoa, tentando identificar que tipo de público é atraído por cada modelo em cada loja específica. Essa informação é muito valiosa para definir o mix ideal de produtos para cada ponto do varejo, e até mesmo o volume de produção nas fábricas.

Portanto, antes de fazer na frente da TV algo que possa se arrepender depois, pense duas vezes: ela pode estar vendo tudinho!

 

O que nos resta?

Não estou pintando aqui nenhum futuro (ou presente) apocalíptico. Quem me conhece sabe que eu sou um entusiasta da tecnologia e do uso criativo de informações pessoais para criar produtos e ofertas que sejam benéficas para todos, especialmente para o dono dessas informações, o consumidor.

Já fui executivo de várias multinacionais que coletam informações de seus consumidores das mais diferentes formas. E sempre notei um uso ético delas.

Aliás, ética é uma palavra que ganha importância a cada dia que passa. Justamente porque as empresas têm, cada vez mais, recursos para coletar tais informações, e tirar conclusões impressionantes sobre cada um de nós, graças a algoritmos mais e mais sofisticados e capacidade de processamento gigantescas e crescentes.

Logo, a tentação para cruzar o limite do razoável é imenso! Até onde podem ir? Até onde disseram que iriam quando iniciaram o relacionamento com cada um de nós. E que tenhamos explicitamente concordado (mesmo não lendo os termos).

Sendo bem sincero, quem tem tanto poder nas mãos só não avança o sinal se não quiser. E se sua ética (e seu “compliance”) não permitir (e for obedecida). Mas honestamente não precisam disso! Os benefícios para as empresas e para o consumidor já serão incríveis fazendo apenas um uso ético do que já têm.

Quanto a cada um de nós, claro que não vamos deixar de usar nenhum desses produtos. Não dá para ser feliz tomado eternamente pela paranoia, e a vida seria praticamente inviável no mundo atual sem todos esses serviços digitais. Mas precisamos, pelo menos, ser conscientes do que estamos entregando e principalmente a quem.

Tem muito picareta por aí.


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Quer saber como a Internet nasceu no Brasil? Pergunte a quem estava lá (e o que isso pode lhe ensinar)!

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O personagem Dino da Silva Sauro, de “A Família Dinossauro”: quem chega primeiro pode ter uma visão privilegiada dos fatos – Foto: divulgação

O personagem Dino da Silva Sauro, de “A Família Dinossauro”: quem chega primeiro pode ter uma visão privilegiada dos fatos

Esse é o depoimento de um dinossauro da Internet. Sim, eu estava lá quando o acesso à Grande Rede foi liberado à população em geral. Entretanto, apesar de 1994 parecer tão distante quanto o período Jurássico, algumas coisas que aprendi desbravando aquela atmosfera primitiva podem ser incrivelmente úteis a qualquer negócio hoje, inclusive o seu, em temas como inovação e gestão de negócios.

A primeira grande lição é acreditar e seguir seus instintos, mesmo quando a manada inteira diz não. E aprendi isso graças a uma certa impetuosidade minha. A Internet foi liberada em caráter experimental ao público brasileiro em novembro de 1994. Na época, eu era repórter da Folha de S.Paulo, meu primeiro emprego. Em janeiro de 1995, quem escrevia sobre Internet no jornal era a editoria de Ciência, onde atuava: o assunto estava ainda tão distante do cidadão comum, que nem era ainda domínio do caderno de Informática. Foi quando eu sugeri colocar a Folha na Grande Rede.


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Assista aos dois blocos da minha entrevista ao jornalista Fernando Rípoli, do Cidade Entrevista do SBT de Maringá, que foi ao ar no dia 14 de outubro


Isso só aconteceu alguns meses depois: a FolhaWeb, primeira experiência da Folha na Internet só foi ao ar no dia 9 de julho de 1995, com a página abaixo, cujo código eu editava em Word (!!!):

Primeira home page da Folha de S.Paulo na Internet - Imagem: reprodução

Depois de um mês fazendo a jornada dupla de fechar o jornal impresso e depois a versão online, decidi ficar só com a segunda. Foi quando uma coisa incrível aconteceu: meus colegas, com as melhores intenções, tentaram me demover da ideia. Ouvi de vários que eu estaria enterrando uma carreira brilhante no jornal, que estava decolando, para abraçar um “modismo”, pois “esse negócio de Internet não vai dar em nada!” Felizmente segui adiante, e construí minha carreira em cima do desenvolvimento de produtos digitais.

Temos que aprender a dar crédito a nós mesmos! Quando muita gente a nossa volta, especialmente pessoas que admiramos, diz não, é comum que abandonemos até mesmo nossos sonhos. E isso é um grande erro!

Primeiramente porque os sonhos dão cor e sabor à vida. Se ficarmos o tempo todo apenas “tocando a obra”, fazendo só “o que tem que ser feito porque sim”, vamos nos tornando cinzas. Enterramos a nossa parte mais nobre, capaz de transformar nossas carreiras e os negócios em que estivermos envolvidos em algo incrível, capaz de se destacar da concorrência.

Portanto, como profissional ou empreendedor, não esmoreça quando as pessoas a sua volta não compartilharem de seus sonhos. E, se você é gestor, incentive seu time a olhar além do óbvio.

 

Olhos abertos e orelhas em pé

Muitas vezes, a grande revolução de nossas vidas pode estar bem diante do nosso nariz e não a vemos. Foi exatamente o que aconteceu com a Internet naquela época.

A coisa estava ali, estava acontecendo e o potencial para mudar o mundo era imenso, como de fato mudou! Se você tiver mais que 30 anos, consegue se lembrar da sua vida antes da Internet? Como conversava, se informava, trabalhava, estudava, se divertia, comprava e até paquerava?

O fato é: o mundo mudou completamente desde 1994, e essa mudança se tornou dramática na última década, depois que o iPhone foi lançado, seguido pelos smartphones Android.

Mesmo assim, quase ninguém conseguia enxergar isso. Até mesmo Bill Gates, quando lançou a MSN em 1995, a concebeu como um serviço fechado, pois afirmava que a Internet era “uma moda passageira”.

Talvez por estar online desde 1987, em um sistema fechado (um BBS) da Telebrás chamado Projeto Ciranda, quando vi a Internet (primeiramente como estudante da USP, depois como repórter da Folha), aquilo me deixou louco! Como as outras pessoas não conseguiam enxergar o mesmo que eu?

É normal que, diante das tarefas do cotidiano, com trabalho, escola, família, a rotina diária, entremos em uma espécie de “modo automático”. Não paramos para olhar o que está a nossa volta. Não nos permitimos pensar de maneira pouco convencional. Ficamos na obviedade, porque não há tempo para olharmos tudo o que o mundo nos oferece.

E ele nos oferece muitas coisas o tempo todo!

Por isso, deixo aqui uma sugestão: se a rotina impede você de dar essa parada, coloque isso na sua agenda. Sim, encare esse momento de reflexão como uma tarefa a cumprir regularmente, se necessário for. Não precisa de muito, umas poucas horas por semana. E, se possível, chame as mentes mais inquietas a sua volta para participar. Coisas incríveis podem surgir desse ato simples.

 

Não pare a inovação

Não é exagero dizer que quem desbravou a Internet no Brasil foi a mídia. Nos primeiros anos da Internet comercial, os grandes nomes do mercado eram o UOL –que surgiu da FolhaWeb, propriedade da Folha e da Abril– e o ZAZ –cujo dono era a RBS, e que depois foi vendido à Telefonica para se tornar o Terra.

Um dos motivadores daquelas empresas era dominar a Internet, porque aquilo poderia “acabar com o impresso algum dia” (sim, ouvi isso incontáveis vezes desde aquela época). Mas curiosamente, apesar de essas operações online terem sido pioneiras nesse mercado, muitas das empresas que eram suas proprietárias não foram contaminadas com esse ímpeto de inovação. E hoje pagam um preço alto por essa imobilidade.

Duas lições que se podem tirar disso. A primeira é que a inovação é um caminho sem volta. A outra é que, uma vez que o público tem acesso à inovação, ele não aceita mais os antigos modelos.

As mesmas empresas de mídia que financiaram a popularização da Internet no Brasil, hoje sofrem por insistir em modelos de negócios que não se sustentam mais. Por exemplo, não adianta querer insistir que seus veículos de comunicação sobrevivam com a dobradinha “assinatura mais publicidade”. O público não quer mais isso e, sem audiência, a publicidade foge. Resultado: infelizmente (mas sem surpresa) vários títulos estão quebrando.

Não se pode ter medo de inovar. É claro que nem sempre dará certo, mas a inovação é o melhor caminho para se chegar lá. E, se já está trilhando esse caminho, não faz o menor sentido voltar para trás. Aliás, rejeitar a inovação, especialmente uma que nasceu dentro de casa, pode ter consequências terríveis.

A Kodak que o diga com a fotografia digital!

 

Aprender fazendo de tudo

Naqueles primórdios de FolhaWeb e UOL, tínhamos que fazer literalmente de tudo. Não havia modelos consolidados, não havia concorrência, não havia formação, não havia literatura, nada! Por isso, lidar profundamente com questões editoriais e técnicas era o básico do dia a dia. Mas também tínhamos que pensar quase tudo! Cheguei até mesmo a apagar de madrugada um incêndio na secretaria administrativa da Folha. E digo isso literalmente: incêndio com labaredas, e não apenas as urgências que apareciam na minha mesa.

Em um primeiro momento, isso pode passar uma sensação de desamparo: afinal, você precisa se desdobrar em coisas que vão muito além da sua formação. Não entre nessa onda! Isso é, na verdade, uma tremenda oportunidade para se desenvolver em áreas distintas da sua, além de permitir que se criem vínculos poderosos com outros profissionais. Além disso, permite que se desenvolva uma visão privilegiada do negócio como um todo. Como resultado, você se torna um profissional muito mais completo.

Além disso, o fato de ter participado de tudo isso no começo me permitiu ajudar da construção de alguns dos alicerces de toda essa indústria. Muita coisa que se vê hoje espalhada por sites e aplicativos em todo lugar surgiu daquela efervescência criativa contínua e incansável.

 

O valor da equipe

Naturalmente eu não fiz nada daquilo sozinho. Ainda que fôssemos poucos (e quase sempre incompreendidos), a turma que iniciou a FolhaWeb e o UOL –e alguns anos depois a AOL, onde também trabalhei e ajudei na sua vinda ao Brasil– era composta de um grupo multidisciplinar incrível. As pessoas ali sabiam realmente o que era trabalhar em equipe, pois –talvez até mesmo pelo descrito acima– todos estavam dispostos a oferecer seu melhor não apenas para suas tarefas pessoais, mas também para ajudar seus companheiros no que tinham que fazer.

Sim, aquilo era trabalho, mas não era “apenas trabalho”. Em maior ou menor grau, sabíamos que algo genial estava nascendo ali. Costumo dizer que, já na America Online, o grupo pioneiro de profissionais não ia ao escritório para trabalhar, mas sim para mudar o mundo um pouco a cada dia, todos os dias.

O fato é que nada daquilo teria acontecido se cada um resolvesse fazer apenas o seu. Nunca temos sozinhos todos os recursos necessários para fazer uma grande ideia alçar voos mais altos. Precisamos do outro e do que ele sabe. Temos que estar dispostos a falar e a ouvir, a dar e a receber.

Se não fosse assim, aquele começo da Internet teria sido muito mais difícil. E, quem sabe, aquilo que meus amigos disseram, que não passava de um “modismo”, ganhasse ares mais verdadeiros.

Ainda bem que escolhemos todos o melhor caminho. E você, que caminho quer escolher?


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Por que o LinkedIn é o melhor lugar para construir sua reputação

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Foto: Visual Hunt (Creative Commons)

Este é o meu centésimo artigo no LinkedIn. E foram necessárias apenas cem semanas para chegar a ele! Nesse tempo, pessoas de diferentes perfis me perguntaram inúmeras vezes o que eu ganhava escrevendo de graça nessa rede social (não, o LinkedIn não me paga nada, nem mesmo depois de ter sido eleito Top Voice). E a resposta é: essa é a melhor forma de construir uma boa reputação. Em outras palavras, se você fizer isso da maneira certa (e qualquer um -mesmo- pode fazer isso!), conseguirá demonstrar a uma quantidade imensa de pessoas como você é bom naquilo que faz.

Uma reputação alta é, portanto, a melhor forma de marketing, pois ela mostra seus pontos fortes de forma transparente e sincera. Não se trata de empurrar uma mensagem publicitária goela abaixo do público, esperando que adquiram seu produto. E não pode ser comprada com dinheiro algum, o que a torna ainda mais nobre.

Também cansei de ouvir de pessoas, das mais diversas, um pedido para lhes contar o “segredo” para ter essa reputação, e principalmente para ser Top Voice. Na verdade, querem uma “receita de bolo” para chegar ao topo, e estão dispostas a pagar por isso.

Mas, como disse acima, reputação não se compra: se conquista.

Quando escrevo um artigo, gravo um vídeo, faço um post, eu tenho sempre claro que aquilo impactará muita gente. E tenho que ter a humildade para aceitar que não tenho nenhum controle de como isso acontecerá: cada um receberá aquilo a sua maneira.

Portanto, desde o primeiro artigo que publiquei aqui, sei que isso é uma doação que faço a pessoas que provavelmente jamais conhecerei. O que aumenta ainda mais a responsabilidade: não posso escrever qualquer coisa.

Esse é o começo do caminho.

 

Desejo de contribuir

Devemos sempre produzir sobre o que nós sabemos, é claro: a reputação não será muito boa se fizermos isso com temas que não dominamos. Mas isso é muito diferente de escrever para nós mesmos ou para nossos pares.

A menos que você esteja deliberadamente querendo falar para seus colegas (o que é legítimo), você precisa usar seu conhecimento para contribuir com seu público. Procure algo que seja de interesse da sociedade e em que você possa ajudar. E vá em frente!

