Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, depõe ao Senado americano em abril de 2018, sobre o escândalo da Cambridge Analytica

O cinismo das redes digitais

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No início de 2002, o jornalista americano John Battelle perguntou a Eric Schmidt como o Google havia se tornado uma empresa da mídia. O então recém-empossado CEO disse que a pergunta não tinha cabimento, pois o Google era uma empresa de tecnologia. Um ano depois, os dois se encontraram de novo, e Schmidt começou a conversa dizendo: “o negócio de mídia não é incrível?”

De lá para cá, as gigantes de tecnologia se tornaram companhias de mídia de uma maneira que as empresas tradicionais do setor jamais sonharam. Não apenas porque arrebataram o mercado de publicidade, centavo a centavo, mas porque desenvolveram um mecanismo de convencimento das massas poderosíssimo e sem precedentes.

Tanto poder carrega consigo grandes responsabilidades. Mas quando são confrontadas nisso, essas empresas se fazem de desentendidas, pois querem apenas a parte boa do domínio sobre seus bilhões de usuários.


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Por exemplo, na quinta, o comitê da Câmara dos EUA que investiga o ataque de 6 de janeiro do ano passado ao Congresso emitiu intimações ao Google, Facebook, Twitter e Reddit, criticando-as por permitir que a desinformação e o ódio se espalhassem em suas páginas e por não cooperarem adequadamente com as investigações. Apesar de outras empresas também estarem sendo investigadas, apenas essas quatro foram notificadas, porque, segundo o comitê, “não estavam dispostas a se comprometer a cooperar voluntária e rapidamente”.

Isso me lembra do depoimento de Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, ao Senado americano em abril de 2018. Na época, ele disse que havia sido vítima da empresa britânica de marketing político Cambridge Analytica, pois ela havia usado os recursos da plataforma para roubar dados de 87 milhões de usuários, que foram usados para convencer, também com recursos da rede social, as pessoas a votarem em Donald Trump, candidato à presidência americana dois anos antes.

Sim, o que a Cambridge Analytica fez é crime. Mas é basicamente o que o Facebook faz com seus mais de 2 bilhões de usuários para convencê-los a comprar de tudo em suas páginas.

Em novembro, o instituto Pew Research Center divulgou um levantamento feito com 862 desenvolvedores, líderes empresariais e políticos, pesquisadores e ativistas, sobre como eles viam o futuro do meio digital e seu papel na democracia. Desse total, apenas 61% disseram que acham que, nos próximos 15 anos, essas plataformas servirão ao bem comum, ao invés de interesses específicos. Além disso, 70% acreditam que a evolução digital traz aspectos positivos e negativos, 10% veem apenas os positivos e 18% veem só coisas ruins nisso.

Os otimistas acreditam que as próprias empresas de tecnologia trabalharão com governos e a sociedade civil para melhorar os algoritmos para o surgimento de debates mais saudáveis e democráticos. De fato, eles indicam que esses códigos são a primeira coisa a se corrigir, pois hoje eles são feitos para maximizar os lucros com o engajamento contínuo dos usuários, mas isso também favorece a polarização e o ódio. Para eles, os governos devem ser responsáveis por regulação e alguma pressão, mas sem exageros, pois isso poderia atrapalhar a inovação.

Já os pessimistas acreditam que nada disso deve acontecer, e que o aumento da inteligência artificial, a “hipervigilância” e a transformação de tudo na vida em dados pode amplificar ainda mais as fragilidades e o lado mal de cada um. Além disso, afirmam que os seres humanos são autocentrados e não “pensam a longo prazo”, concentrando-se em sua necessidade imediatas. Tampouco conseguem acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas. Tudo isso ampliaria ainda mais a manipulação das massas, a polarização e o ódio, colocando a própria democracia em risco.

Os brasileiros devem ter logo uma boa prévia de qual grupo tem mais razão: estamos iniciando um ano eleitoral.

 

Não há santos

Se nada for feito, e candidatos e seus apoiadores puderem atuar livremente como fizeram nas duas últimas eleições, 2022 pode representar uma verdadeira carnificina digital, com as pessoas sendo manipuladas em uma escala sem precedentes pelos diferentes grupos. Isso porque, depois de alguns anos, eles se aprimoraram no uso dos recursos tecnológicos e na criação de narrativas falaciosas.

E não nos enganemos: infelizmente o ódio é uma poderosa ferramenta para atingirem seus objetivos. Isso foi demonstrado na segunda temporada da série “The Boys” (Amazon Prime Video), em que a personagem Tempesta explica que “é muito melhor ter soldados que fãs”.

O ódio não é monopólio de apenas um lado da disputa eleitoral. Não há santos nisso! Diferentes grupos de poder já perceberam sua efetividade na manipulação das massas, pois despertam os sentimentos mais primitivos dos indivíduos. Com isso, as pessoas agem mais por impulso e menos pelo racional.

Muito melhor seria promover o amor, mas a última eleição presidencial foi decidida pelo ódio e, ao que tudo indica, essa também será. Pelos discursos dos pré-candidatos, eles não aprecem dispostos a abrir mão dessa “segurança” para estimular apenas bons sentimentos no eleitorado.

O ideal mesmo seria propor um debate em torno de ideias viáveis e construtivas, estimulando o lado racional de cada um. Mas esse é o cenário diametralmente oposto do desejado para a manipulação das massas, portanto devemos ver isso bem pouco.

Meu receio é que isso contamine toda a disputa eleitoral, nos diferentes cargos eletivos e no país todo. Com isso, o voto, tido como a “festa da democracia”, poderia ser convertido em uma ameaça a uma sociedade equilibrada.

Como não podemos, de forma alguma, abrir mão dele no processo democrático, as causas desse problema devem ser resolvidas. E isso nos traz de volta às plataformas digitais.

Estamos nessa situação insustentável porque essas redes criaram os recursos para esse controle da população. Fizeram isso para seu próprio uso, o que já é questionável, dado o grau de alienação que provocam. Mas, para piorar, não deram a devida atenção quando outros indivíduos começaram a se apropriar disso para atingir seus objetivos espúrios.

Não dá mais para essas plataformas se fazerem de desentendidas no seu papel na sociedade. Elas trabalharam duro para se tornar elementos centrais na vida das pessoas, e conseguiram isso de uma maneira jamais vista por qualquer empresa, governo ou instituição. Rivalizam e possivelmente superam a influência de religiões!

Essas empresas precisam fazer mais, muito, muito mais que já fazem para tornar seus espaços mais saudáveis e democráticos. Se não fizerem isso por vontade própria –e é isso que parece estar acontecendo– devem ser pressionadas por órgãos reguladores ou pela Justiça. Ou então desligar essas ferramentas de controle de massas.

Adivinhem o que vai acontecer? Façam suas apostas!

A “cultura do cancelamento” ataca a democracia no seu coração

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A melhor maneira de se perpetuar ideias ruins é evitar o debate, principalmente dos mais jovens, que tradicionalmente trazem ideias reformadoras. Por isso, uma pesquisa divulgada recentemente pelo instituto Ipec preocupa: ela indica que 59% dos brasileiros entre 16 e 34 anos evitam falar de política nas redes sociais por medo de serem “cancelados”.

Na verdade, esse temor de ser “linchado digitalmente” atinge todas as idades. O meio digital, que floresceu lá pela virada do século como um espaço em que todos poderiam se expressar livremente, se transformou, nos últimos anos, em uma arena de ódio e de exclusão, afastando muita gente que poderia contribuir com ótimas ideias. E isso não surgiu ao acaso: foi construído pelas velhas ratazanas políticas.


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Esse medo tem fundamento. As redes sociais foram alçadas à posição de ferramenta preferido de trocas pessoais e profissionais, especialmente para essa faixa etária. Por isso, ser “cancelado” pode implicar em grandes prejuízos para o indivíduo.

Isso demonstra uma grande ferida da democracia brasileira. A violência das tropas digitais de diferentes ideologias desestimula a participação dos jovens no debate político, justamente no seu local preferido de conversas. Para piorar a situação, essas mesmas redes sociais se tornaram, de uns cinco anos para cá, a principal ferramenta de convencimento de massas.

É por isso que precisamos nos posicionar sem medo!

Ao se eliminar aqueles que poderiam contribuir com ideias de alto nível e uma visão construtiva para a sociedade, o debate no meio digital torna-se raso, restrito a um maniqueísmo do “nós contra eles”, favorecendo àqueles que não têm boas propostas. E os algoritmos das redes sociais fortalecem isso ainda mais.

Isso é uma ampliação do que sempre foi ensinado ao brasileiro: “política, religião e futebol não se põem à mesa”. Essa é uma maneira de criar cidadãos mais “dóceis”, que não se envolvem com temas delicados, aqueles que convidam a pensar e a melhorar a sociedade. Com isso, tornam-se mais suscetíveis a comandos de líderes em quem acreditam, mesmo para coisas que jamais fariam se usassem seu senso crítico.

Basta ver a grotesca invasão do Congresso americano por apoiadores do ex-presidente Donald Trump, que tentavam impedir a ratificação da vitória de Joe Biden. O ataque, que completou um ano nesta quinta, deixou cinco mortos e foi realizado por pessoas que, em outras condições, jamais fariam algo do tipo.

O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679) disse, em sua obra mais famosa, “Leviatã” (1651), que “o homem é o lobo do homem”. Ele acreditava que o ser humano precisa viver em uma sociedade regida por “contratos sociais”. Sem eles, esse “lobo” nos levaria à barbárie.

Hoje vejo essas regras sendo rasgadas, especialmente nas redes sociais, por aqueles que têm poder e por seus apoiadores. O mais grave disso é que o outro e suas necessidades deixam de ser importantes a partir do momento em que um indivíduo tem a força de impor suas vontades, como temos observado.

 

Como falar de política

A pesquisa do Ipec mostra também que os jovens não são alienados e que gostam de participar do debate político. Mas, como preferem não fazer isso online, levam o tema para outros locais, como a escola, a igreja e até festas. Ao fazer isso “olho no olho”, diminuem a chance de agressões gratuitas e de um “cancelamento” em grande escala.

Por isso, nem tudo está perdido! Mas é uma pena que não façam isso nas redes sociais, onde sua voz ganharia muito mais ressonância.

Faltam aos jovens também exemplos de pessoas que falem e exerçam bem a política. Ao contrário do passado, em que lideranças debatiam ideias, hoje o cenário é de um campo de batalha permanente, em que o opositor é visto como um inimigo a ser eliminado. Sem uma boa referência, as pessoas não sabem como se posicionar.

A sociedade precisa reaprender que a política não é um bicho-papão e nem precisa ser carregada de ódio. O ser humano é um animal político, e só dominamos esse planeta graças a isso, pois nos organizamos para atingirmos o bem comum. A isso, damos o nome de “sociedade”.

Não podemos perder a nossa capacidade essencial de dialogar, e isso inclui com as pessoas que não pensam como nós. Aliás, de certa forma, quando nos confrontamos com as diferenças, é quando mais crescemos, pois nos permitimos ver o mundo por outra perspectiva.

Portanto, política é para construir com as diferenças e não para destruir os diferentes! Se os jovens desejam participar desse debate, eles são mais que bem-vindos: devem ser incentivados e protegidos!

Isso exige que as empresas que são donas dessas plataformas digitais trabalhem muito mais duro para combater o ódio em suas páginas. De três anos para cá, elas têm feito algo nesse sentido, mas, como a pesquisa do Ipec demonstra, isso tem sido muito insuficiente.

Do lado dos usuários, as pessoas precisam vencer o apelo fácil do ódio que domina o debate público. Por incrível que se pareça, odiar quem pensa de maneira diferente é uma forma pervertida de se pertencer ao grupo com valores semelhantes aos seus. Mas isso obviamente não é saudável!

Pelo contrário, temos que nos posicionar, sim, nas redes sociais, mas de maneira cordial e construtiva. Não devemos deixar de publicar algo por medo de errar ou de dizer algo que o rebanho critique. E temos que entender que nunca será possível agradar todo mundo: isso, aliás, está na essência da democracia.

Por isso tudo, política, futebol e religião se põem, sim, à mesa! E também nas redes sociais.

Entramos no ano mais digital de nossas vidas

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Este promete ser o ano mais digital de nossas vidas. Por isso, entender o que aconteceu nesse setor em 2021 pode nos ajudar a aproveitar melhor o que a tecnologia tem de bom a nos oferecer e a fugir de enormes arapucas que já armaram para todos nós. E a maioria das pessoas não tem esse conhecimento.

Por exemplo, no final de novembro, o dicionário Collins escolheu NFT como a “palavra do ano”. Como toda seleção assim, ela é controversa, mas essa representa bem os efeitos da digitalização galopante de nossas vidas, dando o tom do ano que começa. Essa sigla indica um conceito que poucos conhecem e que, mesmo entre os que já ouviram falar dele, muitos não entendem. E há ainda uma multidão completamente de fora, por não ser tão digital assim.

