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O que acontece quando as marcas nos transformam em máquinas de propaganda

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Foto: Marco Del Torchio/Creative Commons

Quem nunca ganhou alguma coisa e ficou tão feliz que quis compartilhar a alegria com quem estivesse a sua volta? Isso é perfeitamente saudável e faz pare da nossa natureza humana. Entretanto, se antes fazíamos isso apenas com nosso círculo próximo de amigos e familiares, agora, com as redes sociais, podemos contar nossa experiência ao mundo todo! Algumas marcas perceberam que isso embutia um incrível potencial para promover seus produtos e criaram um inteligente mecanismo para estimular as pessoas a fazer exatamente isso.  Fica a questão: estamos nos transformando em eficientes máquinas de propaganda?

Essa discussão veio à tona na aula do meu curso de extensão Comunicação Digital: Muito Além do Óbvio ontem. Debatíamos se quando um comunicador fala bem de um produto que ele tenha recebido, precisa informar que se trata de publicidade, nem que seja usando a hashtag #publi.

A primeira questão que surge disso é: se você fala bem de um produto, isso é necessariamente publicidade? Se você é um profissional de comunicação, como um jornalista, e uma marca lhe envia um produto com essa expectativa, a princípio a resposta seria “sim”, e seria de bom grado informar isso a seu público. Entretanto, essa é uma simplificação causada pelo momento em que vivemos, em que muitos jornalistas e influenciadores automaticamente promovem qualquer coisa que lhe enviam (o que me dá uma vergonha enorme).

E quem não é um profissional da área e resolve falar bem de algo que ganhou? Tem que informar a seu público que é uma propaganda?

É aí que o bicho pega.

 

O direito de gostar e de falar mal

Sou jornalista desde 1993. Comecei a minha carreira na Folha e passei por outras grandes empresas de comunicação, como Abril e Estadão. Se agora enfrentamos essa discussão ética, lá atrás esses veículos já tinham a coisa muito bem resolvida. A regra era simples: recebíamos produtos de todo tipo e valor para análise, mas não tínhamos nenhuma obrigação de falar bem daquilo. Aliás, tínhamos toda liberdade de falar mal do que não gostássemos. E, em muitos casos, nem sequer mencionávamos o produto. Se viajávamos a convite de uma empresa, informávamos isso, e passava a valer a regra acima.

Afinal a marca mandou o produto ou fez o convite porque quis, e sabia como a coisa funcionava. Ok, algumas não sabiam “brincar” e reclamavam se a coisa não saía exatamente como elas queriam, mas aí azar o delas.

Eventualmente gostávamos de verdade de algo que recebíamos, e aí a análise era francamente favorável. E isso não acontecia por qualquer tipo de favorecimento, e sim porque o produto era bom mesmo. E isso NÃO É propaganda, e sim uma análise isenta que chegou a essa conclusão. Logo, não precisa –e nem deve– ser indicada como publicidade.

De maneira geral, jornalistas, veículos, marcas e o público estavam alinhados com isso. Ninguém estava enganando ninguém. A coisa começou a azedar quando veículos e principalmente alguns influenciadores (especialmente na área de moda e maquiagem) começaram a se “vender” escandalosamente. De repente, tinha youtuber rasgando elogios por uma marca qualquer, só porque tinha recebido uma caixa de maquiagem.

Péssimo para elas mesmas, pois as pessoas não são trouxas, e isso acaba sendo um tiro na sua credibilidade. A porcaria é que isso criou uma nuvem negra sobre quaisquer promoções legítimas e isentas, e agora tudo é visto como propaganda.

Não é! Propaganda é quando se recebe para forçosamente falar bem. Se existe a possibilidade de falar mal ou simplesmente não falar do produto, isso é uma análise isenta.

 

Somos todos veículos

Esclarecido o lado dos profissionais de comunicação, vem a questão mais delicada: as redes sociais transformaram cada um de nós em pequenos veículos. Qualquer coisa que publicamos em qualquer rede tem potencial para atingir centenas, talvez milhares de pessoas! Então, se falarmos bem de um produto nas redes, isso é publicidade? E mais: temos que avisar nosso “público” que aquilo é propaganda?

Em um primeiro momento, a resposta é não! Quem não é comunicador não está sujeito aos códigos de ética dessas profissões. Se o indivíduo quiser falar bem (ou mal) de um produto, ele está dentro de seu direito de se expressar livremente. E fazer isso porque foi “estimulado” por um presente não muda nada.

Apesar disso, algumas coisas precisam ser avaliadas. Se o nosso direito de nos expressarmos livremente é inalienável, isso não pode comprometer outras coisas.

Em primeiro lugar, a primeira vítima pode ser a nossa própria reputação. Falar bem de algo não é um problema. Mas ficarmos “forçando a amizade” e fazer isso o tempo todo, especialmente se ficar evidente que estamos sendo estimulados de alguma forma, não dá.

É exatamente o que aconteceu com as youtubers de maquiagem citadas acima: elas haviam criado uma boa reputação pelas suas habilidades técnicas e de comunicação. Mas, no momento em que começaram a “carregar nas tintas” em favor de algumas marcas, tudo o que tinham construído foi por água abaixo.

Esse processo de desconstrução pode acontecer com qualquer um. Portanto, temos total liberdade de falarmos o que quisermos, inclusive falar bem de marcas. Mas devemos cuidar de nossa imagem para não cair no velho ditado “quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza”.

Somos responsáveis pelas mensagens que publicamos, inclusive pelo que isso pode causar nos outros e a nós mesmos,

 

Abuso infantil

Mas há um ponto que é particularmente grave: o uso de crianças para promover produtos a outras crianças.

Assim como acontece com adultos, algumas crianças se tornam pequenas celebridades, especialmente no YouTube. Do alto de sua Primeira Infância, angariam centenas de milhares de seguidores, de maneira geral crianças como elas.

Muitas desses mini-influenciadores se tornaram vítimas de marcas, que lhes entregam semanalmente uma grande quantidade de brinquedos. A ideia é que esses pequenos gravem vídeos mostrando e comentando todos esses “presentes”. Por mais inocentes que sejam em suas ações, essa promoção é extremamente eficiente, pois se trata de uma criança mostrando brinquedos a outras crianças.


Vídeo relacionado (minha participação no JC Debate, sobre uso de YouTube por crianças, em 21 de outubro de 2016):


Algo que toda criança faz naturalmente a seus amiguinhos no pátio da escola ou em casa. Mas agora elas podem fazer isso em escala global!

Vale dizer que isso fere o Estatuto da Criança e do Adolescente, que proíbe publicidade infantil. As marcas perceberam a possibilidade de burlar essa restrição justamente usando esses youtubers mirins. Mas essas empresas não são as únicas responsáveis por isso: talvez ainda mais complicada seja a situação dos pais dessas crianças, que não apenas permitem que seus filhos se prestem a isso, como ainda os “agenciam”, como uma excelente fonte de renda.

