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A desgraça do nosso país passa por reduzir sua profissão mais importante a um “bico”

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Anúncio da rede Anhanguera, oferecendo formação de professores como “segunda carreira” - foto: reprodução

Anúncio da rede Anhanguera, oferecendo formação de professores como “segunda carreira”

A terrível crise que draga o Brasil há pelo menos quatro anos continua firme e forte. A sociedade bate cabeça tentando explicar como chegamos a isso e principalmente como sair dessa situação. Nesse cenário, duas péssimas notícias ligadas à educação brasileira, que ganharam as manchetes recentemente, servem para nos ajudar a entender tudo isso.

A primeira delas se refere a dois infames anúncios publicados recentemente pelas redes Anhanguera Educacional e Unopar, ambas da Kroton Educacional. A outra se refere à agressão a uma professora de Santa Catarina por um aluno adolescente. Não proponho aqui uma simples defesa dos professores, mas sim trazer para o debate como a má educação está na raiz das mazelas do nosso país, e como uma boa educação pode nos levar a vencer tudo isso.


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Desde sempre, defendo como a educação é o melhor caminho para que o país resolva os seus problemas. A explicação é simples: qualquer país que tem uma população (e isso vale para todos seus cidadãos) bem educada, conhecedora de seus direitos e também de seus deveres, com consciência cívica e responsabilidade social, progride a passos largos. E isso acontece porque cada um sabe e cumpre seu papel, e também cobra adequadamente que todos –e não apenas os governantes– façam o mesmo.

A realidade é, entretanto, muito mais complexa, e nos afastamos cada vez mais do bom caminho. Nossa educação, do ensino infantil à pós-graduação, coleciona indicadores vergonhosos. Mas ela é apenas o reflexo de uma sociedade que se orgulha e folcloriza o ‘jeitinho brasileiro”, um nome “fofo” para a corrupção que cada um de nós pratica no dia a dia. É o país que criou a “Lei do Gerson”, onde “esperto” é aquele que tira vantagem de tudo, mesmo que isso inevitavelmente signifique prejudicar o próximo. Essa também é a sociedade cada vez mais radical em suas visões políticas, em que “você está comigo ou contra mim”, quando, na verdade, são todos farinha do mesmo saco (e, pior, sabemos disso).

E por falar em farinha, se o que manda é o conceito de que “farinha pouca, meu pirão primeiro”, como esperar que a boa educação, capaz de formar cidadãos que queiram construir uma sociedade justa para todos, seja valorizada?

 

Por que o professor vale tão pouco

Nos anúncios da Anhanguera e da Unopar, a mensagem é contundente: “torne-se professor e aumente sua renda”. Em outras palavras, a atividade de professor é vendida como um “bico”.

As peças publicitárias provocaram uma enxurrada de críticas, a ponto de as terem que ser retiradas de circulação, com um pedido de desculpas pela nota abaixo:


“Erramos. Nós, da Anhanguera, pedimos desculpas pela mensagem equivocada sobre a função e a importância dos professores. A campanha de marketing que causou mal-estar não representa o que nós, como instituição de ensino, acreditamos, e foi retirada do ar. Nossa intenção com o curso de Formação Pedagógica é incentivar que profissionais já formados possam ter também essa habilitação e contribuir para a resolução do déficit de professores que o Brasil enfrenta. Acreditamos que, promovendo a docência, temos o caminho para o desenvolvimento social e econômico do país. Por fim, esclarecemos que, esta campanha, em específico, não foi submetida à análise prévia do Luciano Huck e de sua equipe”.


Não vejo problema de outros profissionais investirem seu tempo livre na sala de aula. Muito pelo contrário: nada melhor que pessoas capacitadas compartilhando o que sabem! Mas que façam isso por vocação, por prazer, não apenas para “ganhar uns trocados”.

O mais triste nessa história toda não é a péssima mensagem passada pelas peças, mas o fato de alguém ter pensado nelas. Não nos enganemos: se a equipe criativa da agência bolou a campanha e alguém do grupo educacional a aprovou é porque, ainda que no seu subconsciente, essas pessoas realmente acreditam que ensinar pode ser um “bico”.

E nem podemos crucificar esses indivíduos, pois eles pensam assim porque a sociedade brasileira, de uma maneira geral, pensa exatamente dessa forma! Qual professor nunca ouviu a infame pergunta de seus alunos: “além de dar aula, você trabalha?” Eu mesmo já ouvi isso várias vezes.

Por que um médico, um engenheiro, um advogado (só para ficar em algumas das carreiras mais desejadas pelos jovens) nunca ouvem uma pergunta dessa? Porque o inconsciente coletivo brasileiro “sabe” que é necessário estudar muito para exercer tais profissões. Já o professor é visto como uma segunda carreira ou –e isso é de lascar– vai ser professor aquela pessoa que “não consegue ser mais nada”.

Essa ideia é reforçada pelas péssimas políticas educacionais, pela crescente e constante desvalorização do professor por todos os governos municipais, estaduais e federal, por condições deploráveis de trabalho e salários obscenos. Some tudo isso a esse inconsciente coletivo, e você começa a ter, na média, profissionais com nível cada vez mais baixo nas salas de aula. Claro! Haja vocação para insistir nessa carreira!

Como podemos esperar um país melhor se o profissional responsável por formar todos os demais profissionais não tem nenhum valor?

Não podemos.

 

Como construir um tigre asiático

Diante de tamanha desvalorização, vemos casos recorrentes de agressões contra professores, realizadas por pais e até mesmo por alunos. Foi o que aconteceu com a professora Marcia Friggi, de 51 anos, esbofeteada por um aluno de 15, cujo caso foi mencionado no início desse artigo. Mas o pior veio depois: nas redes sociais, muitas pessoas apoiaram a professora, mas também muitos outros a insultaram, dizendo que ela mereceu a agressão!

Difícil dizer o que é mais bizarro nesse caso.

A desvalorização do professor pela sociedade, culminando tanto nas agressões quanto na desmotivação dos docentes, foi brilhantemente explicado no documentário “Pro Dia Nascer Feliz”, de João Jardim (2005), que pode ser visto na íntegra abaixo (88 minutos):



Cria-se, portanto, um círculo vicioso: a sociedade não consegue melhorar e valorizar os professores, por isso eles ficam cada vez piores, e isso torna a sociedade ainda pior, desvalorizando mais e mais os docentes.

Olhando de fora, parece que não temos saída. É possível romper isso? Sim! Basta ver o exemplo da Coreia do Sul.

Trabalhei alguns anos na Samsung, onde aprendi muito sobre a cultura e a história do seu país de origem. Algumas coisas me surpreenderam, e poderiam ser aplicadas aqui.

Por exemplo, antes da guerra civil (1950 a 1953), que dividiu o país em dois, a Coreia era a nação mais pobre do mundo, muito mais pobre que o Brasil na época! Após a divisão, a Coreia do Sul, a despeito de inúmeros problemas políticos, investiu pesadamente em educação, de uma maneira consistente –ou seja, a coisa não ficava mudando a cada novo governo. Outra característica da educação sul-coreana é que apenas os melhores entre os melhores da sociedade podem ser professores. Portanto, ser professor lá é uma grande honra, uma carreira muito valorizada e admirada por todos.

Mesmo assim, foram necessários 30 anos para o país miserável se transformar em um tigre asiático. Como se pode ver, não se trata de uma tarefa simples nem rápida, mas é possível.

O Brasil de hoje está em uma situação econômica incomparavelmente melhor que a Coreia pré-divisão. E, apesar de vivermos a pior crise de nossa história, nada impede que criemos e implantemos uma política educacional séria, consistente e de longo prazo, ou seja, que transcenda o fim de cada governo.

A crise econômica, os escândalos políticos, a corrupção infinita e endêmica, o “jeitinho brasileiro”, a violência urbana, as desigualdades sociais… Tudo isso e muito mais só acontece porque somos uma nação mal educada.

Nada, nem mesmo inclusão econômica de classes menos favorecidas, resolverá qualquer um desses problemas. Se realmente quisermos um país que seja bom para vivermos e do qual nos orgulhemos, precisamos investir na educação. Isso significa cobrar dos governantes mais seriedade nessa área, participar ativamente das atividades das escolas de nossos filhos, colaborar, como empresas, com iniciativas educacionais. Todos precisam dar a sua contribuição!

Mas, acima de tudo, isso devemos valorizar o professor. Sem isso, nunca sairemos do buraco onde estamos.


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Seu sucesso pode vir quando você tocar a vida de alguém

By | Educação | 7 Comments

Imagem: Visual Hunt / Creative Commons

Eu sei: a vida não está fácil; a crise não dá sinais de trégua. Nessas horas, o velho ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro” ganha força! Uma multidão corre atrás do seu sucesso, tentando demonstrar sua competência, se especializando e, às vezes, até mostrando os dentes agressivamente. Mas minhas andanças nesses últimos tempos –e tenho andado cada vez mais vezes e mais longe como Top Voice– têm reforçado uma velha crença minha: seu sucesso pode vir dessas ações focadas em você, claro. Mas ele virá mais rapidamente e melhor quando você tocar a vida das pessoas. E as redes sociais podem ser ótimas para isso, desde que bem usadas.

O motivo é muito simples: nunca sabemos de onde virá o sucesso, assim como não dá para antecipar o próximo vídeo viral. Por mais que tracemos uma meta e trabalhemos duro para ela, não há nenhuma garantia que chegaremos lá, pois sempre há uma variedade de fatores externos que não estão sob nosso controle.


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Uma boa maneira de ampliar nossas chances é trazer mais gente boa para nosso barco. Não como funcionários, fornecedores ou mesmo clientes. O melhor tipo de companheiro nessa jornada é aquela pessoa que, mesmo não o conhecendo pessoalmente, saiba de seu propósito, seus valores, seus sonhos, e concorde com neles!

Como fazer isso? Falando com os outros, demonstrando empatia com pessoas e causas em que você acredite, estando genuinamente aberto para ajudar o próximo no que for possível. Não é doação financeira, não é trabalho voluntário (apesar de essas ações também serem muito positivas). É algo mais poderoso que isso: estar disponível e com o coração desarmado até para pequenas ações, como ouvir o que o outro tem a dizer, dar um conselho, compartilhar boas ideias.

Nesse tipo de alinhamento, existe uma combinação rara de conversa com o cérebro e com o coração do outro. Seu novo companheiro estará então com você promovendo o que você acredita e, de quebra, o que você é e o que você faz. Em outras palavras, o resultado disso é uma reputação consistente naquilo que você faz, algo inestimável no mundo atual dos negócios.

A essa altura do campeonato, alguns podem estar achando isso um tanto oportunista e até maquiavélico.

E é aí que você escolhe os bons companheiros de jornada.

 

Não existe gentileza falsa

Há muitos anos, meu chefe na época me disse algo que nunca mais esqueci: “não existe percepção errada”. Você pode criar um produto incrível, comunicá-lo da melhor maneira possível. Mas nada impede que seus clientes entendam tudo diferentemente. Eles terão percebido as coisas assim! E não é uma “percepção errada”, pois é a percepção deles.