A verdade é que, se você quiser construir a sua reputação, pouco importa o que você quer, mas muito importa o que todos querem.

Todos nós temos algo a contribuir, esteja certo disso. Todos! E para cada contribuição que fizermos, a natureza oferecerá alguém que aprenderá conosco. E nos agradecerá por isso.

Como disse o escritor americano Walt Whitman (1819 – 1892):

 

“O que há de bom em tudo isso, ó eu, ó vida?
Resposta.
Que você está aqui – que a vida existe e identifica;
Que a poderosa peça teatral continua, e que você contribuirá com um verso.”
 

Fuja do “lado sombrio”

O LinkedIn é um espaço de troca de boas ideias, e isso o torna tão especial e diferente das outras redes sociais. O seu próprio algoritmo de relevância cuida de nos mostrar não apenas publicações de pessoas com as quais nos relacionamos, mas também conteúdos que buscamos. Portanto, não há lugar melhor para trazer propostas construtivas e, dessa forma, tornar-se conhecido como uma referência na sua área de atuação. Quem faz isso com eficiência e com constância efetivamente constrói uma boa reputação.

Infelizmente tenho notado, já há alguns meses, uma energia negativa invadindo essa rede. Pessoas que se dedicam a apenas criticar tudo e todos, apontar o dedo, desqualificar propostas legítimas apenas por não concordar com o posicionamento, abrir feridas só para meter o dedo depois.

Infelizmente isso também dá audiência, pois, em algumas ocasiões, o “lado sombrio” ressoa nas dores de outras pessoas. E esse é um caminho mais fácil, às vezes até mais sedutor.

Mas vou lhes contar um “segredo”: nada que seja destrutivo é capaz de construir algo bom. Isso parece uma obviedade atroz. Mas então porque vemos cada vez mais essa mancha no LinkedIn?

Não se deixe seduzir por isso! Pessoas com essa pauta podem eventualmente gerar muita espuma na rede, criando polêmicas que movimentam as massas e produzem grande engajamento. Podem até conseguir muitos seguidores. Mas que se pode esperar da qualidade dessa rede?

Podem até me achar inocente, mas eu lhes digo: o bem sempre vence no final! Existem mais pessoas boas que más no mundo. E assuntos construtivos sempre serão os mais buscados no LinkedIn. Use-os para construir a sua boa reputação!

No dia 1 de outubro, há apenas oito dias, cheguei a 400 mil seguidores aqui. E agora estou perto dos 410 mil. Claro que esses números me deixam orgulhoso. Não pela sua enormidade, mas porque eles me indicam que, de alguma forma, devo estar fazendo alguma coisa boa pelas pessoas. E isso é a maior de todas as alegrias. A minha reputação é apenas uma consequência disso.

Como diria Whitman, eu contribuirei com um verso. Sempre. E convido você a vir comigo.


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A inovação não vem da tecnologia: vem das pessoas (e o que você faz sobre isso?)

By | Educação, Tecnologia | No Comments

Imagem: Visual Hunt (Creative Commons)

“Inovação” é uma dessas palavras que está na boca de todo bom profissional e de qualquer empreendedor que se preze. Em tempos em que a concorrência é imensa e o consumidor tem cada vez maior poder, isso verdadeiramente deixou de ser um luxo para se tornar uma questão de sobrevivência. Então eu lhe pergunto: você sabe o que precisa para inovar?

A pergunta é legítima: na prática, vemos poucas empresas inovadoras. Essa escassez se deve a algumas ideias equivocadas, como a de que a inovação depende de grandes investimentos em tecnologia, que não passa de uma ferramenta. Verdade seja dita, uma ferramenta cada vez mais poderosa e acessível, mas ainda só uma ferramenta. O que realmente faz a inovação acontecer são as pessoas.


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Nós nascemos com todas as habilidades necessárias para inovar. Além disso, a tecnologia digital onipresente faz com que hoje quase todo mundo tenha pelo menos uma noção do que pode fazer para usar essa ferramenta criativamente.

Isso ficou muito claro em dois grandes eventos de tecnologia do qual participei nas últimas semanas: o Red Hat Forum e o SAP Forum, do qual fui Mentor de Conteúdo. Apesar de o melhor da tecnologia estar presente em toda parte ali, nada daquilo adiantaria sem a fagulha que nasce em cada um de nós. Tanto que o slogan do Red Hat Forum era “o impacto do indivíduo”. Perguntei a Gilson Magalhães, presidente de Red Hat Brasil, o porquê dessa frase. E ele explicou que a inovação depende de dois ingredientes básicos: a criatividade e a liberdade.

A primeira das duas é o que transforma necessidades em ideias, em produtos! Foi assim que a dificuldade para se conseguir um táxi deu origem ao Uber ou o desejo de compartilhar vídeos com amigos criou o YouTube, por exemplo. Hoje são duas operações multimilionárias, mas surgiram de necessidades muito simples, que todos nós temos, que foram conduzidas criativamente e com liberdade para se tentar. E veja só onde chegaram!

Todos nós temos necessidades não atendidas como essas o tempo todo. Então por que não temos muito mais exemplos assim por aí?

 

Os riscos da zona de conforto

Acontece que as pessoas e, ainda mais, as empresas têm medo da inovação.

Todos nós buscamos a nossa “zona de conforto”, um espaço em que temos a sensação de que dominamos todas as variáveis e onde não somos ameaçados. Nesse lugar, somos os senhores absolutos da situação.

Pena que isso não passe de uma ilusão.

Nunca somos os senhores absolutos do castelo: sempre algo está além do nosso controle, da nossa visão. Por isso, ao contrário de ser uma fortaleza, a “zona de conforto” é uma tremenda vulnerabilidade, pois, quando achamos que estamos “tranquilos”, ficamos cegos ao que está acontecendo a nossa volta. Perdemos a chance de identificar novas tendências e novos concorrentes. Ou pior: identificamos, mas não damos a devida atenção, até que seja tarde demais, e já estejamos sendo chutados para fora do mercado.

Mas o grande problema da “zona de conforto” é que ela inibe a inovação.

Sabe aquele ditado que diz que “em que que está ganhando não se mexe”. Profissionais e empresas que pensam assim estão condenados a desaparecer. Pois vejamos ou não, queiramos ou não, a concorrência sempre está se mexendo. Nosso próximo concorrente pode estar sendo criado nesse exato momento na mesa de um café qualquer. Essa nova empresa, inovadora e disposta a correr riscos, chegará ao mercado com potencial de destronar negócios consolidados há décadas, pelo uso criativo da tecnologia e modelos de negócios ousados.

Não podemos nos dar ao luxo de não correr riscos. Temos que estar prontos para isso o tempo todo, pois o mercado já não comporta quem quer ficar sempre igual. Não se enganem: a inovação chegará mais cedo ou mais tarde.

A questão que fica é: você estará no grupo inovador ou no que foi colocado para fora dos negócios?

 

A delícia de se correr riscos

Sim, temos medo de inovar, de correr riscos. É o nosso instinto de autopreservação gritando em nossos ouvidos, tentando evitar que quebremos a cara. Mas a única maneira de ter essa garantia é não tentando nada.

Oras, mas, se não tentarmos, nunca chegaremos a lugar nenhum. Nunca progrediremos. Nunca atingiremos o sucesso. Nunca conseguiremos sair do lugar medíocre em que a vida tende a colocar aqueles que ficam imobilizados por muito tempo.

Em resumo: nunca inovaremos.

Como disse o presidente da Red Hat Brasil, a inovação depende da criatividade e da liberdade. A primeira delas é mais fácil de entender. Precisamos pensar coisas novas, mas também pensar de um jeito diferente coisas que já existem, como nos exemplos do Uber e do YouTube. Já a liberdade é um conceito ainda mais nobre.

Liberdade não é a porta da gaiola aberta. É ter a garantia de poder ser criativo, sem que possíveis falhas no percurso da inovação sejam punidas. Como as empresas não conseguem garantir isso aos funcionários (mas ainda querem se dizer inovadoras), elas criam os famigerados “departamentos de inovação”. Esse é um jeito bonitinho de colocar a inovação dentro de quatro paredes, deixando-a bem controlada.

Nada mais equivocado!

A inovação não pode ser controlada, não pode ser parametrizada, não pode jamais ser restrita! Todos os funcionários de uma empresa devem ser incentivados a inovar, inclusive naquilo que não faz parte do seu trabalho. Pois a criatividade mais brilhante pode brotar nos lugares mais inesperados, como uma flor que escolhe nascer na rachadura de uma parede de concreto.

Querer restringir isso aos poucos escolhidos do “departamento de inovação” não faz o menor sentido. Da mesma forma, cabe a cada um querer ampliar os seus horizontes e fazer esses movimentos. Isso o tornará um profissional e uma pessoa melhor.

Em tempos de grande desemprego, isso pode ser decisivo.

 

Continue faminto!

Vivemos um momento riquíssimo em que a tecnologia digital está barata e fácil de usar como nunca, inclusive tecnologia de ponta! Felizes aqueles que conseguem aproveitar isso com criatividade e liberdade para criar produtos que podem redefinir o mercado. Precisamos resgatar aquela mente livre com a qual todos nascemos, mas que, com o passar dos anos, vai sendo aprisionada, primeiramente por um sistema educacional tacanho, depois por empresas acovardadas, ambos intolerantes a falhas e contrários à colaboração genuína.

Isso me lembra do histórico discurso de Steve Jobs para a turma de formandos de Stanford em 2005 (que pode ser visto na íntegra abaixo). O fundador da Apple, uma das pessoas mais inovadoras da história, termina sua fala com uma recomendação: “stay hungry, stay foolish’.


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Em uma tradução livre, isso poderia significar algo como “continue faminto, continue inocente”. Jobs não sugeria ser inocente para ser feito de bobo, mas sim para continuar acreditando em suas ideias, mesmo quando todo mundo diz que é ruim ou que simplesmente você não pode querer inovar. E ser faminto no sentido de que nunca saberemos o suficiente: sempre há espaço para aprender mais, para querer mais, para crescermos e sermos ainda melhores.

Portanto, se você é um executivo, não crie “departamentos de inovação” na sua empresa: dê liberdade para que todos os seus funcionários queiram -e sejam- criativos. Não tenha medo de correr riscos, ou você matará seu negócio. E, se você é um profissional de qualquer área, de qualquer nível, mantenha essa chama acesa dentro de você.

Em outras palavras, “continue faminto, continue inocente”.


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Tecnologia em pequenas empresas não é luxo: é sobrevivência (e as grandes que se cuidem!)

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Imagem: reprodução

Existem algumas ideias equivocadas sobre o mundo de tecnologia digital. Talvez a mais comum seja que os investimentos nessa área são um custo para a empresa. Outra é que apenas grandes companhias têm capacidade de investir e também de ter ganhos com isso. As duas vêm de tempos em que era necessário criar grandes estruturas de equipamentos, software e pessoal de TI. Mas isso é passado! A realidade atual é completamente oposta: qualquer empresa, mesmo as pequenas, consegue investir em tecnologia de ponta e tirar grande proveito disso. E tem mais: longe de ser um custo, é uma ferramenta de produtividade crítica!

Não é papo de vendedor. A tecnologia está mais acessível que nunca. Ela permite que jovens empreendedores sonhem e executem modelos de negócios inovadores, que posicionam suas empresas como concorrentes ferrenhos de corporações centenárias. E muitos deles já estão levando a melhor sobre os modelos tradicionais em segmentos como varejo, comunicação, indústria eletrônica, finanças, transporte, hospedagem, educação, saúde, entre tantos outros. Assistimos a empresas-bebês colocando concorrentes-dinossauros para fora do mercado.


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Presenciei isso muito de perto sendo Mentor de Conteúdo do SAP Forum, na terça e na quarta passada. Para se ter uma dimensão desse evento, é o segundo maior da empresa no mundo, perdendo apenas para o Sapphire, que acontece nos EUA. O Forum reuniu mais de 8.000 profissionais, que puderam acompanhar 452 sessões de conteúdo, showcases e workshops. Apesar de tantos números maiúsculos, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a diversidade nos expositores e especialmente no público: muita gente buscando jeitos criativos de usar a tecnologia em seus negócios, mesmo os pequenos.

Tanto é verdade que Cristina Palmaka, presidente da SAP Brasil, destacou o tema na entrevista que me concedeu, transmitida ao vivo do Forum e que pode ser vista acima (10 minutos): “falar de inovação não é mais uma vantagem ou um luxo das grandes companhias.” Para a executiva, muitas pequenas empresas veem a tecnologia como seu diferencial. “Se as empresas não estiverem olhando todo esse arcabouço tecnológico, elas terão um problema sério de existência”, explica.

Isso não é ficção científica: está totalmente integrado ao nosso cotidiano, graças a empresas que foram criadas seguindo o que Palmaka disse. Por exemplo, usou o Uber nos últimos dias? Navegou pelo Facebook? Fez uma busca no Google? Comprou no Mercado Livre? Hospedou-se pelo Airnnb? Assistiu a algo no Netflix? Pagou pelo Nubank? Todas essas empresas hoje são colossais, mas surgiram de usos criativos da tecnologia para atender a necessidades ou ideias geniais de seus criadores, às vezes com investimentos mínimos. Se tivessem tentado fazer as coisas do jeito “tradicional”, sem aproveitar a tecnologia que tinham a sua disposição, provavelmente nunca teriam progredido.

Mas então é só sair usando a tecnologia digital para se dar bem?

 

Não deixe a zona de conforto matar você

Claro que a tecnologia digital por si só não resolve nada! Se fosse assim, teríamos muito mais empresas geniais por aí. Só que isso não acontece.

Tudo porque ela é apenas uma ferramenta. Um martelo –que também é tecnologia– pode ser usado para bater pregos ou quebrar pedras. Mas, na mão de um artista, serve para esculpir mármore e criar uma obre de arte.

