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A difícil arte de ser verdadeiro e não agradar

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Há uma piada que circula pelas redes sociais que diz que ninguém é tão popular quanto parece ser no Facebook, nem tão bonito quanto no Instagram, tão bem-sucedido quanto no LinkedIn ou tão sucinto quanto no Twitter. Brincadeiras à parte, você tem a sensação que as postagens nas redes sociais estão ficando muito parecidas umas com as outras?

Não é só pela ação do algoritmo de relevância, que joga na nossa cara apenas aquilo que se parece conosco. Isso é resultado de um fenômeno em que as pessoas querem agradar o outro a qualquer custo. Fazem isso para conseguir um emprego novo ou mais clientes, para brilhar no seu grupo de amigos ou pela necessidade da gratificação fugaz e às vezes patológica de receber “curtidas”.

Fica difícil ser feliz com essa compulsão em agradar, mesmo que, para isso, tenhamos que mentir sobre nós mesmos. E isso se manifesta com ainda mais força nas redes sociais, que premiam quem é raso, porém alinhado com a massa. Viramos marionetes de uma sociedade de pensamentos únicos, em que, para ser aceito, é preciso “mugir no mesmo tom da manada”.

Até onde vai essa loucura?


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Por exemplo, em outubro, a organização internacional Artigo 19 divulgou relatório que demonstra que o Brasil teve a maior queda no mundo na liberdade de expressão. Em 2009, o país somava 89 pontos em uma escala de 0 a 100 em liberdade de expressão. Em 2020, somamos apenas 46 pontos!

Com isso, ocupamos a modesta 94ª posição, entre 161 países avaliados, e deixamos de fazer parte do grupo de países classificados como “abertos”. Estamos praticamente empatados com as Filipinas, e abaixo da Hungria e do Haiti. Também estamos atrás de todos os países da América do Sul, exceto a Venezuela.

Algumas pessoas podem contestar esse número, dizendo que, no Brasil, nunca ouve tanta liberdade de expressão, graças às manifestações nas redes sociais. É preciso então explicar o que esse termo significa.

De fato, nunca tanta gente colocou seus pensamentos nas redes sociais. Mas isso não é suficiente para configurar liberdade de expressão. Na verdade, acaba sendo o contrário!

Primeiramente porque grande parte do que propagam são ataques baratos que visam destruir a imagem de outras pessoas, empresas e instituições. Isso pode ser enquadrado em vários crimes, o que, por si só, já contraria o conceito de liberdade de expressão. Além disso, o que essas pessoas falam não são suas ideias: servem apenas de caixa de ressonância para palavras de ordem de grupos específicos, prestando-se a viabilizar seus objetivos. Fazem isso por se alinharem com as ideias desse grupo ou para se sentir parte dele.

Como canta Caetano Veloso, “Narciso acha feio o que não é espelho” As pessoas não querem ser confrontadas com o que lhes incomoda. Por isso, se tornam presas fáceis de quem lhes agrada, mesmo que seja com a mais rotunda mentira!

Precisamos romper esse ciclo destrutivo!

 

Todos podem fazer sua parte

Todos os seres humanos são importantes para a sociedade e têm algo a contribuir. Infelizmente, às vezes essa contribuição pode desagradar alguns, pelo simples fato de os tirar de sua zona de conforto. Porém, se ela for construtiva e não ferir leis, deve ser dita.

É por isso que gênios não se preocupam em agradar ninguém: apenas fazem o que deve ser feito, desde que seja certo. Por outro lado, os inseguros, os que estão encharcados de ódio e aqueles que simplesmente não conseguem sustentar suas ideias sentem que lhes resta recorrer a essas fórmulas fáceis.

Não caiam nessa armadilha!

Fazer parte de uma comunidade é crítico para todos os seres humanos. Mas isso não significa apenas usufruir do que ela tem de bom a nos oferecer. Tampouco significa viver uma existência baseada em atender as expectativas dos outros e muito menos manipular a narrativa para ser servido por eles. É também genuinamente trabalhar para construir e oferecer algo de bom ao outro, mesmo a um desconhecido.

Essa realidade em que vivemos me lembra o roteiro do episódio “Queda Livre”, o primeiro da terceira temporada da série “Black Mirror”. Ele mostra uma sociedade em que as ações de todos podem ser avaliadas pelas pessoas à sua volta ou nas redes sociais. Tais avaliações alimentam uma espécie de placar individual acessível a todo mundo, que influencia decisivamente a vida em sociedade. Por isso, nesse episódio, as pessoas vivem vidas cheias de mentiras e aparências, apenas para ganhar mais estrelas de seus pares.

Aquilo é uma enorme distorção do que deveria ser uma vida saudável em sociedade. Mas eu pergunto: quanta falta para que cheguemos àquilo em nosso cotidiano?

 

Não dá para agradar todo mundo

Precisamos reaprender a ser verdadeiros e solidários, mesmo que isso possa desagradar alguns. Se tentamos agradar a todos, não conseguiremos ser verdadeiros. Corremos o risco de desagradar mais que agradar. Por sempre se ajustar aos desejos alheios, há o risco de se criar uma legião de eternos insatisfeitos, que sempre vai querer mais.

Portanto, ao invés de buscar competição por “estrelinhas” em nosso cotidiano, devemos procurar a evolução de nós mesmos. Ao mudarmos para melhor, o mundo muda junto.

Temos que dar um basta nesse comportamento de “mentiras agradáveis”! Esse é um dos grandes males da atualidade.

Para isso, não se deixar abater pelo que o outro pensa. Não espere e nem tente fazer com que todos gostem de você. Nenhuma das duas coisas é possível!

Quem entende que não é o centro do mundo vê sua percepção se tornando mais positiva. Assim suas atitudes tendem a melhorar. A beleza do mundo floresce quando cada um busca viver sua vida de maneira construtiva dentro da sociedade.

Seja verdadeiro e pratique continuamente o bem, para termos uma sociedade melhor para todos. Talvez até deixe de “ganhar estrelinhas” de algumas pessoas, mas sua vida será mais plena e feliz.

 

Vale a pena ter um carro elétrico no Brasil?

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Na segunda passada, a Ford surpreendeu todo mundo, anunciando que deixará de produzir automóveis no Brasil, interrompendo uma história de mais de cem anos no país. Políticos reclamaram e analistas tentaram justificar a decisão. Mas a resposta é simples: o Brasil deixou de ser interessante para a Ford.

Aliás, não só para ela! A manchete do Estadão desse domingo mostra que o Brasil perdeu 36,6 mil fábricas entre 2015 e 2020, o que dá uma média de 17 fábricas por dia.

A forte desindustrialização, que recentemente também vitimou a produção nacional de eletrônicos da Sony e de carros da Mercedes, é resultado de fatores como o infame “custo Brasil”, a falta de incentivo à inovação, o ambiente empresarial hostil, a baixa produtividade e o próprio mercado retraído. Além disso, o produto brasileiro ficou menos competitivo internacionalmente.

A Ford, por sua vez, tem seus motivos particulares. Um deles é se concentrar em SUVs, veículos que oferecem uma melhor margem de lucro, mas que infelizmente vendem proporcionalmente pouco no Brasil. A outra coisa é seu direcionamento para veículos elétricos. Só que o Brasil ainda patina vergonhosamente nessa tecnologia, enquanto outros países já têm metas aprovadas para eliminação de motores a combustão em veículos novos daqui a alguns anos.


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Por que o mercado de carros elétricos não acelera no Brasil? Vale a pena ter um carro elétrico aqui?

John Rockefeller, magnata americano da indústria petrolífera, dizia que “o melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo bem administrada; o segundo melhor é uma empresa de petróleo mal administrada”. Um século depois, essa frase começa a deixar de ser verdade.

Em novembro, o Reino Unido antecipou de 2035 para 2030 a proibição de carros novos movidos a gasolina ou a diesel, portanto daqui a apenas nove anos. Dois meses antes, o Estado americano da Califórnia já tinha publicado a mesma restrição valendo a partir de 2035. O Japão deve firmar sua data limite para 2030. E a China, o país mais poluente do mundo, deve ter uma regra assim para 2035.

Isso vem se refletindo nas empresas automotivas, claro. Na sexta-feira, o valor de mercado da americana Tesla, maior expoente em carros elétricos, era de incríveis US$ 783 bilhões. Isso é mais do que o valor somado da Toyota, da Volkswagen, da GM, da Ford e da Fiat Chrysler, empresas centenárias, que vendem muitíssimo mais veículos, mas quase tudo ainda movido a combustíveis fósseis.

Isso fez com que Elon Musk, fundador e CEO da Tesla se tornasse o homem mais rico do mundo há 11 dias, tirando a coroa que Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, detinha desde outubro de 2017.

Segundo a consultoria Boston Consulting Group, as vendas globais de modelos elétricos e híbridos passarão dos atuais 10% para 51% em uma década. Isso se as restrições aos combustíveis fósseis e os incentivos à eletrificação se mantiverem, e prevendo o crescimento nas vendas e a queda nos preços dos modelos.

 

Gasolina e diesel resistem

Claro que os postos de gasolina continuarão ocupando as esquinas das cidades por muito tempo. Especialistas estimam que será assim, no mínimo, até 2050, especialmente em países em desenvolvimento, que não incentivam a eletrificação e permanecerão com o legado de uma frota envelhecida e movida a gasolina. É o caso do Brasil.

Tampouco podemos ignorar o lobby da ainda poderosíssima indústria petrolífera, que obviamente não tem nenhuma pressa em ver a frota de veículos se eletrificando.

Por aqui, quem puxa esse cordão é a Petrobrás. A empresa ainda olha de longe a produção de energias renováveis, ao contrário de muitos de seus concorrentes. Ela tem seus motivos, como reservas gigantescas de petróleo e a tranquilidade de que os carros brasileiros continuarão queimando gasolina ainda por décadas. Além disso, a empresa está endividada, o que atrapalha investimentos na diversificação de suas operações. Pelo contrário, a Petrobrás vem se desfazendo de tudo que não seja petróleo e gás.

Faz sentido! Gasolina e diesel representam uma fatia essencial nos ganhos das petroleiras. Metade da produção atual da Petrobrás, por exemplo, é de gasolina e diesel para transporte rodoviário.

Outra coisa que ajuda a manter essa indústria é a melhora na eficiência dos carros atuais, com motores a combustão menores e mais econômicos, sem sacrificar a performance. A indústria petrolífera, por sua vez, melhora a qualidade de seus combustíveis, tornando-os menos poluentes.

Apesar de tudo isso, os carros elétricos vão conquistando seu espaço no Brasil, lentamente.

Temos que pensar também que as matrizes das montadoras aqui instaladas estão migrando para o carro elétrico. Como trabalham com modelos mundiais, fará cada vez menos sentido manter modelos e tecnologias defasadas que não combinem com as dos seus principais mercados.

O brasileiro já tem a sua disposição modelos elétricos das montadoras Audi, BMW, BYD, Chery, Chevrolet, JAC, Jaguar, Mercedes, Nissan, Porsche, Renault e Tesla. O mais barato é o pequeno hatch JAC iEV20, que custa R$ 140 mil. Os modelos mais caros passam de meio milhão de reais.

Ou seja, dá para se ver que o preço é uma fortíssima barreira de popularização dos carros elétricos.

Ainda no governo Temer, a alíquota do IPI (o Imposto sobre Produtos Industrializados) para os veículos elétricos foi reduzida de 25% para uma faixa entre 7% e 20%. Mesmo assim, impostos sobre qualquer carro são muito altos por aqui.

No mercado internacional, o equilíbrio entre os preços de carros elétricos e equivalentes a combustão deve ser atingido em até dez anos. Por isso, incentivos para o comprador também seriam bem-vindos e justificados pelos ganhos ambientais dos veículos elétricos. Na China, por exemplo, quem compra um carro elétrico recebe um incentivo do governo que pode chegar a US$ 10 mil para abater no valor do veículo.

Um outro ponto que precisa ser melhorado é a ampliação de pontos de carregamento rápido em locais públicos e prédios residenciais e comerciais. O carregamento em tomadas comuns é muito lento e caro, o que desestimula a aquisição de um carro elétrico.

Um bom exemplo veio da cidade de São Paulo. Em março passado, foi sancionada uma lei municipal que exige que os novos edifícios residenciais e comerciais prevejam soluções para recarga de veículos. Isso precisa se espalhar para outras cidades, e aos poucos incorporar também imóveis já existentes.

 

Elétrico ou a combustão?

Mas, afinal, vale a pena ter um carro elétrico?

Se você tiver “bala na agulha” para fazer o investimento inicial, a resposta tende a ser positiva, mesmo no Brasil, especialmente se você roda bastante.

O principal ponto favorável certamente é ambiental. Isso se reflete até na saúda da população. Especialistas estimam que a expectativa de vida média do americano deve aumentar em 14 meses pela simples eletrificação da frota automobilística, graças à diminuição dos poluentes no ar que respiramos.

A redução na emissão de gases de efeito-estufa também colabora com a queda da temperatura média global. Vale lembrar que 2020 foi o ano mais quente da história, empatando com 2016!

Outra vantagem é que, apesar de os carros serem mais caros que os equivalentes a combustão, há uma economia a médio prazo. E ela não acontece apenas por deixar de visitar os postos de gasolina: a manutenção dos carros elétricos tende a ser mais barata, pois seus motores são mais simples e não têm componentes de alto desgaste dos motores à combustão.

O silêncio também impressiona. Os ruídos a bordo e externos são muito menores que os de um carro convencional. Isso se deve pela ausência do próprio motor a combustão e sua exaustão, além de outras peças barulhentas.

Essa é, portanto, uma escolha ainda bem pessoal. Tem que rodar muito para que as economias dessa tecnologia paguem a diferença no custo do veículo. Mas temos também que levar em consideração os outros ganhos, não-financeiros, na decisão.

Quanto ao governo, precisa fazer da sua parte para diminuir mais esse abismo tecnológico que temos com os países desenvolvidos. Caso contrário, isso e todos os outros problemas mencionados no começo desse artigo podem mandar embora outras Fords nos próximos anos.

