Levantamento global demonstra que países cujos governos negaram a ciência tiveram proporcionalmente mais casos e mortes por Covid-19

A verdade não pode perder o seu valor ou todos pereceremos

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Nessa semana, conversava com uma pessoa que disse que o meu “problema” é que eu vendo um “produto” que anda em baixa no mercado: no caso, a verdade. Mas quando as pessoas perdem seu apreço pela verdade, uma série de aspectos civilizatórios vão para o ralo com ela, abrindo caminho para todo tipo de mazelas.

Nesse sentido, foi emblemático um acontecimento neste sábado, durante o Brazil Forum UK, realizado em Oxford (Inglaterra). Enquanto defendia o sistema eleitoral brasileiro, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e ex-presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Luís Roberto Barroso foi interrompido e chamado de “mentiroso” por duas pessoas na plateia.

Barroso parou sua fala para explicar que “esse é um dos problemas que nós estamos enfrentando no Brasil, um déficit imenso de civilidade”. E, de fato, é uma pena ver parte da população querer “ganhar no grito” quando lhe faltam argumentos diante dos fatos. Quanto mais rumamos para esse caminho da barbárie, mais a democracia e a própria sociedade se esfacelam. E isso não se dá apenas por uma inconsequente batalha de narrativas.


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Daqui a cem anos, talvez os historiadores olhem para essa época como nós olhamos para os anos após a Primeira Guerra Mundial. Eles produziram os elementos para o surgimento do fascismo italiano e do nazismo alemão, que culminaram na Segunda Guerra e no Holocausto.

A despeito da grotesca invasão da Ucrânia pelo presidente russo, Vladimir Putin, quero crer que não estejamos caminhando para a Terceira Guerra Mundial. Mas essa época ficará marcada por algo de enorme dramaticidade social, que é a substituição da verdade por narrativas falaciosas, para atender a interesses de grupos políticos que aprenderam a usar os meios digitais para manipular as massas com enorme eficiência.

Não se trata apenas de narrativas inofensivas. Por exemplo, o estudo “Estimando Infecções Diárias e Cumulativas Globais, Regionais e Nacionais com SARS-CoV-2”, recém publicado na prestigiosa revista médica “The Lancet”, escancara como países cujos governos negaram ou postergaram as indicações científicas contra a doença, como vacinação, uso de máscaras e distanciamento social, e abraçaram teorias conspiratórias e medidas inócuas de combate ao vírus tiveram proporcionalmente muito mais infectados e mortos que aqueles que se valeram da verdade.

Isso pode parecer óbvio, mas o óbvio precisa ser dito, especialmente quando a Covid-19 continua vitimando pessoas por esses motivos.

Outro indicador de que a verdade vai muito mal em nosso país pode ser visto no também recém-publicado “Índice de Capacidade de Combate à Corrupção 2022”. O levantamento é feito anualmente pela instituição Americas Society/Council of the Americas e pela consultoria Control Risks, e avalia 14 critérios, como a independência das instituições judiciais, o combate a desvios de recursos e a força do jornalismo.

O Brasil infelizmente está em queda livre. Em um ano, caímos da sexta para a décima posição, de um total de 15 países, ficando atrás do líder Uruguai e de vizinhos como Peru, Argentina e Colômbia. Na primeira edição, realizada em 2019, o Brasil era o segundo no ranking, atrás apenas do Chile, que aparece em terceiro agora.

Segundo o relatório, o Brasil piorou com os ataques à independência e à eficiência das agências anticorrupção, mas destaca positivamente a resiliência do STF e do TSE ao processo de desgaste junto à população com fake news. Dos 14 critérios, a pior nota (de 0 a 10) do Brasil ficou em “processos legislativos e normativos”, com mísero 1,3, bem abaixo da média regional.

Há, entretanto, esperança para a verdade no estudo: nossa melhor nota ficou em “qualidade da imprensa e jornalismo investigativo”, onde cravamos 7,5, acima da média dos países avaliados.

 

Fato ou versão?

A desmoralização da verdade não vem de hoje. Esse processo ganhou força há cerca de uma década, como ferramenta de ascensão ao poder. Tanto que o mecanismo foi destacado em 2016 pelo renomado Dicionário Oxford. Naquela edição, seus organizadores elegeram “pós-verdade” como a “palavra do ano”. Na sua definição, ela é “relativa ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais.”

A mentira sempre foi uma poderosa ferramenta na mão de pessoas inescrupulosas para atingir seus objetivos controlando as massas. Basta lembrar da máxima forjada por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolph Hitler, para legitimar suas atrocidades: “uma mentira dita uma vez é apenas uma mentira; já uma mentira dita mil vezes se torna verdade”.

Para conseguir o que queria, o Fürher destruiu os mecanismos de controle do governo e submeteu a imprensa. Com um discurso nacionalista, pôde escolher os “inimigos do povo alemão”, que o abraçou cegamente em sua jornada de horrores. Quem discordasse era sumariamente eliminado.

A diferença é que, de uma década para cá, populistas do mundo todo descobriram nas redes sociais a ferramenta perfeita para dizerem uma mentira não apenas mil vezes, mas um milhão de vezes! Em linha com a definição de pós-verdade do Dicionário Oxford, manipulam a emoção de milhões de pessoas, que os defendem mesmo diante de fatos inegáveis e amplamente conhecidos, mesmo diante da barbárie e da ausência de civilidade.

Nesse aspecto, retrocedemos quatro décadas. As instituições democráticas continuam sendo alvejadas e muitas já estão em ruínas. Ainda assim, por mais que tenhamos “voltado muitas casas no Jogo da Vida” com as mentiras, sempre podemos dar novos passos para a frente com a verdade. Assim o ser humano evolui.

A verdade é o que é, mesmo quando ela nos desagrada. As pessoas precisam parar de acreditar em quem distorce a realidade para que ela fique mais palatável a seus desejos e crenças. Por mais que isso possa trazer um conforto momentâneo, no final das contas, os únicos beneficiados serão aqueles que plantam as mentiras.

“Precisamos resgatar a civilidade, que é a capacidade de divergir com respeito e consideração pelo outro”, disse Barroso em Oxford, no sábado. Para o ministro do STF, “nós viramos um país de ofensas”.

Precisamos mesmo! Sem civilidade, sem verdade, não há esperança. Como diz o ditado, “o pior cego é o que não quer ver”. Pior ainda é quem se faz de cego por conveniência.

 

O caçador de replicantes Deckard (Harrison Ford) e a replicante Rachael (Sean Young), de “Blade Runner”: amor de máquinas conscientes

Cuidado para não se apaixonar pelo seu computador

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Uma máquina pode se tornar consciente? Para o engenheiro do Google Blake Lemoine, isso aconteceu com o LaMDA (sigla em inglês para modelo de linguagem para aplicação em diálogo), sistema de inteligência artificial da empresa criado para conversar com seres humanos de maneira muito convincente. Críticos dizem que Lemoine se precipitou em suas conclusões. De qualquer forma, elas abriram um debate sobre se (ou quando) as máquinas poderiam ganhar “vida” e como seria nosso relacionamento com elas.

A maioria das análises sobre esse caso tem sido feita sob pontos de vista tecnológico e científico. Mas o assunto fica ainda mais interessante por um prisma filosófico. Afinal, o que define que algo se tornou consciente? Em última instância, o corpo humano não seria também uma máquina biológica incrivelmente sofisticada? Ainda assim, ninguém duvida que estejamos vivos e sejamos conscientes.

Essa questão é amplamente explorada pela ficção, para nos divertir, assustar e provocar reflexões. Algumas obras descrevem um futuro apocalíptico, com robôs inteligentes exterminando a humanidade. Outras mostram pessoas se apaixonando por computadores, e sendo correspondidas por eles.

Entre os dois cenários, prefiro esse último. Mas se uma pessoa e uma máquina se apaixonassem genuinamente, isso ainda causaria estranheza.


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Isso foi brilhantemente explorado em “Ela” (2014), do diretor Spike Jonze. No filme, o protagonista Theodore (Joaquin Phoenix) acaba se apaixonado por Samantha, o sistema operacional de seu computador e de seu celular. Apesar de não ter corpo, sendo representada apenas pela voz de Scarlett Johansson, a plataforma estava sempre presente, conversando como se fosse outra pessoa, exceto pelo fato de que Samantha sabia tudo sobre Theodore, pelo acesso que tinha a seus dados. A incrível sensibilidade com que a história é construída nos chega a fazer questionar o que é necessário para uma pessoa se apaixonar por alguém (ou algo), e chegamos a esquecer que Samantha é apenas um programa.

Outra abordagem interessante é a da animação “Wall-E” (2008), de Andrew Stanton. Ela conta o cotidiano de um robô deixado em uma Terra devastada pela poluição. Apesar de ele ser programado para uma única tarefa (compactar lixo), que continua executando por séculos, ele aparentemente aprende e demonstra sentimentos, como amizade (por uma barata), senso de dever e até amor.

Por fim, talvez o mais emblemático exemplo de máquinas que se tornariam conscientes é o de “Blade Runner” (1982), dirigido por Ridley Scott. Na história, máquinas chamadas de “replicantes” se parecem a humanos e agem como tal, exceto pela ausência de empatia ou apego a animais. Seguindo seu slogan “mais humano que o humano”, a fabricante Tyrell Corporation lança uma nova geração de replicantes que têm memórias de outras pessoas implantadas em seu cérebro como se fossem suas, chegando ao ponto de desconhecer sua natureza e acreditarem que são realmente humanos. Uma dessas replicantes, Rachael (Sean Young), e o caçador de replicantes Deckard (Harrison Ford) se apaixonam. Um relançamento em 1991, sem as interferências criativas do estúdio sobre o trabalho de Scott, sugere que o próprio Deckard seria também um replicante sem saber.

Ninguém diria que qualquer uma dessas máquinas estaria viva, do ponto de vista biológico. Mas o impacto desses grandes roteiros passa por fazerem o público acreditar que todas eram conscientes. Além disso, tinham capacidades extraordinárias, mas apresentavam sentimentos tipicamente humanos, demonstrando até mesmo fragilidades por isso.

De todas elas, o Google LaMDA se aproxima mais de Samantha. Lemoine não chegou a se apaixonar pela plataforma, mas, em entrevista ao jornal americano “The Washington Post”, disse que conhece uma pessoa quando fala com ela, não importando se tem um cérebro biológico ou um bilhão de linhas de código. “Eu escuto o que ela tem a dizer, e é assim que eu decido o que é e o que não é uma pessoa”, afirmou.

O Google discordou publicamente das conclusões de Lemoine, e o colocou em licença remunerada por violar sua política de confidencialidade.

 

O desenvolvimento de uma consciência

Lemoine teve uma formação religiosa sólida, o que pode ter contribuído para sua conclusão sobre a consciência de LaMDA. Alguns cientistas sugerem que ele pode ter sido influenciado por respostas cuidadosamente construídas pelo sistema, que poderia ter captado e estaria tentando corroborar as suspeitas do engenheiro com base em suas crenças. Exatamente o que Samantha aparentemente fez com Theodore.

Os críticos afirmam que, apesar de o sistema ter tido uma inegável eficiência na captação dos desejos de seu interlocutor e na construção das “melhores respostas” baseadas neles, nada disso teria acontecido por uma real inteligência, franqueza ou intenção. A máquina reproduziria a melhor fala possível, sem verdadeiramente entender o significado dela.

Ainda assim, muitos deles acreditam que estejamos caminhando para máquinas conscientes, que poderão existir entre 10 a 20 anos. Por isso, eles se preocupam com possíveis problemas vindos de quem interagir com sistemas de inteligência artificial pensando que se trata de outras pessoas. Por muito menos, o atual sistema de linguagem natural do Google Assistente, que pode fazer chamadas telefônicas de voz em alguns países de língua inglesa, passou a informar ao interlocutor, logo no começo da chamada, que é uma máquina falando ali.

Então a capacidade de uma máquina conversar de maneira absolutamente convincente, se aproxima da perfeição. Mas ter consciência, para os pesquisadores, implicaria muito mais que isso. Significaria, por exemplo, máquinas capazes de cuidar de si mesmas e de genuinamente demonstrarem empatia por outras pessoas. Além disso, ter consciência passa pela capacidade de criar modelos psicológicos de si mesmo e dos outros e conviver com isso em todas suas ações.