 

O papel de cada um

No final das contas, o poder está nas mãos de cada um de nós.

Esse é um terreno ainda pantanoso, com muitos pontos ainda obscuros e abertos ao debate. Como se pode ver, existem itens conflitantes, envolvendo até mesmo liberdade e ética. E isso não se aplica de maneira uniforme a todos.

O que é importante é que nos apropriemos do que essas plataformas nos oferecem, seja como produtores de conteúdo, seja como consumidores, papeis que todos nós temos atualmente. E principalmente temos que ter consciência para que não sejamos feitos de bobos por ninguém.

Em outras palavras, liberdade com ética e sem bobeira!


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Quem merece a sua confiança hoje?

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O Gato da animação “Alice no País das Maravilhas” (1951): “se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve” - Foto: reprodução

O Gato da animação “Alice no País das Maravilhas” (1951): “se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve”

Pela nossa natureza humana, nós precisamos viver com outras pessoas.  Somos seres gregários. Compartilhamos o que temos e o que sabemos com o outro, e, dessa forma, a sociedade e cada um de seus membros se desenvolvem. Mas isso só é possível quando existe confiança entre as partes.  Assim eu lhe pergunto: em quem você confia atualmente? Quais são seus modelos?

Essas não são perguntas retóricas, e não trazem nenhuma carga religiosa ou política. Entretanto são essenciais! Observo, com grande apreensão, um forte movimento de descrença global, e isso ganha contornos mais agudos no Brasil, devido à crise profunda que persiste há tantos anos. O problema é que, quando deixamos de acreditar, perdemos grande parte da nossa iniciativa, da capacidade de inovar, de sermos empáticos, de construirmos algo com quem estiver a nossa volta.

Esses questionamentos apareceram para mim com bastante força na semana passada, durante as primeiras aulas do meu mestrado na PUC-SP. Discutimos o impacto social e as causas das “fake news”, as infames notícias falsas que inundam as redes sociais, o conceito de “pós-verdade” e até mesmo o que define a verdade. Pois, em um mundo em que as versões valem mais que os fatos, em que nossa própria capacidade de escolha fica prejudicada, como é possível escolher qual caminho devemos seguir?

E como dizia o Gato de Cheshire, em “Alice no País das Maravilhas”, “se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve.”

 

Alguém sempre vai ocupar o espaço

Grande parte dessa nossa atual descrença se deve à falência moral de muitas instituições essenciais da comunidade. Nem vou falar da classe política, pois chutar cachorro morto não vale. Mas as pessoas também têm acreditado pouco na imprensa, justamente quem guarda o papel de fiscalizar diferentes grupos da sociedade, além de informar o cidadão. E, pelo ralo da confiança perdida, também descem religiões, empresas, escolas, entre outros pilares da civilização.

O curioso na nossa falta de confiança é que, por mais que ela cresça, paradoxalmente mantemos a necessidade de acreditar em alguém. Entretanto, se os atores acima não se prestam mais a isso, em quem acreditaremos?

Aí é que mora o perigo.

Nesse vácuo criado pela ausência daquele pessoal, surgem os aventureiros, os demagogos, a turma de fala vazia, porém encantadora. Nós compramos esses “cantos da sereia” e as redes sociais, a despeito de todos seus pontos positivos, têm um papel essencial em espalhar esse tipo de mensagem.

Por exemplo, tenho realizado palestras em eventos da área de saúde, e conversado com profissionais de diferentes especialidades desse segmento. De maneira geral, a maioria já percebeu a importância de se comunicar com o seu público, mas não sabe como fazer isso. Pior: muitos deliberadamente não querem fazer isso!

Esses mesmos profissionais estão em pé de guerra com blogueiras e youtubers “fitness”, que dão “dicas de saúde” ou que ensinam “dietas” ou “novas formas de alimentação”. O problema é que a maioria delas não tem qualquer formação para orientar ninguém nesse aspecto. Pior: quase tudo do que falam não tem nenhum embasamento científico, sua eficácia é questionável e -o mais grave- pode colocar a saúde das pessoas em risco. Mas elas falam com grande segurança e têm milhares (às vezes milhões) de seguidores, que espalham e repercutem o que disserem.

Resultado: aquelas versões ou ideias acabam se tornando “verdade’, por mais que sejam, em alguns casos, a mais rotunda porcaria!

A culpa principal do desserviço à saúde público é dessas meninas? Claro que não! A culpa vem daqueles que detêm a informação correta, mas se recusam a compartilhá-la! Entretanto as pessoas querem ter acesso à informação sobre isso, e consumirão o que estiver disponível. Quando o negócio der errado, toda a instituição pode perder o crédito. Se não for pela informação errada, será pela omissão.

 

Nem tudo está perdido

Recentemente a agência Edelman publicou o seu relatório anual “Trust Barometer”, onde analisa o grau de confiança das pessoas em diferentes instituições da sociedade. O levantamento foi feito a partir de mais de 33 mil questionários respondidos por cidadãos de 28 países (inclusive o Brasil) no final do ano passado. Interessantíssimo: vale olhar suas conclusões!

Algumas delas merecem destaque. Do ano passado para esse, a confiança no jornalismo subiu cinco pontos percentuais, enquanto que o conteúdo originado de “plataformas” (redes sociais e buscadores) caiu dois. A credibilidade de “pessoas como você” chegou ao menor nível desde que o estudo começou a ser feito, em 2001 (mas ainda marca expressivos 54 pontos), enquanto que a de “especialistas” aumentou: os jornalistas subiram 12 pontos (mas ainda marcam apenas 39) e os CEOs cresceram 7. Especialistas técnicos e acadêmicos (os mais confiáveis), analistas financeiros e empreendedores de sucesso ficaram todos com pelo menos 50% de aprovação.

O país em que a população mais perdeu a confiança foram os Estados Unidos: incríveis 37% de queda, claramente ligada ao presidente Donald Trump. O Brasil foi o terceiro país que mais perdeu entre os 28 pesquisados: queda de 17%. Quem mais ganhou foi a China, com 27% de crescimento.

E por falar em Brasil, apesar de a confiança nas “plataformas” ter caído cinco pontos, as pessoas ainda confiam ligeiramente mais nelas que no jornalismo (64 pontos versus 63). Dos países pesquisados, essa preferência só aparece também na Malásia, no México e na Turquia.

O “Barômetro da Confiança” indica uma interessante mudança em seu eixo: os chamados “especialistas” (inclusive a imprensa) ficam cada vez mais confiáveis que a turma que fala muito, mas contribui pouco para a sociedade. Mesmo entre os influenciadores digitais, observa-se uma crescente divisão entre os “especialistas” e os “populares”.