A responsabilidade das redes sociais nos ataques à democracia

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O mundo assistiu horrorizado, na quarta passada, ao Congresso americano sendo invadido e depredado por apoiadores do (ainda) presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O ato, sem precedentes na história do país, se torna ainda mais emblemático porque foi incentivado pelo próprio mandatário, que incendiou a turba, gritando palavras de ordem em frente à Casa Branca, protegido por um vidro blindado.

Mas isso não aconteceu de uma hora para a outra. Foi o dramático clímax de um movimento que se constrói há uma década, com uma hábil combinação de neurolinguagem, observação política, oportunismo e domínio de plataformas digitais.

No centro disso tudo, como principal ferramenta, estão as redes sociais. Tanto que, depois do ataque, Mark Zuckerberg suspendeu as contas de Trump no Facebook e no Instagram até pelo menos a posse de seu sucessor, Joe Biden, no dia 20. Já o Twitter baniu Trump de sua plataforma para sempre. As empresas justificaram as medidas como necessárias para evitar uma escalada ainda maior da violência provocada por Trump.

Mas tais ações pontuais são suficientes? Por que não foram tomadas antes? E ainda outra pergunta que não pode ficar para trás: as redes sociais sairão limpas dessa história?


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Trump sabia exatamente o que estava fazendo, mas para sorte da democracia, seu objetivo fracassou. Infelizmente não sem antes deixar um rastro de destruição e cinco mortos, incluindo um policial.

A pergunta que surge imediatamente nas mentes que separam o certo do errado é: como isso pôde acontecer na autoproclamada maior democracia do mundo e na incontestável maior potência militar da Terra?

Empresas, políticos e grupos de toda natureza descobriram nas redes sociais uma caixa de ressonância para fazer valer suas ideias, mesmo as mais grotescas. Potencializaram o risco de aglutinar um grande grupo de pessoas descontentes ou com necessidades não atendidas, e muito ódio para fazer valer suas pautas.

Trump soube identificar esses elementos no povo americano. Aproveitou-se do fato de os algoritmos de relevância das redes falarem diretamente com as camadas mais primitivas de nosso cérebro, responsáveis pela nossa autopreservação sem recorrer à racionalidade. Com isso, milhões de pessoas passaram a se recusar a ver as verdades que não lhe convinham e a combater qualquer um que dissesse o contrário, a todo custo.

O congressista republicano Mike Gallagher, que apoia Trump, descreveu bem o resultado. Segundo ele, o incidente no Capitólio (como é chamado o Congresso americano) transformou os Estados Unidos em uma “república de bananas”.

Trump digitalizou uma fórmula de dominação de massas há muito conhecida. Trata-se da cartilha escrita por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolph Hitler, usada para legitimar as atrocidades do Fürher. Foi dessa maneira que o povo alemão da época apoiou a política de conquista de outros países, a expropriação de bens dos “inimigos do povo” e o confinamento e posterior extermínio de judeus e outros grupos. Isso parece monstruoso a nossos olhos, mas o que se vê hoje é a mesma coisa, apenas em uma etapa anterior; Por outro lado, atinge escala planetária, graças às redes sociais.

 

Enfrentado o homem mais poderoso do mundo

Bater de frente com o presidente dos Estados Unidos não é tarefa fácil. Agora que Trump dá suas últimas baforadas na Casa Branca, parece que os gigantes do Vale do Silício finalmente resolveram agir.

Ele se faz de vítima, dizendo que está sendo perseguido, que o querem calar. É exatamente isso, mas pelas barbáries que promoveu. E não foi sem lhe emitir diversos avisos prévios.

Trump disse na sexta que criará a sua própria rede social. Ninguém pode impedir uma pessoa de fazer isso, ainda mais um milionário. Mas dificilmente ele repetirá o sucesso que teve nas plataformas globais, com centenas de milhões de usuários.

Além disso, o Vale do Silício resolveu agir também contra os seguidores e contra o próprio discurso de ódio. Por exemplo, no sábado, a Apple e o Google tiraram de suas lojas o aplicativo da rede social Parler. A Amazon, por sua vez, suspendeu a hospedagem do serviço em seus servidores na AWS (Amazon Web Services).

O Parler é uma plataforma que diz se basear na “liberdade de expressão”. Ele se tornou o destino de apoiadores de Trump banidos do Twitter e do Facebook, onde destilam o pior de seu veneno. Além disso, aparentemente a “liberdade de expressão” só existe nele para usuários conservadores. Os progressistas são banidos da plataforma.

Isso não é liberdade de expressão!

É verdade que, para falar, basta te boca. Mas existem leis, e grande parte do discurso desses usuários pode ser facilmente enquadrado em crimes de intolerância, calúnia, difamação, injúria entre outros. Portanto, a liberdade de expressão não dá direito a alguém falar o que bem entender impunemente.

Trump abusou disso, mesmo antes de se tornar presidente. Criou essa máquina de desinformação, que provocou um “travamento cerebral” em grande parte da população. Isso acabou o levando à Casa Branca, onde seus danos foram multiplicados pelo poder natural do cargo.

É verdade que o contexto importa e faz toda a diferença. A invasão do Capitólio fez com que as plataformas se posicionassem diante de algo que elas sempre deixaram passar, apesar de saber que estavam alimentando um enorme monstro, que feria repetidamente seus termos de uso.

Resta agora saber se elas serão coerentes e terão o mesmo comportamento com outras autoridades do mundo que seguem a cartilha trompista, ou se continuarão alimentando esses “monstros regionais”.

O bode está na sala, com seu cheiro insuportável e mastigando o sofá.

 

A responsabilidade pelo que se diz

Todos nós, inclusive presidentes, somos responsáveis pelo que dizemos, pelo que propagamos. Essa é uma responsabilidade que sempre tivemos, mas da qual muitos andaram se esquecendo por influência do falso véu do anonimato das redes sociais e do “efeito manada”.

Se a verdade absoluta é difícil de ser encontrada, temos que, pelo menos, identificar o que é legítimo. E isso se define pela defesa de valores inegociáveis, como o direito à vida, à liberdade, à igualdade e a democracia.

Trump sempre atuou no extremo oposto. Ele chegou a desenvolver uma linguagem própria, que foi mapeada pela linguista francesa Bérengère Viennot. Ela analisou centena de discursos, entrevistas e tuítes de Trump, para escrever o livro “A Língua de Trump”.

A pesquisadora identificou que, para facilitar a compreensão por qualquer um, as falas de Trump têm sintaxe truncada, vocabulário muito raso e repetições incansáveis das mesmas palavras. São carregadas de agressividade, ameaças, ataques à reputação, sexismo e cinismo. E ele nunca se arrepende ou pede desculpas por nada. Do ponto de vista de forma, abusa de aspas, pontuações descontextualizadas e palavras e frases inteiras grafadas em maiúsculas.

Por fim, Trump é seu próprio referente. Ou seja, a única realidade é a dele e quem disser o contrário está automaticamente mentindo, especialmente se for a mídia.

Segundo o Washington Post, depois do ataque ao Capitólio, centenas de funcionários do Twitter exigiram que seus executivos suspendessem Trump permanentemente, classificando as ações da empresa até então como “insuficientes“. Os funcionários também solicitaram uma investigação sobre os últimos anos de ações do Twitter, que culminaram no ataque.

As redes sociais devem mesmo ser responsabilizadas pelo que está acontecendo. Trump as utiliza há uma década para promover o ódio, a segregação, o ataque a instituições democráticas e à ciência.

Seu legado é o de muita gente achar que pode fazer qualquer coisa, porque seriam “ungidas” por um suposto direito que as colocaria acima de tudo e de todos, e que suas ideias e suas vontades seriam mais importantes que as do próximo. Mais que isso: qualquer coisa que fizerem estaria automaticamente perdoado pelo usurpado conceito de “liberdade de expressão”.

A sociedade e a democracia se enfraqueceram. O Capitólio depredado não é causa, e sem sintoma desse processo, para não deixar nenhuma dúvida do caminho que infelizmente a humanidade está tomando.

Somos seres viáveis apenas enquanto nos organizarmos em uma sociedade construtiva, colaborativa e tolerante.

Trump deve ser apeado do poder por mecanismos legítimos, mesmo que isso lhe abrevie em apenas um dia seu mandato. Será um importantíssimo símbolo de que ninguém está acima da lei e nem pode fazer tudo, nem os presidentes.

Quanto às redes sociais, devem indubitavelmente arcar com o seu quinhão nesse ataque à democracia.

A volta dos “Loucos Anos 20”

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Estamos começando não apenas um novo ano, mas uma nova década

Muita gente acha que pode ser uma reedição dos “Loucos Anos 20”, como ficaram conhecidos aqueles que aconteceram há cem anos. Depois de uma pandemia e uma guerra que devastaram o mundo, aquela década foi marcada por grandes avanços culturais, artísticos e científicos. Foi um período de alegria, com muitas festas, muita liberação e muito sexo, quase uma jornada hedonista!

Agora estamos passando por uma pandemia, que já matou quase 2 milhões de pessoas no mundo, 200 mil só no Brasil, e continua implacável. A Covid-19 colocou o mundo de joelhos, provocando muita dor, de diferentes maneiras, mudando nossas vidas.

Será que, quando ela passar, viveremos novamente um período de euforia desmedida? O que podemos aprender com os “Loucos Anos 20” da época do charleston e do jazz?


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Os “Loucos Anos 20” –ou os “Roaring Twenties”, como eram chamados nos Estados Unidos– foram uma reação, quase uma libertação das tristezas e das restrições causadas pela Gripe Espanhola e pela Primeira Guerra Mundial.

Na Europa, especialmente Paris (que virou o centro do mundo), em Berlim e em Londres, a alta sociedade e os intelectuais se misturavam ao som do can-can nos cabarés e outros ambientes efervescentes em ideias modernistas. Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, o charleston animava festas imensas, regadas a bebida, drogas e sexo. Isso mesmo em um país onde vigorava a Lei Seca, que proibia a fabricação, venda e transporte de bebidas alcoólicas.

Foi nessa época também que surgiu o jazz. Com seus improvisos e suas influências africanas, nasceu em Nova Orleans e ganhou a América, influenciando a música ocidental.

Tudo parecia possível graças à tecnologia, especialmente os automóveis, as imagens em movimento e o rádio. Houve grande popularização do cinema, cuja grande estrela da época foi Charlie Chaplin. Os filmes deixaram de ser um interesse para aficionados para ganhar as massas e levar milhões às salas de exibição. Eles ainda eram em preto e branco e mudos, por isso as salas tinham espaço para uma pequena orquestra ou pelo menos um piano. Os desenhos animados também se popularizaram, com O Gato Felix sendo lançado em 1919, e Mickey Mouse, no curta “Steamboat Willie”, em 1928.

Os “Loucos Anos 20” também foram um grande momento de avanço para as mulheres. Elas deixaram seus espartilhos para trás e passaram a usar vestidos decotados e na altura dos joelhos. Com cabelos curtos, lábios vermelhos, pálpebras escuras, lançaram um novo estilo, que ficou conhecido como “melindrosas” –ou “flappers” em inglês.

A sua libertação foi muito além! Passaram a fumar em público, a dirigir e a ir à praia de maiô inteiriço, além de conversar livremente sobre sexo, atitudes que escandalizaram os conservadores da época. Em alguns países, como os Estados Unidos, foi quando as mulheres também começaram a votar.

 

Os novos “Loucos Anos 20”

Será mesmo que caminharemos para uma nova versão dos “Loucos Anos 20”, quando a epidemia estiver controlada e a economia do mundo recuperada?

Alguns especialistas acreditam que sim. Nicholas Christakis, professor na Universidade de Yale (EUA) é um deles. Ele lançou recentemente o livro “A Flecha de Apolo”, em que debate justamente a vida durante a pandemia e o que pode vir depois dela.

Segundo o pesquisador, essa não é a primeira grande pandemia que a humanidade tem que enfrentar, apenas a primeira que nós estamos vivendo. Ele explica que, durante as epidemias, verifica-se o aumento na religiosidade, as pessoas economizam dinheiro e ficam avessas ao risco. Quando a ameaça acaba, há uma reação natural de resgate do que foi perdido, com todo mundo buscando experiências sociais.

Christakis afirma que isso vai acontecer de novo agora com a Covid-19. Com os países iniciando a vacinação em massa em 2021, a doença deve estar controlada no ano que vem, e a economia recuperada, segundo ele, em 2024, quando teríamos os “Loucos Anos 20” do século XXI.

Naturalmente o mundo de hoje é muito diferente do que era há um século. E, dentro do que estamos discutindo aqui, as redes sociais têm um papel determinante, agindo como um catalizador.

Há cem anos, os meios de comunicação tiveram papel fundamental para disseminar aquele estilo de vida frenético, principalmente o rádio, os jornais e o cinema. Agora, com o meio digital, tudo acontece de maneira mais rápida e mais intensa.

Muita gente, aliás, parece já estar no espírito dos “Loucos Anos 20”.

A atual pandemia é muito menos devastadora que a Gripe Espanhola, que durou de janeiro de 1918 a dezembro de 1920. Estima-se que o vírus H1N1 tenha infectado, naqueles três anos, 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época.

Não se sabe exatamente quantas pessoas morreram vítimas dele. Os números mais conservadores são de 17 milhões, mas a cifra poder ter chegado a incríveis 100 milhões de mortos. Até o presidente brasileiro da época, Rodrigues Alves, pegou a doença e morreu.

Agora, apesar de a Covid-19 ter travado o mundo, a situação é menos grave, graças aos avanços da ciência e do papel dos meios de comunicação em conscientizar as pessoas. Vale dizer ainda que a tecnologia digital diminuiu –e muito– os estragos na economia, pois muitos negócios continuaram funcionando, mesmo com o distanciamento social.

Também não tivemos recentemente uma guerra absurdamente devastadora, com a Primeira Guerra Mundial, que durou de julho de 1914 a novembro de 1918., matando quase 18 milhões de pessoas, entre civis e militares. Por outro lado, temos a violência disseminada em nossas cidades, deixando os cidadãos em constante estado de alerta.

Não é de se estanhar, portanto, a grande euforia que sucedeu à peste e à guerra, com grandes avanços na cultura, na ciência e nos costumes do século passado.

