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Quando ser bom no que se faz vira um problema

By | Jornalismo | No Comments

Você sente que não sabe mais em quem acreditar? Não se vê representado por ninguém?

Você não está sozinho! E isso não é uma esquizofrenia coletiva.

É resultado de um processo cuidadosamente planejado e executado por grupos que querem se manter no poder. Mas esses grupos não são os únicos responsáveis por esse momento de confusão em que vivemos.

Isso acontece também porque instituições em quem sempre confiamos para separar o certo do errado perderam essa relação com seu público, porque não conseguem mais se comunicar com ele. Pior que isso: as pessoas não se sentem mais representadas por elas. E a perda de representatividade é o caminho mais eficiente para uma instituição, um governo, uma empresa, das maiores às menores, ser colocada para fora do jogo.


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A técnica usada por esses grupos não é nova. Trata-se de uma estratégia militar conhecida como “dividir para conquistar”. Foi criada pelo general romano Júlio César no século I a.C. e consiste em estimular divisões entre os indivíduos de uma sociedade para que eles não se organizem contra o governante. Além disso, promove o ódio entre esses indivíduos e empodera aqueles que apoiam o mandatário.

A novidade é que agora a comunicação e as redes sociais são as principais ferramentas dessa fratura proposital da sociedade. E isso acontece em uma velocidade alucinante, com uma crise nova a cada semana, ou mais!

Por exemplo, a sociedade ainda se debruçava sobre um interminável debate sobre a segurança das urnas eletrônicas depois do primeiro turno. Um ataque aos servidores do TSE coordenado com uma enxurrada de fake news tentou desacreditar o sistema eleitoral eletrônico, para atender interesses de grupos que aparentemente querem seu fim para fraudar a eleição de 2022.

Então, na quinta, aconteceu o brutal assassinato de João Alberto Silveira Freitas por seguranças de em uma loja do Carrefour em Porto Alegre. E o debate nacional passou a ser subitamente se existe racismo no Brasil (o que é surreal!).

Não estou dizendo que esses assuntos não sejam importantes ou não devam ser debatidos. Muito pelo contrário!

A questão é como esses temas são colocados em pauta pelos grupos no poder, começando já com uma temperatura altíssima, promovendo uma profunda rachadura na sociedade, ao invés de se encontrar um consenso construtivo, que seria o objetivo de um bom governante.

Se, a essa altura, você já está irritado com o que estou dizendo, essa é uma prova de que o método funciona!

Entretanto, como eu disse antes, isso é só uma parte do problema. A outra é que as instituições que tradicionalmente ajudavam a sociedade a separar o bem do mal, o certo do errado, perderam grande parte de sua capacidade de conversar com a população.

Essas instituições –como a imprensa, a igreja, a educação, a ciência– são importantes contrapontos ao “dividir para conquistar”, pois são elas que restabelecem a verdade e criam o ambiente para a união de um povo que quer se desenvolver. Não é por acaso que elas são fortemente combatidas pelos maus governantes. Exceto –claro– seus representantes que se submetem a seus caprichos: esses serão apadrinhados em uma imoral troca de interesses.

Mas por que essas instituições estão perdendo a capacidade de se comunicar com seus públicos?

 

Ficando bom e impopular

Ironicamente, ao buscar a excelência no que fazem, elas se tornam menos populares, no sentido amplo da palavra. Ficam mais difíceis de serem entendidas, tratam de temas que não fazem parte do cotidiano das massas. Pior: muitas até rejeitam demandas dessa parte da população, que acaba sendo a base mais numerosa da pirâmide social.

É fácil explicar isso olhando para a própria imprensa.

Sou jornalista desde 1993. A primeira vez que vi muita gente apontando para os veículos de comunicação e dizendo “você não me representa” foi nas grandes manifestações de rua de 2013.

Aquilo era um caldeirão de grandes insatisfações populares contra muita coisa, a maioria delas legítima. No meio daquelas gigantescas marchas, surgiam pontos de violência e depredação. Só que, pelo menos em um primeiro momento, muitos veículos de imprensa não apenas não reconheceu as demandas legítimas naqueles movimentos, como ainda se referiam a eles indiscriminadamente como “vândalos”, como se todos ali estivessem participando do quebra-quebra, o que obviamente não era o caso.

O resultado é que comecei a ver repórteres sendo hostilizados nas ruas pela população por simplesmente estarem fazendo seu trabalho. De lá para cá, isso apenas piorou, com o patrocínio dos governantes que perceberam como esse vínculo entre a mídia e seu público estava frágil.

Sem representatividade, nenhum negócio resiste!

Ainda no caso da imprensa, a busca de fazer um trabalho de excelência também acabou afastando os grandes veículos da base da sociedade. Isso começa pelo linguajar adotado, difícil de ser compreendido por essa parcela da população. Os assuntos também contribuem para esse afastamento, com pautas distantes de sua realidade. O uso limitado dos recursos digitais piora ainda mais essa situação.

Eu me lembro, nos anos 1990, quando a Internet comercial ainda estava nascendo, que algumas empresas de comunicação tinham um jornal “sério” e outro sensacionalista ou pelo menos com apelo mais popular. Isso quando não tinham publicações que juntas atendiam todo o espectro do público.

Apesar de a intelectualidade torcer o nariz para os “empreme-que-sai-sangue”, como eram chamados os jornais sensacionalistas, eles tinham uma importância fundamental para informar parte da população! Afinal, no meio de todo aquele material “questionável”, estava a notícia necessária para o indivíduo levar uma vida melhor.

Muitos desses jornais sumiram, por diferentes motivos. Foram substituídos por sites “de agrado fácil” para esse público, mas que não têm o menor interesse em informar nada. Na verdade, muitos hoje são veículos de desinformação.

Vamos pegar um mercado completamente diferente, para ilustrar como a comunicação e a representatividade são essenciais para todos: uma lanchonete.

Digamos que um dado estabelecimento ganhou fama e cresceu pela qualidade de seu X-burguer, que é um lanche mais simples. O que tinha de mais sofisticado ali era um também popular X-salada. Diante do sucesso, o dono do estabelecimento começou a investir em lanches realmente sofisticados. Eles lhe davam mais margem de lucro e começou a ser elogiado por uma parcela da população mais elitizada, que não costumava frequentar o local antes.

O proprietário decidiu então fazer apenas os lanches mais sofisticados. Como resultado, sua clientela diminuiu drasticamente, pois a maior parte das pessoas queria apenas o X-burguer e o X-salada. Eles não gostavam dos lanches mais sofisticados e não viam por que pagar mais caro por aquilo.

A médio prazo, a lanchonete –que passou a ser chamada de hamburgueria– acabou quebrando.

Não há nada de errado em querer evoluir e atender um público mais sofisticado! É preciso apenas saber se o negócio conseguirá sobreviver se esse movimento matar a sua representatividade junto ao grande público.

Ninguém paga por algo com que não se identifica!

 

Confortável na exclusividade

Peguemos agora a indústria automobilística.

Podemos pensar na Ferrari, a mítica fabricante de carros superesportivos, criada por Enzo Ferrari em 1939. Ela nunca teve a pretensão de atender as massas. Muito pelo contrário: uma Ferrari sempre foi símbolo de excelência, sofisticação e diferenciação. Em contrapartida, nunca foi nem será um fabricante gigantesco de carros, como a Fiat, que, aliás, comprou e depois vendeu a Ferrari.

São escolhas que temos que fazer. Mas, qualquer que seja a que façamos, precisamos conhecer bem nosso público, suas necessidades e como se comunica.

Você pode achar que está abafando ao fazer algo incrível! Mas isso de nada adianta se seu público não concorda, porque você se distanciou dessas pessoas.

Não caia nessa armadilha! Continuar relevante e representar seu público é essencial! Se quiser mudar seu perfil –e você tem direito a fazer isso– terá que encontrar um novo público.

Sem isso, você abrirá espaço para oportunistas –seja na política, seja nos negócios– que vão ocupar esse vazio a dizer que estão “do lado do povo”, mas que apenas o “dividem para conquistar”.

Apesar da lentidão relativa, urna eletrônica reafirma seu valor contra fraudes

By | Tecnologia | No Comments

Nesse domingo, aconteceu o primeiro turno das eleições municipais. Apesar de os resultados terem saído no mesmo dia, demoraram mais que o normalmente visto desde que as urnas eletrônicas foram implantadas. Isso deu munição àqueles que visam desmoralizar o sistema.

Ficamos mal acostumados com a velocidade e a segurança delas? Não: é assim que deve ser! O sistema eleitoral eletrônico brasileiro é hoje o mais moderno do mundo, e um exemplo do que toda transformação digital deve ser em qualquer negócio. Afinal, ele redefiniu a percepção do público sobre algo (no caso, a eleição), permitindo que se faça muito melhor o que já existia e que se tenha algo impossível antes.

A demora além da métrica definida pelo próprio sucesso aconteceu, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), por uma falha no supercomputador que totaliza as apurações dos Estados. O tribunal sofreu ainda um ataque de hackers durante o dia, que foi contido. Mas, pela eficiência do sistema, nenhum dos dois problemas afetou a segurança do pleito.

Mas, se o sistema funciona tão bem, por que algumas pessoas preferem adorar o passado e querem a volta dos ineficientes e inseguros votos em papel?


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Eu acompanho o desenvolvimento da urna eletrônica desde suas primeiras versões, e participei da primeira distribuição em tempo real dos dados da apuração para veículos de comunicação (do lado dos veículos), o que permite a criação dos seus sites que exibem os resultados ao público.

Dizer que o sistema eleitoral eletrônico brasileiro é perfeito e invulnerável seria inocência. Não existe sistema a prova de falhas! Mas dá para criar proteções que praticamente inviabilizam as fraudes, como é o caso aqui. Ele é, sem dúvida nenhuma, bastante seguro do ponto de vista técnico e conceitual, e certamente é muito mais seguro que qualquer votação com células em papel, muitíssimo mais fáceis de se fraudar.

Os críticos argumentam que o software das urnas eletrônicas poderia ser adulterado para beneficiar determinado candidato. Ou seja, o eleitor votaria em um candidato, mas o voto seria contabilizado para outro. Além disso, reclamam que o voto, mesmo que sem qualquer identificação do eleitor, não pode ser checado individualmente no caso de uma auditoria, pois as urnas guardam o resultado consolidado de todos os votos nelas.

Curiosamente, as urnas eletrônicas foram criadas para combater a grande fraude que existia na apuração dos votos em papel, uma verdadeira operação de guerra. Por exemplo, nas eleições de 1994, a última totalmente com votos em papel, a apuração contou com o trabalho de cerca de 170 mil pessoas! Ainda assim, demorou duas semanas para terminar.

 

Sistema antifraude

Não existe registro comprovado de fraude desde a primeira vez em que as urnas eletrônicas foram usadas, em 1996. Para isso, o TSE adota cerca de três dezenas de mecanismos de segurança para impedir fraudes e garantir o sigilo.

Todos os dados das urnas eletrônicas são criptografados e os equipamentos não possuem nenhuma foram de acesso à Internet ou qualquer rede, seja por Wi-Fi, por Bluetooth ou qualquer outra forma de comunicação. Para um hacker invadir uma urna, ele teria que fazer o processo na própria seção eleitoral, durante o horário da votação, na frente dos presentes, pois as urnas confirmam que estão sem nenhum voto quando são ligadas. Além disso, precisaria romper um lacre físico, desenvolvido pela Casa da Moeda, que, se for manipulado, muda de cor.

A fabricação das urnas, por mais que seja feita por empresas privadas, é toda controlada pelo TSE, que é o único capaz de testar os equipamentos. Nem o fabricante consegue fazer isso sozinho.

Além de todas essas proteções físicas, o processo eleitoral eletrônico brasileiro é composto por 94 sistemas exclusivos do TSE. Todos eles ficam disponíveis para que partidos políticos, o Ministério Público, a Controladoria Geral da União e outras entidades possam verificar sua integridade.

Antes de serem instalados nas urnas, os programas passam por um sistema de autenticação. Ele envolve a criação de hashes –uma espécie de garantia de inviolabilidade do código– e as assinaturas digitais do presidente do TSE, do procurador-geral da República e do secretário de tecnologia da informação do TSE. Se for preciso qualquer alteração nos programas, todo esse processo deve ser refeito, ou o novo software não será executado pela urna.

Logo após a votação ser encerrada, a urna automaticamente apura os votos nela e imprime os resultados da seção eleitoral, com o total de votos por partido e por candidato, total de votos nulos e em branco e a hora do encerramento da eleição. O relatório é afixado na seção eleitoral, garantindo que a informação fique imediatamente disponível ao público.

Os resultados consolidados são então criptografados e gravados em uma mídia digital removível. Ela é levada para um cartório eleitoral para ser transmitida por uma rede interna para um sistema totalizador. Os votos são então somados e publicados de uma maneira incrivelmente rápida: cerca de 150 mil votos por segundo!

Foi justamente nesse ponto que o sistema “pipocou” na noite desse domingo, ficando abaixo de sua própria média histórica. Ainda assim, foi muito mais rápido que as eleições observadas no resto do mundo, como a americana. Mesmo com a “demora”, mais de 110 milhões de votos –já descontadas as abstenções– foram computados e publicados em apenas seis horas. Além disso, os votos podem ser auditados, se for necessário.

De novo, dá para garantir que o sistema é infalível? Por uma questão filosófica e técnica, não! Mas, para vencer toda essa combinação de proteções físicas e eletrônicas, os hackers precisariam de um procedimento que provavelmente nunca será feito por ninguém.

 

O ataque dos arautos do atraso

O que nos leva de volta à outra pergunta feita no começo: por que tem gente que deseja a volta do voto em papel, com todas as suas gigantescas desvantagens?