Da mesma forma, não existe gentileza de mentira. Ou você é ou você não é. Quem fica se esforçando (talvez sofrendo) para ser gentil na verdade não é nada disso.

É por isso que, se você conseguir fazer o que propus de uma maneira leve e natural, você jamais estará sendo oportunista e muito menos maquiavélico. Por isso, não tenha medo de julgamentos.

E sabe o que é o mais interessante disso tudo? As pessoas percebem o que você realmente é!

Voltando ao campo dos negócios, não há melhor propaganda que essa! Pelo simples fato de que não é publicidade: ninguém está pagando nada a ninguém. É uma troca genuína de ideias e de propósitos, que pode render novos clientes e até novos mercados para os envolvidos.

Esse tipo de comportamento precisa de incentivo e de divulgação, seja dentro da empresa para clientes, fornecedores, parceiros e o público em geral. As redes sociais, e o LinkedIn particularmente, são provavelmente as melhores ferramentas para essa nobre tarefa. Pois elas propagam ideias muito, muito além de nossos limites pessoais. E de uma maneira mais convincente que qualquer propaganda.

Tem que espalhar!

 

Ouça mais, fale menos

Em outra experiência profissional que tive há muitos anos, em uma empresa de alta tecnologia que respirava valores típicos do Vale do Silício, os funcionários começaram a pedir para conversar com o presidente para lhe exporem suas ideias para o negócio e suas percepções (de novo elas) sobre a empresa. Acontece que, naquele momento, o presidente era alguém com uma visão mais conservadora de gestão. Por isso, sua resposta a esse clamor generalizado foi colocar uma caixinha de sugestões com o logo da empresa no saguão do andar da diretoria.

Sabe de nada, inocente!

Nem uma única sugestão jamais entrou na tal caixinha! Os funcionários se sentiram desprestigiados e o presidente ainda virou motivo de chacota. Pois ele não entendeu nada! E não entendeu porque, no fundo, ele não queria ouvir coisa alguma daquelas pessoas.

Para infelicidade geral, ele foi o presidente que conduziu a empresa ao encerramento de suas operações, algum tempo depois.

Quando queremos construir um relacionamento de qualquer natureza, pessoal ou profissional, precisamos estar preparados para ouvir o que o outro tem a dizer. E, nesses tempos acelerados, essa é uma virtude cada vez mais difícil de se encontrar. Pois todos parecem ter algo a dizer, inclusive para demonstrar como são competentes e que, assim, merecem uma chance de atingir o sucesso.

Só que o mais sábio não é aquele que tem muito a dizer, é aquele que sabe ouvir mais que falar, e, com isso, construir algo positivo para todos.

Parece óbvio. Aliás, muitos podem pensar que esse texto está cheio de obviedades. E está mesmo.

Mas então por que tão pouca gente age assim?

Ser gentil, demonstrar empatia, viver com humildade estão entre as coisas mais nobres e valiosas que qualquer um pode oferecer ao outro. Esse alto valor vem justamente da sua raridade. O que é uma pena, pois tem um grande poder de transformação pessoal e social.

Então, se a crise está feia e a necessidade de alcançar o sucesso nunca pareceu tão importante, comece a prestar mais atenção a quem está a sua volta, ainda que virtualmente nas redes. Ouça o que têm a dizer. Retribua! Ofereça algo de coração a todos. Esse é o melhor caminho para o sucesso hoje.


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A tecnologia pode acabar com conselhos profissionais e sindicatos

By | Tecnologia | One Comment

Imagem: Visual Hunt/Creative Commons

Você sabia que, como passageiro, você também tem uma nota no Uber, dada pelos motoristas? Longe de ser uma firula do serviço, essa “reputação” está transformando dramaticamente, ainda que de maneira sorrateira, a maneira como compramos produtos e contratamos profissionais. E, nessa nova ordem mundial, sindicatos e conselhos profissionais podem estar rumando para o mesmo fim dos dinossauros.

Tudo por causa de fundamentos da economia compartilhada! Com eles, profissionais, produtos e serviços são escolhidos por seus clientes a partir da experiência que outros consumidores tiveram antes com tais fornecedores. Quem atende bem, é brindado com uma boa nota, e assim ganha destaque nos sistemas.


Vídeo relacionado (de 17/5/16):


O critério de reputação foi criado por essas empresas como uma maneira de dar alguma proteção tanto ao consumidor, quanto ao fornecedor. Afinal, quando você chama um carro pelo Uber, quando faz uma compra pelo Mercado Livre, quando se hospeda pelo Airbnb (apenas para ficar em alguns exemplos óbvios), você está comprando algo que não é da empresa, e sim fornecido por uma legião de desconhecidos que usam essas plataformas para viabilizar os seus micronegócios. Por isso, a nota que outros clientes já lhes atribuíram é fundamental para saber se esses fornecedores prestam um bom serviço.

Quem tiver uma boa nota, acaba sendo privilegiado pelo sistema, e faz mais negócios. Já quem tiver uma nota ruim, pode acabar sendo expulso dele! Da mesma forma, o cliente também tem sua nota, atribuída pelos profissionais com quem já fez negócio anteriormente. Um cliente ruim também pode ser recusado! Afinal, você alugaria o seu apartamento pelo Airbnb para um “ogro”, que pode estragar tudo lá dentro?

O efeito colateral disso é que as empresas de economia compartilhada não dão muita bola para convenções sindicais ou resoluções de conselhos profissionais.  Quem pode oferecer seu serviço na plataforma, quem é considerado um bom profissional, a maneira como o serviço é prestado atende os seus próprios critérios, e não o que dizem as entidades de classe.

Em muitos casos, isso gera conflitos seríssimos. Talvez o caso mais emblemático seja justamente o do Uber, que entrou em choque frontal com sindicato dos taxistas do Brasil (e do mundo) todo. Afinal, qualquer um que atenda seus critérios pode virar seu motorista. Isso passa por cima das regras dos sindicatos e até das prefeituras, que regulam a atividade.

Mas advinha de que lado fica o consumidor?

 

Cabo de guerra

O cliente não dá a menor bola para as convenções sindicais ou resoluções de conselhos, que, aliás, normalmente desconhece. O que interessa para ele é ser bem atendido, com um profissional competente, com um serviço focado em suas necessidades e a um preço justo. Mas essas regras existem por bons motivos. E aí surge o grande dilema.

Os sindicatos foram criados com a Revolução Industrial, como uma maneira de proteger os interesses dos trabalhadores, que não tinham nenhum direito e eram explorados além do limite da irresponsabilidade. Têm, portanto, um papel essencial na construção de uma sociedade mais justa. As resoluções e códigos de ética dos conselhos profissionais, por sua vez, regulamentam como os profissionais devem exercer seus ofícios, inclusive protegendo interesses dos clientes.

O problema é que, como se pode imaginar, tais regras sofrem atualizações muito, muito lentamente, inclusive porque qualquer mudança precisa ser muito debatida e até embasada em pesquisas científicas, em muitos casos. Mas o mercado não topa mais esperar por isso, pois seu ritmo é muito mais acelerado, e isso só tem aumentado com a introdução de novas tecnologias digitais e a entrada de empresas com modelos de negócios totalmente disruptivos.

Não estou dizendo que a tecnologia vai acabar com categorias profissionais inteiras. Aliás, a tecnologia jamais destrói coisa alguma! Ela promove transformações, propondo alternativas mais vantajosas para as pessoas. Quem tira uma categoria profissional, um produto, um modelo de negócios da jogada é justamente seu consumidor, quando ele encontra essa tal alternativa que lhe atende melhor.

Para piorar ainda mais a situação das entidades de classe, muitas têm fortíssimos interesses políticos, que, muitas vezes até se contrapõem aos dos seus representados. Outras tantas se encontram envolvidas em escândalos de corrupção. Como resultado, não apenas o público, como também muitos profissionais da categoria começam a achar tudo aquilo um atraso de vida.

E advinha só onde todos acabam caindo?

 

Alternativa também para o profissional

Apesar da importância das regras das entidades de classe explicadas acima, o que se vê são cada vez mais profissionais acompanhando seus clientes para as novas plataformas, inclusive contrariando determinações de suas categorias. E o motivo é muito simples: as demandas do público são claras e vão nessa direção.

Oras, pode chegar uma hora em que, se o profissional não embarcar nessas novidades, ficaria sem clientes! O que lhe restaria então?

Um bom exemplo é o que acontece com os psicólogos. Segundo resolução do Conselho Federal de Psicologia, não é permitido fazer terapia online. O máximo que é permitido é uma orientação psicológica pontual, limitada a, no máximo, 20 sessões.

Só que os pacientes não entendem isso! Em uma sociedade totalmente conectada, em que cada vez mais coisas podem ser feitas pelo telefone celular (desde paquerar até a declaração do Imposto de Renda), por que não é possível fazer terapia online? O questionamento ganha ainda mais força quando, por exemplo, o paciente muda de cidade e gostaria de continuar sendo atendido pelo mesmo profissional, à distância. Mas isso não pode acontecer, pois fere a resolução do CFP.

Por mais bem-intencionada que seja a resolução, fica cada vez mais difícil defender essa restrição, especialmente se considerarmos que pesquisas já estão sendo feitas nessa área há 15 anos! Como resultado, o que se vê no mercado são cada vez mais psicólogos ignorando a resolução e encontrando suas maneiras de atender as demandas de seus clientes, mesmo colocando em risco a sua atuação profissional!

Pior que isso: demoras como essa abrem espaço para o surgimento de serviços que ignoram solenemente as regras e chutam a porta com um modelo radicalmente diferente. No mesmo setor da psicologia, no ano passado foi lançado o Fala Freud, um aplicativo que bate de frente não apenas com a resolução acima, mas com o próprio código de ética da profissão. Desde então, ele vem provocando uma acalorada discussão e uma sequência de notas de repúdio de psicólogos.

O aplicativo foi longe demais? Não estou habilitado para afirmar categoricamente que sim ou que não. Mas o fato é que tem um monte de psicólogos cadastrados na plataforma.

Como lidar com essa crise?

 

Foco no cliente e no profissional

Como se pode ver, a tecnologia e as empresas com modelos de negócios (muito) inovadores estão provocando um enorme movimento no mercado. E não quero dizer que estejam promovendo uma bagunça. Mas certamente estão provocando profundas discussões e até indicando alternativas de como uma categoria profissional deve se comportar!

É óbvio que profissões e serviços devem ser regulamentados por entidades competentes, inclusive para proteger o cliente e o profissional: jamais sugeriria o contrário! Mas não é possível que isso continue sendo feito como é hoje.

Ao invés de se posicionarem em lados opostos desse cabo de guerra, empresas e entidades de classe deveriam se unir para se ajudar, cada um oferecendo o que tem de melhor para esse diálogo. Caso contrário, veremos cada vez mais profissionais sérios colocados entre determinações de suas entidades e as demandas de seu público. Se penderem para um lado, podem ficar sem clientes; se forem para o outro, podem ficar sem profissão.

É hora de dar as mãos e construir algo juntos com foco nos clientes e nos profissionais.