Apenas para acrescentar alguns feitos além do que já foi dito, na medicina, o médico escocês Alexander Fleming descobriu, em 1928, a penicilina, inaugurando a era dos antibióticos, que salvam incontáveis vidas desde então. O psiquiatra austríaco Sigmund Freud lançou as bases da psicanálise.

Surgiram também os movimentos artísticos, como o dadaísmo, de Marcel Duchamp e, o surrealismo, de Salvador Dalí. Também floresceram, nesses anos, grandes nomes como Joan Miró e Pablo Picasso. No Brasil, em 1922, aconteceu a Semana de Arte Moderna, que levou ao Theatro Municipal de São Paulo artistas plásticos, arquitetos, escritores, compositores e intérpretes, os quais foram recebidos, ao mesmo tempo, com aplausos e vaias.

 

Aprendendo com os erros

Mas nem tudo foram flores. Precisamos aprender com o que deu errado, para não repetir um dos períodos mais negros da humanidade, que sucedeu essa época dourada.

A euforia desmedida terminou na chamada “Grande Depressão”. No final de 1929, os Estados Unidos entraram e profunda crise econômica, com a “quebra” da sua Bolsa de Valores, o que provocou inúmeras falências, desemprego gigantesco e muita miséria.

A reboque disso, houve um aumento da intolerância e da xenofobia, além de uma “caça às bruxas” de movimentos conservadores. Isso culminou com o surgimento da Ku Klux Klan, organização racista que pregava a supremacia de brancos e protestantes.

Na Europa, a crise abriu o caminho para o surgimento de aventureiros políticos nacionalistas, que criaram Estados totalitários e ultraconservadores. Seus maiores expoentes foram o nazismo alemão, liderado por Adolf Hitler, e o fascismo italiano, de Benito Mussolini. E, como se sabe, isso tudo deu na Segunda Guerra Mundial, o conflito mais sangrento da história.

Portanto, sim, é possível que estejamos prestar a entrar em novos “Loucos Anos 20”. Talvez mereçamos mesmo essa alegria, depois de tanto sofrimento.

Mas ainda não chegamos lá: temos um caminho a seguir. A pandemia está longe de acabar, especialmente aqui no Brasil, onde sequer começamos a vacinação.

Há uma poesia do genial Carlos Drummond de Andrade, que é muito apropriada a isso tudo. Ela se chama “Receita de Ano Novo”, e termina com a seguinte estrofe:

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

 

Portanto, vamos gozar dos nossos “Loucos Anos 20”. Mas temos que, antes, fazer por merecer isso.

 

O cinema precisa da sua maior reinvenção desde o VHS

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A recente estreia de “Mulher Maravilha 1984” pode ser um marco para o cinema. Não pela qualidade do filme, mas por ser o primeiro blockbuster a abraçar um formato de distribuição nascido pelos efeitos da pandemia que pode continuar depois dela.

Nos Estados Unidos, maior mercado cinematográfico do mundo, o filme protagonizado por Gal Gadot estreou no Natal nas salas de cinema ao mesmo tempo que na plataforma de streaming HBO Max. E isso provocou muita gritaria!

Afinal, será que os próprios estúdios estão fomentando uma alternativa que poderia, a longo prazo, acabar com as salas de exibição?

Sem trocadilhos, eu já vi esse filme antes. E os cinemas sobreviveram. Mas não sem passar por uma profunda reinvenção, que deixou muitos mortos pelo caminho.


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Novamente a TV se torna uma ameaça real às salas de cinema. E uma vez mais os estúdios podem jogar gasolina nessa fogueira.

As televisões estão cada vez maiores, melhores e, paradoxalmente, mais baratas: telas de até 85 polegadas, imagem brilhante, som cristalino, finas como nosso dedo! E não precisamos mais vender um rim para ter uma em casa.

Do lado do conteúdo na equação, com as salas fechadas por meses, Netflix, Amazon Prime Video, Disney+, Globoplay e afins ocuparam um espaço ainda maior em nossas vidas. Eles oferecem acervos cada vez maiores e melhores. Além disso, se tornaram incríveis estúdios, como ótima produção de séries e também de filmes próprios. Vale lembrar que, em 2019, “Roma”, produção da Netflix, foi indicada a dez categorias no Oscar, incluindo Melhor Filme, e ganhou em três, entre elas a de Melhor Diretor, com Alfonso Cuarón.

Entretanto, faltava uma coisa a esses serviços: terem, em seu portfólio, filmes de ponta junto com o cinema. Quem quisesse ver os lançamentos, necessariamente tinha que sair de casa.

 

Disney e Warner mudam o jogo

Entra em cena a Covid-19, fechando tudo e cancelando as estreias, incluindo algumas produções milionárias.

Diante disso, a Disney fez uma aposta ousada, lançando o live action de “Mulan”, que custou US$ 200 milhões, na sua plataforma Disney+ em setembro, “pulando” as salas de cinema.

Um detalhe: para assistir ao filme, além da assinatura da Disney+, que custa US$ 7 nos Estados Unidos, foi preciso desembolsar outros US$ 30. Resultado: apesar de o Disney+ não divulgar cifras individuais, o mercado estima que a estratégia tenha rendido cerca de US$ 260 milhões no lançamento, além de alavancar o download do aplicativo em 68%.

Como comparação, na mesma época, o filme foi lançado nas salas de cinema chinesas. Apesar de ser o segundo maior mercado cinematográfico do mundo e de, por lá, a pandemia estar controlada, o filme rendeu “apenas” US$ 23 milhões na estreia, considerado pouco.

Corte para a segunda quinzena de dezembro!

Estreia nos cinemas a aguardada sequência “Mulher Maravilha 1984”, depois de vários adiamentos. No Brasil, começou no dia 17.

Mas a grande novidade foi nos Estados Unidos, em que o filme foi lançado no Natal simultaneamente nas salas e na plataforma de streaming HBO Max, sem custo adicional aos assinantes por 31 dias (no resto do mundo, como não há o serviço ainda, fica só nas salas mesmo). A Warner já disse que fará isso com todos seus filmes a serem lançados em 2021, incluindo os aguardados “Matrix 4” e o remake de “Duna”.

Isso enfureceu muita gente, incluindo os artistas e –naturalmente– os distribuidores e os exibidores. Christopher Nolan, diretor do filme “Tenet”, que custou US$ 205 milhões, lançado apenas nas salas e cujos resultados decepcionaram, classificou a ideia como desleal com toda a cadeia, e uma grande perda de dinheiro.

Vale dizer que, em muitos casos, parte dos ganhos de diretores e atores vêm de uma porcentagem das bilheterias. Mas, se não há bilheteria, como eles ficam?

O estúdio, por sua vez, antecipa que 2021 ainda será duro para as salas de exibição. Então quer minimizar os prejuízos, a exemplo do que fez a Disney com “Mulan”: já está decidido!

Para deixar a situação de distribuidores e exibidores ainda mais desesperadora, em agosto, um juiz federal dos Estados Unidos anulou uma lei antitruste que vigorava desde os anos 1940. Ela proibia que estúdios de Hollywood tivessem seus próprios cinemas, para que não controlassem completamente a produção e a distribuição dos filmes. Além disso, em julho, a Universal e a rede de cinemas AMC anunciaram que o intervalo para que um filme chegasse ao streaming após o lançamento em cinemas, a chamada “janela de exibição”, cairia de 75 para apenas 17 dias.

 

Favor rebobinar a fita

Como disse antes, não é a primeira vez que as salas de cinema passam por um desafio assim. Nos anos 1980, não havia Covid-19, nem plataformas de streaming. Naquele caso, a ameaça respondeu por três letras: VHS.

Quem tem mais de 40 anos deve se lembrar do mercado sendo inundado por filmes distribuídos em fitas para videocassetes. Isso, aliás, viabilizou o surgimento de outra indústria milionária que foi enterrada pelo streaming: a das videolocadoras, cujo maior expoente foi a Blockbuster.

O fato é que, na época, muita gente achava mais interessante alugar vários filmes no fim de semana para ver com a família, pelo preço de um ingresso nos cinemas. E as salas começaram a esvaziar!

É preciso deixar claro que a experiência do VHS não era boa: imagem e som ruins em uma tela que, quando muito, tinha apenas 20 polegadas.

Mas a experiência dos cinemas também era ruim: salas pequenas, às vezes mal cheirosas, projeção escuras, sons abafados, poltronas desconfortáveis. Nem a pipoca salvava!

Oras, para ter uma experiência ruim, melhor ter em casa, pagando menos!

Os cinemas tiveram que se reinventar. Dessa época, surgiram os “Cinemarks e os UCIs da vida”, com suas salas incríveis. Muto mais que antes, ir ao cinema voltou a ser algo além de ver um filme: era uma experiência arrebatadora!

Agora estamos vendo um remake daquele filme. A transformação digital de equipamentos e de modelos de negócios trouxe o cinema para casa.

É claro que não é a mesma experiência de ir às salas! Mas, como aconteceu na época do VHS, a experiência doméstica pode ser boa o suficiente para as pessoas não quererem sair de casa.

As salas de cinema terão que se reinventar de novo. Criar algo que definitivamente não se possa ter em casa. Do contrário, correm o risco de virarem um programa apenas para entusiastas. E ninguém dura muito tempo assim.

Resta saber o que farão para que voltem a ser um local de experiência única e sensacional.

Como vencer nosso “vício” em tecnologia

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Pouco antes das 9h da segunda passada, vários produtos do Google pararam de funcionar. Gmail, YouTube, Meet, Drive e até a “lojinha de aplicativos” Play Store haviam caído.

Imediatamente começaram a pipocar nas redes sociais mensagens de usuários preocupados com o problema, pois não conseguiam realizar as suas tarefas cotidianas, que dependem de alguns desses produtos.

Alguns demonstravam até mesmo angústia! Afinal, seu cotidiano está intimamente ligado a serviços do Google ou de algumas outras empresas. Os sintomas eram quase de uma síndrome de abstinência, de um usuário viciado em alguma substância, que, de repente, é privado dela!

Será que é para tanto? Estamos mesmo viciados em tecnologia?


Veja esse artigo em vídeo:


Fiquei pensando em quais são as empresas das quais mais dependo tecnologicamente. E o Google, de fato, lidera essa lista. A começar porque meu smartphone funciona com o Android, o sistema operacional da empresa, que já há alguns anos desbancou o Windows como o sistema operacional mais usado no mundo. Afinal, os celulares se tornaram mais importantes em nosso cotidiano que o PC.

Além disso, tenho conta no Gmail, uso o Meet para mentorias, consultorias, aulas e palestras, armazeno e transfiro arquivos pelo Drive, publico e assisto vídeos no YouTube, fico informado pelo Notícias e armazeno imagens no Fotos. Isso só considerando os serviços que uso todos os dias! Há outros que não uso tão frequentemente, mas que facilitam a minha vida, como o Maps, o Waze, o Tradutor e vários outros. Sem falar, obviamente, no buscador do Google, que uso tanto, que nem saberia dizer quantas vezes por dia recorro a ele.

Logo na sequência, vem a Microsoft. Além do Windows, tem o Office, do qual uso, todos os dias, o Outlook, o Word e o Powerpoint. Tenho e-mail e agenda no Outlook, e armazeno arquivos no OneDrive. Sem falar do LinkedIn, onde sou TopVoice e é a minha principal rede social.

Tem também o Facebook e, em menor escala, a Adobe.

Esses são apenas os produtos dessas empresas que eu uso todos os dias! Qualquer uma delas que fique indisponível, gerará um baita transtorno!

Para algumas, eu pago regularmente assinaturas. Nas outras, o pagamento se dá com o compartilhamento de minhas “pegadas digitais”, que são usadas pelas empresas para nos entregar a seus verdadeiros clientes: os anunciantes. A maioria das pessoas “paga” essas empresas assim, com os seus dados.

Você já pensou o quanto depende delas? Faça esse mesmo exercício e o resultado pode ser surpreendente.

Isso explica por que, quando o Google sai do ar ou quando o WhatsApp é bloqueado por determinação de algum juiz inconsequente (como já aconteceu algumas vezes aqui no Brasil(, as pessoas enlouquecem!

Imagine quem depende umbilicalmente do WhatsApp para trabalhar ou vender, e subitamente o sistema para de funcionar. É uma sensação de completo desamparo, pois não há a quem recorrer!

 

Falta de alternativas

Isso acontece porque colocamos todos os nossos ovos em uma única cesta!

Na nossa vida, temos que ter alternativas para tudo –ou quase. Especialmente para as coisas mais importantes.

No caso da tecnologia, ela se tornou algo absolutamente central. Essas empresas ficaram tão eficientes e tão poderosas, que é quase impossível não dependermos delas em algum momento.

É interessante que nem sempre foi assim. Até o início dos anos 1990, a indústria digital era muito mais pulverizada. Muitas empresas nem eram tão grandes, mas conseguiam um relativo sucesso.

Só que, à medida que algumas foram obtendo mais sucesso, começaram a engolir as menores. Por exemplo, eu me lembro, quando estava no primeiro ano de Engenharia, na Escola Politécnica da USP, que havia um debate entre meus amigos sobre qual plataforma era a melhor: o Windows 3.0 ou o Desqview.

Nunca ouviu falar do Desqview?

Era uma plataforma que permitia rodar mais de um programa ao mesmo tempo, alternando entre eles. Isso parece a coisa mais ridícula, mas, no início dos anos 1990, quando não existia celulares e os computadores ainda eram dominados pelo MS-DOS, isso era um grande feito!

Onde está o Desqview hoje? Sua produtora, a Quarterdeck, foi engolida pela Symantec em 1998.

Alguns poderiam dizer que as coisas são assim mesmo, que esse é o jeito de funcionar do Capitalismo, em que empresas mais bem sucedidas acabam comprando as menores. O problema é quando algumas se tornam realmente grandes demais, e seus tentáculos nos envolvem de uma maneira que não conseguimos escapar. Mais que isso: nós nem queremos escapar!

O segredo do sucesso dessas empresas, de uma década para cá, é seu modelo de negócios. Justamente esse em que podemos usar quase tudo aparentemente de graça, apenas entregando graciosamente as nossas informações e aceitando receber anúncios.

É difícil resistir a isso! Essas empresas nos facilitam muito a vida! E o que nos pedem em troca é visto como justo por quase todo mundo!