O grande desafio, portanto, está na cabeça do empreendedor. “As resistências internas são culturais”, diz a presidente da SAP. E essa turma que prefere ficar na sua zona de conforto, mesmo sabendo que ela está com os dias contados, normalmente credita sua inércia a supostos altos custos e à dificuldade de se adotar novas tecnologias.

Nada mais equivocado! Elas estão muita mais baratas, graças a inovações como a “computação na nuvem”, que dispensa pesados investimentos em aquisição e manutenção de equipamentos. Do lado do software, a compra de caras licenças vem sendo substituída pelo conceito de “software as a service”, ou seja, agora se aluga o sistema, ao invés de comprá-lo. Até mesmo o uso e implantação foi simplificado. Empresas como a própria SAP e seus concorrentes ajudam nessa tarefa, agilizando todo o processo.

“Talvez, para começar pequeno, controlar em uma planilha está ok”, sugere Palmaka. “Mas, a partir do momento em que você sai da centralização das informações em pessoas e começa a crescer, você precisa ter a garantia de que os sistemas vão te dar essa robustez”, afirma.

Mas então o que escolher nesse vasto cardápio tecnológico?

 

Use tudo –e apenas– o que você precisa

Não é porque nova tecnologia está disponível, que temos que adotá-la, seja ela nova ou já estabelecida. O sucesso desses investimentos passa também por conhecer todas as opções e escolher tudo –e apenas– aquilo que pode agregar valor ao nosso negócio.

“Empresas diferentes vão ter ideias diferentes para avançar seus negócios e para inovar”, explica Luis Cesar Verdi, Chief Customer Officer da SAP na América Latina, e responsável na região pelo SAP Leonardo, a estrela desse Forum. Verdi também me concedeu uma entrevista ao vivo no evento, que pode ser vista logo abaixo:


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“Inovação significa fazer coisas diferentes agregando valor ao negócio, agregando valor ao cliente”, explica Verdi. “Pequenas empresas também fazem isso; médias também.”

O próprio Leonardo não pode ser caracterizado como um produto convencional. Ele é um conjunto de tecnologias –big data, machine learning, Internet das coisas, blockchain, sistemas analíticos– que funcionam de maneira integrada, mas que podem ser contratadas individualmente, de acordo com as necessidades de cada cliente.

“O cliente não compra, ele assina esses serviços”, diz o executivo. “E ele vai contratar na medida de sua necessidade: empresas pequenas vão contratar menos; empresas maiores vão contratar mais.”

É interessante notar que a SAP ou qualquer outra empresa não produz toda a tecnologia necessária para qualquer cliente. Por exemplo, os equipamentos necessários para o uso do módulo de Internet das coisas do Leonardo necessariamente vêm de outros fabricantes. E isso é uma das belezas dessa nova forma de investir em tecnologia digital: as empresas, qualquer que seja seu porte, não precisam mais ficar atreladas a um único fornecedor. É possível combinar as soluções mais adequadas para cada necessidade.

“O que chegou é justamente a necessidade de inovar e aproveitar as novas tecnologias para criar novas formas de se comunicar com o cliente, novas formas de agregação de valor, desintermediação e comunicação direta com os consumidores”, explica Verdi.

Você pode estar dizendo para si agora: “ah, mas isso não é para mim. Eu sou pequeno demais para qualquer uma dessas coisas!”

É mesmo? Você é menor que os vendedores ambulantes da areia da praia? Pois muitos deles já carregam terminais 4G para aceitar cartões. E assim não perdem mais vendas porque o cliente está sem dinheiro vivo.

E então, qual será a sua postura com relação a investimentos em tecnologia digital?


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Eduardo Martins supostamente posa ao lado de combatentes na Somália: só que a foto é uma montagem sobre uma foto e identidade roubadas - foto: reprodução

Eduardo Martins supostamente posa ao lado de combatentes na Somália: só que a foto é uma montagem sobre uma foto e identidade roubadas

Eduardo Martins suicidou-se. Virtualmente. Na semana passada, o destemido fotógrafo paulistano, surfista bonitão, correspondente de guerra da ONU, apagou todas as suas contas e sumiu do mapa. Mas não antes de vender muitas fotos a veículos de comunicação de grande renome, como The Wall Street Journal e BBC, derreter corações de muitas mulheres e angariar mais de 130 mil seguidores no Instagram. Mas, com tanto sucesso, por que ele decidiu desaparecer subitamente?

Acontece que o talentoso fotógrafo de 32 anos nunca existiu. Era um estelionatário aplicando um sofisticado golpe que, em outras variações, pode enganar qualquer um na Internet. Depois de quase três anos, acabou sendo desmascarado (mas não pego). Diante disso, é natural se perguntar: como isso é possível e como se proteger?

O suposto fotógrafo era um “fake”, um personagem que só existia na Internet. As fotos que ele vendia eram roubadas de outros fotógrafos e depois “maquiadas” no Photoshop, para que a tramoia não fosse descoberta. Nem a “sua” própria imagem, que aparece em algumas fotos, é dele mesmo: na verdade, são do surfista inglês Max Hepworth-Povey, que só descobriu recentemente que a imagem do seu corpo havia sido usurpada.

“Fakes” surgiram como uma maneira de personificar outras pessoas no mundo digital. Às vezes, não passam de brincadeiras ou atividades sem maiores consequências. Existem ainda perfis criados para homenagear ídolos.

Mas há cada vez mais casos de golpes associados a essa prática. E existem vários tipos deles. O “case Eduardo Martins” demonstra um alto nível de sofisticação, capaz de ludibriar profissionais tarimbados e até mesmo algoritmos antifraude. Mas a maioria dessa bandidagem usa artifícios bastante simples, valendo-se quase sempre de “engenharia social”. Ou seja, os “cyberestelionatários” se aproveitam de fragilidades, descuidos ou pegadas digitais que todos deixam no meio online, para tornar suas histórias mais críveis, e assim conseguir mais vítimas.

Para entender isso melhor, conversei com Katty Zúñiga, psicóloga especializada em como o ser humano interage com diferentes tecnologias. Ela explica que essas pessoas são normalmente muito inteligentes e sabem muito bem como usar os recursos digitais para selecionar suas vítimas e construir histórias incríveis para cada caso.

“Eles descobrem e falam o que a vítima quer ouvir”, explica. As histórias contêm elementos que despertam a empatia dela e atendem a alguns de seus anseios. Além disso, os “fakes” manipulam até mesmo as redes sociais (como se tornar amigo de amigos ou integrar círculos de interesse) para aumentar ainda mais a sua credibilidade. Diante de tanta coisa “combinando”, as vítimas acabam comprando a história sem fazer até mesmo verificações básicas.

Não é para qualquer um, e dá um trabalhão! Mas, se a coisa é bem feita, como no caso acima, isso pode render dinheiro e muito mais.

E ninguém está totalmente imune.

 

“Fakes do mal”

Eduardo Martins era um ponto fora da curva, que enganou profissionais de grandes empresas. Mas a maioria das vítimas é mesmo gente comum. E um filão particularmente apetitoso para eles são mulheres carentes, muitas vezes viúvas.

O padrão da abordagem é muito conhecido. Normalmente o estelionatário se apresenta como um estrangeiro, quase sempre americano ou de algum país árabe, que passa pela dor de uma separação ou é recém-viúvo. Usando uma identidade falsa, envolve a vítima ao longo de vários contatos por e-mail ou comunicadores instantâneos, recheados de atenção, carinho, fotos e uma história rica em detalhes, porém totalmente falsa. Extremamente hábeis, fazem com que elas se apaixonem por eles. E, quando isso acontece, finalmente vem o golpe, que invariavelmente inclui coisas como envio de dinheiro ou compartilhamento de dados bancários ou de crédito para algum “bom motivo” (“quero ir ao Brasil para me casar com você”, “preciso ajudar a minha filha pequena com uma cirurgia” ou outra coisa comovente).

Você pode estar pensando: “eu JAMAIS cairia em algo assim!” Pois saiba que muita gente muito instruída cai! Afinal, todo mundo tem algo que essa turma do mal pode explorar. E, se descobrirem, é exatamente isso que farão.

Mas não são só pessoas que criam “fakes”. Empresas também podem fazer isso.

O Spotify tem sido acusado de criar artistas fictícios para incrementar suas playlists mais populares. As músicas são verdadeiras e inéditas, mas especialistas no ramo não conseguem identificar seus autores em nenhum outro lugar: aparentemente eles existem apenas dentro da própria plataforma de streaming de música.

Se isso se confirmasse, a prática permitiria que a empresa ampliasse a sua oferta musical sem ter que pagar royalties aos donos da música, pois ela mesma seria a proprietária de tudo. Reduzindo suas despesas, diminuiria o tamanho de seu prejuízo, que, no ano passado, foi de 349 milhões de euros. A empresa, que afirma já ter pago mais de US$ 5 bilhões em direitos autorais desde que foi criada em 2006, nega categoricamente que crie “fakes”.

Não estou dizendo que o Spotify esteja cometendo esse crime, mas o mecanismo na suspeita dos especialistas descreve muito bem como é possível ganhar dinheiro com “fakes” de diferentes maneiras. Nesse caso, não seria dinheiro indevidamente entrando, mas indevidamente deixando de sair.

 

“Fakes do bem”

Mas todos os “fakes” são ruins?

É verdade que a maioria desses casos está ligada a atividades criminosas. Mas também existem “fakes” criados com objetivos nobres. É o caso da francesa Louise Delage (foto acima), de 25 anos, que possui 110 mil seguidores no Instagram, cifra que não para de crescer, apesar de ela não postar mais nada há quase um ano.

Praticamente todas as suas fotos possuem um item em comum, além de um estilo de vida “glamourizado”: ela aparece com algum tipo de bebida alcoólica. Depois de 149 postagens, um vídeo foi publicado explicando que Louise nunca existiu: ela foi criada para uma campanha de prevenção ao alcoolismo entre jovens franceses, da organização Addict Aide.

Sim, a causa era nobre. Mas as pessoas também foram enroladas por Louise.

 

Como se proteger?

Há um velho ditado que diz que “na Internet, todos os gatos são pardos”. Então como não ser enganado por um “fake do mal”?

Alguns cuidados simples, que sempre tomamos no “mundo presencial”, podem ajudar. Começando por um outro ditado popular: “quando a esmola é grande, até o santo duvida”.

Zúñiga explica que devemos desconfiar sempre de ofertas muito boas, principalmente quando elas vêm muito perfeitas ou de fontes desconhecidas. Não custa nada dar uma pesquisada usando a própria Internet. Muitos dos “fakes” não resistem a uma rápida “googlada” por mais informações sobre o sujeito ou a oferta.

Além disso, não podemos dar sorte ao azar! Como muitos dos criminosos usam nossas próprias informações para deixar suas histórias mais convincentes, nunca é demais tomarmos cuidado com o que publicamos na Internet. Informações muito pessoais ou sensíveis jamais devem ser expostas publicamente online. E isso é algo bastante crítico, pois as pessoas estão cada vez mais descuidadas com o que publicam em redes sociais.

Outra boa prática é não deixar smartphones e notebooks desbloqueados e sozinhos, especialmente em locais públicos. Esses equipamentos são uma fonte gigantesca de informações úteis aos criminosos. Da mesma forma, nunca se deve usar computadores públicos para realizar tarefas como transações bancárias, compras ou entrar nas redes sociais.

Muitos desses cuidados parecem óbvios –e são mesmo. Mas, mesmo assim, as pessoas continuam escorregando nas mesmas cascas de banana! A vida online não é um lugar em que tudo se pode e onde o que é feito não implica em consequências sérias. Não existe essa história de “vida online” e “vida presencial”: é tudo a única vida que cada um de nós tem.

Se não nos cuidarmos, podemos acabar comprando fotografias roubadas, nos apaixonado por alguém que não existe ou chorando pelo desfalque em nossas contas correntes. Qual será sua postura?


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De algumas semanas para cá, tenho visto pessoas andando pelos corredores do supermercado com o olhar fixo no celular. Lembram até a febre do Pokémon Go, quando, há um ano, multidões de jogadores invadiram as ruas para caçar os monstrinhos virtuais. Mas, dessa vez, não são pokémons: estão procurando ofertas criadas para elas, resultantes de algoritmos que trouxeram a análise de consumo dos usuários para o varejo físico. Sim, em um tempo em que a privacidade zerou no estoque, até as lojas nos rastreiam. Mas, longe de ser motivo de preocupação, essa pode ser uma boa notícia.

O responsável por isso é o Pão de Açúcar, que lançou no dia 29 de junho aplicativos para suas duas bandeiras: Extra e Pão de Açúcar. A ideia é trazer, para o celular dos clientes que fazem parte dos seus programas de fidelidade, ofertas criadas sob medida para cada indivíduo. Se o cliente colocar no carrinho um desses produtos, o desconto acontece automaticamente quando passar pelo caixa.


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Mas o funcionamento do programa vai muito além de simplesmente dar descontos em produtos que o consumidor está acostumado a comprar. Isso seria só uma evolução linear do modelo de descontos convencional, em que varejista e fornecedor abrem mão de parte de suas margens para ganhar no volume.

Na nova proposta, o fabricante ou distribuidor cria ofertas associadas a regras diretamente no sistema. Elas são executadas em cima das informações dos clientes. Por exemplo, é possível pedir ao algoritmo para dar um desconto a clientes que sempre compram produtos de uma dada categoria, mas nunca o da sua marca. Ou então para quem está acostumado a comprar um produto mais popular do fornecedor, na expectativa que passe a adquirir uma versão premium. E até oferecer algo que o Big Data sugira ser de interesse do cliente. É possível definir ainda características demográficas e a quantidade de clientes que devem ser impactados pela promoção.