Bom, na melhor das hipóteses, é porque a pessoa desconhece o processo descrito acima, ou é mais uma vítima da guerra de desinformação nas redes sociais. Na pior faz hipóteses, é porque essa pessoa deseja mesmo fraudar as eleições, e o sistema eleitoral eletrônico inviabiliza os seus planos malignos. Até uma eventual contestação dos resultados na Justiça, como vimos no espetáculo grotesco dessa eleição americana, fica praticamente inviável.

Na prática, como também aconteceu nos EUA, isso não mudará em nada o resultado. Apenas atrasará a declaração do vencedor e custará muito dinheiro ao contribuinte.

Há ainda um terceiro tipo de pessoa que pode querer a volta do voto em papel: aquela que tem medo do desconhecido ou do que não tem controle –mesmo que seja um controle ilusório.

O medo é um sentimento necessário. Ele existe para nossa autopreservação e está associado aos momentos mais primitivos da nossa evolução como espécie. Ele pode ser paralisante. Mas como nosso trabalho hoje (felizmente) não envolve mais tomar decisões de caça diante de um tigre de dente de sabre, não podemos deixar que o medo nos controle.

Em tempos de transformação digital, com tantos e tantos benefícios, o medo pode ser, portanto, um fator que impede a inovação dos negócios e –por que não– de nossa vida.

Mas não tem jeito! Como cantava Elis Regina, na belíssima “Como Nossos Pais”, o novo sempre vem! Não dá para continuar amando o passado e insistindo em não ver isso.

 

A boa imprensa tem lado, opinião e age com responsabilidade

By | Jornalismo | No Comments

Em uma semana com tantas notícias bombásticas que levaram à esperada vitória de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos, um acontecimento pode ter passado despercebido da maioria das pessoas. Na noite de quinta-feira, as três principais redes da TV aberta americana –ABC, CBS e NBC– e plataformas online de vários jornais do país literalmente cortaram no meio a fala ao vivo de Donald Trump. O motivo: para variar, ele estava despejando suas mentiras alucinadas. Dessa vez, atacava o sistema eleitoral americano pelo simples fato que sua derrota nas urnas era iminente.

Na hora, duas perguntas me vieram à cabeça.

A primeira é por que os veículos de imprensa nunca fizeram isso antes? Afinal, Trump é o “profeta do apocalipse das fake news” desde muito antes de ser presidente. E a imprensa sempre deu palco para esse maluco!

A segunda é: a imprensa pode fazer isso? Afinal, mesmo com Biden eleito, Trump ainda é o presidente, até que seu oponente vitorioso assuma o cargo, o que acontecerá apenas no dia 20 de janeiro.


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Em um primeiro momento, isso pode parecer só um dilema ético para jornalistas. Mas não é!

Todos nós, e não apenas os jornalistas, somos responsáveis pelo que dizemos, pelo que propagamos. Essa é uma responsabilidade que sempre tivemos, mas da qual estamos esquecendo por influência do falso véu do anonimato das redes sociais e do “efeito manada”.

Portanto, respondemos pelo que dizemos. Mais que isso: o que dizemos tem impacto real em quem está a nossa volta e, por extensão, na sociedade. Dessa forma, entender o papel e o poder da imprensa nos ajuda a entender o nosso.

Mesmo em tempos de domínio do Facebook e afins, a imprensa ocupa um papel de destaque nisso. Dessa forma, o jornalismo sério busca ser imparcial.

Mas, se é assim, as três grandes emissoras de TV americanas agiram certo ao cortar Trump? Isso seria censura?

A NBC, por exemplo, interrompeu a transmissão de Trump, e seu âncora Brian Williams disse “estamos aqui novamente na posição incomum de não só interromper o presidente dos Estados Unidos, mas também de corrigir o presidente dos Estados Unidos”.

E é exatamente isso que aconteceu!

Trump e todas suas cópias mal ajambradas pelo mundo, inclusive no Brasil, costumam bater no que chamam de “grande mídia”, dizendo que ela os censura, “calam o povo”, e que a verdade só existe nas redes sociais. Isso serve para usarem essas plataformas para mentir descaradamente sobre tudo, o tempo todo, para, assim, se manter no poder. E as pessoas que querem acreditar nisso, por qualquer motivo (além de um exército de robôs), legitimam seus crimes.

Ainda assim, se estamos em uma democracia, cortar Trump não é desrespeitar quem votou nele?

Essa é uma pergunta legítima. E eu a respondo com outra pergunta: o que você teria feito ao ver que o presidente da República estava usando você para espalhar mentiras perigosíssimas e ódio para a população, colocando em risco a própria sociedade?

 

O que é verdade?

Nesse ponto, podemos até mesmo questionar o que é a verdade. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche disse que “não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.”

Realmente elas são raras! Estão, por exemplo, em leis da ciência. Mas, para chegar a ser lei, uma teoria científica tem um longo caminho a percorrer.

Em muitos casos, a “verdade” pode ser um ponto de vista, e ainda assim ser apresentada como incontestável, mesmo de boa-fé.

O jornalismo encontrou, há muitos anos, uma maneira de minimizar esse problema, definindo que os profissionais devem ouvir o máximo de lados possível sobre um assunto. A verdade possivelmente será a média de todos eles.

A imprensa sempre foi o gatekeeper, aquele que decide o que deve e o que não deve ser visto, com o poder e o dever de não apenas informar, mas também de formar o cidadão. Isso é um poder gigantesco, que só pode ser exercido com grande responsabilidade.

Com a ascensão das redes sociais, esse poder se diluiu. Portanto a pergunta anterior, sobre o que todos nós devemos fazer diante de uma mentira, é justa.

Devemos escolher muito bem o que publicamos na “pequena mídia” que somos. Como temos observado nos últimos anos, em que todos se tornaram mídia graças às redes sociais, a disseminação de notícias falsas e de ódio tem um amplo poder destrutivo. Ecoar essas ideias irrestritamente, ainda que em nome de democraticamente dar voz a todos, é uma falácia, com consequências potencialmente desastrosas. Temos que entender, portanto, que isenção e independência não podem ser confundidas com irresponsabilidade ou deslumbramento sobre o que se publica, mesmo se quem tenha dito a barbaridade seja um presidente da República democraticamente eleito.

Todos merecem e devem ser ouvidos, desde que não estejam cometendo crimes ou deliberadamente mentindo para atingir seus objetivos. Como disse o cartunista e jornalista Millôr Fernandes, “as pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”.

 

Escolha responsável de lado

Ter um lado não significa não ouvir o outro, calar ou censurar. Ter um lado significa defender um ponto de vista dando também bom espaço a quem pensa de maneira diferente, desde que todos os lados sejam legítimos. Afinal crescemos ao sermos confrontados com a diferença. Quem tenta calar a diferença, quem trata o opositor como um inimigo que deve, se possível, ser destruído não é legítimo, pois faz de tudo para tornar quem está a sua volta menor, para se manter no topo com a sua própria pequenez.

Se a verdade absoluta é difícil de ser encontrada, temos que, pelo menos definir o que é legítimo: é o que defende valores inegociáveis, como o direito à vida, à liberdade, à igualdade e a democracia.

Em sua fala de quinta (e em incontáveis outras), Trump feriu isso. Logo, os veículos de comunicação acertaram ao interromper o que dizia para restaurar os fatos. Escolheram um lado e agiram com responsabilidade.

Deveriam ter feito isso desde quando ele ainda era um pré-candidato à presidência dos EUA. Talvez nunca teria sido eleito, o que causou um dano gigantesco ao mundo todo, pela influência do cargo que ocupou por quatro anos. Em nome da democracia, deram espaço a suas ideias alopradas, talvez por que não achassem que aquele bufão pudesse ganhar qualquer coisa.

Mas ele ganhou! Até porque essa exposição permitiu que suas ideias ressoassem em grande parte da população, que “caíram no canto da sereia” e se viram representadas por ele.

Agora Donald Trump é o que os americanos chamam de “pato manco”: o presidente no período entre o resultado da eleição e a posse de seu sucessor. Ele ainda pode causar enormes danos aos Estados Unidos e ao mundo nesses dois meses e meio. Ficar dando palco a suas mentiras só permitirá que ele faça algo ainda pior.

A imprensa e todos nós devemos evitar isso!

Você pode dizer: “mas eu nem falo da eleição americana!” Correto! Ela foi apenas um gancho para esse debate.

O mesmo raciocínio se aplica ao cotidiano de cada um de nós. Não há nada de errado em escolhermos algo para defender. Muito pelo contrário! Mas devemos também dar espaço a ideias diferentes. Devemos acolhê-las, e não as silenciar! Caso contrário, usaremos esse grande poder que todos temos para nos tornarmos pessoas menores e também piorar a sociedade.

Isso ninguém quer. Precisamos escolher um lado, respeitar o outro e agir com responsabilidade.

 

O caminho mais curto para ser chutado do mercado

By | Jornalismo | No Comments

Vivemos na era da economia da experiência. As pessoas não compram mais apenas o produto: elas valorizam toda a experiência com a marca, que vai muito além dele. Quem não entender isso, terá problemas para se manter no mercado. Isso vale para todos os segmentos, e o meu, que é a comunicação, não foge da regra.

Um bom jornalismo ajuda a construir os fundamentos de qualquer sociedade desenvolvida. Pude comprovar isso andando pelo mundo e comparando a evolução de uma nação e a qualidade da sua mídia: países mais avançados têm sempre uma imprensa mais robusta, e vice-versa. Só que, de uns anos para cá, bater na imprensa virou esporte para uma parcela crescente da população.

Por que as pessoas atacam uma instituição fundamental para seu próprio desenvolvimento?

A resposta está na experiência que lhes é oferecida.

É interessante observar que a imprensa pode ser substituída nesse raciocínio por praticamente qualquer negócio, de restaurantes à indústria automobilística, de grandes varejistas a escritórios de contabilidade. Tudo está mudando aceleradamente e quem não acelerar na direção certa, da boa experiência, inevitavelmente ficará para trás.


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Na quinta passada, um fato me chamou a atenção e vou usar isso para explicar isso melhor. Nesse dia, o jornalista Glenn Greenwald publicou um artigo anunciando sua saída do “The Intercept”, um site jornalístico que ele mesmo criou em 2013. O motivo, segundo ele, é que os editores em Nova York censuraram um artigo em que ele apresentava informações contrárias ao candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden. Tudo porque, ainda segundo o jornalista, “The Intercept” apoia fortemente Biden, e não aceitaria algo que o atrapalhasse na corrida à Casa Branca. Betsy Reed, editora-chefe do veículo, deu outra versão em um editorial, dizendo que a equipe apenas buscou corrigir imprecisões no material de Greenwald, o que ele não teria aceitado.

Independentemente de quem tenha razão nessa disputa doméstica, o fato é que o jornalismo está sob forte escrutínio da população, o que pode ser ruim para os negócios se não for bem conduzido, mas é pior ainda para a sociedade, que precisa de bom jornalismo para se desenvolver.

Sem dúvida nenhuma, parte disso se deve a uma nefasta campanha de difamação de veículos e de jornalistas, promovida por políticos de diferentes alinhamentos nos últimos anos em vários países, mas não é tudo. Outra parte se deve ao próprio jornalismo e à experiência que os veículos vêm oferecendo a seu público.

O episódio recente do “The Intercept” é um indicador disso. Cada lado acusa o outro de uma escolha inadequada. Não estou dizendo que não devam existir opiniões divergentes no jornalismo, de forma alguma! Mas, nesse caso, um lado aponta o dedo ao outro afirmando explicitamente que fez mau jornalismo.

Como ficam os usuários nesse fogo cruzado?

Digo sempre a meus alunos e em palestras: nunca foi tão importante que o jornalismo fizesse um trabalho impecável, e o foco deve sempre ser seu público, a busca da verdade (por mais difícil que seja encontrá-la às vezes), o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e igualitária, a defesa da vida. Esses valores são inegociáveis e estão na essência do jornalismo. Qualquer um que se afasta disso não é jornalista.

Mas tenham em mente: o que mata qualquer produto –inclusive um veículo de comunicação– não é uma nova tecnologia, um novo concorrente, um novo modelo de negócios. Quem mata um produto é o seu público! E isso acontece quando ele tem acesso a uma alternativa mais vantajosa para si ou alinhada com suas necessidades.

Sempre foi assim e sempre será, para qualquer negócio!

 

A origem da indústria da mídia

O jornalismo surgiu na Roma Antiga, mas se consolidou como uma indústria apenas no século XIX. Uma de suas virtudes era o forte vínculo com o seu público. O jornal era a voz da região ou representava um segmento da sociedade. O veículo oferecia uma experiência muito boa a seu público então.

No século XX, com o fortalecimento da publicidade, ela se tornou cada vez mais importante para os veículos de comunicação se financiarem. Por um lado, isso foi ótimo, pois permitiu que crescessem incrivelmente. Por outro, isso incluiu nos veículos interesses de terceiros, que muitas vezes contrariavam o do seu público.

À medida que se tornavam ainda maiores e mais poderosos, os veículos se aproximavam de diferentes círculos do poder, incluindo ainda mais interesses externos, que poderiam os afastar ainda mais do público. Por isso, os veículos sérios criaram mecanismos para blindar suas redações desses interesses, para que pudessem fazer um bom trabalho, independentemente de pressões externas de anunciantes ou de políticos.

A isso, deu-se o nome de “separação igreja-estado”. Infelizmente, nem sempre ela funciona. E, em tempos bicudos para os negócios, ela é colocada ainda mais à prova. Devido a falhas no processo, a experiência para o público já não era tão boa, pois ele era, muitas vezes, colocado em segundo plano.