É por isso que, quando o cidadão não consegue se defender sozinho, precisa dos órgãos reguladores. O governo americano tem o Google, o Facebook, a Apple e a Amazon na berlinda! Nas últimas semanas, os dois primeiros foram alvos de vários processos, que pedem a venda de alguns de seus produtos-chave, para que fiquem menos poderosos.

 

Dependência química

Mas e quanto a nós? Não podemos fazer nada? Somos mesmo viciados em tecnologia?

Somos –isso sim– incrivelmente dependentes dela como ferramenta de produtividade.

No caso de redes sociais, podemos argumentar que acabamos sendo viciados na dopamina que os microprazeres proporcionados por essas plataformas nos oferecem o tempo todo. Isso eu posso até concordar. É difícil se desvencilhar disso, pois há um processo químico envolvido, mas podemos fazer algumas coisas, sim, para minimizar essa dependência.

Primeiramente, quando algo não funciona, “muita calma nessa hora”! O mundo não vai acabar! Precisamos exercitar a resiliência e a paciência, habilidades que andam meio em baixa há muitos anos.

Há que se buscar alternativas! Aliás, devemos ter essas alternativas definidas antes de termos um problema: o famoso “plano B”.

As pessoas precisam entender também que, às vezes, problemas acontecem fora do nosso controle. Por exemplo, imagine o caso de um vendedor que visita regularmente seus clientes e um dia seu carro não liga de manhã.

É preciso que exista também compreensão e colaboração das pessoas com quem nos relacionamos. Se não pudermos entregar algo porque uma ferramenta essencial está indisponível, um novo prazo deve ser negociado.

A diferença é que, ficando no exemplo de um carro que não pega, quando acontece algo como o que houve como Google na segunda passada, é como se todos os carros da Volkswagen do mundo parassem de funcionar ao mesmo tempo!

Mesmo assim, a vida não vai parar se não conseguirmos fazer log in no Google. Essa dependência está em nossa cabeça e em relações de intolerância entre as pessoas e as empresas.

Se dependemos tanto da tecnologia digital hoje –e isso não vai mudar– precisamos alinhar as nossas expectativas, sermos mais resilientes, mais tolerantes e termos sempre uma alternativa na manga.

Mesmo que seja de outra gigante digital.

Chegará a hora que dependeremos de robôs para nos apaixonar?

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O que faz alguém se apaixonar por outra pessoa?

Essa não é uma pergunta simples de se responder.

Certa vez, disseram para mim que a paixão é um truque da natureza para que continuemos nos reproduzindo. Achei graça na hora, mas, a cada dia que passa, vejo que há alguma verdade nessa frase.

A partir disso, será que dá para automatizar os mecanismos da paixão? O governo japonês acha que sim e está investindo pesado nisso, justamente para aumentar a população do país.

Isso é emblemático! Independentemente da eficiência dessa proposta, será que chegamos ao ponto de precisarmos de um sistema para encontrar a pessoa certa e nos apaixonar? Estamos perdendo a nossa capacidade de gostar de outra pessoa naturalmente?


Veja esse artigo em vídeo:


No Japão, o número de nascimentos caiu 5,8% em 2019, para cerca de 865 mil. É o menor número da história! Entre as explicações para isso, estão a diminuição de casamentos e um aumento na idade que as pessoas se casam.

Para tentar reverter esse quadro preocupante, os governos nacional e regionais preparam um investimento de 2 bilhões de ienes (cerca de R$ 97 milhões) para desenvolver sistemas de inteligência artificial para criar casais compatíveis, transcendendo as combinações mais óbvias dos sites e aplicativos de relacionamento.

De fato, os sistemas atuais não vão muito além de combinar gostos e características. Mas gostar das mesmas coisas está longe de ser suficiente par alguém se apaixonar pelo outro. Na verdade, muitos relacionamentos em que ambos gostam das mesmas coisas simplesmente não evoluem, por isso mesmo!

Há também os “aplicativos de pegação”, cujo maior expoente é o Tinder. Mas a sua proposta é outra. Não digo que pessoas não possam se apaixonar a partir de encontros patrocinados por eles, mas essa não é a ideia a princípio. A “química” entre duas pessoas surge de fatores imponderáveis, combinando elementos aparentemente desconexos.

É muito mais provável o Facebook, com seus algoritmos de relevância criados para nos sugerir conteúdo e vender todo tipo de quinquilharia, descobrir a nossa alma gêmea. Afinal, ele se vale de tecnologias como machine learning, Internet das Coisas, big data, análises preditivas e linguagem natural para “escavar nossas verdades” mais profundas a partir das incontáveis interações no mundo digital.

É curioso que sistemas para encontrar alguém existem desde o começo da Internet comercial. Eu me lembro, lá no grupo pioneiro que criou o Universo Online, em 1996, de participar das discussões para o desenvolvimento do serviço Almas Gêmeas, o avô de todos esses sites. Quatro anos depois, fui o gerente de projetos da versão brasileira do Amor@AOL, da America Online.

Eram sistemas muito, muito simples, que apenas faziam as combinações óbvias. Mas precisamos entender que, naquela época, isso tudo era uma grande novidade. Tanto que, também em 1996, um casal que se conheceu no Bate-Papo do UOL e acabou se casando virou notícia nos jornais: pessoas que se conheceram pela Internet se casam!

Na época, isso era visto até com desconfiança. Hoje estranho é não conhece ninguém online!

É absolutamente comum que se use esses sites e aplicativos para queimar etapas e encontrar rapidamente alguém para o que quiserem. Além disso, eles oferecem uma sensação de que diminuem a frustração de ser rejeitado em uma balada ou no bar.

É uma falsa sensação (vlaro), pois as pessoas continuam sendo rejeitadas, aliás, agora muito mais! Mas, como se tenta a sorte com dezenas de pessoas ao mesmo tempo, mesmo que a maioria diga “não”, alguém acabará dizendo “sim”.

 

A vida imita a arte

Se os sistemas baseados em inteligência artificial entregarem o que prometem, isso pode ser um salto para um patamar muito superior a esses “cardápios de gente”.

A ficção já explora isso há bastante tempo. O episódio “Hang the DJ”, o quarto da quarta temporada da série “Black Mirror”, por exemplo, demonstra o funcionamento surpreendente de um aplicativo de namoro.

Impossível não citar também o filme “Ela” (“Her”, 2013), em que o protagonista Theodore, vivido por Joaquin Phoenix, se apaixona pelo sistema operacional inteligente de seu computador e de seu celular, a Samantha, personificado pela voz de Scarlett Johansson. O que faz Theodore se apaixonar por Samantha não é sua carência, e sim o fato de que o sistema sabe tudo sobre ele, pois acessa todas as suas pegadas digitais. Os dois sempre conversam, e Samantha aprende continuamente do que ele gosta.

Resultado: ela sempre oferece o que ele precisa, mesmo coisas inesperadas. Dá quase para se apaixonar por Samantha só de assistir ao filme, por mais que pareça louco isso. Mas, como diz uma amiga do protagonista, “apaixonar-se é uma coisa louca: é uma forma de insanidade socialmente aceitável.”

Trazendo para a nossa realidade, e se o sistema usasse toda essa inteligência para combinar pessoas?

Pode dar certo mesmo: os sistemas já estão aí disponíveis!

Não é de se admirar que o Facebook tenha lançado, no ano passado, um recurso de Namoro em sua plataforma, ainda que timidamente.

Do jeito que a coisa anda, talvez comecemos a ver sugestões de par ideal em nosso WhatsApp e Instagram, da mesma forma que vemos os stories. Isso se a empresa não for obrigada a vender as duas plataformas, como o governo dos Estados Unidos quer, justamente para diminuir o poder que o Facebook tem sobre os usuários e permitir uma concorrência mais saudável

No final das contas, talvez esses serviços digitais queiram resolver um problema que foi criado, ainda que parcialmente, por eles mesmos. Com tanta velocidade, com tanta oferta, com tantos estímulos o tempo todo e em qualquer lugar, talvez estejamos perdendo algumas capacidades essenciais de nossa humanidade.

Como disse certa vez o filósofo polonês Zygmunt Bauman, “tudo é mais fácil na vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade”. Vivemos na época do que ele chamou de “amor líquido”.

Todos esses recursos digitais onipresentes nos ajudam a encontrar o que buscamos, mas podem nos levar a nos perder em uma sociedade sem rosto, homogeneizada, controlada, viciada em dopamina ao ser exposta apenas ao que cada um gosta. Perdemos nosso senso crítico, porque acreditamos piamente no que dizem ser o certo, sem sequer entendermos do que estão falando.

Com isso, nossa empatia se esvai, assim como a capacidade de identificar o bom e o mau.

E, sem esses recursos, talvez estejamos perdendo os nossos melhores recursos para nos apaixonar, pelo menos de fazer isso sem ajuda.

Que bom que temos a inteligência artificial para nos salvar!

Por que ainda temos chefes tóxicos

By | Educação | No Comments

Que tipo de chefe você tem? Ou que tipo de chefe você é?

Muito se discute sobre a diferença entre um simples chefe e um verdadeiro líder: você já deve ter lido incontáveis artigos sobre o tema.

Infelizmente, nessa pandemia, vimos várias histórias de chefes tóxicos que abusaram de sua posição com seus subordinados em home office. Justamente em um período de grande angústia pela transformação digital forçada e sem planejamento.

Mas uma pesquisa da Fundação Instituto de Administração (FIA) divulgada no mês passado traz um alento sobre as chefias brasileiras. Segundo o levantamento feito com cerca de 150 mil profissionais de mais de 300 empresas de diferentes portes e segmentos no país, os chefes brasileiros são “inspiradores”, “educadores” e “democráticos”.

Se isso já era importante antes, agora, com muitas equipes trabalhando em maneira distribuída, pode significar a diferença entre um time eficiente, entrosado e feliz, e um grupo de pessoas que não conseguem produzir juntas.


Veja esse artigo em vídeo:


Mas o que faz um chefe ser um verdadeiro líder? Por que não temos mais pessoas assim?

Não são só as crianças que aprendem com o exemplo: nós também! No ambiente corporativo, esse exemplo vem do chefe. Infelizmente também podemos aprender coisas ruins com um chefe tóxico.

A função do chefe é coordenar o trabalho de seus funcionários para atingir os objetivos da empresa. Portanto, quando se é subordinado, você é avaliado pela sua performance individual. Quando se é chefe, você é avaliado pela performance da equipe.

Entretanto, a maioria das pessoas assume uma posição de chefia sem ter sido preparada para isso. E daí passa a usar a máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Nada poderia estar mais errado!

E eu posso confirmar isso pela minha experiência pessoal como subordinado e como líder.

Ao longo da minha carreira, trabalhei para empresas bem diferentes, de várias nacionalidades. Tive a alegria de ter ótimos líderes e o desprazer de ter chefes ruins, felizmente mais do primeiro grupo. E posso afirmar categoricamente que os meus resultados e os das empresas como um todo eram muito melhores quando existia uma boa liderança.

Sabe aquela história da diferença entre o chefe e o líder?

O chefe é o que segue a máxima acima. Ele suga o trabalho de seus subordinados, como um parasita corporativo. Nesse cenário, apenas ele cresce, pois não dá visibilidade à equipe.

Essa é uma visão míope desse chefe e do chefe dele, que não percebe o mau instalado ali. Nessa gestão, o funcionário não oferece o melhor que tem. Adquire uma postura reativa de fazer só o que lhe mandam. Ele se desenvolve pouco e, caso acabe sendo chefe um dia, possivelmente repetirá esse padrão, criando um círculo vicioso em que todos perdem.

 

Os tipos de chefes

A pesquisa “FIA Employee Experience”, realizada há 40 anos, comprova que as empresas com melhores resultados são aquelas que têm verdadeiros líderes nas chefias.

Os dados foram coletados em uma pergunta de múltipla escolha. O chefe “inspirador”, aquele que inspira os funcionários e a equipe confia nele, aparece em 26% dos casos. Já 17% dos chefes foram considerados “educadores”, que se focam principalmente em desenvolver a equipe. Os “democráticos”, que consideram a opinião de todos nas decisões, representam 15% das chefias. Todos esses são considerados estilos positivos, somando 58% das lideranças das empresas pesquisadas.

Na ponta oposta, 9% dos chefes foram classificados como “coercitivos”, aqueles que são considerados autoritários e que não ouvem seus subordinados.

No meio do caminho, há ainda dois perfis considerados neutros. O primeiro são os “maternais”, que, segundo a pesquisa, colocam as pessoas em primeiro lugar e evitam conflitos. E, por fim, os “direcionadores”, que têm alto desempenho e cobram o mesmo de sua equipe, pressionando por metas. Cada um apareceu em 10% das respostas.

Os 13% restantes dos respondentes preferiram não classificar o estilo das suas lideranças.

Pode-se argumentar que as empresas que participam desse tipo de pesquisa, que é totalmente voluntária, de alguma maneira se preocupam com o bem estar de seus funcionários e prestam atenção no desempenho de suas lideranças. E isso pode fazer com que tenhamos mais bons resultados que a média de todas as empresas do país, que infelizmente estão longe disso.

Esse é um bom ponto. Entretanto, não desmerece suas conclusões que correlacionam boas chefias com alta performance das equipes e bons resultados do negócio.

Eu já tive o prazer de trabalhar em uma empresa que foi considerada, no ano 2000, uma das melhores para se trabalhar no Brasil: a America Online. Vale dizer que ela chegou a ser considerada a melhor empresa para se trabalhar nos Estados Unidos, na época. Era praticamente uma unanimidade que aquele foi o melhor trabalho da vida de quem passou pela AOL, especialmente a primeira turma, que ajudou a trazer o negócio para o Brasil.

Não era só pela empresa, que oferecia excelentes condições de trabalho e um pacote de benefícios atraente. O principal motivo eram as chefias, que se enquadravam perfeitamente nos papeis de “educadores”, “democráticos” e principalmente “inspiradores”. Era uma corrente de energia positiva que fazia com que os funcionários fossem todos os dias para a empresa com vontade de criar um mundo melhor a partir do resultado de suas atividades.

Quem não quer trabalhar em um lugar assim?