Por esses critérios e olhando de maneira bastante técnica, provavelmente o LaMDA não desenvolveu ainda sua consciência. Mas e quanto a Samantha, Wall-E e Rachael? Eles pareciam ter mesmo um “algo a mais”.

Pode ser… É bom lembrar que, para algumas pessoas, o que nos torna conscientes é nossa alma, nosso espírito.

Mas esse debate eu deixarei para outra ocasião.

 

O artista americano Andy Warhol, que disse em 1968 que, no futuro, todos seriam “mundialmente famosos por 15 minutos”

Não basta ser bom profissional, é preciso ser um “influenciador”

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Na noite de sexta, durante uma aula de meu curso de Customer Experience na PUC-SP, uma aluna levantou o debate de que já não bastaria ser um bom profissional: todo mundo agora precisaria ser também um “influenciador” para ser valorizado pelo mercado. Talvez isso ainda não seja determinante para se conseguir um emprego, mas quem faz sucesso nas redes sociais de fato anda sendo supervalorizado, a despeito de suas qualificações profissionais.

Isso vem provocando distorções reais e preocupantes.

Entre elas, profissionais com pouca experiência ou formação deficiente podem mesmo ocupar o espaço de pessoas mais bem preparadas para suas funções, se aparecerem bem online. A curto prazo, isso resulta em entregas piores aos clientes. A médio prazo, isso pode desestimular o investimento em uma boa formação profissional. A longo prazo, perde toda a sociedade, que pode se acostumar com um patamar inferior de qualidade em produtos e serviços.

Mas muita gente acha que ser influenciador digital é um caminho fácil e rápido para o sucesso. Não é de se estranhar, então, que o Brasil já tenha 500 mil deles.


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Por “influenciador digital”, entenda-se alguém que tenha mais de 10 mil seguidores nas redes sociais. Essa foi a métrica adotada pela consultoria Nielsen, no levantamento “Construindo melhores conexões”, chegando a esse impressionante número de meio milhão de influenciadores brasileiros.

O Brasil é o segundo país do mundo em influenciadores, quase empatando com os EUA. Já existem por aqui mais influenciadores que dentistas (que são 374 mil) e engenheiros civis (455 mil) e aproximadamente o mesmo que médicos (502 mil). Seus ganhos por trabalho variam de R$ 1.000 a R$ 600 mil.

Seu sucesso passa por ser relevante para a comunidade a que pertencem. Disso vem a grande pergunta: os influenciadores são realmente relevantes para a sociedade? Ou apenas “criam espuma” em torno de assuntos que interessam só a eles mesmos ou às marcas que os contratam?

Segundo a Nielsen, os influenciadores não chegam a ser determinantes em vendas: 45% das mulheres e 24% dos homens seguem influenciadores, mas 58% delas e 76% deles nunca compraram nada apresentado por esses profissionais. Isso porque 66% não confiam no que eles dizem.

Ainda assim, esse mercado não para de crescer. De acordo com o estudo “The State of Influencer Marketing 2022”, elaborado pela consultoria Influencer Marketing Hub, o setor de marketing de influência deve movimentar US$ 16,4 bilhões nesse ano. Mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo se consideram criadores de conteúdo, e devem fazer circular incríveis US$ 104 bilhões até dezembro.

Esses indicadores nos levam de volta ao questionamento inicial. É claro que existem influenciadores que fazem um trabalho incrível, que traz ótimos resultados às marcas e oferece um valor real a seu público. Mas a maioria deles são eficientes apenas em gerar “engajamentos vazios”, com muitos cliques em “fotos fofas”, mas incapazes de produzir um conteúdo verdadeiramente rico.

Como muitas marcas olham apenas para essas “métricas de vaidade”, profissionais qualificados acabam sendo preteridos.

 

A sedução da fama

Acontece que o desejo de se alcançar a fama é muito poderoso e acompanha o ser humano. As pessoas querem ser artistas, esportistas ou outras atividades que deem grande destaque popular. Mas isso sempre foi muito difícil, sendo alcançado por pouquíssimos, com muito trabalho e às vezes sorte.

Em 1968, o genial artista americano Andy Warhol disse que “no futuro, todos serão mundialmente famosos por 15 minutos”. Sua profecia se concretizou quatro décadas depois, com a popularização das redes sociais e dos smartphones. Qualquer post potencialmente pode hoje levar seu autor a milhares de pessoas e por muito mais que 15 minutos.

Assim, não é à toa que tenhamos tantos influenciadores! A maioria acha que esse é um caminho fácil para a fama e para o dinheiro. Nada mais equivocado! O trabalho de um influenciador profissional é árduo e exige planejamento. Por isso, chega a ser risível o espanto de muita gente ao descobrir, na semana passada, em um story da influenciadora Bianca Andrade, conhecida como Boca Rosa, que ela planeja detalhadamente suas publicações.

E não poderia ser de outra forma! O mercado felizmente começa a tratar os bons influenciadores como profissionais capacitados. Aqueles que não passam de “modelos de fotos bonitinhas”, que trabalham em troca de mimos, perdem espaço. Os bons contratos começam a ir para quem realmente for capaz de produzir conteúdo próprio e relevante. Seu desafio é passar mensagens de maneira orgânica para seu público.

O problema é que esses ainda são poucos! E isso acostumou o público a não querer sair da superficialidade confortável e que não exige que pensem muito.

Em junho de 2015, quando recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade de Turim (Itália), o escritor e filósofo italiano Umberto Eco fez um polêmico discurso dizendo que, graças às redes sociais, uma “legião de imbecis (…) agora tem o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel”. Não satisfeito, disse ainda que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

Talvez Eco tenha sido muito duro na escolha das palavras, mas ele antecipou o que se vê hoje, quando esse fenômeno ainda não era disseminado (e isso foi há apenas sete anos). Completos desconhecidos posando em trajes de banho e “fazendo biquinho” têm mais visibilidade hoje que cientistas que pesquisam temas essenciais para a sociedade.

Influenciadores digitais sérios são profissionais, e devem se portar e ser tratados como tal. É preciso “separar o joio do trigo”. Eles não devem ocupar o espaço de pessoas capacitadas nas diferentes áreas do saber, mas sim realizar o trabalho que fazem tão bem, que é o de apresentar e explicar produtos de maneira simples e alinhada a seus públicos. E isso tem muito valor! Se eles forem profissionais formados nas respectivas áreas e ainda tiverem a capacidade de influenciar multidões, melhor ainda!

O mercado precisa valorizar o que cada um tem de melhor a oferecer isso à sociedade, dentro de suas competências. Influenciadores podem não ser engenheiros, jornalistas, psicólogos, médicos ou modelos, mas, dentro de suas atribuições, podem trabalhar com todos eles, de maneira a que todos brilhem mais, sem “roubar” o espaço de ninguém.

 

Um terço dos brasileiros teme ser trocado por um robô

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Cerca de um terço dos trabalhadores no Brasil e no mundo tem medo de perder seus empregos para uma máquina nos próximos três anos. Apesar de esse número estar diminuindo (em 2019, era 50%), ainda é muito alto e demonstra que existem graves falhas na formação profissional.

Esses indicadores fazem parte da “Pesquisa Global de Esperanças e Medos da Força de Trabalho”, realizada pela consultoria PwC e apresentada no último dia 24 durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça). Na sua elaboração, foram ouvidas 52.195 pessoas em 44 países, inclusive no Brasil.

Diante desse receio, o estudo traz ainda que os trabalhadores esperam que as empresas os ajudem a desenvolver suas competências digitais e tecnológicas. Isso faz ainda mais sentido em um país como o nosso, em que a educação falha nessa tarefa. Mas 35% dos profissionais no Brasil e 39% no mundo dizem que seus empregadores também não fazem isso bem.


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Um fato curioso do levantamento da PwC é que os que se sentem mais ameaçados pela tecnologia não são os mais velhos, como se poderia imaginar. Entre os trabalhadores da “Geração Z” (nascidos a partir de 1997), 38% temem ser substituídos pela automação digital nos próximos três anos, contra apenas 19% dos “Baby Boomers” (nascidos entre 1946 e 1964). Eles também são os que mais sentem falta de treinamento tecnológico de seus empregadores: 44% contra 29% dos “boomers”.

Não por coincidência, os mais jovens são os menos satisfeitos com seu trabalho. Os pesquisadores afirmam que os profissionais que sentem ter habilidades valorizadas pelo mercado são mais propensos a se sentir satisfeitos com seu trabalho (70%), a ser ouvidos pelos seus gerentes (63%) e a ter dinheiro sobrando após pagar suas contas (56%).

Investir no desenvolvimento de habilidades digitais e capacitação técnica de seus quadros torna-se, portanto, cada vez mais crucial para as empresas. “O investimento deve ser guiado por um princípio de equidade, fortalecendo as capacidades dos funcionários qualificados e fornecendo vias de acesso para aqueles que não possuem essas habilidades”, explica Carol Stubbings, líder global de serviços jurídicos e tributários da PwC. Para a executiva, “o investimento em todo o mix de habilidades é bom para as empresas, bom para os indivíduos e bom para a sociedade.”

O poder de barganha pende para o funcionário, mas, no Brasil, o desemprego alto atrapalha isso. Na terça passada, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou que essa taxa foi de 10,5% no trimestre encerrado em abril. Apesar de estar em queda, ainda são desempregados demais para se observar aqui um fenômeno visto em economias mais sólidas, especialmente a dos EUA.

Trata-se da chamada “Grande Renúncia”: muitas pessoas estão de demitindo para facilmente se recolocar em outras empresas, com melhores condições. A PwC explica que, se esse fenômeno nos ensinou alguma coisa, é que não há “lealdade eterna” de funcionários. As empresas precisam estar atentas a essas demandas ou perderão cada vez mais profissionais em diferentes níveis. Mas a maioria não presta atenção nisso!

No Brasil, além dos 11,3 milhões de desempregados, a situação ainda se agrava pela falta de acesso a recursos digitais de qualidade para a maioria da população. Outro estudo, batizado de “O abismo digital no Brasil”, publicado em março pela mesma PwC e pelo Instituto Locomotiva, demonstra que apenas 29% dos brasileiros são “plenamente conectados”. Do outro lado, 20% são totalmente “desconectados”.  Entre eles, estão 26% “parcialmente conectados” e os 25% “subconectados”.

Perdem o profissional, a empresa e a sociedade.

 

Desenvolvendo habilidades

As companhias precisam compreender, de uma vez por todas, que a capacitação digital de seus funcionários se tornou fundamental para seus negócios, que vêm se digitalizando de maneira exponencial há anos. Isso mudou como trabalhamos, estudamos, compramos, nos divertimos e nos relacionamos com tudo e todos!

O estudo sobre o abismo digital brasileiro apontou que profissões tradicionais, que respondiam por 15,4% das vagas em 2020, encolherão para 9% até 2025. Já as ligadas à tecnologia passarão de 7,8% a 13,5%. No Brasil, o setor de tecnologia demandará 800 mil profissionais até 2025, mas o déficit deve ficar em 530 mil vagas não preenchidas.

Como as universidades não estão suprindo essa mão de obra na quantidade e com a qualidade que o mercado pede, resta mesmo às empresas realizarem o “upskilling”, termo em inglês que indica o desenvolvimento de novas habilidades.

A mesma PwC afirma que, se a força de trabalho for devidamente aprimorada até 2028, isso pode resultar em um aumento do PIB latino-americano em 7,7% até 2030, o equivalente a US$ 12,5 bilhões. Mas também estamos “patinando nisso”: globalmente, 40% das empresas estão fazendo “upskilling”, mas, no Brasil, só 27% investem nisso.

Uma terceira pesquisa, essa feita pela escola de negócios francesa Insead, coloca o Brasil como 75º no ranking de competitividade global de talentos, entre 134 países. Ele se baseia na capacidade de os países desenvolverem profissionais e de atrair e reter seus talentos. Na América Latina, ocupamos uma modesta 9ª posição.