As ofertas entram no ar imediatamente, pois não dependem de intermediação ou aprovação do Pão de Açúcar. Isso só é possível porque, ao contrário do modelo tradicional, todo o desconto sai do bolso do fornecedor, que pode acompanhar em tempo real a aceitação da sua oferta. E o desconto só é aplicado nos itens que forem efetivamente comercializados. Ou seja, se o fornecedor quiser “promocionar” 50 mil itens de um dado produto, mas apenas 15 mil forem comprados pelo consumidor-final, os outros 35 mil que ficaram no estoque do varejista continuarão com o preço “cheio”.

No final das contas, é um jogo em que todos ganham: o cliente pode ter um desconto apreciável na conta final; o varejista aumenta as suas vendas e o “wallet share” (os consumidores passam a comprar mais nele e menos nos concorrentes), sem prejudicar sua margem; o fornecedor tem acesso a uma base riquíssima para criar ofertas mais assertivas, criando um marketing muito mais eficiente, com um controle refinado dos custos. Vale dizer que o Pão de Açúcar garante que os dados dos consumidores não são repassados aos fornecedores, pois todas as regras são executadas dentro de seu próprio ambiente.

Sabe o que é mais incrível nessa história? Esses dados estão lá “desde sempre”. O programa Pão de Açúcar Mais existe há 17 anos. Mas faltavam duas coisas para que isso acontecer: um poder computacional imenso e a cultura de que nossos dados têm valor e podem ser convertidos em benefícios para nós mesmos.

Agora temos tudo.

 

Dados do consumidor em toda parte

Principal concorrente do francês Casino, controlador do Pão de Açúcar, o Carrefour também trouxe novidades nesse segmento para o Brasil.

Depois de surpreender o mercado brasileiro e encerrar seu e-commerce no final de 2012, o site nacional do gigante francês do varejo foi relançado em julho do ano passado, desenvolvido pela também francesa Keyrus. Agora a empresa começa a venda online de produtos perecíveis, algo que traz desafios adicionais.

O e-commerce do Carrefour também trabalha na análise de comportamento do consumidor, valendo-se dos recursos da plataforma SAP Hybris Marketing Cloud em que foi construído. Conversei com Stephan Samouillhan, vice-presidente de comércio digital na Keyrus, e ele me falou da importância disso para realizar ofertas mais assertivas para cada consumidor. Mais que isso, Samouillhan explicou que o grande desafio do varejo hoje é ter o acesso aos dados do consumidor e dos produtos a toda hora e em todo lugar, para incrementar as vendas.

Em outras palavras, a expectativa é que o vendedor de uma loja física tenha acesso a todo o perfil de compra de alguém que esteja atendendo para que possa fazer as melhores ofertas para aquele cliente. Seria quase como se o vendedor fosse o algoritmo, só que em carne e osso. Pois, com toda essa integração de sistemas, fica cada vez mais difícil aceitar que uma venda seja perdida porque o vendedor não tinha informação sobre o cliente, sobre o produto ou sobre as ofertas que poderiam ser oferecidas para aquela pessoa especificamente.

Foi-se o tempo em que essas decisões precisavam ser autorizadas por um gerente, com base apenas em sua intuição.

 

Produtos que ajudam na venda

As informações sobre o consumo das pessoas podem vir também dos próprios produtos, enquanto são usados! Elia Chatah, especialista em varejo da SAP, me falou sobre a experiência da fabricante de produtos esportivos Under Armour. A empresa desenvolveu um aplicativo capaz de coletar informações de diferentes “wearables” (equipamentos “vestíveis”, como relógios inteligentes) para rastrear padrões de consumo das pessoas, além de seus níveis de atividade física, qualidade de sono, entre outras métricas.

Graças a um sistema desenvolvido pela empresa com a SAP, a fabricante consegue, por exemplo, identificar o momento em que um dado consumidor precisa trocar seu tênis, pois ele já percorreu mais de 650 km com ele, distância em que o calçado já não protege mais o organismo do atleta adequadamente. Dessa forma, o consumidor pode ser informado que está na hora de comprar um novo.

Da mesma forma, o sistema pode identificar alterações no comportamento esportivo de uma dada população, tomando decisões de negócios a partir disso. Por exemplo, se a prática de corrida aumenta muito em uma dada cidade, a Under Armour saberá que precisa aumentar a venda de tênis de corrida para as lojas dessa região, pois mais pessoas procurarão por esse produto.

Como se vê, corremos a passos largos para um mundo em que nossos dados dizem muito sobre nós.

 

E a privacidade?

Diante de tudo isso, a pergunta natural é: como fica a nossa privacidade? Bom, o que posso dizer é: aceita que dói menos.

Não estou dizendo que temos que ser displicentes com nossos dados. Já escrevi aqui sobre a importância de cuidarmos muito bem das nossas informações pessoais, especialmente porque existem um monte de pilantras tentando nos enganar para práticas condenáveis e até criminosas usando nossas informações. Portanto, não podemos dar mole com isso.

Mas isso é diferente de inciativas com as descritas acima e tantas outras que já fazem parte do nosso cotidiano. Ou alguém aqui vai parar de usar o Facebook só porque ele nos conhece mais que nós mesmos, e usa essa informação para vender anúncios assertivos que aparecem no nosso feed de notícias? Ou vamos abandonar o Waze, só porque ele informa ao Google onde nós estamos em tempo real, não apenas para o próprio sistema funcionar, mas também para nos mandar ofertas baseadas em geolocalização?

Claro que não, certo?

O fato é que vivemos em uma época em que temos produtos e ofertas cada vez mais personalizados. Temos acesso a serviços que nos oferecem descontos no supermercado, fugir de congestionamentos, encontrar as informações que precisamos, falar rapidamente com qualquer pessoa, promover nossos serviços, e uma infinidade de outras coisas. Facilidades simplesmente inimagináveis há apenas dez anos, e que parecem nos ser ofertadas de graça.

Só que não existe almoço grátis. Pagamos, sim, por tudo isso. Mas a moeda são as nossas informações. E achamos isso uma troca justa!  Todos esses avanços tecnológicos estão promovendo, portanto, não apenas mudanças culturais maiúsculas, mas redefinindo alguns pilares do próprio capitalismo.

Precisamos apenas ficar atentos se o uso de nossas informações continua dentro daquilo que foi combinado. Se for assim, esse é realmente um jogo em que todos podem ganhar.


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Como matar um jornal –ou seu negócio– com pílulas para emagrecer

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Foto: Petr-Kratochvil / Creative Commons

De uns tempos para cá, ao final de notícias que eu leio na Internet, aparecem sugestões de “conteúdos relacionados” sobre “pílulas que zeram a fome e secam a gordura”. Não importa se a página é sobre política, economia, cultura ou até mesmo os meus próprios artigos publicados no Estadão: as malfadadas fórmulas do emagrecimento estão lá! Como não acredito em coincidências nos meios digitais, comecei a achar que o Estadão, Exame e outros veículos sérios estavam me chamando de gordo. Claro que não era isso! Só que esse comportamento bizarro pode ensinar algo a todos nós: temos que identificar e nos proteger das ameaças escondidas a nossa reputação.

Os responsáveis pelas infames chamadas são as “plataformas de descoberta de conteúdo”, basicamente o Taboola e o Outbrain. Sua proposta é gerar chamadas de conteúdos semelhantes ao da página em que o usuário estiver. Esse conteúdo pode ser do próprio veículo ou de terceiros. No último caso, os veículos que exibem as chamadas são remunerados pela plataforma, como se elas fossem anúncios, de maneira semelhante a programas como o Google AdSense. A diferença é que, ao invés de entregar banners, servem chamadas editoriais.

A ideia dessas plataformas, portanto, é legítima e muito boa: o usuário receberia conteúdo adicional do qual já demonstrou interesse, e os veículos ganhariam dinheiro por essas chamadas. Por isso, o Outbrain e o Taboola cresceram rapidamente, conquistando alguns dos maiores grupos de comunicação do mundo como clientes. Só que, na prática, não é bem isso que anda acontecendo.

O problema é que tais plataformas começaram a entregar todo tipo de porcaria como se fosse conteúdo relevante. Além disso, de relacionados à página atual, essas chamadas não têm nada! Logo, para que tenham chance de ser clicados, começaram a usar títulos e fotos apelativos (os caça-cliques), e a coisa virou um grande mercado persa, onde vale-tudo. Veja abaixo alguns exemplos de títulos de reportagens e artigos, e os “conteúdos sugeridos” associados a cada um:



Como se pode ver, não interessa sobre o que trata a página. O que o usuário recebe é sempre a mesma coisa: links para páginas comerciais apelativas, totalmente em desacordo com a própria linha editorial do veículo.

O Taboola e o Outbrain possuem regras claras sobre o que pode ser veiculado em sua rede. Além disso, possuem equipes editoriais que zelam pela qualidade do material que oferecem. Afinal, as duas empresas afirmam querer melhorar o nível geral da Internet com o seu serviço. Só que claramente algo não está dando certo.

Para piorar a situação, os veículos que distribuem essas chamadas têm, a sua disposição, mecanismos das próprias plataformas para banir conteúdos que considerem inadequados. Pela onipresença e irrelevância das chamadas nos exemplos acima –que já caracterizam um novo tipo de spam– e pelo nível rasteiro de seu conteúdo, todas elas já deveriam ter sido banidas pelos veículos. Mas isso não acontece, pois são justamente essas chamadas as que pagam mais. Logo, bloquear esse conteúdo seria como devolver um gordo cheque enquanto se passa fome.

É aí que a porca torce o rabo!

 

Faça o que mando, mas não faça o que faço

Acontece que os usuários não são otários! Apesar de, em um primeiro momento, parecer que as chamadas levam a conteúdo do próprio veículo, logo fica claro que aquilo é uma verdadeira arapuca. E aí as reclamações dos usuários começam a jorrar!

Uma ótima reputação é crítica para qualquer veículo de comunicação, de qualquer mídia. A credibilidade é a matéria-prima do jornalismo, pois, sem ela, as pessoas não consomem esse produto. E, sem público, não há receita alguma para essas empresas. Portanto, quando um veículo se presta a fazer qualquer coisa para ganhar uns cobres, inclusive publicar conteúdos que atentem contra a sua reputação, desaparece sua razão de existir. É um tiro na cabeça!

Ironicamente, isso acontece em um momento em que os próprios veículos querem assumir um papel de protagonismo na luta contra a chamada “desinformação”, conteúdos propositalmente falsos, mas criados e “plantados” nas redes sociais para que pareçam verdadeiros, para que seus autores atinjam objetivos questionáveis (e até criminosos). As grandes empresas de comunicação têm se posicionado como a solução contra esse conteúdo mentiroso, pois prezariam pela qualidade do que produzem e veiculam.

Mas se isso fosse verdade, como ficam então as suas promoções de pílulas de emagrecimento?

 

Ladrões de reputação no nosso cotidiano

Essas infames chamadas corroem a credibilidade que o veículo de comunicação construiu com muito esforço, alguns ao longo de muitas décadas de trabalho duro. Por evitar isso, importantes veículos internacionais, como Slate e The New Yorker, antes clientes dessas plataformas, deixaram de usar seus serviços.

Acho difícil acreditar que os responsáveis por empresas de comunicação sérias não percebam que trouxeram para dentro de casa um ladrão de reputação –o que torna tudo isso ainda mais inaceitável. Mas, no nosso cotidiano, às vezes cruzamos com obscuros processos, atitudes ou até mesmo produtos que podem minar a reputação de nossas empresas ou de nós mesmos, como profissionais.

Reputação não é algo que pode ser simplesmente comprada. Ela precisa ser continuamente cultivada com boas práticas. Fazendo bem o nosso trabalho, entregando produtos de qualidade, tratando respeitosamente nossos clientes, interagindo com nosso público e com a sociedade construímos a nossa imagem. E isso é fundamental para o nosso sucesso.

Entretanto um bom trabalho no passado não garante que nossa boa reputação continuará intacta no futuro. Esse é um processo contínuo, e precisamos estar atentos a “mancadas”, mesmo as mais obscuras, pois elas acontecem. Isso é absolutamente normal: ninguém acerta o tempo todo. A questão é o que você faz diante do problema. E, em tempos de redes sociais, em que o que fazemos certo aparece bem, mas o que fazemos errado aparece ainda mais, nossa reputação depende de como lidamos com o problema.

Não entrarei no mérito de gestão de grandes crises, o que renderia outro artigo. Eu me refiro aos pequenos roedores que vão comendo nossa reputação continuamente. Podem ser pequenas falhas no nosso produto, atendimento ruim aos clientes, comentários desastrosos em redes sociais, processos questionáveis para aumentar os lucros, entre outros.

A primeira coisa a se fazer é aceitar que esses problemas existem. Se não tivermos essa postura, muitas vezes nem percebemos que eles estão ali, comendo nossos pés. Em seguida, temos que lhes dar a devida importância, pois, se acharmos que eles são só “coisinhas”, sempre deixaremos a sua solução para depois, até que seja tarde demais. O problema deve ser corrigido imediatamente, e o público deve receber uma satisfação o mais rapidamente possível, pois estamos sob constante escrutínio dos nossos clientes e até mesmo da sociedade.

Uma vez identificados esses ladrõezinhos, precisamos lidar com eles, principalmente quando eles foram “convidados” para entrar. Em outras palavras, cuidado com o dinheiro fácil, pois ele sempre cobra depois seu real custo.

Portanto, não venda “pílulas de emagrecimento” no meio de seus verdadeiros produtos ou serviços. As fotos das moças de biquíni podem parecer sedutoras hoje, mas elas não duram para sempre. Quando elas forem embora, você estará sozinho e com sua reputação abalada. E, nessa hora, será muito mais difícil se reerguer.

O seu real valor está naquilo que você faz bem. Confie nisso e invista nas suas fortalezas.