Foi lá que eu tive a líder mais inspiradora de minha vida, que me permitiu conhecer a sua história e descobrir que ela era daquele jeito porque também tinha sido inspirada anteriormente. Foi lá também que tive o meu líder mais democrático, uma pessoa incrível que fazia com que todos oferecessem o seu melhor, ao colocar a equipe no centro das decisões, uma pessoa muito querida que a Covid-19 levou embora há três semanas. Isso nos deixou todos em choque, porque, 15 anos depois daquele trabalho, ainda o queríamos muito bem.

 

As vantagens de um “trem da alegria”

Os exemplos desses e de outros bons líderes que tive me ensinaram como conduzir uma equipe.

Quero que quem trabalhe comigo produza não porque tem medo ou porque está sendo pressionado. Não quero que trabalhem apenas por causa do salário no fim do mês. Para mim, é importante que façam algo que seja importante para si e para a sociedade, que entendam qual é seu papel no negócio e por que são fundamentais para a equipe. Quero que compartilhem comigo seus pensamentos, mesmo os que não forem agradáveis, pois tudo isso é necessário para o conjunto melhorar.

Quando eu finalmente estive do outro lado da mesa, comandando equipes pequenas ou grandes, pude fazer isso. Em todos os casos, eu colhi os resultados esperados.

Eu me lembro de uma colega me dizendo certa vez: “você é a pessoa mais democrática que eu conheço”. Não sei se era para ser um elogio, mas nunca mais esqueci daquela singela frase.

Mas nem todos gostam desse meu estilo. Principalmente nas empresas mais “quadradas” em que trabalhei, isso às vezes era mal visto. Em uma ocasião, um outro diretor veio conversar comigo, na verdade, fazer uma reclamação velada, que meu departamento era um “trem da alegria”, que as pessoas trabalhavam rindo e se divertindo. Eu perguntei por que aquilo o incomodava, se estávamos dando um excelente resultado.

E aí é que está: chefes coercitivos, autoritários não conseguem lidar com uma equipe com autonomia, que trabalha sua liberdade com inteligência, entregando o que deve, sem que alguém os esteja pressionando. Não é de se estranhar que essa empresa, que construiu uma posição de liderança em seu segmento ao longo de décadas, não resistiu aos novos tempos e acabou sendo vendida.

Por isso, salvo talvez entre militares, aquela história de “manda quem pode, obedece quem tem juízo” não tem mais espaço.

As empresas com um futuro brilhante são aquelas que preparam seus funcionários para exercer suas funções com autonomia, eficiência e prazer. Isso não é um “trem da alegria”: ninguém está brincando em serviço, muito pelo contrário!

Esse é o caminho para termos menos chefes coercitivos e mais líderes inspiradores.

Black Friday 2020 deu o tom para o varejo de 2021

By | Tecnologia | No Comments

A Black Friday desse ano confirmou a expectativa de ser a mais digital da história. Mas também foi a que mais nos ensinou, e pode ter dado importantes pistas sobre como será o varejo no ano que vem.

Vários fatores explicam isso, todos eles, de certa forma, ligados à pandemia de Covid-19. A começar porque o varejo físico continua um tanto vazio, pois parte da população ainda prefere evitar compras presenciais. Além disso, muita gente que ainda resistia ou usava pouco o e-commerce abraçou de vez essa modalidade de compras no período de distanciamento social.

Boa parte dessas pessoas descobriu suas vantagens e não voltará atrás. E não tem mesmo como voltar! Mesmo porque o retorno a algo mais parecido com uma “vida normal”, que depende das vacinas contra a Covid-19, pode demorar ainda mais que o esperado: na semana passada, o Ministério da Saúde disse que não haverá vacina para todos os brasileiros em 2021, devemos ficar bem longe disso!

Portanto, essa Black Friday nos mostrou caminhos interessantes, com muitos aprendizados, tanto do lado dos consumidores, quanto dos varejistas. Precisamos estar atentos às mudanças, pois elas podem salvar nosso negócio de agora em diante.


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Na sexta da Black Friday, as vendas no varejo recuaram 14,5%, em relação ao ano anterior. Os dados são do Índice Cielo de Varejo Ampliado, que monitora 1,5 milhão de varejistas. A causa principal foi o declínio de 25,5% nas vendas no varejo físico. Já o e-commerce cresceu 21,2%.

Os números estão em linha com o apurado pelo Ebit|Nielsen. Segundo a consultoria, somando a quinta e a sexta, o e-commerce brasileiro vendeu na Black Friday R$ 4,02 bilhões, um crescimento de 25,1% em relação a 2019. Foram mais de 6 milhões de pedidos gerados, 15,5% superior ao ano passado.

Mas, mesmo no e-commerce, as vendas decepcionaram. Outra consultoria, a Neotrust, projetava um faturamento de R$ 6,6 bilhões.

Parte disso se deve ao fato de que o brasileiro ficou mais pobre em 2020. A economia e o emprego já tinham começado o ano bem ruins, e sofreram ainda mais por causa da pandemia. Para muita gente, o auxílio emergencial era o único dinheiro que entrava. Em muitos casos, ainda é.

Observou-se também uma diluição das compras em vários dias, antes da sexta. Segundo a Neotrust, de segunda quarta, o comércio digital faturou R$ 1,8 bilhão, um aumento de 109% ante o mesmo período de 2019.

As ações de antecipação existem há muitos anos, mas não costumavam dar tão certo. Agora, com muita gente ainda trabalhando em casa, as pessoas tiveram mais tempo de acompanhar a evolução dos preços e identificar essas ofertas mais cedo. Ou seja, aquela fissura de ficar esperando dar a meia-noite no site ou a loja abrir na manhã de sexta está cada vez mais no passado.

Isso também se explica pelo amadurecimento do consumidor digital. Como eu disse antes, muita gente que resistia ao e-commerce agora compra um monte de coisa online.

Por isso, o comércio digital já vinha de uma sequência de bons resultados desde abril. Ele registrou a sua maior alta histórica em 2020, com picos de crescimento nas datas sazonais, como o Dia das Mães e o Dia dos Namorados.

No trimestre que terminou em setembro, fortemente impactado pelas lojas fechadas, o e-commerce cresceu 43,5% em relação a 2019. Já as lojas físicas, mesmo com a reabertura no começo do segundo semestre, nunca mais recuperaram o movimento de antes da pandemia, mesmo agora na Black Friday. Não houve aglomerações nem filas.

 

Poder na palma da mão

Outra coisa interessante que se viu foi que, mesmo quem estava na loja, estava comparando preços pelo smartphone. Esse comportamento também não surgiu agora, mas se acentuou nessa Black Friday em que até o varejo físico tinha algo de digital.

O consumidor tem muito mais poder de escolha e mais informação, o que exige que as vendas de agora em diante sejam muito mais consultivas e focadas nas reais necessidades do cliente. Aquela história de empurrar o produto encalhado ou que dava mais margem de lucro ficou para trás. Agora a venda só acontece se o consumidor realmente entender que está levando o melhor produto para ele e com as melhores condições.

Segundo uma pesquisa feita pela Samsung sobre tendências desta Black Friday, as ferramentas mais usadas pelos consumidores para isso são plataformas de comparação de preços (usadas por 61% dos clientes), alertas de preços (adotadas por 50%) e redes sociais (com 48% de uso). Mesmo quem tem a intenção em fazer uma compra em uma loja física, porque quer levar o produto na hora, por exemplo, faz pesquisas online. Ou seja, chega na loja sabendo tudo sobre o produto e quais são as melhores ofertas.

Eu particularmente acho isso ótimo, pois se estabelece um relacionamento mais transparente entre varejista e consumidor. Tanto é assim que o site Reclame Aqui identificou que a queixa mais comum desse ano foi a mesma de anos anteriores: a maquiagem de promoções. Ou seja, as lojas aumentam os preços alguns dias antes, para dar um desconto mentiroso na Black Friday.

É a “Black Fraude: tudo pela metade do dobro!”

Insistir nisso é um tiro no pé! As pessoas não são trouxas e têm cada vez mais acesso à informação.

Vale dizer que, apesar de os sites anunciarem descontos de até 80%, eles são raríssimos! Também segundo o Reclame Aqui, os descontos estavam parecidos com a de anos anteriores, entre 15% e 20%. Dificilmente se encontrava algo com mais de 30%.

A consultoria KPMG destaca também outra coisa que tem que aparecer no radar dos gestores: a segurança. No caso das lojas físicas, o respeito aos protocolos sanitários da Covid-19 é essencial para que os consumidores se sintam seguros para voltar aos estabelecimentos. Já no caso do e-commerce, destaca-se a segurança dos dados dos clientes e das transações financeiras. E, em todos os casos, a logística fica cada vez mais importante, para garantir entregas certas e no prazo. Atrasos podem corroer seriamente a imagem da marca!

 

Você está se mexendo?

Faço agora algumas provocações.

Em primeiro lugar, o seu negócio já cuida de todos esses pontos ou está pelo menos genuinamente trabalhando para chegar lá? Aliás, apesar de o assunto aqui se concentrar no varejo, muitos desses aprendizados valem para qualquer negócio, pois eles estão associados a mudanças no comportamento do cliente, que afetam todos os segmentos.

Por exemplo, o omnichannel, que integra de maneira total e transparente os varejos físico e online, e todos os canais de atendimento, se tornou essencial. Qualquer que seja o seu negócio, está cada vez mais difícil saber onde a jornada do cliente começará, e muito menos onde terminará, especialmente em vendas mais complexas. O consumidor pode começar o relacionamento com a marca na loja, obter mais informações no Google, conversar com os vendedores por WhatsApp, fechar a venda pelo site e ir buscar o produto de novo na loja, ou qualquer combinação disso.

Dá para ver que não estar preparado para atender todos esses canais pode dificultar muito as vendas de seus produtos ou serviços de agora em diante. Isso se você não for chutado para fora do mercado!

Outra coisa importante é que todo a tecnologia é fundamental, não apenas para ter um e-commerce, mas para que todos os vendedores ou o próprio site continue o atendimento exatamente no ponto que o vendedor anterior deixou. Toda a informação sobre o cliente e sobre a venda deve ficar registada e disponível rapidamente.

A tecnologia também pode trazer insights valiosíssimos cruzando os dados do consumidor com seu histórico com a empresa, mas também com suas incontáveis pegadas digitais espalhadas pela Internet. A capacidade da máquina de coletar e analisar uma quantidade absurda de informações pode identificar padrões e fornecer ideias que nem o melhor vendedor do mundo conseguiria fazer.

A Black Friday 2020 não foi, portanto, apenas uma data de vendas: ofereceu ensinamentos valiosos para os gestores. Se o cliente mudou (e ele mudou muito!), não dá para continuar tocando seu negócio do mesmo jeito.

Quando ser bom no que se faz vira um problema

By | Jornalismo | No Comments

Você sente que não sabe mais em quem acreditar? Não se vê representado por ninguém?

Você não está sozinho! E isso não é uma esquizofrenia coletiva.

É resultado de um processo cuidadosamente planejado e executado por grupos que querem se manter no poder. Mas esses grupos não são os únicos responsáveis por esse momento de confusão em que vivemos.

Isso acontece também porque instituições em quem sempre confiamos para separar o certo do errado perderam essa relação com seu público, porque não conseguem mais se comunicar com ele. Pior que isso: as pessoas não se sentem mais representadas por elas. E a perda de representatividade é o caminho mais eficiente para uma instituição, um governo, uma empresa, das maiores às menores, ser colocada para fora do jogo.


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A técnica usada por esses grupos não é nova. Trata-se de uma estratégia militar conhecida como “dividir para conquistar”. Foi criada pelo general romano Júlio César no século I a.C. e consiste em estimular divisões entre os indivíduos de uma sociedade para que eles não se organizem contra o governante. Além disso, promove o ódio entre esses indivíduos e empodera aqueles que apoiam o mandatário.

A novidade é que agora a comunicação e as redes sociais são as principais ferramentas dessa fratura proposital da sociedade. E isso acontece em uma velocidade alucinante, com uma crise nova a cada semana, ou mais!

Por exemplo, a sociedade ainda se debruçava sobre um interminável debate sobre a segurança das urnas eletrônicas depois do primeiro turno. Um ataque aos servidores do TSE coordenado com uma enxurrada de fake news tentou desacreditar o sistema eleitoral eletrônico, para atender interesses de grupos que aparentemente querem seu fim para fraudar a eleição de 2022.

Então, na quinta, aconteceu o brutal assassinato de João Alberto Silveira Freitas por seguranças de em uma loja do Carrefour em Porto Alegre. E o debate nacional passou a ser subitamente se existe racismo no Brasil (o que é surreal!).

Não estou dizendo que esses assuntos não sejam importantes ou não devam ser debatidos. Muito pelo contrário!

A questão é como esses temas são colocados em pauta pelos grupos no poder, começando já com uma temperatura altíssima, promovendo uma profunda rachadura na sociedade, ao invés de se encontrar um consenso construtivo, que seria o objetivo de um bom governante.

Se, a essa altura, você já está irritado com o que estou dizendo, essa é uma prova de que o método funciona!

Entretanto, como eu disse antes, isso é só uma parte do problema. A outra é que as instituições que tradicionalmente ajudavam a sociedade a separar o bem do mal, o certo do errado, perderam grande parte de sua capacidade de conversar com a população.

Essas instituições –como a imprensa, a igreja, a educação, a ciência– são importantes contrapontos ao “dividir para conquistar”, pois são elas que restabelecem a verdade e criam o ambiente para a união de um povo que quer se desenvolver. Não é por acaso que elas são fortemente combatidas pelos maus governantes. Exceto –claro– seus representantes que se submetem a seus caprichos: esses serão apadrinhados em uma imoral troca de interesses.

Mas por que essas instituições estão perdendo a capacidade de se comunicar com seus públicos?

 

Ficando bom e impopular

Ironicamente, ao buscar a excelência no que fazem, elas se tornam menos populares, no sentido amplo da palavra. Ficam mais difíceis de serem entendidas, tratam de temas que não fazem parte do cotidiano das massas. Pior: muitas até rejeitam demandas dessa parte da população, que acaba sendo a base mais numerosa da pirâmide social.

É fácil explicar isso olhando para a própria imprensa.