O problema se agravou porque, até uns 20 anos atrás, para alguém se considerar bem informado, precisava necessariamente assinar pelo menos um jornal, algumas revistas e acompanhar o noticiário na TV. Com o avanço do jornalismo na Internet, isso deixou de ser necessário. Como diferentes empresas ofereciam basicamente o mesmo produto nos meios digitais, as pessoas encontraram ali uma alternativa mais interessante para se informar. Novas empresas –muitas delas nem jornalísticas– e até indivíduos começaram a publicar conteúdo –bom ou ruim– pois ficou fácil fazer isso. E faziam isso até de graça!

Os veículos de comunicação se viram então em uma encruzilhada na experiência que ofereciam à população. De um lado, se afastaram de seu público e de seus interesses. Parte da população passou a vê-los como elitizados, e não se sentia representada ali. Outros –até mesmo por influência da guerra de desinformação– viram os veículos tradicionais como pouco confiáveis.

Há ainda uma questão de linguagem. E não me refiro aqui apenas a palavras e imagens, e sim ao uso amplo de todos os recursos tecnológicos de interatividade, multimídia, imersão e inclusão do público no noticiário. O jornalismo precisa se apropriar disso e transformar profundamente sua linguagem!

Não me refiro a ser impreciso, inconsequente ou ficar postando memes fofos. Mas não dá mais para continuar entregando seu produto como se fosse uma versão digital de jornalismo impresso ou de TV, que é o temos por aí. O meio digital oferece incríveis recursos para uma grande experiência para o público, mas quase ninguém está aproveitando isso.

Só para ficar em um exemplo simples, por que as home pages dos veículos são iguais para todos os usuários? As pessoas são diferentes! E aí, como a experiência piora, o público migra para outras fontes de informação, muitas delas terríveis!

Pode-se argumentar que fazer isso custaria muito dinheiro, e muitas empresas estão passando por uma crise que se arrasta por mais de uma década. E é verdade mesmo! Mas não sairão dessa crise enquanto não melhorarem essa experiência.

Caímos aí em outro ponto: muitas dessas empresas não sabem ganhar dinheiro na Internet. Insistem no modelo de negócios focado no binômio assinatura e publicidade, que já não encontra lugar com o público. A própria publicidade em suas páginas está envelhecida, com pessoas sendo impactadas por produtos que jamais comprarão. Enquanto isso, Google e Facebook nadam de braçada entregando ofertas extremamente assertivas a seus usuários.

No meu artigo da semana passada, eu critiquei os paywalls, que são aqueles sistemas que impedem que o usuário veja um conteúdo se não pagar. Muitos colegas vieram me perguntar se eu estava sugerindo que os jornalistas trabalhassem de graça.

Obviamente que não! Todo bom trabalho deve ser bem remunerado, até mesmo para que possa continuar sendo oferecido. Mas vejo os paywalls como mecanismos que afastam o público do produto. Temos que facilitar o acesso das pessoas ao que fazemos –seja lá o que for– e não o contrário!

Tudo é experiência!

O jornalismo é essencial para uma sociedade. Isso ficou claro durante a pandemia de Covid-19, quando as pessoas correram para os grandes veículos, pois sabiam que lá encontrariam informação de qualidade para organizar suas vidas. Mas a experiência que oferecem como um todo precisa melhorar muito!

Caso contrário, muita gente continuará batendo naqueles que trabalham para que essas mesmas pessoas cresçam e vivam melhor.

Pode parecer loucura, mas esse é o mundo em que vivemos.

Temos que pagar pela verdade, mas nos dão a mentira de graça

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Quem nunca tentou acessar um conteúdo de qualquer tipo e “bateu com a cara” em um paywall, aqueles sistemas que bloqueiam nosso acesso, a menos que paguemos por ele?

A justificativa –bastante razoável– é que produzir bom conteúdo custa dinheiro, o que é verdade. Logo, para se consumir aquilo, é preciso pagar.

O problema é que, em um mundo inundado de conteúdo gratuito, fica cada vez mais difícil convencer alguém a fazer uma assinatura ou mesmo pagar por um conteúdo individual. Como resultado, o usuário não só não paga, como deixa de aprender algo útil ali, o que teria sido bom para a marca do autor. Para piorar, a pessoa, no lugar disso, consumirá um conteúdo gratuito que pode ter uma qualidade pior, isso se não for deliberadamente mentira, como é o caso das fake news.

E aí, todo mundo perde, do produtor de bom conteúdo a toda a sociedade.


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A “cultura do grátis” não para de crescer e impacta cada vez mais setores da economia. Talvez o seu negócio já esteja sendo afetado por ela, e você ainda nem percebeu.

O fato é que, para se ter sucesso hoje em qualquer área, ter um bom produto é condição absolutamente necessária, mas longe de ser suficiente. Além disso, temos que ser relevantes para nosso público. Entender e se apropriar desse conceito é o que separa as empresas que fizeram sucesso no passado das que farão sucesso no futuro.

Temos que entender também que nosso concorrente não é mais apenas grandes empresas com quem disputamos o mercado há décadas. Pode ser um novo entrante com ideias inovadoras e uso criativo da tecnologia, e até um adolescente em seu quarto que cria algo incrível e que chama a atenção de nosso público. Por isso, temos que usar todos os recursos disponíveis para facilitar o acesso a nosso produto, e não dificultar isso. Possivelmente teremos que mudar nosso modelo de negócios e até em como vemos o que fazemos.

Isso está em toda parte: estou assistindo à série mais falada do momento, “Emily in Paris”, que estreou na Netflix no dia 2 de outubro. Apesar de estar carregada de clichês e estereótipos (que, aliás, enfureceram os franceses), sua história descompromissada pode ensinar algumas práticas inovadoras de marketing.

Por exemplo, em um dos episódios, a CEO de uma fabricante de cosméticos explica que não trabalha mais com agências de publicidade, apenas com influenciadores digitais. Ela pinta as agências como dinossauros em extinção, por serem “caras e ineficientes”. O que não quer dizer que qualquer influenciador seja bom: é preciso “separar o joio do trigo”, pinçando os bons profissionais daqueles que “trabalham em troca de batom” e não trazem bons resultados para a marca.

O fim dos dinossauros

Quer dizer então que as agências estão condenadas?

Claro que não! Quer dizer, as que estiverem dispostas a se modernizar alçarão novos voos. As que continuarem fazendo o trabalho como sempre fizeram realmente já se tornaram dinossauros e nada fará com que sobrevivam a médio prazo.

Estava falando anteriormente dos paywalls. Apesar de eles funcionarem bem em raríssimos casos, como o do “The New York Times”, eu sempre os considerei uma aberração, desde que se popularizaram, há uma década. Na prática, com eles, os veículos de comunicação mandam seu público embora, já que a maioria simplesmente não pagará pelo conteúdo. Assim, a empresa perde duas vezes, pois não consegue monetizar sua produção e ainda se torna cada vez menos relevante para a sociedade.

Ninguém paga por algo que não seja relevante para sua vida!

Mas a sociedade também perde, pois as pessoas começam a consumir conteúdos de qualidade cada vez mais duvidosa. Isso quando não são a mais completa porcaria! Esse é o terreno fértil para o florescimento das fake news.

E isso é tão verdade que o crescimento explosivo desse lixo, que nos é entregue sem nenhuma restrição, de graça e usando eficientemente os meios digitais, resultou nessa polarização extrema e irracional, que está destruindo a sociedade.

As empresas de comunicação têm, portanto, além dos concorrentes que citei há pouco, mais um, talvez o mais agressivo e perigoso de todos: a mentira! Afinal, os fatos e a verdade podem ser às vezes monótonos. E ainda se pede que as pessoas paguem por eles! Já a mentira e a versão enviesada são sempre suculentas. E gratuitas!

Não se pode trabalhar de graça, claro! E produzir um bom conteúdo, sim, custa muito dinheiro. Como resolver essa aparente contradição?

Certamente não é insistindo em modelos de negócios moribundos, como o binômio assinatura e publicidade. Também não adianta jogar a culpa no público, dizendo que as pessoas não leem mais ou que não pagam mais por conteúdo: isso é conversa de quem não quer fazer as mudanças necessárias, não quer sair da sua zona de conforto.

Talvez só não paguem pelo seu conteúdo, ou mais precisamente pela maneira como você quer cobrar por ele.

Nunca consumimos tanto conteúdo, como música, vídeo ou jornalismo. Mas forçar o velho modelo talvez não funcione mais.

Veja o caso da música: as pessoas não compram mais álbuns, como CDs. Esse era o modelo tradicional de remunerar a indústria fonográfica, mas ele foi destruído pela Apple, com o iPod e o iTunes, na virada do século, que permitiram que as pessoas passassem a comprar uma única faixa, com grande facilidade e qualidade, pagando centavos.

A Apple se transformou na maior vendedora de música do mundo e a indústria fonográfica tradicional praticamente quebrou. Mas –veja só– esse novo modelo também já não funciona mais! Hoje o vencedor é o do Spotify, em que as pessoas podem ouvir músicas de maneira ilimitada e de graça. Mas, ao pagar um pouquinho, você faz isso com recursos adicionais interessantes.

E aí as pessoas –muitas pessoas– pagam!

Os artistas precisam estar nessas plataformas, que lhes rendem muito pouco diretamente, mas que são essenciais para se manterem relevantes a seu público. A partir disso, eles podem ganhar dinheiro arrastando multidões para shows.

Novos jeitos de se monetizar

Aí reside outro grande ensinamento a partir das mudanças culturais do nosso tempo: talvez não consigamos mais ganhar tanto dinheiro COM o nosso produto principal, mas podemos ganhar “outros dinheiros” GRAÇAS a ele.

Os músicos, no exemplo acima, não ganham quase nada vendendo a música, mas podem ganhar muito graças a ela, em seus shows.

Isso pode estar acontecendo agora no seu negócio!

Nessa hora, o ego pode estar gritando de dor! E, em um primeiro momento, isso pode afetar severamente seu bolso. Mas é a verdade dos fatos! Aceite isso para colocar a mudança para trabalhar a seu favor, e não contra você.

Já que falamos tanto de empresas de comunicação, veja um exemplo recente da área.

Há duas semanas, a CNN Brasil anunciou uma nova unidade de negócios que organizará eventos corporativos para quem estiver disposto a pagar, algo que já existe na matriz americana.

Além da força da marca e da experiência nisso, a empresa também oferece diferenciais como uma ótima promoção do acontecimento e –o que é mais interessante– seus profissionais, alguns deles sendo grandes estrelas do jornalismo nacional, são escalados para trabalhar no evento. Cobrar por isso só é possível porque eles se mantêm relevantes junto a seu público, pela qualidade de seu produto e por ele chegar fácil às pessoas.

Vivemos em um mundo em que tudo está pulverizado. Ninguém mais consegue ter amplo domínio sobre coisa alguma.

Não dá para trabalhar de graça: jamais sugeriria isso! Mas temos que aprender a ganhar dinheiro de outras formas além das óbvias, das tradicionais. E nos mantermos relevantes a nosso público é absolutamente essencial para vencermos na realidade atual.

Não adiante mais o que achamos sobre nossas entregas, e sim o que o público acha. Se você confiar apenas no que gostaria que fosse verdade e não atender o que as pessoas acham relevante, acabará sendo “chutado” para fora do mercado.

E ninguém quer dar isso de graça, não é mesmo?

Me engana, que eu gosto!

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Será que chegamos em um ponto em que o fim justifica os meios, qualquer meio? Vivemos em um mundo de aparências em que só se consegue vender algo “dourando a pílula” além do limite da responsabilidade?

Felizmente a resposta é não. Mas, se você, como eu, acredita ser possível vencer falando a verdade e fazendo o bem, precisa entender os mecanismos desse novo mundo, para não ser soterrado por ele.

Existe um ditado que diz que “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Isso talvez servisse na Roma Antiga. Na atualidade, esse conceito se transformou em outra coisa.

Agora, para muita gente, não é preciso ser honesto: basta parecer honesto. E as redes sociais depois legitimam qualquer pecado. O problema é que, com isso, estamos perdendo a capacidade de diferenciar verdade de ficção, ou simplesmente da mais deslavada mentira.


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Estou terminando de assistir à segunda temporada da série “The Boys”. Apesar de ser uma história de ficção, com pessoas comuns enfrentando seres superpoderosos, ela embute uma feroz crítica ao mundo real.

A princípio, seu roteiro se baseia em uma paródia de super-heróis da DC: eles têm suas versões do Super-Homem, do Batman, da Mulher Maravilha, do Flash, do Aquaman e muitos outros. Mas o que seria a Liga da Justiça, nesse universo é representado por uma empresa, chamada Vought, que agencia os tais personagens para faturar bilhões de dólares com a exploração de sua imagem. E os “supers”, de heróis, não têm nada: são indivíduos de fato incrivelmente poderosos, mas egoístas, extremamente violentos e narcisistas.

A opinião pública continua, entretanto, vendo esses personagens como maravilhosos, graças a uma cuidadosa estratégia de marketing, ações judiciais intimidatórias e um uso eficientíssimo das redes sociais.

E aí a coisa começa a se parecer a nossa realidade.

Hoje podemos vender qualquer coisa a qualquer um. É só apresentar isso do jeito que as pessoas desejam.

O pacote chega a ser mais importante que o produto!

Não por acaso, “pós-verdade” foi escolhida como a palavra do ano de 2016 pelo Dicionário Oxford. Pela sua definição, o termo é “relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais”. Em outras palavras, as pessoas hoje acreditam muito mais em uma historinha bem contada, que as emocione por reforçar o que elas acreditam ou desejam.

Os superseres de “The Boys” são muito mais supervilões que super-heróis. Entretanto, graças à construção cuidadosa de sua imagem, a população os vê como seus benfeitores e protetores.

Já percebe semelhanças com o nosso mundo atual?

O ódio vende mais que o amor?

A série também se apropria de outra profunda mudança cultural do nosso mundo, que é a manipulação do ódio das pessoas para se atingir objetivos individuais.