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Não olhe agora, mas você pode estar financiando um terrorista

By | Jornalismo | One Comment

Imagem: montagem sobre reprodução

Há alguns dias, cerca de 250 grandes empresas, como McDonald’s, Volkswagen, L’Oreal, e HSBC, disseram que estavam deixando de anunciar em produtos do Google, como o YouTube. O motivo: seus anúncios estavam aparecendo em vídeos que promoviam terrorismo, racismo e outros conteúdos para lá questionáveis. Você pode estar se perguntando: “e o que eu tenho a ver com tudo isso?”

Muita coisa!

Longe de ser apenas uma questão comercial, essa crise potencialmente pode mudar a Internet como a conhecemos. Em uma situação extrema, muitos serviços comuns em nosso cotidiano, que hoje são gratuitos, poderiam passar a ser pagos. Mas algumas atitudes simples nossas podem evitar isso.


Vídeo relacionado:


Para quem não sabe do que se trata tudo isso, uma breve explicação. Pelo método criado pelo Google e largamente adotado é copiado por empresas na Internet, os anunciantes não sabem exatamente em que conteúdo sua publicidade aparecerá. Eles cadastram suas peças e dão diretrizes ao sistema sobre assuntos aos quais as peças devem ser associadas. Mas quem define esse destino, em última instância, são os algoritmos do Google e das outras empresas que vendem publicidade digital, pois se trata de um processo automatizado.

Justamente nisso reside o maior poder do marketing digital. Graças a esses algoritmos, a chance de um anúncio aparecer associado a um conteúdo que tem forte relação com ele aumenta muito. E existem literalmente milhões de páginas e vídeos disponíveis para isso. Consequentemente a probabilidade de o anúncio ser relevante para a pessoa que está vendo tal conteúdo aumenta muito! Logo, as vendas do anunciante tendem a ser muito maiores que as feitas com uma publicidade tradicional.

Mas os algoritmos não são perfeitos. Muitas vezes, o anúncio acaba sendo exibido junto a conteúdos que não têm relação com ele. Pior que isso: pode ser exibido associado a conteúdos que nem deveriam estar na plataforma, como os que estão causando toda essa celeuma.

Mas qual é o real tamanho desse problema?

 

Tempestade em copo d’água

A retirada das campanhas do Google vazou para a imprensa, que botou a boca no trombone. Ao meu ver, a reação desses anunciantes é um tanto exagerada. Pode-se argumentar que é uma questão de princípios: nem um único banner deve ser associado a uma atividade ilícita. Até aí, tudo bem. Mas a repercussão na imprensa deu a entender que o Google é inundado de conteúdos pró-terrorismo e que os banners dos seus anunciantes estariam viabilizando atividades do Estado islâmico e sua turma, o que evidentemente é um despropósito.

Porém isso foi suficiente para criar possivelmente a maior crise de reputação que o Google já teve. E isso pode colocar em risco todo o seu modelo de negócios e a internet como a conhecemos. Afinal, podemos usar gratuitamente os seus diversos produtos justamente porque eles são bancados pela publicidade. E quanto mais os usamos, mais banners são exibidos, gerando mais dinheiro para o Google.

Em outras palavras, ao usar, por exemplo, o YouTube ou o próprio buscador, nós não somos os clientes do Google: somos parte do produto! Os clientes são os anunciantes. E isso vale para todas empresas que vendem publicidade de maneira semelhante, como o Facebook.

Para piorar a confusão, nessas horas sempre aparecem oportunistas.

 

Solução no passado?

No meio da tempestade, o UOL resolveu publicar uma “carta aberta” em que se coloca como a solução para o problema. No documento, o portal joga mais lenha na fogueira, colocando em xeque o modelo da publicidade digital do Google. Pior que isso: usa muita desinformação para confundir ainda mais o público e os anunciantes, como quando sugere que, no marketing digital, o conteúdo deixa de ser relevante. Oras, mas é exatamente o contrário disso! O conteúdo é essencial no processo, pois os algoritmos tentam vincular cada anúncio a um conteúdo semelhante a ele.

Claro que o site se coloca como a solução para o dilema, pois garantiria todo o conteúdo criado por ele e suas centenas de parceiros. Isso é uma falácia, pois o UOL não tem controle editorial sobre nenhum deles, nem pré-aprova o que publicarão. Logo, não pode garantir nada.

Isso me lembra um outro documento, publicado apenas um dia antes pela Folha de S.Paulo, principal acionista do mesmo UOL, em que se coloca como a solução para a crise de notícias falsas que as redes sociais vivem. Segundo a Folha, apenas o jornalismo profissional poderia garantir que tudo o que lemos é confiável e tolerante.

Seria verdade, se o tal jornalismo tradicional praticasse esses valores sempre. Desgraçadamente, vemos, dia após dia, veículos de comunicação tradicionais protagonizando vergonhosos exemplos de imprecisão e distorções causadas por interesses políticos e econômicos. A cobertura da “Operação Carne Fraca”, da Polícia Federal, foi um patético exemplo de como a imprensa profissional pode fazer um péssimo trabalho, desinformando todo o país.

Portanto, muito cuidado com aqueles que promovem soluções oportunistas em algo que estão perdendo feio de concorrentes que estão sob os holofotes no momento.

 

Para onde podemos correr?

É bom que fique claro que esse artigo não pretende defender o Google ou as demais empresas que distribuem grandes volumes de mídia digital de maneira automática, como o Facebook ou a AOL. A ideia aqui é apenas discutir os fatos e propor caminhos para essas empresas, anunciantes e cada um de nós, internautas.

Naturalmente Google e afins têm que dar seus pulos para tentar melhorar dois aspectos essenciais. O primeiro é melhorar os sistemas que varrem automaticamente conteúdos publicados em suas plataformas, como o YouTube, para banir aqueles que são inadequados. Sistemas semelhantes já existem para evitar, por exemplo, que sejam publicados conteúdos que violem direitos autorais, e eles são bastante eficientes.

A outra coisa que precisa ser feita é calibrar os algoritmos que associam os anúncios nele cadastrados a qualquer conteúdo, inclusive àqueles que não estão em suas plataformas (qualquer site pode exibir anúncios vendidos pelo Google e ser remunerado por isso). Dessa forma, o problema seria controlado nas suas duas pontas.

Como se pode ver, existem soluções. É improvável que essa crise se agrave ou mesmo se prolongue por muito tempo. Rapidamente os anunciantes que pularam fora do barco perceberão que esse modelo de publicidade digital é o mais eficiente para que tenham melhor retorno de suas campanhas, resultado de uma evolução contínua de 22 anos de mídia digital.

Portanto, não matemos a vaca para acabar com o carrapato! É claro que banners legítimos não devem ser usados para financiar o terrorismo ou qualquer outra iniciativa moral ou legalmente condenável. Ocorrências assim devem, portanto, ser combatidas, mas não acabando com uma plataforma que redefiniu o mundo da publicidade e do conteúdo, tornando-o um espaço muito mais democrático e eficiente.

Cada um de nós, como usuários, temos o poder e o dever de combater não apenas o mau conteúdo, mas também a má publicidade, que sempre existiram e sempre existirão. Para isso, as próprias plataformas oferecem recursos. Além disso, devemos cobrar que essas mesmas se empenhem para, de seu lado, criar mecanismos ainda mais eficientes para eliminar essas laranjas podres assim que surjam.

Só não podemos cair nessas conversinhas moles de quem está querendo só se promover em cima da crise, propondo uma volta a um passado. Um passado que os próprios usuários já enterraram.


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O que todos nós podemos aprender com 2016

By | Tecnologia | One Comment
Cena de “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin: devemos nos apropriar da tecnologia, mas não podemos deixar que ela tire nossa humanidade – imagem: reprodução

Cena de “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin: devemos nos apropriar da tecnologia, mas não podemos deixar que ela tire nossa humanidade

O ano de 2016 dificilmente será esquecido. Mesmo em quem conseguiu surfar na maré brava que ele representou, ele deixou suas marcas. Por isso, escolhi três palavras –tecnologia, resiliência e transformação– que podem ensinar algo para encararmos 2017. E adianto: ele pode ser melhor!

Em um ano em que tivemos a primeira Olimpíada na América do Sul acontecendo no Rio, grandes movimentos sociais espalhando-se pelas cidades, o impeachment de uma presidente, e uma quantidade sem precedentes de políticos e empresários graúdos indo para a cadeia por corrupção, o que mais impactou a população foi mesmo a crise: ela quebrou inúmeras empresas e catapultou o volume de desempregados para além dos 12 milhões, um triste recorde.


Vídeo relacionado:

O vídeo acima é um resumo (10 minutos) da palestra sobre Marketing de Conteúdo e Inbound Marketing, realizada no Campus São Paulo do Google no dia 28 de julho. Você pode assistir gratuitamente a íntegra do evento, incluindo todos os slides da apresentação, nesta página (1 hora e 32 minutos).


Nesse cenário em que “emprego com carteira assinada” virou artigo de luxo, as pessoas se reinventaram. Muitos começaram a olhar a tecnologia com outros olhos, deixando de ser apenas usuários para encontrar nela maneiras criativas para geração de renda e até mesmo para o desenvolvimento em uma nova profissão.

Possivelmente o exemplo mais emblemático disso seja o Uber, que vem crescendo explosivamente. É possível até mesmo que você conheça alguém que dirija seu carro para a empresa. Apesar de não divulgar quantos motoristas têm hoje, eles mesmos estimam que, só na cidade de São Paulo, já devem ultrapassar os 40 mil. Há um ano, antes da regularização do serviço pela prefeitura, esse número girava em torno de 1.500. Se, para o passageiro, esse enorme aumento trouxe vantagens, para os motoristas fez seus ganhos ficarem bem menores. Ainda assim, na média, eles continuam achando que dirigir para o Uber é um negócio interessante.

E isso faz parte do jogo. Já discutimos aqui as belezas e os riscos de se abraçar “trabalhos digitais”. A dica essencial é: conheça as potencialidades e o funcionamento do que pretende fazer, planeje-se e alinhe suas expectativas. Sem isso, dificilmente a coisa vai acontecer bem. Mesmo no Uber: não é só sair dirigindo! Deve-se ter metas, estudar o mercado. Sem isso, perde-se sua grande vantagem sobre o táxi tradicional, que é a oferta de um serviço diferenciado por cima do simples transporte de passageiros.

Há ainda um elemento que jamais deveria ser esquecido (apesar de muitas empresas não darem muita bola pare ele): as pessoas.

 

Acima de tudo, sejamos humanos!

Outra coisa que 2016 escancarou –e com grande ajuda das redes sociais– foi a importância de profissionais e empresas se relacionarem com seu público e seu cliente.  Um relacionamento genuíno, muito além da simples promoção de serviços e produtos. Em outras palavras, as pessoas querem hoje mais que simplesmente consumir: querem ter voz, poder participar, poder compartilhar e até mesmo ajudar!