Sou jornalista desde 1993. A primeira vez que vi muita gente apontando para os veículos de comunicação e dizendo “você não me representa” foi nas grandes manifestações de rua de 2013.

Aquilo era um caldeirão de grandes insatisfações populares contra muita coisa, a maioria delas legítima. No meio daquelas gigantescas marchas, surgiam pontos de violência e depredação. Só que, pelo menos em um primeiro momento, muitos veículos de imprensa não apenas não reconheceu as demandas legítimas naqueles movimentos, como ainda se referiam a eles indiscriminadamente como “vândalos”, como se todos ali estivessem participando do quebra-quebra, o que obviamente não era o caso.

O resultado é que comecei a ver repórteres sendo hostilizados nas ruas pela população por simplesmente estarem fazendo seu trabalho. De lá para cá, isso apenas piorou, com o patrocínio dos governantes que perceberam como esse vínculo entre a mídia e seu público estava frágil.

Sem representatividade, nenhum negócio resiste!

Ainda no caso da imprensa, a busca de fazer um trabalho de excelência também acabou afastando os grandes veículos da base da sociedade. Isso começa pelo linguajar adotado, difícil de ser compreendido por essa parcela da população. Os assuntos também contribuem para esse afastamento, com pautas distantes de sua realidade. O uso limitado dos recursos digitais piora ainda mais essa situação.

Eu me lembro, nos anos 1990, quando a Internet comercial ainda estava nascendo, que algumas empresas de comunicação tinham um jornal “sério” e outro sensacionalista ou pelo menos com apelo mais popular. Isso quando não tinham publicações que juntas atendiam todo o espectro do público.

Apesar de a intelectualidade torcer o nariz para os “empreme-que-sai-sangue”, como eram chamados os jornais sensacionalistas, eles tinham uma importância fundamental para informar parte da população! Afinal, no meio de todo aquele material “questionável”, estava a notícia necessária para o indivíduo levar uma vida melhor.

Muitos desses jornais sumiram, por diferentes motivos. Foram substituídos por sites “de agrado fácil” para esse público, mas que não têm o menor interesse em informar nada. Na verdade, muitos hoje são veículos de desinformação.

Vamos pegar um mercado completamente diferente, para ilustrar como a comunicação e a representatividade são essenciais para todos: uma lanchonete.

Digamos que um dado estabelecimento ganhou fama e cresceu pela qualidade de seu X-burguer, que é um lanche mais simples. O que tinha de mais sofisticado ali era um também popular X-salada. Diante do sucesso, o dono do estabelecimento começou a investir em lanches realmente sofisticados. Eles lhe davam mais margem de lucro e começou a ser elogiado por uma parcela da população mais elitizada, que não costumava frequentar o local antes.

O proprietário decidiu então fazer apenas os lanches mais sofisticados. Como resultado, sua clientela diminuiu drasticamente, pois a maior parte das pessoas queria apenas o X-burguer e o X-salada. Eles não gostavam dos lanches mais sofisticados e não viam por que pagar mais caro por aquilo.

A médio prazo, a lanchonete –que passou a ser chamada de hamburgueria– acabou quebrando.

Não há nada de errado em querer evoluir e atender um público mais sofisticado! É preciso apenas saber se o negócio conseguirá sobreviver se esse movimento matar a sua representatividade junto ao grande público.

Ninguém paga por algo com que não se identifica!

 

Confortável na exclusividade

Peguemos agora a indústria automobilística.

Podemos pensar na Ferrari, a mítica fabricante de carros superesportivos, criada por Enzo Ferrari em 1939. Ela nunca teve a pretensão de atender as massas. Muito pelo contrário: uma Ferrari sempre foi símbolo de excelência, sofisticação e diferenciação. Em contrapartida, nunca foi nem será um fabricante gigantesco de carros, como a Fiat, que, aliás, comprou e depois vendeu a Ferrari.

São escolhas que temos que fazer. Mas, qualquer que seja a que façamos, precisamos conhecer bem nosso público, suas necessidades e como se comunica.

Você pode achar que está abafando ao fazer algo incrível! Mas isso de nada adianta se seu público não concorda, porque você se distanciou dessas pessoas.

Não caia nessa armadilha! Continuar relevante e representar seu público é essencial! Se quiser mudar seu perfil –e você tem direito a fazer isso– terá que encontrar um novo público.

Sem isso, você abrirá espaço para oportunistas –seja na política, seja nos negócios– que vão ocupar esse vazio a dizer que estão “do lado do povo”, mas que apenas o “dividem para conquistar”.

Apesar da lentidão relativa, urna eletrônica reafirma seu valor contra fraudes

By | Tecnologia | No Comments

Nesse domingo, aconteceu o primeiro turno das eleições municipais. Apesar de os resultados terem saído no mesmo dia, demoraram mais que o normalmente visto desde que as urnas eletrônicas foram implantadas. Isso deu munição àqueles que visam desmoralizar o sistema.

Ficamos mal acostumados com a velocidade e a segurança delas? Não: é assim que deve ser! O sistema eleitoral eletrônico brasileiro é hoje o mais moderno do mundo, e um exemplo do que toda transformação digital deve ser em qualquer negócio. Afinal, ele redefiniu a percepção do público sobre algo (no caso, a eleição), permitindo que se faça muito melhor o que já existia e que se tenha algo impossível antes.

A demora além da métrica definida pelo próprio sucesso aconteceu, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), por uma falha no supercomputador que totaliza as apurações dos Estados. O tribunal sofreu ainda um ataque de hackers durante o dia, que foi contido. Mas, pela eficiência do sistema, nenhum dos dois problemas afetou a segurança do pleito.

Mas, se o sistema funciona tão bem, por que algumas pessoas preferem adorar o passado e querem a volta dos ineficientes e inseguros votos em papel?


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Eu acompanho o desenvolvimento da urna eletrônica desde suas primeiras versões, e participei da primeira distribuição em tempo real dos dados da apuração para veículos de comunicação (do lado dos veículos), o que permite a criação dos seus sites que exibem os resultados ao público.

Dizer que o sistema eleitoral eletrônico brasileiro é perfeito e invulnerável seria inocência. Não existe sistema a prova de falhas! Mas dá para criar proteções que praticamente inviabilizam as fraudes, como é o caso aqui. Ele é, sem dúvida nenhuma, bastante seguro do ponto de vista técnico e conceitual, e certamente é muito mais seguro que qualquer votação com células em papel, muitíssimo mais fáceis de se fraudar.

Os críticos argumentam que o software das urnas eletrônicas poderia ser adulterado para beneficiar determinado candidato. Ou seja, o eleitor votaria em um candidato, mas o voto seria contabilizado para outro. Além disso, reclamam que o voto, mesmo que sem qualquer identificação do eleitor, não pode ser checado individualmente no caso de uma auditoria, pois as urnas guardam o resultado consolidado de todos os votos nelas.

Curiosamente, as urnas eletrônicas foram criadas para combater a grande fraude que existia na apuração dos votos em papel, uma verdadeira operação de guerra. Por exemplo, nas eleições de 1994, a última totalmente com votos em papel, a apuração contou com o trabalho de cerca de 170 mil pessoas! Ainda assim, demorou duas semanas para terminar.

 

Sistema antifraude

Não existe registro comprovado de fraude desde a primeira vez em que as urnas eletrônicas foram usadas, em 1996. Para isso, o TSE adota cerca de três dezenas de mecanismos de segurança para impedir fraudes e garantir o sigilo.

Todos os dados das urnas eletrônicas são criptografados e os equipamentos não possuem nenhuma foram de acesso à Internet ou qualquer rede, seja por Wi-Fi, por Bluetooth ou qualquer outra forma de comunicação. Para um hacker invadir uma urna, ele teria que fazer o processo na própria seção eleitoral, durante o horário da votação, na frente dos presentes, pois as urnas confirmam que estão sem nenhum voto quando são ligadas. Além disso, precisaria romper um lacre físico, desenvolvido pela Casa da Moeda, que, se for manipulado, muda de cor.

A fabricação das urnas, por mais que seja feita por empresas privadas, é toda controlada pelo TSE, que é o único capaz de testar os equipamentos. Nem o fabricante consegue fazer isso sozinho.

Além de todas essas proteções físicas, o processo eleitoral eletrônico brasileiro é composto por 94 sistemas exclusivos do TSE. Todos eles ficam disponíveis para que partidos políticos, o Ministério Público, a Controladoria Geral da União e outras entidades possam verificar sua integridade.

Antes de serem instalados nas urnas, os programas passam por um sistema de autenticação. Ele envolve a criação de hashes –uma espécie de garantia de inviolabilidade do código– e as assinaturas digitais do presidente do TSE, do procurador-geral da República e do secretário de tecnologia da informação do TSE. Se for preciso qualquer alteração nos programas, todo esse processo deve ser refeito, ou o novo software não será executado pela urna.

Logo após a votação ser encerrada, a urna automaticamente apura os votos nela e imprime os resultados da seção eleitoral, com o total de votos por partido e por candidato, total de votos nulos e em branco e a hora do encerramento da eleição. O relatório é afixado na seção eleitoral, garantindo que a informação fique imediatamente disponível ao público.

Os resultados consolidados são então criptografados e gravados em uma mídia digital removível. Ela é levada para um cartório eleitoral para ser transmitida por uma rede interna para um sistema totalizador. Os votos são então somados e publicados de uma maneira incrivelmente rápida: cerca de 150 mil votos por segundo!

Foi justamente nesse ponto que o sistema “pipocou” na noite desse domingo, ficando abaixo de sua própria média histórica. Ainda assim, foi muito mais rápido que as eleições observadas no resto do mundo, como a americana. Mesmo com a “demora”, mais de 110 milhões de votos –já descontadas as abstenções– foram computados e publicados em apenas seis horas. Além disso, os votos podem ser auditados, se for necessário.

De novo, dá para garantir que o sistema é infalível? Por uma questão filosófica e técnica, não! Mas, para vencer toda essa combinação de proteções físicas e eletrônicas, os hackers precisariam de um procedimento que provavelmente nunca será feito por ninguém.

 

O ataque dos arautos do atraso

O que nos leva de volta à outra pergunta feita no começo: por que tem gente que deseja a volta do voto em papel, com todas as suas gigantescas desvantagens?

Bom, na melhor das hipóteses, é porque a pessoa desconhece o processo descrito acima, ou é mais uma vítima da guerra de desinformação nas redes sociais. Na pior faz hipóteses, é porque essa pessoa deseja mesmo fraudar as eleições, e o sistema eleitoral eletrônico inviabiliza os seus planos malignos. Até uma eventual contestação dos resultados na Justiça, como vimos no espetáculo grotesco dessa eleição americana, fica praticamente inviável.

Na prática, como também aconteceu nos EUA, isso não mudará em nada o resultado. Apenas atrasará a declaração do vencedor e custará muito dinheiro ao contribuinte.

Há ainda um terceiro tipo de pessoa que pode querer a volta do voto em papel: aquela que tem medo do desconhecido ou do que não tem controle –mesmo que seja um controle ilusório.

O medo é um sentimento necessário. Ele existe para nossa autopreservação e está associado aos momentos mais primitivos da nossa evolução como espécie. Ele pode ser paralisante. Mas como nosso trabalho hoje (felizmente) não envolve mais tomar decisões de caça diante de um tigre de dente de sabre, não podemos deixar que o medo nos controle.

Em tempos de transformação digital, com tantos e tantos benefícios, o medo pode ser, portanto, um fator que impede a inovação dos negócios e –por que não– de nossa vida.

Mas não tem jeito! Como cantava Elis Regina, na belíssima “Como Nossos Pais”, o novo sempre vem! Não dá para continuar amando o passado e insistindo em não ver isso.

 

Já dá para voltar às salas de aula?

By | Educação | No Comments

Já dá para voltar para a escola ou é melhor continuar estudando em casa?

Um dos setores que enfrenta mais dúvidas para retomar suas atividades diante da pandemia de Covid-19 é a educação. De um lado, há o alto risco de contaminação de estudantes e de professores, que podem levar a doença para dentro de suas casas. Do outro, os inegáveis prejuízos no aprendizado e até na formação dos alunos, especialmente entre os mais jovens. Há também a pressão de escolas particulares pela reabertura, temendo que ainda mais clientes cancelem suas matrículas.

Em paralelo, corre outra discussão: a tecnologia dá conta de suprir as demandas de aprendizagem, para que as aulas em casa sejam eficientes?


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No meio de toda essa indefinição, muitas cidades reabriram suas escolas públicas e privadas já há várias semanas, enquanto outras ainda resistem. É o caso da maior cidade do país, São Paulo, que autorizou a volta apenas de alunos do Ensino Superior no dia 7 de outubro. Os Ensinos Infantil, Fundamental e Médio voltam nesse dia apenas com atividades extracurriculares opcionais.

Aula mesmo, ainda não se sabe quando. No dia 3 de novembro, será apresentada uma nova posição do município, com base na evolução da pandemia.

E se não voltar?

A tecnologia desponta em um papel central para solucionar esse problema. Mas, como tudo nessa vida, há um jeito certo e um jeito errado de se usar esse recurso.

Algumas coisas precisam ser levadas em consideração, e muitas delas vêm antes da própria tecnologia. A primeira é que a dificuldade de um aluno se concentrar em uma aula online é tão maior, quanto mais jovem ele for.

O ensino à distância pode ser excelente, mas exige muita dedicação do estudante. Por isso, ele tende a funcionar muito bem para o Ensino Superior, e mal para os Ensinos Infantil e Fundamental. As crianças normalmente se dispersam das atividades na tela, o que tem exigido muito de pais e mães para acompanhá-los nas aulas. E, depois de sete meses de distanciamento social, muitos desistiram dessa tarefa.

Além disso, a maioria dos alunos, incluindo muito de escolas particulares, não tem a infraestrutura necessária para estudar em casa. Falta uma boa conexão de Internet, para começar. Ela precisa ter uma boa velocidade e não ser limitada. Mas a maioria dos domicílios brasileiros não tem isso, com a Internet restrita aos planos para smartphones, que são lentos e com uma franquia de dados que acaba rapidamente. Sem falar que muitos simplesmente não têm conexão alguma.