Na sua primeira temporada, observa-se como a Vought investe milhões de dólares para fazer com que a população ame seu produto, ou seja, seus heróis. É uma estratégia de massificação da idolatria para se vender todo tipo de coisa, de filmes no cinema a copos dos personagens.

Ou seja, o bom e velho marketing, mais velho que bom.

Na segunda temporada, uma nova superser aparece, muito mais “antenada” com a sociedade. Ela percebe que não é mais possível conquistar toda um povo, e que obter o amor e a admiração das massas é cada vez mais difícil e pouco produtivo. Ao invés disso, descobre que é muito mais eficiente manipular o ódio de uma parcela menor da sociedade.

Como ela explica, é muito melhor ter soldados que fãs, que cinco milhões de pessoas com raiva são mais eficientes para vender qualquer coisa que cinquenta milhões que amam. Ela entendeu que não vivemos mais no mundo da cultura de massas, e sim da “viralização”.

Percebe alguma relação com a nossa realidade?

Trazendo para um produto real, que é consumido anualmente por milhões de pessoas, temos o Big Brother. Quando o programa estreou, há 20 anos, ele era dramaticamente diferente do que é hoje. Existia uma inocência quase pueril dos participantes das primeiras edições. Ela contrasta com movimentos friamente calculados dos atuais personagens. Sim, porque o que os competidores das edições mais recentes mostram, na “casa mais vigiada do Brasil”, não é o que eles realmente são, e sim imagens construídas para manipular o público.

Aliás, um dos critérios mais importantes para a Globo selecionar quem entra na casa nos últimos anos é justamente a capacidade que o jogador tem de trabalhar seu público nas redes sociais. Isso ficou escancarado na edição desse ano.

Eu me pergunto até quando essa manipulação pela pós-verdade é sustentável.

Difícil dizer.

Por um lado, as pessoas dão sinal de que estão cansadas dessas “formulinhas de lançamento”, que ficam “empurrando qualquer porcaria” sempre do mesmo jeito. Esse modelo começa a dar sinais de desgaste. Mas normalmente quem usa essas fórmulas são amadores, pessoas que têm um produto (na melhor das hipóteses) mediano e capacidade de comunicação limitada.

Aqueles que realmente dominam a capacidade de “viralização” de suas ideias e produtos estão muito à frente disso. Esses não param de crescer, o que demonstra que seu formato continua entregando o que as pessoas desejam ouvir, ressoando na parte mais primitiva de seus cérebros, aquela que cuida, por exemplo, de sua autopreservação. E isso não apresenta nenhuma indicação de enfraquecimento.

A única exigência é o “produto” conseguir sustentar sua imagem e suas ideias, porque, quando “a máscara cai”, o prejuízo é devastador e normalmente não tem volta. Então é preciso manter, o tempo todo, seus “soldados” aquecidos. É necessário estar em constante estado de alerta para manter o personagem vivo e seus ideais ativos junto ao seu público.

Pessoas de bem

Mas o que fazer se você não é nada disso, se você não topa fazer esse jogo sujo, se você quer vencer na vida dizendo apenas a verdade?

A narrativa das redes e seus algoritmos de relevância parecem invencíveis e inevitáveis, por isso são tão sedutores. O grande desafio de profissionais e de empresas que querem vencer sem usar esses métodos sórdidos é encontrar o seu caminho nessa realidade, para usar esses recursos para atender seu público.

Em primeiro lugar, é preciso ser honesto consigo mesmo. Ter apenas um produto incrível pode não ser mais suficiente para se ter sucesso: é preciso que esse produto atenda a necessidades de seus clientes.

Você conhece mesmo seus clientes, sabe quais são seus desejos e seus medos?

As mesmas redes sociais podem ajudar incrivelmente no processo de descoberta disso. E estou aqui falando de usos éticos e legais dessas plataformas.

Com essa informação, podemos saber onde as pessoas colocam valor no que fazemos: pode ser surpreendente descobrir que é em algo que nunca havíamos pensado. Com isso, podemos atualizar o nosso produto e criar comunicações mais eficientes.

Não estou dizendo para “abraçar o diabo”, e sim para aprender a jogar o jogo!

Não espere que as pessoas comprem de você apenas pelos seus lindos olhos. Isso não vai acontecer!

Você pode ter um produto incrível e morrer na praia com ele! Não cometa esse erro! Conquiste pela sinceridade e pela qualidade, mas também por uma entrega alinhada a seus clientes e uma comunicação eficiente. Então pare de olhar tanto para si mesmo, e comece a olhar para quem realmente importa, que é o seu público.

Você consegue fazer isso?

O digital lhe tornará um gênio ou uma besta: você decide

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A tecnologia está literalmente nos transformando, de maneiras que a maioria das pessoas sequer imagina! Mas nos converte em que: gênios ou bestas?

Incrivelmente, a decisão está em nossas mãos!

Tenho acompanhado o crescimento de desconfiança em relação ao meio digital, especialmente às redes sociais. Sistemas que nos rastreiam e coletam nossos dados continuamente, algoritmos de relevância que nos empurram goela abaixo todo tipo de informação e nos manipulam, incontáveis notificações que nos mantêm continuamente engajados, fake news, deef fake, filtros bolha… Tudo isso existe mesmo e chega a ser assustador!

Entretanto, ninguém deixará de usar as redes sociais, buscadores, smartphones e outros recursos do mundo digital, mesmo sabendo que esses sistemas estão o tempo inteiro nos rastreando e coletando informações de todo tipo sobre nós.


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Não temos como colocar o gênio de volta na lâmpada!

Os meios digitais nos garantem altas doses de dopamina enquanto os usamos! Nossas vidas ficaram muto mais fáceis e divertidas com todos esses sistemas. Pagamos com o nosso tempo e a nossa atenção aos anunciantes dessas plataformas.

Mas o buraco é mais embaixo.

A superexposição aos recursos digitais está nos provocando alterações até mesmo do ponto de vista fisiológico.

Em 2011, a pesquisadora em psicologia Betsy Sparrow realizou um estudo na Universidade Columbia (EUA), que identificou alterações em nosso cérebro pelo uso do Google e de outros buscadores. Ela concluiu que, graças a ele, nós passamos a memorizar muito menos informação.

O Google não quis criar isso. Mas acabou promovendo a mudança.

Responda a si mesmo: de quantas pessoas você sabe o número de telefone de cor? Provavelmente muito poucas, possivelmente menos que dez! Mas se eu lhe fizesse essa pergunta há 15 anos, você provavelmente saberia o telefone de muita gente e até de empresas.

O que aconteceu? Estamos ficando mais burros?

Não é nada disso! Acontece que nosso cérebro tem uma plasticidade incrível! Informações ou habilidades que ficam menos importantes para nossa vida abrem espaço nele para novos recursos, que estamos efetivamente usando.

A pesquisa de Sparrow demonstra que toda a informação que sabemos que pode ser facilmente encontrada (por exemplo na Internet) é eliminada de nossa memória. Em compensação, melhoramos nossa capacidade de encontrar pessoas, objetos e informações com os recursos que tivermos a nossa disposição. Ou seja, refinamos uma habilidade importantíssima, a de encontrar o que procuramos, mas memorizamos menos coisas.

Essa conclusão é muito importante para ajustarmos como levamos nossas vidas e até como aprendemos coisas novas.

A diferença entre informação e conhecimento

Não é de hoje que observo como os alunos já chegam na sala de aula com uma quantidade incrível de dados, que eles encontram na rede.

Como professor, se eu ficasse simplesmente passando informação, como os professores costumavam fazer (e infelizmente muitos ainda fazem), seria um enorme desperdício de tempo! Muito melhor é ajudar os alunos a juntar as informações que todo o grupo traz para o debate e construir um conhecimento novo e útil a partir disso.

Podemos também pensar no varejo, como exemplo. Hoje, quando o cliente vai a uma loja para comprar algo, muito provavelmente já pesquisou sobre aquele produto na Internet e talvez tenha mais informação sobre ele que o próprio vendedor. Se ele tentar convencer o consumidor simplesmente passando esses mesos dados, corre o risco de perder a venda. Precisa trazer algo novo e contextualizado para aquele cliente! E aí a tecnologia pode ser de grande ajuda, pois ele pode receber, em tempo real, muitas informações valiosas sobre a pessoa que estiver a sua frente, para que ele mostre como o produto a ajudará a satisfazer suas necessidades específicas, e não coisas genéricas.

Isso é bom não apenas para o varejista (porque vai aumentar suas vendas), mas também para o consumidor, que levará para casa um produto que realmente atende suas expectativas, e não qualquer outra coisa, resultado de uma compra ruim.

Infelizmente nem todos estão dispostos a usar esses recursos, essa informação, essa transformação de maneira positiva. Muitos, possivelmente a maioria da população, entrará “no modo automático” e se deixará levar pelos infames algoritmos das plataformas digitais.

E aí é para se ter medo mesmo! Pois essas pessoas já se tornaram massa de manobra de grupos políticos, ideológicos e econômicos. Na prática, terceirizaram seu senso crítico, sua habilidade de pensar criativa e construtivamente.

Esse é um dos maiores desafios dessa geração, pois os sistemas dessas plataformas estão cada vez mais eficientes, para que elas se tornem mais sedutoras. Por outro lado, a turma que quer manipular a população para atingir os seus objetivos –muitas vezes condenáveis– domina mais e mais esses recursos.

Temos que recuperar as rédeas de nossa vida, ou esse poder de transformação do meio digital pode nos converter em bestas, quando poderia nos tornar gênios!

No momento, o lado ruim de toda essa entrega tecnológica está ganhando. Você não precisa ir longe para comprovar isso. Basta olhar, nas redes sociais que você usa, o nível das publicações.

É assustador como elas são rasas e de uma mesmice atroz! Parece que, qualquer que seja o assunto, acabamos tendo apenas algo como meia dúzia de opiniões, que são replicadas indefinidamente pela massa.

Somos seres pensantes, e não gado! Aliás, essa é uma das coisas que mais nos diferenciam de todos os outros animais.

Entretanto, bem em linha com as transformações promovidas em nós pelo meio digital, aquela visão medíocre da vida que se vê nos posts nas redes sociais já invadiu o cotidiano das pessoas. Tudo que é profundo, que exige mais pensamento, perde espaço para aquilo que é mais que simples: simplório! As pessoas querem coisas cada vez mais fáceis, mais básicas, mais rápidas, mais baratas, para um consumo desenfreado e descartável, com as mesmas características.

Vejo isso na evolução da pós-graduação, com o crescimento dos cursos de curtíssima duração, com poucas horas, e o encolhimento da procura por cursos com mais de um ano, como especializações e MBAs. Que dizer então de mestrados e doutorados?

Não há nada de errado em se aprender uma habilidade específica para aplicá-la imediatamente no seu cotidiano. Mas, se estamos sempre reclamando que nosso país e o mundo estão ruins, precisamos colocar mais de nós mesmos para mudar essa situação. Temos que sair da zona de conforto! Temos que desafiar o status quo!

Temos que usar os recursos digitais para nos tornarmos pessoas melhores, e não o contrário!

O discurso, o diálogo, as entregas estão muito empobrecidos! As pessoas estão perdendo a sua capacidade de pensar, de criar, de se libertar! Se isso continuar, teremos, em breve, um futuro distópico em que poucos grupos terão ainda mais controle sobre toda a população.

Temos que usar a tecnologia para nos livrar disso, e não para nos levar a isso.

Quais serão os seus próximos passos com ela?

Já dá para voltar às salas de aula?

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Já dá para voltar para a escola ou é melhor continuar estudando em casa?

Um dos setores que enfrenta mais dúvidas para retomar suas atividades diante da pandemia de Covid-19 é a educação. De um lado, há o alto risco de contaminação de estudantes e de professores, que podem levar a doença para dentro de suas casas. Do outro, os inegáveis prejuízos no aprendizado e até na formação dos alunos, especialmente entre os mais jovens. Há também a pressão de escolas particulares pela reabertura, temendo que ainda mais clientes cancelem suas matrículas.

Em paralelo, corre outra discussão: a tecnologia dá conta de suprir as demandas de aprendizagem, para que as aulas em casa sejam eficientes?


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No meio de toda essa indefinição, muitas cidades reabriram suas escolas públicas e privadas já há várias semanas, enquanto outras ainda resistem. É o caso da maior cidade do país, São Paulo, que autorizou a volta apenas de alunos do Ensino Superior no dia 7 de outubro. Os Ensinos Infantil, Fundamental e Médio voltam nesse dia apenas com atividades extracurriculares opcionais.

Aula mesmo, ainda não se sabe quando. No dia 3 de novembro, será apresentada uma nova posição do município, com base na evolução da pandemia.

E se não voltar?

A tecnologia desponta em um papel central para solucionar esse problema. Mas, como tudo nessa vida, há um jeito certo e um jeito errado de se usar esse recurso.

Algumas coisas precisam ser levadas em consideração, e muitas delas vêm antes da própria tecnologia. A primeira é que a dificuldade de um aluno se concentrar em uma aula online é tão maior, quanto mais jovem ele for.

O ensino à distância pode ser excelente, mas exige muita dedicação do estudante. Por isso, ele tende a funcionar muito bem para o Ensino Superior, e mal para os Ensinos Infantil e Fundamental. As crianças normalmente se dispersam das atividades na tela, o que tem exigido muito de pais e mães para acompanhá-los nas aulas. E, depois de sete meses de distanciamento social, muitos desistiram dessa tarefa.

Além disso, a maioria dos alunos, incluindo muito de escolas particulares, não tem a infraestrutura necessária para estudar em casa. Falta uma boa conexão de Internet, para começar. Ela precisa ter uma boa velocidade e não ser limitada. Mas a maioria dos domicílios brasileiros não tem isso, com a Internet restrita aos planos para smartphones, que são lentos e com uma franquia de dados que acaba rapidamente. Sem falar que muitos simplesmente não têm conexão alguma.