O marketing tradicional, que se preocupa mais em empurrar produtos goela abaixo do consumidor, perde força diante dessa nova postura do público. Em contrapartida, novas técnicas como marketing de conteúdo e inbound marketing, que propõem a construção de um relacionamento com os consumidores, ganham mais espaço. Apesar dos seus nomes estarem na moda, o conceito está longe de ser novidade: temos exemplos de marketing de conteúdo ainda no século 19! Mas não há dúvida que as mentes mais criativas estão transformando tudo isso em algo incrível, graças a usos inteligentes da tecnologia digital.

Então o que eu quero que fique claro para todos é que, por mais que tenhamos que ser resilientes diante das provações que a crise nos impõe, por mais que a tecnologia nos ofereça incríveis oportunidades de nos transformar, devemos sempre lembrar que lidamos com pessoas, independentemente do que façamos.

Carl Gustav Jung, criador da psicologia analítica, dizia: “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.

Ele estava brilhantemente correto.

Portanto, o desejo para 2017 deste entusiasta da tecnologia que lhe escreve é que se apropriem dos recursos digitais que lhes fizerem sentido, de uma maneira consciente e para o seu bem e o das pessoas que o rodeiam. Mas nunca, jamais esqueçam de seu lado humano, pois é isso que nos diferencia das máquinas.

E assim construamos um ano incrível para todos nós!


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Insensibilidade online pode jogar no lixo sua marca e sua reputação: o que fazer?

By | Tecnologia | 5 Comments

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O Brasil acordou chocado nesta terça com a notícia do trágico acidente de avião na Colômbia que vitimou a maior parte do time da Chapecoense. As redes sociais foram tomadas por todo tipo de manifestação, especialmente de apoio e luto. Mas dois casos despertaram a ira dos internautas, demonstrando claramente como NÃO se comportar nos meios digitais: Catraca Livre e Netshoes.

O primeiro deles foi resultado de publicações sensacionalistas explorando a tragédia; o segundo, um aumento repentino do preço da camisa oficial do Chapecoense no dia em que quase todo o time morreu. Os dois tentaram se explicar, mas os usuários foram implacáveis.

O Caso do Catraca Livre foi o que teve mais repercussão. Tudo começou com a criação de slide-shows com fotos dos jogadores, incluindo “selfies do último dia de vida”, e postagens de vídeo de pessoas entrando em pânico em um avião prestes a se acidentar. Ou seja, um caso incrível de falta de sensibilidade não apenas com as vítimas retratadas, mas com toda a população, chocada com a tragédia.

Diante de um tsunami de críticas, grande parte delas raivosas, a publicação resolveu se posicionar. E, ao fazer isso, piorou ainda mais a situação. As primeiras explicações publicadas não assumiam o erro e ainda reforçavam a falta de sensibilidade diante da irrelevância do que havia sido publicado, com frases como “mostrar outros aspectos da tragédia, como medo de voar e os mitos”. Outras explicações e, finalmente, pedidos de desculpas se seguiram, mas aparentemente aquilo só fez tudo ficar ainda pior. Diante de uma aparente falta de ter para onde correr, o Catraca Livre começou a apagar seus próprios posts e comentários negativos de usuários: um erro grosseiro.

Resultado: milhares de “reações” negativas e de comentários se espalharam por todas as publicações do Catraca Livre hoje. Como os posts sobre a tragédia foram eliminados e a fan page continuou a ser alimentada com chamadas sobre outros assuntos, inclusive trivialidades, os usuários começaram a inundar tudo com seu descontentamento e sua incredulidade.

As reações negativas continuaram: rapidamente criou-se um movimento que pedia às pessoas que parasse de seguir o veículo nas redes sociais. Segundo o site Quintly, o Catraca Livre já tinha perdido mais de 300 mil “curtidas” no Facebook até o fim da tarde de terça (os valores mudam continuamente).

Mais ou menos nessa hora, Gilberto Dimenstein, um dos mais respeitados jornalistas brasileiros e criador do Catraca Livre, resolveu se manifestar. Em um post em sua página e na do veículo (abaixo), ele chamou para si o erro de julgamento pelas publicações, absolvendo o resto da equipe.

Imagem: reprodução

Empenhou a sua credibilidade na tentativa de revertera gigantesca onda de ódio. Mas era tarde demais.

 

A culpa é do sistema

No caso do Netshoes, quem levou a culpa foi o sistema. No site de material esportivo, a gritaria começou porque o valor da camisa oficial do Chapecoense passou de R$ 159 a R$ 249, justamente no dia em que a tragédia aconteceu. Os clientes e internautas viram na mudança de preço um inadmissível oportunismo diante de um eventual aumento de procura pelo produto causado pela tragédia.

A empresa publicou uma nota oficial (abaixo) procurando apaziguar os ânimos. Segundo a nota, a camisa estava com um preço promocional por conta da Black Friday. Por uma infeliz coincidência, o item teria se esgotado na manhã do acidente, fazendo com que o sistema automaticamente o marcasse como indisponível, porém com o preço normal.

Imagem: reprodução

Assim como aconteceu no caso do Catraca Livre, as explicações não foram suficientes para apaziguar os ânimos dos internautas, que continuaram criticando pesadamente a empresa, rotulando-a de insensível e oportunista. Apesar de as críticas não terem acontecido com a virulência vista no Catraca Livre, certamente a imagem do Netshoes saiu arranhada desse episódio

Mas o que fazer diante de mancadas tão grandes como essas?

 

Gestão de crise explosiva

Lidar com situações assim exige grande sensibilidade e rapidez. A gestão de crise vem ganhando enorme importância com as redes sociais, pois escorregões como esses se alastram como rastilho de pólvora pela própria natureza das redes sociais.

Esse ano contou com várias crises brasileiras de marcas e reputações que escorreram pelo ralo porque seus responsáveis demoraram muito a reagir. Em termos de redes sociais, um dia pode ser devastador para uma empresa ou um profissional que se vê sob fogo cerrado. Que dizer então de uma semana?

Nos eventos desta terça, do Catraca Livre e da Netshoes, o problema não foi agilidade: eles responderam quase instantaneamente à enxurrada de críticas. Nas duas situações, o que faltou foi sensibilidade, humanidade.

No caso da Netshoes, isso fica evidente já na resposta oficial: a culpa foi do sistema. Frio, insensível, analítico, o software simplesmente executou aquilo que foi programado diante da ocorrência de uma condição: no caso, o término do estoque do produto. Portanto, a empresa reagiu rapidamente, assumiu a falha e encontrou uma explicação plausível. Para muita gente, não haveria muito mais a ser feito.

Mas sempre há, ou a crise não teria ganhado a proporção que ganhou. Primeiramente, trata-se de um varejo de itens esportivos. Logo, diante de uma tragédia maiúscula que afeta diretamente algumas de suas linhas de produtos, os seres humanos que cuidam da gestão do negócio deveriam redobrar a atenção com tudo que se refira ao caso, e não deixar tudo nas mãos de um software.

Isso não aconteceu, portanto algo deveria ter sido feito após a crise ter se instaurado. E, nesse caso, o melhor a ser feito seria oferecer um posicionamento demonstrando uma verdadeira empatia diante do fato trágico. E isso tampouco aconteceu: a nota oficial carrega uma distância e uma frieza tão grandes quanto a ação do sistema que aumentou o valor da camisa do Chapecoense. Diante de um público em estado de choque, isso é praticamente o mesmo que nada.

O caso do Catraca Livre é ainda mais grave, pois não há um software para culpar: a crise foi instaurada devido a uma série de decisões desastradas da equipe editorial. E novamente todas as ações vieram embebidas de muita insensibilidade e até de certa arrogância.

Marcas e profissionais nunca podem esquecer que eles estão lidando com pessoas. Quando alguém bate à sua porta pedindo uma explicação e um posicionamento diante de uma grande mancada, não se pode limitar a ser burocrático. As pessoas estão com os nervos à flor da pele, extremamente sensíveis. Precisam, antes de qualquer justificativa técnica, ser acolhidas. E, após isso, os responsáveis devem tentar oferecer uma compensação plausível.

Somos seres humanos. As redes sociais não nos tiram essa qualidade: até mesmo amplificam nossas emoções. Assim, por favor, as pessoas merecem gentileza verdadeira.


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“Trabalho digital” vira salvação de muita gente, mas tem “pegadinhas”

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O personagem Quico, da série mexicana Chaves: o “dono da bola”, exatamente como os serviços digitais – imagem: divulgação

O personagem Quico, da série mexicana Chaves: o “dono da bola”, exatamente como os serviços digitais

Fazer o seu próprio horário, gerenciar seus custos e seus ganhos e, acima de tudo, não ter mais chefe: quem não gostaria de um trabalho assim? Pois tem muita gente materializando esse sonho profissional, graças a serviços digitais inovadores. Mas não há negócio mágico, nem garantido. Na verdade, “trabalhos digitais” exigem dedicação e planejamento como qualquer outro, e ainda escondem algumas “pegadinhas” que quebram as pernas de muita gente.

As aspas em volta do “trabalho digital” existem porque, na imensa maioria dos casos, a coisa acontece de forma bastante convencional, sendo apenas viabilizados, de alguma maneira, por recursos digitais. E alguns profissionais caem nas armadilhas justamente por esquecer que as regras do mercado continuam valendo da mesma forma.


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Um bom exemplo é o Uber. Uso o serviço regularmente desde que ele chegou em São Paulo e sempre “entrevisto” informalmente os motoristas sobre como eles veem a experiência de dirigir o próprio carro para os outros. Com raríssimas exceções, a resposta é sempre positiva: eles gostam e veem naquilo uma maneira de conseguir exatamente as condições que abriram esse artigo. Por outro lado, todos eles também dizem que hoje precisam dirigir muito mais para ganhar o mesmo que ganhavam há alguns meses. Isso, claro, para aqueles que já têm mais de seis meses de volante, o que é a minoria.

A empresa não divulga a quantidade de motoristas que tem em São Paulo, mas eles mesmos estimam que hoje seja algo entre 30 mil e 40 mil. Como consumidor, é fácil notar que há mesmo muito mais carros na rua: se antes eu chegava a esperar mais de 10 minutos por um deles, hoje raramente espero mais que três. Claro! Em tempos de uma gravíssima crise de empregos no país, muita gente teve a mesma ideia, e resolveu dirigir para o Uber. Pela lei de mercado, com o aumento da oferta, os ganhos caem. Sem falar que a porcentagem que o Uber retém aumentou consideravelmente.

Outra coisa que me chama a atenção desde o começo é o nível educacional dos motoristas. Claro que existe de tudo, mas já cansei de pegar engenheiros, advogados médicos e outros profissionais normalmente muito valorizados topando guiar 12 horas por dia para poder pagar suas contas, diante do desemprego explosivo. O nível dos carros também varia bastante, mas há duas semanas fui surpreendido por uma BMW impecável vir me buscar, apesar de ter chamado um carro do Uber X, versão mais barata do serviço. O carrão não se classificava na categoria Black, a mais cara, por ser de 2013, portanto velho demais para os critérios da empresa.  O dono do carro, um homem de cerca de 45 anos, estava ali porque sua empresa havia falido, e não sabia o que fazer.

No final, a corrida deu R$ 16,75, dos quais 25% ficaram com o Uber. E aí está a grande pegadinha.