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Não alimente os trolls da Internet

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Trolls comendo no filme “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” (2012) - imagem: reprodução

Trolls comendo no filme “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” (2012)

Desde que me tornei um LinkedIn Top Voice, as pessoas me fazem algumas perguntas recorrentemente. Uma delas é como eu lido com gente com todo tipo de comportamento inadequado nas redes sociais, inclusive no LinkedIn. Afinal, qualquer pessoa pode ser vítima dessas péssimas abordagens, porém, quanto mais exposto estamos, maior o risco de virarmos alvo. A minha resposta é: não alimente os trolls! E todos nós temos que fazer isso, ou corremos sérios riscos.

Para começar, gente chata, grosseira ou até mesmo violenta sempre existiu e sempre existirá. Mas as redes sociais criaram um novo tipo de inconveniente: o “hater”. Para quem não sabe o que é, trata-se de um indivíduo que, como o nome em inglês sugere, destila um ódio exagerado e quase sempre gratuito contra alguém nas redes sociais. Ele não se preocupa em explicar, ele não avisa que está chegando: simplesmente aparece e parte para os insultos, normalmente muito pesados, tentando magoar e até mesmo destruir seu desafeto.


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Não se engane: até quem tem sangue de barata sofre o baque de um ataque desses, especialmente na primeira vez. Eu mesmo já fui vítima desse tipo de troll em algumas ocasiões (felizmente poucas).  E o mais triste é notar que isso aconteceu quando eu havia produzido algum conteúdo que tentava despertar coisas boas nas pessoas.

Só que, por algum motivo, pisei no calo do troll, e ele partiu para a ataque. E esse é um risco que qualquer profissional ou empresa corre, especialmente nas redes sociais. O que fazer diante disso?

Nessas horas, o melhor é entrar em uma caverna! Ou, em outras palavras, não responda na hora! Pois, se fizer isso, provavelmente a sua resposta estará contaminada pelas emoções que o hater plantou no seu coração: você devolverá na mesma moeda.

E é isso que esse troll mais deseja.

 

Desvie da rota de colisão

Quem se dirige a outra pessoa com insultos perde a razão, mesmo quando está apenas reagindo a outra ofensa. Só que o hater normalmente tem pouco ou nada a perder, ao contrário de sua vítima, cuja reputação já está sendo atacada. Portanto nunca, jamais devolva na mesma moeda, por mais que esteja coberto de razão.

Vá dar uma volta para esfriar a cabeça e acalmar o coração. Converse com alguém. Faça algo que gosta. Só então responda. E nunca deixe de responder, ou a última palavra será a do troll.

O que responder é o próximo desafio. Mesmo usando a lógica, não entre em rota de colisão com o agressor, pois os argumentos dele (se é que tem algum) são passionais, irracionais até. Portanto, acolha aquilo da melhor maneira possível, mas explique que vocês têm pontos de vista divergentes sobre o tema. Diga que, mesmo assim, a agressão não é necessária, pois opiniões conflitantes podem coexistir. E então reforce o seu ponto de vista educadamente.

É bem possível que o troll volte à carga. Nesse caso, avalie se vale a pena uma outra rodada de respostas, pois, a essa altura, provavelmente já ficou claro que o diálogo não é possível, pois o outro lado é surdo e fala mal. Então, se diante do que já foi dito, a criatura continua vociferando, deixe-o falando sozinho a partir desse ponto. O importante é que, para seu público –e toda essa discussão normalmente é pública– você já se posicionou adequadamente.

Aliás, disso surge outra dica: nunca apague as ofensas, pois o troll voltará com mais força, acusando-o de censura, e talvez ainda traga seus amigos. Ao invés disso, já que ele armou um pequeno palco para aparecer, suba ali junto com ele para reforçar os seus valores. Aproveite esse infortúnio para expor aquilo em que acredita.

 

Não negocie com terroristas

Mas há outros tipos de trolls nas redes sociais. Um deles atinge principalmente as mulheres: os assediadores.

Eles são resultados da combinação da sociedade machista em que vivemos com uma sensação de impunidade que as redes sociais provocam. Uma sensação completamente equivocada, diga-se de passagem, pois é possível rastrear criminosos usando os próprios recursos da rede.

A grande maioria das mulheres –e alguns homens– já foi vítima desse tipo de agressão ou conhece alguém que foi. Normalmente elas se manifestam na forma de cantadas ostensivas, envio de fotos obscenas ou desqualificação da vítima pelo simples fato de ser mulher (ou homem).

Pode-se tentar usar a mesma tática acima, adotada contra os haters. Mas, nesse caso, talvez o melhor seja usar os recursos das próprias redes sociais para denunciar e bloquear o agressor. Em casos extremos, deve-se acionar a polícia.

Uma amiga me disse recentemente que sofria muitos desses assédios, a ponto de deixar de usar alguns aplicativos. Apesar de compreender a sua dor, recomendei que ela não fizesse isso. Pois, por mais que as agressões sejam constantes., não podemos deixar de usar alguma coisa que gostamos ou que nos ajuda só por causa dos trolls. Seria como ceder às ameaças de um terrorista. Se nos rendemos, eles vencem e farão isso cada vez mais.

Esse tipo de ataque muitas vezes acontece em bando. Não se acanhe: denuncie e bloqueie todos eles. Sempre!

 

Idiotismo digital

Até há alguns anos, esse tipo de agressor tentava tomar alguns cuidados básicos –pelo menos usava nome, foto e conta falsos– na tentativa de proteger sua identidade, pois sabia que o que estava fazendo era errado e que poderia ser responsabilizado por aquilo, até mesmo criminalmente.

Mas é assustador notar que, de uns tempos para cá, muitos trolls não estão adotando nem essas medidas: cometem as suas barbaridades com seus perfis verdadeiros, com nome e sobrenome reais, para quem quiser ver. Até mesmo no LinkedIn, uma rede com um propósito mais sério, onde muita gente está procurando emprego, o indivíduo se sente à vontade para barbarizar e perpetrar todo tipo de ato de ódio, intolerância, machismo e afins.

Como explicar esse idiotismo digital? Pois é evidente que um recrutador jamais contratará alguém que comete esse tipo de coisa, ainda mais com um alcance potencialmente global. E, se já estiver empregado, isso pode lhe custar (como já custou em inúmeros casos no Brasil e no exterior) a demissão, pois a reputação da empresa pode ser comprometida se tiver trolls em seus quadros.

A psicologia pode ajudar a explicar porque as pessoas fazem no meio digital coisas que não fariam presencialmente. Quando estão online, muitas pessoas entram em um estado alterado da consciência, em que acham que podem tudo, pois a tela do computador ou do smartphone as ofereceria algum tipo de proteção mágica que garantiria que o que for feito na “vida online” não respingará na “vida real”. Quase como se estivessem sob efeito de algum tipo de alucinógeno. E, nessa hora, o pior de cada um pode aparecer.

Só que não existe essa história de “vida online” e “vida real”: são apenas duas instâncias da única vida que cada um de nós tem. Portanto, o que se faz de mal em uma se paga na outra.

 

O bem vence o mal

Sim, os trolls estão por aí, sempre prontos a dar o bote e abater suas presas. Devemos estar atentos e tomar as devidas providências, como descrito acima. Mas há algo ainda melhor a se fazer.


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Se as redes sociais podem mostrar o que temos de mais feio, também podem servir como instrumento para realizarmos coisas incríveis e muito construtivas. Como qualquer ferramenta, o que tiramos dela depende do uso que fazemos.

Como disse acima, já fui vítima de diferentes tipos de trolls nas redes sociais. Mas felizmente isso aconteceu poucas vezes, em contraste com uma infinidade de bons sentimentos trocados por mensagens, comentários, conversas telefônicas ou pessoalmente.

E não podia ser diferente disso: apesar de todas as mazelas que vemos todos os dias no mundo, acredito sinceramente que o ser humano tem muito mais bondade que maldade dentro de si. E, se o mal atrai o mal, a recíproca também é verdadeira, e muito mais forte.

Cito um exemplo recente que aconteceu comigo no LinkedIn: no início do mês, fiz uma campanha para que profissionais e empresas de TI ajudassem o Hospital de Câncer de Barretos (veja um exemplo de post criado). Ele foi vítima de um enorme ataque de hackers no dia 27 de junho, que estava atrapalhando o atendimento que presta à população, totalmente gratuito. Poucos dias depois, fiquei sabendo que um grande número de pessoas havia entrado em contato com eles se voluntariando, até mais que o necessário. Além disso, eu pessoalmente fui agraciado com muitas mensagens de agradecimento de pessoas que estavam muito felizes por poder ajudar a instituição.

Aquilo encheu o meu coração de alegria! Que mais eu poderia desejar?

Por isso, estou certo que há muito mais heróis que trolls por aí. É isso que eu vejo até mesmo nas redes sociais.


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Você acha que está seguro contra ataques cibernéticos até ser vítima de um deles

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Imagem: Visual Hunt / Creative Commons

Nos últimos dois meses, o mundo foi vítima de dois ataques cibernéticos em massa, que pararam empresas, instituições e até governos. Nos dois casos, os hackers bloquearam os computadores e pediram resgates para devolver aos usuários o acesso aos seus dados. É o tipo de coisa que vemos no noticiário e achamos que só acontece com os outros. Mas a verdade é que você pode estar vulnerável a algo assim agora mesmo. Você sabe como se proteger disso?

Isso vale para megacorporações, pequenas empresas e até usuários domésticos. É um jogo de gato-e-rato interminável: empresas de segurança tentam fechar portas, enquanto hackers tentam encontrar novas brechas. E a extensão do problema é maior que o imaginado. John Chambers, presidente da Cisco, chegou a dizer em 2014 que existem dois tipos de empresas: as que já foram invadidas e as que ainda não sabem que foram invadidas.

Talvez um dos aspectos mais cruéis desses dois ataques dirigidos a tudo e a todos foi o impacto que tiveram em hospitais no mundo inteiro. Sem acesso a seus computadores, essas instituições foram obrigadas a suspender o atendimento a seus pacientes, até que pelo menos os sistemas essenciais fossem restabelecidos. O prejuízo à saúde pública é evidente, até mesmo colocando em risco a vida de pessoas.

No Brasil, não foi diferente. A principal vítima nessa categoria foi o Hospital de Câncer de Barretos, o mais importante centro de tratamento contra a doença no país. No dia 27, seus computadores foram atacados, o que provocou a suspensão de 3.000 consultas e exames.  Todas as unidades da instituição foram afetadas, inclusive oito filiais no interior paulista e no Mato Grosso do Sul, Bahia, Rondônia e Sergipe.

Além do atendimento gratuito à população, o hospital é um importante centro de pesquisas contra a doença, com parcerias com algumas das mais importantes instituições internacionais do segmento. Felizmente, apesar de o ataque ter prejudicado o atendimento, dados de pacientes e das pesquisas não foram perdidos. A instituição se recusou a pagar o resgate.

Mas por que esses dois ataques foram tão devastadores?

 

As duas principais vulnerabilidades

Invasões de hackers costumam atuar em dois pontos principais: brechas de segurança dos sistemas e os próprios usuários. E os últimos são os mais vulneráveis.

O motivo é simples. “Buracos” em sistemas (normalmente no sistema operacional, como o Windows) sempre existiram e continuarão existindo. E isso acontece porque os hackers muitas vezes se aproveitam de funcionalidades legítimas do software para suas práticas nefastas. Do outro lado, fabricantes dos programas, empresas de segurança digital e outras instituições estão continuamente tentando identificar essas brechas, corrigindo-as.

Portanto, o simples fato de manter o sistema operacional e o programa antivírus atualizados é crítico! É uma garantia total contra os ataques? Não! Mas resolve a maior parte desse problema, do ponto de vista técnico. Os dois ataques acima, por exemplo, só afetaram computadores rodando Windows que não estavam com as atualizações em dia. Parece simples: afinal, o Windows pode fazer isso automaticamente. Mas tem muita máquina por aí com esse recurso desabilitado.

Portanto, a primeira dica é sempre deixar que o sistema operacional e os programas de segurança façam todas as atualizações necessárias de maneira automática. Parece óbvio. Mas então por que tem tanta gente que não faz isso?

Aí justamente entra o segundo fator de risco.

 

Não saia clicando em qualquer coisa!

A verdade é que o elo mais fraco na segurança acaba sendo o usuário. Por desconhecimento técnico, desleixo e principalmente ingenuidade, é presa fácil da bandidagem cibernética.

Quer ver como é verdade? Vá na sua linha do tempo do Facebook e veja quantos de seus amigos participaram da brincadeira “com qual celebridade você se parece”, que faz uma combinação (para lá de questionável) da foto de perfil do usuário com uma foto de uma celebridade. Talvez você mesmo tenha feito isso.

Acontece que, para participar disso, o usuário tem que autorizar o Facebook a compartilhar com o desenvolvedor do aplicativo os seguintes dados pessoais: nome, foto do perfil, idade, sexo, idioma, país, lista de amigos, e-mail e fotos. Oras, para que a empresa precisa de tudo isso só para fazer uma brincadeira com a foto do perfil?

A resposta: não precisa! Mas ela depois usa essa informação para fazer promoção de produtos seus e de terceiros para o próprio usuário ou -o que é muito pior- em seu nome. Sem falar no risco de outras coisas muito mais graves, como distribuição de vírus e ataques digitais!

Você também já deve ter visto publicações de seus amigos vendendo produtos ou espalhando conteúdos esquisitíssimos pelo Facebook, sem que eles jamais tenham publicado tal coisa. Isso acontece porque eles compartilharam dados e concederam poderes de publicação a essas empresas mal-intencionadas. E cancelar os privilégios do aplicativo no Facebook não resolve totalmente o problema, pois as empresas continuam com os dados dos usuários.