Algumas instituições estão dando chips de celular com plano de dados para estudantes de baixa renda, o que é uma iniciativa muito bem-vinda. Mas infelizmente isso é um privilégio para poucos.

Vale dizer também que a experiência de aprendizagem fica muito melhor em uma tela grande, como a de um tablet e principalmente a de um computador. Só que, segundo o relatório PNAD Contínua do IBGE, apenas 48,1% dos domicílios brasileiros com Internet tinham um computador em 2018. E essa porcentagem vem caindo: em 2017, eram 52,4%. O uso dos tablets também diminuiu: de 15,5% em 2017 para 13,4% em 2018. Já os smartphones crescem, passando de 98,7% dos domicílios em 2017 para 99,2% em 2018. Ou seja, praticamente todos os domicílios brasileiros com Internet têm celulares, sendo que, em 45,5% dos casos, é a única forma de conexão.

Mas calma: nem tudo são notícias ruins!

Quando e como a tecnologia ajuda

Apesar de todas essas dificuldades, coisas muito interessantes surgiram desse processo de transformação digital acelerado.

Sou especializado na criação de conteúdo digital e acompanho a evolução do mercado de educação à distância há 15 anos e de mídia digital desde seu dia zero, há 25 anos. Desde o início da pandemia, em março, ministrei cerca de 350 horas de aulas em salas digitais, e cerca de 30 horas de palestras também online. E os resultados têm sido muito bons!

Por que dá certo para alguns e errado para outros?

Temos que entender que o meio digital pode ser uma ferramenta incrível, mas ela nunca pode substituir os conceitos básicos de uma boa educação e nem o professor. Por exemplo, a aula que eu dou online é a mesma que eu ministro presencialmente: nenhum conteúdo fica de fora!

Por mais que as íntegras das aulas sejam gravadas, elas são dadas ao vivo, e os alunos participam na hora marcada da aula, pois a sua experiência fica muito melhor assim. Os alunos fazem suas perguntas e debatem livremente, por voz, exatamente como em uma sala de aula presencial.

Aliás, a quantidade de alunos por sala também é a mesma de um curso no prédio da escola, limitado a 30, no máximo 40 alunos. Isso me permite conhecer cada um deles! Se tiver mais gente, abre-se uma nova turma, com horário próprio. Como as gravações incluem todas as interações com os alunos, elas só servem para aquela turma, não sendo reaproveitadas para outras.

É a mesma experiência que teríamos se estivéssemos em sala de aula? Claro que não! Eu mesmo sinto falta de estar na sala com meus alunos. Sou uma pessoa cinestésica e sei das perdas.

Por outro lado, sei também que há ganhos, muitos associados à vida moderna. Por exemplo, não é necessário gastar um tempo enorme no trânsito para se chegar à escola. Aliás, se não for possível chegar na hora, não tem problema: a aula não será perdida, pois ela fica gravada.

Além disso, meus alunos agora não ficam restritos a São Paulo. Nesse período, cheguei a ter uma aluna que assistia às aulas ao vivo de Dubai (Emirados Árabes Unidos), mesmo estando cinco horas a nossa frente. Ou seja, ela ficava, por iniciativa própria, acordada de madrugada para participar ao vivo das aulas, que aconteciam das 19h às 22h (hora de Brasília). Sem falar de muitos alunos do interior de São Paulo e de muitos Estados brasileiros, que agora podem se matricular nos cursos.

Posso garantir que todos os objetivos de aprendizagem são atingidos nessas aulas à distância. Os alunos aprendem tudo que aprenderiam presencialmente.

Muitas coisas são necessárias para esse sucesso. Primeiramente, os alunos são todos adultos. Portanto, eles estão assistindo aula porque querem, e estão pagando por isso. Eles têm a disciplina para cumprir as exigências do curso.

Além disso, eu tenho o privilégio de ministrar aulas em instituições sérias que se preocupam com a qualidade do ensino. E aqui cito nominalmente a PUC de São Paulo, a Universidade Presbiteriana Mackenzie e a ESPM, onde estou dando aulas nesse período de pandemia. Todas elas proporcionaram o que eu disse acima. Ofereceram a estrutura necessária para a viabilização dos cursos e respeitaram alunos e professores nesse momento de transformação.

Por outro lado, vejo com muita tristeza outras instituições, que não vou citar seus nomes aqui, fazendo mudanças inaceitáveis! Por exemplo, salas de aula que antes tinham 30 alunos agora passam a ter 500! Elas agrupam todas as turmas de uma mesma disciplina, de diferentes campi, às vezes de diferentes cursos, colocando todo mundo em um “saco” só, com um único professor. E daí dispensaram os professores que “sobraram”.

Que atenção esses professores podem dar aos 500 alunos? Que interação pode acontecer nessas aulas?

Há casos de professores que foram demitidos por um pop-up que apareceu em sua tela, quando tentaram entrar na plataforma da universidade para dar uma aula. Há ainda casos de provas dissertativas sendo corrigidas por robôs. A despeito dos avanços da inteligência artificial, qual a garantia que os alunos têm de uma avaliação justa nesses casos?

Que nível de ensino essas instituições estão oferecendo a seus alunos? E que falta de respeito com seus profissionais é essa? Isso é obsceno, e essas escolas deveriam se envergonhar por se dizer instituições de ensino.

A educação é essencial para que o Brasil avance! Muitos dos problemas de nossa sociedade seriam resolvidos se tivéssemos uma população mais bem educada, no sentido amplo da palavra.

A tecnologia é uma ferramenta magnífica para melhorarmos a educação. Mas ela deve ser usada exatamente para isso: para melhorar a educação, e não para piorar a experiência de alunos e de professoras.

Por isso, escolha bem onde você vai estudar. E estude!

Como conseguir mais tempo?

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Uma das coisas que mais ouço das pessoas é que elas estão sem tempo, que elas gostariam de ter mais para fazer o que quisessem e o que precisassem. Eu mesmo adoraria que o dia tivesse 72 horas para fazer as mesmas coisas!

Naturalmente isso não é possível. Mas será que conseguiríamos ter, pelo menos, mais tempo livre para nós?

O tempo é, sem dúvida, o recurso mais valioso da humanidade, por um motivo muito simples: não temos como conseguir mais, não dá para comprar tempo! Você pode ter todo o dinheiro do mundo, mas terá rigorosamente o mesmo tempo que qualquer outra pessoa.

Nos últimos meses, a pandemia parece ter ampliado a percepção de que estamos ficando com ainda menos tempo. Sim, porque isso é uma percepção: o tempo é absoluto!


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Não é de se espantar, portanto, que o desejo de controlar o tempo é uma das fantasias mais incríveis da humanidade, aliás explorada bastante pela ficção.

A primeira obra assim que se tem notícia é o livro “A Máquina do Tempo”, publicado pelo escritor britânico H. G. Wells em 1895. A obra, que rendeu, dois filmes para o cinema, um em 1960 e outro em 2002, conta a história de um cientista que cria uma máquina para viajar no tempo, e acaba no ano de 802.701 d.C.

O tema está novamente na moda graças à série alemã “Dark”, cuja terceira temporada foi lançada em junho. Ela aborda outra maneira de se viajar no tempo, por um fenômeno teórico físico conhecido como “buraco de minhoca”, uma espécie de atalho entre dois pontos do contínuo espaço-tempo.

Mas nada captou esse conceito tão bem e criou uma história tão envolvente quanto a trilogia “De Volta para o Futuro”, de Robert Zemeckis, estrelada por Michael J. Fox e Christopher Lloyd, cujo primeiro filme é de 1985. Quem não gostaria de voltar no tempo para fazer o que não fez, corrigir coisas erradas ou deliberadamente mudar o seu futuro, não é mesmo?

Pena que não dá!

Isso é algo teórico, especulativo, que provavelmente nunca acontecerá. Então temos que aprender a viver com a nossa realidade e tirar o máximo dela.

“A vida passava mais devagar”

De onde vem essa percepção de que estamos com menos tempo?

De um motivo bem simples: enfiamos coisas demais dentro das 24 horas do dia, cada vez mais!

A tecnologia nos permite fazer muito, muito mais que nossos pais faziam no mesmo período, e isso é ótimo! O problema é que não sabemos quando parar: queremos fazer sempre mais!

Há alguns anos, vi um estudo que dizia que a quantidade de informação publicada em apenas uma semana pelo jornal americano “The New York Times” era maior que toda a informação a que alguém no século XVIII era exposta em sua vida inteira.

Como dizem os antigos, “a vida passava mais devagar antigamente”.

As redes sociais agravaram isso, como aliás escancarou o documentário “O Dilema das Redes”, lançado na Netflix no dia 9 e que está causando grande alvoroço. Vivemos hoje na chamada “economia da atenção”. A nossa atenção é vendida pelas plataformas digitais a seus anunciantes. Portanto, elas precisam criar mecanismos convincentes para que fiquemos cada vez mais pendurados nelas, ou, como se diz nas próprias redes, cada vez mais “engajados”.

Estamos perdendo o controle do nosso tempo!

Queremos fazer tanta coisa com ele, e o estamos entregando de bandeja para quem ganha dinheiro a nossas custas. Estamos até mesmo ficando doentes com isso. Uma das doenças da modernidade responde pela sigla FoMO: “fear of missing out”, ou o “medo de perder algo”. Por causa dela, não saímos das redes sociais, pois estamos condicionados a tentar ver tudo que nossos amigos publicam, mesmo as inutilidades.

Para termos mais tempo, precisamos forçosamente romper esse comportamento que nos aprisiona! Ninguém vai morrer se perder o último meme ou ficar de fora da teoria da conspiração mais recente. Mesmo notícias realmente importantes para sua vida podem esperar algumas horas.

Portanto, defina horários do dia para entrar nas redes sociais e use comunicadores instantâneos, como o WhatsApp, com inteligência e parcimônia. Não deve ser muito tempo no dia, e respeite o que definir!

Aliás, desabilite as incontáveis notificações no seu computador e no seu celular. Elas são ladras de atenção e de tempo. Consuma seja lá o que for quando você quiser, e não quando algum algoritmo ordenar!

Dicas para ter mais tempo

Há incontáveis outras técnicas para otimizar seu tempo, como priorizar tarefas, dividir e delegar algumas delas, terminar o que começa. Isso é algo que você pode encontrar facilmente no Google, portanto não vou entrar nesses detalhes aqui.

Quero me concentrar em um pedido para sairmos das “bolhas” que a tecnologia insiste em nos colocar. Exerça seu senso crítico, pense por si só! Valorize o que realmente importa. Busque aprender coisas que lhe tornarão uma pessoa melhor, e não a infinidade de ofertas rasas que aparecem a toda hora em webinar e até em cursos caça-níqueis.

A tecnologia deve ser uma ferramenta para fazermos melhor o que temos que fazer, não para ficar nos enfiando mais tarefas e ideias goela abaixo. Ela tem que trabalhar para nós, e não o contrário!

Um comercial de fim de ano do Itaú, de 2016, pode nos ajudar a encontrar o caminho. Narrado pela “vovlogger” Lilia, que estrelou com a amiga Neuza uma campanha do banco naquele ano, ele explica como “conectar o tempo e a vida”. Segundo ela, “a vida é muito mais importante que o tempo”, e conclui que “o tempo vale o que a gente faz com ele”.

Essa é a grande resposta para quem está sempre buscando mais tempo!

Não tente espremer mais coisas no seu dia do que ele e principalmente você são capazes de comportar. Resista à sedução barata dos algoritmos de relevância das redes sociais. Priorize e valorize o que realmente importa para você e para quem estiver a sua volta!

O dia não pode ter 72 horas. Então aproveite melhor cada umas das 24 horas que você já tem.

Já é hora de sair das redes sociais?

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Chegamos a um ponto em que deveríamos sair das redes sociais? Na verdade, dá para fugir de sua influência e da sua manipulação?

Cada vez mais, eu ouço pessoas se dizendo preocupadas com a quantidade de informações que todas as redes sociais coletam de nós e a crescente capacidade que elas têm de nos manipular. Sim, todas elas coletam uma quantidade obscena de informações de todos seus usuários.

Com isso, têm o poder de nos manipular ou pelo menos induzir sobre o que devemos ler, comprar, quem devemos seguir e até quem pode ser nosso novo melhor amigo. E isso é um poder sem precedentes na história da humanidade.

Há alguns dias, assisti ao documentário “O Dilema das Redes”, que estreou na Netflix no dia 9. Ele escancara como as redes sociais coletam continuamente as nossas informações, nos manipulam e até, de certa forma, como nos viciam.


Veja esse artigo em vídeo:


Como diz no documentário o professor da Universidade de Yale Edward Tufte, “existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários: a de drogas e a de software”.

Para quem estuda o tema há anos, como eu, o filme não chega a trazer nenhuma grande novidade. Mas é interessante ver ex-executivos de gigantes do mundo digital contando claramente as ações mais sórdidas e condenáveis de seus antigos empregadores.

As redes fazem isso para ganhar dinheiro vendendo um dos commodities mais valiosos do mundo: a atenção das pessoas. Ou seja, empresas pagam para as plataformas digitais para que elas mostrem para nós produtos que tenhamos grande chance de comprar.

Portanto, nós não somos clientes das redes sociais; somos seu produto! Nós somos vendidos para os verdadeiros clientes, que são os anunciantes.

Isso é possível graças ao chamado “capitalismo de vigilância”, em que as empresas continuamente nos monitoram, coletando nossos dados, observando nossas ações, nossas conversas. Esse oceano de dados e a inteligência artificial de seus algoritmos lhes permitem antecipar tendências, prever comportamentos, descobrir nossos desejos e medos. Daí, para nos vender qualquer coisa, é só escolher no portfólio quase infinito de ofertas de anunciantes aquela que mais nos satisfaz.