 

“A bola é minha: brinco como eu quiser”

Como consumidor, eu adoro o Uber! Mesmo me colocando no lugar dos motoristas, ainda acho que ele seja interessante, especialmente porque está sendo a saída de muita gente para ganhar algum dinheiro nesses tempos bicudos.

Mas claramente eles não têm tanta liberdade quanto imaginam, pois precisam trabalhar cada vez mais para garantir um ganho mínimo, e nas condições que lhes são impostas unilateralmente. E, se não são empregados de nenhuma empresa, na prática respondem, sim, para uma companhia, que, como qualquer outra, visa lucros. Por fim, se não há um chefe personificado em alguém, ele existe de fato no aplicativo que determina quem devem transportar, de que forma e a que custo. Mais que isso: pode lhes aplicar punições se não seguirem as regras da empresa.

O aplicativo é, portanto, um chefe insensível e implacável, com quem não se pode argumentar. Assim como dizia o personagem Quico, da série mexicana “Chaves”, a bola é dele, e todos têm que brincar do jeito que ele quer.

Mas é possível se divertir muito com a bola do outro. É só alinhar as expectativas.

 

De salvação a opção de vida

A essa altura, muita gente pode estar pensando que eu acho o “trabalho digital” algo ruim ou que o Uber explora os motoristas.

É exatamente o contrário disso!

Como disse acima, especialmente em tempos de crise, o uso inovador de tecnologia para criar empregos (ou pelo menos trabalho remunerado) é muito bem-vindo! O grande desafio é que isso deixe de ser apenas uma maneira de conseguir algum dinheiro para pagar as contas por falta de alternativa, e passe a ser uma opção de vida.

A primeira coisa a se fazer é parar de achar que existe uma mágica em torno disso tudo. “Não existe almoço grátis”, como diz o ditado. Quem pensa que vai criar uma fan page no Facebook e ganhar muito dinheiro vendendo qualquer coisa está muito enganado.

Como qualquer empreitada, é preciso conhecer bem as regras do jogo para fazer um modelo de negócios confiável. Seja Uber, Facebook, Mercado Livre, Airbnb ou qualquer outro serviço digital que possa virar nosso parceiro no negócio que estejamos nos metendo, temos que saber quais seu funcionamento, exigências, restrições, vantagens e desvantagens. Cada um tem o seu e o que funciona para um cliente pode não funcionar para outro. Portanto, muita calma nessa hora, para avaliar, sem deslumbramento, o que cada um tem a oferecer.

Além disso, deve-se estudar outros fatores, como quem é a clientela, a concorrência, as características do mercado, a legislação aplicável, fornecedores e outros parceiros, custos e riscos, para então descobrir boas oportunidades.  Os “trabalhos digitais” são muito sedutores porque criam oportunidades e abrem portas que muitas vezes sequer existiam no mês passado, e por isso são muito bem-vindos! Mas a maior parte do trabalho é bastante “analógico”, como qualquer outro negócio. Sem isso, corre-se o risco de engrossar a estatística do IBGE que diz que 60% das empresas brasileiras quebram antes de completar cinco anos.

O objetivo, portanto, é fazer todo esse planejamento com calma e detalhadamente. Assim, as expectativas ficarão alinhadas e os projetos serão bem construídos, evitando-se frustrações. E aí os “trabalhos digitais” brilham com força!


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Robôs podem ajudar no combate à “coisificação” dos empregos

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Cena do filme “A Invenção de Hugo Cabret” – Foto: divulgação

Cena do filme “A Invenção de Hugo Cabret”

Pouca gente sabe, mas já há algum tempo robôs escrevem parte do noticiário que consumimos. Mas longe de ser uma ameaça aos jornalistas, esse fenômeno pode ajudar a combater o desemprego, trazendo alguma luz sobre o processo de “coisificação” dos trabalhos de qualquer categoria profissional.

Esses jornalistas-robôs não são máquinas humanoides, e sim programas de computador conectados a bancos de dados de diferentes tipos. Eles procuram permanentemente por determinadas informações e, quando as encontram, produzem textos em uma fração de segundo, com uma qualidade que virtualmente impossibilita diferenciar um texto de um desses robôs de um escrito por uma pessoa.


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Mas os robôs não são capazes de escrever qualquer texto (pelo menos ainda não). Eles são muito eficientes na produção de material fortemente baseado em números, como resultados financeiros ou placares esportivos. Os programas não têm inteligência artificial para artigos que exijam abstração, mesmo a partir daqueles mesmo dados. Não conseguem, por exemplo, escrever um texto como este que você está lendo agora.

Robôs não ameaçam, portanto, os empregos dos jornalistas. Na verdade, eles podem lhes tirar o fardo de matérias enfadonhas, para que possam produzir reportagens e artigos de alto valor intelectual.

Infelizmente, quem ameaça esses empregos são os próprios jornalistas e as empresas de comunicação.

Neste momento de crise aguda da imprensa tradicional, os jornalistas mais experientes (e caros) são demitidos por economia. Sobram os novatos, que, além de não ter os necessários calos da profissão, acabam sobrecarregados de tarefas, e topando tudo para não perder o emprego.

O resultado previsível são textos com pouquíssimo esforço de reportagem e quase nenhum requinte intelectual. Esses profissionais ficam esmagados entre denuncismo e jornalismo palaciano de um lado e números do outro, e pressionados pelo volume de produção pelos veículos. Ou seja, os textos que produzem ficam tão limitados quanto os dos robôs, e talvez menos precisos.

Então não precisamos mais de jornalistas?

 

O valor do conhecimento

Jornalistas não estão sozinhos diante desse drama: profissionais de muitas áreas começam a sofrer concorrência de sistemas automatizados. Mas novamente aqui eles não são as reais ameaças aos seus empregos. O verdadeiro risco está na “coisificação” de seus trabalhos.

Assim como na imprensa, empresas de todos os setores passam por momentos dramáticos por conta da crise que assola nosso país. Nessas horas, demitem os funcionários mais caros, extinguem funções e cortam investimentos. Sobram os peões e a mão de obra absolutamente essencial. O objetivo: manter a fornalha acesa com o mínimo de carvão, na esperança de que o fogo não se apague até que dias melhores cheguem.

Em outras palavras, elimina-se a inovação, a iniciativa e o desejo de correr riscos. Fica-se quietinho para que ninguém perceba sua presença, torcendo para que as coisas se acertem por si só. É o típico manual do empresário amedrontado pela crise.

Esse é, entretanto, o melhor caminho para se dar mal. O guru da administração Tom Peters costuma dizer que “o fracasso é uma medalha de honra”, pois ele demonstra que se tentou. E conclui: a única maneira de não fracassar em algo é não tentar. Mas essa também é a garantia de que não se atingirá o sucesso em nada.

Quase posso ouvir agora alguns rindo nervosamente, enquanto leem esse texto e pensam: “falar é fácil”. Pois eu digo que fácil é se acomodar na toca, torcendo para que a tempestade passe logo. Se tiverem a sorte de estarem vivos quando isso acontecer, sairão dela enfraquecidos diante daqueles que aproveitaram a tormenta para reforçar criativamente suas estruturas.

Ao invés de se acovardar em seus buracos, empresas, profissionais, associações devem se unir para justamente encontrar fórmulas para fomentar a inovação e a iniciativa. Não estou dizendo para apostarem todas as fichas em uma única ideia, especialmente se não houver muitas sobre a mesa. Mas, mesmo em tempos bicudos, deve-se correr riscos por aquilo que vale a pena. E isso funciona para profissionais e para empresas.

Precisamos, portanto, de jornalista e de profissionais de todas as áreas. Especialmente dos bons e experientes o suficiente para ter sucesso correndo riscos! A alternativa é ficar lá na toca, com os dedos cruzados e produzindo coisas medíocres. Mas nesse caso, quando a crise passar, talvez encontrem mais robôs que profissionais trabalhando.


Vamos falar sobre a linguagem certa para público certo na Social Media Week? Esse é o segredo do sucesso nas redes sociais. É só entrar nesta página e clicar no botão verde de CURTIR abaixo da minha foto.


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O papel da Imprensa e da Justiça na crise brasileira

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Dilma conversa com Lula em cerimônia em que ele foi empossado como ministro-chefe da Casa Civil, no dia 17 de março - Foto: José Cruz/Agência Brasil

Dilma conversa com Lula em cerimônia em que ele foi empossado como ministro-chefe da Casa Civil, no dia 17 de março

Nos últimos dias, especialmente depois que as conversas telefônicas de Lula vieram a público, tenho visto uma enorme gritaria contra a Imprensa e contra o Judiciário. O que mais me assusta é perceber que as críticas vêm escoradas em uma ideologia maniqueísta que tenta transformar verdades escancaradas em versões pueris e reduzir aqueles que defendem a sociedade a simples “golpistas”.

Este artigo não tem objetivos partidários e não defenderei nenhum dos lados. Tampouco negarei que existem excessos de apoiadores e de críticos ao governo. A proposta é analisar desdobramentos que levaram o Brasil a uma polarização ideológica inédita e a uma movimentação política que não era vista desde os fatos que culminaram na renúncia de Collor, em 1992.


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A matéria-prima da Imprensa são os fatos, a verdade; do Judiciário, as leis, a justiça. Dentro desses limites, não podem ser condenados pelo resultado de seu trabalho incomodar alguém, especialmente porque, por definição, sempre incomodam.

No caso do Judiciário, a maior parte das reclamações recai sobre o juiz Sérgio Moro, por ter exposto repetidamente o Governo Federal e membros dos partidos da base governista na operação Lava Jato. Os críticos acusam o juiz de abuso de sua autoridade, por supostamente cercear direitos dos acusados e exagerar nos pedidos de prisão preventiva para obter delações premiadas.

O caso que jogou um tambor de gasolina em uma fogueira, que já estava bastante grande, foi a liberação, no dia 16 de março, de escutas em telefones usados por Lula, nas quais ele conversa com diferentes autoridades, inclusive a presidente Dilma Rousseff.

Como todos devem estar carecas de saber depois de uma semana de noticiário, os dois lados procuram se apoiar em leis para defender ou acusar Moro. Mas evidentemente não há nenhum “golpe” em curso pela Justiça, como muitos, até mesmo a própria presidente da República, insistem em dizer.

Moro está fazendo seu trabalho de juiz. Não é nenhum estagiário e está jogando o jogo com as peças que tem. Seus movimentos são, de fato, muito mais ousados que o que se costuma ver no Brasil. Mas seu baralho não tem cinco ases. Se ultrapassou os limites, a própria Justiça se encarregará de puni-lo. Por outro lado, se ele estiver dentro das regras, expondo ações criminosas de quem for, presta um inestimável serviço ao país. A gritaria dos descontentes não é, portanto, nada além de gritaria.

Mas ainda tem o “Partido da Imprensa Golpista”.

 

Imprensa preservando segredos?

