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O que você ganha com a briga da Folha com o Facebook

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Se nos recusamos a ver o problema, isso não implica que ele deixará de existir - Foto: Creative Commons

Se nos recusamos a ver o problema, isso não implica que ele deixará de existir

Pouco antes do Carnaval, a Folha de S.Paulo surpreendeu o mercado com o anúncio de que estava abandonando o Facebook. Por mais que esse movimento tenha passado despercebido pela maioria das pessoas, ele é um sintoma enorme de algo que afeta a vida de todos, impactando significativamente o desenvolvimento da sociedade. Por exemplo, você prefere o Lula na cadeia ou na presidência? Apoia ou condena as reformas trabalhista e da Previdência? E o que pensa do Bolsonaro? Acha que Luciano Huck deveria ter insistido na sua aventura presidencial?

Qualquer que seja seu posicionamento, ele é construído a partir de informação e influência. Mas quem informa e influencia você? Em outras palavras, em quem você acredita e por quê? Goste ou não, aceite ou não, partimos da imprensa e das plataformas digitais para decisões críticas de nossa vida. Então, é bom prestar bastante atenção nessa bagunça informativa.

O fato de a Folha não mais atualizar a sua página na rede do Mark Zuckerberg desde o dia 8 é reflexo de uma grotesca falência da mídia, especialmente dos veículos mais tradicionais, no seu relacionamento com o público. Demonstra também como as grandes plataformas digitais estão se debatendo contra o avanço das “fake news”, as infames notícias falsas, que inundaram as redes sociais. No meio disso tudo, estamos todos nós: podemos ser os maiores beneficiados ou prejudicados dessa briga. O que ganhamos ou perdemos depende também das nossas atitudes.

Não há mais vítimas inocentes nesse cenário, nem nós mesmos!

 

Os motivos da Folha

A Folha argumenta que saiu do Facebook porque as mudanças em seu algoritmo, anunciadas no dia 11 de janeiro, prejudicariam o “jornalismo profissional” e privilegiariam as “fake news”. Além disso, faz um pouco caso da audiência que, por mais que esteja em queda, ainda vem daquela rede social. Na prática, ela se dá importância e se coloca acima disso tudo.

Seria lindo, se não passasse de uma cortina de fumaça.

Sim, é verdade que as mudanças nos algoritmos do Facebook vêm reduzindo a audiência das páginas das empresas, mas de todas elas, e não só das de comunicação (e muito menos só do “jornalismo sério”). Também é verdade que as “fake news” estão crescendo como um câncer com a ajuda das mesmas redes sociais.

O que esses veículos de comunicação que vivem um eterno chororô diante da sua crescente irrelevância no meio digital não dizem é que os principais responsáveis por sua derrocada e pelo crescimento das “fake news” são eles mesmos! Sim, as redes sociais têm sua indiscutível e gigantesca culpa no cartório, por serem incapazes de separar automaticamente jornalismo de qualidade de notícia falsa. A partir daí, seus algoritmos de relevância fazem o trabalho sujo de replicar aquilo com que as pessoas se engajam mais. Mas isso só acontece porque a imprensa está deixando essa bola quicando na área.

Como expliquei no artigo que publiquei logo após a mudança no algoritmo ter sido anunciada, as pessoas compartilham aquilo que lhes dê prazer imediato, e de preferência o que lhes causa grandes emoções (positivas ou negativas) e não lhes faça pensar demais. Sem nenhum julgamento moral, é assim que o cérebro humano funciona.

Oras, os produtores das “fake news” se valem justamente disso, para criar e “plantar” conteúdos que atendam a essas expectativas de parcelas significativas do público. Dando o que as “pessoas certas” (formadores de opinião alinhados a seus objetivos) querem ouvir, elas começarão o trabalho de espalhar a mentira, que será ampliado pelos algoritmos. Vale dizer que os criadores das notícias falsas também conhecem muito bem o “seu público” e sabem como usar os recursos das plataformas digitais, o que torna o seu trabalho ainda mais eficiente.


Vídeo relacionado:


É óbvio que o que a imprensa deveria fazer seria combater fogo contra fogo. Ou seja, produzir conteúdo de qualidade cada vez melhor e ampliar ainda mais a sua presença em todas as plataformas digitais possíveis, usando seus recursos inteligentemente! Entretanto, já no artigo e no vídeo acima, expressei o meu temor que os veículos partissem para o caminho mais fácil, de piorar seu conteúdo, criando “caça-cliques”, para tentar salvar sua audiência! Mas não previ um movimento tão inusitado, como entregar o campo de batalha à “turma do mal”.

É como um avestruz, que enfia a cabeça na areia para não ver mais o problema, que continua existindo.

 

Por que os veículos falham nas redes sociais

Os produtores de “fake news” prosperam porque eles sabem jogar esse jogo, enquanto os veículos tradicionais continuam presos a fórmulas que funcionaram por um século, mas que perderam a sua eficiência há pelo menos 15 anos. Acusam as redes sociais e os buscadores de serem os causadores de sua derrocada, quando, na verdade, seus produtos perdem relevância diante de novos concorrentes sérios (e não apenas das “fake news”) que sabem usar essas plataformas a seu favor. Esperam que as pessoas continuem pagando pelo seu conteúdo (porque “produzir jornalismo de qualidade custa caro”), quando os modelos de negócios se transformaram completamente.

E custa caro mesmo! Mas o binômio assinatura mais publicidade como fonte de renda ruiu completamente. Apesar disso, tem gente boa ganhando dinheiro com jornalismo, usando outras formas de financiamento. Mas todos eles têm duas características: conteúdo de qualidade superior e bom relacionamento com seu público.

Os grandes veículos, e isso inclui a Folha, vêm sofrendo de descrédito junto à opinião pública, devido a seus próprios erros. Noticiário mal apurado ou irrelevante, reportagem limitada, caça-cliques, cerceamento de opiniões contraditórias e vínculos (às vezes escandalosos) a grupos políticos e econômicos têm abalado séria e continuamente a sua reputação. E imprensa sem reputação não existe!

Isso não vem de hoje. Em sua coluna do dia 24 de junho de 2012, a jornalista Suzana Singer, então ombudsman da própria Folha, escreveu: “O jornal precisará oferecer conteúdo de qualidade superior à que o site tem hoje. Para ler pequenos informes sobre o que aconteceu nas últimas horas, em textos mal-ajambrados, ou para saber das fofocas mais recentes sobre celebridades do ‘mundo B’, ninguém precisa gastar um centavo.” Era uma análise diante do início da cobrança pelo conteúdo do site, que até então era aberto.

Além disso, todos os veículos precisam entender, de uma vez por todas, que precisam se relacionar verdadeiramente com seu público. Eu me lembro que, quando eu iniciei minha carreira na Folha: depois que “fechava” uma notícia, aquilo já era passado, e eu não tinha nenhuma relação com o leitor. Mas isso era nos anos 1990!

Agora as pessoas querem se relacionar com os jornalistas e as empresas, e para isso as redes sociais são excelentes! Os veículos de sucesso (e as “fake news”) hoje sabem como fazer esse relacionamento muito bem, e colhem os frutos disso. Já os veículos tradicionais fazem posts como se fossem chamadas para a primeira página do jornal impresso, e têm zero interação com seu público, o que é inadmissível.

Advinha só para quais veículos as pessoas correm?

 

Todos têm que melhorar!

Meu trabalho não é fazer a imprensa feliz!” A frase é de Campbell Brown, executiva do Facebook, que cuida curiosamente das parcerias com os veículos de comunicação, que concluiu: “se alguém acha que o Facebook não é a plataforma para ele, então não deveria estar no Facebook.” Com sua sutileza paquidérmica, Brown deixou clara a posição do Facebook no caso e ainda sugeriu que “grande parte do melhor jornalismo atualmente é feito por pequenos veículos, mais nichados”.

Mas os pequenos também estão sofrendo com as mudanças, pois a eficiência de sua presença no Facebook se tornou um alvo em movimento. A falta de transparência da plataforma dá a impressão que só é possível ter algum destaque ali pagando. Por isso, assim como a Folha, empresas de todo tipo e porte estão investindo menos na plataforma e buscando alternativas. Como tenho ouvido o tempo todo desde janeiro, “o Facebook deu um tiro no pé”. Até a Unilever ameaçou cortar anúncios no Facebook e no Google, se não houver mais transparência.

Como se pode ver, nesse complexo cenário de interesses, todos têm sua parcela de culpa e, portanto, também a obrigação de melhorar. Se a imprensa quiser realmente combater as “fake news” e aumentar suas receitas e sua audiência, eles devem primeiramente resgatar os princípios do bom jornalismo e estar presentes em cada vez mais canais (e não sair deles). Precisam também aprender que o relacionamento com o seu público mudou, pois as pessoas mudaram. Por isso, as redes sociais e os buscadores podem ser muito mais aliados que predadores. Entretanto, eles possuem dinâmicas que precisam ser entendidas, aceitas e praticadas pelos veículos.