Para isso, as redes devem nos manter continuamente “engajados”, para usar um termo popularizado por essas plataformas. Além disso, é interessante que sejamos afastados de pessoas que pensem de maneira diferente de nós, para reforçar nossas crenças, o que facilita as vendas.

Isso parece muito maquiavélico para você? E é mesmo!

Então por que aceitamos isso?

Porque nos causa prazer!

Viciados nas redes?

Temos necessidades biológicas ligadas a socialização. Precisamos conhecer e conversar com pessoas, e obter aprovação delas.

As redes nos oferecem isso em grande quantidade, ainda que superficialmente, o que libera dopamina em nosso cérebro. Ou seja, não somos viciados nas redes sociais, mas na dopamina que ela nos dá.

O filme mostra que isso acontece até com aquelas pessoas que dizem usar as redes sociais todos os dias, mas “apenas de maneira recreativa” e, por isso, dizem não ser viciadas.

Evidentemente elas estão erradas em algum grau!

Pesquisa da consultoria britânica GlobalWebIndex aponta que os brasileiros são o segundo povo que mais usa redes sociais no mundo, atrás apenas dos filipinos. Ficamos, em média, 225 minutos em redes sociais todos os dias, e esse tempo cresce continuamente.

Esse é o problema: nós queremos isso!

As redes sociais são uma perigosa zona de conforto para todos, acomodados por suas doses de dopamina e pelos serviços e facilidades, mesmo que isso nos mantenha em um “curral digital” à disposição dos sistemas.

Isso me lembra do filme “Matrix”, de 1999, na cena em que o personagem Cypher trai seus amigos humanos para que seja reconectado à Matrix. Mesmo sabendo que, na realidade, ele seria transformado em uma bateria viva para alimentar uma máquina, na sua mente ele teria a ilusão de uma vida de prazeres. E ele considerava uma ilusão doce melhor que uma realidade dura.

Quantos não pensam assim no mundo atual?

Sherry Turkle, professora do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e autora do livro “Alone Together” ( “Sozinhos Juntos” em uma tradução livre), afirma que, à medida que a conexão digital com as pessoas aumenta, nossas vidas emocionais diminuem. Seu argumento é que, apesar de estarmos constantemente nos comunicando com outras pessoas pelas redes sociais, essas trocas acabam não sendo autênticas, o que nos leva à solidão.

Daí, no documentário, Tristan Harris, ex-especialista em ética de design do Google, compara as redes a chupetas que usamos quando estamos tristes ou sozinhos. Só que, como estamos cada vez mais tristes e sozinhos, recorremos o tempo todo a elas.

O psicólogo social Jonathan Haidt explica que isso está relacionado ao enorme aumento de depressão, ansiedade, suicídio e autoflagelo entre adolescentes nos Estados Unidos. Segundo ele, essa geração, que começou a usar as redes sociais durante a pré-adolescência, está mais frágil e se arrisca menos na vida.

Nosso cérebro não é capaz de acompanhar tanta informação, tantas notificações, tantas interações com tanta gente ao mesmo tempo. A ironia é que, quando tudo isso foi criado, aparentemente essas empresas entendiam que estavam fazendo algo positivo aos usuários. Mas depois perceberam o incrível poder que tinham em suas mãos. E decidiram usar isso!

E tem mais: outras empresas e pessoas perceberam que poderiam usar esses recursos para vender seus produtos e impor suas ideias. O mais incrível é que elas não “hackeiam” o Facebook: apenas fazem uso das ferramentas da plataforma.

Em um exemplo extremo, temos a eleição de Donald Trump com presidente dos Estados Unidos em 2016, que contou com o apoio decisivo da empresa Cambridge Analytica. Ela roubou os dados de 87 milhões de usuários do Facebook para que depois os manipulasse em favor da campanha. Esse escândalo, aliás, é retratado em outro ótimo documentário da Netflix, chamado “Privacidade Hackeada”.

Desse mesmo saco podre, vêm, por exemplo, a polarização ideológica extrema, o negacionismo e outros comportamentos cancerosos de nossa sociedade retroalimentados nas redes sociais.

Sem escapatória

Não há como fugir disso totalmente. Mas podemos fazer algo!

Não temos como escapar do rastreamento. Mesmo que eliminemos nossas contas nas redes sociais, continuaremos sendo monitorados pelo smartphone e uma quantidade crescente de equipamentos em casa, no ambiente externo e até no que vestimos!

O que temos que fazer é “furar nossas próprias bolhas”, não acreditar em tudo que as redes sociais nos apresentam. E não basta seguir pessoas que pensam diferentemente de nós: o algoritmo sempre vai descobrir a nossa zona de conforto para tentar nos colocar de volta na “nossa bolha”.

Precisamos exercitar a toda hora o nosso senso crítico, por mais que isso exija energia. Temos que nos balizar por valores que não podem ser relativizados ou esquecidos, como o direito à vida, a democracia, a liberdade de expressão, uma sociedade mais justa e uma convivência construtiva com todos. E isso deve ser feito com nossos valores, e não com o que as redes nos jogam na cara.

Temos que ser donos de nosso próprio destino, por mais difícil que possa parecer!

“O Dilema das Redes” começa com uma frase do dramaturgo grego Sófocles: “nada grandioso entra nas vidas dos mortais sem uma maldição”.

Temos que ter essa visão crítica de tudo na vida! Caso contrário, se terceirizarmos nossa capacidade de decisão aos algoritmos, aí sim seremos apenas massa de manobra.

Brilhe no TikTok mesmo sem “dancinhas”

By | Jornalismo | No Comments

Com o enorme sucesso do TikTok, muita gente tem me perguntado se precisa estar nele, se tem que ficar “fazendo dancinhas” lá. Afinal foram 315 milhões de novos usuários só no primeiro semestre, um público enorme e voraz por conteúdo, excelente oportunidade para conseguir novos clientes.

Mas sinto uma certa angústia em quem me faz essas perguntas, porque são pessoas que sabem da importância das redes sociais para seus negócios, mas não se identificam em nada com o estilo ultradespojado desses minivídeos.

Claro que não precisam estar lá!

Você não será chutado para fora dos negócios por não entrar no TikTok. Por outro lado, seu conteúdo não é só de “dancinhas”. Talvez exista um caminho interessante e confortável que você possa trilhar ali.


Veja esse artigo em vídeo:


O fato é que o aplicativo tem atraído muita atenção também de executivos e empreendedores de todos os segmentos e de negócios de todos os tamanhos. Afinal, com tanta gente instalando o aplicativo e o usando diariamente, estar nele pode trazer uma excelente visibilidade para o negócio.

O problema é que o TikTok popularizou um estilo de conteúdo feito de vídeos bastante informais, com música, pessoas dançando, dublando, “bichinhos fofos” e afins. Tem até muitas celebridades lá desse jeito.

Só que muita gente não consegue se ver fazendo nada disso, especialmente quando se trata de negócios. Muitos acham que seus clientes nunca mais os levariam a sério se os vissem fazendo dançando no TikTok.

Antes de ficar sofrendo por antecipação, temos que analisar com mais calma tudo isso.

A primeira coisa que temos que pensar é se precisamos mesmo estar no TikTok. Na verdade, a pergunta serve para qualquer rede social: afinal, temos que estar em todas as redes?

E a resposta é um categórico “não”!

Primeiramente porque isso exigiria uma enorme energia e muito tempo. Também seria um desperdício, por um motivo muito simples: nossos clientes não estão em todas as redes! Isso vale para qualquer negócio e para qualquer rede.

No TikTok, encontramos gente de todo tipo. Mas é inegável que a rede tem um forte apelo entre o público mais jovem. Logo, se seu negócio atende pessoas fora dessa faixa etária, não precisa perder o sono por não estar lá. Poucos negócios viriam para você por participar dela.

Mas digamos que você queira fazer parte desse movimento assim mesmo.

Nesse caso, se as “dancinhas” não são o seu estilo, não precisa ficar angustiado.

É verdade que o TikTok popularizou um estilo de comunicação no mínimo mais despojado, bem descontraído. As pessoas entram lá esperando encontrar algo nessa linha. Então um vídeo muito sério provavelmente não fará sucesso. Ou pior: pode até queimar a imagem do autor junto a esse público.

Então não faça isso!

Escolha o caminho do meio

A saída pode ser encontrar um meio termo entre as dancinhas e o que você costuma publicar em outras redes.

Antes de mais nada -e isso é muito importante- você precisa se sentir à vontade com qualquer publicação que você fizer em qualquer lugar. Se estiver se sentindo incomodado, é melhor repensar.

Há profissionais de vários segmentos dando suas mensagens, digamos “sérias”, no TikTok, mesmo com uma linguagem mais informal, mas não tão informal a ponto de fazerem “dancinhas”. O que importa é que seja divertido, que é a característica dessa plataforma. É o que seu público espera encontrar.

Já vi muitos profissionais de saúde, por exemplo, dando seu recado lá divertidamente, de um jeito que não comprometem sua credibilidade.

Na indústria de mídia, também começo a ver também algumas iniciativas interessantes, inclusive de jornalistas e de grandes veículos de comunicação, como o Estadão, o Washington Post e o New York Times. Isso foi tema de uma interessante palestra no Simpósio Internacional de Jornalismo Online, do Centro Knight, em julho.

Pode-se perguntar se o público desses veículos está no TikTok. Ou o contrário: se o público do TikTok consome o jornalismo desses veículos.

Possivelmente não.

Mas essas iniciativas podem ajudar a reforçar essas marcas justamente nesse público que não costuma frequentar seus aplicativos e suas páginas em outras plataformas normalmente. Tanto que o que esses veículos publicam no TikTok não são noticiário, ou pelo menos não como costumam fazer. Seus vídeos costumam trazer pílulas feitas com takes de acontecimentos do momento, brincadeiras ou releituras do noticiário em um formato bem descontraído.

Um “jornalão” bem tradicional, o Washington Post, com 142 anos de idade, contratou um editor dedicado ao TikTok, Dave Jorgenson. Até agora, ele já fez mais de 500 desses pequenos vídeos.

Pode-se dizer que eles têm pouco ou nada a ver com o estilo do próprio Post. São clipes humorísticos, a maior parte deles sem relação com o noticiário, apesar de ter boas sacadas, como fazer uma paródia com o “Garganta Profunda”, personagem-chave do escândalo de Watergate, revelado pelo Post, que acabou derrubando o presidente americano Richard Nixon. Com o trabalho de Jorgenson, o Post já conta com mais de 640 mil seguidores e 25 milhões de curtidas em seu TikTok.

Há alguns dias, eu conversava sobre isso como meu filho Matheus, que estuda jornalismo. Debatíamos se isso poderia, a longo prazo, transformar a própria linguagem jornalística, especialmente se o público mais jovem se acostumasse a consumir notícias nessas pílulas curtas, rasas e necessariamente divertidas.

Será que isso pioraria o jornalismo como um todo? Será que a notícia teria que ficar cada vez mais parecida com aquilo?

Penso que não!

Sem dúvida, é uma nova linguagem que se apresenta ao jornalismo e a qualquer outro negócio. Mas não quer dizer que, mesmo com sua popularidade, tenha que ser a única linguagem no futuro. Na verdade, acho que desempenha um papel interessante para atender uma parte da população que não consumiria jornalismo nos formatos mais tradicionais. A partir disso, essas pessoas podem migrar para um jornalismo “mais completo”.

Isso me lembra dos jornais sensacionalistas, os chamados “espreme que sai sangue”, como o finado “Notícias Populares”, em São Paulo. A despeito da elite da sociedade normalmente desprezá-los, eles tinham um papel social importante, especialmente em tempos pré-Internet. Eles eram a única maneira que uma parte da população tinha para se informar, pois eles não conseguiam ler ou simplesmente não gostavam dos veículos mais sérios. E, apesar dos títulos fantasiosas, da linguagem no mínimo exagerada e até de mentiras explícitas, eles cumpriam um papel de informar o cidadão no essencial.

Eles foram substituídos hoje pela desinformação que chega pelas redes sociais e pelo WhatsApp. Só que os jornais sensacionalistas eram, por incrível que pareça, melhores, pois eles não mentiam tanto e nem destruíam a sociedade, como as “fake news” fazem.

O TikTok pode, portanto, funcionar muito bem como uma porta de entrada não apenas para o jornalismo, como para qualquer negócio, inclusive o seu. E nem é preciso ficar “fazendo dancinhas” no vídeo.

Não devemos torcer o nariz nem abraçar de maneira deslumbrada a novidade. Basta você encontrar uma linguagem que lhe deixe confortável e que lhe permita passar a sua mensagem de um jeito divertido.

Se não der, sem problemas: a vida continua.

Precisamos muito de uma boa imprensa

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Bater na imprensa virou esporte nacional, especialmente das alas mais conservadoras da sociedade. Graças aos recursos das redes sociais, governos aqui e lá fora conseguiram colar, nos veículos que lhes fazem oposição, etiquetas de que a mídia é mentirosa e contrária aos interesses do país e do povo.

Para piorar a sua situação, muitas empresas de mídia andam “derrapando” em sua cobertura jornalística, o que mina a confiança de seu público, já corroída pelos ataques, e oferece mais munição a seus detratores. Mas atacar a imprensa sem refletir sobre o esse ato é a pior coisa que uma pessoa pode fazer: na prática, enfraquece a instituição que lhe protege dos poderosos -ou deveria fazer isso.


Veja esse artigo em vídeo:


Como chegamos a esse cenário em que as pessoas não confiam mais na imprensa? Isso é um enorme risco para a democracia, em que toda a sociedade perde!

O que deve ser feito para se restabelecer essa relação de confiança que sempre existiu e ajudou o país a se desenvolver e modernizar?