No caso da Imprensa, vemos em diferentes veículos, tanto apoiadores quanto detratores do governo, a distorção da realidade para fazer valer seus pontos de vista. Qualquer título pode (e deve) ter seu alinhamento político, mas nunca, jamais pode faltar com a verdade e a pluralidade para valorizar o seu lado. Mas não vou dar audiência para essa turma que faz antijornalismo. Eu simplesmente não leio mais essas páginas da “direita” ou da “esquerda”. O que quero discutir aqui é a tentativa do governo de desqualificar o trabalho da Imprensa séria. E ele existe em profusão.

O principal argumento da turma do contra é dizer que ela se presta a publicar “vazamentos seletivos” e apenas notícias contra o governo. Eu nunca vi argumentos mais estúpidos e oportunistas, criados para confundir a população.

A fantasia de qualquer governo é ter uma Imprensa dócil, que lhe apoie incondicionalmente. Mas, se ela fizesse isso, não seria Imprensa: seria relações públicas. E o governo, por si só, já tem mecanismos mais que suficientes para se promover, como as mais gordas verbas de publicidade do país e a força da própria máquina governamental.

A Imprensa vem veiculando coisas boas e coisas ruins de governos federal, estaduais e municipais, suficientes até para municiar as diferentes oposições de cada um, que usam material dos veículos de comunicação em seus dossiês e em posts raivosos nas redes sociais.

Alguns podem dizer que agora só se fala nos escândalos que jogam Lula, Dilma e seu governo na lama. Acontece que a quantidade de notícias sobre esse tema, que tem a mais alta relevância jornalística, parece não ter fim. E isso nos leva aos tais “vazamentos seletivos”.

A Imprensa séria não faz, nem publica “vazamentos”. Ela publica reportagens, com verdades apuradas. A turma da gritaria, incluindo a presidente da República, vocifera ao dizer que ela jamais poderia divulgar informações sigilosas, pois isso seria ilegal. Mas a função da Imprensa não é guardar segredos: é revelá-los! Quem tem que guardar segredos são os responsáveis por tais informações. Se elas foram “vazadas”, por incompetência ou de propósito, a função da Imprensa é apurar a verdade, ampliá-la com informações adicionais e publicar tudo com o maior destaque possível. E isso tem acontecido.

Alguns podem dizer que a Imprensa é irresponsável ao divulgar isso tudo, pois estaria criando uma gigantesca instabilidade política. Mas não é ela que está jogando o país no caos. Não são sequer as pessoas que fazem os vazamentos. Os responsáveis pela crise são aqueles que cometeram os crimes, que agora estão sendo desmascarados.

As fontes dos tais vazamentos são sempre pessoas imaculadas, livres de interesses pessoais, pensando apenas no país? Claro que não! Na verdade, o padrão é que seja o contrário disso. Como esquecer de Pedro Collor, que jogou o próprio irmão-presidente na fogueira, motivado por ciúmes? É por isso que os vazamentos nunca podem ser a única fonte da Imprensa, mas são ótimos pontos de partida para as reportagens.

Por isso, quem afirma que ela é golpista não sabe o que é Imprensa, não sabe o que é golpe ou é mal-intencionado. Ilegalidades do Judiciário ou da Imprensa devem ser coibidos. Qualquer outra atitude ousada e que mostre a verdade, deve ser aplaudida.

Nesse cenário, o governo enche a boca para bradar que nossa democracia é plena e madura, por isso temos tantas investigações em curso, inclusive dos próprios governantes. Isso é uma meia-verdade. Esse argumento funciona para quem cresceu sob a truculência militar, com a polícia atirando e jogando a cavalaria sobre manifestantes, para quem aprendeu que um país é “mais estável” quando tem sua Imprensa e seu Judiciário amordaçados e acovardados.

Temos uma cultura construída em cima de 516 anos de rapinagem da nação por aqueles que estão no poder. Nossa democracia é, na verdade, jovem, imperfeita e frágil. Estamos no caminho certo para que ela amadureça de fato, mas isso só será possível com o Judiciário e a Imprensa desempenhando livremente os seus papeis. Assim, qualquer tentativa de impedir isso é uma manobra para debilitar a democracia. E é o que não pode ser tolerado.


 

 

O que resta à mídia nesse ano que começa?

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Entregador de jornal - autor desconhecido - domínio público

Esse ano promete para o jornalismo brasileiro! O país está em polvorosa e, assim mesmo, será palco de grandes eventos. Mas 2016 também deve ser o ano em que o meio digital assumirá um papel de protagonista no noticiário. E isso acende uma lâmpada vermelha nos chamados “veículos tradicionais”.

Teremos, em agosto, as Olimpíadas no Rio de Janeiro. Dois meses depois, será a vez das eleições municipais. Sem falar na crise econômica e no turbilhão político, que pode contar até com o impeachment da presidente da República. Ou seja, considerando apenas o noticiário nacional, assunto não faltará!

A questão é: quem fará a melhor cobertura? Os eventos acima exigem musculatura, muito dinheiro, grandes equipes. Portanto, os “suspeitos de sempre” –Globo, Folha, Estadão e afins– serão os responsáveis pela cobertura mais extensa. Mas isso não quer dizer que ela será a melhor, pelo menos sob a ótica do público.

O principal problema dos impérios de comunicação brasileiros é uma crise de credibilidade e de representatividade que só cresce. Isso é a morte para um veículo, pois sua existência só se justifica enquanto ele tiver um público que represente e que o busque para se informar. Mas o que temos visto nos últimos anos, cada vez mais, é o público bradar “esse veículo não me representa”. Chegamos ao cúmulo de jornalistas serem agredidos enquanto trabalham (e as vítimas mais comuns disso são os profissionais da Globo).

Esse movimento não é gratuito ou inesperado. Especialmente graças ao surgimento de alternativas jornalísticas no meio digital –e muitas nem podem ser classificadas como “veículos”– fica cada vez mais evidente o comprometimento da mídia tradicional com interesses econômicos e políticos (de oposição ou de situação). Isso ter interferido decisivamente na qualidade e na isenção editorial, ficando claro que o veículo está a serviço dos interesses da empresa e se lixando para a verdade e para o público.

Sem esse mesmo público, as tiragens despencam, os anunciantes fogem e os veículos desaparecem. O exemplo mais dramático é o da Editora Abril, que já repassou 17 revistas para a Editora Caras. Outros tantos títulos importantes foram simplesmente fechados (como a Info) ou perdidos (como a Playboy). Segundo fontes internas, as duas últimas revistas relevantes da casa dos Civita, Veja e Exame, já estão à venda, mas não há compradores interessados. A situação está tão ruim, que, desde o primeiro dia de 2016, a editora não cuida mais da praça Victor Civita, que leva o nome do seu fundador e é uma das mais modernas da cidade. Ela fica ao lado da imponente edifício-sede em Pinheiros, que, cada vez mais vazio, deve ser desocupado ainda neste ano, com os funcionários voltando para o velho prédio da Marginal Tietê, onde fica sua gráfica.

Em menor escala, mas de maneira igualmente preocupante, os outros grandes grupos de comunicação veem suas receitas caindo, junto com o interesse pelos seus produtos.

É o fim?

 

O renascimento no digital

De forma alguma! Apesar de magnatas da comunicação estarem sofrendo, o jornalismo vive um período emocionante de transformação. E o resultado disso são produtos jornalísticos mais modernos em sua forma e modelos de negócios, resgatando o fundamental vínculo com o público.

Naturalmente o digital está envolvido até o último bit nesse processo. O primeiro motivo é a própria mídia: é muito raro encontrar alguém com menos de 30 anos lendo uma revista ou um jornal impresso. Mais precisamente, a maior parte de seus públicos já tem mais de 50. E isso explica por que, há alguns anos, ouvi do gerente de assinaturas de um grande jornal paulista que ele acabara de criar uma nova linha na planilha de motivos para o cancelamento da assinatura: morte! Sim, a assinatura havia sido cancelada porque o assinante tinha morrido. O mesmo fim de qualquer produto que não consegue renovar seus clientes.

Nesse cenário, os gigantes digitais já perceberam que estão com a faca e o queijo nas mãos. Estudo publicado pelo prestigiado Pew Research Center demonstrou que o Facebook e o Twitter já podem ser considerados como fonte de noticiário: 63% dos americanos usam pelo menos uma das plataformas para se informar. Não é de se estranhar, portanto, que ambos, além de Apple e Google, tenham criado produtos que facilitam o consumo do noticiário neles mesmos. Lançado primeiro, os “artigos instantâneos” do Facebook já tiveram adesão de grandes veículos, inclusive brasileiros. Ótimo para essas plataformas; nem tanto para os veículos, que podem ser reduzidos a meros produtores de conteúdo.

Mas a grande mudança está acontecendo nas novas publicações, que já nasceram digitais. Não ficam, portanto, se martirizando para tentar migrar modelos de produção, distribuição e negócios moribundos para uma nova plataforma. Mesmo os que foram criados por egressos dos veículos “tradicionais” têm as equipes editoriais e de negócios cheias de “millennials”, cujos comportamentos, gostos e percepções são determinantes para o futuro dessas empresas. Procuram estar em todas as plataformas disponíveis, e criam produtos específicos para cada uma: afinal, os objetivos e a linguagem usados no Facebook não são as mesmas do YouTube, que também diferem, por exemplo, de um aplicativo ou do site do próprio veículo.

Por fim, há outra característica muito interessante nesse novo jornalismo: os veículos não criam enormes estruturas para cobrir todo tipo de assunto. Normalmente são focados em um tema específico, mas fazem aquilo muito bem. E isso faz todo sentido! Afinal, por que comprar um jornal ou uma revista que podem ser muito bons em política, mas péssimos em esportes? Muito melhor é consumir cada conteúdo de um especialista no assunto. E a “integração” da experiência informativa é feita pelo smartphone ou pela plataforma digital de preferência do usuário.

Então 2016 será o ano em que a mídia impressa vai morrer? Claro que não! Mesmo que continuem fazendo tudo errado, os impressos ainda têm muitos anos de sobrevida. Cada vez mais restritos, é verdade, mas ainda têm seu espaço garantido, pois, apesar de tudo, têm o seu público.

E há o ótimo exemplo que vem sendo dado por Jeff Bezos, dono da Amazon, que comprou The Washington Post em 2013 e está promovendo um verdadeiro renascimento do jornalão de 138 anos, colhendo resultados muito expressivos. O segredo? “Digitalizou” os modelos de negócios e de produção e manteve a excelência editorial do impresso.

Portanto, 2016 será um ano de grandes oportunidades para o jornalismo! Mas será melhor ainda para quem souber –e quiser– fazer a coisa certa.

 

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Se não souber como falar com seu público, ele o abandonará

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“Quem não comunica se trumbica”: os veículos de comunicação deveriam prestar mais atenção à célebre frase do Chacrinha - Foto: divulgação

“Quem não comunica se trumbica”: os veículos de comunicação deveriam prestar mais atenção à célebre frase do Chacrinha

Recentemente assisti a uma entrevista com a youtuber Kéfera Buchmann, que já tem mais de 5,5 milhões de seguidores e está fazendo um bom dinheiro com seu canal. Na hora, pensei na Info, que não resistiu e anunciou, no dia 12 de agosto, o fim da sua versão online (a impressa já não circulava desde fevereiro). Mas, afinal, o que uma coisa tem a ver com a outra?