Já essas plataformas digitais precisam ser mais transparentes e se esforçar genuinamente para combater as “fake news” com todos seus recursos. Além disso, devem também identificar quem realmente produz jornalismo de qualidade, e privilegiar esses parceiros em uma troca justa. Não podem ignorar o seu gigantesco papel social como replicadores de todo tipo de conteúdo.

Quando a nós, usuários, precisamos assumir o nosso papel de protagonismo nisso tudo, desenvolvendo uma desconfiança saudável. Não podemos ser inocentes e acreditar em tudo que lemos, seja nas redes sociais, seja em um veículo de comunicação. Portanto, antes de compartilhar qualquer coisa, pensemos se aquilo é mesmo verdade e no impacto de nossas ações!

Se todos fizerem bem a sua parte, ganharemos uma sociedade mais desenvolvida, mais justa e mais igualitária. Qualquer coisa fora disso nos fará rumar mais e mais para a barbárie que inunda o noticiário.


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É incrível, mas tem gente que ainda não sabe usar o LinkedIn

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“Quem não comunica se trumbica!” A célebre frase de Chacrinha define um bom uso do LinkedIn - Foto: divulgação

“Quem não comunica se trumbica!” A célebre frase de Chacrinha define um bom uso do LinkedIn

Você já pensou seriamente sobre o que você faz no LinkedIn? Mais que recursos exclusivos entre as redes sociais, a maior plataforma de caráter profissional do mundo oferece conteúdo de qualidade e um ambiente ótimo para se construir uma boa reputação profissional, até mesmo sem investir um centavo, resultando em empregos e negócios! Então responda honestamente a você mesmo: está tirando o máximo proveito que essa ferramenta lhe oferece?

Não é segredo que o LinkedIn ocupa um espaço importante em minha vida. Posso afirmar categoricamente que o tempo investido na rede tem se revertido em muitos contatos interessantíssimos e consequentes trabalhos. Não estou sozinho nisso: afinal são 31 milhões de usuários no Brasil! Mas eu fico impressionado ao notar que a imensa maioria dessas pessoas faz um uso limitadíssimo da rede. E também me questiono por que o Facebook tem 130 milhões de usuários no país e o LinkedIn tem “apenas” um quarto disso.

De forma alguma estou desmerecendo a rede do Mark Zuckerberg: também a uso intensamente. Mas é inegável que os propósitos das pessoas nas duas redes são diferentes, por mais que tenha ouvido, cada vez mais, que o LinkedIn esteja sendo “facebookado”, tese depreciativa que rejeito. No LinkedIn, os usuários têm um foco em aprender e compartilhar assuntos profissional ou socialmente relevantes, criar vínculos profissionais, promover produtos sem necessariamente investir em publicidade. Essa é a sua grande força, desperdiçada e até mesmo desconhecida pela massa de usuários.

Não me refiro às várias técnicas para criar um bom perfil, conhecer pessoas interessantes e ser visto por elas: elas existem mesmo e são muito úteis, até mesmo essenciais! Mas isso é apenas o começo da sua presença na rede. Limitar-se a buscar um bom perfil é como construir uma casa com uma fundação incrível, mas colocar nela as paredes.

 

Quem tem boca vai a Roma

O erro mais comum que observo é o de as pessoas acharem que o LinkedIn é um “site de currículos”, que serve apenas para procurar emprego. Acredito que esse seja um dos principais motivos para tanta gente boa não participar dele: afinal não estão procurando emprego.

Bem… o LinkedIn não é só isso!

Talvez em sua gênese, fosse. E é verdade que os dois empregos mais bem remunerados que já tive vieram dele. Mas tudo isso foi antes do “novo LinkedIn”, aquele que permitiu publicarmos conteúdo e elevaram os níveis de relacionamento qualificado a um patamar inédito.

Portanto, aqui vai uma grande dica, construída sobre aquelas obviedades da vida que todo mundo sabe, mas poucos praticam: rede social serve para sociabilizar!

Ridículo dizer isso? Nem tanto! A maioria dos usuários cria (bem ou mal) o seu perfil e nunca mais aparece ali. Não lê ou curte o que as pessoas estão publicando, não fala com ninguém, não recomenda seus amigos em seus perfis.

Sabe o que essa pessoa ganha com sua (falta de) participação no LinkedIn? NADA!

O motivo é muito simples. Quando não se tem nenhuma atividade na rede, a “relevância” do perfil para os algoritmos do LinkedIn desaba. Falando em português, sem atividade na plataforma, quando alguém procurar por um profissional com seu perfil, ele até será selecionado, mas ficará tão embaixo na relação de candidatos criada pelo sistema, que será a mesma coisa que não estar lá.

Então, se você já não faz isso, comece a desenvolver o saudável hábito de dar uma passadinha no LinkedIn todos os dias, ver o que as pessoas estão publicando ou comentando, participar das conversas, curtir o que acha que vale a pena, e ser generoso com seus contatos.

Afinal, já dizia o Chacrinha: “quem não comunica se trumbica!”

 

Mostre a que veio ao mundo

Mas o grande diferencial para criar uma boa reputação no LinkedIn e ficar sempre em evidência depende de seu altruísmo.

Isso mesmo! Poucas coisas são tão poderosas quanto participar da rede compartilhando o que você sabe, dando opiniões (embasadas) sobre publicações dos outros, conversando com as pessoas sobre esses temas e ajudando-as da melhor maneira possível.

A verdade é que a maioria das pessoas quer consumir algo (ou muito) na rede, mas poucos são aqueles que estão dispostos a oferecer algo em troca. E não estou dizendo aqui que é necessário ficar horas todos os dias no LinkedIn: claro que não! Mas todos os dias ficamos sabendo ou pensamos em algo que poderia ser útil a outras pessoas. Por que guardar tudo para si?

Compartilhe! Pode ser artigos, um material bem trabalhado, feito com pesquisa e mais longo, ou comentários rápidos a partir de algo que ficou sabendo. Os dois são importantes para construir uma boa reputação na rede, por diferentes motivos.

Os artigos têm vários pontos positivos. O primeiro deles é que você tem liberdade para desenvolver sua tese plenamente: não há restrição de espaço ou de uso de recursos multimídia, como vídeos, áudios e imagens. Além disso, eles ficam permanentemente associados aos nossos perfis no LinkedIn, sendo facilmente resgatados. Por conta de tudo isso, eles normalmente têm excelente engajamento (curtidas comentários, compartilhamentos). Mas a sua audiência é normalmente baixa, inclusive porque os algoritmos do LinkedIn diminuíram imensamente as suas ocorrências nos feeds de notícias dos usuários. Mesmo assim, os artigos são a melhor ferramenta para fundamentar a sua autoridade no seu campo de atuação.

Já as atualizações (ou posts) são o contraponto perfeito. Graças ao algoritmo de relevância, eles costumam ter uma audiência bastante grande, apesar de apresentarem engajamento proporcionalmente baixo. Além disso, são como estrelas cadentes: brilhantes, porém fugazes. Se os outros usuários os virem no dia em que foram publicados, ótimo! Caso contrário, provavelmente nunca mais terão essa chance. Portanto, as atualizações são ótimas para manter você em evidência na rede.

Dessa forma, o ideal é publicar artigos de vez em quando e atualizações frequentemente. Essa é a melhor combinação de qualidade com evidência!

Claro que ainda há a questão de o que e como escrever os artigos e as atualizações. Mas nem mesmo esse artigo seria suficiente para explicar. Fica para uma conversa comigo pessoalmente. É só marcar!

Com tudo isso, o LinkedIn é certamente a melhor ferramenta para você atingir seus objetivos profissionais e até pessoais. Pode ser seguramente a sua melhor mídia (e você nem precisa pagar por ela). Mas não existe almoço grátis: é necessário um perfil bem construído, relacionamento com as pessoas e produção de conteúdo.

Parece muito trabalhoso, parece demasiadamente difícil. Você pode até achar que não é para você. Mas acredite: é como aprender a andar de bicicleta! Todos podem fazer isso e, quando se aprende (e não demora), a coisa fica bem prazerosa. E recompensadora! O que está esperando?


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Por que não podemos abrir mão de uma BOA imprensa para vivermos

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Equipe do “Washington Post”, com Bradlee (de azul com copo na mão) e Grahams (à direita dele), no filme “The Post” - Foto: divulgação

Equipe do “Washington Post”, com Ben Bradlee (de azul com copo na mão) e Katharine Graham (à direita dele), no filme “The Post”

Você acha que o noticiário anda um saco, e que está ficando difícil saber o que é verdade em um mundo de versões que atacam ou defendem tudo e todos, a toda hora? Você deveria então assistir a “The Post – A Guerra Secreta” e refletir, afinal, qual é o papel de cada um de nós nessa bagunça, e por que temos -todos- que fazer algo além de ficar reclamando, se não quisermos ver o país (e nós mesmos) afundando cada vez mais na lama.

Sim, cada um e todos nós!