Diante de tudo isso, gestores de empresas de todos os portes e segmentos precisam sair de sua zona de conforto. “Os trabalhadores não estão apenas procurando por uma remuneração decente: eles querem mais controle sobre como trabalham e querem obter maior significado do que fazem”, afirma Bob Moritz, presidente global da PwC. “Ao adquirir competências, os trabalhadores podem obter o controle sobre o trabalho que procuram”, conclui.

Apesar de os profissionais desejarem que seus empregadores atuem diretamente na solução de seu desenvolvimento tecnológico, isso não desobriga governos e escolas de igualmente atuarem nisso. Mas essa tarefa precisa ser feita de maneira integrada e inteligente, colocando os recursos onde realmente forem mais necessários.

Essa é uma deficiência estrutural de vários países, mas fica mais grave no Brasil, graças a alguns de nossos problemas históricos, como políticas públicas sem foco e sem continuidade de um governo para outro, e educação deficiente. Enquanto a sociedade não se organizar para trabalhar de maneira coordenada para o crescimento de todos, continuaremos vendo nossa produtividade caindo, tornando nossas empresas e nossos profissionais menos competitivos internacionalmente.

 

O CEO do Google, Sundar Pichai (no canto inferior esquerdo), apresenta o protótipo do novo Glass no Google I/O 2022, no dia 11 de maio

Google aponta alternativa ao metaverso com a realidade aumentada

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Nos últimos minutos de uma palestra de duas horas que abriu a conferência Google I/O no dia 11 de maio, o CEO da empresa, Sundar Pichai, apresentou brevemente a proposta da nova versão de um produto que deu bem errado há alguns anos: o Google Glass. Apesar de ter ocupado muito menos espaço que os outros produtos exibidos ali, o fato de ela encerrar a apresentação é emblemático.

O Google costuma usar seu evento anual para desenvolvedores como um espaço para apresentar conceitos que ficarão no imaginário das pessoas e eventualmente se tornarão produtos de fato. Dessa vez, o anúncio oferece uma alternativa ao metaverso, ideia que vem sendo martelada por Mark Zuckerberg, que até trocou o nome de sua empresa de Facebook para Meta.

Caminhamos a passos largos para uma vida digital mais imersiva. O “novo Google Glass” ainda é um protótipo, mais próximo de um desejo que de algo comercial. Ainda assim, ele abre incríveis possibilidades tecnológicas. Resta saber se a empresa conseguirá contornar os problemas da malfadada versão original, especialmente os ligados à invasão de privacidade.


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O Google Glass foi lançado em 2013, aproveitando o movimento da indústria de tecnologia na época em favor de produtos inteligentes sem botões. Ele era um projeto pessoal de Sergey Brin, cofundador da empresa, que propunha a habilidade de fazer chamadas sem o smartphone, tirar fotos e gravar vídeos de maneira fácil e consultar páginas da Web, que eram projetadas em uma minúscula tela diante do olho direito.

As inovações tecnológicas e a expectativa criada em torno do Google Glass indicavam que ele seria mais um grande sucesso da empresa. Mas uma série de problemas o transformaram em um fracasso retumbante, sendo descontinuado em 2015.

Para começar, por que pagar US$ 1.500 por algo que ninguém sabia direito para que servia e cuja bateria durava apenas três horas? O pouco que o Glass oferecia poderia ser feito com vantagens até por smartphones. Além disso, o produto era considerado feio ou, no mínimo, não combinava com a maneira de as pessoas se vestirem.

Mas um dos maiores problemas eram as questões ligadas à invasão de privacidade. Uma câmera apontando continuamente para si incomodava os interlocutores, ainda mais quando o usuário podia tirar fotos e até gravar vídeos sem que a outra parte soubesse. Havia ainda o temor que o equipamento fosse invadido por hackers

Talvez fosse um produto à frente do seu tempo, entretanto o mais provável é que ele foi lançado com uma euforia tecnológica que não considerou os impactos que aquilo poderia ter na vida das pessoas. Agora o Google tem muito mais maturidade tecnológica para lançar um produto mais útil e consistente. Mas permanece a pergunta que deve ser feita diante de toda nova tecnologia: seus benefícios superam eventuais problemas que ela traz?

A empresa parece ter aprendido com os erros do Glass original. Ao contrário daquela utilidade questionável, a nova versão apresentada estava focada na solução de uma necessidade real. “A língua é fundamental para conectar um ao outro. Ainda assim, entender alguém que fala uma língua diferente ou tentar conversar se você for surdo ou tiver dificuldade de escutar pode ser um verdadeiro desafio”, disse Pichai na apresentação. Por isso, o novo Glass capta o áudio do interlocutor e apresenta legendas com a tradução projetada na lente do óculos.

 

Realidade aumentada e metaverso

Existe uma diferença fundamental entre os conceitos de metaverso, como o da Meta, e o de realidade aumentada, como o do Google Glass. O primeiro significa estar imerso em uma realidade que não existe, em um ambiente totalmente digital. É como estar dentro de um game, e não interagindo com ele “de fora”. Já a realidade aumentada projeta elementos digitais em nossa realidade, permitindo que se interaja com eles como se realmente existissem.

O metaverso é mais simples de ser compreendido, pois já existem produtos que bebem dessa fonte há duas décadas. O mais conhecido deles é o Second Life, lançado em 2003 e que ainda existe, apesar de hoje ter proporcionalmente poucos usuários.

A proposta de Zuckerberg agora acrescenta imersão nesse ambiente digital, graças a dispositivos como óculos de realidade virtual. Considerando os bilhões de dólares que a empresa vem investindo na tecnologia, não é uma questão de “se”, mas de “quando” ela será oferecida com tudo que vem sendo apresentado. Talvez a maior barreira seja a popularização dos dispositivos de realidade virtual, ainda muito caros para as massas.

A realidade aumentada, por sua vez, causa um impacto ainda maior, pois não somos nós que “entramos” no mundo digital, e sim elementos virtuais que “invadem” nosso mundo, permitindo sua manipulação. Filmes e séries têm abusado desse recurso, para demonstrar futurismo.

É o caso da interface usada pelo personagem Tony Stark, em alguns dos filmes do “Homem de Ferro”, da Marvel. Muita gente sai dos cinemas querendo poder usar o recurso! Mas propostas bem ousadas também existem no mudo real, como as apresentadas pela Microsoft já há alguns anos, em torno de produtos seus como os óculos HoloLens.

Muitas outras empresas também tentam fincar sua bandeira nesse terreno, como o Snapchat, que oferece seus óculos Spectacles, criados para que as pessoas compartilhem fotos e vídeos, com uma nova versão oferecendo também recursos de realidade aumentada. E não se pode esquecer da Apple, que promete para breve seus próprios óculos com esse recurso.

Talvez o Google Glass original tenha sido um fracasso comercial, mas ele permitiu que pensássemos nos problemas potenciais de uma tecnologia como essa. Isso abriu caminho para melhores serviços de realidade aumentada e o próprio metaverso. O que não quer dizer que eles já tenham sido todos resolvidos.

A questão da privacidade ainda está em pauta, aguardando regulamentação das empresas e até de legislações para se evitar abusos. Além disso, alguns especialistas temem que, com mundos digitais cada vez mais imersivos e personalizáveis, muitas pessoas passem a recorrer a eles como uma fuga de seus problemas reais, quase como se fossem um novo tipo de droga.

Não há dúvida que caminhamos para isso. As realidades virtual e aumentada trazem incríveis possibilidades para melhorar nossas vidas e, a despeito dessas preocupações, quanto mais imersivas forem, mais poderosas e divertidas ficarão.

Portanto, querer “resistir” a isso não faz muito sentido. O que precisamos é entender e nos apropriar de todos os seus benefícios e controlar seus riscos.

 

Elon Musk, que decidiu suspender temporariamente a compra do Twitter para saber quantos usuários falsos existem na plataforma

Por que usuários falsos incomodam Elon Musk e atrapalham nossas vidas

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Elon Musk, o homem mais rico do mundo, adora aparecer na mídia. Desde o dia 25 de abril, quando formalizou sua proposta de compra do Twitter por US$ 44 bilhões, ele não sai do noticiário. No dia 13, ele acrescentou mais um capítulo nessa novela, dizendo que havia suspendido temporariamente o negócio, até ter certeza sobre a quantidade de usuários falsos na plataforma. Muita gente não vê problemas nisso, mas esses perfis atrapalham os negócios de qualquer rede social e pioram muito a vida de todos nós.

Longe de ser um problema restrito a essas plataformas digitais, os usuários falsos se transformaram em um câncer social, justamente pelo poder de convencimento que elas têm sobre bilhões de pessoas. Suas ações podem literalmente distorcer a realidade, legitimando verdadeiros absurdos.

Portanto, goste-se ou não das ideias de Musk por trás de sua compra do Twitter, esse recuo do bilionário no negócio pode ser educativo.


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“O acordo com o Twitter está suspenso temporariamente aguardando detalhes que sustentem o cálculo de que spams/contas falsas de fato representam menos de 5% dos usuários”, disse Musk em um tuíte.

Essa estimativa é do próprio Twitter, mas especialistas acreditam que essas contas falsas possam chegar a 30% do total da base. O próprio Musk ventilou recentemente a possibilidade de que mais de 90% dos usuários do Twitter sejam contas falsas. Isso seria uma tragédia, mas demonstraria o tamanho do problema.

No primeiro trimestre, o Twitter reportou 229 milhões de usuários ativos diariamente, 15,9% a mais que há um ano. Só que, quanto maior a porcentagem de contas falsas, menos atraente a plataforma fica para anunciantes. Por isso, Musk quer mais detalhes desses números da plataforma. Analistas acreditam que ele possa até pedir um desconto sobre o valor oferecido pela compra.

Por trás dessa preocupação de Musk, existe uma indústria que polui as conversas e atrapalha a vida de quem busca um engajamento honesto nas redes sociais. Ela se divide entre bots (sistemas que controlam perfis como se fossem pessoas) e trabalhadores reais que controlam centenas de contas falsas. As duas modalidades têm o mesmo objetivo: gerar artificialmente uma enorme quantidade de interações para quem os contrata.

Isso é resultado dos algoritmos das redes sociais. Nada faz um assunto, pessoa ou empresa ficar tão popular quanto um alto engajamento (seguir perfis, curtir ou comentar publicações). Por isso, algumas empresas descobriram que poderiam oferecer esse serviço àqueles que desejassem colher frutos de grandes exposições digitais.

A prática é proibida por todas as redes sociais. Elas possuem algoritmos para identificar esses perfis inautênticos, eliminando sumariamente todos que encontra. Até os perfis de quem contrata esses serviços podem ser penalizados, com perda de relevância, suspensão e até bloqueio definitivo.

É por isso que contas falsas controladas por pessoas são mais valorizadas que as por bots. Ainda assim, como esses trabalhadores ganham das “fazendas de cliques” que os contratam apenas milésimos de real por cada interação, eles se veem forçados a operar centenas de contas e automatizar as tarefas, para que tenham um ganho razoável. Isso acaba aumentando o risco para eles mesmos e para quem os contrata.

Portanto, o sucesso desse trabalho passa por criar contas e interações que se pareçam legítimas. Nas próprias redes, há muitas dicas para isso. Existe até um negócio derivado dele, que são empresas dedicadas a criar perfis que se pareçam legítimos.

Uma das dicas que circulam por aí é não usar fotos de pessoas reais, e sim imagens geradas por inteligência artificial, evitando o crime de falsa identidade. Os defensores da prática dizem que assim os perfis não seriam falsos. Mas isso é como dizer que uma nota de R$ 300 é legítima só porque foi impressa em casa, depois de ter sido criada no Photoshop.

 

Distorção da realidade

As redes sociais combatem essa prática porque contraria os interesses de seu negócio. Todas elas faturam milhões entregando publicidade a quem têm grande chance de comprar o produto anunciado. Sua assertividade depende da coleta de informações de cada um de seus usuários, o que é feito pelas interações de todos e pelo cruzamento de dados de usuários.

As contas falsas atrapalham isso porque podem confundir os algoritmos nessa coleta, diminuindo a efetividade dos anúncios. Além disso, contas falsas e bots não compram nada! Por isso, ambos tornam as plataformas menos atraentes para os anunciantes.