Não, esse não é mais um melancólico post lamentando a morte de um veículo de comunicação. A proposta aqui é debater como o sucesso da primeira e a derrocada da segunda têm muito a ver com o uso adequado da linguagem.

Kéfera é bonita e divertida, e seus vídeos, apesar se resumirem a mostrar situações prosaicas de seu cotidiano, têm uma boa produção. Mas seu grande trunfo é usar uma linguagem adequada para seu público, que ela conhece bem. E, por linguagem, não me refiro apenas às palavras que ela escolhe. O ritmo, a edição e os efeitos aplicados nos vídeos são importantíssimos elementos para quem quer ter sucesso no YouTube. Seu bom manejo da linguagem digital continua em como promove seu conteúdo (e a si mesma) e como interage com seus fãs nas redes sociais, aproveitando-se das peculiaridades de cada uma. Ou seja, nada de tentar empurrar uma mesma chamada para todas ou ignorar as pessoas!

Voltemos à Info: para muitos, o fim da publicação era inevitável. Como me disse um colega, um dos melhores jornalistas de tecnologia do país, “não há mais espaço para revistas de tecnologia em Língua Portuguesa, há espaço para sites”.

Opa, mas a Info já era apenas um site desde fevereiro!

Muita gente vai dizer que o problema da publicação era o mesmo que assola a imprensa escrita de forma generalizada: a enorme queda das receitas publicitárias, acompanhando a fuga de leitores. Mas será que isso é tudo, especialmente em um veículo segmentado, talvez o melhor que já cobriu o noticiário de tecnologia do país?

A Info já sofria a concorrência de sites havia muitos anos. Chegou a ela antes de outros títulos, pela natureza de seu assunto e de seu público. Esse enfrentamento provocou, há uns cinco anos, uma mudança editorial que desfigurou a revista: a Info passou a ser menos técnica e a cobrir assuntos da “vida digital”, com pautas sobre negócios e até comportamentais. Na minha opinião, essa decisão foi desastrosa, e acabou afastando parte considerável de seu público mais fiel e antigo.

Junto com a mudança nas pautas, veio uma mudança na linguagem, que tentou ser mais descontraída. Isso pode ter reforçado a distância do leitor mais tradicional da revista, sem conseguir atrair o público de sites de tecnologia, que já nasceram com essa proposta. Apesar de ser um dos títulos mais vanguardistas da Editora Abril na adoção de novas formas de distribuição digitais, é um fato que a Info nunca conseguiu fazer aquilo que a Kéfera faz com extrema desenvoltura. Nesse ponto, o veículo ficou sem uma identidade clara. Tempere tudo isso com a crise do setor, e o desfecho da Info estava definido.

 

Atualizar sem se perder

Uma mudança de linguagem não implica em um veículo perder a sua essência. Um exemplo bastante interessante vem acontecendo no Jornal Nacional. William Bonner e sua equipe não se limitaram às tradicionais mudanças cosméticas do cenário e implantaram alterações significativas editoriais e técnicas, conferindo ao telejornal um novo ritmo, mas sem deixar de ser o JN.

Além de uma linguagem muito mais próxima do público e reportagens mais longas, o uso de um truque de câmeras combinado a um enorme telão permite que os âncoras conversem de pé com os jornalistas que fazem entradas ao vivo como se estivessem lado a lado. Vale destacar também a reinvenção da previsão do tempo (um noticiário tradicionalmente relegado ao segundo plano) com Maria Júlia Coutinho, que ganhou um destaque que poucos têm no JN. A nova “moça do tempo” não apenas informa a previsão, mas também explica o porquê dos fenômenos climáticos para o público. Além disso, o próprio Bonner extrapola os limites da telona e faz um bom uso de sua conta no Twitter, mesclando algum humor, tuítes pessoais e promoção do Jornal Nacional do dia.

 

“Quem não comunica se trumbica”

A famosa frase do Chacrinha é uma dessas obviedades da vida que muitas vezes passam despercebidas no cotidiano. Mas é inaceitável que uma empresa de comunicação não consiga praticar isso.

É claro que a crise financeira parece ser o maior dos problemas dessas companhias, metidas em um buraco que teima em ficar cada vez mais fundo. Ontem mesmo O Globo e Extra demitiram cerca de 60 jornalistas (aparentemente os de salários mais altos), no seu segundo “passaralho” do ano (o primeiro aconteceu há seis meses). Mas esse problema é uma “crônica de uma morte anunciada” diante da inabilidade (ou teimosia) dessas empresas em insistir em um modelo de negócios que não se sustenta mais há anos (e debatido exaustivamente neste blog).

A situação fica desesperadora quando notamos que há ainda essa crise de linguagem nos veículos tradicionais. Qualquer um sabe que não se deve usar as mesmas palavras de uma mesa de bar com os amigos ao se escrever um e-mail comercial, que, por sua vez, também não serve para um artigo científico.

Cada público e cada ocasião têm a sua maneira de se comunicar. Isso vale também para os meios digitais, e cada um deles tem suas peculiaridades. Quem não respeita isso assiste impotente a seu público ir embora. Kéfera explica.

NÃO estamos diante do fim do jornalismo

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Venda de jornais nos EUA

Venda de jornais nos EUA

Há alguns dias, ainda sob influência das recentes demissões no Estadão, na Folha e em outros veículos, li o artigo de Sylvia Moretzsohn no Observatório da Imprensa, sobre a crise que assola as empresas de comunicação e a “moral da tropa”. Ela faz importantes reflexões, mas o texto tem um tom pessimista com o qual não concordo. Apesar dos fatos, vejo o momento do jornalismo profissional como de transformação e não como seu “fim”.

É verdade que a situação não está fácil para ninguém, e que vejo a toda hora colegas desesperançosos com o futuro da profissão. Mas tudo isso é “crônica da morte anunciada”, seja do lado das empresas, seja dos profissionais. O “jornalismo como conhecíamos” não consegue mais se sustentar como negócio ou profissão. Mas isso jamais deve implicar em mudanças de seus fundamentos: compromisso com a verdade e com o público, investigação, persistência, pluralidade. Bom jornalismo hoje é o que sempre foi e sempre será bom jornalismo.

Por isso, a despeito do pessimismo, concordo com muito do que a Sylvia diz em seu artigo, especialmente com o trecho “o jornalismo precisa corresponder ao ideal que o justifica e o legitima socialmente.”

As reclamações atuais não passam do velho mito de que “a Internet vai matar o jornalismo” em nova roupagem, com o Facebook ganhando destaque como vilão. Nada mais falso: se você estiver lendo esse texto, a chance de ter chegado aqui a partir da rede do Zuckerberg é muito grande.

Empresas e colegas acusam o Facebook, o Google, o jornalismo-cidadão e outras “novidades digitais” de corromper os fundamentos acima em favor de amadorismo e de fórmulas baratas de “roubar” o público. É claro que existem coisas (muito) ruins na Internet, muitas delas travestidas de noticiário. Também é verdade que muitas delas têm público. E que, gostemos ou não, uma porcaria pode tirar audiência de um belíssimo trabalho, se for apresentada adequadamente às pessoas que servem de público para ambos. Mas pessoas sempre foram seduzidas por fórmulas fáceis e apelativas, e isso tampouco foi criado pela mídia digital: é tão velho quanto a imprensa profissional e tem vários nomes: sensacionalismo, jornalismo marrom e por aí vai. Portanto, não servem de desculpa para a perda da audiência dos “veículos sérios”.

Claramente muitos colegas e empresas estão perdidos nesta realidade de novas ferramentas de apuração e de publicação e -principalmente- do novo público. Diante da sua inabilidade, metem os pés pelas mãos, pioram o jornalismo, demitindo seus melhores profissionais e falhando ao tentar se adaptar ao novo cenário, e, por isso, não conseguem mais se sustentar.

Sou otimista quanto ao futuro do jornalismo: apenas precisamos tirar essa grossa camada fuligem: ele continua brilhando por baixo dessa sujeita velha. E isso só é verdade porque as pessoas querem ser informadas, e BEM informadas.

Jornalistas e empresas de comunicação precisam, sim, se reinventar, mas isso, de forma alguma, significa “se degradar” (nesse ponto, discordo do artigo da Sylvia). É exatamente o contrário disso! Devem melhorar ainda mais o seu conteúdo, enquanto aprendem a se diferenciar no mar de conteúdo qualquer-nota com que disputam a atenção e o tempo das pessoas. Quem conseguir fazer essas duas coisas, não apenas sobreviverá, como prosperará.

Por que algumas pessoas estão odiando a imprensa

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Ilustração da primeira sede do Estadão, um sobrado da rua do Palácio, atual rua do Tesouro, no centro de São Paulo: depois de 140 anos, o jornal continua vivo - Imagem: reprodução

Ilustração da primeira sede do Estadão, um sobrado da rua do Palácio, atual rua do Tesouro, no centro de São Paulo: depois de 140 anos, o jornal continua vivo

Recentemente o Brasil 247 retirou parte de uma conversa de Rodrigo Mesquita do contexto e, a partir dela, publicou “Herdeiro do Estadão: os jornais estão mortos“. Não discutirei o sensacionalismo barato do post, mas me preocupou muito a longa cadeia de comentários destilando um enorme ódio contra a imprensa e seus principais veículos. Algo na linha de “o Estadão tem mais é que morrer mesmo, e levar a Globo junto!”

A primeira coisa que pensei é que aquilo tudo era um rescaldo da hiperpolarizada eleição presidencial, que dividiu o país entre “azuis” e “vermelhos”, e onde alguns veículos da imprensa, mais notadamente a Veja, jogaram pesado -e às vezes sujo- no exercício da oposição. Mas, pensando melhor, isso não deveria ser suficiente para causar tamanha aversão, pois ela já vinda aparecendo com muita força desde as grandes manifestações de rua de 2013, quando alguns jornalistas que faziam sua cobertura chegaram a ser agredidos pela população, pelo simples fato de serem jornalistas.

Há algo muito perigoso nisso. Apesar de o jornalismo existir desde o Império Romano, sua versão moderna data do século XIX. Aqueles veículos rudimentares informavam a população de onde circulavam sobre os acontecimentos do local, do país e, quem sabe, do mundo. Eventualmente defendiam causas e tinham seu alinhamento político. De qualquer forma, a população se sentia representada pelo “seu jornal”.

Essa representação é um dos pilares do jornalismo. Uma imprensa livre é fundamental para a construção e manutenção de uma democracia. Por isso, a cartilha de qualquer ditador reza que a imprensa deve ser domada e silenciada o quanto antes. O finado Hugo Chávez refinou essa técnica, incutindo na população a ideia de que uma imprensa contrária ao governo é automaticamente contrária ao povo, quando, na verdade, normalmente acontece o contrário.

Se um veículo não consegue mais representar seu público, então ele perdeu sua razão de ser. Quando se radicaliza, como nos casos de Veja e Carta Capital, abre mão de parte da população em nome do que defende, mas ainda há um outro grupo que o apoia. Do lado do público, se alguém não gosta de um veículo, sempre haverá outro com o qual se alinhe. Mas o que vejo desde junho de 2013 é uma parcela crescente da população aparentemente abominar toda imprensa.

