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Entramos no ano mais digital de nossas vidas

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Este promete ser o ano mais digital de nossas vidas. Por isso, entender o que aconteceu nesse setor em 2021 pode nos ajudar a aproveitar melhor o que a tecnologia tem de bom a nos oferecer e a fugir de enormes arapucas que já armaram para todos nós. E a maioria das pessoas não tem esse conhecimento.

Por exemplo, no final de novembro, o dicionário Collins escolheu NFT como a “palavra do ano”. Como toda seleção assim, ela é controversa, mas essa representa bem os efeitos da digitalização galopante de nossas vidas, dando o tom do ano que começa. Essa sigla indica um conceito que poucos conhecem e que, mesmo entre os que já ouviram falar dele, muitos não entendem. E há ainda uma multidão completamente de fora, por não ser tão digital assim.

A pandemia acelerou incrivelmente esse processo, abrindo oportunidades para empresas e indivíduos, mas aumentando o risco de se criar “cidadãos de segunda categoria” entre os “menos digitalizados”. Governos, instituições e companhias precisam ajudar para que isso não ocorra, e cada um de nós deve abraçar o digital com consciência, evitando, de um lado, o deslumbramento e, do outro, o medo.


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Para quem nunca ouviu falar, NFT é a sigla em inglês para “tokens não-fungíveis”, uma comercialização de arte digital que combina tecnologia e mudança cultural. Com ela, ao comprar uma obra, a pessoa passa a ser sua legítima dona, mas isso não lhe garante nenhum controle ou remuneração por qualquer reprodução do material. Além disso, os direitos autorais continuam sendo do autor da obra.

É como o Museu do Louvre ser dono da Mona Lisa, mas ele não tem como impedir que as pessoas fotografem o quadro, e usem isso como quiserem. Mas, se algum dia quiser vender o original, o Louvre receberá uma fortuna.

O que dificulta o entendimento do NFT é que o original pode ser algo simplório como um meme famoso, facilmente reprodutível com um clique do mouse. Ainda assim, em maio, o meme “Disaster Girl” foi vendido por incríveis R$ 2,5 milhões.

NFT venceu, entre os pesquisadores do Collins, a palavra metaverso, outro conceito digital que certamente impactará muito mais nossas vidas em breve. Se bem usado, esse mundo virtual abrirá uma infinidade de oportunidades de trabalho, aprendizagem e diversão. Trata-se de um ambiente digital em que as pessoas entrarão com seus avatares para interagir mesmo com quem estiver do outro lado do mundo e com ferramentas que só existem ali.

Apesar de não ser algo novo, o metaverso ganhou holofotes em 2021 pela disposição do Facebook de investir pesadamente nessa tecnologia. Mas o que a torna tão incrível também inspira muitos cuidados. Por ser um ambiente completamente imersivo, há um enorme risco de manipulação dos usuários, muito maior que o já visto nas redes sociais. Além disso, por exigir equipamentos poderosos para ser usado, ele pode ampliar o abismo digital entre os mais ricos e os mais pobres.

Mas a virtualização de nossas vidas já acontece com força de outras formas. Desde que a Internet comercial foi lançada, em 1994, realizamos cada vez mais atividades de nosso cotidiano pelo meio online. A popularização dos smartphones, há uma década, acelerou muito esse processo.

Mas foi a pandemia que definiu um novo patamar aí.

 

Tudo de casa

Possivelmente a mudança mais profunda e permanente que o vírus nos apresentou foi o home office. Antes do lockdown (aliás, a palavra de 2020 para o mesmo dicionário Collins), trabalhar de casa era algo inimaginável ou pelo menos visto com enorme desconfiança por gestores de empresas de todo tipo. Mas hoje isso se tornou tão aceito, que muitas empresas adotaram, mesmo com a retomada das atividades nos escritórios, o trabalho híbrido, em que os profissionais desempenham suas tarefas de casa em alguns dias da semana. Há casos em que o trabalho remoto se tornou definitivo. Dessa forma, os escritórios ficaram menores ou simplesmente desapareceram.

Primo dessa mudança é o crescimento explosivo do ensino a distância. O tempo em casa permitiu que as pessoas experimentassem e gostassem desse jeito de aprender, vencendo muitos preconceitos contra o EAD. Agora, muita gente faz cursos que antes eram inacessíveis pela distância ou por horários inflexíveis.

Mas tanto o home office quanto o EAD reforçam as diferenças entre a população digitalizada e a “nem tanto assim”. Afinal, para participar dessas atividades é preciso ter uma boa conexão com a Internet e um computador, pois a experiência pelo celular acaba sendo de pior qualidade. E nem todos têm isso.

O e-commerce também se enquadra nessa mudança de comportamento. Apesar de crescer consistentemente na casa dos dois dígitos percentuais desde que surgiu, as vendas online praticamente dobraram seu faturamento nos primeiros 12 meses da pandemia. Com a reabertura das lojas físicas, esse crescimento perdeu um pouco de fôlego, mas o e-commerce permaneceu em um patamar muito superior ao que tinha antes da Covid-19. Graças a isso, muitas entregas, que antes levariam dias para serem feitas, passaram a acontecer em algumas horas.

O e-commerce pelo menos é um pouco mais democrático: funciona bem em praticamente qualquer smartphone.

 

Virtualização de valores

O Pix, sistema de transferências e pagamentos instantâneos do Banco Central, também poderia concorrer à palavra do ano, se não fosse restrito ao Brasil. Ele já é usado por 71% dos brasileiros, com aprovação de 85% deles, segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos). Já há mais Pix que TED, DOC e cheque juntos! Entre os jovens de 18 a 24 anos, a aprovação chega a 99%, semelhante aos 96% da faixa seguinte (de 25 a 44 anos). A maior resistência fica entre as pessoas de baixa renda e os de menor escolaridade, mas ainda com adesão superior a 50%.

Muita gente tem medo do Pix devido aos incontáveis golpes que usam essa tecnologia. Essa, aliás, é outra coisa que explodiu nesses dois anos e que infelizmente deve se ampliar em 2022. Vale lembrar que o ano passado começou com o maior vazamento de dados da história do Brasil e terminou com um suspeito “ataque hacker” aos sistemas do Ministério da Saúde que gerenciam os dados relativos à Covid-19 e à vacinação, que demoraram semanas para serem restabelecidos.

As pessoas precisam de orientação para escapar desses problemas, que acabam atingindo mais os de renda inferior ou os menos informados. O que nos leva a um último flagelo digital que vem crescendo com força nos últimos anos e deve chegar às raias da loucura em 2022: a desinformação. O que me faz lembrar que, em 2016, outro importante dicionário, o de Oxford, elegeu pós-verdade como a palavra daquele ano.

Ela explica que importam menos os fatos e mais as versões construídas a partir deles (ou da ausência deles). Assim, quem elaborar as versões mais “palatáveis” para o público convencerá as pessoas com suas ideias, por mais bizarras que sejam.

Isso fica particularmente mais grave em anos de eleições, como esse que estamos começando. Políticos sempre mentiram, mas a combinação da pós-verdade com as redes sociais criou as fake news, que se tornaram a ferramenta suprema de manipulação da sociedade. E políticos que mais dominam esse recurso vêm se elegendo.

Por isso, se puder desejar algo a todos nesse ano que se inicia, minha escolha é conhecimento e informação, para que possamos usar o mundo digital que tivermos a nossa disposição –seja muito, seja pouco– da melhor maneira possível. Ele deve ser usado para melhorarmos (e muito) nossa vida, e não para sermos controlados por quem quer que seja.

 

Para falar, basta ter boca, mas falar algo que preste é outra história

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O vídeo abaixo é a minha “Pílula de Cultura Digital” de número 300 e esse artigo é o de número 416 no “Macaco Elétrico”, meu espaço no Portal Estadão há mais de uma década. No caso do vídeo, que publico semanalmente, ele resulta de um enorme poder de comunicar ideias que as redes sociais concederam a qualquer pessoa. E isso é incrível, mas também pode ser uma maldição!

Depois que palavras são proferidas, não podem ser “desditas”, ainda mais em uma sociedade altamente digitalizada como a nossa. Aproveitamos alegremente esse “paraíso de liberdade de expressão”, sem perceber que falar é fácil, mas que precisamos cuidar do que falamos. Entre os resultados desse despreparo e dessa inconsequência no discurso online, vejo, a todo momento, pessoas destruindo sua reputação, profissionais perdendo o emprego e empresas sendo duramente questionadas por seus clientes.


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Não estou sugerindo que usemos menos essa capacidade de comunicação, muito pelo contrário! Mas o que eu vejo nas redes, e não é de hoje, é o domínio do discurso vazio, superficial, de “autopromoção a qualquer custo” ou de polarização política. E isso tem um impacto tão grande, que os valores de nossa sociedade e a nosso desenvolvimento como nação estão indo pelo ralo.

Sim, as redes sociais têm um papel decisivo nessa piora do tecido social. Mas, em última instância, são as pessoas, com mais ou menos consciência, que se deixam levar por esse frenesi. Por exemplo, no dia 21, o Estadão divulgou uma pesquisa interna do Facebook de 2018, que apontava como um grupo proporcionalmente pequeno de usuários brasileiros, chamados de “superprodutores”, criaram uma quantidade gigantesca de publicações de cunho político na rede, e isso teria afetado o engajamento em torno de alguns assuntos, podendo até ter influenciado o resultado das eleições.

Em um famoso discurso em junho de 2015, quando recebeu o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura na Universidade de Turim (Itália), Umberto Eco disse que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” Afirmou ainda que “eles eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Eu me lembro que, na época, discordei publicamente do escritor e filósofo italiano. Achei que havia, em suas palavras, uma certa intolerância e até soberba. Na minha filosofia, em que todos devem ter o direito de falar e que crescemos justamente ao contrapor discordâncias, aquilo estava errado.

Hoje percebo que Umberto Eco viu, lá atrás, o cenário em que vivemos. Parece que fosse em outra vida, mas não faz muito mais que cinco anos: até então, as redes sociais eram um espaço muito mais livre, em que as pessoas se encontravam para troca de amenidades ao invés de ofensas, e em que os algoritmos não eram manipulados para convencer a população a comprar produto ou até uma ideia.