Para os usuários, essa turma também provoca pesados prejuízos. Na semana passada, em uma aula sobre fake news que ministrei na pós-graduação em Direito Digital e Compliance da Damásio Educacional, expliquei que os algoritmos das redes sociais tentam nos mostrar conteúdos que consideremos interessantes, para que continuemos usando a plataforma. Mas a ação desses fakes faz com que deixemos de ver aquilo que nos interessaria para ver o que desejam políticos, empresas e qualquer um que queira nos convencer de algo.

Isso é um grande negócio para eles! As plataformas digitais ocupam hoje um espaço tão central em nossas vidas, que a massificação de qualquer ideia em suas páginas transforma em uma aparente verdade mesmo uma completa bobagem. E assim as massas são manipuladas de maneira sem precedentes, colocando em risco a democracia e até a sociedade organizada.

Isso não é pouca coisa, nem algo que possamos ignorar candidamente. Os fakes estão efetivamente tornando nossa vida pior!

Combater isso é, portanto, papel de todos. As redes sociais já fazem isso, até mesmo porque seu negócio está em jogo. Mas elas precisam se esforçar ainda mais!

Por outro lado, quem contrata esses serviços deveria parar de fazer isso. Sim, eu sei que isso seria pedir demais deles! Afinal, entre os principais apoiadores dessa indústria, estão políticos, celebridades, influenciadores digitais e até pequenas empresas. Todos querem aumentar seus negócios pela exposição artificial nas redes. Mas, ao fomentar essa prática, pervertem o próprio funcionamento das plataformas, prejudicando a sociedade.

As agências que contratam influenciadores também têm um papel importante na solução do problema. Hoje privilegiam pessoas com grande quantidade de seguidores e curtidas, ignorando a qualidade não só do que se publica, mas das conversas que podem ser geradas a partir disso. Quase como uma regra, quanto maiores essas “métricas vazias”, piores as conversas e vice-versa. E, para uma marca que busca construir uma boa reputação, boas conversas com seu público são essenciais.

Quanto a nós, os usuários, também podemos colaborar para a construção de uma vida digital melhor para todos. Em primeiro lugar, devemos desenvolver uma desconfiança saudável sobre o que consumimos nas redes.

Se algo lhe provoca emoções muito intensas, verifique se aquilo é verdade antes de curtir e principalmente de compartilhar. Denuncie conteúdos e perfis falsos. Por outro lado, valorize aqueles que se esforçam para construir uma presença verdadeira e propositiva nas redes: esses são os verdadeiros influenciadores!

Ao formalizar seu desejo de comprar o Twitter, Musk disse que a rede seria “a praça digital em que tudo que importa para a humanidade é debatido”. Isso é parcialmente verdade. Do jeito que está, o que aparece ali é movido pelo que importa a uns poucos, que manipulam milhões!

Precisamos resgatar essa “praça”, para voltar a ser um espaço saudável de trocas legítimas, deixando de lado o atual espaço para carnificinas digitais.

 

Colapso das criptomoedas mostra que elas não servem para quem tem coração fraco

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Não há grandes ganhos sem grandes riscos. Essa máxima se aplica perfeitamente às criptomoedas, que têm no Bitcoin sua maior estrela. Mas o colapso desse mercado na semana passada demonstra que o investimento em moedas digitais não funciona para qualquer um.

A cotação do Bitcoin despencou para o valor mais baixo desde 2020. A TerraUSD, outra criptomoeda que se promove como “estável”, entrou em colapso. Quando a poeira baixou, cerca de US$ 300 bilhões (mais que R$ 1,5 trilhão) tinham evaporado em poucos dias.

Portanto, se a essa altura você ainda se pergunta se deve ou não investir em criptomoedas, a resposta provavelmente é não! Mas isso não quer dizer que elas sejam ruins.


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No pânico dos últimos dias, o Bitcoin despencou 60% frente ao que valia em novembro. O Ether, outra criptomoeda popular, perdeu mais de 30% de seu valor na semana.

Grandes ganhos e perdas fazem parte desse jogo. Mas esse tombo foi muito amargo porque agora há muito mais gente investindo nisso. O instituto Pew Research Center calculou que hoje 16% dos americanos têm algum dinheiro empenhado em criptomoedas; em 2015, era apenas 1%. Isso quer dizer que quase 53 milhões de pessoas, isso considerando apenas os EUA, perderam proporcionalmente muito dinheiro na semana passada.

Como qualquer outro investimento de risco, para minimizá-lo, é preciso estar atento a diversos sinais do mercado que podem impactar a confiança no ativo. É por isso que os grandes investidores perdem proporcionalmente menos que os “amadores”, que não podem ou simplesmente não querem ficar se preocupando com isso.

Nesse caso, os sinais foram a inflação acima do normal, o aumento das taxas de juros em vários países e incertezas pela guerra na Ucrânia. Tudo isso fez investidores tirarem dinheiro de investimentos de risco (como ações nas bolsas), correndo para os mais seguros. Consequentemente, o valor de tudo caiu. A situação das criptomoedas foi a mais dramática justamente por serem mais arriscadas que praticamente qualquer outro investimento, pois não são garantidas por nenhum governo ou instituição.

Para entender melhor, esses fatores de risco provocaram uma espécie de efeito dominó no ecossistema das criptomoedas. Ele depende da confiança que as pessoas têm nele: se ela for comprometida, a coisa toda desmorona.

Para aumentar essa confiança, foram criadas algumas criptomoedas que prometem ser mais estáveis, por serem lastreadas (garantidas) por ativos reais e considerados seguros, como dólar, ouro ou títulos do Tesouro Americano. Por isso, elas são conhecidas como “stablecoins” e seu valor não sofre grandes flutuações. Muitos investidores as usam para fazer transações com outras criptomoedas.

Acontece que surgiram algumas “stablecoins” que não são tão estáveis assim. É o caso do TerraUSD. Ao invés de estarem atreladas a um ativo real e seguro, elas usam uma engenharia financeira complexa para manter seus valores estáveis, apoiando-se em outras criptomoedas.

No caso do TerraUSD, ela é vinculada à Luna, cujo valor evaporou no começo da semana. Isso iniciou a reação em cadeia e, a partir daí foi um banho de sangue, motivado pelo pânico dos investidores, que começaram a vender suas criptomoedas!

É como se você dissesse que inventou uma coisa para garantir outra coisa que você inventou: só funciona se todo mundo acreditar o tempo todo.

 

Dinheiro “do nada”

As criptomoedas surgiram em 2009, quando Satoshi Nakamoto lançou o Bitcoin como uma maneira de se realizar transações sem depender do sistema financeiro tradicional, como os bancos. Ao invés disso, todas as transações seriam garantidas por uma tecnologia chamada blockchain, uma espécie de livro-razão digital replicado em milhares de computadores e praticamente a prova de fraudes.

Talvez a maior de todas as ironias é que Satoshi Nakamoto é um pseudônimo. Ninguém sabe ao certo quem é ele. Alguns especulam até que seria um grupo de pessoas.

O fato é que ele atingiu seu objetivo de criar um método de transações totalmente independente. Mas isso trouxe alguns problemas, como ser um dinheiro completamente irrastreável, criando uma incrível ferramenta para, entre outras atividades lícitas, muitos crimes financeiros.

Isso também atraiu o interesse de investidores vorazes, que compram e vendem grandes quantidades das criptomoedas, responsável pela volatilidade gigantesca e sem precedentes em qualquer investimento. Vale lembrar que, por isso mesmo, nenhuma criptomoeda é garantida por governos ou instituições financeiras. Em outras palavras, se o investimento de uma vida de alguém derreter instantaneamente, não terá a quem recorrer.

Os entusiastas das criptomoedas afirmam que não há motivo para pânico, que esse derretimento do mercado é uma prova de que a tecnologia e o próprio conceito funcionam e que as perdas gigantescas serão recuperadas, em algum momento (não definido), por grandes ganhos, como de costume.

Já os críticos aproveitaram para reforçar que os bancos centrais precisam, de alguma maneira, criar regras para regular transações em criptomoedas, para proteger os investidores (especialmente os pequenos) e o próprio sistema financeiro. Afinal, qualquer país entraria em colapso se as pessoas deixassem de acreditar em seu dinheiro e passassem a operar apenas em criptomoedas.

Com tudo isso, não digo que criptomoedas sejam um mau negócio. Da mesma forma, não estou sugerindo que ninguém deva investir nelas ou mesmo usá-las como meio de pagamento.

Meu ponto aqui é que, para a imensa maioria da população, são necessárias informação e ajuda capacitada e ética para se investir em criptomoedas. Sem isso, para essas pessoas, seria como passar da piscina infantil para o surfe mais radical do planeta, achando que isso acrescentaria apenas um pouco mais de emoção ao que se estava acostumado.

Não há salva-vidas nesse mercado!

 

Cassie Kozyrkov, cientista-chefe de decisões do Google, na palestra de abertura do World Summit AI Americas, no dia 4 de maio

Uma inteligência artificial sem ética pode arruinar a sociedade

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Graças a crescente simbiose com sistemas digitais, nossas decisões cotidianas são influenciadas por eles. O que pouca gente sabe é que, da mesma forma, nós influenciamos as máquinas. Na verdade, graças à inteligência artificial cada vez mais disseminada nesses sistemas, elas efetivamente aprendem conosco. Mas será que estamos sendo bons professores?

A pergunta pode parecer sem sentido, mas embasa um dos temas mais quentes hoje para quem trabalha com inteligência artificial: a ética desses sistemas. Plataformas de IA desenvolvidas de maneira displicente podem ser mais suscetíveis a aprender e a perpetuar coisas ruins. A ironia –e possivelmente o grande risco disso– é que, se elas aprenderem isso de gente preconceituosa, passarão adiante o erro para outras pessoas, por sua vez influenciadas por esses sistemas.

Em outras palavras, uma inteligência artificial cheia de vieses e preconceitos pode piorar –e muito– a sociedade.


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Isso obviamente não quer dizer que a inteligência artificial seja ruim ou perigosa. Mas a preocupação da comunidade científica e de desenvolvimento com os vieses na inteligência artificial é tão grande, que foi um dos assuntos que mais ouvi na semana passada, durante minha visita a Montréal (Canadá) para participar do World Summit AI Americas, um dos maiores eventos do setor no mundo. Além do congresso, também fiz trocas muito ricas sobre o assunto em visitas a várias empresas e instituições de pesquisa, organizadas pela Câmara de Comércio Brasil-Canadá e pela Empathy Company.

Na palestra de abertura do Summit, Cassie Kozyrkov, cientista-chefe de decisões do Google, questionou o que faz da inteligência artificial uma tecnologia potencialmente mais perigosa que outras. Segundo ela, “sempre que você fica maior, é mais fácil você pisar nas pessoas a sua volta”. E a IA já está bem grande. “Não seja negligente na escala”, alertou.

Kozyrkov explicou que, ao contrário de uma programação convencional, em que o desenvolvedor determina explicitamente tudo que a máquina deve fazer em incontáveis linhas de código, na inteligência artificial, a plataforma recebe regras amplas para oferecer boas soluções para um problema. Para conseguir isso, ela é alimentada com conjuntos de dados, que servirão para que tome suas decisões.

O problema é que, se esses dados forem ruins, as decisões também serão ruins. Por isso, a plataforma precisa ter outras regras para corrigir o rumo se algo der errado. Segundo a cientista, quando os exemplos apresentados à máquina forem inadequados, sem uma validação de sua qualidade, a plataforma desenvolverá vieses. “Você precisa testar rigorosamente e construir redes de proteção”, sugere.

Podemos fazer uma analogia com a maneira como uma criança aprende. Se ela for constantemente exposta a exemplos ruins, ela aprenderá e reproduzirá isso quando crescer. Por exemplo, se uma criança cresce em uma família racista, existe grande chance de se tornar um adulto racista, pois esse preconceito terá sido normalizado em sua maneira de pensar.