A pandemia acelerou incrivelmente esse processo, abrindo oportunidades para empresas e indivíduos, mas aumentando o risco de se criar “cidadãos de segunda categoria” entre os “menos digitalizados”. Governos, instituições e companhias precisam ajudar para que isso não ocorra, e cada um de nós deve abraçar o digital com consciência, evitando, de um lado, o deslumbramento e, do outro, o medo.


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Para quem nunca ouviu falar, NFT é a sigla em inglês para “tokens não-fungíveis”, uma comercialização de arte digital que combina tecnologia e mudança cultural. Com ela, ao comprar uma obra, a pessoa passa a ser sua legítima dona, mas isso não lhe garante nenhum controle ou remuneração por qualquer reprodução do material. Além disso, os direitos autorais continuam sendo do autor da obra.

É como o Museu do Louvre ser dono da Mona Lisa, mas ele não tem como impedir que as pessoas fotografem o quadro, e usem isso como quiserem. Mas, se algum dia quiser vender o original, o Louvre receberá uma fortuna.

O que dificulta o entendimento do NFT é que o original pode ser algo simplório como um meme famoso, facilmente reprodutível com um clique do mouse. Ainda assim, em maio, o meme “Disaster Girl” foi vendido por incríveis R$ 2,5 milhões.

NFT venceu, entre os pesquisadores do Collins, a palavra metaverso, outro conceito digital que certamente impactará muito mais nossas vidas em breve. Se bem usado, esse mundo virtual abrirá uma infinidade de oportunidades de trabalho, aprendizagem e diversão. Trata-se de um ambiente digital em que as pessoas entrarão com seus avatares para interagir mesmo com quem estiver do outro lado do mundo e com ferramentas que só existem ali.

Apesar de não ser algo novo, o metaverso ganhou holofotes em 2021 pela disposição do Facebook de investir pesadamente nessa tecnologia. Mas o que a torna tão incrível também inspira muitos cuidados. Por ser um ambiente completamente imersivo, há um enorme risco de manipulação dos usuários, muito maior que o já visto nas redes sociais. Além disso, por exigir equipamentos poderosos para ser usado, ele pode ampliar o abismo digital entre os mais ricos e os mais pobres.

Mas a virtualização de nossas vidas já acontece com força de outras formas. Desde que a Internet comercial foi lançada, em 1994, realizamos cada vez mais atividades de nosso cotidiano pelo meio online. A popularização dos smartphones, há uma década, acelerou muito esse processo.

Mas foi a pandemia que definiu um novo patamar aí.

 

Tudo de casa

Possivelmente a mudança mais profunda e permanente que o vírus nos apresentou foi o home office. Antes do lockdown (aliás, a palavra de 2020 para o mesmo dicionário Collins), trabalhar de casa era algo inimaginável ou pelo menos visto com enorme desconfiança por gestores de empresas de todo tipo. Mas hoje isso se tornou tão aceito, que muitas empresas adotaram, mesmo com a retomada das atividades nos escritórios, o trabalho híbrido, em que os profissionais desempenham suas tarefas de casa em alguns dias da semana. Há casos em que o trabalho remoto se tornou definitivo. Dessa forma, os escritórios ficaram menores ou simplesmente desapareceram.

Primo dessa mudança é o crescimento explosivo do ensino a distância. O tempo em casa permitiu que as pessoas experimentassem e gostassem desse jeito de aprender, vencendo muitos preconceitos contra o EAD. Agora, muita gente faz cursos que antes eram inacessíveis pela distância ou por horários inflexíveis.

Mas tanto o home office quanto o EAD reforçam as diferenças entre a população digitalizada e a “nem tanto assim”. Afinal, para participar dessas atividades é preciso ter uma boa conexão com a Internet e um computador, pois a experiência pelo celular acaba sendo de pior qualidade. E nem todos têm isso.

O e-commerce também se enquadra nessa mudança de comportamento. Apesar de crescer consistentemente na casa dos dois dígitos percentuais desde que surgiu, as vendas online praticamente dobraram seu faturamento nos primeiros 12 meses da pandemia. Com a reabertura das lojas físicas, esse crescimento perdeu um pouco de fôlego, mas o e-commerce permaneceu em um patamar muito superior ao que tinha antes da Covid-19. Graças a isso, muitas entregas, que antes levariam dias para serem feitas, passaram a acontecer em algumas horas.

O e-commerce pelo menos é um pouco mais democrático: funciona bem em praticamente qualquer smartphone.

 

Virtualização de valores

O Pix, sistema de transferências e pagamentos instantâneos do Banco Central, também poderia concorrer à palavra do ano, se não fosse restrito ao Brasil. Ele já é usado por 71% dos brasileiros, com aprovação de 85% deles, segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos). Já há mais Pix que TED, DOC e cheque juntos! Entre os jovens de 18 a 24 anos, a aprovação chega a 99%, semelhante aos 96% da faixa seguinte (de 25 a 44 anos). A maior resistência fica entre as pessoas de baixa renda e os de menor escolaridade, mas ainda com adesão superior a 50%.

Muita gente tem medo do Pix devido aos incontáveis golpes que usam essa tecnologia. Essa, aliás, é outra coisa que explodiu nesses dois anos e que infelizmente deve se ampliar em 2022. Vale lembrar que o ano passado começou com o maior vazamento de dados da história do Brasil e terminou com um suspeito “ataque hacker” aos sistemas do Ministério da Saúde que gerenciam os dados relativos à Covid-19 e à vacinação, que demoraram semanas para serem restabelecidos.

As pessoas precisam de orientação para escapar desses problemas, que acabam atingindo mais os de renda inferior ou os menos informados. O que nos leva a um último flagelo digital que vem crescendo com força nos últimos anos e deve chegar às raias da loucura em 2022: a desinformação. O que me faz lembrar que, em 2016, outro importante dicionário, o de Oxford, elegeu pós-verdade como a palavra daquele ano.

Ela explica que importam menos os fatos e mais as versões construídas a partir deles (ou da ausência deles). Assim, quem elaborar as versões mais “palatáveis” para o público convencerá as pessoas com suas ideias, por mais bizarras que sejam.

Isso fica particularmente mais grave em anos de eleições, como esse que estamos começando. Políticos sempre mentiram, mas a combinação da pós-verdade com as redes sociais criou as fake news, que se tornaram a ferramenta suprema de manipulação da sociedade. E políticos que mais dominam esse recurso vêm se elegendo.

Por isso, se puder desejar algo a todos nesse ano que se inicia, minha escolha é conhecimento e informação, para que possamos usar o mundo digital que tivermos a nossa disposição –seja muito, seja pouco– da melhor maneira possível. Ele deve ser usado para melhorarmos (e muito) nossa vida, e não para sermos controlados por quem quer que seja.

 

Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) e Randall Mindy (Leonardo DiCaprio), astrônomos que descobrem o cometa no filme “Não Olha Para Cima”

Estamos chegando ao fim do ano ou ao fim do mundo?

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Estamos na semana entre o Natal e o Ano Novo, um período do ano em que tradicionalmente pouca coisa acontece. Mas isso não importa em uma era de narrativas que valem mais que acontecimentos, e de enorme manipulação das massas. Por isso, o filme “Não Olhe Para Cima”, que chegou à Netflix nessa sexta, é incrivelmente oportuno.

O atual momento histórico será lembrado pela crise sanitária da Covid-19, que, em algum momento, finalmente será debelada de vez. Mas também ficará como aquele em que uma parcela da humanidade por opção desconectou-se do real para abraçar fantasias confortáveis, mesmo as bizarras. E isso não pode ser encarado como algo inocente ou sem consequências.

Fica a questão: quando venceremos essa outra pandemia mais resistente, a da desinformação, que potencialmente pode destruir o mundo?


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Na sátira produzida pela Netflix, dois astrônomos, vividos por Leonardo DiCaprio e por Jennifer Lawrence, descobrem que um cometa de dez quilômetros de diâmetro colidirá com a Terra em seis meses. Se nada for feito para desviar sua rota, significará o fim da vida no planeta. Os dois partem então em uma jornada quixotesca para explicar o perigo às autoridades e à população.

Apesar do apocalipse próximo e cientificamente irrefutável, eles precisam enfrentar políticos negacionistas, liderados pela presidente dos EUA (interpretada por Meryl Streep), uma parcela da mídia que espetaculariza os fatos e gigantes empresariais que querem lucrar com tudo, até mesmo com a rocha que pode matar todos nós.

A situação se torna dramática –e incrivelmente semelhante à nossa realidade– quando uma parcela considerável da população acredita e apoia esses políticos, os sensacionalistas e os magnatas da tecnologia. Esse grupo não quer se preocupar com o cometa e questiona se ele deveria ser desviado ou até mesmo se existe de fato.

Olhando de fora, esse comportamento parece irracional, mas é exatamente o que vivemos hoje. Em uma sociedade de consumo desenfreado e intolerante a frustrações, muita gente priorizará seus interesses, mesmo que isso prejudique a coletividade.

Se tiverem apoio e validação da massa, podem até mesmo praticar atos que jamais fariam sozinhos. Isso explica integrantes de torcidas organizadas que –quando estão nesses grupos– agridem e até matam aqueles que torcem por outro time, simplesmente por esse motivo.

Acontece que vivemos em uma sociedade hiperconectada, e as redes sociais em nossos smartphones nos garantem toda a validação de que necessitemos para qualquer barbaridade. Precisamos apenas de lideranças que nos indiquem o “caminho mais confortável”.

Mesmo que seja o caminho do abatedouro.

 

Já aconteceu antes

Chega a ser contraditório tanta gente acreditando nessas narrativas absurdas justamente quando a humanidade tem um acesso sem precedentes a informações. A diferença recai sobre a qualidade delas: quando são majoritariamente boas, uma sociedade se desenvolve. Caso contrário, os poderosos manipulam as massas a seu bel-prazer.

Talvez o melhor exemplo de uma sociedade controlada pela barbárie seja o nazismo de Hitler, que levou à Segunda Guerra e ao Holocausto. A despeito de os alemães da época serem bem educados, a crise do país abriu espaço para o surgimento daquele “salvador da pátria”, que propunha tornar a Alemanha grande de novo, eliminando os “inimigos da nação”, especialmente os judeus. Para isso, uma de suas primeiras ações foi destruir a imprensa livre, para que construísse uma narrativa sem oposição a suas ideias.

E assim os alemães embarcaram naquela loucura!

Isso aparece de maneira chocante em outra obra lançada na semana passada, a série “Passaporte Para Liberdade”, coprodução da Globo e da Sony Pictures, estrelada por Sophie Charlotte, Rodrigo Lombardi e Peter Ketnath. E, ao contrário do filme da Netflix, a loucura nazista realmente aconteceu.

Dessa forma, fico preocupado quando vejo que os ingredientes sociais vistos nessas obras crescem em nossa sociedade.

Muita gente nega a pandemia, talvez por ela ter matado “apenas” 5,5 milhões de pessoas, o que não dá nem 0,1% da população global. Mas esses provavelmente negariam também um cometa que poderia matar os 7,8 bilhões de seres humanos. Não se trata de escala, e sim em acreditar na narrativa mais conveniente. E é isso que torna “Não Olhe Para Cima” tão perturbador.

 

Ciência e informação salvam vidas

Entre 1918 e 1920, a Gripe Espanhola matou algo como 50 milhões, 2,8% de uma população global de 1,8 bilhão na época. A situação da pandemia de Covid-19 só não foi tão dramática porque agora temos uma ciência muito melhor, mas também acesso a informações de qualidade, que se contrapõem ao negacionismo. E ela só não é melhor porque grupos de poder não se envergonham em atrapalhar ambos para atingir seus interesses mesquinhos, mesmo às custas de milhões de vidas.

Muitas mazelas no mundo – como a fome, a ignorância e as doenças– são mantidas para que esses grupos atinjam ou se mantenham no poder. Elas sempre existiram, mas as camadas mais abastadas compram sua fuga desses males. Em uma raríssima exceção, a Covid-19 aproximou os mais ricos dos mais pobres, pois o vírus contamina indiscriminadamente.

Por isso, a desinformação precisa ser combatida, pois ela mata milhões!

No ano que vem, teremos uma prova de fogo no Brasil, com eleições que prometem ser as mais sujas da história, dominadas pela desinformação e pelo meio digital usado de maneira irresponsável. Os candidatos já captam o que cada grupo social quer que seja sua “verdade”, mesmo que não passe de uma perigosa bobagem. Preparam suas narrativas falaciosas para manipular as massas, afagando seus egos. Todos nós temos a obrigação de perceber e evitar isso, por mais eficiente que seja esse convencimento e por mais que as redes sociais nos manipulem.

De toda forma, é um grande alívio que não exista nenhum cometa em nossa direção. Como temos essa sorte, estamos chegando apenas ao fim do ano, e não ao fim do mundo.