O que nos leva ao tema central dessa conversa: para falar, basta ter boca, mas falar algo que preste é outra história.

 

A necessidade de aparecer

Nesse meio tempo, as redes sociais se tornaram peça fundamental para o sucesso de qualquer negócio e de qualquer carreira. Um exército de “gurus” surgiu dizendo o que as pessoas deveriam fazer, onde clicar, quem seguir, com o que se engajar. Mas eles não são capazes de explicar como fazer isso de uma maneira positiva e construtiva, mesmo por que a maioria não passa de “apertadores de botões”, que não tem muito a dizer.

Some-se a isso a percepção que as pessoas têm sobre o incrível sucesso que as publicações apelativas e polarizadas alcançam nas diferentes redes sociais. Diante de não saber o que falar e desses atalhos aparentemente fáceis, os usuários criaram um círculo vicioso no uso das redes, abandonando o debate de alto nível.

É uma pena, pois eu defendo que todos têm algo construtivo a compartilhar nas plataformas digitais, seja com um vídeo, seja com um singelo post. E, como sempre digo, o nosso cotidiano pode ser a nossa maior fonte de inspiração.

Sempre acontecem coisas em nosso dia a dia que poderiam ser usadas para ensinar algo ao outro. Apenas não estamos preparados para transformar essas ocorrências em ideias inspiradoras e transformadoras. E isso os “gurus” não explicam, porque a maioria deles não sabe como.

Precisamos romper essa necessidade de “aparecer a qualquer custo”, em que as pessoas são levadas a replicar ideias de fácil aceitação que não são delas. Elas vêm sendo enganadas pela manipulação dos algoritmos por alguns grupos, para que seus interesses se tornem dominantes com a ajuda de uma massa incauta.

A valiosíssima oportunidade que temos de expor nossas ideias ao mundo não deve continuar sendo usada para ampliar o ódio e o discurso de segregação ou, pior que isso, praticar crimes e contravenções escudados pelo direito inalienável da liberdade de expressão, que anda muito distorcido nesses tempos sombrios. Isso é um seríssimo risco a uma sociedade organizada que deseja se desenvolver de maneira sustentável!

Quando a massa ganha um poder enorme e inconsequente para expor suas insatisfações, sejam legítimas ou não, pode ser levada a praticar condenações e execuções sumárias, escudadas pelo “efeito manada” do meio digital. E isso é fascismo do século XXI! Mas esses indivíduos se esquecem que os que hoje condenam injustamente amanhã podem morrer do mesmo veneno.

É hora de pararem de usar o meio digital para confirmar que suas ideias são as “certas” e de achar que podem silenciar quem pensa de maneira diferente. A sensação pode parecer muito boa na hora, mas ela envenena a alma.

No lugar disso, precisamos desenvolver a nossa capacidade de unir pelo compartilhamento de ideias positivas, que todos nós somos capazes de desenvolver. É hora de parar de “falar só porque se tem boca” e deixar que o mundo perceba nosso valor pelas nossas virtudes e generosidade.

Quem se atreve a embarcar nisso?

 

Frances Haugen, ex-gerente de integridade cívica do Facebook, depõe no Senada americano sobre acusações nos “Facebook Papers”

A solução para o lixo nas redes passa por cada um de nós

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O Estadão destacou, em sua primeira página nesse sábado, novas informações retiradas dos “Facebook Papers”, como estão sendo chamados os milhares de documentos internos da empresa vazados pela sua ex-gerente Frances Haugen. E essas impactam particularmente os brasileiros: levantamento da plataforma concluiu que o discurso de ódio, a desinformação, a violência explícita e o desencorajamento cívico em suas páginas são bem altos no nosso país.

Qualquer um que navegue pelas redes sociais –e não apenas as de Mark Zuckerberg– sabe disso. Entretanto, o mesmo levantamento demonstra que os brasileiros são os que mais se sentem mal ao se deparar com esses conteúdos tóxicos.

Isso é um aparente paradoxo, pois o sucesso desses conteúdos ruins na rede está intimamente ligado às ações desses mesmos usuários. Por isso, não podemos apenas assumir uma postura passiva ou de vítima diante do problema. Sua solução depende necessariamente de cada um de nós.


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O Facebook fez a pesquisa entre março e abril de 2020 no Brasil, Colômbia, Estados Unidos, Índia, Indonésia, Japão e Reino Unido, com amostras de 5.000 pessoas de cada país. Ela visava saber se seus produtos conseguem manter sua “integridade”, ou seja, evitar conteúdos que violem suas regras. Essas violações são conteúdo cívico inflamatório, desencorajamento cívico, inautenticidade cívica, bullying cívico, conteúdo cívico falso ou enganoso, bullying, desinformação, contas falsas, roubo de identidade, violência explícita, discurso de ódio, nudez, terrorismo, exposição infantil indevida, venda de animais e venda de drogas e profanidade.

O levantamento indica que 37% dos brasileiros entrevistados identificaram publicações assim no Facebook. Nos Estados Unidos, isso chegou a 46%. Já no WhatsApp, esse índice bateu 30% no Brasil, o mais alto entre os países avaliados; nos EUA, foi sentido por apenas 13%. Mas é preciso considerar que apenas 30% dos americanos estão no aplicativo, enquanto, no Brasil, ele é usado por praticamente todas as pessoas online. Também foram analisados o Instagram, o Twitter, o Snapchat, o TikTok e o Line.

Entre os países verificados, os brasileiros são os que consistentemente se sentem pior quando veem esse tipo de conteúdo. Considerando Facebook e WhatsApp, os temas mais sensíveis para os brasileiros são exposição infantil indevida, terrorismo, violência explícita, discurso cívico inflamatório e discurso de ódio. A desinformação é um dos tópicos que menos choca os usuários por aqui.

Todas essas categorias são terríveis, mas o fato de a desinformação se classificar tão mal entre o que causa desconforto entre os brasileiros é emblemático. Isso está associado a aspectos culturais e a uma educação historicamente de baixa qualidade.

Por conta disso, o brasileiro já era proporcionalmente pouco acostumado a investir em informações de fontes de boa reputação. O fortalecimento das redes sociais agravou esse quadro, pois criou-se uma percepção que não era mais preciso pagar para se ter acesso a informações. Isso pode até ser verdade: o problema é o nível do que se encontra nas redes, majoritariamente muito baixo.

E os indivíduos consomem isso alegremente. Pior: divulgam esse material!

As pessoas acreditam no que elas quiserem, e isso é uma característica da nossa humanidade. Tentamos encontrar argumentos para validar aquilo que nos interessa.

Alguns não demoraram a perceber que poderiam combinar isso com os algoritmos das redes sociais, que nos colocam em contato com quem pensa da mesma forma que nós, para obter uma incrível máquina de convencimento para quaisquer que fossem seus objetivos. Assim surgiu uma minoria organizada e extremamente barulhenta no meio digital, que usa a desinformação como ferramenta.

Por exemplo, fiquei estarrecido ao ver publicações que sugerem que o trágico acidente que vitimou a cantora Marília Mendonça e os demais ocupantes do avião na sexta-feira teria sido causado por um mal súbito do piloto, que seria resultado de uma reação à vacina contra Cvoid-19.

Como alguém pode se aproveitar de uma tragédia que comoveu o país para fazer valer uma monstruosa teoria de que o imunizante é prejudicial à saúde?

O cérebro tem mecanismos curiosos. Graças a eles, essa teoria atingirá seu objetivo de desacreditar a vacina com uma quantidade considerável de pessoas, que estão enlutados pela cantora e buscam explicações para sua morte. Essas pessoas, por diferentes motivos, também têm suas próprias reservas à imunização e assim buscam argumentos para não se vacinar. A junção das duas coisas em uma única ideia, por mais bizarra que seja, dispara a sua aceitação.

É como se o indivíduo estivesse à beira do precipício, e precisasse apenas de um empurrãozinho…

 

Trabalho profissional

Isso não é uma molecagem, como alguns poderiam pensar. A desinformação se transformou em uma indústria milionária que move a política mundial.

Diversos estudos ajudam a explicar isso. Por exemplo, a pesquisa destacada na capa da revista Science, a mais importante publicação científica do mundo, no dia 9 de março de 2018, demonstra como, a despeito das ações de robôs, são as pessoas as grandes responsáveis pela disseminação das fake news. Isso acontece, em parte, porque a desinformação dispara mecanismos emocionais que induzem ao engajamento com esse material.

Em janeiro, a Universidade de Oxford (Reino Unido) divulgou o estudo “Desinformação industrializada: inventário global de manipulação de mídia social organizada”, que demonstra que essas táticas vêm sendo usadas por cada vez mais governos: em 2020, foram vistas em 81 países! Segundo os autores, no Brasil, as “tropas cibernéticas” (como eles chamam os apoiadores dos governos nas redes) se dedicam principalmente a atacar opositores e aumentar a polarização na sociedade.

Vale notar que os países onde a democracia aparece mais atacada pelas “tropas” são os mesmos em que a população acredita pouco na imprensa, como visto no relatório “Trust Barometer”, publicado em março pela consultoria Edelman. A China é uma exceção: 70% da população acredita na mídia por lá, mas ela é dominada pelo governo, o que reforça a tese de Oxford de que os governos autoritários combatem a imprensa livre.

A essa altura, dizer que a população se tornou massa de manobra dos poderosos graças a essa dominação digital se tornou uma obviedade. Mas precisamos insistir nesse debate, pois a solução do problema passa por rompermos esse quadro!

O Facebook nega oficialmente as acusações feitas a partir dos “Facebook Papers” e afirma que investe bilhões de dólares no combate ao conteúdo tóxico, inclusive a desinformação. O próprio estudo sugere uma preocupação em mapear o problema, colocando o Brasil como um “país de risco”, em que a população é fortemente impactada por esse material, e que precisa ser monitorado com prioridade, com “ações de integridade mais agressivas”.