A verdade é que raramente alguém lê a lista de dados e recursos que vai compartilhar com o desenvolvedor do aplicativo que está prestes a instalar no Facebook ou em seu smartphone. Clica logo nos botões “próximo” e “concordo”, sem medir as consequências.

“Ah, mas então não posso participar dessas brincadeiras no Facebook?” Desculpe ser o chato da história, mas não, não pode. Não posso afirmar que todos esses “brinquedinhos” no Facebook são de caras maus, mas, na dúvida, fique fora de todos eles! Ou pelo menos, se o desejo de participar for incontrolável, pelo menos leia a lista do que compartilhará com o desenvolvedor antes de aceitar.

E daí é por sua conta e risco.

 

Outros cuidados

Antes do Facebook, a maneira mais comum para espalhar pragas virtuais eram e-mails ou atualizações de programas que carregam os vírus para o sistema, os chamados “cavalos de Troia”. Na verdade, esse método continua existindo e os mega-ataques dos últimos meses também usaram esse recurso. De novo, a inocência do usuário foi essencial para o sucesso da bandidagem.

Portanto, outra dica é nunca clicar em mensagens suspeitas, como as cheias de erros de português ou com um visual tosco. No Brasil, alguns dos temas preferidos dos criminosos são simular comunicações de bancos ou cobranças de dívidas. Vale lembrar que bancos não costumam mandar links em suas comunicações, sejam e-mails ou SMS, justamente por problemas de segurança.

Outra dica óbvia, porém muito ignorada, se refere às senhas. Você já deve ter visto essas recomendações dezenas de vezes, mas nunca é demais repetir. As senhas devem ser difíceis de adivinhar, portanto nada de usar nomes de familiares, datas de nascimento, placas de carro ou coisas assim. Elas devem ser longas (pelo menos oito caracteres) e conter letras maiúsculas e minúsculas, números e símbolos. Use uma senha diferente para cada sistema que você usa: se não der para decorar tudo, guarde-as impressas em um lugar seguro. E, por fim, troque as senhas regularmente.

Tudo isso parece exagerado e muito chato? Acredite: não é! Quando se acostuma a realizar esses procedimentos, eles se tornam corriqueiros. E isso pode fazer toda a diferença na hora de proteger seus arquivos e até mesmo a sua conta bancária. Vai continuar dando mole?

 

Como você pode ajudar

No começo desse artigo, citei o ataque digital ao Hospital de Câncer de Barretos. Para quem não conhece, todo o atendimento da instituição é gratuito, e ainda assim é considerado o melhor centro do país no combate a essa doença terrível. Fazem 830 mil atendimentos por ano a pacientes de cerca de 2 000 municípios de todas as regiões do Brasil, além de pesquisas de ponta. Parte disso tudo é custeado pelo SUS, enquanto o resto vem de campanhas e doações.

Apesar de possuir uma equipe de TI dedicada e competente, acabaram sendo vítimas dos criminosos digitais. Nessa guerra, todo cuidado é pouco e toda ajuda é bem-vinda. Portanto, se você for profissional de TI ou responsável por uma empresa da área de segurança digital, e puder ajudar a instituição na preservação de seu importante trabalho, entre em contato com eles. O mesmo vale para colaborações na atualização de seus computadores (são milhares deles nas unidades espalhadas pelo país).

Quem quiser ajudar pode entrar em contato com os representantes da instituição pelos e-mails fescobar@portavoz.com.br e imprensa@hcancerbarretos.com.br . A causa é mais que nobre!


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O inabalável doutor McCoy (à esquerda) e suas parafernália tecnológicas de diagnóstico na série original de Star Trek - Imagem: reprodução

O inabalável doutor McCoy (à esquerda) e suas parafernália tecnológicas de diagnóstico na série original de Star Trek

De todas as incríveis tecnologias imaginadas por Star Trek, algumas das que mais me fascinavam eram as ligadas à medicina. Com uma geringonça qualquer, o inabalável doutor McCoy era capaz dos diagnósticos mais precisos e das curas mais efetivas. Mas a nossa realidade pode estar, de alguma forma, superando a ficção. Hoje o médico pode acompanhar nossa saúde a qualquer hora, mesmo que estejamos do outro lado do mundo! E mais: essa conexão do nosso corpo à Internet pode até mesmo antecipar doenças e permitir que tomemos menos remédios, sem qualquer prejuízo.

Longe de ser ficção, isso já acontece graças a combinação de três tecnologias distintas: a rede de comunicação móvel quase onipresente, “wearables” (dispositivos vestíveis, como relógios smart) cada vez mais inovadores e poderosos softwares capazes de analisar gigantescas quantidades de dados a uma incrível velocidade.


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O que me chamou a atenção para esse assunto foi uma solução que conheci há alguns dias. Desenvolvida na Alemanha por uma parceria da SAP com a Roche, o produto monitora continuamente informações médicas, como o nível de glicose, de pessoas diabéticas ou com risco de desenvolver a doença. Esses indicadores são coletados por um “wearable” e transmitidos ao sistema central pelo smartphone do paciente. Do outro lado, o software da SAP analisa continuamente toda a informação de ponto de vista estatístico e individual.

De um lado, isso oferece às equipes médicas análises qualitativas sobre a doença e sobre as populações atendidas, permitindo a criação de programas de saúde mais assertivos. Mas talvez o ganho mais incrível seja o sistema identificar alterações nos indicadores médicos de cada indivíduo para que seus médicos sejam avisados a tempo de agir contra um eventual problema, tomando as devidas ações. Com isso, o controle da doença fica muito mais eficiente entre os diabéticos e pode até mesmo evitar seu surgimento em quem ainda não a desenvolveu.

A capacidade de realizar um atendimento médico totalmente individualizado é o sonho de qualquer médico. Afinal, cada pessoa é um organismo único, com características e reações próprias. Mas até então era impossível fazer esse tipo de acompanhamento, seja pela dificuldade das coletas contínuas, seja pela incapacidade de processar tudo isso de uma maneira efetiva.

A medicina está ficando cada vez menos reativa e mais preventiva.

 

Um tratamento para chamar de meu

Essa combinação de monitoramento contínuo de indicadores médicos dos indivíduos, análise genética de pacientes e de populações inteiras, e extração de informações do “big data” está sendo chamado de “medicina personalizada” ou “medicina de precisão”. Os seus objetivos são pessoas mais saudáveis, e tratamentos mais eficientes e, ao mesmo tempo, baratos.

Um excelente exemplo é a dosagem de remédios. Cada indivíduo reage diferentemente a cada droga que lhe é ministrada. Entretanto, os médicos tradicionalmente não têm essas informações. Não lhes resta, portanto, outra alternativa a não ser prescrever, para uma dada doença, os mesmos remédios e as mesmas dosagens para todos seus pacientes.

Com a medicina personalizada, o profissional saberá como o organismo de cada paciente reage a cada remédio e a possíveis combinações deles. Dessa forma, poderá prescrever, com segurança, apenas os que sejam eficientes para aquele indivíduo e nas dosagens mínimas, reduzindo efeitos colaterais sem prejudicar a eficiência do tratamento. No caso de não haver um histórico daquela pessoa, o sistema pode fazer sugestões cruzando uma grande quantidade de informações de outros pacientes para encontrar padrões confiáveis para uma administração adequada.

Na mesma linha, é possível ainda traçar como populações inteiras reagem a cada tratamento, para a criação de políticas de saúde e remédios mais eficientes. Para se ter uma ideia do tamanho disso tudo, um estudo do Memorial Sloan Kettering Cancer Center calculou que US$ 3 bilhões em remédios contra câncer são literalmente jogados fora todos os anos apenas nos EUA! Tudo porque, como os fabricantes não produzem dosagens para as necessidades de cada paciente, criam ampolas para o “pior caso”. Para todos os demais, o que sobra da medicação vai direto para o lixo.

Em outra iniciativa da SAP, dessa vez com o Hospital Bundang da Universidade Nacional de Seul (Coreia do Sul), seu software foi usado justamente para coletar e analisar 320 indicadores médicos seguindo a cartilha da medicina personalizada. Como resultado, o uso de antibióticos foi reduzido dramaticamente. No pré-operatório, despencaram as dosagens e o tempo de uso (de seis para um dia). Dessa forma, o tempo de internação acabou sendo reduzido, pois caíram também os riscos associados à resistência aos antibióticos.

Mas quem tem acesso a toda essa informação?

 

Privacidade e segurança

A primeira empresa que botou a boca no trombone pela capacidade de seus produtos coletarem dados da saúde de seus usuários e transmiti-los a médicos foi a Apple, com o Apple Watch e o iPhone. Mas logo surgiu uma pergunta bastante pertinente: quem tem acesso a toda essa informação médica coletada dos usuários? Afinal, se isso tem um inestimável valor para as equipes médicas, também pode virar ouro na mão de empresas, inclusive em aspectos para lá de questionáveis.

Imagine, por exemplo, que você vai contatar um plano de saúde para sua família. Se tiver acesso a informações detalhadas do perfil médico de cada integrante (e isso inclui a chance de desenvolver doenças crônicas em curto prazo), a empresa pode majorar seus preços ou simplesmente negar o cliente.

Isso é uma questão muito séria, que pode colocar em xeque a credibilidade de iniciativas muito bem-vindas. Por isso, perguntei a Margareth Amorim, engenheira responsável pelas soluções de saúde da SAP no Brasil, sobre o acesso aos dados dos pacientes. E ela foi categórica: “o acesso às informações é limitado ao médico do paciente, ao próprio paciente e ao administrador do programa de monitoração de crônicos.”

Não podemos pensar mesmo em nada diferente disso.

 

O que vem por aí

Várias outras empresas estão de olho no mercado da tecnologia digital combinada à saúde. Os “wearables” estão entre as principais estrelas. E não podia ser diferente: parece que uma coisa nasceu para se ligar à outra.

Na CES (Consumer Electronics Show) desse ano, que aconteceu em janeiro em Las Vegas (EUA), várias empresas apresentaram “wearables” para saúde. Uma dela foi a Reliefband Technologies, que apresentou o Neurowave, uma pulseira que combates náuseas aplicando pulsações controladas a um nervo na parte inferior de seu pulso.

Grávidas também ganharam uma novidade: o Bloomlife, o adesivo que deve ser colocado sobre a barriga e monitora as contrações, para ver se está tudo certo com a gestação e quando é a hora de ir para o hospital. Já o QardioCore mede continuamente indicadores cardíacos, ritmo de respiração e atividades físicas, enviando tudo isso para o médico. Até a medida de glicose, fundamental para diabéticos e que já foi citada no início desse texto, ganhou um novo “wearable”, o K’Watch Glucose. Ainda em testes, ele promete monitorar o nível de glicose de maneira totalmente indolor, uma vez que só coleta fluido intersticial e não sangue: adeus às incontáveis picadas no dedo.

Como em muitos outros casos, a tecnologia atual já superou as obras de ficção. Resta agora popularizar essas soluções, garantido o acesso de toda a população a esses benefícios. O doutor McCoy ficaria morrendo de inveja.


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Cena de “Matrix”: ao contrário do filme, a “vida online” é a nossa própria “vida real”, e isso pode ser bom! – Imagem: divulgação

Cena de “Matrix”: ao contrário do filme, a “vida online” é a nossa própria “vida real”, e isso pode ser bom!

Talvez você já tenha passado por isso: está animadamente conversando com alguém, quando, de repente, seu celular “acorda” sozinho. Na tela, o Google está esperando o seu comando de voz para pesquisar algo. Longe de ser um “bug” –afinal, você não invocou o dito cujo– isso reflete uma nova maneira de nos relacionarmos com o meio digital: mais que estarmos o tempo todo online por opção, está muito difícil nos desconectarmos, mesmo se quisermos. E isso é uma mudança maiúscula na vida de todos nós!

Eu me lembro que, lá nos primórdios da Internet comercial, em meados dos anos 1990, eu tinha um fetiche de estar online o tempo todo, pois eu achava que isso me daria uma sensação de onipresença e até de onisciência. Mas isso era impossível naquela época, pois não havia tecnologia de comunicação para tanto.


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Mas, de alguns anos para cá, isso é perfeitamente viável! Os principais responsáveis são nossos celulares, que carregamos o tempo todo e se tornaram computadores poderosíssimos, recheados de sensores e permanentemente pendurados na Internet.

Portanto, agora se vive um dilema contrário àquele meu desejo antigo: ficou muito difícil ficar off line, mesmo de vez em quando. Pois, além de estarmos conectados o tempo todo, estamos permanentemente produzindo –na maioria das vezes de forma involuntária e inconsciente– todo tipo de informação sobre nós mesmos. E esses dados vão direto para um número crescente de empresas, governos e instituições.

Em troca disso, recebemos uma infinidade de serviços que deixam nossas vidas mais fáceis, produtivas e divertidas. O problema é que, na prática, não temos nenhum controle do que farão com essas nossas pegadas digitais. E nem falei de cybercriminosos, que também podem estar nos monitorando.

Ficou preocupado? É melhor ir se acostumando, pois a tendência é que isso se acentue ainda mais.

Mas então não bastaria desligar o computador e deixar o celular em casa para ficarmos off line?

 

“Vigiados” o tempo todo

É verdade que os computadores foram a nossa primeira porta para a Internet, e os celulares nos mantêm conectados o tempo todo. Mas hoje eles estão longe de ser os únicos pontos de contato com o mundo digital. Cada vez mais, temos equipamentos a nossa volta permanentemente online e nos “monitorando”, prontos para nos fornecer todo tipo de serviço –e para coletar nossas informações.

Quer testar? Se você tiver um celular Android, experimente falar, do outro lado da sala, “Ok, Google”. Se seu celular for um iPhone, diga “E aí, Siri“. Esses comandos disparam os assistentes pessoais dos aparelhos, que ficam prontos para ouvir seus comandos por voz, quaisquer que sejam. E eles tentarão nos atender da melhor maneira possível.