Ele não é, portanto, um filme só para jornalistas, e sim para qualquer pessoa que se preocupe como grupos políticos, econômicos ou ideológicos manipulam, cada vez mais, a população, para fazer valer seus objetivos. E também para entender como uma BOA imprensa é essencial para escaparmos dessa situação dantesca. Se você ainda não se preocupa com isso, deveria começar agora mesmo. Explico.


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Peguemos o caso, por exemplo, das odiosas “fake news”, as “notícias” falsas que parecem mais verdadeiras que o noticiário de fato. Talvez, lá atrás, elas tenham surgido como molecagem de alguns, mas uma turma do mal rapidamente percebeu que elas eram uma poderosíssima ferramenta de manipulação pública.

O sórdido processo é relativamente simples. Primeiramente, cria-se a “notícia” misturando fatos verdadeiros a distorções e uma pitada de mentira deslavada. Tudo bem arquitetado para se atingir o objetivo do grupo. Identificam-se então pessoas comuns (mas que sejam pequenos formadores de opinião) que gostariam que aquilo fosse mesmo verdade, qualquer que seja o seu motivo pessoal. “Planta-se a notícia” para essas pessoas, que rapidamente começam a espalhar a novidade. Pela sua posição de relativo destaque, a mentira cai nas graças dos algoritmos das redes sociais, que passam a fazer o trabalho sujo de espalhar as “fake news” explosivamente.

Como se pode ver, a coisa começa com os grupos que criam essas versões e terminam nos algoritmos das plataformas digitais. Mas a peça essencial para seu sucesso são as pessoas, que acreditam, espalham e se engajam com a porcaria.

Mas há ainda um outro ator crítico: a mídia.

 

Onde está a boa imprensa?

Esse não é um artigo para atacar ou defender a mídia, ultimamente bastante alvejada por conservadores e liberais (os termos “direita” e “esquerda” perderam seu significado no Brasil há muitos anos). Em muitos casos, isso é com razão. Da mesma forma, existem bons e maus exemplos de veículos em todas vertentes, seja na “mídia tradicional”, seja na “nova mídia”.

Não vou entrar muito no mérito dos maus exemplos, veículos jovens ou com décadas de estrada que envergonham o jornalismo, criando um conteúdo claramente alinhado com agendas de grupos econômicos, políticos ou ideológicos. A esses, deixo meu desprezo. E, pelo jeito, não estou sozinho, dada sua situação econômica ladeira abaixo de muitos títulos.

Claro: as pessoas não são trouxas!

O que quero tratar aqui é a falta que faz um noticiário de alta qualidade para se contrapor às “fake news”. Pois, por mais que elas sejam bem construídas, só estão fazendo sucesso porque ocupam o espaço que deveria ser do noticiário de fato. Mas este está com uma qualidade sofrível, rasteira, previsível, quando não deliberadamente comprometida. Está parecendo novela, que, mesmo que fiquemos dias sem a assistir, conseguimos retomar sem nenhuma novidade, pois os capítulos são todos iguais e desimportantes: puro enchimento de linguiça!

É aí que “The Post” pode ensinar algo a todos nós. Resumidamente o filme conta a história real de como The Washington Post arriscou tudo em 1971 ao publicar documentos ultrassecretos que escancararam à opinião pública americana como o governo lhes mentia escandalosamente há décadas sobre o conflito no Vietnã. Mas isso só foi possível graças ao profissionalismo da Redação capitaneada por Ben Bradlee (vivido por Tom Hanks) e pela coragem da publisher Katharine Graham (Meryl Streep).


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O esforço de reportagem foi árduo, os dois poderiam ter terminado na cadeia, tiveram que lutar contra toda a diretoria da empresa, e o jornal poderia até mesmo ter quebrado. Tudo por causa de uma reportagem! Mesmo assim, foram em frente, prestando um grande favor a seu país, batendo alguns pregos (mas não os derradeiros) nos caixões do governo Nixon e da Guerra do Vietnã.

 

Quem tem coragem e estômago para isso agora?

Há duas semanas, escrevi aqui outro artigo mencionando como as mudanças recentes no algoritmo do Facebook podem piorar o jornalismo. Parte do problema se deve ao fato de que as pessoas preferem compartilhar conteúdos “fáceis”, que não as tirem de suas zonas de conforto. Decorrente disso, vem outra parte, pois a mídia, para tentar fazer com que as pessoas continuem compartilhando o que produz, pode começar a dar anda mais atenção a “fofuras”, em detrimento do jornalismo mais denso e necessário. Tragédia anunciada!

É claro que podemos postar e curtir coisas divertidas de vez em quando: isso também nos torna humanos. Mas não podemos interagir apenas com isso! Precisamos nos acostumar e incentivar quem estiver a nossa volta a também interagir a valer com o noticiário que nos tire da zona de conforto e que nos torne cidadãos melhores!

Mas, para isso, esse noticiário de alta qualidade tem que existir. E, de maneira geral, ele é tanto melhor quando mais difícil for sua produção. A imprensa precisa, portanto, fazer por merecer, e parar de ficar apenas comendo na mão de grupos políticos (conservadores ou liberais), econômicos ou ideológicos, seja por preguiça, seja por incompetência ou -pior- porque está “vendida” mesmo. E resistir à tentação de ficar proliferando “conteúdo fácil”.

Em resumo, precisamos de mais Ben Bradlees e de mais Kat Grahams: esse não é um negócio para amadores ou para frouxos.

Quanto a nós, precisamos parar de acreditar piamente no que aqueles que gostamos nos dizem. Também temos a obrigação de sair da nossa zona de conforto e perceber que o mundo não é preto e branco, e desconfiar saudavelmente até do nosso guru. Esse é o nosso papel para construirmos um mundo melhor para nossos filhos.

Mãos à obra todos!


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Como o Facebook pode piorar o jornalismo e deixar as pessoas na ignorância

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Foto: Venkat Mangudi/Creative Commons

Na quinta passada, o Facebook anunciou mais uma mudança no seu algoritmo de relevância: os usuários passarão a ver mais o que seus amigos e familiares postarem, e menos o que vier das páginas que curtem. Parece uma bobagem, mas isso terá impactos significativos em muitos negócios e -pasmem!- em como a humanidade se informa. Você está pronto para isso?

Não é um exagero! Qualquer ação, por menor que seja, de algo que tem mais de 2 bilhões de usuários ativos, sendo que mais de 60% deles acessam o sistema todos os dias, tem um impacto social profundo. É como um elefante querendo coçar as costas em uma árvore: por mais que queira só se coçar, pobre árvore!


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No caso do anúncio da turma do Mark Zuckerberg, a justificativa oficial é “aproximar mais as pessoas”. Justo! E isso pode acontecer mesmo, mas, quanto disso é o real objetivo, quanto é só um discurso bonito, só eles sabem. Mas algumas transformações imediatas acontecerão.

A primeira coisa é que realmente a audiência das fan pages despencará. E isso será muito ruim para empresas que dependem muito do Facebook para seus negócios. Você pode até dizer que é a “hora da verdade” para esse pessoal, que até agora surfou na bonança criada pela rede. Pode ser! Mas isso demonstra o poder de “vida ou morte” desse “dono da bola”.

Restará às empresas duas alternativas. A primeira mais simples -e cara: pagar ao Facebook para “impulsionar” suas publicações. Isso é muito bom para o negócio da rede social, e bastante fácil no seu entendimento.

A segunda alternativa é tentar convencer as pessoas a elas mesmas distribuírem o conteúdo dessas empresas, por sua própria iniciativa. No mundo perfeito da justificativa oficial do Facebook, isso é bacana, pois, se a pessoa estiver fazendo isso, é porque tal conteúdo lhe é interessante.

E é aí que o elefante -ou a porca- pode torcer o rabo com força!

 

Jogo de interesses

Mesmo naquele mundo perfeito, é pouco provável ver pessoas compartilhando produtos. Com exceção dos apaixonados por marcas como Apple, convenhamos: não é normal, certo? Então, de cara, o varejo que vá preparando o seu espírito.

Entretanto a coisa muda bastante de figura quando pensamos em conteúdo editorial, em notícias, em entretenimento. No cenário idílico acima, os usuários compartilhariam conteúdos que fossem relevantes, provocando debates positivos. Até mesmo poderia ser uma ferramenta bacana para informar todos eficientemente.

Só que desgraçadamente isso não vai acontecer.

E o motivo é muito simples: quem disse que as pessoas querem criar debates em torno de temas que sejam realmente importantes? As pessoas querem falar sobre aquilo que lhes dê prazer imediato, e de preferência fácil, mesmo que seja a mais rotunda porcaria! E não estou fazendo aqui nenhum julgamento moral. Todos nós fazemos isso uma hora ou outra: faz parte da nossa natureza humana!

Para piorar, a recíproca é válida. Muitas informações que são realmente importantes para nosso desenvolvimento como indivíduo, cidadão, profissional vêm carregadas de um esforço para serem digeridas. Em muitos casos, elas são chatíssimas e exigem que abandonemos a nossa zona de conforto. Mas precisamos que alguém nos traga isso!