Isso é muito bem-vindo, especialmente graças ao avanço das “fake news”. Na verdade, pode-se atribuir pelo menos parte desse movimento ao crescimento explosivo das notícias falsas. As pessoas estão conscientes disso, e querem se proteger, mesmo porque 63% dos entrevistados disseram que não sabem como diferenciá-las de bom jornalismo e 59% acreditam que isso está cada vez mais difícil de ser feito. Como resultado, 59% dos entrevistados não sabem o que é verdade e o que não é, 56% não sabem em que políticos confiar e 42% sentem o mesmo quanto a empresas ou marcas.

Entretanto, nesse mar de incertezas, decepções e notícias falsas, não somos vítimas inocentes e passivas.

 

O que devemos fazer

Qual o nosso papel para melhorar o cenário geral? É importante ressaltar que o poder para resgatar a confiança está principalmente nas mãos de cada um. Peguemos como exemplo as “fake news”: elas só explodiram porque seus criadores perceberam que as pessoas disseminariam as mentiras se elas fossem habilmente construídas para atender aos anseios de parcelas da população, que fariam isso sem questionar o conteúdo.

Temos, todos nós, que desenvolver um aguçado senso de desconfiança saudável!

Desde a redemocratização do Brasil, nos anos 1980, assistimos ao crescimento constante dos demagogos, dos populistas e dos “salvadores da pátria”, tanto do lado de conservadores, quanto de liberais. Chegamos provavelmente ao seu ápice, no que eu chamo de “escala messiânica”.

Estamos em um ano de eleições. Em 2016, no pleito anterior, as notícias falsas promoveram uma polarização na sociedade brasileira sem precedentes, e isso só tem piorado. Um estudo do BuzzFeed do ano passado chegou a demonstrar que as notícias falsas sobre a Operação Lava-Jato geraram mais engajamento que as verdadeiras. Nos EUA, aconteceu o mesmo, com as fake news engajando mais que o jornalismo na reta final da campanha presidencial.

Portanto, prepare-se para um banho de sangue nesse ano. Mas prepare-se para fazer a sua parte para que seja, pelo menos, um pouco menos terrível. Sim, as instituições -especialmente a imprensa- precisam colocar de sua parte e fazer um trabalho (muito) melhor, mais transparente e comprometido com a verdade que o observado atualmente. Mas cabe a nós cobrar isso de todas elas. E premiar quem fizer isso bem, compartilhando seus conteúdos, ao invés de qualquer coisa.

Se não fizermos a nossa parte, podemos nos afundar ainda mais no perigoso fosso da descrença, em que nada parece bom, entrando em um ciclo destrutivo de nos tornarmos mais isolados, egoístas, e menos colaborativos. E ainda podemos contaminar quem estiver a nossa volta, prejudicando a sociedade como um todo.

Precisamos reverter esse ciclo de descrença. Preste atenção no que o Gato disse à Alice, e escolha o seu caminho conscientemente. Acredite e vá em frente!


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O que você ganha com a briga da Folha com o Facebook

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Se nos recusamos a ver o problema, isso não implica que ele deixará de existir - Foto: Creative Commons

Se nos recusamos a ver o problema, isso não implica que ele deixará de existir

Pouco antes do Carnaval, a Folha de S.Paulo surpreendeu o mercado com o anúncio de que estava abandonando o Facebook. Por mais que esse movimento tenha passado despercebido pela maioria das pessoas, ele é um sintoma enorme de algo que afeta a vida de todos, impactando significativamente o desenvolvimento da sociedade. Por exemplo, você prefere o Lula na cadeia ou na presidência? Apoia ou condena as reformas trabalhista e da Previdência? E o que pensa do Bolsonaro? Acha que Luciano Huck deveria ter insistido na sua aventura presidencial?

Qualquer que seja seu posicionamento, ele é construído a partir de informação e influência. Mas quem informa e influencia você? Em outras palavras, em quem você acredita e por quê? Goste ou não, aceite ou não, partimos da imprensa e das plataformas digitais para decisões críticas de nossa vida. Então, é bom prestar bastante atenção nessa bagunça informativa.

O fato de a Folha não mais atualizar a sua página na rede do Mark Zuckerberg desde o dia 8 é reflexo de uma grotesca falência da mídia, especialmente dos veículos mais tradicionais, no seu relacionamento com o público. Demonstra também como as grandes plataformas digitais estão se debatendo contra o avanço das “fake news”, as infames notícias falsas, que inundaram as redes sociais. No meio disso tudo, estamos todos nós: podemos ser os maiores beneficiados ou prejudicados dessa briga. O que ganhamos ou perdemos depende também das nossas atitudes.

Não há mais vítimas inocentes nesse cenário, nem nós mesmos!

 

Os motivos da Folha

A Folha argumenta que saiu do Facebook porque as mudanças em seu algoritmo, anunciadas no dia 11 de janeiro, prejudicariam o “jornalismo profissional” e privilegiariam as “fake news”. Além disso, faz um pouco caso da audiência que, por mais que esteja em queda, ainda vem daquela rede social. Na prática, ela se dá importância e se coloca acima disso tudo.

Seria lindo, se não passasse de uma cortina de fumaça.

Sim, é verdade que as mudanças nos algoritmos do Facebook vêm reduzindo a audiência das páginas das empresas, mas de todas elas, e não só das de comunicação (e muito menos só do “jornalismo sério”). Também é verdade que as “fake news” estão crescendo como um câncer com a ajuda das mesmas redes sociais.

O que esses veículos de comunicação que vivem um eterno chororô diante da sua crescente irrelevância no meio digital não dizem é que os principais responsáveis por sua derrocada e pelo crescimento das “fake news” são eles mesmos! Sim, as redes sociais têm sua indiscutível e gigantesca culpa no cartório, por serem incapazes de separar automaticamente jornalismo de qualidade de notícia falsa. A partir daí, seus algoritmos de relevância fazem o trabalho sujo de replicar aquilo com que as pessoas se engajam mais. Mas isso só acontece porque a imprensa está deixando essa bola quicando na área.

Como expliquei no artigo que publiquei logo após a mudança no algoritmo ter sido anunciada, as pessoas compartilham aquilo que lhes dê prazer imediato, e de preferência o que lhes causa grandes emoções (positivas ou negativas) e não lhes faça pensar demais. Sem nenhum julgamento moral, é assim que o cérebro humano funciona.

Oras, os produtores das “fake news” se valem justamente disso, para criar e “plantar” conteúdos que atendam a essas expectativas de parcelas significativas do público. Dando o que as “pessoas certas” (formadores de opinião alinhados a seus objetivos) querem ouvir, elas começarão o trabalho de espalhar a mentira, que será ampliado pelos algoritmos. Vale dizer que os criadores das notícias falsas também conhecem muito bem o “seu público” e sabem como usar os recursos das plataformas digitais, o que torna o seu trabalho ainda mais eficiente.