Algumas instituições estão dando chips de celular com plano de dados para estudantes de baixa renda, o que é uma iniciativa muito bem-vinda. Mas infelizmente isso é um privilégio para poucos.

Vale dizer também que a experiência de aprendizagem fica muito melhor em uma tela grande, como a de um tablet e principalmente a de um computador. Só que, segundo o relatório PNAD Contínua do IBGE, apenas 48,1% dos domicílios brasileiros com Internet tinham um computador em 2018. E essa porcentagem vem caindo: em 2017, eram 52,4%. O uso dos tablets também diminuiu: de 15,5% em 2017 para 13,4% em 2018. Já os smartphones crescem, passando de 98,7% dos domicílios em 2017 para 99,2% em 2018. Ou seja, praticamente todos os domicílios brasileiros com Internet têm celulares, sendo que, em 45,5% dos casos, é a única forma de conexão.

Mas calma: nem tudo são notícias ruins!

Quando e como a tecnologia ajuda

Apesar de todas essas dificuldades, coisas muito interessantes surgiram desse processo de transformação digital acelerado.

Sou especializado na criação de conteúdo digital e acompanho a evolução do mercado de educação à distância há 15 anos e de mídia digital desde seu dia zero, há 25 anos. Desde o início da pandemia, em março, ministrei cerca de 350 horas de aulas em salas digitais, e cerca de 30 horas de palestras também online. E os resultados têm sido muito bons!

Por que dá certo para alguns e errado para outros?

Temos que entender que o meio digital pode ser uma ferramenta incrível, mas ela nunca pode substituir os conceitos básicos de uma boa educação e nem o professor. Por exemplo, a aula que eu dou online é a mesma que eu ministro presencialmente: nenhum conteúdo fica de fora!

Por mais que as íntegras das aulas sejam gravadas, elas são dadas ao vivo, e os alunos participam na hora marcada da aula, pois a sua experiência fica muito melhor assim. Os alunos fazem suas perguntas e debatem livremente, por voz, exatamente como em uma sala de aula presencial.

Aliás, a quantidade de alunos por sala também é a mesma de um curso no prédio da escola, limitado a 30, no máximo 40 alunos. Isso me permite conhecer cada um deles! Se tiver mais gente, abre-se uma nova turma, com horário próprio. Como as gravações incluem todas as interações com os alunos, elas só servem para aquela turma, não sendo reaproveitadas para outras.

É a mesma experiência que teríamos se estivéssemos em sala de aula? Claro que não! Eu mesmo sinto falta de estar na sala com meus alunos. Sou uma pessoa cinestésica e sei das perdas.

Por outro lado, sei também que há ganhos, muitos associados à vida moderna. Por exemplo, não é necessário gastar um tempo enorme no trânsito para se chegar à escola. Aliás, se não for possível chegar na hora, não tem problema: a aula não será perdida, pois ela fica gravada.

Além disso, meus alunos agora não ficam restritos a São Paulo. Nesse período, cheguei a ter uma aluna que assistia às aulas ao vivo de Dubai (Emirados Árabes Unidos), mesmo estando cinco horas a nossa frente. Ou seja, ela ficava, por iniciativa própria, acordada de madrugada para participar ao vivo das aulas, que aconteciam das 19h às 22h (hora de Brasília). Sem falar de muitos alunos do interior de São Paulo e de muitos Estados brasileiros, que agora podem se matricular nos cursos.

Posso garantir que todos os objetivos de aprendizagem são atingidos nessas aulas à distância. Os alunos aprendem tudo que aprenderiam presencialmente.

Muitas coisas são necessárias para esse sucesso. Primeiramente, os alunos são todos adultos. Portanto, eles estão assistindo aula porque querem, e estão pagando por isso. Eles têm a disciplina para cumprir as exigências do curso.

Além disso, eu tenho o privilégio de ministrar aulas em instituições sérias que se preocupam com a qualidade do ensino. E aqui cito nominalmente a PUC de São Paulo, a Universidade Presbiteriana Mackenzie e a ESPM, onde estou dando aulas nesse período de pandemia. Todas elas proporcionaram o que eu disse acima. Ofereceram a estrutura necessária para a viabilização dos cursos e respeitaram alunos e professores nesse momento de transformação.

Por outro lado, vejo com muita tristeza outras instituições, que não vou citar seus nomes aqui, fazendo mudanças inaceitáveis! Por exemplo, salas de aula que antes tinham 30 alunos agora passam a ter 500! Elas agrupam todas as turmas de uma mesma disciplina, de diferentes campi, às vezes de diferentes cursos, colocando todo mundo em um “saco” só, com um único professor. E daí dispensaram os professores que “sobraram”.

Que atenção esses professores podem dar aos 500 alunos? Que interação pode acontecer nessas aulas?

Há casos de professores que foram demitidos por um pop-up que apareceu em sua tela, quando tentaram entrar na plataforma da universidade para dar uma aula. Há ainda casos de provas dissertativas sendo corrigidas por robôs. A despeito dos avanços da inteligência artificial, qual a garantia que os alunos têm de uma avaliação justa nesses casos?

Que nível de ensino essas instituições estão oferecendo a seus alunos? E que falta de respeito com seus profissionais é essa? Isso é obsceno, e essas escolas deveriam se envergonhar por se dizer instituições de ensino.

A educação é essencial para que o Brasil avance! Muitos dos problemas de nossa sociedade seriam resolvidos se tivéssemos uma população mais bem educada, no sentido amplo da palavra.

A tecnologia é uma ferramenta magnífica para melhorarmos a educação. Mas ela deve ser usada exatamente para isso: para melhorar a educação, e não para piorar a experiência de alunos e de professoras.

Por isso, escolha bem onde você vai estudar. E estude!

Brilhe no TikTok mesmo sem “dancinhas”

By | Jornalismo | No Comments

Com o enorme sucesso do TikTok, muita gente tem me perguntado se precisa estar nele, se tem que ficar “fazendo dancinhas” lá. Afinal foram 315 milhões de novos usuários só no primeiro semestre, um público enorme e voraz por conteúdo, excelente oportunidade para conseguir novos clientes.

Mas sinto uma certa angústia em quem me faz essas perguntas, porque são pessoas que sabem da importância das redes sociais para seus negócios, mas não se identificam em nada com o estilo ultradespojado desses minivídeos.

Claro que não precisam estar lá!

Você não será chutado para fora dos negócios por não entrar no TikTok. Por outro lado, seu conteúdo não é só de “dancinhas”. Talvez exista um caminho interessante e confortável que você possa trilhar ali.


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O fato é que o aplicativo tem atraído muita atenção também de executivos e empreendedores de todos os segmentos e de negócios de todos os tamanhos. Afinal, com tanta gente instalando o aplicativo e o usando diariamente, estar nele pode trazer uma excelente visibilidade para o negócio.

O problema é que o TikTok popularizou um estilo de conteúdo feito de vídeos bastante informais, com música, pessoas dançando, dublando, “bichinhos fofos” e afins. Tem até muitas celebridades lá desse jeito.

Só que muita gente não consegue se ver fazendo nada disso, especialmente quando se trata de negócios. Muitos acham que seus clientes nunca mais os levariam a sério se os vissem fazendo dançando no TikTok.

Antes de ficar sofrendo por antecipação, temos que analisar com mais calma tudo isso.

A primeira coisa que temos que pensar é se precisamos mesmo estar no TikTok. Na verdade, a pergunta serve para qualquer rede social: afinal, temos que estar em todas as redes?

E a resposta é um categórico “não”!

Primeiramente porque isso exigiria uma enorme energia e muito tempo. Também seria um desperdício, por um motivo muito simples: nossos clientes não estão em todas as redes! Isso vale para qualquer negócio e para qualquer rede.

No TikTok, encontramos gente de todo tipo. Mas é inegável que a rede tem um forte apelo entre o público mais jovem. Logo, se seu negócio atende pessoas fora dessa faixa etária, não precisa perder o sono por não estar lá. Poucos negócios viriam para você por participar dela.

Mas digamos que você queira fazer parte desse movimento assim mesmo.

Nesse caso, se as “dancinhas” não são o seu estilo, não precisa ficar angustiado.

É verdade que o TikTok popularizou um estilo de comunicação no mínimo mais despojado, bem descontraído. As pessoas entram lá esperando encontrar algo nessa linha. Então um vídeo muito sério provavelmente não fará sucesso. Ou pior: pode até queimar a imagem do autor junto a esse público.

Então não faça isso!

Escolha o caminho do meio

A saída pode ser encontrar um meio termo entre as dancinhas e o que você costuma publicar em outras redes.

Antes de mais nada -e isso é muito importante- você precisa se sentir à vontade com qualquer publicação que você fizer em qualquer lugar. Se estiver se sentindo incomodado, é melhor repensar.

Há profissionais de vários segmentos dando suas mensagens, digamos “sérias”, no TikTok, mesmo com uma linguagem mais informal, mas não tão informal a ponto de fazerem “dancinhas”. O que importa é que seja divertido, que é a característica dessa plataforma. É o que seu público espera encontrar.

Já vi muitos profissionais de saúde, por exemplo, dando seu recado lá divertidamente, de um jeito que não comprometem sua credibilidade.

Na indústria de mídia, também começo a ver também algumas iniciativas interessantes, inclusive de jornalistas e de grandes veículos de comunicação, como o Estadão, o Washington Post e o New York Times. Isso foi tema de uma interessante palestra no Simpósio Internacional de Jornalismo Online, do Centro Knight, em julho.

Pode-se perguntar se o público desses veículos está no TikTok. Ou o contrário: se o público do TikTok consome o jornalismo desses veículos.

Possivelmente não.

Mas essas iniciativas podem ajudar a reforçar essas marcas justamente nesse público que não costuma frequentar seus aplicativos e suas páginas em outras plataformas normalmente. Tanto que o que esses veículos publicam no TikTok não são noticiário, ou pelo menos não como costumam fazer. Seus vídeos costumam trazer pílulas feitas com takes de acontecimentos do momento, brincadeiras ou releituras do noticiário em um formato bem descontraído.

Um “jornalão” bem tradicional, o Washington Post, com 142 anos de idade, contratou um editor dedicado ao TikTok, Dave Jorgenson. Até agora, ele já fez mais de 500 desses pequenos vídeos.

Pode-se dizer que eles têm pouco ou nada a ver com o estilo do próprio Post. São clipes humorísticos, a maior parte deles sem relação com o noticiário, apesar de ter boas sacadas, como fazer uma paródia com o “Garganta Profunda”, personagem-chave do escândalo de Watergate, revelado pelo Post, que acabou derrubando o presidente americano Richard Nixon. Com o trabalho de Jorgenson, o Post já conta com mais de 640 mil seguidores e 25 milhões de curtidas em seu TikTok.

Há alguns dias, eu conversava sobre isso como meu filho Matheus, que estuda jornalismo. Debatíamos se isso poderia, a longo prazo, transformar a própria linguagem jornalística, especialmente se o público mais jovem se acostumasse a consumir notícias nessas pílulas curtas, rasas e necessariamente divertidas.

Será que isso pioraria o jornalismo como um todo? Será que a notícia teria que ficar cada vez mais parecida com aquilo?

Penso que não!

Sem dúvida, é uma nova linguagem que se apresenta ao jornalismo e a qualquer outro negócio. Mas não quer dizer que, mesmo com sua popularidade, tenha que ser a única linguagem no futuro. Na verdade, acho que desempenha um papel interessante para atender uma parte da população que não consumiria jornalismo nos formatos mais tradicionais. A partir disso, essas pessoas podem migrar para um jornalismo “mais completo”.

Isso me lembra dos jornais sensacionalistas, os chamados “espreme que sai sangue”, como o finado “Notícias Populares”, em São Paulo. A despeito da elite da sociedade normalmente desprezá-los, eles tinham um papel social importante, especialmente em tempos pré-Internet. Eles eram a única maneira que uma parte da população tinha para se informar, pois eles não conseguiam ler ou simplesmente não gostavam dos veículos mais sérios. E, apesar dos títulos fantasiosas, da linguagem no mínimo exagerada e até de mentiras explícitas, eles cumpriam um papel de informar o cidadão no essencial.

Eles foram substituídos hoje pela desinformação que chega pelas redes sociais e pelo WhatsApp. Só que os jornais sensacionalistas eram, por incrível que pareça, melhores, pois eles não mentiam tanto e nem destruíam a sociedade, como as “fake news” fazem.

O TikTok pode, portanto, funcionar muito bem como uma porta de entrada não apenas para o jornalismo, como para qualquer negócio, inclusive o seu. E nem é preciso ficar “fazendo dancinhas” no vídeo.

Não devemos torcer o nariz nem abraçar de maneira deslumbrada a novidade. Basta você encontrar uma linguagem que lhe deixe confortável e que lhe permita passar a sua mensagem de um jeito divertido.

Se não der, sem problemas: a vida continua.

Precisamos muito de uma boa imprensa

By | Jornalismo | No Comments

Bater na imprensa virou esporte nacional, especialmente das alas mais conservadoras da sociedade. Graças aos recursos das redes sociais, governos aqui e lá fora conseguiram colar, nos veículos que lhes fazem oposição, etiquetas de que a mídia é mentirosa e contrária aos interesses do país e do povo.

Para piorar a sua situação, muitas empresas de mídia andam “derrapando” em sua cobertura jornalística, o que mina a confiança de seu público, já corroída pelos ataques, e oferece mais munição a seus detratores. Mas atacar a imprensa sem refletir sobre o esse ato é a pior coisa que uma pessoa pode fazer: na prática, enfraquece a instituição que lhe protege dos poderosos -ou deveria fazer isso.


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Como chegamos a esse cenário em que as pessoas não confiam mais na imprensa? Isso é um enorme risco para a democracia, em que toda a sociedade perde!

O que deve ser feito para se restabelecer essa relação de confiança que sempre existiu e ajudou o país a se desenvolver e modernizar?

No dia 22 de agosto, a “Folha de S.Paulo” fez um editorial sob o título “Jair Rousseff”. O texto se referia ao desequilíbrio das contas públicas no governo de Dilma e à inclinação de Bolsonaro de ir pelo mesmo caminho.