Essa é tradicionalmente a função da (boa) imprensa. Os jornais não nos mostram só coisas que gostamos: eles nos mostram também o que precisamos saber. Pois além de informar, eles precisam também formar o cidadão, mesmo que isso seja “chato” às vezes.

E aí chegamos à ironia dos fatos! Os veículos de comunicação hoje dependem pesadamente do próprio Facebook para gerar audiência para suas propriedades digitais. Na média, dá para falarmos em metade disso vindo dos algoritmos de Zuckerberg. Junte esse gosto pelo “conteúdo fácil” e os veículos sendo obrigados a implorar que os usuários compartilhem seu conteúdo, o que pode acontecer?

Um mundo cada vez mais dominado pelo jornalismo rasteiro, “fake news” e pessoas mantidas na ignorância.

 

Samba do crioulo doido

O Facebook pode ter criado uma forca, e os veículos podem estar alegremente colocando seu pescoço na corda. Não podemos deixar esse nó apertar, mesmo que isso seja chato!

Assim como Stanislaw Ponte Preta ironizou com seu samba a obrigatoriedade das escolas de samba só criarem enredos com fatos históricos (e a porcaria decorrente disso), os veículos não podem cair na tentação de investirem ainda mais nos caça-cliques para fazer o público lhes ajudar a garantir a audiência.

Mas nem tudo está perdido! Há uma solução, que depende de três atores principais.

O primeiro deles é o próprio Facebook. Ele tem o direito de alterar seus algoritmos como bem entender: afinal, é um produto que tem interesses comerciais. Mas, como já disse acima, ele tem uma paquidérmica função social, que não pode ser ignorada. Curiosamente, em seu já afamado desafio pessoal de início de ano, Zuckerberg publicou seu desejo de “consertar o Facebook” em 2018, inclusive para que seus recursos não sejam usados para disseminação de ódio e notícias falsas.

A mudança no algoritmo acima vai contra objetivo. Porém a empresa pode compensar essa mancada potencial com outras iniciativas que valorizem verdadeiramente conteúdo de qualidade, e não apenas “que provoquem conversas”, pois as conversas podem ser de baixo nível, em torno de coisas ruins. Precisam criar recursos que combatam o “fake news”. E, justiça seja feita, a empresa já vem trabalhando nisso, inclusive porque tem sido pesadamente criticada por sua omissão diante desse mar de lama em suas páginas.

O segundo ator é a própria mídia. A imprensa marrom sempre existiu e sempre existirá, mas ela jamais pode superar a imprensa séria, que informa e forma com precisão e responsabilidade. Nesse cenário, o papel da mídia é, portanto, resistir ao caminho mais fácil e sedutor do lado sombrio para ganhar uns cobres, e exaltar a ética e os pilares do bom jornalismo. Pois, se isso for oferecido em grande quantidade, aumenta a chance de as pessoas disseminarem mais bom que mau conteúdo.

Por fim, resta o mais importante de todos os atores: nós mesmos! Pois nós somos o vetor de tudo que se trafega nos meios digitais. Pela nossa humanidade, podemos ser o elo mais frágil, movidos pelas nossas paixões e porque é gostoso ficar em nossa zona de conforto. Mas também temos que resistir! Além disso, cabe a cada um de nós ajudar quem estiver a nossa volta a fazer o mesmo, convidando todos a tirar o senso crítico da gaveta, a não compartilhar nada antes de ler, a desconfiar (saudavelmente) sempre, a ouvir e criar um diálogo construtivo com aqueles que pensam diferentemente de nós, praticando a tolerância e a empatia.

Se esses três fizerem bem a sua parte, mudanças nos algoritmos das redes sociais terão impactos apenas pontuais, e elas, ao invés de se tornarem palco de ainda mais conteúdo rasteiro, poderão se consolidar como um espaço de compartilhamento de boa informação, construção de cidadania e debates construtivos.


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Quais são (ou deveriam ser) os limites da publicidade invasiva?

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Outdoor interativo e com realidade aumentada no filme “Blade Runner 2049”: a realidade já se aproxima da ficção – Foto: divulgação

Outdoor interativo e com realidade aumentada no filme “Blade Runner 2049”: a realidade já se aproxima da ficção

Os meios digitais provocaram uma incrível revolução na publicidade. É verdade que, para alguns casos, uma grande, cara e indiferenciada campanha de marketing de massa, daquelas que passam no break da novela e do Jornal Nacional, ainda faz sentido. Entretanto a publicidade migra continuamente para peças criadas para cada indivíduo, a partir do cruzamento das pegadas digitais que deixamos cada vez mais por toda parte, conscientemente ou não. Isso é bacana para o anunciante e para o consumidor, pois as peças trazem, em tese, produtos do interesse de ambos. Mas você já sentiu que às vezes esse negócio está invadindo a sua privacidade?

Se sentiu, você não está sozinho! E, de certa forma, é isso mesmo que acontece. O fato é que a privacidade, como nós conhecemos há alguns anos, morreu! Mas isso não é necessariamente algo ruim. A novidade é que isso está extrapolando os limites das redes sociais, dos buscadores e dos smartphones, as principais ferramentas para essa arapongagem digital, sobre as quais muita gente já está ciente. A coleta de informações sem aviso prévio vem acontecendo também, por exemplo, em TVs e até em outdoors!


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Peguemos como exemplo o tradicional telão publicitário em Piccadilly Circus. Essa verdadeira atração turística de Londres, lançada em sua primeira versão em 1908, foi reinaugurada na semana passada (como pode ser visto na reportagem no vídeo acima).  Ele agora funciona com uma impressionante tela Ultra HD de 790 metros quadrados, que exibe campanhas de diferentes marcas. O telão ainda oferece WiFi grátis para a região. Mas a grande novidade são câmeras escondidas na estrutura, que continuamente capturam as imagens das pessoas e dos carros que passam a sua frente, assim como as condições climáticas.

Essas imagens são usadas para personalizar as peças exibidas na tela em tempo real. Por exemplo, se um tradicional ônibus londrino de dois andares vermelho passa por ali, todas as peças podem adotar esse tom. Se ele for seguindo por um carro amarelo, as peças passam a ser amarelas. Divertido, né?

As peças também refletem as pessoas que estiverem ali na hora! O sistema continuamente verifica o gênero e a faixa etária dos pedestres. Mais que isso, tenta identificar a emoção dos indivíduos fazendo uma análise de suas expressões. Tudo isso para que a publicidade se adapte ao público.

A Landsec, empresa responsável pelo sistema, afirma que as informações não são armazenadas e nem cruzadas com outros bancos de dados para identificar as pessoas ali. Mas em uma cidade conhecida por ter a maior quantidade de câmeras em ambientes públicos do mundo, usadas, por exemplo, pela polícia para procurar automaticamente suspeitos a partir de algoritmos de reconhecimento facial, a única coisa que a impede de fazer isso é o respeito a questões éticas.

Afinal, ao contrário de redes sociais e smartphones, em que as pessoas ainda precisam aceitar “termos de uso” desses produtos, com os quais autorizam (quase sempre sem ler) o uso de suas informações pessoais para fins comerciais, isso não acontece com o telão.

Para andar na rua, ninguém assina termo algum, certo?

 

“Mi casa, tu casa”

Ninguém assina tampouco termo algum para assistir televisão. Mas as nossas smart TVs também podem estar nos espionando.

Não se enganem: as TVs atuais que compramos para nossas casas são poderosos computadores conectados permanentemente à Internet. E, ao contrário do que parecem, elas nunca estão totalmente desligadas. Tanto que muitos modelos podem ser ligados a partir de comandos de voz. Em outras palavras, mesmo com suas telas apagadas, as TVs com microfones estão nos ouvindo o tempo todo. E as que têm câmeras também podem estar nos vendo.

Acontece que, ao contrário do que é feito em smartphones e especialmente em computadores, não tomamos providências de segurança com nossas TVs. Ou alguém instala antivírus ou firewalls nelas? Os fabricantes tampouco parecem se preocupar muito com isso, pois as informações capturadas pela TV sequer são criptografadas antes de serem transmitidas.

Nada impede que um hacker invada a nossa TV e acione esses recursos para coletar informações pessoais. Muito mais provável é o próprio fabricante coletar informações dos usuários para decisões comerciais. E isso não acontece só em casa.

Por exemplo, as TVs expostas no varejo podem tentar identificar, a partir de sua câmera, o gênero e a faixa etária das pessoas que ficam diante de cada tela. Ou seja, enquanto as pessoas estão analisando a qualidade da imagem do modelo, a TV está analisando a pessoa, tentando identificar que tipo de público é atraído por cada modelo em cada loja específica. Essa informação é muito valiosa para definir o mix ideal de produtos para cada ponto do varejo, e até mesmo o volume de produção nas fábricas.

Portanto, antes de fazer na frente da TV algo que possa se arrepender depois, pense duas vezes: ela pode estar vendo tudinho!