Não há dúvida que essa abjeta característica do chavismo chegou e se consolidou no Brasil, em grande parte por uma propaganda muito bem orquestrada nas redes sociais. Mas a grande imprensa não está ajudando em nada para reverter esse quadro. Já se foi o tempo em que a massa consumia sem questionar o que os veículos publicavam. As suas radicalizações são como gritos aos ouvidos de quem consome seu noticiário de maneira crítica (a melhor maneira, por sinal). Não estou dizendo que as publicações não devam defender uma posição ou mesmo se alinhar a um candidato em uma eleição. Isso é legítimo e saudável, desde que não esqueçam que, como veículos jornalísticos que são, devem realizar suas coberturas abrindo espaço para os outros lados, sem mentir ou destruir reputações apenas para fazer valer as suas teses.

Os próprios veículos -e ninguém mais- podem resgatar a confiança de seu público. E eles precisam se esforçar, genuína e rapidamente, nessa tarefa, ou a provocação barata do Brasil 247 acabará se concretizando.

A crise das empresas de comunicação também é de representatividade

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Composição mostra a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na ONU feita por veículos estrangeiros e pela Veja - Imagem: reprodução

Composição mostra a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na ONU feita por veículos estrangeiros e pela Veja

 

Na semana passada, a imagem acima inundou as redes sociais. Invariavelmente, ela era acompanhada de comentários criticando a postura da Veja, como exemplo de uma mídia nacional manipuladora e tendenciosa. Em meio a esse debate, ficou ainda mais claro para mim que grande parte da crise que os grandes veículos vêm enfrentando se deve ao fato de que eles não conseguem mais representar o seu público. Chego a me questionar se eles ainda se preocupam com isso.

A referida imagem é uma composição, publicada originalmente no blog de Luís Nassif, demonstrando a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na abertura da Assembleia Geral da ONU, no último dia 24, feita por veículos estrangeiros (The Guardian, Le Monde e El País), em que era destacado o embate contra a espionagem americana (com fotos de Dilma discursando), e pela revista brasileira, com um título sugerindo um discurso de olho nas eleições de 2014 (e uma foto com Dilma sentada, muito menos imponente que as demais).

É fato que isenção completa não existe, inclusive pela nossa natureza humana. Mas sou um homem forjado no aço de rotativas e sei que é perfeitamente possível fazer jornalismo com seriedade. E isso é uma obrigação do ofício e das publicações.

Por mais que o veículo tenha uma linha política com a qual se alie, e não há nenhum problema nisso (deve-se inclusive deixar explícito ao seu público), não tem o direito de fazer jornalismo tendencioso, que deliberadamente mostre apenas uma parte da verdade, para induzir as pessoas a comprarem sua tese, seja ela qual for, legítima ou não. Isso é antijornalismo!

Uma publicação pode ser de direita ou de esquerda, pode defender seus candidatos, mas deve noticiar também o que eles têm de ruim, assim como o que seus adversários têm de bom. E isso não se restringe a questões políticas: vale também para assuntos religiosos, esportivos, o que for, tudo aquilo que os antigos diziam que “não se deve por à mesa” (eles estavam errados!).

O veículo deve oferecer subsídios para que seu público construa a sua opinião: assim se forma uma sociedade. Sem isso, ele apenas reforça preconceitos de gente cada vez mais alienada em torno de realidades enviesadas.

Plataformas de articulação social

Há algumas semanas, Rodrigo Mesquita, membro da família proprietária do Estadão e responsável pela Agência Estado ter a importância que tem, deu uma entrevista em que sugere que os jornais (e podemos extrapolar para os grandes veículos da mídia) perderam o espaço que tinham como articuladores da sociedade.

“Historicamente, os jornais eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos, e contribuíram para a articulação dessas comunidades em torno de ideias e ideais, problemas, questões de consumo, da conversação política”, afirma Mesquita. Com isso, em um mundo em que o jornalismo era principalmente impresso, essas empresas ganharam enorme importância política. “Todas as empresas que atingem uma posição monopolista ‘emburrecem’. Os administradores das empresas jornalísticas se dedicaram apenas a gerenciar fluxo de caixa, relevando as possibilidades de empreenderem como empresários do setor de comunicação social”, conclui.

Trocando em miúdos, os veículos se tornaram máquinas bem azeitadas de fazer dinheiro na velocidade que suas rotativas imprimiam seus exemplares. Funcionavam tão bem, que esqueceram a sua função social. Os interesses da empresa começaram a se contrapor aos editoriais e, pior que isso, tudo começou a virar uma amálgama disforme e sem relevância para seu público.

Enquanto não havia outra plataforma que servisse de alternativa, essa massa serviu bem ao propósito do negócio. “Numa perspectiva histórica, (as empresas de comunicação) legitimaram-se, fizeram e ainda fazem dinheiro por causa da sua capacidade de articular públicos”, explica Mesquita.

Veio então a popularização da Internet, e o público deixou de ser um passivo consumidor das notícias (e das versões) dos grandes veículos e passou a ser protagonista da construção do noticiário. Subitamente, o público dos veículos, qualquer pessoa, passou a ser um potencial concorrente. E uma enxurrada de versões alternativas começou a surgir.

Quer pagar quanto?

Diante da incapacidade de lidar com esse novo mundo, os grandes veículos deixaram de representar seu público. E contestações como as vistas em volta da imagem acima aparecem o tempo todo.

O espaço para tal representação popular está aberto, democraticamente abraçando qualquer um que se proponha a isso. Aqui e ali, surgem pessoas, grupos e empresas procurando o seu espaço, representando desde poucos indivíduos a uma fatia significativa da sociedade.

Enquanto isso, os grandes veículos agonizam com receitas publicitárias e de assinatura cada vez menores. Não há surpresa nisso: ao não se sentir representado pelo veículo, seu público desaparece, derrubando as tiragens e as receitas. Afinal, quem vai pagar por algo com o que não se identifique?

As empresas de comunicação tentam sofregamente transpor seu velho modelo de negócios para a nova mídia. Não conseguem perceber que não há mais espaço para isso. Sua miopia está destruindo sua credibilidade, seu maior ativo.

Portanto, a solução para sair da crise é abandonar esse antijornalismo e se re-encontrar com seu público. Mas quais terão inteligência e coragem para isso?

A importância do caviar para o jornalismo

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Exemplos de capas do Estadão e da Folha de um mesmo dia: dois veículos de uma mesma empresa, feito de jornalismo palaciano, agências e assessorias? Imagem: reprodução

Exemplos de capas do Estadão e da Folha de um mesmo dia: dois veículos de uma mesma empresa, feito de jornalismo palaciano, agências e assessorias?

No dia 10, durante o 7º Fórum da Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner), em meio às discussões sobre a crise das empresas de comunicação impressa, Juan Giner, presidente do Innovation Media Group, sugeriu que os veículos precisam investir na produção de um jornalismo de alta qualidade, relevante e exclusivo, se quiserem que alguém pague pelo seu produto. Parece óbvio, mas não é, pois isso não se vê por aí.

“Temos que produzir um ‘jornalismo-caviar’, que seja nobre, raro e sofisticado, e principalmente que não seja encontrado em qualquer lugar”, disse Giner aos participantes do evento. “Mas 80% dos veículos de todo o mundo ainda não atingiram esse nível de sofisticação, exclusividade e relevância em seu noticiário. Precisamos produzir caviar”, alfinetou Giner.

Ele está certíssimo: as pessoas pagam pelo conteúdo que consomem, desde que ele mereça isso. O assunto já foi debatido neste mesmo blog mais de uma vez. Mas é uma pena constatar que a maioria do jornalismo por aí está mais para fast food que para caviar. É como se as empresas de comunicação, asfixiadas pelos seus balanços desfavoráveis, estivessem esquecendo como fazer bom jornalismo, preferindo as fórmulas fáceis, baratas e ruins. Não sabem mais onde está o caviar (e não procuram), e se contentam em oferecer hambúrguer de baixa qualidade. E isso não é uma exclusividade dos veículos impressos: permeia diferentes mídias.

Mas, agora discordando de Giner, apenas produzir jornalismo-caviar não é mais suficiente para salvar esses veículos. Para tornar a situação mais dramática, existe muita gente que despreocupadamente produz jornalismo (às vezes bom) de graça simplesmente porque aquilo não é o seu core business, mas precisa desse tal “conteúdo” para sustentar o que realmente lhe dá dinheiro. Isso não é nenhuma novidade: em 1996, quando o UOL foi lançado, as teles não queriam saber de oferecer acesso. Coube aos então chamados “provedores de acesso” criar a infraestrutura e oferecer a conexão. Naquela pré-história da Web, o conteúdo jornalístico da casa (no exemplo do UOL, vindo dos veículos da Folha e da Abril) era um “brinde” para convencer alguém a pagar pelo “acesso”, seu verdadeiro negócio.

Os portais de hoje não são muito diferentes disso. Talvez a maior ironia seja o fato de eles lucrarem muito distribuindo (pagando ou por parcerias) jornalismo da chamada “mídia tradicional”, que não aprendeu até hoje a lucrar nessa nova modalidade. E o problema reside em insistir em um modelo que foi criado no século 19, quando o leitor precisava pagar pelo jornal inteiro, mesmo que quisesse ler apenas uma notícia. Isso acontecia porque não era possível vender o jornal fatiado. Mas hoje isso é perfeitamente factível.

Não estou propondo micropgamento, algo difícil de implantar do ponto de vista técnico e financeiro. Mas o modelo “pague para levar tudo ou não receba nada” não se sustenta mais. Sim, é possível cobrar uma assinatura, mas por outro tipo de produto jornalístico que tire real e amplo proveito do que a tecnologia oferece, ao invés de simplesmente transpor o impresso para a tela. É isso que as pessoas não querem e que as empresas insistem em empurrar ao mercado. Para consumir notícia dessa forma, melhor ficar com a revista em papel mesmo.

E aí voltamos à história do tal jornalismo-caviar. Os novos leitores não consideram a hipótese de consumir notícias em papel. E os leitores antigos não querem mais pagar pelo jornalismo rasteiro e desqualificado que lhes é oferecido. As pessoas incensam o paywall do The New York Times, mas suas análises simplistas não vão além da exigência de pagamento para quem quiser ler mais conteúdo.

É uma visão míope e limitada do trabalho que a turma da “velha dama cinzenta” fez. Esquecem que o conteúdo gratuito é suficiente para atender às necessidades mensais de leitura de 90% dos visitantes de seu site, leitores eventuais (portanto, cobram apenas dos que realmente veem valor no produto e o consomem mais). Esquecem também que quem chega a uma notícia de buscadores ou de redes sociais não tem a leitura computada em sua quota, fortalecendo assim a sua relevância nessas importantes portas de entrada. Esquecem que os produtos digitais da casa são muito bons e não se resumem a transpor o impresso para a tela. Por fim, esquecem que quem assina o jornal impresso leva todos os produtos digitais de graça. Sobre tudo isso, uma generosa cobertura de jornalismo-caviar.

E continuamos com o nosso cachorro quente.