 

Passageiros e motoristas colocam em xeque modelo de aplicativos de transporte

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Quando a Uber chegou ao Brasil em 2014, trouxe um novo modelo de transporte, que combinava preços baixos e alta qualidade para os passageiros, e ganhos expressivos a motoristas, que poderiam trabalhar sem burocracia. Mas isso ficou no passado: hoje passageiros e motoristas questionam o formato, que vive seu pior momento.

De um lado, clientes reclamam de uma queda enorme na qualidade, com preços altos, demora para conseguir um carro e seguidos cancelamentos, gerando muita frustração. Do outro, motoristas se debatem para conseguir algum ganho diante de aumentos explosivos nos combustíveis, no aluguel de carros e da taxa cobrada por essas empresas.


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Com a popularização do formato, muita gente chegou a vender o próprio carro, pois era mais econômico se locomover dessa forma que comprar e manter um veículo. Além disso, o modelo atraiu dezenas de milhares de motoristas em várias cidades do Brasil, como uma alternativa para complementar a renda ou até se tornar sua ocupação principal.

Mas algo parece ter dado errado. Na semana passada, realizei uma pesquisa com 9.315 pessoas questionando como estava sendo a sua experiência com aplicativos de transporte. O resultado foi acachapante: 88% disseram que a experiência piorou nesse ano, enquanto 9% não sentiram diferença. Apenas 3% observaram uma melhora. Tão ilustrativos quando esses votos, foram os quase 300 depoimentos, tanto de pessoas preocupadas com a deterioração da experiência do passageiro, quanto daquelas solidárias à situação ruim dos motoristas.

Os passageiros reclamam de incontáveis cancelamentos por parte dos motoristas, especialmente no caso de corridas curtas ou quando a origem for em locais como supermercados. Há relatos de motoristas que cancelam a corrida diante do passageiro, antes de ele entrar no carro, dependendo do destino.

Em outubro, a advogada Nathália Andrade “viralizou” nas redes quando teve que dirigir até o próprio casamento, com vestido branco e véu! Depois de ter mais de 20 corridas canceladas no Uber, ela fez o percurso de 25 km, em Brasília, chegando com uma hora e 20 minutos de atraso para a cerimônia civil.

Ou seja, um serviço que já foi considerado de excelência tornou-se fonte de frustração!

Os motoristas argumentam, com razão, que, se aceitassem todas as corridas hoje, praticamente pagariam para trabalhar. Seus ganhos têm ficado cada vez mais magros, e algumas corridas mal pagam o combustível. Por isso, estima-se que, só na cidade de São Paulo, 30 mil dos 120 mil motoristas registrados tenham desistido da atividade.

Dessa forma, aceitam apenas as corridas que consideram mais lucrativas. Por exemplo, se a distância para pegar o passageiro for superior a dois quilômetros, muitos o rejeitam, pois esse trajeto não será remunerado pela plataforma.

É difícil exigir excelência de um trabalho precarizado. E aí chegamos ao ponto de inviabilidade do próprio conceito.

 

A história da Uber

Na noite de 31 de dezembro de 2008, Travis Kalanick e Garrett Camp não conseguiam um táxi em uma Paris debaixo da neve. Para voltar ao seu hotel, aceitaram pagar US$ 800 a um táxi executivo que se dispôs a fazer o serviço quando ninguém mais queria. Dessa experiência, os dois colegas decidiram criar uma empresa que juntasse motoristas e passageiros, com vantagens para ambos.

O serviço entrou em teste em março de 2009 em San Francisco (EUA) e foi lançado oficialmente em julho de 2010. A Uber nasceu como uma maneira de oferecer transporte executivo de maneira relativamente econômica, apenas com carros de luxo e motoristas bem preparados.

Com o tempo, foi se expandindo e versões cada vez mais populares foram sendo incorporadas ao serviço. Com isso, o preço caiu muito, democratizando o transporte público individual, mas arrastando a qualidade para baixo. De qualquer forma, a população em geral encontrou uma maneira de se ver livre do transporte público coletivo –visto como barato, porém demorado e desconfortável– e dos táxis –considerados caros e com a reputação manchada por alguns maus motoristas.

Mas com esse barateamento, o modelo executivo originalmente bem desenhado começou a ficar muito dependente de preços baixos. Criou-se um equilíbrio instável, sem espaço para elementos desorganizadores. Por isso, a pandemia desestruturou o serviço quando os passageiros desapareceram. Com a retomada da economia, a demanda voltou a crescer, mas já não havia tantos motoristas disponíveis.

Some-se a isso a bagunça que se tornou a economia brasileira, com inflação e desemprego muito altos, juros galopantes e –o que é particularmente crítico aqui– preços dos combustíveis aumentando explosivamente. Assim, o equilíbrio do negócio foi comprometido. E isso não se aplica apenas à Uber, mas ao próprio modelo. Não é de se estranhar, portanto, que a concorrente espanhola Cabify, apesar de continuar operando em outros países, tenha encerrado a operação brasileira em junho.

Suprema ironia, a população vem trocando a Uber pelos táxis, pois a qualidade do seu serviço agora é vista como superior. Pelo menos, não cancelam as corridas.

 

O que poderia ser feito

Quando a Uber chegou ao Brasil, ficava com uma parcela fixa de 7% do valor da corrida. Com o tempo, isso foi aumentando, chegando a 25%. Mas, desde 2018, a porcentagem fixa não é mais aplicada, com um desconto variável em cada caso. Segundo os motoristas, isso pode passar de 40% do valor da corrida!

Tentei falar com um representante da empresa para esclarecer melhor esses pontos, mas o que consegui foi apenas uma nota oficial. Ela reconhece o problema dos cancelamentos, mas não oferece nenhuma solução. Sobre a dificuldade dos motoristas, explica que a empresa lhes oferece parcerias para descontos em planos de saúde, academias, escolas e outros estabelecimentos.

Mas claramente evita tocar no ponto crítico do ganho dos motoristas. A única parceria que ajuda nisso é um sistema de cashback de 4% para abastecimentos em uma rede específica de postos. Muito pouco para esse cenário desesperador!

A “solução” recai, portanto, sobre a tarifa dinâmica, em que o passageiro paga mais quando há poucos motoristas dispostos a aceitar sua corrida. Mas isso é quase uma perversão do sistema, pois essa tarifa deveria acontecer apenas em uma situação de grande procura, e não como fórmula regular para motoristas terem ganhos dignos.

Claro que, como toda empresa, a Uber e seus concorrentes precisam manter a operação e ter lucros. Mas, em um cenário de crise como a que o Brasil enfrenta hoje, todos precisam colocar de sua parte, até mesmo reduzindo sua parcela nos ganhos ou pagando mais pelo serviço, se for necessário.

Não se trata de uma visão “romântica” ou simplista da economia. A proposta dos aplicativos de transporte está sendo alvejada pelos seus dois clientes: os passageiros e os motoristas.

Se nenhum movimento que vise realmente resolver o problema for feito, o modelo, que foi tão brilhantemente construído e revolucionou a mobilidade urbana mundial, pode se tornar inviável muito em breve, pelo menos aqui no Brasil. E aí, todo mundo –exceto os táxis– perderá: a própria empresa, os motoristas e os passageiros.

Para evitar o Burnout, fale com o chefe-robô

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A partir de 1 de janeiro, a Síndrome de Burnout passará a ser classificada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como um “fenômeno ligado ao trabalho” e não mais um problema de saúde mental ou um quadro psiquiátrico. Isso pode ter um grande impacto na relação entre profissionais e empresas e em processos trabalhistas, pois os empregadores poderão ser responsabilizados pelo problema, tendo até mesmo que indenizar os trabalhadores que desenvolverem esse quadro.

O papel do gestor torna-se ainda mais importante nesse novo cenário, pois ele é responsável, direta ou indiretamente, por ação ou por omissão, por um eventual esgotamento da equipe. Por isso, uma pesquisa realizada pela Oracle e pela Workplace Intelligence se torna ainda mais emblemática. Segundo esse levantamento, 68% dos profissionais preferem falar com um robô sobre estresse e ansiedade no lugar de seus gestores.


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A Síndrome de Burnout sempre existiu, em maior ou menor escala. Ela consiste em um esgotamento profundo do profissional por uma carga excessiva de trabalho. Mas ganhou destaque há alguns anos, pelo aumento da sua ocorrência em todo o mundo, inclusive no Brasil. Segundo a OMS, os seus sintomas incluem sensação de esgotamento, cinismo ou sentimentos negativos relacionados a seu trabalho e eficácia profissional reduzida.

Sua classificação como “fenômeno ligado ao trabalho” pelo órgão vem de 2019, mas passa a valer na virada do ano com a entrada em vigor da 11ª edição da CID, a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. A CID é um documento que define globalmente os problemas de saúde, e essa edição resulta de mais de uma década de pesquisas.

Na CID-11, a Síndrome de Burnout é descrita como “estresse crônico de trabalho que não foi administrado com sucesso”. Na edição anterior, ela era considerada como um problema na saúde mental e um quadro psiquiátrico.

Essa descrição já deixa clara a importância da figura do gestor. Afinal de contas, salvo no caso de profissionais autônomos, é ele quem determina o que, quanto e em que ritmo cada profissional de sua equipe deve trabalhar. Ele pode falhar nessa administração do trabalho tanto por exigir demasiadamente do time, quanto por não observar e gerenciar abusos ou desvios de conduta de alguns de seus membros. Logo, o desenvolvimento de quadros de Burnout na equipe recai sobre o gestor e, por extensão, sobre a empresa, até mesmo na esfera legal.

Certa vez, vi uma definição que serve muito bem aqui. Ela dizia que, enquanto ainda não somos gestores, produzimos valor a partir de nossa força de trabalho, mas, quando nos tornamos, produzimos valor a partir da força de trabalho dos outros.

Por isso, entre as atribuições do gestor, está criar possibilidades, oferecer recursos e remover barreiras para que os membros da equipe realizem um bom trabalho, extraindo o melhor que cada um tem a oferecer. Um bom gestor tem uma equipe produtiva e feliz!

Poderíamos dizer até que a eficiência da gestão pode ser medida pela quantidade de quadros de esgotamento em um time. Se há muitos casos, é hora de trocar de gestor.

 

Liderança com inteligência artificial

Diante disso tudo, fica fácil entender o sucesso de empresas que oferecem uma gestão mais humanizada, com o foco nas pessoas da organização. Profissionais mais felizes, com boas condições de trabalho, que são ouvidos e participam de decisões, tendem a produzir mais e melhor, sem adoecer por isso.

O gestor precisa, portanto, desenvolver um perfil igualmente humanizado, para oferecer um ambiente positivo, de confiança e de trocas construtivas na equipe. Deve ser capaz de identificar o que vai bem e o que vai mal entre seus membros e tomar ações necessárias a partir disso. E, finalmente, precisa ser capaz de ouvir com empatia o que as pessoas têm a dizer.

Por isso, a pesquisa da gigante de software Oracle e da consultoria de RH Workplace Intelligence se torna ainda mais emblemática. A edição de 2020, realizada com mais de 12 mil profissionais de 11 países (inclusive do Brasil), identificou que 68% da força de trabalho prefere falar com um sistema com inteligência artificial sobre estresse e ansiedade a fazer isso com seu gestor. No Brasil, esse número é de 64%.

Tanto é assim que a grande maioria dos entrevistados (86% no Brasil e 80% no mundo) está aberta a ter um robô como terapeuta ou conselheiro. Para 87% dos brasileiros, a inteligência artificial os ajudou com sua saúde mental no trabalho. Os principais benefícios indicados foram informações para fazer seu trabalho com mais eficiência (42%), automatizar tarefas e reduzir a carga para evitar o Burnout (41%) e reduzir o estresse ajudando a priorizar tarefas (34%).

A edição de 2021 desse mesmo estudo, que entrevistou mais de 14 mil pessoas em 13 países, indica que essa preferência por “chefes-robôs” continua. Para 82% dos profissionais, os robôs podem apoiar o desenvolvimento de suas carreiras melhor do que os humanos. Eles acreditam que os sistemas são melhores em dar recomendações imparciais (37%), fornecer recursos adaptados às habilidades ou objetivos (33%), responder rapidamente a perguntas sobre sua carreira (33%) e encontrar novos empregos que se encaixem em suas habilidades (32%).

Mas nem tudo está perdido para os gestores humanos. A edição mais recente da pesquisa aponta que as pessoas ainda são melhores em oferecer conselhos com base na experiência pessoal (46%), identificar pontos fortes e fracos (44%), olhar além de um currículo para recomendar funções que se encaixem em sua personalidade (41%) e fornecer recomendações para novos empregos ou funções (38%).

Não é de hoje que se discute a diferença entre um “chefe” e um “líder”. O primeiro é aquele que manda, que exige, que critica, que pune, colocando-se acima da equipe. Já o segundo acompanha, orienta, ensina e incentiva, posicionando-se como parte do time. O “chefe” responsabiliza a equipe pelos fracassos, enquanto o “líder” vibra com todos pelos sucessos.