 

O que nos resta?

Não estou pintando aqui nenhum futuro (ou presente) apocalíptico. Quem me conhece sabe que eu sou um entusiasta da tecnologia e do uso criativo de informações pessoais para criar produtos e ofertas que sejam benéficas para todos, especialmente para o dono dessas informações, o consumidor.

Já fui executivo de várias multinacionais que coletam informações de seus consumidores das mais diferentes formas. E sempre notei um uso ético delas.

Aliás, ética é uma palavra que ganha importância a cada dia que passa. Justamente porque as empresas têm, cada vez mais, recursos para coletar tais informações, e tirar conclusões impressionantes sobre cada um de nós, graças a algoritmos mais e mais sofisticados e capacidade de processamento gigantescas e crescentes.

Logo, a tentação para cruzar o limite do razoável é imenso! Até onde podem ir? Até onde disseram que iriam quando iniciaram o relacionamento com cada um de nós. E que tenhamos explicitamente concordado (mesmo não lendo os termos).

Sendo bem sincero, quem tem tanto poder nas mãos só não avança o sinal se não quiser. E se sua ética (e seu “compliance”) não permitir (e for obedecida). Mas honestamente não precisam disso! Os benefícios para as empresas e para o consumidor já serão incríveis fazendo apenas um uso ético do que já têm.

Quanto a cada um de nós, claro que não vamos deixar de usar nenhum desses produtos. Não dá para ser feliz tomado eternamente pela paranoia, e a vida seria praticamente inviável no mundo atual sem todos esses serviços digitais. Mas precisamos, pelo menos, ser conscientes do que estamos entregando e principalmente a quem.

Tem muito picareta por aí.


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Não olhe agora, mas você pode estar financiando um terrorista

By | Jornalismo | One Comment

Imagem: montagem sobre reprodução

Há alguns dias, cerca de 250 grandes empresas, como McDonald’s, Volkswagen, L’Oreal, e HSBC, disseram que estavam deixando de anunciar em produtos do Google, como o YouTube. O motivo: seus anúncios estavam aparecendo em vídeos que promoviam terrorismo, racismo e outros conteúdos para lá questionáveis. Você pode estar se perguntando: “e o que eu tenho a ver com tudo isso?”

Muita coisa!

Longe de ser apenas uma questão comercial, essa crise potencialmente pode mudar a Internet como a conhecemos. Em uma situação extrema, muitos serviços comuns em nosso cotidiano, que hoje são gratuitos, poderiam passar a ser pagos. Mas algumas atitudes simples nossas podem evitar isso.


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Para quem não sabe do que se trata tudo isso, uma breve explicação. Pelo método criado pelo Google e largamente adotado é copiado por empresas na Internet, os anunciantes não sabem exatamente em que conteúdo sua publicidade aparecerá. Eles cadastram suas peças e dão diretrizes ao sistema sobre assuntos aos quais as peças devem ser associadas. Mas quem define esse destino, em última instância, são os algoritmos do Google e das outras empresas que vendem publicidade digital, pois se trata de um processo automatizado.

Justamente nisso reside o maior poder do marketing digital. Graças a esses algoritmos, a chance de um anúncio aparecer associado a um conteúdo que tem forte relação com ele aumenta muito. E existem literalmente milhões de páginas e vídeos disponíveis para isso. Consequentemente a probabilidade de o anúncio ser relevante para a pessoa que está vendo tal conteúdo aumenta muito! Logo, as vendas do anunciante tendem a ser muito maiores que as feitas com uma publicidade tradicional.

Mas os algoritmos não são perfeitos. Muitas vezes, o anúncio acaba sendo exibido junto a conteúdos que não têm relação com ele. Pior que isso: pode ser exibido associado a conteúdos que nem deveriam estar na plataforma, como os que estão causando toda essa celeuma.

Mas qual é o real tamanho desse problema?

 

Tempestade em copo d’água

A retirada das campanhas do Google vazou para a imprensa, que botou a boca no trombone. Ao meu ver, a reação desses anunciantes é um tanto exagerada. Pode-se argumentar que é uma questão de princípios: nem um único banner deve ser associado a uma atividade ilícita. Até aí, tudo bem. Mas a repercussão na imprensa deu a entender que o Google é inundado de conteúdos pró-terrorismo e que os banners dos seus anunciantes estariam viabilizando atividades do Estado islâmico e sua turma, o que evidentemente é um despropósito.

Porém isso foi suficiente para criar possivelmente a maior crise de reputação que o Google já teve. E isso pode colocar em risco todo o seu modelo de negócios e a internet como a conhecemos. Afinal, podemos usar gratuitamente os seus diversos produtos justamente porque eles são bancados pela publicidade. E quanto mais os usamos, mais banners são exibidos, gerando mais dinheiro para o Google.

Em outras palavras, ao usar, por exemplo, o YouTube ou o próprio buscador, nós não somos os clientes do Google: somos parte do produto! Os clientes são os anunciantes. E isso vale para todas empresas que vendem publicidade de maneira semelhante, como o Facebook.

Para piorar a confusão, nessas horas sempre aparecem oportunistas.

 

Solução no passado?

No meio da tempestade, o UOL resolveu publicar uma “carta aberta” em que se coloca como a solução para o problema. No documento, o portal joga mais lenha na fogueira, colocando em xeque o modelo da publicidade digital do Google. Pior que isso: usa muita desinformação para confundir ainda mais o público e os anunciantes, como quando sugere que, no marketing digital, o conteúdo deixa de ser relevante. Oras, mas é exatamente o contrário disso! O conteúdo é essencial no processo, pois os algoritmos tentam vincular cada anúncio a um conteúdo semelhante a ele.

Claro que o site se coloca como a solução para o dilema, pois garantiria todo o conteúdo criado por ele e suas centenas de parceiros. Isso é uma falácia, pois o UOL não tem controle editorial sobre nenhum deles, nem pré-aprova o que publicarão. Logo, não pode garantir nada.

Isso me lembra um outro documento, publicado apenas um dia antes pela Folha de S.Paulo, principal acionista do mesmo UOL, em que se coloca como a solução para a crise de notícias falsas que as redes sociais vivem. Segundo a Folha, apenas o jornalismo profissional poderia garantir que tudo o que lemos é confiável e tolerante.

Seria verdade, se o tal jornalismo tradicional praticasse esses valores sempre. Desgraçadamente, vemos, dia após dia, veículos de comunicação tradicionais protagonizando vergonhosos exemplos de imprecisão e distorções causadas por interesses políticos e econômicos. A cobertura da “Operação Carne Fraca”, da Polícia Federal, foi um patético exemplo de como a imprensa profissional pode fazer um péssimo trabalho, desinformando todo o país.

Portanto, muito cuidado com aqueles que promovem soluções oportunistas em algo que estão perdendo feio de concorrentes que estão sob os holofotes no momento.

 

Para onde podemos correr?

É bom que fique claro que esse artigo não pretende defender o Google ou as demais empresas que distribuem grandes volumes de mídia digital de maneira automática, como o Facebook ou a AOL. A ideia aqui é apenas discutir os fatos e propor caminhos para essas empresas, anunciantes e cada um de nós, internautas.

Naturalmente Google e afins têm que dar seus pulos para tentar melhorar dois aspectos essenciais. O primeiro é melhorar os sistemas que varrem automaticamente conteúdos publicados em suas plataformas, como o YouTube, para banir aqueles que são inadequados. Sistemas semelhantes já existem para evitar, por exemplo, que sejam publicados conteúdos que violem direitos autorais, e eles são bastante eficientes.

A outra coisa que precisa ser feita é calibrar os algoritmos que associam os anúncios nele cadastrados a qualquer conteúdo, inclusive àqueles que não estão em suas plataformas (qualquer site pode exibir anúncios vendidos pelo Google e ser remunerado por isso). Dessa forma, o problema seria controlado nas suas duas pontas.

Como se pode ver, existem soluções. É improvável que essa crise se agrave ou mesmo se prolongue por muito tempo. Rapidamente os anunciantes que pularam fora do barco perceberão que esse modelo de publicidade digital é o mais eficiente para que tenham melhor retorno de suas campanhas, resultado de uma evolução contínua de 22 anos de mídia digital.

Portanto, não matemos a vaca para acabar com o carrapato! É claro que banners legítimos não devem ser usados para financiar o terrorismo ou qualquer outra iniciativa moral ou legalmente condenável. Ocorrências assim devem, portanto, ser combatidas, mas não acabando com uma plataforma que redefiniu o mundo da publicidade e do conteúdo, tornando-o um espaço muito mais democrático e eficiente.

Cada um de nós, como usuários, temos o poder e o dever de combater não apenas o mau conteúdo, mas também a má publicidade, que sempre existiram e sempre existirão. Para isso, as próprias plataformas oferecem recursos. Além disso, devemos cobrar que essas mesmas se empenhem para, de seu lado, criar mecanismos ainda mais eficientes para eliminar essas laranjas podres assim que surjam.