Vídeo relacionado:


É óbvio que o que a imprensa deveria fazer seria combater fogo contra fogo. Ou seja, produzir conteúdo de qualidade cada vez melhor e ampliar ainda mais a sua presença em todas as plataformas digitais possíveis, usando seus recursos inteligentemente! Entretanto, já no artigo e no vídeo acima, expressei o meu temor que os veículos partissem para o caminho mais fácil, de piorar seu conteúdo, criando “caça-cliques”, para tentar salvar sua audiência! Mas não previ um movimento tão inusitado, como entregar o campo de batalha à “turma do mal”.

É como um avestruz, que enfia a cabeça na areia para não ver mais o problema, que continua existindo.

 

Por que os veículos falham nas redes sociais

Os produtores de “fake news” prosperam porque eles sabem jogar esse jogo, enquanto os veículos tradicionais continuam presos a fórmulas que funcionaram por um século, mas que perderam a sua eficiência há pelo menos 15 anos. Acusam as redes sociais e os buscadores de serem os causadores de sua derrocada, quando, na verdade, seus produtos perdem relevância diante de novos concorrentes sérios (e não apenas das “fake news”) que sabem usar essas plataformas a seu favor. Esperam que as pessoas continuem pagando pelo seu conteúdo (porque “produzir jornalismo de qualidade custa caro”), quando os modelos de negócios se transformaram completamente.

E custa caro mesmo! Mas o binômio assinatura mais publicidade como fonte de renda ruiu completamente. Apesar disso, tem gente boa ganhando dinheiro com jornalismo, usando outras formas de financiamento. Mas todos eles têm duas características: conteúdo de qualidade superior e bom relacionamento com seu público.

Os grandes veículos, e isso inclui a Folha, vêm sofrendo de descrédito junto à opinião pública, devido a seus próprios erros. Noticiário mal apurado ou irrelevante, reportagem limitada, caça-cliques, cerceamento de opiniões contraditórias e vínculos (às vezes escandalosos) a grupos políticos e econômicos têm abalado séria e continuamente a sua reputação. E imprensa sem reputação não existe!

Isso não vem de hoje. Em sua coluna do dia 24 de junho de 2012, a jornalista Suzana Singer, então ombudsman da própria Folha, escreveu: “O jornal precisará oferecer conteúdo de qualidade superior à que o site tem hoje. Para ler pequenos informes sobre o que aconteceu nas últimas horas, em textos mal-ajambrados, ou para saber das fofocas mais recentes sobre celebridades do ‘mundo B’, ninguém precisa gastar um centavo.” Era uma análise diante do início da cobrança pelo conteúdo do site, que até então era aberto.

Além disso, todos os veículos precisam entender, de uma vez por todas, que precisam se relacionar verdadeiramente com seu público. Eu me lembro que, quando eu iniciei minha carreira na Folha: depois que “fechava” uma notícia, aquilo já era passado, e eu não tinha nenhuma relação com o leitor. Mas isso era nos anos 1990!

Agora as pessoas querem se relacionar com os jornalistas e as empresas, e para isso as redes sociais são excelentes! Os veículos de sucesso (e as “fake news”) hoje sabem como fazer esse relacionamento muito bem, e colhem os frutos disso. Já os veículos tradicionais fazem posts como se fossem chamadas para a primeira página do jornal impresso, e têm zero interação com seu público, o que é inadmissível.

Advinha só para quais veículos as pessoas correm?

 

Todos têm que melhorar!

Meu trabalho não é fazer a imprensa feliz!” A frase é de Campbell Brown, executiva do Facebook, que cuida curiosamente das parcerias com os veículos de comunicação, que concluiu: “se alguém acha que o Facebook não é a plataforma para ele, então não deveria estar no Facebook.” Com sua sutileza paquidérmica, Brown deixou clara a posição do Facebook no caso e ainda sugeriu que “grande parte do melhor jornalismo atualmente é feito por pequenos veículos, mais nichados”.

Mas os pequenos também estão sofrendo com as mudanças, pois a eficiência de sua presença no Facebook se tornou um alvo em movimento. A falta de transparência da plataforma dá a impressão que só é possível ter algum destaque ali pagando. Por isso, assim como a Folha, empresas de todo tipo e porte estão investindo menos na plataforma e buscando alternativas. Como tenho ouvido o tempo todo desde janeiro, “o Facebook deu um tiro no pé”. Até a Unilever ameaçou cortar anúncios no Facebook e no Google, se não houver mais transparência.

Como se pode ver, nesse complexo cenário de interesses, todos têm sua parcela de culpa e, portanto, também a obrigação de melhorar. Se a imprensa quiser realmente combater as “fake news” e aumentar suas receitas e sua audiência, eles devem primeiramente resgatar os princípios do bom jornalismo e estar presentes em cada vez mais canais (e não sair deles). Precisam também aprender que o relacionamento com o seu público mudou, pois as pessoas mudaram. Por isso, as redes sociais e os buscadores podem ser muito mais aliados que predadores. Entretanto, eles possuem dinâmicas que precisam ser entendidas, aceitas e praticadas pelos veículos.

Já essas plataformas digitais precisam ser mais transparentes e se esforçar genuinamente para combater as “fake news” com todos seus recursos. Além disso, devem também identificar quem realmente produz jornalismo de qualidade, e privilegiar esses parceiros em uma troca justa. Não podem ignorar o seu gigantesco papel social como replicadores de todo tipo de conteúdo.

Quando a nós, usuários, precisamos assumir o nosso papel de protagonismo nisso tudo, desenvolvendo uma desconfiança saudável. Não podemos ser inocentes e acreditar em tudo que lemos, seja nas redes sociais, seja em um veículo de comunicação. Portanto, antes de compartilhar qualquer coisa, pensemos se aquilo é mesmo verdade e no impacto de nossas ações!

Se todos fizerem bem a sua parte, ganharemos uma sociedade mais desenvolvida, mais justa e mais igualitária. Qualquer coisa fora disso nos fará rumar mais e mais para a barbárie que inunda o noticiário.


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Por que não podemos abrir mão de uma BOA imprensa para vivermos

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Equipe do “Washington Post”, com Bradlee (de azul com copo na mão) e Grahams (à direita dele), no filme “The Post” - Foto: divulgação

Equipe do “Washington Post”, com Ben Bradlee (de azul com copo na mão) e Katharine Graham (à direita dele), no filme “The Post”

Você acha que o noticiário anda um saco, e que está ficando difícil saber o que é verdade em um mundo de versões que atacam ou defendem tudo e todos, a toda hora? Você deveria então assistir a “The Post – A Guerra Secreta” e refletir, afinal, qual é o papel de cada um de nós nessa bagunça, e por que temos -todos- que fazer algo além de ficar reclamando, se não quisermos ver o país (e nós mesmos) afundando cada vez mais na lama.