A diferença não é sutil e aparece muito claramente nessas pesquisas. As pessoas querem condições para realizar um bom trabalho, e fazem isso se são atendidas. Além disso, em um mundo que ainda sente os efeitos da pandemia, com estresse e desorientação de carreiras, buscando novos formatos de trabalho, o equilíbrio da vida pessoal e profissional fica ainda mais importante.

É uma pena que ainda tenhamos muito mais “chefes” que “líderes”, pois todos perdem com isso. Empresas que já sentiram os ventos da mudança investem em gestões mais humanizadas. Por outro lado, chefes que continuam a tratar os membros de sua equipe como máquinas acabarão sendo substituídos por robôs.

Será que teremos que chegar a isso para finalmente entender a importância do ser humano?

 

O Decentraland, metaverso em que um “terreno virtual” foi vendido no dia 23 por R$ 13,4 milhões

Por que alguém pagaria R$ 13,4 milhões por um “terreno” que só existe na Internet

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Depois da pandemia, algumas das principais cidades do mundo vivem um “boom imobiliário”. Mas a transação no setor que mais chamou atenção recentemente aconteceu no dia 23, quando um “terreno virtual” foi vendido pelo equivalente a US$ 2,4 milhões (cerca de R$ 13,4 milhões na cotação do dia).

Apesar de ser apenas digital, ele mede 566 m2, o que dá cerca de R$ 24 mil por metro quadrado. Para comparação, esse valor médio de um terreno real em São Paulo gira em torno de R$ 10 mil, custando R$ 16 mil em Buenos Aires, R$ 83 mil em Paris, R$ 90 mil em Nova York e R$ 91 mil em Londres.

Para muita gente, não faz o menor sentido investir tanto dinheiro em algo que sequer se pode tocar. Mas em um mundo cada vez mais digitalizado, um espaço em um metaverso pode ser tão real quanto um pedaço de chão na sua cidade.


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Qualquer coisa tem o valor que as pessoas atribuem a ele. Claro que uma casa, um carro ou uma máquina têm um valor intrínseco, derivado do que foi usado para a sua construção, seja matéria-prima, mão de obra e até pesquisa. Mas o que realmente importa é a percepção de valor associado aos benefícios de se ter aquilo. Por exemplo, uma casa em um bairro com segurança e muitos serviços vale mais que uma construção idêntica em uma região violenta e com uma infraestrutura ruim.

Dessa forma, o alto investimento em um “terreno virtual” pode se justificar, dependendo do que será feito com ele e quais os ganhos ele trará a seus donos. Ainda assim, essa é uma lógica que desafia o senso comum.

O “terreno virtual’ mais famoso do mundo fica no metaverso Decentraland, um espaço online onde os usuários entram com seus avatares (suas representações digitais) para interagir com outras pessoas e até mesmo fazer negócios com elas, contratando serviços e comprando produtos que só existem no mundo digital. O pagamento é feito em criptomoedas.

Esses ambientes existem há muitos anos, mas ganharam novamente os holofotes em outubro, quando o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, rebatizou a empresa de Meta e disse que ela estava migrando do negócio de rede sociais para o de metaverso. Entretanto, ainda se viu muito pouco de efetivo vindo dessa mudança.

Antes dela, o metaverso mais famoso era o Second Life, um mundo virtual lançado em 2003. Ele foi revolucionário ao permitir que qualquer usuário entrasse e interagisse naquele mundo digital com outras pessoas e realizasse transações ali, que poderiam ser revertidas em dinheiro de verdade. A diferença fundamental é que o Second Life se parece mais com um game, enquanto a proposta de Zuckerberg visa permitir que o usuário “entre” no ambiente e interaja com elementos ali, graças às realidades virtual e aumentada agora disponíveis.

O dono do terreno milionário no Decentraland é a empresa Tokens.com, especializada em ativos digitais, criptomoedas, NFTs e metaverso. A empresa declarou que pretende usar o espaço para fazer desfiles de moda de roupas virtuais, que serão vendidas a usuários da plataforma para usarem em seus avatares.

Em junho, outra área no Decentraland foi vendida por cerca de US$ 913 mil. Os donos construíram ali um shopping center virtual para vender roupas digitais, mas o espaço costuma estar às moscas.

A Tokens.com teria que vender muita roupinha para os bonecos digitais para pagar os US$ 2,4 milhões investidos ali. Mas esse não é o seu verdadeiro ganho. O maior benefício para a empresa é valorizar suas atividades e os serviços com os quais atua. Dessa forma, os desfiles de moda virtuais soam quase como uma desculpa para encobrir suas verdadeiras motivações.

 

Difícil de entender

A empresa precisa de ações como essa para gerar debate e ajudar potenciais clientes a entender do que se tratam seus serviços.

É o caso dos NFTs (sigla em inglês para tokens não-fungíveis), uma modalidade de comercialização de arte digital viabilizada por uma combinação de tecnologia e mudança cultural. Com ela, ao comprar uma obra de arte digital, a pessoa passa a ser reconhecida como sua legítima dona, mas isso não lhe garante nenhum controle ou remuneração por qualquer reprodução do material. Além disso, os direitos autorais continuam sendo do autor da obra.

Façamos uma comparação com uma obra de arte física, como um quadro. Por mais que ela exista e tenha um dono, nada impede que seja reproduzida. Peguemos como exemplo o “O Grito”, obra-prima do norueguês Edvard Munch. Apesar de existir a original, ela é reproduzida em pôsteres, em publicações, em fotos de turistas e até na Internet. Os proprietários do original não recebem nada por isso, sequer têm qualquer controle sobre essas reproduções. Mas ninguém duvida que eles são os donos da obra e, se algum dia resolverem vendê-la, serão remunerados por isso.

O que dificulta a compreensão do NFT é que o original pode ser algo como um meme, que pode ser facilmente reproduzido por milhões de pessoas, e essas cópias serão idênticas ao original. Além disso, é legítimo perguntar então se qualquer pessoa poderia vender uma foto sua como NFT.

Na verdade, não. Para algo ser classificado como NFT, aquilo precisa ser muito conhecido, como a fotografia em um meme. E o “primeiro dono” precisa, de alguma forma, ter relação com a obra, por exemplo, sendo a pessoa retratada nela.

Vale lembrar que esse mercado não é regulamentado, por isso, esses valores são totalmente voláteis e sem garantias. Ainda assim, as vendas de objetos virtuais atingiram US$ 10 bilhões no terceiro trimestre, segundo a empresa de análise de mercado DappRadar. Já a consultoria Emergen Research calcula que o metaverso pode representar um mercado US$ 829 bilhões em 2028.

Tudo isso chega a transcender os conceitos do livro “Modernidade Líquida” (Editora Zahar, 2001), do filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Para muitos, o metaverso e suas transações são ilusórias, beirando o estelionato. E essa virtualização da vida afastaria as pessoas umas das outras.

Precisamos de algum tempo ainda para validar esses conceitos, o que só será possível quando o metaverso se tornar uma realidade no cotidiano das massas, como aconteceu com as redes sociais. Mas uma coisa é certa: para algo ser real, não precisa ser tocado!

Basta que as pessoas acreditem que seja!

 

Inteligência artificial aparece até nos detalhes do cotidiano e no relacionamento com empresas

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A IA (inteligência artificial) está longe de ser uma novidade, mas ainda existe muita informação incompleta e conceitos distorcidos sobre ela. O maior de todos é o de que essa tecnologia ainda seja algo distante, no campo da ficção, quando na realidade, usamos produtos impulsionados por ela o tempo todo. Ela também invade o mundo corporativo, melhorando processos e o relacionamento com os clientes.

“Todos os minutos que as pessoas pegam o telefone, o que é entregue a elas é parte de um algoritmo de inteligência artificial”, afirma Paulo Manzato, vice-presidente de Vendas para a América Latina da empresa portuguesa Talkdesk, especialista no desenvolvimento de sistemas de atendimento. Segundo ele, o machine learning (ramo da IA que permite que sistemas se tornem mais eficientes a cada interação com o usuário) faz parte da vida das pessoas “da hora que acordam até a hora que vão dormir”.

O executivo explica que IA permite hoje aumentar as potencialidades dos mais diferentes serviços. “Quando eu vejo uma apresentação da inteligência artificial como um produto, conceitualmente isso está equivocado: você constrói sua plataforma alicerçada em inteligência artificial”, explica.

Do ponto de vista das empresas, os sistemas de relacionamento com o cliente estão entre os que mais se beneficiam dessa habilidade da máquina identificar padrões dos consumidores, dos atendentes e dos próprios usos dos produtos. Com isso, consegue melhorar processos para aumentar a eficiência do negócio e reduzir frustrações dos clientes, algo que se torna cada vez mais crítico para qualquer negócio.

Tanto é assim que a empresa Reclame Aqui identificou que 51,2% dos brasileiros não se importam em pagar mais caro por um produto, desde que lhe seja oferecida uma experiência excelente. A conclusão veio a partir de uma pesquisa realizada em março com 13 mil consumidores de todo o país.

Essa experiência precisa ser superior em todos os pontos da “jornada do cliente”, desde quando ele descobre que a marca existe, quando percebe que ela pode lhe solucionar uma necessidade, no uso do produto em si e no suporte. Nesse último, os consumidores cada vez mais preferem resolver um problema interagindo com um sistema, mas não abrem mão de falar com um atendente humano quando o sistema falha nessa tarefa.

“A gente quer muito esse autosserviço, mas, assim que eu me deparo com o primeiro obstáculo do sistema sendo incapaz de me ajudar, eu quero falar com alguém”, afirma Lorelay Lopes, COO da Up, fintech da Embracon. “O grande desafio da inteligência artificial é deixar esse caminho mais fluido, quebrar essa barreira de ‘falar com bot versus com humano’, oferecendo uma experiência do cliente como a gente espera”, explica.

Os dois executivos participarão, na próxima quarta, do debate internacional “Como resolver os grandes desafios do atendimento automatizado”. O evento será online e gratuito, a partir das 11h.

Manzato explica que a inteligência artificial permite extrair informações relevantes para o negócio a partir de uma grande quantidade de dados coletados pela máquina, ao invés de amostras limitadas colhidas por seres humanos. “O dado pelo dado é custo, não diz nada se você não tiver o contexto da informação”, explica. Segundo ele, “uma empresa que decide sem olhar dados com apoio de machine learning perde uma superoportunidade de ser competitiva.”

Uma pesquisa da Talkdesk realizada em março com profissionais de customer experience de 11 países, incluindo o Brasil, apontou que 89% deles acreditam na importância de alavancar a IA na área de atendimento. Apesar disso, apenas 14% das organizações se consideram no nível mais alto de adoção dessa tecnologia, classificadas como “transformadoras”.

Ironicamente, os principais empecilhos para sua adoção resultam justamente de desconhecimento ou de visões distorcidas sobre ela. Por exemplo, 43% dos profissionais entrevistados pela Talkdesk citam o custo das ferramentas, enquanto 30% não querem ficar muito dependentes do departamento de TI nesse setor. Além disso, 26% acreditam que esse investimento levaria “muito tempo para se pagar”. Mas o que se observa no mercado são ferramentas baseadas “na nuvem” (“cloud computing”), com implementação muito rápida, investimentos baixos e resultados praticamente imediatos, sem uma grande curva e aprendizagem pelas equipes de negócios.

 

Máquina e humanos

Um grande medo que as pessoas têm é que as máquinas as substituam em seus postos de trabalho, à medida que fiquem mais inteligentes. Mas o que se observa, em diferentes setores da economia e nas mais diversas áreas da empresa, é que os sistemas de inteligência artificial retiram tarefas repetitivas dos profissionais. “O sistema libera o atendente para tarefas mais nobres”, afirma Lopes.

Isso também aparece na pesquisa da Talkdesk, com profissionais que já têm contato com a IA. Desses, 79% acreditam que a IA fornecerá mais ferramentas aos atendentes, em vez de substituí-los. Entretanto 63% afirmam que seus agentes atualmente não possuem as habilidades necessárias para maximizar o valor dessa tecnologia.

As próprias habilidades dos profissionais da área de atendimento estão mudando. Segundo a empresa, as mais valiosas na área de atendimento hoje são, pela ordem, “solução de problemas”, “atitude positiva”, “conhecimento do produto”, “flexibilidade” e “rapidez”. O estudo prevê que, já em 2025, a lista será encabeçada por “habilidade de trabalhar com IA”, seguida por “solução de problemas”, “capacidade de avaliar ferramentas de IA”, “capacidade de analisar dados gerados por IA” e “flexibilidade”.

Em outras palavras, a máquina se configura como uma parceira dos profissionais, e não como uma concorrente. “A inteligência artificial não vai tirar o emprego de ninguém”, crava Lopes.

Mas é preciso investir na formação profissional para essas e outras habilidades novas. “Existem muito poucos profissionais capacitados para trabalhar com data analytics, com modelos matemáticos”, explica Manzato. Para o executivo, as empresas que tiverem um grupo de profissionais dedicado a isso serão as mais bem sucedidas. “Especializar-se nisso é uma aposta certa para o mercado de trabalho!”