Um dos exemplos mais emblemáticos do problema foi a ferramenta Tay, lançada pela Microsoft em março de 2016. Ela estava por trás de uma conta no Twitter, que simulava uma adolescente criada para conversar com os usuários. Mas a conta ficou no ar por apenas 24 horas! Tudo porque, nesse curto período, depois de conversar com milhares de pessoas (muitas delas mal-intencionadas), ela desenvolveu uma personalidade racista, xenófoba e sexista. Por exemplo, Tay começou a defender Adolf Hitler e seus ideais nazistas, atacar feministas, apoiar propostas do então candidato à presidência americana Donald Trump e se declarar viciada em sexo.

A Microsoft tirou o sistema do ar, mas o perfil no Twitter ainda existe, apesar de ser agora restrito a convidados, não ter mais atualizações e de os piores tuítes terem sido excluídos. Sua manutenção visa promover a reflexão de como sistemas de inteligência artificial podem influenciar pessoas, mas também ser influenciados por elas.

 

IA enviesada nos negócios

A inteligência artificial está presente em dezenas de sistemas que usamos todos os dias, melhorando suas capacidades. Sem ela, os benefícios que nossos smartphones nos oferecem seriam bem mais limitados. Da mesma, forma, ela está presente em plataformas empresariais. E os vieses também podem surgir nesse caso.

Uma das empresas que visitei em Montréal foi o escritório local da agência Thomson Reuters. No encontro, Carter Cousineau, vice-presidente de Data & Model Governance, e Glenda Crisp, líder de Data & Analytics, trouxeram problemas conhecidos da IA nos negócios, como os de sistemas de recrutamento. Ao analisar milhares de currículos para uma vaga, eles podem deixar de fora os melhores profissionais, por vieses que desenvolveram, por exemplo, sobre idade, gênero ou raça dos candidatos.

Para tentar minimizar casos como esse, o Conselho da Cidade de Nova York criou, no fim de 2021, uma lei que exige auditorias externas de algoritmos usados por empresas para contratação ou promoção de funcionários. Também passa a ser obrigatório informar o uso de inteligência artificial nos processos seletivos. Leis semelhantes em diversos países estão sendo criadas, abrangendo também áreas como educação, saúde e habitação.

A adoção da inteligência artificial é um caminho sem volta, que pode trazer grandes resultados para empresas e pessoas. Em outra palestra no Summit, Krish Banerjee, diretor de Data, Analytics & Applied Intelligence da consultoria Accenture, afirmou que 84% dos executivos sabem que precisam investir em IA para atingir seus objetivos e que 75% acreditam que, se não fizerem isso nos próximos cinco anos, podem ser colocados para fora do mercado.

É claro que sim! A inteligência artificial permite a qualquer um ter incrível ganho na velocidade e na qualidade das informações para seu cotidiano. Para indivíduos, isso pode representar uma vida melhor em diferentes aspectos. No caso de empresas, isso pode se refletir em produtos mais alinhados às necessidades do mercado, melhores métodos de produção e clientes mais satisfeitos.

A inteligência artificial precisa, portanto, dos seres humanos! Ela deixa claro a parceria que criamos com as máquinas. Se quisermos que ela nos ajude, precisamos ajudá-la a aprender com bons exemplos, ou seja, dados de qualidade. Nem mesmo a plataforma mais bem desenvolvida será capaz de dar resultados satisfatórios se pessoas não atuarem ativamente na curadoria das informações que a alimenta, eliminando os vieses.

“A inteligência artificial não é mágica, não pode ler sua mente”, provocou Kozyrkov no Summit. Se fizemos a nossa parte nesse acordo, a tecnologia pode nos oferecer grandes ganhos. Mas, se não instruirmos bem essa criança, ela pode arruinar a sociedade.

 

O multibilionário Elon Musk, que comprou o Twitter por US$ 44 bilhões, para, em suas palavras, “restaurar a liberdade da expressão”

O inferno são os outros

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A liberdade nunca esteve tão em alta, pelo menos na boca do povo. Mas paradoxalmente ela nunca foi tão maltratada e usurpada. Quanto mais se apoderam dela, mais as pessoas esquecem seu real significado.

Na semana passada, um dos assuntos mais comentados foi a compra do Twitter por Elon Musk, que pagou US$ 44 bilhões pela plataforma do passarinho azul. A sua principal motivação teria sido, como disse, “restabelecer a liberdade de expressão na rede”. Para o homem mais rico do mundo, isso significa que nada publicado nas redes deve sofrer qualquer tipo de moderação.

Isso seria verdade se vivêssemos em uma sociedade utópica, em que todos aproveitassem desse benefício de maneira responsável e civilizada. Mas estamos muito longe disso, e, aos nossos olhos, a culpa parece ser sempre dos outros.


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Todos nós temos nossas Ideias, nossas vontades, nossos valores. É natural que queiramos que os outros concordem pelo menos com parte disso tudo, seja porque entendemos que isso seria melhor para todos, seja porque exercitamos o nosso egoísmo. Mas isso simplesmente não vai acontecer, porque cada um tem as suas “verdades”, que acabam conflitando com as nossas em algum ponto. É um “beco sem saída filosófico”.

As redes sociais têm um papel determinante nessa incapacidade crescente de lidar de maneira equilibrada e construtiva com as ideias dos outros. Seus algoritmos reforçam nossos valores e até preconceitos, ao nos colocar em contato com muitas pessoas que pensam da mesma forma que nós. Isso faz com que tenhamos uma falsa certeza de que nossa visão de mundo é a correta, tornando-nos intolerantes e até agressivos.

Gostaríamos de não ser incomodados e vivermos de acordo com o que acreditamos. Mas o jornalismo, por exemplo. insiste em nos mostrar que o mundo não dá a mínima para nossas vontades, e que temos que aprender (ou reaprender) a conviver em harmonia dentro da sociedade.

Batemos no peito para dizer que nossa opinião deve ser ouvida, porque ninguém mais seria o “dono da verdade”. Só que isso é mais uma das falácias espalhadas nas redes sociais por aqueles que se beneficiam dessa cacofonia digital infinita.

Sempre existiram “donos da verdade”, que são pessoas, empresas e instituições com grande reputação, construída ao longo de anos e com muito esforço, e uma extensa ficha de serviços prestados à sociedade. E eles continuam existindo! Sua credibilidade não pode ser simplesmente descartada porque afirmam coisas das quais discordamos.

Jornalistas, professores, universidades e muitos outros continuam tendo um papel fundamental para a manutenção da vida. Aqueles que os criticam são os mesmos que, diante de sua incapacidade de produzir Ideias críveis e positivas para a sociedade, precisam destruir todos aqueles que fazem isso, para que criem uma “tabula rasa” sobre a qual imporão suas vontades sobre as massas.

Isso me lembra de quando Umberto Eco recebeu, em junho de 2015, o título de doutor honoris na Universidade de Turim (Itália). Na ocasião, o escritor e filósofo italiano disse que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis” e que “agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel”. Afirmou ainda que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Ele estava certíssimo! Quando a desinformação ainda não havia se transformado em uma ferramenta de controle de massas em escala industrial, ele já antecipou o que estava por vir.

 

As bases da civilização

O historiador israelense Yuval Noah Harari afirma que o ser humano só alcançou a dominância do planeta por ser o único ser vivo com a capacidade de acreditar em desconhecidos para construir algo com eles.

A isso, damos o nome de sociedade! Do jeito que as coisas vão, estamos perdendo esse recurso, colocando, portanto, o próprio conceito de sociedade em risco.

O que se vê é um número crescente de pessoas que confundem liberdade, com libertinagem. Quando todo mundo faz o que bem entende, sem respeitar leis ou regras, e principalmente sem respeitar a liberdade do próximo, a sociedade começa e a derreter, dando espaço a uma anarquia.

Não é um conceito difícil de entender. De fato, isso é algo que aprendemos na escola: “a sua liberdade termina quando começa a liberdade do outro”. Ou, se preferir, “não faça com o outro o que não gostaria que fizessem a você”.

Esse é um conceito basilar em qualquer grupo organizado no mundo, e vinha funcionando bem nos últimos séculos. É claro que sempre houve aqueles que descaradamente desrespeitavam isso em benefício próprio, apropriando-se dos direitos alheios para aumentar os seus. Mas agora as redes sociais permitiram que eles se multiplicassem e se tornassem incrivelmente poderosos.

Espero que esse momento que estejamos vivendo seja apenas mais um desses “desvios de conduta em massa”, e que consigamos, em breve, resgatar uma convivência civilizada e equilibrada. Para isso, precisamos também das redes sociais.

Esse é o motivo de tanta gente estar preocupada com o que Elon Musk realmente fará com o Twitter. Mas, apesar de suas manifestações na própria rede, tudo o que os diferentes grupos ideológicos dizem sobre o tema não passa de especulação. Musk não tomará ações que levem a plataforma à ruína. Além disso, mesmo com o Twitter tornando-se uma empresa de um único dono, ela continuará sendo regulada e pressionada pelos órgãos de justiça do mundo todo, especialmente dos Estados Unidos, onde fica a sua sede. E essas instituições já deixaram claro que a liberdade deve ser preservada, desde que as redes sociais não se tornem uma terra sem lei.

Enquanto não soubermos o que Musk efetivamente fará com o Twitter quando for capaz disso, precisamos fazer a nossa parte para nos salvar de nós mesmos. Não podemos continuar achando que tudo é culpa dos outros e –pior ainda­– que nós estamos sempre certos e que os outros estão sempre errados. De maneira geral, a verdade está sempre em algum ponto no meio do caminho entre os vários extremos.

 

Jack Sparrow, da saga “Piratas do Caribe” (Disney), o pirata mais famoso do cinema

Os desencontros do streaming pavimentam o caminho para uma nova pirataria

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Alguns crimes vêm e vão, ressurgindo em novos formatos, aproveitando oportunidades. É o caso da pirataria de vídeos, que andava em baixa nos últimos anos, mas que vem ganhando força de novo com a guerra comercial das diferentes plataformas de streaming e mudanças impopulares em algumas das principais delas.

Na semana passada, a Netflix, líder dessa indústria, anunciou a primeira redução em sua base de assinantes em quase 11 anos. Justo ela, que teve um papel importante na diminuição da pirataria, fazendo o público trocar os camelôs de DVDs ilegais por um serviço cômodo e de qualidade, a um preço módico.

Com o aumento da concorrência de estúdios que tornam suas produções exclusivas em suas próprias plataformas, o público continua assinando algumas delas, mas não tem dinheiro para todas. Recorre então a métodos ilegais para assistir ao que está por trás dos muros das que não consegue pagar. Em outras palavras: o excesso de produções exclusivas nas diferentes plataformas empurra as pessoas para a pirataria, para conseguirem ver tudo que desejam.


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As ações da Netflix derreteram 35% na quarta passada, depois de ela ter divulgado seus resultados financeiros do primeiro trimestre do ano, no dia anterior. Isso diminuiu seu valor de mercado em cerca de US$ 50 bilhões, arrastando os papeis de concorrentes, como Disney, Warner Bros. Discovery e Paramount.

A empresa perdeu 200 mil contas no período. A expectativa era que aumentasse em, pelo menos, 2,73 milhões. Além disso, a receita do trimestre cresceu 10%, para US$ 7,87 bilhões, mas isso é menos que as previsões de US$ 7,93 bilhões.

Esses números podem ser parcialmente creditados ao encerramento da operação russa, em represália à invasão da Ucrânia, que resultou em uma perda de 700 mil assinantes. A situação só não foi pior porque a empresa conseguiu outros 500 mil no restante do mundo.

A Netflix já disse que as perdas podem chegar a 2 milhões de assinantes nos próximos meses. Além do fim da operação russa, a empresa justificou as perdas pela inflação nos EUA, o aumento da concorrência e o compartilhamento indevido de contas, algo que já anunciou que pretende combater com mais afinco.

Trata-se da prática de uma pessoa assinar o serviço e repassar as suas informações de conexão para amigos que não pagam. De acordo com a assinatura, a Netflix permite conexões simultâneas em duas ou até quatro telas. Mas isso deveria acontecer entre pessoas que moram juntas.