Melhorar os algoritmos e ampliar equipes treinadas para reduzir ao máximo esses conteúdos são iniciativas fundamentais, mas é preciso investir na educação midiática da sociedade. As pessoas precisam aprender a separar a verdade de absurdos.

Essa não é uma tarefa trivial, e depende fortemente dos veículos de comunicação profissionais, mas também das escolas e até da Justiça. E as plataformas digitais desempenham um papel crítico nisso, pois é graças a elas que a mentira chega à população como uma “versão dos fatos” muito mais suculenta, pronta para ser consumida ser raciocinar.

É difícil resistir e até identificar as fake news. Aos olhos do brasileiro, elas nem encabeçam a lista de preocupações, como indica essa pesquisa do Facebook agora revelada. Perdem até da nudez!

Mas a nudez não pode destruir a sociedade. A desinformação pode, e já fez um estrago enorme.

O poder do gado pode massacrar nossas convicções

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Somos seres únicos e, como tal, temos a capacidade de ter ideias próprias. Combinamos conhecimento para criar conclusões que nos ajudam a crescer como pessoas e a desenvolver a sociedade. Mas a digitalização de nossas vidas vem tornando essa tarefa mais complicada. Ter autonomia e manter convicções exige cada vez mais energia.

Acontece que também somos seres gregários. Precisamos conviver com outras pessoas para benefício mútuo. Precisamos nos sentir aceitos! O custo disso é ajustar eventualmente o que pensamos ao grupo, para uma convivência harmoniosa e construtiva. No final, esse confronto com pensamentos diferentes acaba nos ajudando a refinar nossa visão de mundo.

O problema é que a pressão do grupo cresce exponencialmente com a exposição às onipresentes redes sociais. Para integrarmos a manada, o gado nos impõe sua visão de mundo, que, em muitos casos, contraria o bom senso, a ciência e pode ameaçar a vida dos membros do rebanho. E, como seus algoritmos insistem em nos manter dentro de “bolhas”, perdemos as referências com a realidade.


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Isso pode parecer exagero, mas não é!

Entre os dias 20 e 27 de abril, o Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação entrevistou 2.031 pessoas para a sua pesquisa “A Cara da Democracia”. Além de conclusões políticas muito interessantes, o estudo demonstrou que 22,2% dos brasileiros acreditam que a Terra é plana. Isso dá quase 50 milhões de pessoas que deliberadamente rejeitam um fato científico largamente explicado e observado.

Anteriormente, em julho de 2019, outro levantamento indicava que “apenas” 7% dos brasileiros então acreditavam nessa barbaridade e outros 3% diziam não saber qual era a forma do mundo. Ou seja, em quase dois anos, a quantidade de brasileiros que cometem esse atentado científico, que já era gigantesco, triplicou!

A pesquisa “A Cara da Democracia” traz ainda outras informações muito preocupantes, e que impactam de maneira mais decisiva nossa vida. Por exemplo, 50,7% dos brasileiros acreditam que o novo coronavírus foi criado pelo governo chinês e 56,4% acreditam que os hospitais são pagos para inflar o número de pacientes mortos pela Covid-19.

Esses últimos dados são gravíssimos pois estão associados à crença em notícias falsas que efetivamente colocam a vida das pessoas em risco, como se recusar a se vacinar, usar máscaras, praticar o distanciamento social, ou acreditar que drogas como cloroquina e ivermectina combatem a Covid-19.

Segundo o instituto, isso escancara como a desinformação cresce de forma galopante no Brasil, especialmente entre aqueles que se informam por redes sociais, mais notadamente Facebook, WhatsApp, Instagram e YouTube. A situação é ainda mais grave entre eleitores de Bolsonaro, pois o presidente é um notório detrator da ciência e de fontes confiáveis de informação, fazendo uso das redes sociais para disseminar todo tipo de notícia errada e teorias da conspiração.

 

A desinformação não escolhe vítimas

Muitos podem argumentar que apenas pessoas ignorantes, com baixa escolaridade acreditam e vivem de acordo com essas coisas estúpidas. Mas não é o caso: entre os negacionistas e os conspiradores contra a ciência, há de tudo, inclusive gente muito estudada. E é por isso que a situação é dramática!

Conheço profissionais da saúde que, a despeito de todas as indicações da comunidade científica e até de fabricantes, continuam acreditando na cloroquina como remédio contra a Covid-19. Outros se negam a se vacinar, afirmando que os imunizantes não funcionam ou até são perigosos! Por outro lado, médicos contrários a esse uso da droga entram na Justiça contra colegas e associações de classe.

Esse “racha” entre os profissionais da saúde piora ainda mais a situação das pessoas, que não sabem em quem acreditar. Nessa semana mesmo, uma amiga, que trabalha em um hospital, me disse que se recusou a tomar a vacina a que tinha direito. Outra, que contraiu a doença, me perguntou se deveria tomar cloroquina ou ivermectina.

É de se perguntar como profissionais da saúde, que deveriam ser os primeiros a abraçar o que a ciência diz, se deixam levar por essas aberrações que apenas atendem a interesses políticos. Não são culpados: é aí que entram as redes sociais, que dão voz tanto a quem constrói o discurso negacionista, quanto ao “gado” que o distribui.

Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha Nazista de Hitler, dizia que uma mentira dita uma vez é apenas uma mentira; já uma mentira dita mil vezes se torna verdade. Mas hoje, com as redes sociais, as mentiras são ditas não mil, mas milhões de vezes!

 

O risco da conformidade

Em uma das cenas mais emblemática do filme “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), o professor Keating, vivido por Robin Williams, faz um interessante exercício com seus alunos para ilustrar os perigos da conformidade, ou seja, os riscos envolvidos quando abandonamos nossas convicções ou até a ciência para fazer parte do grupo.

Ele fez três alunos darem voltas ao redor do pátio. No começo, cada um andava à sua maneira, mas rapidamente todos alinharam seus passos e o estilo. Mais que isso: os demais alunos, que assistiam, começaram a espontaneamente bater palmas, marcando o ritmo das passadas. Ninguém determinou aquilo: aconteceu naturalmente.

Apesar de ser um exercício singelo, ele explica muito bem o que vivemos hoje. Todos querem voltar a ter uma vida “normal”, a trabalhar ou estudar sem medo, a se encontrar com os amigos e a família, a se divertir. Mas a pandemia continua a todo vapor, com números de novos casos e óbitos altíssimos!

Como não temos como controlar o incontrolável, abraçamos qualquer coisa que nos aqueça o coração e justifique fazermos o que quisermos. Infelizmente essa fórmula mágica não virá de cientistas, de profissionais da saúde ou de professores sérios, pois simplesmente não existe. Mas virá de um presidente ou de um tio negacionista no grupo da família no WhatsApp, o que já basta, porque as pessoas acreditam no que elas quiserem ou no que lhes convier.

Elas querem uma saída rápida para seus problemas. Abraçarão tudo e todos que lhes acenarem um caminho e combaterão qualquer um que irritantemente insista na verdade. O problema é que, como vemos diariamente, a saída mágica pode levar o indivíduo ao caixão.

Quando vejo que 50 milhões de brasileiros acreditam que a Terra é plana, temo que estejamos rumando para uma nova Idade das Trevas, em que a verdade será combatida sistematicamente por grupos que se alimentam de mentiras e por uma massa controlada, cuja única preocupação é um ‘”lugar no céu quando morrer”.

Temos que ser “renascentistas” que lutam contra esse mal supremo! Não podemos render nossas convicções, nossa inteligência e nosso senso crítico a quem nega os fatos, a ciência, a vida para garantir seus interesses. E devemos ajudar quem estiver a nossa volta a não cair nesse poço sem fundo.

Caso contrário, se os negacionistas vencerem, jogarão a humanidade para um novo período de obscurantismo e de retrocesso. E já tivemos mil anos disso na Idade Média.

 

Estamos nos aproximando de “The Walking Dead”

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Na noite desse domingo, foi ao ar o último episódio da décima temporada da série “The Walking Dead”, a mais vista na TV aberta americana. Apesar de ser uma obra ficção, ela assustadoramente guarda algumas semelhanças com a nossa situação atual, e podemos aprender algo com isso.

A realidade dos episódios é determinada por um vírus que transforma pessoas em zumbis, que coloca a humanidade de joelhos. Mas, assim como se observa em nossos atuais dias sombrios, na história, o que mais assusta não é a doença, e sim a desunião entre os sobreviventes, que pode representar uma ameaça à humanidade ainda maior.

Concordo que um mundo dominado por mortos-vivos comedores de gente pode parecer ainda mais dramático que a destruição real provocada pela Covid-19. Mas, na série, os sobreviventes se organizam em clãs para garantir recursos em detrimento de outros humanos. Por outro lado, o que vivemos é potencialmente muito mais perigoso, com uma determinação crescente de muitos em negar o conhecimento e a verdade para alguns poucos serem beneficiadas às custas das demais.

As narrativas negacionistas começaram com temas que pareciam fanfarronices de um bando de paspalhos, como acreditar piamente que a Terra é plana no século XXI. Mas ela evoluiu para absurdos como pessoas que se negam a tomar qualquer tipo de vacina, por acreditar que fazem mal à saúde. Esse caso específico se tornou dramático diante da pandemia, ao ser cruzado com interesses políticos de grupos no poder, que incendeiam seus seguidores contra o imunizante para atacar adversários e até tentar um desequilíbrio geopolítico mundial.

E as pessoas acreditam neles!


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Em “The Walking Dead”, alguns humanos não veem nenhum problema em matar outros sobreviventes para se apropriar de seus recursos. Diante de uma situação de crise extrema, a sociedade e qualquer senso de civismo desaparecem, dando lugar à completa barbárie.

Guardadas as devidas proporções, isso não é muito diferente do que vivemos hoje. Quando um líder ataca vacinas, combate o uso de máscaras e critica abertamente medidas de distanciamento social, ele efetivamente manda milhares de pessoas à morte para garantir seus interesses mesquinhos. E quem acredita nele segue suas ordens, feito zumbis que precisam satisfazer uma necessidade única.

Como se pode ver, isso não se trata de um mero exercício mental.