“Não acho que exista hoje algum tipo de atendimento que não possa ser feito dessa forma”, afirma Lopes. Segunda ela, é obrigação dos profissionais da área de tecnologia, de atendimento e de customer experience investir nessa tecnologia, para tornar a experiência do cliente mais eficiente e agradável. “O algoritmo, assim como nós, aprende com as interações, e como o tempo vai ficando cada vez melhor”, explica Manzato.

Por isso, recomendações automatizadas inteligentes, detecção de erros e fraudes em tempo real, sugestões a partir de grande volume de dados, análise de discurso e a oferta de um autosserviço mais eficiente são apenas alguns dos recursos que a inteligência artificial oferece às empresas, e que acaba impactando o nosso cotidiano, como consumidores.

Sem isso, pode existir uma dissociação crescente entre a oferta da empresa e o desejo dos clientes, o que pode ser fatal para os negócios. “A maioria dos executivos acha que a empresa que eles comandam presta um bom serviço”, diz Manzato, que termina com uma provocação: “mas será que percepção dele é a realidade?”


SERVIÇO: webinar internacional “Como resolver os grandes desafios do atendimento automatizado”, quarta (8 de dezembro) às 11h. Inscrições gratuitas em https://tinyurl.com/atendimento8dez

Para falar, basta ter boca, mas falar algo que preste é outra história

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O vídeo abaixo é a minha “Pílula de Cultura Digital” de número 300 e esse artigo é o de número 416 no “Macaco Elétrico”, meu espaço no Portal Estadão há mais de uma década. No caso do vídeo, que publico semanalmente, ele resulta de um enorme poder de comunicar ideias que as redes sociais concederam a qualquer pessoa. E isso é incrível, mas também pode ser uma maldição!

Depois que palavras são proferidas, não podem ser “desditas”, ainda mais em uma sociedade altamente digitalizada como a nossa. Aproveitamos alegremente esse “paraíso de liberdade de expressão”, sem perceber que falar é fácil, mas que precisamos cuidar do que falamos. Entre os resultados desse despreparo e dessa inconsequência no discurso online, vejo, a todo momento, pessoas destruindo sua reputação, profissionais perdendo o emprego e empresas sendo duramente questionadas por seus clientes.


Veja esse artigo em vídeo:


Não estou sugerindo que usemos menos essa capacidade de comunicação, muito pelo contrário! Mas o que eu vejo nas redes, e não é de hoje, é o domínio do discurso vazio, superficial, de “autopromoção a qualquer custo” ou de polarização política. E isso tem um impacto tão grande, que os valores de nossa sociedade e a nosso desenvolvimento como nação estão indo pelo ralo.

Sim, as redes sociais têm um papel decisivo nessa piora do tecido social. Mas, em última instância, são as pessoas, com mais ou menos consciência, que se deixam levar por esse frenesi. Por exemplo, no dia 21, o Estadão divulgou uma pesquisa interna do Facebook de 2018, que apontava como um grupo proporcionalmente pequeno de usuários brasileiros, chamados de “superprodutores”, criaram uma quantidade gigantesca de publicações de cunho político na rede, e isso teria afetado o engajamento em torno de alguns assuntos, podendo até ter influenciado o resultado das eleições.

Em um famoso discurso em junho de 2015, quando recebeu o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura na Universidade de Turim (Itália), Umberto Eco disse que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” Afirmou ainda que “eles eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Eu me lembro que, na época, discordei publicamente do escritor e filósofo italiano. Achei que havia, em suas palavras, uma certa intolerância e até soberba. Na minha filosofia, em que todos devem ter o direito de falar e que crescemos justamente ao contrapor discordâncias, aquilo estava errado.

Hoje percebo que Umberto Eco viu, lá atrás, o cenário em que vivemos. Parece que fosse em outra vida, mas não faz muito mais que cinco anos: até então, as redes sociais eram um espaço muito mais livre, em que as pessoas se encontravam para troca de amenidades ao invés de ofensas, e em que os algoritmos não eram manipulados para convencer a população a comprar produto ou até uma ideia.

O que nos leva ao tema central dessa conversa: para falar, basta ter boca, mas falar algo que preste é outra história.

 

A necessidade de aparecer

Nesse meio tempo, as redes sociais se tornaram peça fundamental para o sucesso de qualquer negócio e de qualquer carreira. Um exército de “gurus” surgiu dizendo o que as pessoas deveriam fazer, onde clicar, quem seguir, com o que se engajar. Mas eles não são capazes de explicar como fazer isso de uma maneira positiva e construtiva, mesmo por que a maioria não passa de “apertadores de botões”, que não tem muito a dizer.

Some-se a isso a percepção que as pessoas têm sobre o incrível sucesso que as publicações apelativas e polarizadas alcançam nas diferentes redes sociais. Diante de não saber o que falar e desses atalhos aparentemente fáceis, os usuários criaram um círculo vicioso no uso das redes, abandonando o debate de alto nível.

É uma pena, pois eu defendo que todos têm algo construtivo a compartilhar nas plataformas digitais, seja com um vídeo, seja com um singelo post. E, como sempre digo, o nosso cotidiano pode ser a nossa maior fonte de inspiração.

Sempre acontecem coisas em nosso dia a dia que poderiam ser usadas para ensinar algo ao outro. Apenas não estamos preparados para transformar essas ocorrências em ideias inspiradoras e transformadoras. E isso os “gurus” não explicam, porque a maioria deles não sabe como.

Precisamos romper essa necessidade de “aparecer a qualquer custo”, em que as pessoas são levadas a replicar ideias de fácil aceitação que não são delas. Elas vêm sendo enganadas pela manipulação dos algoritmos por alguns grupos, para que seus interesses se tornem dominantes com a ajuda de uma massa incauta.

A valiosíssima oportunidade que temos de expor nossas ideias ao mundo não deve continuar sendo usada para ampliar o ódio e o discurso de segregação ou, pior que isso, praticar crimes e contravenções escudados pelo direito inalienável da liberdade de expressão, que anda muito distorcido nesses tempos sombrios. Isso é um seríssimo risco a uma sociedade organizada que deseja se desenvolver de maneira sustentável!

Quando a massa ganha um poder enorme e inconsequente para expor suas insatisfações, sejam legítimas ou não, pode ser levada a praticar condenações e execuções sumárias, escudadas pelo “efeito manada” do meio digital. E isso é fascismo do século XXI! Mas esses indivíduos se esquecem que os que hoje condenam injustamente amanhã podem morrer do mesmo veneno.

É hora de pararem de usar o meio digital para confirmar que suas ideias são as “certas” e de achar que podem silenciar quem pensa de maneira diferente. A sensação pode parecer muito boa na hora, mas ela envenena a alma.

No lugar disso, precisamos desenvolver a nossa capacidade de unir pelo compartilhamento de ideias positivas, que todos nós somos capazes de desenvolver. É hora de parar de “falar só porque se tem boca” e deixar que o mundo perceba nosso valor pelas nossas virtudes e generosidade.

Quem se atreve a embarcar nisso?

 

As redes metem o dedo em nossas “feridas morais”

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Com os números da vacinação crescendo e os de casos e mortes por Covid-19 diminuindo, a sociedade tenta reencontrar seu caminho para uma vida que se poderia chamar de “normal”. Mas, para algumas pessoas, isso pode ser bem difícil, pois foram “feridas em sua alma”, uma ferida moral, por motivos que vão muito além da pandemia. E o meio digital agrava esse quadro.

Não se trata de depressão (apesar de poderem estar associadas), nem de burnout, um esgotamento causado por trabalhar sem limites. Esses dois problemas de saúde mental explodiram durante os últimos anos, e muito se fala deles. Já as feridas morais são menos debatidas e, por isso mesmo, menos compreendidas. Mas seus efeitos podem ser igualmente perigosos.

As feridas morais surgem quando algo em que a pessoa acredita profundamente, seus valores ou sua visão de mundo são violentados em um nível ou com uma frequência que ela não consegue assimilar. Isso produz sentimentos negativos dolorosos, como impotência, culpa, vergonha, e, em casos mais graves, raiva e desorientação.

Isso pode acontecer quando o indivíduo faz ou deixa de fazer algo muito sério e que considera correto por imposição de regras ou de superiores. Esse dano também pode surgir quando a pessoa convive em um ambiente em que seus valores são atacados continuamente, sem que possa os defender. Justamente nesse segundo caso, as redes sociais podem funcionar como um agravante.

Não se trata de uma psicopatologia, pois a ferida moral vem de uma resposta humana normal a um evento traumático anormal. Em outras palavras, o problema vem de fora, não de dentro.

O termo foi cunhado na década de 1990 pelo psiquiatra americano Jonathan Shay a partir de narrativas apresentadas por veteranos de guerra com percepção de injustiça por negligência de suas lideranças militares. Em 2002, ele definiu “ferida moral” como decorrente da “traição do ‘que é certo’ em uma situação de risco por alguém que detém o poder.” Em 2009, o conceito foi ampliado por outro psiquiatra americano, Brett Litz, que o definiu como “perpetrar, deixar de prevenir ou testemunhar atos que transgridam crenças e expectativas morais profundamente arraigadas, que podem ser deletérios a longo prazo”.

Não é de se estranhar que essas pesquisas tenham surgido entre militares e, posteriormente, entre profissionais da saúde. Afinal, eles precisam lidar continuamente com decisões morais profundas.

Mas vivemos em um mundo polarizado moralmente. Ele é inundado por pessoas com um enorme poder concedido pelas redes para destruir valores sociais sob o falso pretexto da liberdade de expressão. E essas mesmas plataformas lhes permitem angariar multidões barulhentas em torno dessas ideias, tornando a situação de suas vítimas às vezes intolerável.

Sobre isso tudo, vem a pandemia de Covid-19. Literalmente centenas de milhares de famílias precisam enfrentar a dor das mortes de entes queridos por uma doença que “veio do nada” e levou, até agora, mais de 5 milhões de vidas. Há também aqueles que viram seus negócios ou empregos arruinados. Outros tantos desenvolveram depressão ou quadros de burnout.

O mundo que conheciam e sobre o qual construíram suas vidas pareceu ruir sob seus pés. Para agravar o quadro, alguns grupos de poder deflagraram uma guerra ideológica para lucrar com a desinformação. Como resultado, muitos sucumbiram diante da pressão das próprias dores que tinham que enfrentar, combinadas com um grande senso de desorientação moral.

Os especialistas afirmam que uma boa autoestima, resiliência e a crença na hipótese de um mundo justo ajudam a proteger alguém de feridas morais. Mas haja resiliência para enfrentar isso tudo!

 

Uma ferida de todos

Diante desse quadro, as feridas morais extrapolaram os grupos sociais que normalmente afetavam. Hoje virtualmente qualquer pessoa pode desenvolver esse quadro em algum grau. Mas alguns profissionais ficam ainda mais suscetíveis a ele.

A característica do mundo atual de apresentar velozmente às pessoas grande quantidade de informações, muitas vezes sem filtros, além de expor o trabalho desses mesmos indivíduos, torna sua situação bem mais dramática. Muitos desses profissionais vêm desempenhando suas funções sem qualquer rede de proteção e sob ataques crescentes desses mesmos grupos de poder, que inflamam as massas contra eles. É o caso, por exemplo, de profissionais de saúde, jornalistas e professores.

Já mencionei aqui, nesse espaço, quando Pedro Bial entrevistou William Bonner para seu programa. À determinada altura da conversa, que foi ao ar no dia 26 de maio do ano passado, o editor-chefe do Jornal Nacional explicou como tem dificuldade de ir até a uma padaria, não pelo assédio dos fãs, mas pela hostilidade de haters. Morador do Rio de Janeiro, em um passado recente, teve que viajar de carro todos os finais de semana para visitar o pai doente em São Paulo, porque não conseguia mais pegar um avião. E isso tudo é resultado de uma sistemática campanha do governo para atacar o jornalismo profissional.

Isso aparece com mais força no documentário “Cercados”, produzido pelo Globoplay. Ele mostra o cotidiano do trabalho jornalístico (e, em alguns momentos, também o de profissionais de saúde) no auge da pandemia e como, apesar de estarem buscando fazer o certo, eram continuamente atacados por parte das autoridades e da população.

Muitos desses profissionais desenvolveram severas feridas morais. Eles lidavam com a morte cotidianamente, de uma maneira para a qual não haviam sido preparados. E faziam isso justamente para proteger a vida da população. Entretanto, em troca por essa função mais que louvável, recebiam todo tipo de hostilidade, até mesmo vindas da autoridade máxima do país ou em seu nome.

O mesmo se dá com os educadores. Assim como os jornalistas, os professores já vinham sob forte ataque em suas funções muito antes da pandemia. Mas a crise sanitária fez com que eles aumentassem exponencialmente, mesmo tendo que se desdobrar para continuar oferecendo o melhor a seus alunos, normalmente sem qualquer apoio.