Só não podemos cair nessas conversinhas moles de quem está querendo só se promover em cima da crise, propondo uma volta a um passado. Um passado que os próprios usuários já enterraram.


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A Olimpíada, a TV, as redes sociais e os riscos do pensamento único

By | Jornalismo, Tecnologia | 6 Comments
Serginho, eleito o melhor jogador de vôlei da Rio 2016, chora ao receber a medalha de ouro - imagem: reprodução

Serginho, eleito o melhor jogador de vôlei da Rio 2016, chora ao receber a medalha de ouro

A Rio 2016 chegou ao fim, deixando emoções inesquecíveis para todos. Não há como negar que os Jogos foram um grande sucesso! Por 17 dias, foi como se todos os problemas do nosso país tivessem sumido, sendo substituídos por um júbilo olímpico que ocupou a mente e o coração de todos. Mas isso só foi possível por um interessante e perigoso alinhamento entre TV e redes sociais.

Evidentemente os nossos problemas não desapareceram. Apesar de a bandidagem tradicionalmente pegar mais leve em grandes eventos (pois isso é bom para os negócios), quem precisou de um hospital público no período sofreu para conseguir qualquer atendimento, exatamente como acontecia antes dos Jogos. Isso só para ficar nos exemplos da violência e da saúde falida. Então como explicar esse pensamento único que, apesar de ter desempenhado um importante papel de resgate da autoestima do brasileiro, foi quase uma lavagem cerebral?


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A resposta é totalmente midiática. Ou seja, por baixo de tanta alegria, nossas mazelas persistiam. Mesmo assim, televisão e redes sociais praticamente só mostravam as Olimpíadas. E os sentimentos eram sempre positivos.

Estive no Rio nos dias imediatamente anteriores à abertura dos Jogos. Apesar de a cidade estar ainda mais bonita, e de já se ver o volume de turistas aumentando, era fácil notar que ainda faltava muita coisa a ser feita, e que a entrega só se daria nos acréscimos do árbitro. Os exemplos mais emblemáticos foram o metrô para o Parque Olímpico e a Vila dos Atletas, cujos inúmeros problemas ganharam as manchetes no mundo todo.

E a imprensa nacional e estrangeira batia. As delegações batiam. Nós todos batíamos nas redes sociais. Mas o que mais me preocupou naquela visita foi notar que muitos, talvez a maioria dos cariocas, não pareciam dar a menor bola para o que estava prestes a começar, quase como se a Olimpíada fosse acontecer em outro país. E eu sentia uma grande tristeza, pois via que aquelas pessoas estavam jogando fora a chance de algo que provavelmente nunca mais teriam de novo.

Foi quando Vanderlei Cordeiro de Lima acendeu a pira olímpica no dia 5. E o fogo pareceu esterilizar tudo o que havia de ruim.

E ninguém mais bateu.

 

Caixa de ressonância

No dia 5 de janeiro, publiquei aqui um artigo questionando o que restaria à mídia nesse ano que então começava. Em determinado momento disse que a principal cobertura da Rio 2016 ficaria na mão da grande imprensa, particularmente da Globo, pois é um evento que exige imensos investimentos. O que de fato aconteceu.

Mas a Vênus Platinada não foi a única responsável por essa mudança acachapante do pessimismo pelo encanto. As redes sociais tiveram papel determinante na amplificação disso tudo.

Como acontece em muitas ocasiões, a grande imprensa foi a origem do noticiário, enquanto as redes sociais funcionaram como perfeitas caixas de ressonância. Entretanto, como não se via há anos no Brasil, dessa vez todos foram juntos para um único lado. Não havia embates entre coxinhas e petralhas, nada de Corinthians versus Palmeiras, nem sinal de motoristas contra ciclistas.

Agora eram todos olímpicos, indo na mesma direção e no mesmo sentido. A TV cumpria seu papel de fornecer material. E as redes sociais transformavam aquelas imagens em um fator de união nacional.

Foi lindo! Esse povo sofrido precisava disso… Mas que medo!

 

Diferentes unanimidades

O grande Nelson Rodrigues, pernambucano de nascimento, mas fervoroso torcedor do Fluminense, disse a célebre frase “toda unanimidade é burra”.  E arrematou: “Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”.

Isso é uma dolorosa verdade quando vamos todos para o mesmo lado só porque a manada está indo para lá. Quando vamos a um restaurante porque os críticos o elogiam. Quando metemos o pau na Seleção Brasileira porque está jogando muito mal, e passamos a enaltecê-la quando continua ruim, mas melhora só um toquinho, o suficiente para o Galvão Bueno voltar a soltar seus infames bordões ufanistas. Afinal, o show tem que continuar!

É verdade que o futebol masculino brasileiro acabou ganhando o inédito ouro. Mas, para isso, tivemos que ouvir Neymar dizer a todos que “vocês vão ter que me engolir”, e depois partir para a agressão física contra torcedores ainda com a medalha no peito, dentro do Maracanã.

Esse é um preço muito alto por esse ouro. Não quero ter que engolir o galinho de briga, só porque a maioria diz que ele é um craque. Não estou impondo, com isso, o que eu acho sobre Neymar. Posso estar errado, afinal, e tenho que aceitar isso. Assim é a democracia, liberdade de pensamento, livre arbítrio.

Quero ter o direito de questionar, mas preciso aceitar quem pensa diferente de mim. Esse é o alicerce para tentar chegar a outra unanimidade, a inteligente. Que também pode falhar, mas que sempre constrói algo de bom ao contrapor pensamentos diversos e livres.

Por isso, sou muito mais Serginho, eleito o melhor jogador do torneio de vôlei da Rio 2016, com uma carreira muito mais campeã que a de Neymar, mas que, assim mesmo, se desfez em um choro muito humilde ao ganhar sua medalha de ouro. Um bom exemplo, afinal, para futuros atletas e para toda a sociedade.

Isso aconteceu no último dia da Olimpíada. Coincidentemente, nesse dia as redes sociais voltaram a apresentar divergência de pensamentos, patrocinados por esses comportamentos tão distintos desses dois atletas. Prefiro assim: redes sociais promovendo pensamentos diferentes, mesmo sob risco de polarizações (mas sem insanidades).

Já estou com saudades da Rio 2016! Não porque me cegou, mas porque me permitiu continuar vendo o mundo de diferentes maneiras, além do óbvio. Essa discussão foi mais um de seus legados. Agora é arregaçar as mangas para tentar resolver os problemas que estão aí. Aliás, de onde nunca saíram.


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Como o Facebook ficou “maior” que a Internet e como isso afeta você

By | Educação, Jornalismo, Tecnologia | 4 Comments

Foto: Philippe Put/Visualhunt.com/Creative Commons

Não é novidade dizer que o Facebook é a maior rede social do mundo, com mais de 1,5 bilhão de usuários. Para muita gente, ele é maior que a própria Internet! Mas esse erro de análise não é inócuo: ele está causando impactos decisivos na vida de todos nós, e pouca gente parece perceber isso.


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Hoje pouco mais de 20% da população mundial acessa a rede de Mark Zuckerberg pelo menos uma vez por mês. Mas estudos feitos em países em desenvolvimento pela LIRNEasia e pela Geopoll indicam algo bizarro: pessoas estão afirmando que usam o Facebook mas NÃO usam a Internet, ignorando o fato de que o primeiro roda sobre a segunda, seja na Web, seja em um app no smartphone.

Até seria legítimo pensar que usuários do aplicativo do Facebook, por não precisarem de um navegador Web, vejam aquilo como algo apartado da Internet. Mas o fato é que, mesmo em países desenvolvidos, para muitos usuários, o Facebook parece ser tudo o que eles precisam de conteúdo online.

Bom, e daí? Como isso pode afetar você ou eu?

Acontece que isso é apenas um reflexo de como o Facebook se tornou um elemento central em nossas vidas. Ele é a página inicial do navegador de muita gente e é acessado nos smartphones onde estiverem, a qualquer momento. Aliás, é a coisa mais acessada no geral.

Entram em cena os algoritmos de relevância no feed de notícias.

Nem todo mundo sabe que o Facebook não mostra na página de abertura de cada usuário tudo que seus amigos e páginas que segue publicaram no dia: isso nem seria possível, dado o enorme volume de conteúdo. O sistema então seleciona aquilo que ele considera relevante para mostrar a cada um de nós.

E aí é que mora o perigo.

 

Dono da “verdade”

A escolha do que é exibido a cada usuário é um dos segredos mais bem guardados do Facebook. Claro que coisas como ser amigo de alguém e se relacionar bem com essa pessoa (coisas como clicar, curtir, comentar e compartilhar o que ela publica) têm enorme peso nessa decisão. Mas não é tudo: há um “molho secreto” temperando as zilhões de combinações possíveis.

O problema é que isso pode ser manipulado. E a própria empresa já admitiu ter feito isso pelo menos uma vez.