No dia 22 de agosto, a “Folha de S.Paulo” fez um editorial sob o título “Jair Rousseff”. O texto se referia ao desequilíbrio das contas públicas no governo de Dilma e à inclinação de Bolsonaro de ir pelo mesmo caminho.

A despeito dos argumentos do editorial, a fusão dos nomes de Dilma e de Bolsonaro provocou enorme indignação. Afinal, misturou-se uma pessoa que foi vítima de tortura -um dos piores crimes da humanidade- com uma pessoa que não tem o menor pudor de promover publicamente torturadores.

Isso causou a reação de autoridades e de jornalistas, inclusive dentro da própria “Folha”. A crítica mais contundente veio em um artigo de Janio de Freitas, um dos maiores nomes do jornalismo nacional, que não poupou o veículo.

Freitas lembrou ainda outro infame editorial da “Folha”, intitulado “Ditabranda”, de 17 de fevereiro de 2009. Naquele caso, o jornal sugeriu que a ditadura mais recente do Brasil, a dos militares (1964 a 1985(, teria sido menos mortífera que a dos outros regimes militares latino-americanos do mesmo período, e a comparou com a situação na Venezuela na época.

Oras, não existe ditadura boa, nem sequer “menos pior”. Todas são horríveis por definição, pelo simples fato que eliminam direitos fundamentais da sociedade. Da mesma forma, não dá para misturar em um mesmo saco Jair Bolsonaro e Dilma Rousseff, por possíveis semelhanças nos desequilíbrios das contas de seus governos.

E não estou aqui defendendo ou atacando nenhum dos dois.

Não se pode relativizar a importância da vida e da liberdade. Assim como não se pode tentar agradar todo mundo.

Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém!

Esses são apenas alguns exemplos de mancadas que veículos de comunicação podem cometer -e cometem. Ao fazer isso, eles afugentam seu público, perdem seu apoio e oferecem argumentos para aqueles que querem o fim de uma imprensa livre e forte, pois acham que ela só os atrapalha.

A impossibilidade de uma boa imprensa dócil

Todo governo gostaria de ter uma imprensa dócil e que sempre o enaltecesse. Mas, se um veículo de comunicação fizer isso, não é jornalismo: é relações públicas.

Um dos argumentos da turma -seja conservadora ou progressista- que ataca a imprensa é dizer que os veículos de comunicação mostram tudo que os governos fazem de errado e não mostram o que eles fazem de bom. Só que isso é uma falsa polêmica.

Entre as funções de uma imprensa séria, estão informar e formar o cidadão. Deve protegê-lo dos interesses de grupos de poder -seja ele político, econômico ou ideológico. Deve fiscalizar o poder.

Sempre!

A imprensa pode falar de coisas positivas que governos fazem. E ela fala, claro que fala! Mas essa turma gostaria que falasse muito mais. Ou só falasse da parte boa.

Para isso, o governo tem a máquina pública de propaganda, que é gigantesca, “A Hora do Brasil”, milhões e milhões de reais para publicidade, em que infla o que faz de bom e mente sobre o que faz de mal. Todo governo é assim!

À imprensa cabe, portanto, mostrar o que incomoda os poderosos, todos eles! Portanto, se não estiver incomodando, não está fazendo um bom trabalho.

Como disse certa vez o grande cartunista e jornalista Millôr Fernandes, “imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados.”

A imprensa brasileira tem batido mais nos governos nos últimos 18 anos. Mas acho que têm batido pouco! Tem que ser mais incisiva!

Todos os governos erram, fazem coisas ruins. É natural isso! Cabe ao jornalista mostrar tudo isso, até mesmo para que o governo possa se corrigir.

E não podem tem medo de se posicionar! Pelo contrário: o veículo e o jornalista devem deixar claro no que ou em quem acreditam.

O que não quer dizer ignorar ou calar o outro lado. Muito pelo contrário: deve dar voz ao outro lado, sim, mas defender o seu ponto de vista, com fatos e argumentos sólidos.

Na ânsia de serem democráticos, muitos veículos abrem espaço para opiniões divergentes, o que é ótimo! Mas perdem sua capacidade de se posicionar sobre qualquer tema. Tornam-se uma coisa sem opinião e sem graça.

Isso não pode acontecer, pois o seu posicionamento influencia a sua capacidade de informar e de formar o cidadão. Além disso, ao não se posicionar, isso permite que governos se façam ainda mais de vítimas, dizendo que são perseguidos, quando é exatamente o contrário que acontece.

O jornalismo tem que se posicionar!

Por exemplo, na última quinta, no Jornal da Live, que faço no LinkedIn, defendi a necessidade de as pessoas se imunizarem contra o Covid-19 quando uma vacina estiver disponível. Usei argumentos da ciência, justificando porque isso é essencial. Também expliquei por que algumas pessoas não querem se vacinar. Demonstrei como o governo pode legalmente obrigar a vacinação. Contei até o episódio da Revolta da Vacina, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1904: naquele ano, a população se recusou a tomar a vacina contra a varíola e teve até quebra-quebra nas ruas da então Capital Federal. O governo da época acabou recuando da obrigatoriedade, mas isso matou 6.400 pessoas apenas na cidade, quatro anos depois.

Ou seja, abri o espaço para quem não quer se vacinar. Mas deixei claro que sou a favor da vacinação de todos, e defendi meu ponto de vista com fatos.

A imprensa pergunta; o governo responde

A imprensa brasileira bate muito menos no governo que a americana, considerada uma das melhores do mundo. Somos até cordiais com os governantes!

Nos Estados Unidos, os jornalistas não têm o menor problema de colocar o presidente da República contra as cordas e cobrar dele respostas a suas perguntas, mesmo as mais incômodas. E o presidente tem que responder: é o seu papel! Se não responde, é execrado publicamente, com razão.

E que sorte os americanos têm de sua imprensa agir assim! Sem isso, o moralismo latente ganharia força no populismo dos governos. E aí, os Estados Unidos deixariam de ser a maior potência do mundo para ser uma nação retrógrada e fadada ao obscurantismo político, econômico e cultural.

Já viajei por muitos países e sempre gosto de observar como é sua imprensa. É absolutamente claro como sociedades mais desenvolvidas têm imprensas mais livres, mais fortes e mais responsáveis. E a recíproca também vale!

Hoje é 7 de setembro, dia da independência do Brasil. Por isso, resolvi promover esse debate. Não é uma conversinha que só interessa a jornalistas, e sim um posicionamento cívico. Todos nós temos um papel nisso, para o futuro da democracia e até da manutenção de uma sociedade decente.

À imprensa, cabe buscar um jornalismo muito melhor que o que já faz, mesmo aqueles que já estão trabalhando bem. Tem que apurar melhor, apresentar melhor. O foco deve ser sempre seu público, e não qualquer outro interesse. Seu papel é fazer bom jornalismo, sem se render a fórmulas fáceis. Ao fazer isso, resgatarão o respeito público, e seus negócios melhorarão.

Ao governo, tem que parar de se fazer de vítima e de jogar a população contra a imprensa, só para poder continuar realizando o que bem entender. Se fizer bem o seu trabalho, se cometer menos desmandos, as críticas naturalmente diminuirão.

Quanto a nós, o leitor, o espectador, o internauta, cabe fugir das “fake news” e valorizar quem está pelo menos buscando fazer um bom jornalismo. Cabe a nós acreditar menos em quem bate na imprensa. Cabe a nós não nos deixar enganar e entender que precisamos de uma imprensa forte e livre para o desenvolvimento de toda a sociedade.

Todos nós e cada de um de nós tem o seu papel.

Os ladrões da sua identidade

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Você já deve ter ouvido falar do aumento de casos de golpes virtuais no Brasil. Talvez conheça alguém que tenha caído em um deles. Quem sabe você mesmo foi vítima de um desses pilantras?

Ou você acha que jamais cairia em uma maracutaia dessas?

Se esse for o seu caso, lamento acabar com as suas ilusões: ninguém está totalmente seguro dos meliantes virtuais. Até mesmo profissionais experientes podem cair nessa. Portanto, todo cuidado é pouco!


Veja esse artigo em vídeo:


Um acontecimento recente demonstra o poder dos bandidos.

No dia 15 de julho, o Twitter foi vítima da maior falha de segurança de sua história. E nenhum sistema deles foi comprometido por problemas de software. A invasão aconteceu a partir de funcionários que foram enganados e forneceram aos hackers seus dados de acesso à rede interna e a sistemas de gerenciamento de contas de usuários.

Em minutos, os cibercriminosos conseguiram os dados de 130 contas, e enviaram tuítes a partir de 45 delas, acessaram mensagens diretas de 36 e baixaram os dados de 7. E não eram quaisquer contas! Entre outras, estavam as do ex-presidente americano Barack Obama, do candidato à presidência dos Estados Unidos Joe Biden, do fundador da Microsoft Bill Gates, do CEO da Amazon, Jeff Bezos, e do empresário Elon Musk. Essa ação rápida convenceu pessoas que seguem essas contas a fazer doações, que teriam chegado a US$ 100 mil.

No dia 31 de julho, a polícia prendeu três homens acusados do crime. O líder da gangue é um adolescente de 17 anos, da Flórida.

Os funcionários de uma das empresas mais badaladas do Vale do Silício foram vítimas de uma técnica chamada “spear phishing”, uma versão mais elaborada do “phishing”.

O “phishing” convencional consiste no disparo de uma grande quantidade de e-mails e mensagens de SMS e WhatsApp que tentam convencer a vítima de que se trata de uma comunicação oficial de uma empresa ou instituição. Os bancos são os preferidos pelos criminosos para tentar enganar as pessoas. Se a vítima instala o programa ou clica no link, cai em um ambiente que simula o do banco, para que informe sua senha e até faça pagamentos.

Mas essas mensagens são enviadas para todo mundo sem qualquer personalização. Daí fica mais fácil perceber o golpe.

Já o “spear phishing”, que enganou os funcionários do Twitter, é bem mais elaborado. Antes de entrar em contato com a vítima, os bandidos fazem uma pesquisa sobre ela, para que a comunicação seja personalizada, tornando-se mais convincente.

No caso do ataque ao Twitter, a quadrilha fez a lição de casa. Conheciam exatamente quais funcionários atacar e o que falar para eles. Eles se passaram por membros da área de TI e sabiam o que dizer para convencer os profissionais a entrar em um site falso de acesso ao ambiente corporativo, idêntico ao da empresa.

Os bandidos precisavam ser incrivelmente convincentes na sua conversa. E foram!

Mas, se os funcionários do Twitter caíram nessa, imagine um cidadão comum, que não tem nenhum preparo e experiência para evitar esse tipo de golpe!

Em casos específicos, criminosos usam até sistemas que sintetizam a voz de alguém conhecido pela vítima, como um diretor da empresa. Ou seja, no “spear phishing”, os criminosos pesquisam nas redes sociais a sua vida, seu trabalho, sua família, seus amigos, seus gostos.

Golpes “viralizaram” com o Covid-19

Para você ter uma ideia do tamanho do “phishing” por aqui, nos primeiros meses da pandemia de coronavírus, o Brasil foi o quinto país no mundo nesse tipo de golpe. Ficamos atrás apenas da Venezuela, de Portugal, da Tunísia e da França.

Segundo a empresa de cibersegurança Kaspersky, um a cada oito brasileiros sofreu tentativas de ataque entre abril e junho. A consultoria Refinaria de Dados calcula que, entre 20 de março e 18 de maio, a busca de informações pessoais e bancárias de brasileiros na “Dark Web” cresceu 108%, passando de 19 milhões por dia! Já a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) informa que o “phishing” aumentou 70% no pós-Covid-19.

Temas ligados à pandemia estão no centro dos ataques, especialmente o auxílio emergencial do governo. Por isso, o nome da Caixa Econômica Federal vem sendo muito usado. Golpes de sites de leilão falsos com o nome da Caixa também cresceram muito no período.

O que podemos fazer para nos proteger desses golpes?

No caso de empresas, é muito importante que treinem seus funcionários frequentemente contra ataques da chamada “engenharia social” feitos por mensagens digitais, ligações telefônicas e até pessoalmente.

Do lado do usuário final, não entre em sites que dizem ser do banco a partir de links enviados por e-mail, WhatsApp ou SMS. Bancos não mandam links, nem pedem senhas nunca! Aliás, jamais informe senhas a ninguém!

Tampouco entregue, em hipótese nenhuma, seu cartão de débito ou de crédito cortado a ninguém. E quando for jogar fora um cartão velho, corte o chip e a tarja magnética mais de uma vez. E não deposite os pedaços no lixo reciclável.

Não coloque dados pessoais e de cartões em sites de origem duvidosa. Ative o serviço do seu banco para receber um SMS a cada transação com cartões de crédito e débito, para identificar imediatamente alguma indevida.

Evite expor seu telefone nas redes sociais e sites. O mesmo vale para anúncios que fizer em sites de vendas: prefira os canais de comunicação da plataforma para falar com possíveis compradores. E desconfie se receber ligações ou mensagens de pessoas em nome desses sites, de bancos ou operadoras de cartão. Tampouco dá para confiar no número de quem está ligando, pois sistemas conseguem alterar essa identificação, para que apareça o número de alguém conhecido.

Se, ao ligar a um telefone, especialmente do banco ou operadora de cartão, aparecer automaticamente no celular um programa que diz ser da empresa, para continuar o atendimento por ali, desconfie! Prefira fazer a chamada por voz no número oficial da empresa. Se não houver essa opção, ligue de outro telefone, se possível, de um fixo.

O uso de frases informais e até gírias em conversas, e erros de ortografia, no caso de mensagens escritas, são suspeitos!