Há alguns dias, tive acesso ao estudo “Enfrentando as ameaças à tomada de decisão com base em informações em sociedades democráticas”, do grupo de pesquisadores liderado por Elizabeth Seger, da Universidade de Cambridge (Reino Unido). Organizado pelo Programa de Defesa e Segurança do Instituto Alan Turing, o órgão de ciência de dados e inteligência artificial do Reino Unido, o documento demonstra o mecanismo de ataque deliberado à capacidade da população de adquirir conhecimento.

“A pandemia de Covid-19 deixou uma coisa clara: é muito difícil coordenar o comportamento de uma sociedade inteira, mesmo quando se trata de uma questão de vida ou morte”, explicou Seger em artigo publicado na BBC. Ela cita justamente a recusa de uma parte considerável da população a se vacinar como algo que coloca em risco a vida até dos vacinados e a própria manutenção da sociedade.

Segundo ela, “mesmo que estivesse claro como salvar o mundo, um ecossistema de informações degradado e não confiável poderia impedir que isso acontecesse”. A equipe de pesquisadores usou o termo “segurança epistêmica” para definir a capacidade não apenas de garantir a segurança do conhecimento, mas também de adquirir informações de qualidade.

 

Os ataques ao conhecimento

A equipe liderada por Seger definiu quatro principais ameaças à segurança epistêmica. E nenhum deles pode ser creditada ao acaso.

A primeira é a ação das pessoas a que chamaram de “adversários” e “trapalhões”. Eles podem interferir nos processos de tomada de decisão pela desinformação ou outras ações. Os primeiros são indivíduos que deliberadamente manipulam informações, promovem ataques ou incitam seus seguidores para confundir ou enganar a população para atingir seus objetivos. Já os “trapalhões” são aqueles que, de maneira inocente e até bem-intencionada, espalham essas bobagens, como aquela turma no grupo da família no WhatsApp.

Outro problema é o excesso de informação a que somos submetidos, nem todas elas confiáveis. Essa abundância faz com que nossa atenção fique dispersa, tornando mais difícil garantir que as informações essenciais cheguem a quem precisa. O modelo de negócios da “economia da atenção”, usado pelas redes sociais, que direcionam nosso olhar ao que lhes interessa, torna isso ainda mais dramático. Nossa capacidade limitada de concentração dificulta separar uma verdade de uma porcaria. E os produtores de fake news se valem disso.

As pessoas também se acostumaram a rejeitar informações que desafiam seus pontos de vista. E, se houver uma forte identidade no grupo, ela leva a uma maior polarização e negacionismo. Diante da sobrecarga de informações, prestamos mais atenção a quem pensa igual a nós. Isso cria o que os pesquisadores chamaram de “racionalidade limitada”, pois só crescemos quando somos expostos justamente a pensamentos conflitantes.

Por fim, as tecnologias de mediação e produção de informação tornam mais difícil avaliar a confiabilidade das fontes. Tendemos a confiar mais em alguém da nossa comunidade ou em quem muitas pessoas confiam. Com as redes sociais, esses mecanismos perdem força diante das manipulações dos algoritmos feitos por grupos de poder.

 

Resgatando a verdade

Os pesquisadores afirmam que os ataques à segurança epistêmica não podem ser combatidos com iniciativas pontuais, pois as causas estão disseminadas pelas mentes da população. Por isso, esse esforço precisa ser multidisciplinar e ter um caráter “holístico”, totalmente abrangente e interligado.

Para eles, esse resgate passa por desenvolver métodos para dificultar as ações de “adversários” e de “trapalhões”, enquanto se ajuda as pessoas a identificar mais facilmente fontes de informação confiáveis. Da mesma forma, essas boas fontes devem receber apoio da comunidade.

O documento explica que os “adversários” são capazes de mudar suas estratégias rapidamente e que, por isso, devem estar sempre sendo monitorados e combatidos com iniciativas atualizadas contra suas ações nocivas. Elas precisam necessariamente ser conduzidas por profissionais de diferentes áreas do conhecimento.

Há alguns dias, enquanto revia a montagem de Andrew Lloyd Webber de “O Fantasma da Ópera”, alguns versos da canção “A música da noite” me saltaram aos ouvidos. Neles, o personagem do Fantasma dizia o seguinte:


Feche seus olhos
Pois seus olhos só dirão a verdade
E a verdade não é o que você quer ver.
No escuro é fácil fingir
Que a verdade é o que deveria ser.

Sinto que essa é a realidade que grande parte de nossa sociedade vive. Precisamos lutar pela segurança epistêmica de todos nós, com todos os recursos que tivermos.

Como estão os seus olhos: abertos ou fechados?

 

O valor da notícia que informa você

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Na semana em que o Brasil teve mais de dez mil mortos pela Covid-19, Bolsonaro disse para a população “parar de mimimi” e questionou “até quando as pessoas vão continuar chorando”, ao invés de “enfrentar o problema de peito aberto” e sem “frescura”. Para a maioria das pessoas, essas bravatas são um ataque frontal à vida. Mas há uma fatia considerável da sociedade que não apenas concorda com ele, como o defende.

Como explicar essa polarização em um caso tão extremo e literalmente de vida ou morte?

A resposta passa por outra doença crônica do nosso país, que também se agrava: a maneira ruim como as pessoas se informam. Isso se deve não apenas pela escolha de fontes questionáveis de notícias, mas também como elas chegam até nós, o que hoje acontece majoritariamente pelas plataformas digitais. As duas coisas desempenham igualmente um papel crítico na guerra da desinformação.

Para “combater esse bom combate”, existem, portanto, três atores principais: os veículos de comunicação, as big techs e nós mesmos, o público. Cada um tem seu papel e seus interesses nesse cenário, mas inimigos em comum: a desinformação e as fake news. Para vencê-las, é preciso que os três trabalhem em conjunto, fazendo adaptações e concessões.


Veja esse artigo em vídeo:


Quando isso não acontece, surgem os efeitos nefastos, como os que estamos vivendo. Não se engane: a qualidade da informação que você consome tem um efeito decisivo na sua vida. Essa afirmação pode soar óbvia, mas, às vezes, o óbvio precisa ser reforçado.

A desinformação não é naturalmente um fenômeno exclusivo do Brasil, mas o fato de ser muito forte aqui explica, ao menos em parte, o fato de estarmos na contramão do mundo no combate à pandemia. Como mostrou a manchete do Estadão desse domingo, dos dez países com mais mortes pela Covid-19, oito registram queda na média móvel de novos óbitos e um, a Índia, tem alta de 8,9%, enquanto, por aqui, esse indicador subiu 30,5%.

Isso acontece porque o tripé entres produtores, distribuidores e consumidores de notícias está desequilibrado. Enquanto as empresas de comunicação sérias se esforçam para produzir um conteúdo de alta qualidade, mas sofrem para impactar uma parcela grande da população, as plataformas digitais atingem virtualmente todo mundo, mas distribuem uma enorme quantidade de porcaria. O público, por sua vez, consome qualquer coisa que lhe é apresentada, tornando-se presa fácil da desinformação.

As empresas de comunicação e as plataformas digitais são um tipo especial de empresa, pois suas atividades influenciam profundamente a vida das pessoas. Portanto, precisam assumir com seriedade seu papel social. Claro que, como qualquer empresa, têm seus objetivos comerciais, mas eles não deveriam jamais se sobrepor ao que melhora a sociedade.

 

Simbiose informativa

Isso nos leva a um intenso debate sobre a eventual obrigação das redes sociais e de buscadores remunerarem as empresas de comunicação por usarem os conteúdos jornalísticos nas páginas dessas plataformas.

A origem desse debate remonta à criação do Google Notícias, serviço noticioso do buscador, lançado em 2002. A partir das notícias de veículos do mundo todo, ele cria um “jornal digital” personalizado para cada usuário.

Os produtores de informações sempre reclamaram que o Google criou um produto com seu conteúdo, sem pagar nada por isso. Ele, por sua vez, se defende dizendo que não tem nenhum ganho direto com a plataforma e que, na verdade, aumenta a audiência dos veículos, pois, se alguém clica em uma notícia, cai direto nela, no site ou aplicativo do produtor.

Com o tempo, essa cisma se expandiu também para as redes sociais, pois seus feeds são inundados de posts com notícias, criados pelos próprios usuários ou pelos veículos. Assim como o Google, Facebook e afins se defendem dizendo que não lucram diretamente com esses links, e que ainda aumentam a audiência dos produtores do conteúdo.

Mas a coisa não é tão simples assim.

O físico britânico Tim Berners-Lee, que criou a Web há 30 anos, já afirmou que um link não carrega em si conteúdo ou valor autoral, pois ele simplesmente leva o usuário de uma página para outra. Isso reforça os argumentos de defesa das plataformas digitais.

Por outro lado, dizer que não ganham nada com essas chamadas de conteúdo alheio é uma falácia! Podem até não ter ganho direto dali, mas elas aumentam a percepção de valor de toda a plataforma pelos usuários, aumentando até mesmo o valor dessas marcas bilionárias.

Há alguns anos, a organização Pew Research Center publicou um estudo que demonstrava que a maioria das pessoas não entra no Facebook para consumir notícias, porém, quanto mais tempo elas ficam nele, mais notícias consomem. Mais que isso: elas se engajam mais com notícias vistas a partir da rede social. Trata-se, portanto, de uma relação simbiótica, de ganho mútuo. E, como tal, todos os envolvidos precisam colaborar entre si.

Há ainda um outro fator a se considerar nesse embate. Os veículos de informação tradicionalmente tinham duas formas de financiamento: a assinatura de seus produtos e a publicidade. As plataformas digitais praticamente acabaram com esse modelo de negócio.

Do ponto de vista da publicidade, muitos anunciantes preferem agora colocar seu dinheiro nas redes sociais e nos buscadores, que custam menos e podem trazer melhores resultados, se bem usados. Quanto às assinaturas, muitas pessoas não se sentem mais atraídas a pagar pela informação, pois o meio digital inundou suas vidas com conteúdo, por mais que a maioria seja ruim.

 

Quem paga a conta?