Em 2012, o pesquisador do Facebook Adam Kramer e sua equipe realizaram um estudo, demonstrando que é possível “transferir estados emocionais” a pessoas simplesmente manipulando o que elas veem online. Por análise semântica, os feeds de 689.003 usuários (1 a cada 2.500 na época) foram manipulados pelo sistema por uma semana. Metade deles ficou sem receber posts negativos; a outra metade não viu nada positivo.

O resultado foi assustador: análises automatizadas comprovaram que pessoas expostas a posts neutros ou positivos tendiam a fazer posts mais positivos, enquanto as expostas a posts neutros ou negativos tendiam a fazer posts mais negativos!

Ou seja, Kramer atuou decisivamente no humor de quase 700 mil pessoas deliberadamente manipulando seus feeds de notícias. O paper foi publicado na prestigiosa “Proceedings of the National Academy of Sciences of USA”. A despeito do resultado impressionante, ele admitiu que fez a pesquisa sem pedir autorização prévia das “cobaias”, o que é antiético. Na época, isso provocou uma enorme gritaria. O Facebook foi obrigado a vir a público pedir desculpas: “não queríamos magoar ninguém”, disse a porta-voz.

Mas eles quiseram, sim! Bom, pelo menos com metade da amostra.

 

O mundo inteiro cabe aqui

Apesar daquele deslize ético pontual, quero crer que os algoritmos do Facebook trabalham para realmente identificar conteúdos que sejam relevantes para cada um dos seus usuários. Isso porque o sucesso da empresa depende de as pessoas usarem mais e mais os seus produtos, e isso só acontecerá se eles se demonstrarem úteis a elas.

Assim, o Facebook precisa, de alguma forma, demonstrar comprometimento com os interesses das pessoas. O que não quer dizer que tenha que fazer o mesmo com as marcas que utilizam a plataforma para promover seus produtos e serviços.

O sucesso dessa empreitada pode ser medida por outro comportamento dos usuários: cada vez mais, eles consomem todo tipo de conteúdo dentro do próprio Facebook. A plataforma se transformou em uma gigantesca banca que promove de tudo. Ou seja, as pessoas começam a ver um mundo filtrado pelo algoritmo do feed de notícias.

É verdade que, desde sempre, nós vemos notícias filtradas. Antes dos algoritmos, esse trabalho era feito pelos jornalistas dos grandes veículos de comunicação. A vantagem é que, por essa curadoria ser feito por pessoas, ela evita destacar alguma grande barbaridade. A desvantagem é que todos recebem o mesmo “recorte” do mundo, independentemente de seus interesses pessoais. Os consumidores é que têm que se adequar à linha editorial dos veículos que escolherem.

Com todo o conteúdo sendo consumido “dentro” do Facebook –e isso é reforçado pelos “artigos instantâneos” e pelo comportamento de carregar páginas de qualquer fonte encapsulado no seu próprio aplicativo nos smartphones– quanto faltará para as pessoas deixarem de dizer, por exemplo, “vi na Folha” para começar a dizer “vi no Facebook”, mesmo para conteúdo da própria Folha?

Não cabe aqui apontar o dedo para o Facebook: ele está colhendo os resultados de seu trabalho bem feito. Não há dúvida que isso é ruim para os produtores de conteúdo, que veem suas marcas perdendo força. Mas eles estão exatamente na posição em que se puseram, por não conseguir se adaptar à nova realidade de seus públicos. Não lhes resta muito a fazer agora além de dançar as músicas do Facebook, do Google e da Apple, com suas plataformas de publicação hiperpopulares.

Fica a dúvida se isso é bom ou ruim para cada um de nós, usuários. Se os algoritmos forem “bonzinhos”, sorte nossa! Entretanto, ser capaz de se informar por fontes distintas e aprender a interpretar criticamente o que se consome deveria ser uma das competências mais importantes a ser ensinadas nas escolas, para a formação de um cidadão consciente. Pois é assustador imaginar uma empresa ditando o que 1,5 bilhão de pessoas devem ver, e todas elas consumindo isso cegamente.


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Morre outra vítima da imprensa

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Fachada da antiga Escola Base, que foi depredada pela população após denúncias infundadas veiculadas pela imprensa - Foto: reprodução

Fachada da antiga Escola Base, que foi depredada pela população após denúncias infundadas veiculadas pela imprensa

Na quinta, foi divulgada a morte de Icushiro Shimada, ex-dono da Escola Base e vítima de um erro generalizado da imprensa, que destruiu as vidas de sua família e de seus sócios e funcionários. O assunto virou um case que é estudado nas faculdades de jornalismo, mas profissionais e veículos continuam escorregando na ética e publicando denúncias sem a devida checagem. E as redes sociais só fizeram piorar esse comportamento.

Para quem não se lembra, em março de 1994, sócios e funcionários da Escola Base, localizada no bairro da Aclimação (São Paulo), foram acusados por mães de alunos de abusar sexualmente de crianças de um a seis anos de idade. Um laudo não-conclusivo do IML informava que as fissuras eram “compatíveis com ato libidinoso”. Isso foi suficiente para o delegado Edélcio Lemos, responsável pelo caso, convocar a imprensa e botar a boca no trombone, condenando os envolvidos sem qualquer julgamento. Iniciado no Jornal Nacional, o denuncismo se espalhou por toda a imprensa da época, exceto a TV Cultura e o finado Diário Popular, que não embarcaram por acharem que não havia provas.

Capa do extinto Notícias Populares, colocando ainda mais lenha na fogueira, de maneira totalmente irresponsável - Foto: reprodução

Capa do extinto Notícias Populares, colocando ainda mais lenha na fogueira, de maneira totalmente irresponsável

Graças ao noticiário, a escola e as casas dos acusados foram depredadas e saqueadas pela população. Eles faliram e tiveram que se mudar, pois chegaram a ser ameaçados de morte em telefonemas anônimos. Porém, quando a investigação foi concluída, “surpresa” geral: nunca houve qualquer tipo de molestamento sexual às crianças. As tais fissuras encontradas eram causadas apenas por diarreia. Mas o estrago já estava feito e os acusados para sempre foram condenados pela imprensa, por mais que tenham sido inocentados pela Justiça. Pediram indenizações do Estado e de veículos de mídia; algumas delas foram pagas depois de longos recursos, outras ainda não. Shimada morreu pobre, vítima de um infarto no último dia 16 de abril, assim como sua mulher, que morreu de câncer em 2007.

O comportamento profissional irresponsável e vergonhoso desse caso deveria ser suficiente para que casos assim não voltassem a acontecer. Não me refiro apenas a algo com essa magnitude, que não acontece tanto (mas desgraçadamente ainda acontece), mas também a falhas supostamente menores (mas não menos antiéticas) que estão no noticiário todos os dias.

A busca pelo “furo”, uma notícia exclusiva capaz de aumentar a audiência de um veículo, é como uma corrida por uma medalha de ouro. É legítima e bem-vinda. Mas não pode ser justificativa para atropelos. Mas é justamente isso que acontece: tudo parece ter virado uma “fonte confiável”. E, quando a blogosfera explodiu, lá pelo ano 2000, veículos começaram a usar até blogs obscuros como fonte. À medida que as redes sociais ficaram mais importantes, elas começaram a ocupar esse espaço.

Um caso recente que ilustra bem isso foi o do tal jornalista dinamarquês que teria vindo ao Brasil para cobrir a Copa do Mundo, mas “desistiu de seu sonho” e voltou para seu país depois de se deparar com as nossas mazelas sociais. Esse assunto resultou em longos debates no Facebook (até aí, tudo bem) e chegou a pautar vários veículos, que compraram a historinha como verdade (aí tudo mal!) e publicaram vários artigos (inclusive algumas toscas bravatas nacionalistas). Mas a história não era séria (pelo menos, não totalmente): um resumo da confusão pode ser visto neste post (que, por sinal, teve que ser atualizado após a publicação).

Pressões por dar logo uma notícia, especialmente quando ela é bombástica, sempre existiram, e muitas vezes vêm de fora da Redação. Quando seus concorrentes já estão falando no assunto, fica ainda pior, principalmente em veículos em tempo real, como a mídia online, a TV e o rádio. Mas essa pressão não pode servir de muleta para deslizes. Isso foi muito bem explorado no trecho abaixo, da série da HBO “The Newsroom”:

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=m95qHOmoUXs]

 

Como dizia Gabriel García Márquez, “a pressa é ingrediente desse ofício”, assim como a pressão. Quem não consegue realizá-lo eticamente nessas condições não está apto para o jornalismo. Se a imprensa continuar realizando seu trabalho dessa forma, acabará vítima de si mesma.

A quem (ou para que) serve a mídia?

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Veículo do SBT é vandalizado ao lado da prefeitura de São Paulo, durante as manifestações do dia 17 de junho de 2013

Veículo do SBT é vandalizado ao lado da prefeitura de São Paulo, durante as manifestações do dia 17 de junho de 2013

Nas manifestações que vêm sacudindo o país nos últimos dias, entre suas diferentes bandeiras, demandas e aspirações, uma delas me chamou a atenção particularmente: fora imprensa! Poderíamos pensar que se trata de mais uma reação a tudo que representa um poder instituído, e a mídia certamente se enquadra nisso. Porém, analisando melhor, o buraco é mais embaixo: a população não se sente mais representada pela imprensa. E isso me disparou um alerta.