Sim, cada um e todos nós!

Ele não é, portanto, um filme só para jornalistas, e sim para qualquer pessoa que se preocupe como grupos políticos, econômicos ou ideológicos manipulam, cada vez mais, a população, para fazer valer seus objetivos. E também para entender como uma BOA imprensa é essencial para escaparmos dessa situação dantesca. Se você ainda não se preocupa com isso, deveria começar agora mesmo. Explico.


Vídeo relacionado:


Peguemos o caso, por exemplo, das odiosas “fake news”, as “notícias” falsas que parecem mais verdadeiras que o noticiário de fato. Talvez, lá atrás, elas tenham surgido como molecagem de alguns, mas uma turma do mal rapidamente percebeu que elas eram uma poderosíssima ferramenta de manipulação pública.

O sórdido processo é relativamente simples. Primeiramente, cria-se a “notícia” misturando fatos verdadeiros a distorções e uma pitada de mentira deslavada. Tudo bem arquitetado para se atingir o objetivo do grupo. Identificam-se então pessoas comuns (mas que sejam pequenos formadores de opinião) que gostariam que aquilo fosse mesmo verdade, qualquer que seja o seu motivo pessoal. “Planta-se a notícia” para essas pessoas, que rapidamente começam a espalhar a novidade. Pela sua posição de relativo destaque, a mentira cai nas graças dos algoritmos das redes sociais, que passam a fazer o trabalho sujo de espalhar as “fake news” explosivamente.

Como se pode ver, a coisa começa com os grupos que criam essas versões e terminam nos algoritmos das plataformas digitais. Mas a peça essencial para seu sucesso são as pessoas, que acreditam, espalham e se engajam com a porcaria.

Mas há ainda um outro ator crítico: a mídia.

 

Onde está a boa imprensa?

Esse não é um artigo para atacar ou defender a mídia, ultimamente bastante alvejada por conservadores e liberais (os termos “direita” e “esquerda” perderam seu significado no Brasil há muitos anos). Em muitos casos, isso é com razão. Da mesma forma, existem bons e maus exemplos de veículos em todas vertentes, seja na “mídia tradicional”, seja na “nova mídia”.

Não vou entrar muito no mérito dos maus exemplos, veículos jovens ou com décadas de estrada que envergonham o jornalismo, criando um conteúdo claramente alinhado com agendas de grupos econômicos, políticos ou ideológicos. A esses, deixo meu desprezo. E, pelo jeito, não estou sozinho, dada sua situação econômica ladeira abaixo de muitos títulos.

Claro: as pessoas não são trouxas!

O que quero tratar aqui é a falta que faz um noticiário de alta qualidade para se contrapor às “fake news”. Pois, por mais que elas sejam bem construídas, só estão fazendo sucesso porque ocupam o espaço que deveria ser do noticiário de fato. Mas este está com uma qualidade sofrível, rasteira, previsível, quando não deliberadamente comprometida. Está parecendo novela, que, mesmo que fiquemos dias sem a assistir, conseguimos retomar sem nenhuma novidade, pois os capítulos são todos iguais e desimportantes: puro enchimento de linguiça!

É aí que “The Post” pode ensinar algo a todos nós. Resumidamente o filme conta a história real de como The Washington Post arriscou tudo em 1971 ao publicar documentos ultrassecretos que escancararam à opinião pública americana como o governo lhes mentia escandalosamente há décadas sobre o conflito no Vietnã. Mas isso só foi possível graças ao profissionalismo da Redação capitaneada por Ben Bradlee (vivido por Tom Hanks) e pela coragem da publisher Katharine Graham (Meryl Streep).


Vídeo relacionado:


O esforço de reportagem foi árduo, os dois poderiam ter terminado na cadeia, tiveram que lutar contra toda a diretoria da empresa, e o jornal poderia até mesmo ter quebrado. Tudo por causa de uma reportagem! Mesmo assim, foram em frente, prestando um grande favor a seu país, batendo alguns pregos (mas não os derradeiros) nos caixões do governo Nixon e da Guerra do Vietnã.

 

Quem tem coragem e estômago para isso agora?

Há duas semanas, escrevi aqui outro artigo mencionando como as mudanças recentes no algoritmo do Facebook podem piorar o jornalismo. Parte do problema se deve ao fato de que as pessoas preferem compartilhar conteúdos “fáceis”, que não as tirem de suas zonas de conforto. Decorrente disso, vem outra parte, pois a mídia, para tentar fazer com que as pessoas continuem compartilhando o que produz, pode começar a dar anda mais atenção a “fofuras”, em detrimento do jornalismo mais denso e necessário. Tragédia anunciada!

É claro que podemos postar e curtir coisas divertidas de vez em quando: isso também nos torna humanos. Mas não podemos interagir apenas com isso! Precisamos nos acostumar e incentivar quem estiver a nossa volta a também interagir a valer com o noticiário que nos tire da zona de conforto e que nos torne cidadãos melhores!

Mas, para isso, esse noticiário de alta qualidade tem que existir. E, de maneira geral, ele é tanto melhor quando mais difícil for sua produção. A imprensa precisa, portanto, fazer por merecer, e parar de ficar apenas comendo na mão de grupos políticos (conservadores ou liberais), econômicos ou ideológicos, seja por preguiça, seja por incompetência ou -pior- porque está “vendida” mesmo. E resistir à tentação de ficar proliferando “conteúdo fácil”.

Em resumo, precisamos de mais Ben Bradlees e de mais Kat Grahams: esse não é um negócio para amadores ou para frouxos.

Quanto a nós, precisamos parar de acreditar piamente no que aqueles que gostamos nos dizem. Também temos a obrigação de sair da nossa zona de conforto e perceber que o mundo não é preto e branco, e desconfiar saudavelmente até do nosso guru. Esse é o nosso papel para construirmos um mundo melhor para nossos filhos.

Mãos à obra todos!


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Se a imprensa é crítica para a sociedade, por que tanta gente mete o pau?

By | Jornalismo | No Comments

Foto: reprodução

Há alguns dias, vi uma reportagem que me deixou apreensivo. Tratava de um grupo conservador nos EUA cujo objetivo é criar armadilhas para jornalistas, para que sejam gravados dando depoimentos que possam lhes causar transtornos, desqualificando o profissional e seu veículo. Porém o mais perturbador é saber que essa não é uma atitude contra a imprensa isolada, nem a mais pesada, e que observo tal coisa também no Brasil. Isso me leva à pergunta do título desse artigo. Aliás, cá entre nós, o que você acha da imprensa, especialmente da “grande imprensa”?