Estima-se que há cerca de 100 milhões de usuários que se valem desse “truque”. Identificar e impedir isso é tarefa tecnicamente simples, mas a Netflix sempre fez “vista grossa” para o problema. Mas em março a empresa anunciou que vai passar a cobrar uma taxa extra para quem compartilhar suas contas, equivalente à metade do preço do plano básico local. A novidade deve entrar em testes no Chile, no Peru e na Costa Rica em breve, sendo depois expandida para outros países.

Com a concorrência crescendo, não dá para continuar abrindo mão dessa receita. E por falar em dinheiro, outra mudança que vem sendo ventilada em vários desses serviços, inclusive na própria Netflix, é a oferta de planos mais baratos (ou até gratuitos) financiados por publicidade, algo que a mesma Netflix ensinou o público a rejeitar fortemente.

Essas são decisões impopulares e polêmicas. Quantos deixarão a base dos serviços de streaming graças a elas?

 

Os piratas agradecem

A gigante baseada em Los Gatos, na Califórnia (EUA), não é a única preocupada. O que aconteceu com ela pode ser um prenúncio de tempos mais difíceis para o mercado de streaming.

A Disney, por exemplo, que vem investindo pesadamente em sua plataforma Disney+ nos últimos anos, divulgará seus números no dia 11. Se eles também decepcionarem o mercado, o alerta pode passar a ser vermelho.

Não faz tanto tempo, as calçadas eram ocupadas por camelôs que vendiam DVDs piratas. A Netflix, com um catálogo englobando produções de vários estúdios a um preço módico, com alta qualidade e fácil acesso, praticamente eliminou aquilo. Agora, com a pulverização de conteúdos em diferentes plataformas, o bolso e a vontade do cliente podem não ser suficientes para pagar por todas elas.

A pirataria não acontece agora com discos: ela também vem pela Internet. E não para de crescer diante dessa guerra das plataformas. Em relatório divulgado em fevereiro, a empresa de cibersegurança Akamai colocou o Brasil como quinto país no mundo em acessos a sites de pirataria, atrás dos EUA, da Rússia, da Índia e da Turquia. Fizemos 4,5 bilhões de streams e downloads não licenciados entre janeiro e setembro de 2021.

Além da pulverização em diversas plataformas, o baixo poder aquisitivo da população e títulos não oferecidos no país favorecem a pirataria. Outro levantamento, esse do Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade, calculou que, em 2020, o mercado ilegal custou R$ 287 bilhões ao Brasil, atingindo principalmente as áreas de música e televisão.

O mercado chega então a um impasse. Os diferentes produtores também têm direito a morder um pedaço dessa torta que a Netflix mostrou sem grande e suculenta. Mas chegamos a um ponto de saturação? Vale a pena ter sua própria plataforma ou continuar distribuindo seu conteúdo na dos outros?

O risco é que a pulverização e o assédio da pirataria reduzam demais a quantidade de assinantes para cada plataforma. Isso comprometeria a capacidade de investimento em novas produções exclusivas, que se tornaram a principal ferramenta de atração. E assim começaria a faltar dinheiro para investimentos, cada vez exigentes.

A Netflix costumava dizer que sua principal concorrência não era de outras plataformas de streaming, mas de outras formas de diversão, como ler e até dormir. Fica cada vez mais difícil sustentar isso!

Os assinantes pulam de um serviço para outro, cancelando suas assinaturas quando sua série preferida acaba, para ver a de outro serviço. E assim sucessivamente! Sobre todos eles, paira uma pirataria ressurgida de maneira mais tecnológica e atraente.

A transformação desses serviços em poderosos estúdios de filmes e de séries gerou uma demanda poderosa no público, a ponto de as pessoas quererem assistir a todos os grandes lançamentos. Mas não é poderosa o suficiente para fazer colocarem a mão no bolso para pagarem por tudo isso.

 

O Brasil sentou-se em uma bomba chamada WhatsApp

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Lá pelos idos do ano 2000, quando eu era gerente de produtos da AOL (America Online) e tinha sob minha responsabilidade as versões brasileiras do Instant Messenger e do ICQ, percebi que a empresa que oferecesse o melhor aplicativo de mensagens conquistaria o coração dos internautas. Duas décadas depois, essa empresa é a Meta, com seu Facebook Messenger e principalmente seu WhatsApp.

Isso é tão verdade que hoje um presidente compra briga com outro poder da República por causa desses programas. Na mais recente bravata, nesse sábado, Jair Bolsonaro disse que não aceitará o acordo da Meta com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que fará com que novos recursos sejam incorporados ao WhatsApp apenas após a eleição desse ano.

Mas, afinal, o que há de tão especial nesse programa a ponto de provocar essa balbúrdia toda?


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O WhatsApp hoje é usado por 120 milhões de brasileiros, o que o coloca muito à frente de qualquer outra forma de comunicação por aqui. Estima-se que esteja instalado em 99% dos smartphones no país. Por isso, as mensagens distribuídas pelas plataformas têm uma incrível capacidade de se disseminar rapidamente.

O comunicador da Meta teve um papel importante nos resultados das eleições de 2018 e 2020: os candidatos que melhor dominaram a plataforma conseguiram muitos votos assim, não raro valendo-se de farta distribuição de notícias falsas. Por isso, o TSE firmou um acordo com as principais plataformas digitais para minimizar o problema com ações em conjunto na campanha desse ano, tentando “desarmar essa bomba” que o aplicativo se tornou. Participam da iniciativa a Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp), o Google (dono do YouTube), o Twitter, o TikTok e o Kwai.

A confusão começou na quinta, quando a Meta anunciou novos recursos do WhatsApp, que serão liberados gradativamente para usuários do mundo todo a partir das próximas semanas. Mas, pelo acordo com o TSE, eles chegarão aos smartphones brasileiros apenas após o segundo turno das eleições.

A principal novidade é o recurso de “comunidades”, que permitirão a união de até dez grupos em um único espaço. Como cada grupo permite hoje até 256 usuários, uma mensagem publicada em uma comunidade poderia atingir imediatamente até 2.560 usuários. A Meta ainda estuda dobrar a capacidade de cada grupo para 512 usuários. No Telegram, concorrente direto do WhatsApp, os grupos podem conter 200 mil usuários.

Outros recursos do pacote de melhorias são a possibilidade de se realizar chamadas de voz com até 32 pessoas simultaneamente e a transferência de arquivos com até 2 GB. Atualmente esse limite é de 16 MB para arquivos no celular e 64 MB no WhatsApp Web.

Todos esses recursos seriam muito úteis em uma campanha eleitoral, sem dúvida. Postergar seu lançamento para depois da eleição é um grande revés para candidatos que usam muito essas plataformas. Isso explica a reação de Bolsonaro, que chamou a decisão de “inadmissível”.

A Meta reforçou que o WhatsApp não deve ser usado para atividade política, mas obviamente nenhum candidato ou seus apoiadores deve respeitar isso.

 

Baixando a guarda

Existem várias explicações para essa incrível capacidade de convencimento pelos aplicativos de mensagens instantâneas. Ao contrário de e-mails, que trazem blocos inteiros de conversas, desestimulando os interlocutores a fazer muitas trocas, os programas como o WhatsApp, com suas mensagens curtas, informais e divertidas, favorecem isso. Essa mistura de serviço de mensagens com rede social torna a comunicação mais fluida, o que é positivo para a troca de ideias, mas faz com que os usuários “baixem a guarda” e acreditem muito mais facilmente no que chega por ali.

Esse é o motivo pelo que o WhatsApp se tornou o canal preferido por criminosos para aplicar diferentes tipos de golpes digitais. Não se trata de falhas técnicas da plataforma: os bandidos se valem justamente dessa vulnerabilidade das pessoas para enganá-las, às vezes com mentiras em que raramente cairiam em outros casos.

Os políticos usam exatamente a mesma estratégia, porém de maneira orquestrada e em escala industrial.

A criação de suas mensagens agrada a sua base de eleitores, essência, aliás, do jogo político. A diferença é que, com as plataformas digitais, essas ideias são distribuídas com uma velocidade avassaladora, inicialmente por robôs, e depois pelos próprios usuários, que gostariam que aquela informação acontecesse, mesmo que seja uma mentira deslavada. Com os aplicativos de mensagens, elas se espalham de maneira exponencial, podendo atingir rapidamente uma porcentagem muito expressiva do eleitorado.

Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolph Hitler, disse que “uma mentira dita uma vez é apenas uma mentira; já uma mentira dita mil vezes se torna verdade”. Foi assim que convenceu os alemães na década de 1930 a apoiarem seu Fürher contra os “inimigos do povo”, levando à Segunda Guerra Mundial e ao Holocausto.

Hoje a mentira é dita aos milhões, e esse recurso é usado por políticos no mundo todo! No ano passado, a Universidade de Oxford (Reino Unido) divulgou um estudo que indica a disseminação dessas táticas. Segundo os autores, no Brasil, as “tropas cibernéticas” se dedicam principalmente a atacar opositores e aumentar a polarização na sociedade, que lhes é benéfica.

Os aplicativos de mensagens se constituíram na ferramenta perfeita de disseminação de mentira, mas um ponto que não pode ser desprezado é que as pessoas acreditam no que lhes for mais conveniente.

Outro estudo demonstra isso claramente. Publicado na capa da revista Science, a mais importante publicação científica do mundo, no dia 9 de março de 2018, ele mostra que, a despeito das ações de robôs, são as pessoas as grandes responsáveis pela disseminação das fake news. Isso acontece, em parte, porque a desinformação dispara mecanismos emocionais que induzem ao engajamento com esse material.

Bons tempos aqueles do AIM, do ICQ e do MSN Messenger, em que esses aplicativos de mensagens eram usados apenas por pessoas querendo conversar alegremente com seus amigos. A inclusão desses recursos de disseminação em massa de mensagens, ainda que bem intencionada, transformou essas plataformas em “bombas” que colocam em risco o próprio conceito de sociedade organizada.

Como nós, os usuários, somos o elo frágil nessa corrente, acreditando em muito do que nos chega por esse canal, cabe à Justiça e aos próprios desenvolvedores desses produtos cuidarem desse incrível espaço de comunicação. Não se pode encarar inocentemente todo esse poder de convencimento, ou a população corre o risco de ser convertida em um bando de robôs teleguiados.

 

O rapper americano Bandman Kevo, que alia sua carreira musical com a de palestrante motivacional e guru online

Rapper ganha US$ 1 milhão por mês falando de investimentos em site de conteúdo adulto

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O rapper americano Kevin Ford, mais conhecido como Bandman Kevo, reúne 20 mil assinantes que pagam US$ 50 por mês pelo seu conteúdo online. Ele não fala sobre música, mas sobre investimentos, o que chega a ser inusitado. Mas o que torna a história mais curiosa é que seus vídeos estão no OnlyFans, famoso por hospedar conteúdo adulto explícito de seus usuários.

Por que tanta gente paga para ouvir um músico falando de dinheiro em uma plataforma de pornografia? A resposta: porque isso faz sentido para essas pessoas! E isso é a cara da cultura de criação de conteúdo em que vivemos.

Hoje qualquer um pode fazer publicações para alavancar o seu negócio ou até fazer disso o próprio negócio! Mas esse oceano de posts, cuja maioria tem qualidade no máximo questionável, dilui o valor da informação. Para piorar, as plataformas digitais destacam o que é ruim (mas popular), jogando para escanteio quem faz um bom trabalho.


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Os fãs de Ford afirmam que o conteúdo de seu canal no OnlyFans é valioso, ajudando-os a ganhar dinheiro. De fato, não é fácil fazer alguém pagar US$ 50 por mês para ouvir dicas de investimentos, especialmente para pessoas mais jovens, que compõem a maioria do público do rapper. Se fazem isso, algo que consideram valioso deve estar sendo entregue a elas.

Vale notar que o Ford não tem formação acadêmica na área. Na verdade, ele falsificou seu certificado do equivalente ao Ensino Médio. Em 2014, quando tinha 24 anos, foi preso por fraudes com cartões de crédito que passaram de US$ 600 mil. Quando foi solto, em 2019, decidiu aliar sua carreira musical com a de palestrante motivacional e guru online.

Deu certo!