A despeito dos argumentos do editorial, a fusão dos nomes de Dilma e de Bolsonaro provocou enorme indignação. Afinal, misturou-se uma pessoa que foi vítima de tortura -um dos piores crimes da humanidade- com uma pessoa que não tem o menor pudor de promover publicamente torturadores.

Isso causou a reação de autoridades e de jornalistas, inclusive dentro da própria “Folha”. A crítica mais contundente veio em um artigo de Janio de Freitas, um dos maiores nomes do jornalismo nacional, que não poupou o veículo.

Freitas lembrou ainda outro infame editorial da “Folha”, intitulado “Ditabranda”, de 17 de fevereiro de 2009. Naquele caso, o jornal sugeriu que a ditadura mais recente do Brasil, a dos militares (1964 a 1985(, teria sido menos mortífera que a dos outros regimes militares latino-americanos do mesmo período, e a comparou com a situação na Venezuela na época.

Oras, não existe ditadura boa, nem sequer “menos pior”. Todas são horríveis por definição, pelo simples fato que eliminam direitos fundamentais da sociedade. Da mesma forma, não dá para misturar em um mesmo saco Jair Bolsonaro e Dilma Rousseff, por possíveis semelhanças nos desequilíbrios das contas de seus governos.

E não estou aqui defendendo ou atacando nenhum dos dois.

Não se pode relativizar a importância da vida e da liberdade. Assim como não se pode tentar agradar todo mundo.

Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém!

Esses são apenas alguns exemplos de mancadas que veículos de comunicação podem cometer -e cometem. Ao fazer isso, eles afugentam seu público, perdem seu apoio e oferecem argumentos para aqueles que querem o fim de uma imprensa livre e forte, pois acham que ela só os atrapalha.

A impossibilidade de uma boa imprensa dócil

Todo governo gostaria de ter uma imprensa dócil e que sempre o enaltecesse. Mas, se um veículo de comunicação fizer isso, não é jornalismo: é relações públicas.

Um dos argumentos da turma -seja conservadora ou progressista- que ataca a imprensa é dizer que os veículos de comunicação mostram tudo que os governos fazem de errado e não mostram o que eles fazem de bom. Só que isso é uma falsa polêmica.

Entre as funções de uma imprensa séria, estão informar e formar o cidadão. Deve protegê-lo dos interesses de grupos de poder -seja ele político, econômico ou ideológico. Deve fiscalizar o poder.

Sempre!

A imprensa pode falar de coisas positivas que governos fazem. E ela fala, claro que fala! Mas essa turma gostaria que falasse muito mais. Ou só falasse da parte boa.

Para isso, o governo tem a máquina pública de propaganda, que é gigantesca, “A Hora do Brasil”, milhões e milhões de reais para publicidade, em que infla o que faz de bom e mente sobre o que faz de mal. Todo governo é assim!

À imprensa cabe, portanto, mostrar o que incomoda os poderosos, todos eles! Portanto, se não estiver incomodando, não está fazendo um bom trabalho.

Como disse certa vez o grande cartunista e jornalista Millôr Fernandes, “imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados.”

A imprensa brasileira tem batido mais nos governos nos últimos 18 anos. Mas acho que têm batido pouco! Tem que ser mais incisiva!

Todos os governos erram, fazem coisas ruins. É natural isso! Cabe ao jornalista mostrar tudo isso, até mesmo para que o governo possa se corrigir.

E não podem tem medo de se posicionar! Pelo contrário: o veículo e o jornalista devem deixar claro no que ou em quem acreditam.

O que não quer dizer ignorar ou calar o outro lado. Muito pelo contrário: deve dar voz ao outro lado, sim, mas defender o seu ponto de vista, com fatos e argumentos sólidos.

Na ânsia de serem democráticos, muitos veículos abrem espaço para opiniões divergentes, o que é ótimo! Mas perdem sua capacidade de se posicionar sobre qualquer tema. Tornam-se uma coisa sem opinião e sem graça.

Isso não pode acontecer, pois o seu posicionamento influencia a sua capacidade de informar e de formar o cidadão. Além disso, ao não se posicionar, isso permite que governos se façam ainda mais de vítimas, dizendo que são perseguidos, quando é exatamente o contrário que acontece.

O jornalismo tem que se posicionar!

Por exemplo, na última quinta, no Jornal da Live, que faço no LinkedIn, defendi a necessidade de as pessoas se imunizarem contra o Covid-19 quando uma vacina estiver disponível. Usei argumentos da ciência, justificando porque isso é essencial. Também expliquei por que algumas pessoas não querem se vacinar. Demonstrei como o governo pode legalmente obrigar a vacinação. Contei até o episódio da Revolta da Vacina, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1904: naquele ano, a população se recusou a tomar a vacina contra a varíola e teve até quebra-quebra nas ruas da então Capital Federal. O governo da época acabou recuando da obrigatoriedade, mas isso matou 6.400 pessoas apenas na cidade, quatro anos depois.

Ou seja, abri o espaço para quem não quer se vacinar. Mas deixei claro que sou a favor da vacinação de todos, e defendi meu ponto de vista com fatos.

A imprensa pergunta; o governo responde

A imprensa brasileira bate muito menos no governo que a americana, considerada uma das melhores do mundo. Somos até cordiais com os governantes!

Nos Estados Unidos, os jornalistas não têm o menor problema de colocar o presidente da República contra as cordas e cobrar dele respostas a suas perguntas, mesmo as mais incômodas. E o presidente tem que responder: é o seu papel! Se não responde, é execrado publicamente, com razão.

E que sorte os americanos têm de sua imprensa agir assim! Sem isso, o moralismo latente ganharia força no populismo dos governos. E aí, os Estados Unidos deixariam de ser a maior potência do mundo para ser uma nação retrógrada e fadada ao obscurantismo político, econômico e cultural.

Já viajei por muitos países e sempre gosto de observar como é sua imprensa. É absolutamente claro como sociedades mais desenvolvidas têm imprensas mais livres, mais fortes e mais responsáveis. E a recíproca também vale!

Hoje é 7 de setembro, dia da independência do Brasil. Por isso, resolvi promover esse debate. Não é uma conversinha que só interessa a jornalistas, e sim um posicionamento cívico. Todos nós temos um papel nisso, para o futuro da democracia e até da manutenção de uma sociedade decente.

À imprensa, cabe buscar um jornalismo muito melhor que o que já faz, mesmo aqueles que já estão trabalhando bem. Tem que apurar melhor, apresentar melhor. O foco deve ser sempre seu público, e não qualquer outro interesse. Seu papel é fazer bom jornalismo, sem se render a fórmulas fáceis. Ao fazer isso, resgatarão o respeito público, e seus negócios melhorarão.

Ao governo, tem que parar de se fazer de vítima e de jogar a população contra a imprensa, só para poder continuar realizando o que bem entender. Se fizer bem o seu trabalho, se cometer menos desmandos, as críticas naturalmente diminuirão.

Quanto a nós, o leitor, o espectador, o internauta, cabe fugir das “fake news” e valorizar quem está pelo menos buscando fazer um bom jornalismo. Cabe a nós acreditar menos em quem bate na imprensa. Cabe a nós não nos deixar enganar e entender que precisamos de uma imprensa forte e livre para o desenvolvimento de toda a sociedade.

Todos nós e cada de um de nós tem o seu papel.

Os ladrões da sua identidade

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Você já deve ter ouvido falar do aumento de casos de golpes virtuais no Brasil. Talvez conheça alguém que tenha caído em um deles. Quem sabe você mesmo foi vítima de um desses pilantras?

Ou você acha que jamais cairia em uma maracutaia dessas?

Se esse for o seu caso, lamento acabar com as suas ilusões: ninguém está totalmente seguro dos meliantes virtuais. Até mesmo profissionais experientes podem cair nessa. Portanto, todo cuidado é pouco!


Veja esse artigo em vídeo:


Um acontecimento recente demonstra o poder dos bandidos.

No dia 15 de julho, o Twitter foi vítima da maior falha de segurança de sua história. E nenhum sistema deles foi comprometido por problemas de software. A invasão aconteceu a partir de funcionários que foram enganados e forneceram aos hackers seus dados de acesso à rede interna e a sistemas de gerenciamento de contas de usuários.

Em minutos, os cibercriminosos conseguiram os dados de 130 contas, e enviaram tuítes a partir de 45 delas, acessaram mensagens diretas de 36 e baixaram os dados de 7. E não eram quaisquer contas! Entre outras, estavam as do ex-presidente americano Barack Obama, do candidato à presidência dos Estados Unidos Joe Biden, do fundador da Microsoft Bill Gates, do CEO da Amazon, Jeff Bezos, e do empresário Elon Musk. Essa ação rápida convenceu pessoas que seguem essas contas a fazer doações, que teriam chegado a US$ 100 mil.

No dia 31 de julho, a polícia prendeu três homens acusados do crime. O líder da gangue é um adolescente de 17 anos, da Flórida.

Os funcionários de uma das empresas mais badaladas do Vale do Silício foram vítimas de uma técnica chamada “spear phishing”, uma versão mais elaborada do “phishing”.

O “phishing” convencional consiste no disparo de uma grande quantidade de e-mails e mensagens de SMS e WhatsApp que tentam convencer a vítima de que se trata de uma comunicação oficial de uma empresa ou instituição. Os bancos são os preferidos pelos criminosos para tentar enganar as pessoas. Se a vítima instala o programa ou clica no link, cai em um ambiente que simula o do banco, para que informe sua senha e até faça pagamentos.

Mas essas mensagens são enviadas para todo mundo sem qualquer personalização. Daí fica mais fácil perceber o golpe.

Já o “spear phishing”, que enganou os funcionários do Twitter, é bem mais elaborado. Antes de entrar em contato com a vítima, os bandidos fazem uma pesquisa sobre ela, para que a comunicação seja personalizada, tornando-se mais convincente.

No caso do ataque ao Twitter, a quadrilha fez a lição de casa. Conheciam exatamente quais funcionários atacar e o que falar para eles. Eles se passaram por membros da área de TI e sabiam o que dizer para convencer os profissionais a entrar em um site falso de acesso ao ambiente corporativo, idêntico ao da empresa.

Os bandidos precisavam ser incrivelmente convincentes na sua conversa. E foram!

Mas, se os funcionários do Twitter caíram nessa, imagine um cidadão comum, que não tem nenhum preparo e experiência para evitar esse tipo de golpe!

Em casos específicos, criminosos usam até sistemas que sintetizam a voz de alguém conhecido pela vítima, como um diretor da empresa. Ou seja, no “spear phishing”, os criminosos pesquisam nas redes sociais a sua vida, seu trabalho, sua família, seus amigos, seus gostos.

Golpes “viralizaram” com o Covid-19

Para você ter uma ideia do tamanho do “phishing” por aqui, nos primeiros meses da pandemia de coronavírus, o Brasil foi o quinto país no mundo nesse tipo de golpe. Ficamos atrás apenas da Venezuela, de Portugal, da Tunísia e da França.

Segundo a empresa de cibersegurança Kaspersky, um a cada oito brasileiros sofreu tentativas de ataque entre abril e junho. A consultoria Refinaria de Dados calcula que, entre 20 de março e 18 de maio, a busca de informações pessoais e bancárias de brasileiros na “Dark Web” cresceu 108%, passando de 19 milhões por dia! Já a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) informa que o “phishing” aumentou 70% no pós-Covid-19.

Temas ligados à pandemia estão no centro dos ataques, especialmente o auxílio emergencial do governo. Por isso, o nome da Caixa Econômica Federal vem sendo muito usado. Golpes de sites de leilão falsos com o nome da Caixa também cresceram muito no período.

O que podemos fazer para nos proteger desses golpes?

No caso de empresas, é muito importante que treinem seus funcionários frequentemente contra ataques da chamada “engenharia social” feitos por mensagens digitais, ligações telefônicas e até pessoalmente.

Do lado do usuário final, não entre em sites que dizem ser do banco a partir de links enviados por e-mail, WhatsApp ou SMS. Bancos não mandam links, nem pedem senhas nunca! Aliás, jamais informe senhas a ninguém!

Tampouco entregue, em hipótese nenhuma, seu cartão de débito ou de crédito cortado a ninguém. E quando for jogar fora um cartão velho, corte o chip e a tarja magnética mais de uma vez. E não deposite os pedaços no lixo reciclável.

Não coloque dados pessoais e de cartões em sites de origem duvidosa. Ative o serviço do seu banco para receber um SMS a cada transação com cartões de crédito e débito, para identificar imediatamente alguma indevida.

Evite expor seu telefone nas redes sociais e sites. O mesmo vale para anúncios que fizer em sites de vendas: prefira os canais de comunicação da plataforma para falar com possíveis compradores. E desconfie se receber ligações ou mensagens de pessoas em nome desses sites, de bancos ou operadoras de cartão. Tampouco dá para confiar no número de quem está ligando, pois sistemas conseguem alterar essa identificação, para que apareça o número de alguém conhecido.

Se, ao ligar a um telefone, especialmente do banco ou operadora de cartão, aparecer automaticamente no celular um programa que diz ser da empresa, para continuar o atendimento por ali, desconfie! Prefira fazer a chamada por voz no número oficial da empresa. Se não houver essa opção, ligue de outro telefone, se possível, de um fixo.

O uso de frases informais e até gírias em conversas, e erros de ortografia, no caso de mensagens escritas, são suspeitos!

Desconfie de ligações oferecendo brindes, trabalho ou outro convite em nome de um amigo ou colega. E jamais confirme números que são enviados a você por SMS, WhatsApp ou e-mail. Esse é o método preferido para sequestrar o seu WhatsApp, para os criminosos depois mandarem mensagens a seus contatos, pedindo dinheiro em seu nome.

Aliás, ative a verificação em duas etapas no WhatsApp e outras plataformas. É uma camada a mais de segurança. Mesmo que o criminoso obtenha o código de verificação, vai precisar também de uma senha extra criada por você, e isso pode impedir que sua conta seja sequestrada.

Por fim, nunca instale aplicativos que venham por e-mail, WhatsApp ou SMS. Faça isso sempre a partir das lojas de aplicativos oficiais.

Então, faça um favor a você mesmo: não pense que isso nunca acontecerá com você! Ninguém está imune a esses ataques.

Desenvolva uma saudável desconfiança e preserve a sua identidade e os seus bens.