Apesar de o Projeto Veritas, retratado na reportagem acima, afirmar que não faz política, claramente é o contrário disso, pois todas as vítimas são veículos que fazem oposição à administração Trump. Não foi esse governo que inventou essa metodologia de desacreditar os veículos contrários a ele. Na verdade, quanto mais autoritário é um governo, mais a imprensa é apresentada como uma inimiga a ser combatida, e mais as pessoas que apoiam o regime se engajam nessa cruzada contra ela. Entretanto, não se engane: no final, invariavelmente quem perde é a sociedade.


Vídeo relacionado:


Isso sempre foi assim, e provavelmente sempre será. Mas quem elevou esse processo a um novo patamar de eficiência foi Hugo Chávez, quando assumiu o poder em 1999. O finado ditador venezuelano difundiu o conceito de que a imprensa contrária a ele era, no final, contrária ao “povo venezuelano”, legitimando assim todo tipo de censura e perseguição. Essa ideia nefasta se espalhou pela América Latina, chegando agora aos EUA, com Trump.

Já viajei por vários países e pude comprovar inequivocamente como o desenvolvimento de uma sociedade está sempre relacionado de perto à qualidade de sua imprensa. Isso acontece porque uma boa mídia possui não apenas o papel de informar, mas também o de formar o cidadão. E os veículos de comunicação têm o dever de continuamente investigar o governo, para que as falcatruas não prosperem, qualquer que seja o alinhamento político da situação.

Então por que cresce esse fenômeno de agressão moral e até física contra jornalistas?

 

Polarização e “fake news”

Vivemos uma polarização política sem precedentes no cidadão comum. Em grande parte, isso se deve aos algoritmos de relevância das redes sociais, que insistem em nos mostrar apenas aquilo que gostamos, com que concordamos, que nos mantém em nossa zona de conforto. Pode parece muito bacana a princípio -afinal, dessa maneira, usamos cada vez mais a rede social. Só que isso pode ter um resultado perverso: como não somos expostos a posições contrárias, a tendência é que nossos preconceitos sejam cada vez mais reforçados.

Daí para a intolerância política é um pulo! Mesmo que tenhamos uma pequena inclinação para certa ideologia, podemos, em pouco tempo, nos pegar gritando palavras de ordem, insultando opositores e bloqueando antigos amigos que pensem de maneira diferente.

Nesse cenário, não há imprensa boa! Pois a função de um veículo de comunicação não é agradar ninguém. Muito pelo contrário: ele incomoda muita gente! Ou não seria jornalismo: seria relações públicas!

O mais inusitado dessa história é que vejo empresas de comunicação cada vez mais sendo atacadas por conservadores e liberais ao mesmo tempo. E o argumento é sempre que os veículos estão “vendidos” ao outro lado. Até a Rede Globo, tradicionalmente associada a alas mais conservadoras, vem sendo acusada de “ficar vermelha”.

Esse mundo está ficando muito louco!

 

Afinal, os veículos se vendem?

Nessa hora, é preciso diferenciar entre ter opinião e ser vendido.

Pela nossa natureza humana, não podemos ser totalmente isentos. O que não quer dizer que não possamos ou não devamos ser profissionais. E isso vale para jornalistas e veículos de comunicação. Não há nenhum problema se qualquer um deles escolher um lado, inclusive político. Na verdade, deveriam escolher e divulgar ao público sua decisão!

Entretanto adotar um lado não significa ignorar o outro. E definitivamente não significa calar ou maquiar o noticiário para que o seu lado sempre pareça melhor e o outro pior. Ter um lado significa que se torce por ele, mas que o jornalista continuará realizando seu trabalho seguindo os preceitos éticos, que incluem ouvir sempre o outro lado, e noticiar sua opinião adequadamente, por mais que a odeie.

Infelizmente temos visto muito exemplos na imprensa que parecem ter esquecido os pilares do bom jornalismo. Peguemos os exemplos abaixo, da Veja e da Carta Capital. São dois lados extremos da mesma moeda. Comparar o conteúdo de uma com o da outra dá a impressão que estão noticiando a mesma coisa em realidades alternativas.

Mas não, não estão. Estão no mesmo país, na mesma época. E nenhuma delas fala totalmente a verdade, nem totalmente a mentira. Mas, ao carregar nas tintas tão pesadamente, o público não consegue mais sequer formar uma opinião bem embasada.

Esse tipo de obra de ficção serve muito bem para alimentar os ânimos irracionais e aos interesses de grupos políticos, econômicos e ideológicos. Plantam essas informações enviesadas, que depois alimentarão a sede dos que querem fazer valer suas teses a qualquer custo em todo lugar, de redes sociais a mesas de bar. De quebra, favorecem o surgimento de grupos patéticos como o Projeto Veritas, que, para atingir seus objetivos, chegam a usar métodos que dizem combater, como notícias falsas, distorções de fatos e falsidade deliberada.

Esse constante chute na boca da verdade abriu caminho para uma das maiores pragas modernas: o “fake news”, “notícias falsas” ou “desinformação”. Não o “fake news” que Trump vive trombeteando, que são notícias verdadeiras que o desagradam. Eu me refiro a um material cuidadosamente produzido para parecer jornalístico e verídico, mas que enviesa os fatos (ou deliberadamente traz mentiras deslavadas) para fazer com que as pessoas comprem uma ideia. E -pior que isso- que a distribuam.

Como diz o ditado: se contarmos uma mentira mil vezes, ela pode virar uma verdade.

 

Dá um tiro na cabeça, que dói menos

O “fake news” é um perigosíssimo risco à democracia. Pois ele põe a própria imprensa em risco! Diante de tanta mentira em todas as mídias e em todas as redes sociais, as pessoas estão começando em perder a fé no noticiário. E quem pode culpá-las? Ou o conteúdo que lhes é oferecido é mentiroso mesmo, ou é verdadeiro, mas, de tão enviesado, acaba passando uma mensagem falsa.

Resultado: as pessoas estão abandonando os veículos tradicionais! E, sem público, não há anúncios. Como essas empresas também têm uma dificuldade crônica em aceitar que seu modelo de negócios histórico baseado em assinatura e publicidade não tem mais lugar no mundo, não é de se estranhar que vemos título após título morrendo! Ficam então naquele chororô ridículo, tentando jogar sua culpa em outra coisa, como o meio digital.

Ah, mas que preguiça dessa gente! Os veículos tradicionais estão com sua reputação completamente carcomida -e, por consequência, também suas finanças- porque as pessoas não são trouxas! Querem se salvar? Melhorem seu produto! E isso significa parar de praticar esse antijornalismo, mudar seu modelo de negócios e reformatar seu produto para atender às novas exigências do consumidor. Isso significar mudar basicamente tudo? Sim! Mas, já que não fizeram isso aos poucos, ao longo dos últimos 20 anos, terão que fazer agora de uma vez.