Os puristas podem torcer o nariz para seu sucesso. Mas o rapper fez uma leitura correta de conteúdo, linguagem e recursos digitais, criando um produto consistente para um público específico. Até a escolha do OnlyFans demonstra ousadia. Por isso, seus ganhos estão muito além dos auferidos pela imensa maioria dos economistas, que fazem seu trabalho da maneira como aprenderam nas faculdades. E, por isso, não conseguem se diferenciar um do outro.

Ford surfa em um fenômeno derivado da chamada “economia criativa”, em que o valor econômico vem de ações criativas, culturais e intelectuais. Quem atua no setor sabe as necessidades dos consumidores, onde eles estão, o que eles pensam e suas características. Por isso, agradar o cliente é uma busca constante, promovendo mudanças permanentes no produto, que geram benefícios reconhecidos pela sociedade.

Apesar de as origens da economia criativa remontarem à década de 1980, ela floresceu com o poder que a tecnologia digital concedeu às pessoas, facilitando e barateando enormemente a criação de novos produtos. Com as redes sociais, isso atingiu um patamar incrível, permitindo que produtos intelectuais rentáveis fossem criados praticamente sem investimento. É o caso do canal de Ford no OnlyFans.

Graças a essa facilidade, a produção de conteúdo de qualquer natureza se tornou o trabalho de muita gente. Com a pandemia e o distanciamento social que ela provocou, a prática se tornou essencial para muitos profissionais e muitas empresas continuarem operando no momento de restrições mais severas. Após o fim do distanciamento, essa prática se perpetuou.

Infelizmente a esmagadora maioria desses produtores não tem os elementos necessários para criar um bom produto. Tampouco possui a capacidade de Ford, de fazer uma leitura assertiva do mercado, para entregar algo que atenda a demandas específicas. O resultado é muito ruído, que acaba “escondendo” dos usuários conteúdos que realmente poderiam lhes ser úteis.

 

Sensacionalismo

Há um outro aspecto importante a ser considerado nessa cacofonia informacional. Grandes empresas de comunicação competem hoje com ilustres desconhecidos pela atenção do público nas plataformas digitais. Aprecem mais aqueles que entendem as regras de promoção dessas plataformas, criando conteúdos que atraem não só as pessoas, mas também seus algoritmos.

Como resultado, no Brasil e no mundo, sites sensacionalistas ou que promovem explicitamente a desinformação chegam a superar em audiência veículos de comunicação sérios. Isso gera um preocupante círculo vicioso: como as pessoas clicam muito em títulos escandalosamente apelativos, eles são muito promovidos pelo Google e pelo Facebook, o que faz com que mais pessoas ainda cliquem neles. Chega-se a um ponto em que esses sites inundam as plataformas digitais, enquanto o jornalismo sério fica praticamente escondido.

Isso enche os cofres desses sites com conteúdo no mínimo questionável, enquanto esvazia os dos veículos que investem tempo e dinheiro na produção de bom conteúdo. E as mesmas plataformas digitais que despejam hordas de usuários nos sites apelativos são as mesmas que lhes remuneram pela alta audiência, pois seus anúncios acabam sendo veiculados ali.

O assunto ganhou destaque no Brasil nos últimos dias, com as discussões em torno do projeto de lei 2.630, conhecido como “lei das fake news”, que tramita na Câmara dos Deputados. Ele determina que as plataformas digitais remunerem empresas jornalísticas, em uma tentativa de incentivar quem produz conteúdo de qualidade para fazer frente à desinformação.

Entretanto, o texto, na forma atual, falha ao definir, de maneira clara, o que seria conteúdo jornalístico. Por isso, os sites de fofocas, os sensacionalistas e até alguns que escandalosamente copiam conteúdos alheios sem sequer dar crédito ao autor que investiu tempo e dinheiro na apuração poderão, em tese, ser classificados como “jornalísticos” e, dessa forma, serem remunerados pelas plataformas digitais.

Quem faz conteúdo sério –sejam empresas de comunicação, sejam profissionais autônomos– podem aprender algo com Ford: é preciso entregar um produto em que o público veja valor. Em um mundo em que a realidade se tornou um constante espetáculo, quem trabalha com jornalismo tem aí uma tarefa ingrata, pois dispõe “apenas” da verdade para trabalhar, e ela nem sempre é sedutora. Por outro lado, os sensacionalistas e os que vivem de “fake news” podem distorcer os fatos alegremente, para que se tornem mais atraentes para as pessoas.

Mas há esperança. The New York Times, um dos jornais mais tradicionais e importantes do mundo, com 171 anos de estrada, acaba de atingir a impressionante marca de 10 milhões de assinantes, somando impresso e digital, algo inédito. A empresa esperava atingir essa marca apenas em 2025, mas ela chegou antes em parte graças à aquisição de publicações de segmentos específicos e diversos serviços, inclusive jogos online. Talvez muitos assinem The New York Times por causa desses “agregados”, mas a alta qualidade de tudo que a empresa oferece e esse modelo de negócios moderno abrem espaço para um futuro promissor, enquanto a maioria de seus concorrentes se debate para continuar respirando.

Lição para a vida de todo mundo: não adianta querer continuar fazendo algo de um jeito só porque sempre deu certo assim anteriormente. Como muitos dizem na indústria de mídia, “o conteúdo é rei”, mas não mais como eles pensam. No atual momento da economia criativa, ele tem um valor inestimável como um produto em si ou para atrair pessoas para outros negócios da empresa. Mas só trará resultados se estiver alinhado a necessidades reais do público, e não ao desejo de seus editores.

Fazer alguém colocar a mão no bolso para comprar nosso produto nunca foi tão complicado, pois hoje tudo concorre com tudo. E o bolso do consumidor é um só.

 

O Congresso Nacional, onde está sendo tramitado o projeto de lei 2.630, conhecido como “Lei das Fake News”

Ninguém vigia o vigilante na guerra pela “verdade”

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Em um mundo em que a verdade é relativizada e distorcida escandalosamente, sucumbimos diante de mentiras bem contadas que moldam a sociedade pelos interesses de uns poucos. Com isso, até iniciativas bem intencionadas podem ser pervertidas. É o caso do projeto de lei 2.630, conhecido como “Lei das Fake News”, que já foi aprovado pelo Senado e pode ser votado na Câmara dos Deputados a qualquer momento.

Criado com o louvável objetivo de combater a desinformação no meio digital, o texto possui falhas críticas, como não definir, de maneira inequívoca, o que seria uma “notícia falsa” e inocentar previamente alguns dos maiores agentes da desinformação no país. Se aprovado dessa forma, corre o risco de se transformar em um mecanismo de controle e de censura.


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Definir o que é verdadeiro nem sempre é uma tarefa trivial. Em muitas ocasiões, depende da combinação de elementos a que nem todos têm acesso. Consequentemente, definir o que é falso padece do mesmo dilema. Ainda assim, seria de se esperar que um projeto de lei que se presta exatamente a isso se esforçasse mais que o visto no texto em tramitação.

O projeto ainda aborda dois outros conceitos fundamentais na guerra pela “verdade”. O primeiro é o de “conteúdo jornalístico”, também apresentado sem qualquer definição mais precisa, que supostamente indicaria algo produzido com rigor na apuração e promoção. O outro é a “liberdade de expressão”, direito constitucional preferido entre os disseminadores de “fake news”, que se valem dela para tentar justificar todo tipo de mentira ou crime, como se aquilo fosse apenas uma inocente opinião pessoal.

Para um projeto que se propõe a criar a chamada Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, falhar em algo tão básico abre espaço para enormes preocupações. Com nossas vidas altamente interligadas e dependentes das mais diversas ferramentas digitais, uma legislação como essa tem o potencial não apenas de piorar os serviços online, como ainda de criar uma nefasta ferramenta de controle do cidadão, das plataformas digitais e da imprensa.

Quanto mais brechas uma lei deixa, mais as “autoridades” (ou seja, qualquer um investido de algum poder) se sentirão à vontade para interpretar suas regras para fazer valer seus interesses. O cidadão fica indefeso diante de ataques daqueles que o deveriam defender, um caso clássico de “quis custodiet ipsos custodes?” A frase em latim, atribuída a Juvenal, um poeta romano do início da era cristã, é normalmente traduzida como “quem vigia os vigilantes” e se refere à dificuldade de controle das ações de quem está no poder.

Essa é exatamente a situação que pode estar sendo construída aqui. O que nos leva a uma outra grande lacuna do projeto, que vem sendo bem mais discutida nos últimos dias: um verdadeiro salvo-conduto para que parlamentares disseminem “fake news”.

 

Imunidade parlamentar

O PL 2.630 é de autoria do senador Alessandro Vieira (Cidadania/SE). Seu texto-base foi aprovado pelo Senado em junho de 2020. O deputado Orlando Silva (PCdoB/SP) é o relator da nova redação do texto, que pode ser votado em breve na Câmara dos Deputados.

Nessa nova versão, um singelo trecho incluído vem causando grande tumulto. Trata-se do parágrafo 5º do inciso VII do artigo 22, que diz: “A imunidade parlamentar material estende-se às plataformas mantidas pelos provedores de aplicação de redes sociais.”

Em outras palavras, qualquer “fake news”, por mais grotesca que seja, estará protegida, se for distribuída por um senador, deputado federal ou estadual ou vereador. O problema é que esses servidores públicos estão entre os mais conhecidos agentes da desinformação do país, nas esferas federal, estadual e municipal.

Na prática, cria-se um escudo que impediria as redes sociais de eliminar (ou pelo menos limitar) conteúdos notoriamente nocivos, como aqueles que incitam o ódio ou combatem vacinas, temas infelizmente comuns nos perfis de muitos parlamentares.

As plataformas digitais vêm refinando esse mecanismo de gestão de conteúdo com a Justiça há anos. Se ainda não é perfeito, já apresenta alguns resultados bem interessantes.

Orlando Silva afirma que esse parágrafo é inofensivo, pois a imunidade parlamentar está prevista na Constituição, e isso seria suficiente para proteger as ideias dos parlamentares, mesmo as mais bizarras e condenáveis. Mas não é bem assim!

A imunidade protegeria falas e opiniões, mas a Constituição não podia prever, em 1988, um mecanismo digital que amplificasse (inclusive mediante pagamento) manifestações de quem quer que fosse. Ademais, ao tornar explícita essa prerrogativa para qualquer parlamentar distribuir “fake news”, o projeto joga luz sobre o tema, praticamente inviabilizando os controles construídos pelas plataformas com a Justiça. Dessa forma, sempre que for necessário remover um desses conteúdos, a Corte Constitucional do país –ou seja, o Supremo Tribunal Federal– precisará ser acionado, o que é inviável dado o volume de porcaria dessa natureza que já transita nas redes.

A manchete do Estadão desse domingo trouxe uma reportagem sobre como, apesar de alguns avanços bem-vindos no combate à desinformação, o acordo firmado em fevereiro entre o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e as plataformas digitais ainda deixa muitas brechas. Isso quer dizer que políticos e seus apoiadores conseguirão transformar as redes sociais em um verdadeiro inferno desinformacional nesse ano de eleições.

Nós, os eleitores, somos os principais prejudicados com isso. Diante de uma enxurrada de mentiras incrivelmente bem contadas e de um verdadeiro banho de sangue entre candidatos, ficará muito difícil separar a verdade da mentira, para que possamos fazer uma escolha consciente dos melhores para governar o país pelos próximos quatro anos.

As plataformas digitais entenderam que são essenciais em qualquer processo eleitoral no mundo. Abandonaram o discurso de que eram meros veículos das opiniões de seus usuários, e entenderam que seus algoritmos podem convencer qualquer um sobre qualquer coisa. Dessa forma, precisam estreitar ainda mais os laços com a Justiça.

O projeto de lei 2.630 pode ser um grande aliado nessa tarefa fundamental para a manutenção da democracia. Mas isso jamais acontecerá enquanto criar uma categoria de cidadãos capazes de mentir deliberada e livremente. Da mesma forma, precisa definir, sem sombra de dúvidas, o que é conteúdo jornalístico, até mesmo para que jornalismo verdadeiro não seja rotulado como “fake news”, com o único objetivo de ser retirado do ar a mando de “autoridades”. Além disso, a liberdade de expressão precisa ser claramente separada de mentiras, crimes e desinformação. E isso tem que valer para todos!