As redes sociais têm um papel central nessa crise, pois elas oferecem todas as ferramentas usadas por esses detratores para ampliar a sua voz e os ataques. E, como sugerem os “Facebook Papers”, os milhares de documentos vazados pela ex-gerente do Facebook Frances Haugen, a empresa faz muito menos que pode ou deve.

Muitos profissionais poderiam simplesmente mandar tudo às favas, diante de tamanha ingratidão, e muitos fizeram exatamente isso. Jamais os julgaria por essa decisão, pois a pressão pode se tornar insuportável. Por outro lado, tantos outros persistem heroicamente, pois não conseguem abandonar aquilo que é certo e que pode resgatar seu bairro, o país e o mundo desse período de trevas, mesmo que isso lhes custe muito.

Especialistas afirmam que as feridas morais são curadas quando o indivíduo é ouvido e aceito, reencontrando seu lugar na sociedade. Apesar de a maior parte da literatura se aplicar a ex-combatentes, isso vale para qualquer profissional no atual cenário. Os feridos precisam ser aceitos pelo que fazem, valorizados e respeitado por isso.

No final das contas, um dos melhores tratamentos contra feridas morais consiste em enfrentar persistentemente o pior que a humanidade tem para oferecer. Mas essa tarefa é muito pesada. Empresas, famílias e toda a sociedade precisam se empenhar nisso.

Se profissionais de saúde, jornalistas e professores ficarem demasiadamente feridos, todo a sociedade perecerá, e não por Covid-19, mas de uma dor imobilizante na alma. Não é coincidência que as nações mais desenvolvidas sejam aquelas em que essas carreiras são muito valorizadas e admiradas por todos.

 

Pris e Roy (no filme “Blade Runner”), máquinas que simulam com perfeição seres humanos, mas que se voltam contra seus criadores

Nosso robô doméstico pode nos trair

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Os robôs estão invadindo nossas casas! Não as máquinas que se parecem a nós, como as do filme “Blade Runner”, ou as caricatas, como Rosie, a androide-empregada de “Os Jetsons”. Falo de equipamentos mais simples, como aspiradores de pó inteligentes e assistentes virtuais que ganham corpo e nos seguem pelos cômodos. Entretanto, apesar de bastante úteis em nosso cotidiano, temos que perguntar a quem elas realmente servem.

A princípio, esses robôs fazem exatamente aquilo pelo que pagamos. Mas vivemos no mundo do “capitalismo de vigilância”, em que somos constantemente observados por sistemas que descobrem do que gostamos, para nos oferecer produtos que possamos comprar.

Além disso, cada vez mais coisas –como nossos celulares, relógios, carros, eletrodomésticos e até roupas– coletam nossos dados para esses algoritmos. Portanto, apesar de sermos donos desses robôs, temos que questionar se eles trabalham para nós ou para seus fabricantes.


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Alguns lançamentos nas últimas semanas aqueceram esse debate. Um deles foi o Astro, um pequeno robô da Amazon com uma tela montada sobre o corpo com rodas, e a Alexa, a premiada assistente virtual da empresa, em seu cérebro. Coincidência ou não, ele tem o mesmo nome do cachorro dos Jetsons, mas não se parece em nada com ele, apesar de lembrar, de certa forma, um bichinho.

Com um custo de US$ 1.000 nos EUA, o aparelho tem uma série de recursos interessantes, como executar variados comandos de voz, dar recados e até entregar coisas para pessoas específicas da casa. Isso só é possível porque ele reconhece rostos e vozes de cada morador. Também faz videochamadas em qualquer lugar, a partir de sua tela. Possui ainda recursos para acompanhar pessoas que exigem atenção especial e até animais de estimação, e um curioso sistema de segurança, que faz com que verifique barulhos suspeitos e fique seguindo e gravando imagens de pessoas que não conheça.

A princípio, parece tudo muito bacana! Mas especialistas em privacidade criticam pesadamente um robô que caminha livremente pela nossa cosa, coletando imagens e sons constantemente, para tomar decisões. Sabe-se que Astro é capaz de transmitir informações pela Internet para seu dono. Mas a Amazon não confirma ou nega se algo também é enviado para ela. E a empresa é conhecida pela eficiência em nos oferecer um pouco de tudo com base em quem somos e do que gostamos.

Outro produto lançado recentemente é o Roomba j7+, versão mais recente do popular aspirador de pó doméstico da iRobot. Essa categoria de robô, que já era objeto de desejo para muita gente, ficou ainda mais popular no início do distanciamento promovida pela pandemia.

Sua grande vantagem é limpar cada vez melhor nossa casa, de maneira totalmente autônoma. Isso é possível porque sua inteligência artificial e seus sensores permitem que ele mapeie a planta da residência e a disposição dos móveis, para que seu caminho fique mais eficiente a cada uso.

O j7+, que custa US$ 850 nos EUA, vai além: ele traz uma câmera capaz de reconhecer obstáculos ignorados pelos modelos anteriores, como cocô de cachorro, desviando deles para não espalhar sujeira ao invés de limpar. Ele ainda envia uma foto do “achado” ao celular do dono e para a empresa –se o usuário permitir– para melhorar o reconhecimento das imagens.

Não é a primeira vez que aspiradores-robôs enviam dados das casas dos usuários a seus fabricantes. Por mais que sejam criptografados e anônimos, eles têm grande valor para qualquer um que deseje saber como as pessoas de uma determinada região ocupam suas próprias casas. Isso pode, por exemplo, ajudar nos projetos de futuras moradias.

 

Olha quem está ouvindo

O temor de que nossos equipamentos –especialmente os smartphones– estejam nos ouvindo para funções indesejadas não vem de hoje. Quem nunca pelo menos soube de histórias de usuários que começaram a receber ofertas de produtos sobre os quais haviam acabado de falar com outra pessoa diante de seu celular?

Obviamente esses aparelhos, que são a única coisa que carregamos conosco durante as 24 horas do dia, estão nos ouvindo o tempo todo! Afinal, eles precisam fazer isso para executar nossos comandos de voz.

Apple, Google e Amazon afirmam que as assistentes virtuais presentes em seus aparelhos usam esse recurso apenas para os fins indicados. Suponhamos que isso seja verdade, mas será que as dezenas de aplicativos que instalamos em nossos smartphones são assim tão éticos com o áudio e o vídeo que eles podem capturar sem o nosso conhecimento? Por muito menos, alguns desses programas já roubaram informações sensíveis de seus usuários em troca de alguma gracinha que entregam às pessoas.

Vejo muita gente cancelando suas contas nas redes sociais para não ser rastreado, mas isso é de uma enorme ingenuidade. Somos espionados a toda hora pelos nossos eletrodomésticos e até por câmeras e equipamentos da cidade. Há alguns anos, li os Termos de Uso de uma TV de um grande fabricante que indicava ao usuário para “não fazer diante do aparelho nada que pudesse se arrepender depois”. Afinal, o modelo tinha câmera e microfone embutidos.

Vai saber quem poderia estar ouvindo e vendo!

 

Posso querer que apenas aspirar?

Apesar dessa preocupação legítima de não querer ser rastreado, isso fica cada vez mais difícil de se conseguir.

É um fato que, quando compartilhamos nossos dados, esses sistemas tendem a nos oferecer melhores serviços. Alguns deles, totalmente integrados ao nosso cotidiano, como produtos do Google, do Facebook e da Apple, praticamente só funcionam bem com essa arapongagem!

Nós, por outro lado, passamos por uma profunda mudança cultural nos últimos anos. Aceitamos abrir mão de muito de nossa privacidade para poder usar esses produtos. Parece ser tudo grátis, mas pagamos caro por eles, justamente com nossos dados.

Chegamos assim a uma decisão crítica: será que não há outro caminho para a modernidade a não ser expondo nossas intimidades, ainda que de forma anônima, para essas empresas?

Vale lembrar que, mesmo que os fabricantes deem o melhor tratamento para esses dados, que garantia temos que esses equipamentos não serão hackeados para se tornarem espiões para criminosos? De certa forma, a coleta ilegal de nossas informações por empresas no Facebook para depois nos convencer o que comprar, com quem falar e até em quem votar é exatamente isso. Mas, agora, talvez estejamos correndo o risco de alguém literalmente olhar dentro de nossas casas.

A verdade é que qualquer fabricante pode incluir em seus programas e em seus robôs códigos que nós, como usuários, jamais saberemos. É preciso que se crie algum órgão que garanta que eles nos contem tudo que precisamos saber sobre o que produzem. Mas honestamente acho isso pouco exequível.

Em tempos de Lei Geral de Proteção de Dados, temos o direito de saber tudo o que será coletado de nós e exatamente o que será feito disso e com quem será compartilhado. E aceitar esses pedidos não pode ser uma condição para que o equipamento execute bem a tarefa para qual foi adquirido.

No fim das contas, para limpar nossa casa muito bem e sozinho, o aspirador de pó não precisa contar a ninguém onde estão nossos móveis.

 

Frances Haugen, ex-gerente de integridade cívica do Facebook, depõe no Senada americano sobre acusações nos “Facebook Papers”

A solução para o lixo nas redes passa por cada um de nós

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O Estadão destacou, em sua primeira página nesse sábado, novas informações retiradas dos “Facebook Papers”, como estão sendo chamados os milhares de documentos internos da empresa vazados pela sua ex-gerente Frances Haugen. E essas impactam particularmente os brasileiros: levantamento da plataforma concluiu que o discurso de ódio, a desinformação, a violência explícita e o desencorajamento cívico em suas páginas são bem altos no nosso país.

Qualquer um que navegue pelas redes sociais –e não apenas as de Mark Zuckerberg– sabe disso. Entretanto, o mesmo levantamento demonstra que os brasileiros são os que mais se sentem mal ao se deparar com esses conteúdos tóxicos.

Isso é um aparente paradoxo, pois o sucesso desses conteúdos ruins na rede está intimamente ligado às ações desses mesmos usuários. Por isso, não podemos apenas assumir uma postura passiva ou de vítima diante do problema. Sua solução depende necessariamente de cada um de nós.


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O Facebook fez a pesquisa entre março e abril de 2020 no Brasil, Colômbia, Estados Unidos, Índia, Indonésia, Japão e Reino Unido, com amostras de 5.000 pessoas de cada país. Ela visava saber se seus produtos conseguem manter sua “integridade”, ou seja, evitar conteúdos que violem suas regras. Essas violações são conteúdo cívico inflamatório, desencorajamento cívico, inautenticidade cívica, bullying cívico, conteúdo cívico falso ou enganoso, bullying, desinformação, contas falsas, roubo de identidade, violência explícita, discurso de ódio, nudez, terrorismo, exposição infantil indevida, venda de animais e venda de drogas e profanidade.

O levantamento indica que 37% dos brasileiros entrevistados identificaram publicações assim no Facebook. Nos Estados Unidos, isso chegou a 46%. Já no WhatsApp, esse índice bateu 30% no Brasil, o mais alto entre os países avaliados; nos EUA, foi sentido por apenas 13%. Mas é preciso considerar que apenas 30% dos americanos estão no aplicativo, enquanto, no Brasil, ele é usado por praticamente todas as pessoas online. Também foram analisados o Instagram, o Twitter, o Snapchat, o TikTok e o Line.

Entre os países verificados, os brasileiros são os que consistentemente se sentem pior quando veem esse tipo de conteúdo. Considerando Facebook e WhatsApp, os temas mais sensíveis para os brasileiros são exposição infantil indevida, terrorismo, violência explícita, discurso cívico inflamatório e discurso de ódio. A desinformação é um dos tópicos que menos choca os usuários por aqui.

Todas essas categorias são terríveis, mas o fato de a desinformação se classificar tão mal entre o que causa desconforto entre os brasileiros é emblemático. Isso está associado a aspectos culturais e a uma educação historicamente de baixa qualidade.

Por conta disso, o brasileiro já era proporcionalmente pouco acostumado a investir em informações de fontes de boa reputação. O fortalecimento das redes sociais agravou esse quadro, pois criou-se uma percepção que não era mais preciso pagar para se ter acesso a informações. Isso pode até ser verdade: o problema é o nível do que se encontra nas redes, majoritariamente muito baixo.

E os indivíduos consomem isso alegremente. Pior: divulgam esse material!

As pessoas acreditam no que elas quiserem, e isso é uma característica da nossa humanidade. Tentamos encontrar argumentos para validar aquilo que nos interessa.

Alguns não demoraram a perceber que poderiam combinar isso com os algoritmos das redes sociais, que nos colocam em contato com quem pensa da mesma forma que nós, para obter uma incrível máquina de convencimento para quaisquer que fossem seus objetivos. Assim surgiu uma minoria organizada e extremamente barulhenta no meio digital, que usa a desinformação como ferramenta.

Por exemplo, fiquei estarrecido ao ver publicações que sugerem que o trágico acidente que vitimou a cantora Marília Mendonça e os demais ocupantes do avião na sexta-feira teria sido causado por um mal súbito do piloto, que seria resultado de uma reação à vacina contra Cvoid-19.