Caso contrário, veremos cada vez mais surgir esses movimentos radicais (conservadores e liberais!) apontando o dedo para a imprensa, acusando-a pelos males do país. Quando, na realidade, é a mesma imprensa que cuida (ou deveria cuidar) para que os verdadeiros males e malfeitores não prosperem na sociedade.

Sem uma imprensa livre e forte, nunca sairemos desse buraco. Mas ela tem que fazer a sua parte.


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Se a carne é fraca, as redes sociais são fortes e a imprensa é mole

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Foto: Nicola Albertini/ Creative Commons

Os resultados preliminares da “Operação Carne Fraca” da Polícia Federal jogaram na lona esse setor da indústria de alimentos nacional. Enquanto importadores essenciais anunciavam restrições à carne brasileira, usuários transformavam as redes sociais no palco de grandes embates (e muitas piadas) sobre o caso, abalando ainda mais a confiança do consumidor. Mas qual é nosso papel nesse salseiro todo?

Passados cinco dias, a impressão que eu tenho é que ninguém sabe ainda qual é a verdade! Assim mesmo, as pessoas continuam se prestando a disseminar versões questionáveis. E tudo isso só acontece porque a imprensa não está fazendo seu trabalho direito. Mas dá para jogar toda a culpa nela?


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A imprensa está construindo todo o seu noticiário em cima de apenas três fontes: a própria Polícia Federal, o governo e a indústria da carne. O problema é que todos eles têm interesses fortíssimos envolvidos no caso. A Polícia Federal é a “dona” da operação e a origem das denúncias; o Governo Federal luta para salvar a imagem do produto brasileiro no exterior (e, de quebra, evitar ainda mais o desgaste da sua própria); e a indústria da carne tenta obviamente salvar a sua reputação e o próprio negócio.

Assim, com poucas e nobres exceções (e é importante frisar que elas existem), o noticiário vem sendo construído a partir do relato desses envolvidos. E só! A maioria dos veículos sequer ouve especialistas independentes! Como é possível o público entender, de verdade, o que está acontecendo, se todas as fontes têm interesses conflitantes, e até mesmo tentam desqualificar os outros lados?

A crise evoluiu rapidamente. A PF soltou a bomba na sexta, anunciada como a maior operação já realizada pela instituição. Empresas, governo e a imprensa foram pegos de calças curtas, e começaram a bater cabeça, cada um do seu lado. Redes sociais foram à loucura com posts de todo tipo. Empresas se defenderam como puderam, e o governo tentou acalmar os compradores internacionais, que anunciaram restrições à carne brasileira. Críticas de todos os lados empurraram a equipe da PF contra a parede, que, na segunda, se defendeu das acusações de sensacionalismo e precipitação, dizendo que “muitos fatos ainda estão sob sigilo e muitas provas ainda serão apresentadas”. Apenas um dia depois, a mesma PF jogou panos quentes, afirmando que foram apenas “problemas pontuais”.

Tudo isso em apenas cinco dias!

A imprensa continua no seu papel de menino de recados. E as redes sociais colocando lenha na fogueira.

 

Caixa de ressonância digital

Como já aconteceu em várias outras ocasiões, especialmente as envolvidas em assuntos de grande comoção social, a imprensa foi a origem do noticiário, enquanto as redes sociais funcionaram como perfeitas caixas de ressonância. Na verdade, dá para dizer que esse já é um padrão comportamental bem estabelecido, o que é perigosíssimo!

O processo é simples -e perverso. Começa com indivíduos selecionando versões de fatos noticiados pela imprensa. Normalmente fazem isso com algo que sejam francamente favoráveis ou contrários: no primeiro caso, defendem a tese com unhas e dentes; no segundo, partem para o ataque. Se o assunto os atingir pessoalmente, fica ainda mais fácil abraçar a causa.

Os locais onde todo esse engajamento acontece são as redes sociais. Se já não bastasse a natureza humana de se associar a indivíduos ou temas com os quais concorde, os algoritmos de relevância de Facebook e afins tratam de jogar na nossa cara apenas aquilo que nos deixa confortável, que gostamos. Isso é mais que suficiente para que uma versão se transforme em uma “verdade incontestável”.

Como já disse, ainda não tenho elementos para saber qual é a verdade nos casos apontados pela “Carne Fraca”. Acho que toda forma de corrupção deve ser exemplarmente combatida, mas e se houve mesmo precipitação e até sensacionalismo pela equipe responsável da Polícia Federal? E se toda essa milionária crise comercial tiver sido causada por uns poucos indivíduos agindo pontualmente?

Se isso se confirmar, a imprensa terá cometido uma falha gravíssima. E todo mundo terá corrido atrás dela, para jogar as suas pedrinhas.

 

A “escolinha do sexo”

Não teria sido a primeira vez que isso teria acontecido. E infelizmente não será a última.

A dinâmica dos fatos me fez lembrar de um caso que que virou objeto de estuda nas faculdades de Jornalismo: em março de 1994, sócios e funcionários da Escola Base, localizada no bairro da Aclimação (São Paulo), foram acusados por mães de alunos de abusar sexualmente de crianças de um a seis anos de idade. Um laudo não-conclusivo do Instituto Médico Legal informava que as fissuras eram “compatíveis com ato libidinoso”.


Capa do extinto "Notícias Populares" sobre o caso da Escola Base - foto: reprodução

Capa do extinto “Notícias Populares” sobre o caso da Escola Base

 

Casa que abrigava a Escola Base, na Aclimação, em São Paulo - foto: reprodução

Casa que abrigava a Escola Base, na Aclimação, em São Paulo


Isso foi suficiente para que o delegado Edélcio Lemos, responsável pelo caso, convocasse a imprensa e botasse a boca no trombone, condenando previamente os envolvidos. Começando pelo Jornal Nacional, a onda de denúncia se espalhou por toda a imprensa, exceto a TV Cultura e o finado Diário Popular, que não surfaram nela por acharem que não havia provas.

Graças ao noticiário, a escola e as casas dos acusados foram depredadas e saqueadas pela população. Além de falidos, tiveram que se mudar, pois foram ameaçados de morte. Porém, quando a investigação foi concluída, veio o choque: nunca houve qualquer tipo de molestamento sexual às crianças. As tais fissuras encontradas eram causadas apenas por diarreia. Mas o estrago já estava feito.

E isso tudo aconteceu em 1994! Portanto, antes do poder de propagação das redes sociais. Na verdade, antes mesmo da liberação da Internet comercial.