Para que isso aconteça, o telefone está literalmente nos ouvindo o tempo todo. Mas o que mais ele está captando além de nossos comandos? Não estou sugerindo que Google ou Apple estejam violando a privacidade de seus clientes. Mas e quanto àqueles incontáveis aplicativos de terceiros que você instalou no celular: dá para confiar totalmente neles?

Outro aparelho presente em praticamente todos os lares vem ganhando espaço nessa arapongagem doméstica: a televisão. As smart TVs são verdadeiros computadores o tempo todo online. Muitas delas vêm equipadas com câmeras e podem ser controladas por voz. Dá até para ligar a TV falando com ela! Ou seja, assim como os smartphones, muitas das TVs também estão permanentemente nos escutando.

Portanto seria razoável perguntar o que impede que um hacker invada a sua TV e passe a ver e ouvir o que acontece na sua casa. Por isso, alguns fabricantes de TV sugerem que não façamos em frente à TV algo que possamos nos arrepender depois.

Entenda isso como quiser.

 

Incansáveis assistentes

O mais curioso dessa história toda é que as pessoas não veem nenhum problema nisso. Na verdade, os incríveis serviços que recebemos aparentemente fazem tudo valer a pena.

Tanto é assim que, nos EUA, a Amazon está puxando a fila de uma nova categoria de produtos: os assistentes digitais domésticos. Tratam-se de pequenos equipamentos de mesa que combinam microfone e alto falante conectados à Internet. Funcionam da mesma forma que os assistentes dos celulares, sempre prontos para ouvir nossos comandos e nos dar respostas imediatas instantaneamente.

Amazon Echo e Google Home

O produto da Amazon é o Echo, um pequeno cilindro negro de 23,5 cm de altura. O Google também já lançou o seu, o Home, ainda mais discreto: apenas 14 cm. Nenhum dos dois ainda é vendido no Brasil, mas funcionam se trazidos para cá.

Já há muitos outros aparelhos que se conectam à Internet para expandir seus recursos, como geladeiras e até carros! A tendência é que todos passem a ter funções controladas por voz, e coletem algum tipo de informação sobre os usuários. Possivelmente chegará a hora em que a nossa mobília estará online para nos brindar com algum recurso adicional!

Há ainda os “dispositivos vestíveis”, os “wearables”, normalmente lembrados pelos relógios smart e óculos de realidade aumentada. Mas eles vão muito além disso, como uma nova pulseira que mede, sem necessidade de coleta de sangue, o nível de glicose de diabéticos, ou um tênis que ajuda atletas a corrigir suas passadas. Tudo integrado com aplicativos no celular e, portanto, com dados prontos para serem compartilhados.

Isso é o que os analistas chamam de “terceira onda digital”, ou “era pós-digital”: um mundo em que a tecnologia está tão presente e tão integrada ao nosso cotidiano, que nos beneficiamos dela o tempo todo, sem mesmo nos darmos conta da sua existência.

Então não tem volta?

 

Simbiose digital

Quando penso que alimentamos uma enorme quantidade de sistemas de diferentes empresas com nossas informações, garantindo-lhes gordos lucros e troca de serviços, eu me lembro do filme Matrix (1999), das irmãs Wachowski. Mas felizmente a nossa realidade é muito menos terrível: nada de uma máquina que escraviza a humanidade, reduzindo-a a meros fornecedores de energia, em troca de uma ilusória “vida normal”.

Mas essa nossa vida online cada vez mais ubíqua se tornou, de fato, a nossa vida. Não existe mais separação da “vida presencial”. Na verdade, entendo que nunca houve isso, pois as duas são apenas diferentes representações de nossa única vida real.

A diferença é que agora estamos integrados, imersos, vinculados com o ciberespaço. Toda essa integração funciona como extensões do nosso próprio ser, dando-nos “poderes” que efetivamente expandem nossos limites.

Portanto, esse é um caminho que não tem volta. Conceitos de privacidade precisam ser revistos, diante da nossa tolerância o compartilhamento de nossa vida. Assim, não há solução para esse “problema”, pelo simples fato de que não há problema afinal. Então, se você é daqueles que tenta resistir a tudo isso, receio que sua tarefa ficará cada vez mais difícil.

Precisamos apenas ser conscientes dessa nossa realidade, para não passarmos por trouxas. Tudo isso pode mesmo ser muito legal e útil! Mas, da próxima vez que assistir à TV, lembre-se que talvez ela também esteja assistindo a você.

E daí curta a programação numa boa!


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A tecnologia pode acabar com conselhos profissionais e sindicatos

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Você sabia que, como passageiro, você também tem uma nota no Uber, dada pelos motoristas? Longe de ser uma firula do serviço, essa “reputação” está transformando dramaticamente, ainda que de maneira sorrateira, a maneira como compramos produtos e contratamos profissionais. E, nessa nova ordem mundial, sindicatos e conselhos profissionais podem estar rumando para o mesmo fim dos dinossauros.

Tudo por causa de fundamentos da economia compartilhada! Com eles, profissionais, produtos e serviços são escolhidos por seus clientes a partir da experiência que outros consumidores tiveram antes com tais fornecedores. Quem atende bem, é brindado com uma boa nota, e assim ganha destaque nos sistemas.


Vídeo relacionado (de 17/5/16):


O critério de reputação foi criado por essas empresas como uma maneira de dar alguma proteção tanto ao consumidor, quanto ao fornecedor. Afinal, quando você chama um carro pelo Uber, quando faz uma compra pelo Mercado Livre, quando se hospeda pelo Airbnb (apenas para ficar em alguns exemplos óbvios), você está comprando algo que não é da empresa, e sim fornecido por uma legião de desconhecidos que usam essas plataformas para viabilizar os seus micronegócios. Por isso, a nota que outros clientes já lhes atribuíram é fundamental para saber se esses fornecedores prestam um bom serviço.

Quem tiver uma boa nota, acaba sendo privilegiado pelo sistema, e faz mais negócios. Já quem tiver uma nota ruim, pode acabar sendo expulso dele! Da mesma forma, o cliente também tem sua nota, atribuída pelos profissionais com quem já fez negócio anteriormente. Um cliente ruim também pode ser recusado! Afinal, você alugaria o seu apartamento pelo Airbnb para um “ogro”, que pode estragar tudo lá dentro?

O efeito colateral disso é que as empresas de economia compartilhada não dão muita bola para convenções sindicais ou resoluções de conselhos profissionais.  Quem pode oferecer seu serviço na plataforma, quem é considerado um bom profissional, a maneira como o serviço é prestado atende os seus próprios critérios, e não o que dizem as entidades de classe.

Em muitos casos, isso gera conflitos seríssimos. Talvez o caso mais emblemático seja justamente o do Uber, que entrou em choque frontal com sindicato dos taxistas do Brasil (e do mundo) todo. Afinal, qualquer um que atenda seus critérios pode virar seu motorista. Isso passa por cima das regras dos sindicatos e até das prefeituras, que regulam a atividade.

Mas advinha de que lado fica o consumidor?

 

Cabo de guerra

O cliente não dá a menor bola para as convenções sindicais ou resoluções de conselhos, que, aliás, normalmente desconhece. O que interessa para ele é ser bem atendido, com um profissional competente, com um serviço focado em suas necessidades e a um preço justo. Mas essas regras existem por bons motivos. E aí surge o grande dilema.

Os sindicatos foram criados com a Revolução Industrial, como uma maneira de proteger os interesses dos trabalhadores, que não tinham nenhum direito e eram explorados além do limite da irresponsabilidade. Têm, portanto, um papel essencial na construção de uma sociedade mais justa. As resoluções e códigos de ética dos conselhos profissionais, por sua vez, regulamentam como os profissionais devem exercer seus ofícios, inclusive protegendo interesses dos clientes.

O problema é que, como se pode imaginar, tais regras sofrem atualizações muito, muito lentamente, inclusive porque qualquer mudança precisa ser muito debatida e até embasada em pesquisas científicas, em muitos casos. Mas o mercado não topa mais esperar por isso, pois seu ritmo é muito mais acelerado, e isso só tem aumentado com a introdução de novas tecnologias digitais e a entrada de empresas com modelos de negócios totalmente disruptivos.

Não estou dizendo que a tecnologia vai acabar com categorias profissionais inteiras. Aliás, a tecnologia jamais destrói coisa alguma! Ela promove transformações, propondo alternativas mais vantajosas para as pessoas. Quem tira uma categoria profissional, um produto, um modelo de negócios da jogada é justamente seu consumidor, quando ele encontra essa tal alternativa que lhe atende melhor.

Para piorar ainda mais a situação das entidades de classe, muitas têm fortíssimos interesses políticos, que, muitas vezes até se contrapõem aos dos seus representados. Outras tantas se encontram envolvidas em escândalos de corrupção. Como resultado, não apenas o público, como também muitos profissionais da categoria começam a achar tudo aquilo um atraso de vida.

E advinha só onde todos acabam caindo?

 

Alternativa também para o profissional

Apesar da importância das regras das entidades de classe explicadas acima, o que se vê são cada vez mais profissionais acompanhando seus clientes para as novas plataformas, inclusive contrariando determinações de suas categorias. E o motivo é muito simples: as demandas do público são claras e vão nessa direção.

Oras, pode chegar uma hora em que, se o profissional não embarcar nessas novidades, ficaria sem clientes! O que lhe restaria então?

Um bom exemplo é o que acontece com os psicólogos. Segundo resolução do Conselho Federal de Psicologia, não é permitido fazer terapia online. O máximo que é permitido é uma orientação psicológica pontual, limitada a, no máximo, 20 sessões.

Só que os pacientes não entendem isso! Em uma sociedade totalmente conectada, em que cada vez mais coisas podem ser feitas pelo telefone celular (desde paquerar até a declaração do Imposto de Renda), por que não é possível fazer terapia online? O questionamento ganha ainda mais força quando, por exemplo, o paciente muda de cidade e gostaria de continuar sendo atendido pelo mesmo profissional, à distância. Mas isso não pode acontecer, pois fere a resolução do CFP.

Por mais bem-intencionada que seja a resolução, fica cada vez mais difícil defender essa restrição, especialmente se considerarmos que pesquisas já estão sendo feitas nessa área há 15 anos! Como resultado, o que se vê no mercado são cada vez mais psicólogos ignorando a resolução e encontrando suas maneiras de atender as demandas de seus clientes, mesmo colocando em risco a sua atuação profissional!

Pior que isso: demoras como essa abrem espaço para o surgimento de serviços que ignoram solenemente as regras e chutam a porta com um modelo radicalmente diferente. No mesmo setor da psicologia, no ano passado foi lançado o Fala Freud, um aplicativo que bate de frente não apenas com a resolução acima, mas com o próprio código de ética da profissão. Desde então, ele vem provocando uma acalorada discussão e uma sequência de notas de repúdio de psicólogos.

O aplicativo foi longe demais? Não estou habilitado para afirmar categoricamente que sim ou que não. Mas o fato é que tem um monte de psicólogos cadastrados na plataforma.

Como lidar com essa crise?

 

Foco no cliente e no profissional

Como se pode ver, a tecnologia e as empresas com modelos de negócios (muito) inovadores estão provocando um enorme movimento no mercado. E não quero dizer que estejam promovendo uma bagunça. Mas certamente estão provocando profundas discussões e até indicando alternativas de como uma categoria profissional deve se comportar!

É óbvio que profissões e serviços devem ser regulamentados por entidades competentes, inclusive para proteger o cliente e o profissional: jamais sugeriria o contrário! Mas não é possível que isso continue sendo feito como é hoje.

Ao invés de se posicionarem em lados opostos desse cabo de guerra, empresas e entidades de classe deveriam se unir para se ajudar, cada um oferecendo o que tem de melhor para esse diálogo. Caso contrário, veremos cada vez mais profissionais sérios colocados entre determinações de suas entidades e as demandas de seu público. Se penderem para um lado, podem ficar sem clientes; se forem para o outro, podem ficar sem profissão.

É hora de dar as mãos e construir algo juntos com foco nos clientes e nos profissionais.


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Por que colaborar é melhor que competir, até entre concorrentes

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Cena de “The Wall”, ópera rock do Pink Floyd: escolas massacrando alunos, matando sua criatividade e colaboração, e promovendo a competitividade – Imagem: reprodução

Cena de “The Wall”, ópera rock do Pink Floyd: escolas massacrando alunos, matando sua criatividade e colaboração, e promovendo a competitividade – Imagem: reprodução

Se você costuma me acompanhar aqui no LinkedIn, provavelmente sabe que estive em Boston (EUA) na semana passada, participando do Red Hat Summit. Quando me perguntam qual foi a coisa mais bacana que vi lá, eu respondo: o conceito de colaboração que permeava o evento. Fiquei impressionado como até mesmo concorrentes podem fazer isso com grande sucesso! Então eu lhe pergunto: você e sua empresa conseguiriam fazer isso hoje?

Não chega a ser uma surpresa ver tanta colaboração em um evento de uma companhia que é a líder mundial em software open source. Mas o que me chamou a atenção é como essa filosofia transcendeu o desenvolvimento de software e está modificando a maneira como empresas de qualquer ramo fazem seus negócios, de uma maneira mais moderna, ágil e eficiente.


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Para quem não sabe o que open source, trata-se de uma modalidade de desenvolvimento em que alguém baixa um software cujo código-fonte está “aberto” (pronto para ser editado), realiza modificações no produto e o republica para que outros possam fazer outros incrementos a partir dessa versão melhorada. Entre as vantagens disso, estão produtos com mais recursos e muito mais estáveis, pois, ao invés de ser desenvolvido apenas pela equipe de uma empresa, é melhorado por uma boa parte de toda a comunidade de seus usuários. O exemplo mais emblemático dessa modalidade é o Linux, um sistema operacional que rivaliza com o Windows, especialmente em servidores corporativos.