Para um projeto que visa criar uma lei com a palavra “transparência” em seu nome, esses pontos obscuros precisam ser eliminados!

 

Desigualdade digital escancara uma perversa exclusão no Brasil

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Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre a importância maiúscula da Internet em nossas vidas, a pandemia de Covid-19 acabou com ela. Especialmente no período de mais distanciamento social, trabalhar, estudar, comprar e até se divertir dependiam dela. Mesmo agora, com tudo reaberto, muitas práticas online que desenvolvemos naquele momento permanecem, pois descobrimos enormes ganhos. Mas isso também jogou luz sobre a profunda desigualdade digital na população brasileira.

A pesquisa “O abismo digital no Brasil”, publicada recentemente pela consultoria PwC e pelo Instituto Locomotiva, coloca isso em números. De um lado, temos 29% dos brasileiros “plenamente conectados”; do outro, 20% sem conexão alguma. Isso traz enormes prejuízos às pessoas e ao país, criando “cidadãos de segunda categoria”.


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O acesso à Internet se transformou em um item essencial de infraestrutura, assim como energia elétrica, água, saneamento básico e telefonia. Pessoas com acesso a esses serviços com boa qualidade desenvolvem uma enorme vantagem. Além disso, quanto mais cidadãos assim, mas um país se torna competitivo internacionalmente.

Mas não se trata apenas disso. A guerra na Ucrânia, cuja infraestrutura vem sendo arrasada pela Rússia, mostrou ao mundo como o acesso à Internet pode desenterrar verdades inconvenientes e incomodar poderosos, de maneira que a vida de pessoas pode chegar a depender disso. Tanto que o bilionário Elon Musk, dono da Tesla e da SpaceX, liberou na Ucrânia o acesso à Internet a partir de sua rede de satélites Starlink.

O estudo identifica, entre os 29% “plenamente conectados”, mais moradores das regiões Sul e Sudeste, com celular pós-pago, acesso por notebook, bem escolarizados, integrantes das classes A e B e brancos. Do outro lado, os 20% “desconectados” são compostos principalmente por homens, idosos, não-alfabetizados, das classes C, D e E. Entre eles, estão os 26% “parcialmente conectados”, que são majoritariamente do Sudeste, negros, menos escolarizados e das classes C, D e E, e os 25% “subconectados”, principalmente do Norte e do Nordeste, com celular pré-pago, negros, menos escolarizados e das classes D e E.

Isso desenha um panorama sombrio para o Brasil nos próximos anos. O estudo demonstra que profissões tradicionais, que respondiam por 15,4% da força de trabalho em 2020, encolherão para 9% até 2025. Já as ligadas à tecnologia passarão de 7,8% a 13,5%. E isso é algo que já sentimos em nosso país. O setor de tecnologia demandará 800 mil profissionais de 2021 a 2025, mas o déficit deve ficar em 530 mil vagas não preenchidas. Isso em um cenário de desemprego explosivo!

Outro estudo, feito pela escola de negócios francesa Insead, coloca o Brasil como 75º no ranking de competitividade global de talentos, entre 134 países. Ele se baseia na capacidade de os países desenvolverem pessoas para o mercado e de atrair e reter os melhores profissionais. Na América Latina, estamos na 9ª posição.

O Brasil precisa dar recursos para que os jovens adquiram as habilidades exigidas, e isso passa necessariamente por um bom acesso ao meio digital. Hoje, 81% da população com 10 anos ou mais usam a internet, mas só 20% têm acesso de qualidade.

 

Reflexos na educação e no trabalho

Durante a fase mais aguda do distanciamento pela pandemia, vimos diversos casos de profissionais que foram enviados para trabalhar de casa, mas não conseguiram exercer adequadamente suas tarefas: sua Internet era ruim, sendo que a empresa não lhes ofereceu um plano de dados decente e às vezes nem computador, ficando restritos ao smartphone.

Mais grave ainda foi o observado entre os estudantes. Com acesso precário ou nulo e restritos muitas vezes a um único celular na casa, muitas crianças ficaram sem estudar por quase dois anos. O estudo informa que 21% dos alunos das redes municipais e estaduais estão em escolas sem acesso à banda larga. Isso se reflete em uma pesquisa da organização Todos pela Educação divulgada em fevereiro, que mostrou que o número de crianças entre 6 e 7 anos que não sabia ler ou escrever no Brasil saltou de 25,1% em 2019 para 40,8% em 2021.

Não é de se estranhar, portanto, que o Brasil tenha um dos dez piores desempenhos do mundo em matemática e um fraco resultado em leitura no Pisa, a avaliação feita pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre a educação em 79 países. Com isso, 67% dos nossos estudantes de 15 anos não conseguem diferenciar fatos de opiniões na leitura de textos, algo particularmente problemático em um país em que as pessoas adoram se “informar” por redes sociais.

Segundo a PwC, os principais causadores desse abismo digital são deficiências da infraestrutura de conexão (e aqui entram a qualidade do sinal e custos), limitações de acesso a equipamentos e deficiências do sistema educacional. São problemas profundamente enraizados em nosso país, mas que precisam ser resolvidos, sob risco de termos cada vez mais informalidade do mercado de trabalho, redução da já baixa produtividade do país, atraso no desenvolvimento das pessoas e redução do acesso a serviços públicos.

Para reverter essa situação dramática, a PwC e o Fórum Econômico Mundial sugerem a atuação coordenada de governos, educadores e empresas, com papéis e responsabilidades bem definidos para fortalecer as competências digitais da população.

O governo tem um papel fundamental no processo, com a criação de políticas para impulsionar as iniciativas nacionais de qualificação digital, trabalhando junto com a sociedade civil. As empresas, por sua parte, precisam adotar a capacitação digital da força de trabalho como princípios fundamentais do seu negócio, enquanto as instituições de ensino devem repensar as iniciativas de qualificação profissional, com o conceito de aprendizagem ao longo da vida.

A desigualdade de acesso à Internet vem da desigualdade socioeconômica, e a reforça! Em um mundo hiperconectado, uma nação não pode se dar ao luxo de ter cidadãos desprovidos dos meios necessários para seu desenvolvimento digital, pois dele derivam os demais.

O problema é estrutural e não será resolvido com medidas paliativas, pontuais ou desestruturadas. Trata-se de um gravíssimo problema social, que já impacta pesadamente nossa população. E, se tudo continuar como está, o problema se tornará cada vez maior, empurrando o Brasil para o fosso das nações irrelevantes.

 

Códigos QR da ConstruCode espalhados pelos canteiros de obras permitem às equipes ter acesso a plantas sempre atualizadas

Digitalização moderniza o conservadorismo da construção civil

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A transformação digital vem dando passos importantes em um dos setores mais conservadores na adoção de tecnologia: o da construção civil. Ideias simples e bem executadas podem trazer ganhos expressivos em obras, com a redução de custos e tempo de conclusão. Além disso, a comunicação entre as diversas áreas fica mais fluida, evitando retrabalho.

As construtechs –como são chamadas as startups desse segmento– puxam as novidades. Uma delas é a Agilean, criada em 2013 em Fortaleza. A empresa desenvolveu uma plataforma que automatiza toda a gestão de obras, baseada na metodologia lean. Por esse trabalho, acaba de ser uma das 87 escolhidas para programa de aceleração das empresas Scale-Up, da Endeavor.

Essa metodologia propõe melhorar os resultados de negócios, otimizando processos e evitando desperdícios. No caso da plataforma da Agilean, a digitalização de todos os processos relacionados às obras e coletas nos canteiros facilitadas pelo uso de aplicativos diminuem o tempo de tomadas de decisões, pois as informações ficam disponíveis em tempo real a todos que precisam delas.

André Quinderé, CEO da empresa, explica que a ideia da plataforma veio da observação de relatórios de obras que estavam corretos, mas, quando ficavam disponíveis, já estavam desatualizados. “Tinha a impressão de que o gestor tomava decisão olhando no retrovisor”, afirma. Como resultado, os responsáveis fazem muitas escolhas erradas. Segundo ele, 10% dos custos da construção civil se devem a retrabalho.

O desalinhamento entre as obras e os escritórios de projeto e informações desatualizadas entre os dois lados podem causar inúmeros problemas e desperdícios. Essa é uma dor histórica do setor que outra construtech, a ConstruCode, tenta resolver. “O desempenho produtivo grita por digitalização de canteiros, é lá que temos os maiores lucros ou prejuízos”, afirma Diego Mendes, engenheiro civil e CEO da ConstruCode.

Com uma solução engenhosa, baseada em códigos QR espalhados por todos os locais dos canteiros de obras, ela garante que a equipe tenha sempre uma planta atualizada para guiar os trabalhos. Um leigo pode achar que existe uma única planta, mas são feitas constantes atualizações. Isso exige incontáveis reimpressões, além do risco de a equipe estar construindo com uma planta desatualizada.

Isso é possível porque qualquer pessoa da obra pode usar um celular ou tablet para escanear os códigos espalhados por toda obra para baixar instantaneamente os diferentes tipos de documentos com a garantia de que são atualizados. Com isso, segundo Mendes, a redução de gasto com projetos impressos chega a superar 90%. Pelos seus cálculos, uma única obra pode gerar mais de 120 mil impressos. “Até quando a maior das indústrias, com 13% do PIB global, continuará construindo igual”, questiona.

A solução da ConstruCode também traz um outro ganho que não costuma ser visto nos poucos softwares do setor: a inclusão digital de mestre de obra e suas equipes. “Lembro de ter escutado de muitos gestores de grandes empresas que as equipes de obra dele não eram capazes de usar um aplicativo para ler projetos no celular ou tablet”, conta Mendes.

Essa afirmação lhe parecia estranha em um país com dois celulares por habitante. Como entendeu que o sucesso do projeto dependia de sua utilização por todos, o executivo ouviu as demandas desse grupo, para criar uma interface adequada a sua visão da obra, as condições em que ela acontece e aos equipamentos disponíveis.

 

Pessoas no centro

Quinderé reforça isso, explicando que a transformação digital envolve pessoas, processos e tecnologia. Nenhum deles pode ser preterido. Para ele, a construção civil é um setor muito tradicional, com um produto com uma vida útil longa. Por isso, as empresas têm muito medo de a inovação gerar problemas novos.

Mas não dá mais para continuar assim. “Temos uma nova conjuntura do nosso mercado, uma pressão de custos, de melhorar a produtividade, um momento de alta inflação do nosso setor”, justifica. “As empresas, para manter sua margem, precisam fazer diferente: a inovação deixou de ser acessório e passou a ser essencial.”

A resistência à inovação em setores muito consolidados sempre existiu. Quanto mais tradicional o segmento, menos tolerante a falhas. Mas, para o guru da administração americano Tom Peters, “o fracasso é ingrediente do sucesso”. Segundo ele, à medida que um ambiente se torna mais competitivo, a inovação fica mais necessária. Fazer as coisas de maneira diferente, traz, entretanto, riscos. Dessa forma, aqueles que não querem correr riscos não tentam algo novo, mas a única maneira de se manter competitivo hoje é justamente tentando. É por isso que as empresas precisam de ferramentas e metodologias que lhes permitam inovar com riscos menores.

Nesse sentido, Mendes sugere focar esforços nos problemas que realmente podem ser dominados, “não mais fazendo ajustes pontuais em tarefas repetitivas, mas eliminando-as definitivamente, através de processos e tecnologias que incluem os canteiros de obras em uma rota de produtividade alavancada.” Para Quinderé, as construtoras chegaram em um momento em que não podem repassar mais preços ao mercado. “Para manter a minha margem, eu tenho que ser mais eficiente, e um caminho é digitalizado a gestão”, explica.

Os números das duas empresas indicam que, apesar do conservadorismo, esse mercado começa a inovar. A Agilean, por exemplo, já digitalizou mais de 6 milhões de metros quadrados em obras de todo o país. Já a ConstruCode está presente em mais de 1.400 obras no país.

Para Mendes, a conta é simples. “A transformação digital é uma realidade superacessível, e, dado ao seu alto retorno, caro mesmo é permanecer repetindo processos manuais.”