Como alguém pode se aproveitar de uma tragédia que comoveu o país para fazer valer uma monstruosa teoria de que o imunizante é prejudicial à saúde?

O cérebro tem mecanismos curiosos. Graças a eles, essa teoria atingirá seu objetivo de desacreditar a vacina com uma quantidade considerável de pessoas, que estão enlutados pela cantora e buscam explicações para sua morte. Essas pessoas, por diferentes motivos, também têm suas próprias reservas à imunização e assim buscam argumentos para não se vacinar. A junção das duas coisas em uma única ideia, por mais bizarra que seja, dispara a sua aceitação.

É como se o indivíduo estivesse à beira do precipício, e precisasse apenas de um empurrãozinho…

 

Trabalho profissional

Isso não é uma molecagem, como alguns poderiam pensar. A desinformação se transformou em uma indústria milionária que move a política mundial.

Diversos estudos ajudam a explicar isso. Por exemplo, a pesquisa destacada na capa da revista Science, a mais importante publicação científica do mundo, no dia 9 de março de 2018, demonstra como, a despeito das ações de robôs, são as pessoas as grandes responsáveis pela disseminação das fake news. Isso acontece, em parte, porque a desinformação dispara mecanismos emocionais que induzem ao engajamento com esse material.

Em janeiro, a Universidade de Oxford (Reino Unido) divulgou o estudo “Desinformação industrializada: inventário global de manipulação de mídia social organizada”, que demonstra que essas táticas vêm sendo usadas por cada vez mais governos: em 2020, foram vistas em 81 países! Segundo os autores, no Brasil, as “tropas cibernéticas” (como eles chamam os apoiadores dos governos nas redes) se dedicam principalmente a atacar opositores e aumentar a polarização na sociedade.

Vale notar que os países onde a democracia aparece mais atacada pelas “tropas” são os mesmos em que a população acredita pouco na imprensa, como visto no relatório “Trust Barometer”, publicado em março pela consultoria Edelman. A China é uma exceção: 70% da população acredita na mídia por lá, mas ela é dominada pelo governo, o que reforça a tese de Oxford de que os governos autoritários combatem a imprensa livre.

A essa altura, dizer que a população se tornou massa de manobra dos poderosos graças a essa dominação digital se tornou uma obviedade. Mas precisamos insistir nesse debate, pois a solução do problema passa por rompermos esse quadro!

O Facebook nega oficialmente as acusações feitas a partir dos “Facebook Papers” e afirma que investe bilhões de dólares no combate ao conteúdo tóxico, inclusive a desinformação. O próprio estudo sugere uma preocupação em mapear o problema, colocando o Brasil como um “país de risco”, em que a população é fortemente impactada por esse material, e que precisa ser monitorado com prioridade, com “ações de integridade mais agressivas”.

Melhorar os algoritmos e ampliar equipes treinadas para reduzir ao máximo esses conteúdos são iniciativas fundamentais, mas é preciso investir na educação midiática da sociedade. As pessoas precisam aprender a separar a verdade de absurdos.

Essa não é uma tarefa trivial, e depende fortemente dos veículos de comunicação profissionais, mas também das escolas e até da Justiça. E as plataformas digitais desempenham um papel crítico nisso, pois é graças a elas que a mentira chega à população como uma “versão dos fatos” muito mais suculenta, pronta para ser consumida ser raciocinar.

É difícil resistir e até identificar as fake news. Aos olhos do brasileiro, elas nem encabeçam a lista de preocupações, como indica essa pesquisa do Facebook agora revelada. Perdem até da nudez!

Mas a nudez não pode destruir a sociedade. A desinformação pode, e já fez um estrago enorme.

Mark Zuckerberg, cofundador e CEO do Facebook, demonstra seu metaverso com um avatar de si mesmo

Os benefícios e os riscos do metaverso de Zuckerberg

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A nova fixação de Mark Zuckerberg, criador e CEO do Facebook, é o seu metaverso. Trata-se de um ambiente digital em que as pessoas entrarão usando equipamentos de realidades virtual e aumentada, e farão diversas atividades lá, como trabalhar, estudar ou se divertir. Isso pode representar um grande salto tecnológico, com benefícios incríveis. Mas quais são os riscos que pode embutir?

Parece ficção científica. E, por enquanto, é! Ninguém sabe com certeza quando isso deixará de ser um conceito e passará a ser um produto maduro e acessível às massas. Entretanto precisamos saber se as pessoas estão prontas para viver nessa realidade alternativa. Afinal, se tanto já debatemos sobre os efeitos da exposição exagerada às redes sociais, o metaverso pode potencializar esses problemas.


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Esqueça as videochamadas que se popularizaram na pandemia! O novo mundo de Zuckerberg permitirá que usuários sintam como se estivessem lado a lado, mesmo que, na verdade, estejam em países diferentes. Poderão ter o aspecto que desejarem e o próprio ambiente será construído de acordo com suas necessidades. Todos poderão interagir com o que estiver ali, como se tudo realmente existisse.

Quando vi a proposta, eu me lembrei do Second Life, um mundo virtual lançado em 2003. Apesar de ter pretensões muito menores que as de Zuckerberg, foi revolucionário ao permitir que qualquer usuário criasse um mundo digital em que entrasse e interagisse com outros. A diferença fundamental é que o Second Life continuava sendo algo apenas como um game, enquanto a proposta atual permite que o usuário “entre” no ambiente e interaja com elementos ali, graças às realidades virtual e aumentada agora disponíveis.

Apesar de ainda funcionar, hoje o Second Life tem poucos “residentes”, como seus usuários se autodenominam. O principal motivo para a perda de interesse foi a necessidade de equipamentos poderosos e uma conexão muito rápida para que a experiência fosse boa, e isso estava fora do alcance da maioria das pessoas.

Esse também é um problema do novo mundo de Zuckerberg. Os equipamentos de realidade virtual e aumentada ainda são caros e limitados, e uma boa conexão de banda larga é luxo restrito a poucos. E, se a experiência imersiva não for realmente convincente, a grande vantagem do metaverso cai por terra.

 

Trocando o real pelo virtual

O termo “metaverso” foi cunhado em 1992 por Neal Stephenson, em seu livro “Nevasca”. E, como acontece com muitas ideias da ficção científica, inspirou a realidade. O próprio Second Life é um metaverso.

Mas o conceito nunca teve tanta chance de “virar” como agora, graças à betoneira de dólares e à atenção de Zuckerberg. Tanto que, na quinta passada, durante a conferência anual da empresa, ele anunciou a criação de uma holding que controlará todas as suas empresas. Ela foi batizada de Meta, uma clara referência ao metaverso.

Para se ter uma ideia de quanto isso representa, a empresa já tem mais de dez mil pessoas trabalhando em projetos ligados às realidades virtual e aumentada, que começaram há alguns anos. A Meta pretende dobrar essa equipe e o investimento nesses projetos está na casa de bilhões de dólares

Um metaverso traz benefícios inegáveis, como elevar os ambientes de trabalho e de estudo a distância a um patamar antes inimaginável. Pode ser também um poderoso espaço de relacionamento com o consumidor e de experimentação, barateando o lançamento e a venda de produtos. Até a telemedicina pode ganhar com isso!

Mas nada deve ser tão beneficiado quanto o entretenimento e os aspectos sociais. Imagine a sensação de estar dentro de um filme ou de um game! Ou ainda de se encontrar com amigos a distância, de uma maneira bastante convincente. Há ainda o sexo virtual, que se tornará cada vez mais realista, à medida que novos equipamentos para simular sensações se tornem disponíveis e estejam conectados ao metaverso.

A imaginação é o limite! E isso nos leva a possíveis riscos dessa experiência.

Por muito menos, pessoas descobriram, durante o distanciamento social provocado pela Covid-19, vantagens de se fazer coisas a distância, ao invés de presencialmente. Agora, mesmo com a flexibilização das regras, elas mantiveram esses hábitos online.

Uma realidade virtual poderosa pode diminuir nossa capacidade de distinguir entre o presencial o virtual. Nosso cérebro pode ser “enganado” para acreditarmos que a simulação seja algo real. E reagirmos a isso com nosso corpo.

Isso pode se tornar uma possível fuga das limitações da realidade. De certa forma, as redes sociais já oferecem isso, mas, com o metaverso isso pode ser maximizado pelo seu aspecto imersivo, criando uma distração idealizada dos problemas. E isso pode levar as pessoas a se tornarem mais suscetíveis a ideias e a produtos, pois baixam suas defesas mentais.

Há ainda riscos físicos! Durante uma simulação imersiva, as pessoas podem inadvertidamente se mover em um espaço a sua volta que não condiz com o que seu cérebro acha que está. E o menor dos problemas que podem surgir daí são tropeços.

Do ponto de vista da saúde mental, estudos sugerem que uma exposição prolongada a uma experiência virtual tão profunda pode levar indivíduos a casos de comportamentos antissociais, violência, depressão e, no extremo, suicídio. E justamente por ser algo tão novo e pouco estudado, não se sabe exatamente quais seriam esses efeitos colaterais e como preveni-los.

O que nos leva a um ponto crucial: como isso impactará crianças e adolescentes. Uma das piores acusações contra o Facebook feitas por Frances Haugen, uma ex-gerente da empresa que vem fazendo delações nas últimas semanas, é a de que a companhia sabe que o Instagram, um de seus principais produtos, acentua problemas de saúde mental em adolescentes, especialmente em meninas, e faz muito pouco para prevenir isso.

Com o metaverso, esses problemas na formação dos mais jovens podem se tornar exponencialmente maiores. Como suas capacidades cognitivas ainda estão em formação, a diferença entre realidade e simulação se torna ainda mais difusa. Tanto que empresas que produzem essas tecnologias sugerem que não sejam usadas por quem tiver menos que 13 anos. Mas como garantir isso?

Os jovens são, portanto, ainda mais suscetíveis aos estímulos que recebem em realidade virtual, o que cria preocupações não apenas em questões comerciais, mas também de bullying e até de pedofilia. Para tornar a situação mais dramática, é muito difícil monitorar um ambiente tão dinâmico. E vale destacar que Zuckerberg deseja criar estratégias para atrair e reter o público jovem, algo essencial para seus negócios, que estão ficando envelhecidos e pouco atraentes para os mais novos.

À medida que o metaverso ocupe mais espaço em nossas vidas, todos esses aspectos precisarão ser cuidados. Sem falar que, caso se torne um recurso importante para trabalho e estudo, pode provocar um novo tipo de abismo social, separando aqueles que conseguirão aproveitar a simulação daqueles que não terão como fazer isso.

Não deixa de ser curioso todas essas novidades aparecerem justo quando o Facebook passa pela sua maior crise de reputação, que pode levar à divisão da empresa e até à queda de Zuckerberg do posto de CEO. Se o metaverso der certo, isso pode ampliar ainda mais a dominância que ele tem sobre as pessoas e as empresas no mundo todo, e emergir como um visionário. Mas, se der errado, pode entrar para a história como um vilão que destrói democracias e vicia pessoas. É uma aposta alta!

Do nosso lado, temos que cuidar que o mundo online não se torne mais importante que o real. Os valores que verdadeiramente contam estão aqui, “do lado de fora”, e não devem ser simulados ou sintetizados.

 

Inteligência artificial avança sobre o destino do seu emprego

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O papel da Inteligência Artificial cresce de maneira galopante em todos os segmentos do mercado. A área de Recursos Humanos também se beneficia dela, naturalmente. Já há algum tempo, esses sistemas são usados para fazer a peneira em um oceano de currículos que concorrem a vagas de trabalho. Agora algumas empresas também estão usando esse recurso para decidir quem será demitido.

Se algumas pessoas já questionavam a capacidade de a inteligência artificial escolher os melhores candidatos para uma vaga, essa dúvida tende a ficar ainda mais cruel quando se imagina um frio computador decidindo quem será mandado embora. A máquina será justa na sua análise?

A preocupação é pertinente. Afinal, poucas coisas impactam a vida de alguém como uma contratação ou uma demissão, especialmente em um cenário de desemprego nas alturas, como o que vivemos. Mas precisamos colocar em perspectiva o uso dessa ferramenta: será que ela pode ser “culpada” por suas escolhas, se é que dá para atribuir culpa a uma máquina?


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A demissão por inteligência artificial ganhou manchetes em agosto, depois que a empresa russa de promoção de games Xsolla demitiu 150 de seus 450 colaboradores. A decisão de quem seria mandado embora ficou totalmente a cargo do sistema, com base em critérios de produtividade e comprometimento com os objetivos da empresa.

A repercussão foi tão grande que seu CEO, Alexander Agapitov, explicou à edição russa da revista Forbes que não concordava totalmente com as escolhas do sistema, mas que tinha que aceitá-las por determinação da assembleia de acionistas. Mesmo assim, ele se comprometeu a ajudar os demitidos a encontrar trabalho logo, pois, segundo ele, são “bons profissionais”.