No caso de negócios, a colaboração pode surgir de diferentes maneiras, como, por exemplo, no compartilhamento de recursos. Um exemplo interessante é o do Estadão e da Folha, que entregam seus jornais com os mesmos caminhões já há alguns anos. Concorrentes ferozes nos anos 1990, inclusive para ver quem chegava primeiro às bancas, a crise dessas empresas fez com que elas percebessem que era muito mais vantajoso juntar forças nessa questão operacional e continuar concorrendo naquilo que é realmente o seu negócio: a produção de conteúdo.

Aliás, a concorrência cada vez mais acirrada é hoje uma grande impulsionadora para a colaboração. Mas nem sempre foi assim. O ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro” explica o pensamento ainda dominante no mundo empresarial, que preconiza que, se o mercado está pequeno, se os recursos são escassos, o melhor a fazer é pisar na cabeça do concorrente e, se possível, tirá-lo do negócio.

Nada mais equivocado!

 

Colabore no essencial, concorra no diferencial

Empresas que já aprenderam a surfar nesse novo mundo colaboram até mesmo no desenvolvimento de seus produtos. E, como disse anteriormente, isso é viável até mesmo entre concorrentes! Isso é possível porque produtos semelhantes costumam ter características básicas iguais entre si. O que os diferencia é o refinamento que surge acima disso.

Apesar disso, em muitos casos, a construção desse alicerce comum acaba tomando a maior parte do tempo e dos recursos de desenvolvimento. Oras, se ele é indiferenciado entre concorrentes, por que então não juntarem suas forças nessa etapa?

Os benefícios imediatos são uma considerável redução nos custos e aumento na agilidade no desenvolvimento. Além disso, o produto final será potencialmente melhor que se fosse feito individualmente por cada empresa, pois ele será resultante de companhias diferentes, o que minimiza potenciais vícios empresariais de cada participante, que podem limitar bastante o escopo do produto. Além disso, cresce a base de clientes dessa solução e suas demandas, o que o torna mais atraente do ponto de vista comercial.

Claro que será necessária a criação de mecanismos para evitar que segredos industriais e comerciais vazem. Mas isso já faz parte do negócio, e a criação de processos bem definidos pode eliminar esse risco.

Mas há quem vá ainda além.

 

Negócios abertos e compartilhados

Algumas companhias vão além disso e adotam o conceito de “open business”. Derivado do “movimento open”, essas companhias possuem uma gestão colaborativa, onde funcionários e até mesmo consumidores participam da tomada de decisões em uma escala inimaginável para empresas tradicionais. Até mesmo as finanças são apresentadas de maneiras transparente.

Parte desses conceitos podem ser encontrados em empresas da chamada economia compartilhada, que tem no Uber e no AirBnB algumas de suas maiores estrelas. Essas companhias e seus modelos de negócios disruptivos estão redefinindo alguns pilares do capitalismo.

Talvez a mudança mais dramática que isso promova seja a construção de uma consciência de que não é mais necessário ter algo para usufruir de seus benefícios. O exemplo clássico disso é a furadeira. Quem tem uma em casa sabe que ela é usada muito, muito raramente. Então por que precisamos comprar uma?

O Uber partiu desse princípio para criar um negócio com milhares de pessoas que têm um recurso ocioso (no caso, um carro) e decidem ganhar algum dinheiro com isso. Por outro lado, um número ainda maior de consumidores pode usufruir de um serviço de transporte diferenciado sem precisar comprar um automóvel. Só para ficar no exemplo dos carros, quem quiser conseguir um sem motorista, pode recorrer ao PegCar, em que indivíduos colocam seus veículos para alugar. Bom para os clientes, bom para os donos dos carros. Ruim para as locadoras convencionais.

 

Mundo exponencial

A verdade é que hoje vivemos em um mundo exponencial. Quem tem mais de 30 anos aprendeu a pensar de uma maneira linear: fazemos uma coisa, depois outra, depois outra, todas elas encadeadas e com uma relação de dependência entre si. Fomos educados dessa forma!

É como construir um muro colocando um tijolo ao lado do outro, até completar uma linha, e só então partir para a de cima. Mas o que se vê, cada vez com mais força, são empresas e pessoas (especialmente entre as mais jovens) que descobriram maneiras melhores para se levantar esse muro. E isso acontece de uma maneira que poderia ser considerada anárquica pelos métodos convencionais, pois vários indivíduos trabalham no muro juntos, ao mesmo tempo, cada uma colocando o tijolo onde acha melhor. Em alguns casos, cada um traz o seu próprio tijolo! Mas longe de ser uma bagunça, isso representa a inventividade e a capacidade de colaboração, resultando em um muro melhor e concluído mais rapidamente.

É interessante observar que as crianças nascem colaborativas. Elas gostam de fazer coisas com outras crianças (e até adultos). Mas então por que, quando ficam mais velhas, as pessoas não são mais assim?

A resposta provavelmente está nos bancos escolares. Nosso sistema educacional tem uma estrutura que é essencialmente a mesma desde o século XIX. As escolas ainda formam indivíduos com a cabeça na Revolução Industrial, onde, mais importante que questionar ou inovar, era obedecer e executar. Uma visão digna da ópera-rock “The Wall”, do grupo Pink Floyd, que ilustra esse artigo.

E isso é um crime contra as crianças e contra toda a sociedade!

 

Escolas e iniciativas do futuro

Felizmente, muitas escolas, inclusive no Brasil, estão conseguindo se libertar dessas amarras com o passado e promovendo uma revolução no ensino, formando cidadãos capazes de viver no mundo atual de uma maneira construtiva e colaborativa. Em alguns casos, a mudança é realmente imensa, como no da escola nova-iorquina Quest to Learn, em que todas as aulas acontecem a partir de jogos, com resultados acadêmicos impressionantes! Aqui mesmo, neste espaço, falamos sobre ela, criando um ótimo debate.

Mas não só as escolas podem ajudar a incentivar as habilidades de colaboração e inventividade de crianças e adultos: as empresas também podem fazer isso. Nessa minha visita à Boston, tive a oportunidade de conhecer o projeto Co.Lab, realizado pela mesma Red Hat. Resumidamente, trata-se de uma iniciativa para aproximar meninas da tecnologia e de conceitos de colaboração. Para isso, elas montaram suas próprias câmeras digitais usando um Raspberry Pi, um pequeno computador de apenas US$ 35 que também incorpora o “modelo open” em sua concepção. Depois elas tiveram oportunidade de sair pelas ruas da cidade e fotografar tudo que elas quisessem para, posteriormente, criar colaborativamente uma releitura de um poema de Emily Dickinson. O vídeo logo no início desse artigo traz detalhes dessa bela iniciativa.

Se pensarmos bem, o que estamos fazendo exatamente aqui também é um bom exemplo de colaboração. Um dos maiores prazeres que tenho no LinkedIn é justamente fomentar debates em torno de temas que sejam importantes para a sociedade.

Vejam que eu disse “debate”, pois os artigos e atualizações que publico aqui são modestamente apenas pontos de partida para discussões. Elas são construídas com a colaboração de centenas de pessoas, que generosamente oferecem parte do seu tempo para tecer comentários com informações que enriquecem ainda mais o conteúdo já existente. E o resultado disso fica disponível para todos.

Portanto, diante de tudo isso, se os negócios estão difíceis, eu sugiro fortemente que você considere a possibilidade de trabalhar com outras empresas, mesmo que sejam concorrentes. Essa divisão do fardo pode deixar todos mais ágeis. E aí todo mundo ganha: as próprias empresas, seus funcionários e a sociedade, que fica mais moderna e humana.


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Como ganhar muito com pequenos influenciadores digitais (até mais que com os grandes)

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Imagem: foilman/Creative Commons

Você provavelmente já ouviu falar deles: os influenciadores digitais. Eles são a bola da vez das campanhas de marketing e todo tipo de empresa quer usar sua influência para ficar bonita na foto com seus clientes. Mas a verdade é que poucas empresas ou agências sabem como tirar real proveito desse poderoso recurso. Tanto que a maioria ignora aqueles que podem trazer o maior retorno para esse investimento: os pequenos influenciadores.

Para quem não sabe direito o que são os influenciadores digitais, eles são produto da explosão do uso das redes sociais. São pessoas que, até há bem pouco tempo, eram completas desconhecidas, mas que, graças ao seu talento e a sua capacidade de usar os recursos digitais, tornaram-se celebridades da noite para o dia. Chegando a ter milhões de fãs, muitos viraram queridinhos de empresas, pela sua capacidade de sugerir a seus seguidores a aquisição de produtos de todo tipo.


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Mas agora vivemos um segundo momento desse fenômeno, em que as empresas começam a perceber que alguém com “apenas” milhares de seguidores pode influenciar muito mais e melhor que outro com milhões. E por um custo muito menor.

A explicação é simples e tem tudo a ver com a própria essência das redes sociais e com a nossa natureza humana. Tendemos a acreditar mais nas pessoas que se parecem ou pensam como nós. Portanto, podemos seguir um youtuber porque ele é engraçado e nos faz rir muito. Entretanto, se precisássemos passar uma mensagem mais séria e elaborada, será que pensaríamos nele? Ou escolheríamos uma pessoa que construiu uma reputação em torno daquele assunto, sendo admirada e “seguida” por isso?

O segundo caso vem trazendo resultados mais consistentes. Mas ele exige alguns cuidados.

O uso dos influenciadores para vender produtos ganhou força há alguns anos com blogueiras de maquiagem. Como elas já usavam cosméticos para produzir seu conteúdo, as marcas perceberam que poderiam transformá-las em garotas-propaganda eficientíssimas, se pagassem para que usassem seus produtos, falando (muito) bem deles.

Essa fórmula se ampliou para uma enorme variedade de indústrias e continua valendo até hoje. Mas começa a sofrer sinais de desgaste. Ficou banalizada! E aí reside o primeiro ensinamento aqui: uma boa campanha com um influenciador digital não o deve usar como um mero garoto-propaganda.

Ele é muito mais que isso!

 

Reputação digital

No final das contas, tudo gira em torno de outro conceito derivado da nossa ubiquidade digital: a reputação que construímos nas redes sociais.

Um bom influenciador digital é aquele que conseguiu se tornar uma autoridade naquilo que se propõe a falar. As pessoas o “seguem”, gostam dele e o respeitam por isso. É algo que se constroi com muito trabalho e um trabalho consistente e sério. Mas, se isso não for continuamente cultivado, pode descer pelo ralo.

Justamente por isso a fórmula das blogueiras de maquiagem que se transformaram em garotas-propaganda começa a fazer água: as pessoas não são trouxas! Quando essas formadoras de opinião usavam os cosméticos de uma maneira genuína, para ensinar como se maquiar, estavam construindo sua reputação. Mas quando trocaram isso por uma exibição escancarada de produtos, inclusive produtos de qualidade reconhecidamente abaixo do que elas realmente usariam, sua credibilidade começou a borrar com a maquiagem. E aí aquela refinada e eficiente capacidade de plantar e adubar com reputação uma ideia acaba virando um comercial ordinário.

Portanto, empresas que sabem fazer uma boa campanha com um influenciador digital não matam o que eles têm de melhor, que é a sua reputação e a sua capacidade de cultivar conceitos ao longo do tempo. E esse é o segundo ensinamento: em uma boa campanha com um influenciador, todos devem ganhar, começando pela marca, passando pelo influenciador e terminando em seu público. Sem forçar a amizade!

Nessa hora, os melhores perfumes podem estar mesmo nos menores frascos.

 

Relação de confiança e proximidade

Se estamos falando em estabelecer um canal de confiança, muitas vezes a proximidade entre o influenciador e seu público pode ser a chave para o sucesso de uma campanha. Evidentemente nem um pequeno influenciador conhece todos os seus seguidores, mas, ao contrário do que se vê nos megainfluenciadores, os pequenos normalmente cultivam uma relação mais próxima com muitos de seus fãs, que acabam se tornando amigos e servindo para reverberar ainda mais a sua mensagem.

Por isso, antes de escolher um influenciador, faça sua lição de casa e pesquise quem ele é, sobre o que costuma falar, que tipo de pessoa gosta dele e até mesmo a sua linguagem. Daí faça uma pergunta a si mesmo: isso tem a ver com o seu produto ou a sua marca?

Se a resposta for não, esse influenciador não é o que vai ajudar você na sua campanha. Resista à tentação de contratar alguém apenas por ser famoso ou porque VOCÊ gosta dele. Se forçar o influenciador a mudar o que ele é apenas para se adequar a uma campanha, caímos novamente no problema acima, o do garoto-propaganda.

 

E como ficam os grandes?

Mas então o grande influenciador digital não tem mais espaço nas campanhas? Claro que tem! Mas suas vantagens são complementares às dos pequenos.

Por exemplo, se a sua necessidade é expor seu produto ou a sua marca para o maior número de pessoas possível, gerar “awareness”, um influenciador megacelebridade pode funcionar melhor. Mas, mesmo nesse caso, resista a tentação de reduzi-lo a um garoto-propaganda, como a televisão sempre fez com as suas estrelas, que se limitam a emprestar seu rosto e sua fama às marcas, em peças de 30 segundos.

A fama alheia certamente abre portas e é ótima para jogar holofotes sobre um produto. Mas ela não é capaz de envolver o público com ele, para que essas pessoas se tornem clientes não porque um galã disse para comprarem algo, e sim porque entenderam seu conceito, conheceram a marca, identificaram suas reais vantagens e finalmente introjetaram isso tudo em seu cérebro.

Esse é o grande segredo, o “crème de la crème” desse novo jeito de fazer marketing. Mas ele só é possível se for executada por pessoas que têm uma boa reputação junto a seu público.

Afinal, a ideia mais crível e mais eficiente é aquela que você acha que é sua. Mesmo que, na verdade, tenha sido plantada em sua cabeça por alguém em quem você confia.


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