Desconfie de ligações oferecendo brindes, trabalho ou outro convite em nome de um amigo ou colega. E jamais confirme números que são enviados a você por SMS, WhatsApp ou e-mail. Esse é o método preferido para sequestrar o seu WhatsApp, para os criminosos depois mandarem mensagens a seus contatos, pedindo dinheiro em seu nome.

Aliás, ative a verificação em duas etapas no WhatsApp e outras plataformas. É uma camada a mais de segurança. Mesmo que o criminoso obtenha o código de verificação, vai precisar também de uma senha extra criada por você, e isso pode impedir que sua conta seja sequestrada.

Por fim, nunca instale aplicativos que venham por e-mail, WhatsApp ou SMS. Faça isso sempre a partir das lojas de aplicativos oficiais.

Então, faça um favor a você mesmo: não pense que isso nunca acontecerá com você! Ninguém está imune a esses ataques.

Desenvolva uma saudável desconfiança e preserve a sua identidade e os seus bens.

Não existe almoço grátis!

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Não olhe agora, mas há um monte de gente querendo enrolar você!

Como diz o ditado, “não existe almoço grátis”. Essa máxima sugere que sempre pagaremos, de alguma forma, por algo que recebermos, mesmo que aparentemente pareça de graça.

Só que, de uma década para cá, um outro conceito ganhou muita força: o “freemium”, um neologismo que combina as palavras em inglês “free” (grátis) e “premium”. Segundo ele, podemos consumir gratuitamente uma versão simplificada de um produto ou serviço. E depois, se gostarmos daquilo, pagamos pela versão completa.

Infelizmente, alguns autoproclamados “gurus” têm juntado e distorcido os dois conceitos para criar uma espécie de estelionato digital.


Veja esse artigo em vídeo:


O “feemium” ganhou muita força com a popularização dos smartphones e dos modelos de negócios de suas lojas de aplicativos. A maioria desses programas têm uma versão gratuita. Ela remunera o desenvolvedor pela exibição de anúncios, de vendas de recursos adicionais no próprio aplicativo (chamadas de “in-app purchase”) ou pelo modelo “freemium”. Nesse último, se a pessoa gosta da versão gratuita, ela pode comprar a versão premium, com mais recursos, depois.

Ele é diferente da amostra grátis. Nessa última, a pessoa consome o produto de fato, mas recebe apenas uma pequena quantidade sem pagar, para que o experimente. Já no “freemium” o que se consome de graça é uma versão simplificada, reduzida, mas que pode ser usada sem pagar indefinidamente.

Não há absolutamente nada de errado com qualquer um desses modelos.

Entretanto, isso deu origem a uma profunda transformação cultural, em que pessoas decidem viver apenas com o grátis e suas limitações. E, apesar de isso poder limitar o crescimento do indivíduo, pois nunca terá acesso a um serviço completo, ainda não há nada de errado nisso.

O problema surgiu quando espertalhões perceberam que poderiam se valer desse novo comportamento para ganhar clientes facilmente. Criaram fórmulas em que prometem “almoços grátis” para todo mundo, mas entregam apenas pão amanhecido para os que participarem. Enquanto as pessoas mastigam as migalhas, eles vendem o almoço, normalmente um almoço de baixa qualidade, que é o que eles têm a oferecer.

Quem nunca participou de uma live que prometia uma grande revelação, um ensinamento importante para sua vida pessoal ou profissional, mas que, depois de uma, duas horas de fala, o suposto guru não entregou mais que uns 15 minutos de obviedades bem empacotadas, daquelas que você mesmo poderia encontrar em uma pesquisa no Google? Em todo o resto do tempo, ele ficou despejando gatilhos mentais para seduzir a plateia a comprar um curso ou uma mentoria composta por encontros mensais online ao longo de um ano? E essa mentoria não costuma ser nada barata! E não raro continua sendo um apanhado de conteúdos rasteiros, porém bem empacotados.

Essa é uma distorção do conceito do “freemium”. Ele consegue arrancar dinheiro de pessoas que se sentem confortáveis com a versão gratuita, sem entregar nada que, ao final, possa ser chamado de premium.

As redes sociais estão inundadas com esse tipo de vivaldino. E a sociedade perde com ele de diferentes maneiras.

A primeira, mais óbvia, é que pessoas são convencidas a pagar por algo que não entrega o que promete. O segundo é que essas pessoas deixam de se aprimorar pessoal ou profissionalmente, pois consomem esse conteúdo de baixa qualidade, e depois muitas vezes usam tais ideias no seu cotidiano. Por fim, esse enorme barulho feito por essa turma vem “escondendo” profissionais verdadeiramente capacitados, que, por valores éticos mais elevados, não entram nesse “esquema”.

No final, o nível médio da sociedade cai muito!

Usos legítimos

Não quer dizer que o “freemium” não possa ser usado em aulas e palestras abertas para captar clientes. Isso existe e é feito por profissionais bastante sérios e capacitados. Mas existem algumas diferenças entre os “picaretas” e os profissionais, que qualquer um pode identificar para não ser enganado.

A primeira diferença é que o profissional de alto nível não usa esse recurso o tempo todo. Essa não é a sua única forma de captação de clientes e nem é a principal.

Mas principalmente a grande diferença entre um profissional de alto nível e um oportunista é que a aula grátis, a palestra, a live do bom profissional sempre entregarão muito conteúdo de alta qualidade o tempo todo. Qualquer “malho de vendas” ocupará um tempo reduzido do encontro.

Isso é, antes de mais nada, respeito com o público. Ninguém assiste a seja lá o que for para ficar sendo soterrado de propaganda. As pessoas assistem para aprender algo, se entreter, se divertir.

Portanto, se você cair em uma live em que a pessoa fica só você enrolando com pouco conteúdo, obviedades e uma “fala mansa” para se autopromover, corra, porque é uma cilada! Aproveite que foi grátis mesmo e feche a janela do seu navegador. Assim você, no mínimo, economiza seu tempo!

É preciso lembrar ainda que o trabalho de um bom profissional tem valor! Ele estudou e trabalhou muito para chegar onde chegou. Por isso, consegue justamente trazer ensinamentos de alta qualidade, que o diferenciam da mesmice do mercado.

Como tal, merece ser remunerado adequadamente, pois sua entrega trará valor a quem estiver com ele. Existe uma história em torno da Cacilda Becker, umas das melhores atrizes brasileiras, que ilustra bem isso. Quando alguém lhe pedia ingressos grátis para assistir a suas peças, ela dizia: “não me peça para dar de graça a única coisa que tenho para vender.”

Ela estava certíssima! E podia dizer isso, pois assistir a Cacilda Becker era uma experiência memorável.

Portanto, antes de embarcar em mais uma “aventura grátis”, verifique as credenciais de quem está oferecendo aquilo. Veja se a pessoa tem uma formação acadêmica sólida e uma experiência profissional realmente diferenciada. Não caia no “canto da sereia” de quem exibe números exuberantes, mas que nunca construiu nada sólido na vida.

Quando há muita coisa grátis, tudo que é cobrado parece caro, mesmo que seja pouco. Mas pagar por algo pode lhe trazer benefícios que jamais viriam com algo gratuito. E é isso que pode verdadeiramente melhorar a sua vida pessoal e profissional.

Qual será o nosso legado?

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Há alguns dias, estava ouvindo uma playlist chamada “Brasil anos 1960”. Ela era fortemente dominada pela Bossa Nova. Fiquei pensando: “será que a Bossa Nova surgiria em um mundo como o que vivemos hoje?”

Pouquíssimo provável!

Então por qual música e outras formas de arte que as futuras gerações nos conhecerão? Mais que isso: o que estamos construindo, qual será nosso legado –muito além das artes? Afinal, o que fazemos hoje pavimenta a estrada de nossas vidas. E todas as pessoas influenciam pelo menos quem está a sua volta. Não precisamos ser artistas!


Veja esse artigo em vídeo:


Poucas coisas retratam tão bem um povo quanto sua arte. Na verdade, podemos contar a história de uma civilização a partir dela.

A Bossa Nova surgiu na Zona Sul do Rio de Janeiro, no final dos anos 1950, evoluindo do samba e com inspiração do jazz. Foi criada por universitários de classe média, e suas letras traziam temas descompromissados de seu cotidiano, influenciado por um momento de urbanização e desenvolvimentismo brasileiro.

Aquilo representava a realidade brasileira, pelo menos a daquele estrato da população. Era muito diferente, por exemplo, do rock inglês dos Beatles, que surgiu mais ou menos na mesma época, mas em uma realidade social completamente diferente.

Era um mundo incrivelmente mais simples que o de hoje! A vida passava de uma maneira muito mais lenta. Os “mocinhos” e os “vilões” eram claramente conhecidos. Cada um desempenhava seu papel como indivíduo e como cidadão.

Não é de se estranhar que a Bossa Nova, como movimento, desapareceria um ano após o golpe militar no Brasil. Afinal, aquele mundo de cores em tons pastéis das tardinhas deu lugar ao verde oliva e ao cinza chumbo.

Foi quando surgiu a MPB, que incluía temas mais politizados em suas composições. E não podia ser diferente!

O dramaturgo irlandês Oscar Wilde escreveu que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida’. De fato, a vida e a arte são interdependentes. Daí olho para o nosso mundo atual e me pergunto que elementos a vida atual oferece para a arte.

A pandemia de Covid-19 certamente já marcou a humanidade, assim como outras grandes crises sanitárias no passado, como a Gripe Espanhola. Seria capaz de apostar que, nos próximos anos, teremos muitos filmes e livros com histórias reais e de ficção a partir dessa tragédia global.

Mas há muito mais que define o mundo atual, de maneira mais determinante que a pandemia. Coisas que surgiram bem antes dela e que vão durar muito além dela: os smartphones, as redes sociais, os buscadores, a digitalização dos negócios e da nossa própria vida, por exemplo. Todos são coisas incríveis, que nos trouxeram grandes benefícios.

Mas temos também coisas terríveis, que surgiram a partir delas, por causa do mau uso desses recursos e da manipulação das pessoas por grupos inescrupulosos: a polarização política e ideológica extrema, as fake news, o roubo de dados e de identidades, a ditadura do ódio, a ideia de “cancelamento” de pessoas.

Futuro ou presente distópico?

Ao associar o mundo atual à arte, é inevitável pensar no romance “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”, do escritor britânico George Orwell, publicado em 1949. Cada vez mais acho que o mundo se parece conceitualmente ao Estado totalitário representado na obra, controlado pela figura do Grande Irmão, o Big Brother.

Teremos que esperar os artistas nos contarem suas visões desse momento. Entretanto, algumas iniciativas embrionárias já são reflexo disso e podem indicar caminhos que permanecerão além da pandemia.

Por exemplo, as superlives substituindo shows ao vivo. Acredito que, quando os shows estiverem novamente liberados, veremos os dois formatos coexistindo, cada um oferecendo uma experiência diferentes e complementares entre si. Começo a ver também a teledramaturgia produzindo material em que os artistas atuam dentro de suas próprias casas, com um resultado muito interessante.

Mas nós também podemos participar da construção desse legado, mesmo sem sermos artistas! Graças justamente ao meio digital, todos nós nos tornamos produtores de conteúdo. Todos nós viramos mídia e todos nós agora somos uma marca. Isso não é um exagero ou um abuso de linguagem.

No momento em que publicamos uma singela foto no Instagram, nós somos produtores de um conteúdo que potencialmente pode atingir milhares de pessoas em qualquer lugar do planeta. E esse conteúdo pode influenciar, de alguma maneira, cada uma dessas pessoas.

Portanto, temos que fazer isso com responsabilidade, mas sem que se torne um fardo. Esse é um poder que apareceu apenas quando os smartphones se popularizaram, pois eles são a nossa principal ferramenta de produção, enquanto as redes sociais são os principais espaços de troca.

Ou seja, estamos falando de pouco mais de uma década. Antes disso, em toda a história da humanidade, isso não era possível. Tanto que, em 2014, o especialista em marketing digital americano Mark Schaefer cunhou a expressão “choque de conteúdo”, que prevê que a humanidade literalmente produz mais conteúdo que é capaz de consumir.

Nosso papel para diminuir essa realidade autodestrutiva em que estamos é fazer a roda do desenvolvimento voltar a girar para frente, ao invés do movimento retrógrado atual.

Mesmo não sendo artistas, nossas publicações, até as mais singelas, influenciam muita gente. Temos, portanto, que barrar as ideias que visam a desunião social, a manutenção de interesses mesquinhos e egoístas, a disseminação do ódio, a destruição de quem pensa diferentemente, apenas por pensar assim.

A humanidade sempre se desenvolveu mais e melhor em torno de ideias que visavam o bem comum. Apenas conseguimos construir algo com quem está a nossa volta, combinando esforços e habilidades, quando confiamos no outro, e não quando o vemos como um inimigo.

Temos que usar esse incrível poder que a tecnologia nos concedeu para despertar bons sentimentos para que trabalhemos e nos desenvolvamos juntos. Portanto, lembre-se disso quando estiver nas redes sociais. Não curta e muito menos compartilhe conteúdos de pessoas e de grupos que pregam a supremacia de suas ideias, a desunião, o ódio. Ignore-os, deixe-os falando sozinhos! E eles eventualmente pararão de falar. Só continuam seu discurso porque ainda têm plateia.

Ao contrário, valorize quem produz um bom conteúdo, propositivo, construtivo, de união. Além disso, cada um de nós também pode fazer isso em nossas publicações nas mais diferentes redes sociais.

Não temos como reconstruir um “mundo Bossa Nova”, pois aquilo só existiu dentro de um contexto que não pode ser refeito. Mas não podemos sequer pensar em um mundo de “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” ou do que vivemos na época da ditadura militar. A sociedade está nesse ciclo de autodestruição por ter adotado alguns dos elementos desses momentos sombrios.

É hora de reverter isso e pôr a roda a girar para a frente de novo!