Diante disso, as big techs vêm sofrendo pressões de conglomerados de mídia e de governos para remunerar os produtores de conteúdo. E, a contragosto, têm se rendido a elas.

No mês passado, um episódio foi emblemático. Depois de o governo australiano introduzir um projeto de lei que obrigaria o Facebook a pagar por todos os posts noticiosos em suas páginas no país, a empresa bloqueou a exibição de qualquer material jornalístico a usuários australianos. Além disso, usuários do mundo todo deixaram de ver material de veículos daquele país. Quatro dias depois, o bloqueio acabou após o governo fazer concessões à empresa de Mark Zuckerberg. O Facebook, por outro lado, se comprometeu a remunerar produtores no mundo todo, anunciando que investirá US$ 1 bilhão no setor jornalístico nos próximos três anos.

A Alphabet, controladora do Google, enfrenta pressões semelhantes e também chegou a ameaçar interromper seus serviços na Austrália pelo mesmo motivo. Mas, assim como o Facebook, a empresa também fechou um acordo de pagamento pelo conteúdo, como vem negociando no mundo todo, inclusive no Brasil. Também no mês passado, ela anunciou um grande acordo com o conglomerado de mídia News Corporation, do magnata Rupert Murdoch, para usar o conteúdo de seus diversos veículos, entre eles “The Wall Street Journal”, “The Times” e “The Sunday Times”. Vale dizer que Murdoch sempre foi um ferrenho crítico do meio digital, como algo que destruía o valor de seus negócios.

As empresas de comunicação, por sua vez, precisam abandonar o papel de vítima, que não lhes cai bem. Em parte, estão nessa situação porque, quando o meio digital ainda se consolidava, se recusaram a adaptar seus modelos de negócios a um público em rápida transformação. Agora “perderam esse bonde” e dependem umbilicalmente das plataformas para que seu conteúdo de qualidade chegue ao público. Basta observar que a audiência de suas home pages desaba há anos, pois as pessoas chegam diretamente às notícias a partir de buscadores e redes sociais.

Sei que em um ambiente de capitalismo selvagem, as boas intenções costumam ser colocadas de lado e até ridicularizadas. Mas, como disse antes, essas empresas têm um papel social que está na essência de seus negócios e podem se beneficiar mutuamente do trabalho umas das outras. Portanto, precisam aprender a colaborar mais.

Quanto a nós, o público de todo esse conteúdo, cabe escolher e incentivar aqueles que realmente produzem bom jornalismo. Apesar de estar “fora de moda”, assinar uma ou mais publicações melhorará nossa visão de mundo e ajudará quem trabalha contra a desinformação. Do lado das plataformas digitais, como inevitavelmente continuaremos consumindo conteúdo por elas, precisamos reforçar o nosso senso crítico, para não acreditarmos em qualquer porcaria ali.

Caso contrário, se nenhum desse atores fizer a sua parte, continuaremos vendo pessoas apoiando a morte e se negando a tomar vacinas, temendo virar jacaré.

Blockchain vai muito além de criptomoedas e pode até ajudar a combater “fake news”

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“Vai falar de Bitcoin?”

A provocação de José Luiz Goldfarb, diretor da EDUC (Editora da PUC-SP), reflete a visão limitada que a população tem sobre a tecnologia blockchain. Isto, quando se tem qualquer noção sobre ela!

É verdade que, de longe, o uso mais popular do blockchain recai sobre as chamadas “criptomoedas”, métodos de troca de valores descentralizados, cujo maior expoente é o Bitcoin. Mas, como ficou claro na transmissão moderada por Goldfarb no dia 15, essa tecnologia possui muitas outras aplicações, tão ou mais interessantes que essas moedas digitais.

O evento marcou o lançamento do livro “A Expansão Social do Blockchain” pela EDUC. A obra foi organizada por Lucia Santaella, coordenadora do programa de pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP.

“Embora o tema seja jovem, penetrar em seus meandros se torna imperativo, quando seus efeitos começam a se fazer sentir na vida”, justificou Santaella. “A expectativa era que essa tecnologia fosse capaz de criar um novo modelo de internet, porque esse que está aí, principalmente no que diz respeito a redes sociais, fracassou”, explicou.

A obra aborda usos do blockchain em áreas como a crise de confiança da sociedade, “fake news”, integridade de dados pessoais nas redes, aprendizagem e –claro– criptomoedas e meios de pagamento digitais. Trata-se de uma compilação de artigos dos membros do grupo Sociotramas, organizado por Santaella, que reúne pesquisadores de diferentes áreas e instituições para discutir temas ligados a redes sociais (conheça aqui os coautores e detalhes da publicação).

Quatro dos coautores participaram da transmissão, abordando o tema de seus respectivos artigos. Magaly Prado, por exemplo, falou sobre como o blockchain pode ser usado para combater as “fake news”, as infames notícias falsas. “Uma plataforma descentralizada visando usar a tecnologia blockchain em nome do jornalismo é louvável e torna as informações de uma rede independente de redações mais confiáveis, preponderante em tempos de reputação baixa por conta da desinformação desembestada”, explicou.

 

Confiança, “fake news” e integridade

Marcelo de Mattos Salgado trouxe uma análise sobre a crise de confiança que afeta, de modo geral, o mundo ocidental –e como o blockchain se encaixaria neste cenário. Segundo ele, “talvez a crise de confiança seja movida, pelo menos em parte, pela referida automatização dos processos de segurança, como o blockchain, que efetivamente substitui os elos de confiabilidade, tão humanos”.

O combate às “fake news” também foi abordado por Kalynka Cruz-Stefani. “O meu trabalho tem uma visão analítica sobre esse sistema de propagação de ‘fake news’”, explicou. “Estudos mostram que, a partir de 2023, 30% delas serão descobertas e combatidas pelo blockchain”,

Por fim, Paulo Silvestre esclareceu como essa tecnologia pode ajudar na integridade de informações pessoais nas redes, hoje totalmente pulverizadas e controladas por grandes empresas e instituições. “Nós garantimos, usando o blockchain, não só a integridade dos dados, como também que temos o controle de nossa própria informação”, explicou. Além disso, usos criativos fazem com que isso esteja de acordo com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), que entrou em vigor no Brasil em setembro.

O livro já está disponível como e-book ou para ser lido no leitor eletrônico Kindle. A versão impressa estará disponível a partir de janeiro, pela EDUC.

“A inteligência humana tem caminhos misteriosos”, disse Santaella. Em linha com os outros autores, ela acrescentou que “o grande afetado pelas redes sociais, “fake news” e pós-verdade é o jornalismo, e nós não podemos viver sem jornalismo”. A professora concluiu dizendo que “quando nós perdemos a confiança nele, o que nos resta para conhecer o que de fato aconteceu?”

Você pode acompanhar a íntegra em vídeo do lançamento do livro “A Expansão Social do Blockchain” na TV PUC. Ainda, saiba como foi a apresentação de Maria Collier de Mendonça sobre o livro no XIII Simpósio Nacional da ABCiber.


* colaborou Marcelo de Mattos Salgado

Precisamos muito de uma boa imprensa

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Bater na imprensa virou esporte nacional, especialmente das alas mais conservadoras da sociedade. Graças aos recursos das redes sociais, governos aqui e lá fora conseguiram colar, nos veículos que lhes fazem oposição, etiquetas de que a mídia é mentirosa e contrária aos interesses do país e do povo.

Para piorar a sua situação, muitas empresas de mídia andam “derrapando” em sua cobertura jornalística, o que mina a confiança de seu público, já corroída pelos ataques, e oferece mais munição a seus detratores. Mas atacar a imprensa sem refletir sobre o esse ato é a pior coisa que uma pessoa pode fazer: na prática, enfraquece a instituição que lhe protege dos poderosos -ou deveria fazer isso.


Veja esse artigo em vídeo:


Como chegamos a esse cenário em que as pessoas não confiam mais na imprensa? Isso é um enorme risco para a democracia, em que toda a sociedade perde!

O que deve ser feito para se restabelecer essa relação de confiança que sempre existiu e ajudou o país a se desenvolver e modernizar?

No dia 22 de agosto, a “Folha de S.Paulo” fez um editorial sob o título “Jair Rousseff”. O texto se referia ao desequilíbrio das contas públicas no governo de Dilma e à inclinação de Bolsonaro de ir pelo mesmo caminho.

A despeito dos argumentos do editorial, a fusão dos nomes de Dilma e de Bolsonaro provocou enorme indignação. Afinal, misturou-se uma pessoa que foi vítima de tortura -um dos piores crimes da humanidade- com uma pessoa que não tem o menor pudor de promover publicamente torturadores.

Isso causou a reação de autoridades e de jornalistas, inclusive dentro da própria “Folha”. A crítica mais contundente veio em um artigo de Janio de Freitas, um dos maiores nomes do jornalismo nacional, que não poupou o veículo.

Freitas lembrou ainda outro infame editorial da “Folha”, intitulado “Ditabranda”, de 17 de fevereiro de 2009. Naquele caso, o jornal sugeriu que a ditadura mais recente do Brasil, a dos militares (1964 a 1985(, teria sido menos mortífera que a dos outros regimes militares latino-americanos do mesmo período, e a comparou com a situação na Venezuela na época.

Oras, não existe ditadura boa, nem sequer “menos pior”. Todas são horríveis por definição, pelo simples fato que eliminam direitos fundamentais da sociedade. Da mesma forma, não dá para misturar em um mesmo saco Jair Bolsonaro e Dilma Rousseff, por possíveis semelhanças nos desequilíbrios das contas de seus governos.

E não estou aqui defendendo ou atacando nenhum dos dois.

Não se pode relativizar a importância da vida e da liberdade. Assim como não se pode tentar agradar todo mundo.

Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém!

Esses são apenas alguns exemplos de mancadas que veículos de comunicação podem cometer -e cometem. Ao fazer isso, eles afugentam seu público, perdem seu apoio e oferecem argumentos para aqueles que querem o fim de uma imprensa livre e forte, pois acham que ela só os atrapalha.