O caso é emblemático, mas não é único. O uso da inteligência artificial em demissões já acontece há alguns anos e vem crescendo. Em alguns casos, o sistema não apenas decide quem será mandado embora, como cuida de tudo. Em outras palavras, nesses casos, não há o envolvimento de profissionais de Recursos Humanos nem na decisão, nem na execução do processo.

Isso o torna ainda mais doloroso. Em junho do ano passado, a Uninove demitiu cerca de 300 docentes por um pop-up exibido quando eles entraram na plataforma para dar a aula a distância, já que a escola estava fechada por conta da pandemia. Não houve uso de inteligência artificial nesse caso, mas a mensagem extremamente lacônica, sem incluir qualquer justificativa ou explicação, foi chocante para professores e alunos.

A pergunta “por que eu” sempre surge, especialmente entre profissionais que acreditam estar realizando um bom trabalho, dando o melhor de si, comprometidos com a empresa. E talvez estejam mesmo! Mas, no momento de uma demissão, eles serão comparados com todos na mesma situação ou serão considerados critérios que desconhecem ou sobre o qual não têm nenhum controle. E, nesses casos, um sistema de Inteligência Artificial pode ser uma ferramenta poderosa para os gestores, pois justamente tomará a decisão sem qualquer influência emocional.

Para quem está “do lado de cá do balcão”, aspectos como esforço, ética, dignidade têm peso maior que o considerado pelas empresas, mais preocupadas em métricas de produtividade mensuráveis. Mesmo muitos anos de trabalho excelente para a companhia perdem valor diante da necessidade de cortar friamente, por exemplo, quem ganha mais.

Aspectos intangíveis interessam apenas a seres humanos. Em um mundo cada vez mais focado em resultados, eles perdem espaço. Por isso, a “culpa” não é da inteligência artificial: ela apenas reflete como as empresas se reorganizaram no relacionamento com sua força de trabalho.

O “emprego para a vida toda” está em extinção.

 

Contratando e paquerando com IA

Da mesma forma que demite, a inteligência artificial contrata. A versão mais recente da pesquisa State of Artificial Intelligence in Talent Acquisition, publicada pela consultoria americana HR Research Institute em 2019, indica que, naquele ano só 10% das empresas faziam um uso alto ou muito alto de IA no recrutamento, mas que 36% dos gestores esperavam fazer isso em até dois anos.

E isso foi antes da pandemia de Covid-19, que acelerou ainda mais esse processo.

O estudo traz outra importante conclusão: entre os entrevistados, os maiores temores do uso dessa tecnologia são a desumanização do recrutamento e possíveis discriminações no processo, por vieses surgidos por uma programação falha.

As empresas que já usam esses recursos afirmam que eles permitem contratações de melhores candidatos e de maneira muito mais rápida e eficiente. O risco de discriminações seria minimizado por uma inteligência artificial bem construída e por profissionais de RH capacitados, que ensinam à máquina o que realmente importa.

Se extrapolamos esse conceito, percebemos que a inteligência artificial já nos ajuda a escolher muitas coisas em nossa vida, até mesmo parceiros românticos ou sexuais. Diversos sistemas no mercado aprendem com nossas escolhas de quem nos interessa, para que as próximas sugestões sejam mais assertivas.

Esse processo pode ser extremamente complexo, para que os resultados não sofram vieses inconscientemente ensinados pelos próprios usuários. “Hang the DJ”, quarto episódio da quarta temporada da série “Black Mirror” (disponível na Netflix), que sempre traz questões morais envolvendo usos da tecnologia, ilustra isso de maneira inusitada e até inesperada.

É um fato que estamos sendo sempre rastreados. O que fazemos, dizemos, compramos, comemos, onde e com quem andamos, tudo isso será usado para traçar nosso perfil. E sistemas como os das redes sociais têm ficado tão eficientes nesse processo, que fica muito difícil impedir que eles “extraiam nossas verdades”.

Por isso, apesar de recrutadores afirmarem que os candidatos devam criar currículos e páginas em sites de empregos que estejam alinhados com as vagas e as empresas que desejam, esses documentos acabam se tornando apenas mais um elemento no processo de contratação ou de demissão. É possível que um belo artigo publicado no LinkedIn seja o responsável por uma contratação, enquanto uma foto infeliz no Facebook resulte em uma demissão. Ou, quem sabe, na escolha de alguém com quem se dividirá os lençóis em breve.

Isso pode ser aterrorizante para muita gente! Estamos nus e expostos para olhos digitais, que nos fazem praticamente uma “autópsia de pessoa viva”. Por isso, não se deve perder muito tempo em criar personagens que sejam muito diferentes de quem realmente a pessoa é, para objetivos específicos. Talvez seja mais interessante buscar objetivos mais em linha com sua realidade.

Em outras palavras, mentir no currículo nunca foi tão difícil. Por outro lado, para quem está trabalhando, vale prestar atenção se as exigências e o estilo da empresa se alinham com suas crenças. Se não for o caso, é melhor pensar em mudar de emprego antes de ser demitido por uma máquina.

Apesar de tanta eficiência, penso que tudo tem um limite. Lidar com pessoas sempre foi uma tarefa difícil, especialmente em momentos em que se toma uma decisão que impactará fortemente suas vidas. Ignorar isso completamente desumaniza tanto uma contratação e principalmente uma demissão que, na prática, desumaniza o próprio indivíduo. Nem a busca pela eficiência pode reduzir seres humanos a meros “recursos” com o mesmo peso de uma máquina, que será substituída porque ficou obsoleta.

Processos como esses exigem reflexões responsáveis. Se o RH terceirizar não apenas suas decisões, como também a operacionalização dos processos, ele mesmo pode ser substituído com vantagens por um sistema.

Devemos, portanto, nos preocupar menos em humanizar as máquinas e mais em humanizar as pessoas.

 

Guarda da série “Round 6”, que se tornou a mais vista na Netflix, cujos jogos violentos estão sendo simulados em escolas

O que pode haver de mortal em brincadeiras infantis

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Na semana passada, “Round 6” se tornou a série mais vista da história da Netflix. Mais de 111 milhões de pessoas assistiram à produção sul-coreana nas primeiras quatro semanas no ar. Ela retrata uma macabra competição entre 456 endividados, que se dispõem a participar de versões de seis jogos infantis. O vencedor leva um prêmio equivalente a R$ 213 milhões. Todos os demais morrem ao longo dos jogos.

Mas algo sinistro se formou em torno da série, indicada para maiores de 16 anos. Crianças de vários países, inclusive do Brasil, estão simulando a competição nas escolas. No caso, os perdedores são surrados pelos vencedores.

Esse comportamento não chega a ser surpreendente, e é um reflexo do mundo em que vivemos. E, ao contrário do que alguns estão se apressando a dizer, a culpa não é da Netflix, nem dos produtores da série. Mas temos que entender o problema para resolvê-lo.


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Originalmente escrito em 2008, “Round 6” se tornou um fenômeno de mídia. Além da enorme audiência na plataforma de streaming, seus atores, até então desconhecidos fora da Coreia do Sul, ganham milhões de seguidores nas redes sociais.

Também é um fenômeno comercial. Os tênis brancos Slip-On, da marca Vans, usados pelos jogadores, viram suas vendas aumentarem em incríveis 7.800%. Além disso, o uniforme dos guardas da série se tornou a fantasia mais buscada. Isso lembra o que aconteceu com o macacão vermelho e a máscara de Salvador Dali usados pelos assaltantes de “La Casa de Papel”, outra série da Netflix, há quatro anos.

Diante desse frenesi, seria, portanto, inocência assumir que crianças e adolescentes não assistiriam à série apenas pela sua classificação etária. Muitos fazem isso até junto com seus pais, o que, dentro das circunstâncias, pode até uma alternativa menos pior, se bem aproveitado esse convívio em torno da história.

Todos nós nascemos com capacidades para discernir o certo do errado e o verdadeiro da fantasia. Mas essa habilidade só amadurece ao longo dos anos, precisa ser “treinada” com estímulos, com exemplos e com explicações de pessoas e de instituições que os pequenos têm como referência, como seus pais e a escola.

“Round 6” (que no resto do mundo é chamado de “Squid Game”, ou “Jogo da Lula”) obviamente é uma fantasia perturbadora. Traz uma feroz crítica social sobre a diferença entre as classes sociais e a dependência que as pessoas desenvolvem do dinheiro, até o ponto de algumas morrerem por ele em situações extremas.

Fica a pergunta: isso poderia acontecer de verdade em algum lugar do mundo?

 

Violência relativizada e normalizada

Às vezes, tenho a impressão de que o mundo ando louco demais.

Acho pouco provável que alguém se dispusesse a criar uma “brincadeira” tão distópica, em que pessoas morressem para sua diversão. Se bem que já tivemos algo assim em vários lugares do mundo ao longo da história, como nas arenas romanas.

Por outro lado, não me espantaria se, caso isso se concretizasse, um bando de malucos topasse arriscar a própria vida pela adrenalina e pelo dinheiro. Como sempre abordo nesse espaço, a dinâmica das redes sociais vem criando uma geração de pessoas “viciadas” em dopamina e com uma percepção fugaz da própria realidade, sempre a busca de novos estímulos.

Se isso impacta decisivamente até os adultos, adolescente e crianças se tornam presas fáceis desse ambiente. Seu senso crítico ainda não está desenvolvido para digerir tantos estímulos. Eles não têm as experiências de vida para colocar tudo na sua devida perspectiva.

No caso de “Round 6”, a profundidade da crítica social desaparece, permanecendo apenas o jogo puro. E a própria violência, que culmina na morte de pessoas, fica relativizada e perde força. Corre-se o risco de achar que tudo aquilo é normal.

O criador de “Round 6”, Hwang Dong-hyuk, disse que estava perplexo que crianças estivessem assistindo à série. Em entrevista a uma emissora sul-coreana, ele disse que espera que os pais e os professores ao redor do mundo sejam prudentes, para que os pequenos não sejam expostos a esse tipo de conteúdo.

 

Como proteger as crianças

“Round 6” é a bola da vez, mas, nos últimos anos, as crianças vêm sendo impactadas por diferentes conteúdos que levam muitas delas a dor, violência e até morte.

Em 2017, a “Baleia Azul” teve grande repercussão. Consistia de 50 tarefas que adolescentes recebiam de “curadores”, envolvendo automutilação e culminando no suicídio. Até hoje, há controvérsias sobre sua origem. Aparentemente, no início, não passava de um boato. Entretanto, diante da exposição que teve, acabou se “concretizando”, e várias mortes estariam associadas à Baleia Azul.

Dois anos depois, surgiu a Momo, uma boneca fantasmagórica que estaria invadindo o YouTube Kids para convencer crianças a fazer coisas como se cortar e até mesmo matar os próprios pais. Não passava de uma combinação de “fake news” com “efeito manada”, mas o movimento criado levou algumas crianças a realmente se automutilar.

Não podemos deixar de mencionar a suposta influência maligna dos games. Ela ressurge em casos de adolescentes que matam colegas, como aconteceu em 2019 na escola estadual Professor Raul Brasil, na cidade de Suzano, na Grande São Paulo. Mas estudos sérios demonstram que esses jogos não incentivam assassinatos reais. Pelo contrário, profissionais de psicologia explicam que esse tipo de criminoso é movido por outros problemas, muito mais profundos, que ele já carrega dentro de si.

Muitos propõem que “Round 6” seja sumariamente retirada do ar. Isso é algo totalmente inócuo: o buraco é muito mais embaixo!

Especialistas da área de saúde mental e de educação afirmam que a solução desses problemas passa por pais mais presentes na vida de seus filhos, para lhes oferecer carinho e orientação diante de tantos estímulos. Além disso, devem se unir a professores para ajudar a escola na tarefa de educar crianças e adolescentes.

Proibir o acesso raramente é eficiente. As crianças sempre darão um jeito, especialmente aquelas que têm acesso a smartphones e computadores. Mesmo que não vejam a série na Netflix, algumas cenas aparecem fora do contexto, no YouTube e até no TikTok. Além do mais, tudo que proibido desperta ainda mais o interesse.

Pais e educadores devem abordar esses temas com sinceridade e paciência, para explicar às crianças o que tudo aquilo significa e por que não devem fazer algumas coisas. Crianças, mesmo as pequenas, têm uma capacidade de compreensão que pode surpreender os próprios pais, quando eles se dispõem a oferecer essa orientação.

Elas devem se sentir acolhidas pelos seus pais. E esses devem criar, desde pequenos, um canal sincero de confiança com seus filhos, para que se sintam à vontade para compartilhar suas dúvidas e seus medos. Mas é importante entender que a confiança é uma via de mão-dupla: os pais também devem oferecer confiança e ser confiáveis.

A educação midiática se torna cada vez mais crítica em nosso mundo. Pais e educadores têm um papel central nisso. E devem sempre pedir ajuda a profissionais, como psicólogos, quando necessário.

Mas nada substitui o carinho, a presença e a confiança entre pais e filhos.