Nas minhas andanças por esse mundão, pude comprovar a máxima de que uma sociedade é tão mais evoluída quanto mais forte e independente é sua imprensa. Só assim, a sociedade pode ter uma contraposição às ideias hegemônicas difundidas por qualquer governo e ver os fatos de diferentes ângulos. Não é a toa que governos com vocação autoritária tentam cercear ou controlar a imprensa, valendo-se de meios legais ou não, exatamente como temos visto na América Latina na última década.

No Brasil, os veículos que se consolidaram como “grande imprensa” não tiveram origem como representantes de suas comunidades. Os mais antigos eram ligados a oligarquias, como o Estadão, ou até mesmo defendiam o recém-deposto Império, como o Jornal do Brasil. A Folha até que surgiu com a intenção de informar a crescente massa urbana de São Paulo, mas a maioria, nas diferentes mídias, foram apenas títulos lançados com objetivos empresariais (o que não é um problema, que fique claro).

Mas isso é muito diferente do nascimento da mídia nos EUA, intimamente ligada à comunidade onde estava cada veículo. Basta pensar nos estabelecimentos típicos de qualquer pequena cidade americana no século 19: o xerife, o saloon, o ferreiro, o hotel e o jornal. A função deste último era informar sua comunidade sobre o que acontecia nela mesmo e no resto do mundo. E o mais interessante é que ele era mantido pela própria sociedade que representava.

Apesar dessa diferença, esses grandes veículos brasileiros sempre trabalharam como agentes das liberdades e defensores do país (diferentemente de governos), trabalhando bem para seu desenvolvimento. Mas, de uns 20 anos para cá, algo aconteceu e os interesses empresariais próprios começaram a falar muito alto, interferindo de uma maneira cada vez mais decisiva –e escancarada– na linha editorial, principalmente nas revistas semanais de informação. Tais interferências começaram a afugentar leitores e abriram espaço para movimentos politizados de “resistência”, como os que passaram a classificar os grandes veículos como integrantes do “PIG” (“Partido da Imprensa Golpista”).

Até então, esse descontentamento com a mídia não aparecia com tanta força: na maioria das vezes, essas discussões acabavam restritas aos próprios jornalistas, não chegando às massas. Mas aparentemente isso mudou, o que é muito preocupante, pois, se uma imprensa livre e forte é essencial para uma sociedade melhor, como grupos que estão indo às ruas com esse objetivo podem pedir o “fim” da mídia?

O pior de tudo isso é que os responsáveis por esse sentimento são os próprios veículos, pela desvirtuação descrita acima. A sociedade está deixando de se sentir representada por eles, e seus jornalistas estão perdendo a credibilidade. Basta ver o que aconteceu com Caco Barcellos, um expoente do jornalismo nacional, que foi expulso do Largo da Batata no dia 17 e levou um soco na Praça da Sé dois dias depois. Por mais que o “alvo” talvez fosse a Rede Globo, o profissional foi a vítima. E, para um jornalista, tão ruim quanto uma agressão física, é a perda de sua credibilidade, seu bem mais valioso.

Apesar de toda essa animosidade, os movimentos têm sido palco de excelentes reportagens, exemplos do melhor do jornalismo, produzidas por profissionais ou pessoas que simplesmente registravam brilhantemente o que estavam presenciando. É o tal jornalismo-cidadão, incompreendido (e combatido) pelos grandes veículos. Essa resistência, aliás, ajuda a explicar o distanciamento das redações de seu público. E isso foi muito bem descrito em artigo de Otavio Frias de Oliveira, diretor de redação e um dos donos da Folha, escrito para justificar o lançamento de uma “nova Folha”, o “jornal do futuro”, no dia 22 de maio de 2010. Segundo ele, “os blogs e o jornalismo cidadão parecem oportunidades promissoras, mas quase sempre seu alcance fica limitado, seja em termos de recursos ou abrangência, seja porque expressam visões demasiado particulares e engajadas.” E conclui: “para piorar, o jornalismo que emerge está eivado de entretenimento, culto à celebridade, inconsequência.”

Não bastasse esses veículos estarem morrendo pela sua absoluta incompetência em criar um novo produto e modelo de negócio adequados à nova maneira como as pessoas se relacionam (ou seja, não apenas consomem, mas também produzem) com conteúdos jornalísticos,  eles se afundam ainda mais na lama por entender cada vez menos as mudanças editorias que lhe são impostas. Não estou defendendo de forma alguma a “inconsequência”, falta de apuração, pluralidade de informações. Mas não há mais espaço para o jornalismo palaciano, previsível, desengajado e organizado por interesses comerciais, que a grande imprensa vem produzindo.

Precisamos de uma imprensa forte e livre (inclusive para resistir a pressões dos poderosos). Mas ela precisa lembrar a quem ela serve.

Quando o Twitter informa mais que o jornal

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Para Chris Anderson, a chamada “mídia tradicional” perdeu o sentido de ser, o que não quer dizer que se preocupe menos com a qualidade do material informativo

Para Chris Anderson, a chamada “mídia tradicional” perdeu o sentido de ser, o que não quer dizer que se preocupe menos com a qualidade do material informativo

“Eu não uso a palavra jornalismo. eu não uso a palavra mídia. Não uso a palavra notícia. Não acho que essas palavras signifiquem alguma coisa hoje. Elas definem o mundo editorial do século 20. Hoje, são uma barreira. Elas estão bloqueando nosso caminho, como uma carruagem sem cavalos.”

Com essas palavras, Chris Anderson começa a responder as perguntas de Frank Horni, da Der Spiegel. Para o editor-chefe da Wired e autor do best-seller A Cauda Longa, jornais, revistas, televisão, a chamada “mídia tradicional” perderam o sentido de ser. Ele diz não consumir mais jornais e só lê uma reportagem do The New York Times se ela chegar até ele pelo Twitter, por exemplo, depois de passar por um “filtro pessoal” de pessoas em quem confia. O que não quer dizer que se preocupe menos com a qualidade do material informativo: apenas isso agora pode ser produzido e distribuído por qualquer um. “O problema não é que a forma tradicional de escrever não vale mais. O problema é que isso hoje é a minoria. Costumava ser um monopólio.”

Anderson é um conhecido provocador profissional, mas há verdade no que ele diz. A Internet virou de pernas para o ar o modelo de negócios de várias indústrias, como a fonográfica. A bola (de neve) da vez é justamente a mídia, cuja vítima mais evidente é a impressa. A possibilidade de qualquer um produzir e distribuir material jornalístico de qualidade afetou não apenas a economia dos grupos de mídia, mas está redefinindo a maneira de se produzir jornalismo, que, cada vez mais, é analítico e instantâneo, gerado com os recursos disponíveis por quem estiver juntos dos fatos.

O que falta ainda ao jornalismo-cidadão é organização editorial. Por mais que o volume gigantesco de produção possa resultar em qualidade no final, por mais que a relevância concedida pela audiência a cada peça jornalística seja capaz de definir o que deve ser a manchete (e o Google News está aí para mostrar que isso funciona), cada blogueiro escreve sobre o que quer, o que gosta e o que pode. Falta o “norte” a ser perseguido, nem sempre visível para o cidadão comum. E falta recursos para produzir reportagens caras. Por isso, ao contrário do que Anderson provoca e do que Lula sugeriu há pouco mais de um mês no 10º Fórum de Software Livre, o papel e a importância de uma indústria de mídia organizada continuam firmes e fundamentais para a sociedade.

A verdade nas afirmações do jornalista é que o formato, a distribuição e o modelo de negócios precisam ser reinventados. Ninguém ousaria dizer que a música perdeu a sua importância, mas nunca se venderam tão poucos álbuns quanto hoje. Isso é algo que não parará de diminuir até que as pessoas deixem de vez de comprar CDs, para desespero da indústria fonográfica, que não conseguiu ainda encontrar um modelo realmente substituto os disquinhos prateados. Por outro lado, cantores e bandas, igualmente afetados por essa onda, foram mais rápidos e já perceberam que seus ganhos hoje devem vir mais de shows que de CDs. Nesse cenário, a Internet deixa de ser uma inimiga e passa a ser divulgadora de seus trabalhos.

O que sobra aos jornalistas? Acredito que revistas e jornais, no atual formato, sejam os seus “CDs”. Assim como as empresas, os profissionais também precisam redefinir o seu modelo de negócios. Não quer dizer que o jornalismo tenha que ser um emprego de meio-período ou um hobby, como sugere Anderson (até pode ser), mas é improvável que ele continue como é hoje. Hora de os coleguinhas botarem os miolos para funcionar, caso não queiram se tornar obsoletos pela “cauda longa informativa”.