A impossibilidade de uma boa imprensa dócil

Todo governo gostaria de ter uma imprensa dócil e que sempre o enaltecesse. Mas, se um veículo de comunicação fizer isso, não é jornalismo: é relações públicas.

Um dos argumentos da turma -seja conservadora ou progressista- que ataca a imprensa é dizer que os veículos de comunicação mostram tudo que os governos fazem de errado e não mostram o que eles fazem de bom. Só que isso é uma falsa polêmica.

Entre as funções de uma imprensa séria, estão informar e formar o cidadão. Deve protegê-lo dos interesses de grupos de poder -seja ele político, econômico ou ideológico. Deve fiscalizar o poder.

Sempre!

A imprensa pode falar de coisas positivas que governos fazem. E ela fala, claro que fala! Mas essa turma gostaria que falasse muito mais. Ou só falasse da parte boa.

Para isso, o governo tem a máquina pública de propaganda, que é gigantesca, “A Hora do Brasil”, milhões e milhões de reais para publicidade, em que infla o que faz de bom e mente sobre o que faz de mal. Todo governo é assim!

À imprensa cabe, portanto, mostrar o que incomoda os poderosos, todos eles! Portanto, se não estiver incomodando, não está fazendo um bom trabalho.

Como disse certa vez o grande cartunista e jornalista Millôr Fernandes, “imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados.”

A imprensa brasileira tem batido mais nos governos nos últimos 18 anos. Mas acho que têm batido pouco! Tem que ser mais incisiva!

Todos os governos erram, fazem coisas ruins. É natural isso! Cabe ao jornalista mostrar tudo isso, até mesmo para que o governo possa se corrigir.

E não podem tem medo de se posicionar! Pelo contrário: o veículo e o jornalista devem deixar claro no que ou em quem acreditam.

O que não quer dizer ignorar ou calar o outro lado. Muito pelo contrário: deve dar voz ao outro lado, sim, mas defender o seu ponto de vista, com fatos e argumentos sólidos.

Na ânsia de serem democráticos, muitos veículos abrem espaço para opiniões divergentes, o que é ótimo! Mas perdem sua capacidade de se posicionar sobre qualquer tema. Tornam-se uma coisa sem opinião e sem graça.

Isso não pode acontecer, pois o seu posicionamento influencia a sua capacidade de informar e de formar o cidadão. Além disso, ao não se posicionar, isso permite que governos se façam ainda mais de vítimas, dizendo que são perseguidos, quando é exatamente o contrário que acontece.

O jornalismo tem que se posicionar!

Por exemplo, na última quinta, no Jornal da Live, que faço no LinkedIn, defendi a necessidade de as pessoas se imunizarem contra o Covid-19 quando uma vacina estiver disponível. Usei argumentos da ciência, justificando porque isso é essencial. Também expliquei por que algumas pessoas não querem se vacinar. Demonstrei como o governo pode legalmente obrigar a vacinação. Contei até o episódio da Revolta da Vacina, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1904: naquele ano, a população se recusou a tomar a vacina contra a varíola e teve até quebra-quebra nas ruas da então Capital Federal. O governo da época acabou recuando da obrigatoriedade, mas isso matou 6.400 pessoas apenas na cidade, quatro anos depois.

Ou seja, abri o espaço para quem não quer se vacinar. Mas deixei claro que sou a favor da vacinação de todos, e defendi meu ponto de vista com fatos.

A imprensa pergunta; o governo responde

A imprensa brasileira bate muito menos no governo que a americana, considerada uma das melhores do mundo. Somos até cordiais com os governantes!

Nos Estados Unidos, os jornalistas não têm o menor problema de colocar o presidente da República contra as cordas e cobrar dele respostas a suas perguntas, mesmo as mais incômodas. E o presidente tem que responder: é o seu papel! Se não responde, é execrado publicamente, com razão.

E que sorte os americanos têm de sua imprensa agir assim! Sem isso, o moralismo latente ganharia força no populismo dos governos. E aí, os Estados Unidos deixariam de ser a maior potência do mundo para ser uma nação retrógrada e fadada ao obscurantismo político, econômico e cultural.

Já viajei por muitos países e sempre gosto de observar como é sua imprensa. É absolutamente claro como sociedades mais desenvolvidas têm imprensas mais livres, mais fortes e mais responsáveis. E a recíproca também vale!

Hoje é 7 de setembro, dia da independência do Brasil. Por isso, resolvi promover esse debate. Não é uma conversinha que só interessa a jornalistas, e sim um posicionamento cívico. Todos nós temos um papel nisso, para o futuro da democracia e até da manutenção de uma sociedade decente.

À imprensa, cabe buscar um jornalismo muito melhor que o que já faz, mesmo aqueles que já estão trabalhando bem. Tem que apurar melhor, apresentar melhor. O foco deve ser sempre seu público, e não qualquer outro interesse. Seu papel é fazer bom jornalismo, sem se render a fórmulas fáceis. Ao fazer isso, resgatarão o respeito público, e seus negócios melhorarão.

Ao governo, tem que parar de se fazer de vítima e de jogar a população contra a imprensa, só para poder continuar realizando o que bem entender. Se fizer bem o seu trabalho, se cometer menos desmandos, as críticas naturalmente diminuirão.

Quanto a nós, o leitor, o espectador, o internauta, cabe fugir das “fake news” e valorizar quem está pelo menos buscando fazer um bom jornalismo. Cabe a nós acreditar menos em quem bate na imprensa. Cabe a nós não nos deixar enganar e entender que precisamos de uma imprensa forte e livre para o desenvolvimento de toda a sociedade.

Todos nós e cada de um de nós tem o seu papel.

Querem calar suas redes sociais

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Uma nova batalha ocupa as redes sociais, afetando profundamente o cotidiano de todos nós, pela importância que elas ocupam em nossas vidas. Dessa vez, ela vem de políticos, que usam seus apoiadores nas mesmas redes, robôs e a força do cargo para tentar piorar o nível das discussões e até censurar essas plataformas.

O exemplo mais recente desse embate aconteceu na semana passada, porque o Twitter começou a marcar publicações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, limitando as suas visualizações, por enaltecerem a violência.

Isso deixou Trump furioso!


Veja esse artigo em vídeo:


O Twitter sempre fez vista grossa aos impropérios de Trump e de outros líderes mundiais em sua plataforma, mesmo quando violavam seus termos de uso. Na avaliação da empresa, apesar dessa violação frequente, essas mensagens tinham valor como notícia, então as toleravam.

Só que, por muito menos, usuários comuns eram banidos da plataforma!

Agora a empresa resolveu mudar e endurecer contra esses políticos. Em represália, Trump assinou, na quinta passada, uma ordem executiva que poderia, na prática, regular as redes sociais e intervir no que se publica nelas. Em outras palavras, para combater o que ele chama de censura a suas publicações, Trump promete censura e outras retaliações contra as redes sociais, e não apenas o Twitter.

O presidente americano diz que quer eliminar o viés político nas redes. Na verdade, quer eliminar o que for contra ele nesse ano em que tenta a reeleição, deixando o caminho livre para continuar falando o que quiser.

As regras das redes sociais são claras sobre o que se pode postar ali: não aceitam “fake news”, incentivo a violência, terrorismo, racismo, ações contra a vida e a saúde.

Especialistas afirmam que Trump não pode fechar empresas que não estejam violando a lei. E mesmo a censura que ele quer fazer não deve passar, pois bate de frente com a chamada Primeira Emenda, que protege a liberdade de expressão nos Estados Unidos.

Sem falar que ele depende totalmente dessas redes para governar e se reeleger. Trump só está onde está graças ao contato que ele tem com seus apoiadores via Twitter.

No Brasil, a história é muito parecida. Nas últimas semanas, Bolsonaro teve várias mensagens apagadas pelo Twitter por violar as suas regras, com notícias falsas sobre o Covid-19. Antes dele, isso só tinha acontecido com chefes de governo nos casos de Nicolás Maduro, da Venezuela, e do aiatolá Khamenei, do Irã. Outros políticos brasileiros também já tiverem conteúdos removidos, como Flávio Bolsonaro, Ricardo Salles e Osmar Terra. Bolsonaro também já teve conteúdos eliminados no Facebook e no Instagram, segundo a empresa por “causar danos reais às pessoas”.

Bom, daí surgem as grandes perguntas! Será que essas ações das redes sociais são um ataque à liberdade de expressão? Se forem, será que governantes podem promover represálias contra as redes sociais porque seus conteúdos estão sendo eliminados? E como ficamos todos nós, os usuários das redes, no meio disso tudo?

O fato é que as redes sociais, e o Twitter principalmente, são essenciais para a eleição dessas pessoas, além da sua própria manutenção no governo.

A política dessas plataformas de até então tolerar as publicações incendiárias desses grupos permitiu que essas pessoas crescessem em popularidade e atingissem seus objetivos. Por conta disso, agora as redes têm que lidar com suas plataformas terem se tornando oceanos de desinformação e de ódio, em um nível que representa uma ameaça à sociedade organizada.

Esses grupos sabem usar e abusam desses recursos como ninguém. Combinam “fake news”, discursos de ódio e um incrível entendimento dos algoritmos de relevância das diferentes redes para espalhar seus conteúdos com o uso de robôs e de influenciadores. Por isso, qualquer coisa que ameace essa operação é uma ameaça real a seus planos de poder.

Sem as redes sociais, eles não são nada!

Ao assinar a ordem executiva na quinta passada, Trump disse que estava fazendo aquilo para “defender a liberdade de expressão”. Isso, por si só, já são “fake news”! Liberdade de expressão não implica poder falar o que quiser, atacar pessoas, grupos ou instituições, disseminar informações que coloquem em risco a saúde da população ou até a democracia.

“Fake news” não são liberdade de expressão: são crimes!

A desinformação é uma das maiores mazelas do planeta atualmente, com potencial de destruir a sociedade e matar pessoas, como literalmente está acontecendo na pandemia do Covid-19. Basta ver as ações e os resultados no combate à doença no Brasil e nos Estados Unidos comparados a, por exemplo, a Nova Zelândia, que já praticamente eliminou o vírus em seu território ao seguir rigorosamente as indicações da ciência. E só agora o país da Oceania está flexibilizando as regras de distanciamento, e de maneira bem lenta.

Portanto, liberdade de expressão não prevê que o indivíduo possa falar absolutamente qualquer coisa, pois muitas coisas que são faladas constituem crimes definidos no Código Penal. E, em tempos de redes sociais em que os algoritmos de relevância se tornaram gigantescas caixas de ressonância de qualquer ideia, isso se torna ainda mais grave!

Por isso, as redes sociais podem e devem -sim- coibir essa prática! Isso inclui eliminar ou limitar publicações de qualquer pessoa, mesmo de presidentes, que violem seus termos e o próprio conceito de civilidade.

E uma última ressalva, que precisa ser feita: os grupos conservadores acusam as redes sociais de perseguição política, pois são os que têm mais publicações eliminadas. Só que o combate às “fake news”, a desinformação, ao discurso de ódio deve ser feito igualmente contra todos que pratiquem isso. Se há mais publicações do grupo A sendo eliminadas que as do grupo B, é porque o primeiro abusa muito mais dessas práticas.

Assim sendo, nenhum governante ou grupo de poder pode legitimamente tentar cercear as redes sociais por elas eliminarem suas publicações que promovem esses atos nocivos à sociedade. Isso é uma intimidação digna de uma ditadura, usando recursos ilegítimos e prejudicando toda a população.

E nós, os usuários, o que podemos fazer para ajudar?

Em primeiro lugar, precisamos parar de acreditar em tudo o que vemos nas redes sociais. Por mais que apoiemos um político, devemos ser críticos ao que ele publica, pois muitos fazem qualquer coisa para se manter no poder.

Nós somos a chave para combater as “fake news”. Se não interagirmos com elas e principalmente se não as compartilharmos, elas perdem a força! Verifique meios de comunicação sérios, consulte agências checadoras de fatos antes de espalhar qualquer coisa. Uma notícia falsa raramente resiste a uma busca bem feita no Google.

Esse é o nosso papel para garantirmos que as redes sociais não apenas continuarão funcionando, como ainda se tornarão um ambiente melhor para todo mundo.

O escritor e filósofo italiano Umberto Eco - Foto: reprodução

Desculpe, Umberto Eco

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Em junho de 2015, eu discordei de Umberto Eco. Agora, cinco anos depois, eu quero pedir desculpas por isso. Não pelo ato de discordar dele, mas por não ter percebido o que ele viu corretamente lá atrás.

Na ocasião, quando recebeu o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura na Universidade de Turim (Itália), o escritor e filósofo italiano discursou dizendo que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” Afirmou ainda que “eles eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Na ocasião, achei que Eco tinha exagerado na dose. Vi, em suas palavras, uma certa intolerância, que não combinava com ele mesmo. Na minha filosofia, em que todos devem ter o direito de falar e que crescemos justamente ao contrapor discordâncias, aquilo estava errado. Por isso eu o critiquei.

Mas o mundo mudou muito de lá para cá. Dramaticamente!

A polarização tomou conta do discurso público. A sociedade se entrincheirou em extremos cada vez mais distantes, deixando, entre eles, uma terrível “terra de ninguém ideológica”, onde qualquer um que se aventurar ali, tentando buscar o diálogo ou conceitos conciliadores, será brutalmente alvejado pelos dois lados.

O problema é que, como a Primeira Guerra Mundial demonstrou, em uma guerra de trincheiras, você pode ficar meses, anos imobilizado. Pior ainda: enfiado em um buraco, dividindo o espaço com ratos e todo tipo de coisa ruim. Exatamente onde grande parte da população está hoje.

Umberto Eco viu isso antes.

Em um 2015 que parece absurdamente distante agora, as pessoas ainda dialogavam, por mais que discordassem. Os governos de extrema-direita faziam muito barulho, mas poucos danos. Barack Obama ainda seria o presidente dos EUA por mais um ano e meio. O Brasil apenas começava a cavar o seu buraco político, que nunca mais parou de cavar desde então, e que já está chegando à China. Ainda existia um diálogo minimamente civilizado, e a educação, a ciência e o jornalismo eram pilares da sociedade.

Então vieram as fake news, a eleição de Trump, a Cambridge Analytica, os ataques à educação, à imprensa, à ciência e às artes, a desinformação, e duas eleições brasileiras. E a sociedade civilizada foi ladeira abaixo em apenas cinco anos.

Daí veio o Covid-19, como um enorme “freio de arrumação” para escancarar, com seus mais de 350 mil mortos oficialmente contabilizados (100 mil nos EUA e 25 mil no Brasil, até agora), como Umberto Eco estava certo

A verdade passou a ser combatida, assim como todos aqueles que a buscam. A principal arma desses soldados é um caldo de ódio mais espesso que asfalto quente.

Nesta segunda, Globo, Folha e Band informaram que seus jornalistas não mais comparecerão ao “cercadinho do Alvorada”, espaço que o governo lhes destinou para ouvir Bolsonaro e uma turma de seguidores, que fica no espaço ao lado, lhes insultar e agredir.

A barbárie, a insanidade, a intolerância avançam, passando por cima de qualquer um que não queira se submeter a esse poder dos “idiotas da aldeia”. Esses, por conveniência ou ignorância, pisoteiam em qualquer um na “terra de ninguém ideológica”, esmagando seus ossos enquanto alvejam e são alvejados pela turma da trincheira adversária.

Suprema antecipação do desastre que se avizinhava, Umberto Eco concluiu que “os jornais devem filtrar as informações da Web com uma equipe de especialistas”. E eles vêm tentando fazer exatamente isso. Aliás, fazia tempo que eu não via um jornalismo com um nível médio tão alto, como o praticado nessas últimas semanas. Pena que a turma das trincheiras olhe para isso e veja o contrário.

Umberto Eco faleceu oito meses depois, em fevereiro de 2016. Não teve que conviver com seu acerto. Penso que, nesse caso, foi uma benção.

Não sei se existe um prazo para pedir desculpas, mas espero que esses cinco anos caibam dentro dele. Umberto Eco estava certo: a Internet promoveu os idiotas da aldeia a portadores da verdade.

Os demais seguem caminhando na “terra de ninguém”, tentando reconstruir uma sociedade melhor e mais justa para todos.


E aí? Vamos participar do debate? Role até o fim da página e deixe seu comentário. Essa troca é fundamental para a sociedade.


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O meio digital pode lhe deprimir ou curar: depende de você

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Vivemos uma corrida para nos destacar nas redes sociais. Alguns fazem isso por trabalho, outros para satisfazer o ego, e há ainda aqueles que simplesmente querem aceitação do seu grupo social, ainda que inconscientemente. Nem sempre as coisas saem como queremos. Em uma sociedade já bastante digitalizada, esse “fracasso” pode gerar tristeza, angústia, ansiedade e até depressão.

Nesse cenário, uma das principais ferramentas para construirmos nossa imagem digital é o que publicamos nas redes. Isso gera uma avalanche de conteúdo, com a qual não conseguimos lidar, aumentando ainda mais os sentimentos acima. Para piorar, as “fake news” aparecem como alternativa, pois, como normalmente têm grande apelo, acabam seduzindo aqueles que não conseguem aparecer com seu próprio conteúdo e, por isso, as espalham.


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


Em uma aula em 2018 com a professor Lucia Santaella, que foi a orientadora do meu mestrado e é uma autoridade internacional em semiótica, ela disse uma coisa que me marcou muito: “As redes sociais não criam nada novo, mas fazem tudo acontecer de maneira mais intensa e em um tempo menor.”

Ou seja, os fatos acontecem no seu ritmo. Mas, com o meio digital, somos bombardeados com uma quantidade enorme e crescente de informações. Antes de assimilarmos uma notícia, já temos que lidar com outras três. E esse volume cresce assim exponencialmente.

Daí vem a ansiedade.

A crise do coronavírus é um ótimo exemplo. Trata-se de uma doença perigosa e precisa ser observada com seriedade. Mas não é o apocalipse zumbi! A crise da SARS, em 2002, por exemplo, foi mais grave e a humanidade não pereceu.

O problema é como isso chega nas redes sociais. Tenho observado muita gente acreditando e espalhando todo tipo de notícia falsa, especialmente no Facebook e no WhatsApp. Nessas horas, aparecem os vivaldinos que querem ter ganhos econômicos ou políticos, distorcendo os fatos a seu favor. E há aqueles que simplesmente passam informações erradas ou inócuas, por ignorância ou má fé mesmo.

Vi gente conclamando a população a aumentar o consumo de vitaminas, para evitar a contaminação. E alguns “figurões” (estão mais para figurinhas mesmo) espalharam até que a Fundação Bill e Melinda Gates, do fundador da Microsoft, teria patenteado o coronavírus em 2014, com o objetivo de redução populacional!

Sério mesmo?

Crescimento da intolerância

Vivemos um momento triste da história, de polarização extrema, de violência, de intolerância e de donos da verdade pipocando de todos os lados. E todos esses sentimentos e essa percepção são alimentados por nós mesmos nas redes sociais!

A sensação que dá é que o mundo está piorando ao longo do tempo. Mas, na verdade, está melhorando! Não me refiro a esse ano, ao ano passado, aos últimos cinco anos: estamos em um momento de crise, de piora mesmo. E isso contamina a nossa percepção, porque estamos literalmente vivendo todos esses problemas na nossa pele, todos os dias.

Eu quero dizer que está melhorando ao longo de décadas!

Por exemplo, segundo o IBGE, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer chegou a 76,3 anos em 2018. Em 1900, esse indicador era de míseros 33,4 anos! Isso acontecia porque a medicina era muito pior, não havia remédios e vacinas como hoje (nem antibióticos), as pessoas não se alimentavam tão bem, e as condições de trabalho também eram muito piores.

Mas essa melhora não foi exatamente linear. Teve altos e baixos. Se olharmos de longe o gráfico, eles não aparecem tanto. Mas, se aproximamos com uma lupa, vemos que existiram anos de mais sofrimento e outros de mais bonança. A diferença é que essa percepção, no passado, era menos intensa, inclusive porque não havia tantos veículos de comunicação. Hoje vivemos tudo isso com muito mais intensidade.

Por isso, digo que os jornais hoje contam os fatos do dia, mas, quando olhamos um noticiário consolidado do passado, eles se tornam “livros de história” incrivelmente detalhados. Isso ficou muito claro quando eu tive o prazer de ser o gerente do projeto que criou o Acervo Estadão, digitalizando todas as páginas do jornal, fundado em 1875.

Então, para que todos vivam melhor, precisamos cuidar de como usamos o meio digital. Sem falar que o que publicamos, mesmo que seja uma singela foto, constrói a nossa imagem digital. E, em uma sociedade permanentemente online, a nossa imagem digital é a nossa principal imagem!

Portanto, “não alimente os trolls”! Não acredite em qualquer coisa, especialmente se vier de pessoas que vivem de atitudes extremas e radicais, de “fake news” e cortinas de fumaça. Não se informe pelo WhatsApp!

Precisamos usar esse incrível poder que todos nós temos, nas redes sociais, para construir algo que não seja bom só para nós mesmos. Quando aproveitamos o meio digital para construir algo que ajude muita gente, que busque uma sociedade mais justa, equilibrada e verdadeira para todo mundo, nós não apenas melhoramos a nossa imagem, como também diminuímos essa ansiedade imensa em que vivemos.

E aí, prontos para isso?

A busca pela verdade

By | Jornalismo | No Comments

Como você se informa? Será que a fonte é confiável ou você está sendo enrolado?

A verdade é essencial para a manutenção da vida e para que possamos nos desenvolver como pessoas e como profissionais. Entretanto, muitas pessoas preferem encontrar mentiras confortáveis para pautar suas decisões.

A busca pela verdade passa pela escolha de nossas fontes de informação. Estudo da Universidade de Oxford (Reino Unido) e do Reuters Institute for the Study of Journalism indica que o brasileiro é o povo que mais se preocupa com as “fake news” no mundo (85%). Paradoxalmente, é um dos que mais se “informa” com fontes pouco confiáveis, como WhatsApp e Facebook (53%). O estudo também indica que a imprensa é a fonte preferida por pessoas com mais escolaridade e em ambientes menos polarizados política ou ideologicamente.

E isso faz todo o sentido! Em países com governos autoritários, como os Estados Unidos, a Venezuela e o Brasil, a imprensa vem sendo fortemente combatida e desacreditada pelos governantes, que querem terreno livre para fazer o que bem entenderem. Claro: uma das principais funções da imprensa é justamente fiscalizar desmandos dos poderosos.

Muitos podem argumentar que a imprensa não é confiável, por ser falha e até “vendida”. Não se pode generalizar! É verdade que algumas empresas de comunicação fazem um mau trabalho, deixando de servir o público. Mas essas estão quebrando! Em contrapartida, há muitos veículos que buscam a verdade com apurações bem feitas, com ética e com seriedade. Esses representam ótimos caminhos para quem busca a verdade.

Veja no meu vídeo abaixo como identificar fontes confiáveis que podem ajudar você a também buscar a verdade. E depois compartilhe conosco nos comentários suas percepções sobre esse cenário em que vivemos.



Assista ao meu vídeo da semana passada, que explica tudo sobre “deep fake” a tecnologia que está se popularizando e permite a criação de vídeos absolutamente convincentes com pessoas fazendo e falando coisas que nunca fizeram. A tecnologia é impressionante, mas cria uma série de preocupações éticas: https://www.linkedin.com/posts/paulosilvestre_deepfake-fakenews-fraude-activity-6619912426118750209-Qg6Y

Veja o resumo do “Digital News Report 2019”, feito pelo Media Lab Estadão. O estudo é realizado anualmente pela Universidade de Oxford e pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, sobre o consumo de notícias digitais nos principais países: https://on24static.akamaized.net/event/20/39/69/5/rt/1/documents/resourceList1562351951904/ebookv61562351865480.pdf

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O ano do “deep fake”

By | Tecnologia | No Comments

Hoje o ano se inicia para valer! E faz isso com o alerta de algo que pode “bagunçar o coreto”, especialmente em um ano eleitoral: o “deep fake”. Trata-se de uma tecnologia capaz de criar vídeos absolutamente convincentes com pessoas agindo ou dizendo coisas que nunca fizeram.

Viabilizada pela inteligência artificial e pelas milhões de imagens nas redes sociais, ela chegou a uma tal sofisticação, que nem especialistas conseguem identificar um vídeo verdadeiro de um falso.

Quer entender como ela é feita e ver alguns exemplos? É só assistir ao meu vídeo abaixo:



As fotos e vídeos nas redes sociais são importantes porque servem como base para “calibrar” o sistema de reconhecimento fácil. Todos os rostos têm pontos específicos que servem para os identificar, quase como se fosse uma impressão digital. É assim que, por exemplo, o Facebook consegue saber instantaneamente quem está conosco nas fotos que subimos na rede social.

A inteligência artificial usa essa informação para que o computador aprenda como o rosto de uma pessoa se comporta, como ele fica em cada pose possível. A partir daí, ele consegue sintetizar, com incrível precisão, a imagem de qualquer pessoa realizando movimentos e falando coisas que outra pessoa -um “modelo”- executou em outro vídeo.

Essa tecnologia já é usada há anos por Hollywood em filmes como “Star Wars”, “O Senhor dos Aneis” ou “King Kong”. Mas lá são sistemas caríssimos e extremamente complexos. A diferença é que o “deep fake” pode ser realizado em um computador doméstico, com software gratuito. E qualquer um pode se tornar vítima disso hoje.

Surge a pergunta: como evitar que isso aconteça?

Tudo isso ganha ainda mais relevância se considerarmos que estamos em um ano eleitoral. É só pensar no estrago que as “fake news” vêm fazendo desde antes das eleições anteriores. E, diante do “deep fake”, as infames notícias falsas parecem brinquedo de criança.

O problema é mais grave que muitos podem perceber a princípio. Várias tentativas estão sendo feitas para “separar o joio do trigo”, mas infelizmente elas têm falhado na tarefa. A própria inteligência artificial que viabiliza o “deep fake” virou ferramenta, mas os resultados são frustrantes. Há ainda iniciativas “malucas”, como obrigar que todas as câmeras criem um “selo de autenticidade digital” nas imagens que produzirem ou que ainda as pessoas registrem continuamente o que fizerem, onde e com quem estiverem.

No final das contas, a solução mais razoável é a mesma que a das “fake news”: educar a população. O problema é que, se falhamos miseravelmente nessa tarefa, que dizer agora com o “deep fake”, muito mais convincente que escandalosos postagens falsas distribuídas pelo Facebook e pelo WhatsApp?

Uma vez mais, a responsabilidade para encontrar a verdade no meio de um mar de mentiras recai sobre a boa imprensa. Somente ela, tem esse poder, fazendo investigações reais, no mundo real, indo atrás da informação real.

Muitos podem dizer: “mas a imprensa é vendida e falha!” Há empresas e veículos que infelizmente são mesmo. Mas há também aqueles -e não são poucos- que, se não são infalíveis (pois isso não existe) buscam fazer um trabalho sério.

Quer saber quem está trabalhando bem? Veja quem é mais vítima dos ataques de governantes. Quanto mais atacados, provavelmente melhor o trabalho jornalístico. E, se o mesmo veículo for atacado por adversários políticos, então o trabalho deve estar sendo bem feito mesmo!

Só assim, teremos mais chance de não sermos feitos de bobo!


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Ataques a reputações nas redes sociais colocam toda a sociedade em risco

By | Tecnologia | No Comments

O uso crescente das redes sociais para destruir reputações de adversários começa a colocar em risco a própria sociedade. Isso acontece porque tais ataques se baseiam em uma eficiente manipulação dos algoritmos e em uma avalanche orquestrada de “fake news”.

Como resultado, a população começa a perder as referências para construção de confiança em pessoas, instituições e empresas. O risco para a comunidade existe porque, pela nossa natureza humana, só conseguimos construir algo com pessoas em quem acreditamos.

Oras, se não confiamos em mais nada e em mais ninguém, nos afastamos da nossa própria evolução! O mais triste é que isso acontece porque somos alegremente manipulados por grupos que promovem esse movimento para ampliar seus privilégios e aumentar seu poder.

Como exemplo, na semana passada, assistimos a tentativas nefastas de desmoralizar a ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, após sua participação na cúpula do clima da Organização das Nações Unidas.

Precisamos reforçar nosso senso crítico, para que não sejamos mais peões nesse xadrez político e econômico! Veja como no meu vídeo abaixo. E depois conte a todos o que faz para escapar das “fake news” e das manipulações.



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Reflexão: como destruir a verdade confundindo a mente das pessoas

By | Educação | No Comments

Guerra é paz.

Liberdade é escravidão.

Ignorância é força.

Acha que tem algo de errado nessas frases?

Elas decoram o Ministério da Verdade, um dos quatro do governo totalitário do Grande Irmão, presente no livro “1984”, de George Orwell (lançado em 1949), que aparece acima. Usei a imagem no meu vídeo dessa segunda, em que fiz uma análise sobre as novas formas de controle do cidadão por governos (veja em http://paulosilvestre.com.br/videodebate-o-governo-esta-de-olho-em-voce/).

Desde então, ela não sai da minha cabeça! O Big Brother manipulava todos pelo uso intenso de câmera, distorção do que as pessoas liam e do que elas aprendiam. O recurso da contradição, presente naquelas frases, é usado por Orwell em várias partes da obra para demonstrar como a própria percepção de realidade pode ser destruída nas pessoas.

Assim, o Ministério da Verdade manipulava as informações (fake news?), o Ministério da Paz cuidava da guerra, o Ministério da Fartura dizia que a economia ia bem, enquanto gerenciava a fome do povo, e o Ministério do Amor espionava e torturava a população.

Maquiavel lançou “O Príncipe” em 1532 como um guia para se chegar e se manter no poder. Você acha que “1984” está se tornando o livro de cabeceira de cada vez mais governantes atuais?