 

Desconfiança saudável

Apesar da terrível crise pela qual a imprensa vem passando, especialmente os veículos mais tradicionais, o noticiário ainda tem grande peso na vida das pessoas. E isso fica ainda mais forte em casos como o da “Operação Carne Fraca”, com fontes oficiais despejando um monte de evidências que incriminariam empresas e fiscais que estariam colocando “comida estragada” em nossas mesas. Para piorar, em um cotidiano em que a corrupção parece brotar o tempo todo de todos os lugares, o combate a ela virou uma questão de vida ou morte.

Muita calma nessa hora! Não podemos acreditar piamente em ninguém: nem na Polícia Federal, nem na imprensa, nem nas empresas, nem no governo! Não temos elementos para concluir coisa alguma com certeza. Portanto, nada de vestir a armadura de paladino digital e sair esculhambando ou defendendo ninguém.

Qualquer jornalista aprende que deve desconfiar de tudo e de todos sempre. Afinal, interesses podem alterar dramaticamente o posicionamento de pessoas, empresas e instituições. Mas essa desconfiança saudável serve para qualquer um, especialmente em tempos em que a opinião de qualquer cidadão tem grande peso, graças aos meios digitais.

Sei que é muito sedutor ver uma postagem no Facebook que nos atinge e “pensar com o fígado”. Como o algoritmo de relevância ainda nos mostra que muitos de nossos amigos também pensam o mesmo, abandonamos a nossa capacidade de questionar e embarcamos na loucura.

É muito triste, portanto, quando se percebe que a origem da confusão toda está exatamente na imprensa, aquela que vive para cavoucar a verdade, esteja onde estiver, doa a quem doer, mas que parece estar se esquecendo dessa sua nobre e essencial tarefa.

O desenvolvimento de uma sociedade está intimamente ligado a uma imprensa livre, mas também a uma imprensa preparada e responsável. Temos que lutar para que isso sempre exista, posicionando-nos contra a censura, mas exigindo também comprometimento dos profissionais. Pois, sem essas três características, o resultado de seu trabalho fica irremediavelmente comprometido. E aí os detentores do poder político e econômico deitam e rolam.

Paralelamente, cada um de nós também tem a responsabilidade de não acreditar em tudo e todos tão facilmente. Criemos um uso mais consciente, crítico e construtivo das redes sociais, para o nosso bem e para o de toda a sociedade.

Afinal, já existem meninos de recado demais por aí.


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A Olimpíada, a TV, as redes sociais e os riscos do pensamento único

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Serginho, eleito o melhor jogador de vôlei da Rio 2016, chora ao receber a medalha de ouro - imagem: reprodução

Serginho, eleito o melhor jogador de vôlei da Rio 2016, chora ao receber a medalha de ouro

A Rio 2016 chegou ao fim, deixando emoções inesquecíveis para todos. Não há como negar que os Jogos foram um grande sucesso! Por 17 dias, foi como se todos os problemas do nosso país tivessem sumido, sendo substituídos por um júbilo olímpico que ocupou a mente e o coração de todos. Mas isso só foi possível por um interessante e perigoso alinhamento entre TV e redes sociais.

Evidentemente os nossos problemas não desapareceram. Apesar de a bandidagem tradicionalmente pegar mais leve em grandes eventos (pois isso é bom para os negócios), quem precisou de um hospital público no período sofreu para conseguir qualquer atendimento, exatamente como acontecia antes dos Jogos. Isso só para ficar nos exemplos da violência e da saúde falida. Então como explicar esse pensamento único que, apesar de ter desempenhado um importante papel de resgate da autoestima do brasileiro, foi quase uma lavagem cerebral?


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A resposta é totalmente midiática. Ou seja, por baixo de tanta alegria, nossas mazelas persistiam. Mesmo assim, televisão e redes sociais praticamente só mostravam as Olimpíadas. E os sentimentos eram sempre positivos.

Estive no Rio nos dias imediatamente anteriores à abertura dos Jogos. Apesar de a cidade estar ainda mais bonita, e de já se ver o volume de turistas aumentando, era fácil notar que ainda faltava muita coisa a ser feita, e que a entrega só se daria nos acréscimos do árbitro. Os exemplos mais emblemáticos foram o metrô para o Parque Olímpico e a Vila dos Atletas, cujos inúmeros problemas ganharam as manchetes no mundo todo.

E a imprensa nacional e estrangeira batia. As delegações batiam. Nós todos batíamos nas redes sociais. Mas o que mais me preocupou naquela visita foi notar que muitos, talvez a maioria dos cariocas, não pareciam dar a menor bola para o que estava prestes a começar, quase como se a Olimpíada fosse acontecer em outro país. E eu sentia uma grande tristeza, pois via que aquelas pessoas estavam jogando fora a chance de algo que provavelmente nunca mais teriam de novo.

Foi quando Vanderlei Cordeiro de Lima acendeu a pira olímpica no dia 5. E o fogo pareceu esterilizar tudo o que havia de ruim.

E ninguém mais bateu.

 

Caixa de ressonância

No dia 5 de janeiro, publiquei aqui um artigo questionando o que restaria à mídia nesse ano que então começava. Em determinado momento disse que a principal cobertura da Rio 2016 ficaria na mão da grande imprensa, particularmente da Globo, pois é um evento que exige imensos investimentos. O que de fato aconteceu.

Mas a Vênus Platinada não foi a única responsável por essa mudança acachapante do pessimismo pelo encanto. As redes sociais tiveram papel determinante na amplificação disso tudo.

Como acontece em muitas ocasiões, a grande imprensa foi a origem do noticiário, enquanto as redes sociais funcionaram como perfeitas caixas de ressonância. Entretanto, como não se via há anos no Brasil, dessa vez todos foram juntos para um único lado. Não havia embates entre coxinhas e petralhas, nada de Corinthians versus Palmeiras, nem sinal de motoristas contra ciclistas.

Agora eram todos olímpicos, indo na mesma direção e no mesmo sentido. A TV cumpria seu papel de fornecer material. E as redes sociais transformavam aquelas imagens em um fator de união nacional.

Foi lindo! Esse povo sofrido precisava disso… Mas que medo!

 

Diferentes unanimidades

O grande Nelson Rodrigues, pernambucano de nascimento, mas fervoroso torcedor do Fluminense, disse a célebre frase “toda unanimidade é burra”.  E arrematou: “Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”.

Isso é uma dolorosa verdade quando vamos todos para o mesmo lado só porque a manada está indo para lá. Quando vamos a um restaurante porque os críticos o elogiam. Quando metemos o pau na Seleção Brasileira porque está jogando muito mal, e passamos a enaltecê-la quando continua ruim, mas melhora só um toquinho, o suficiente para o Galvão Bueno voltar a soltar seus infames bordões ufanistas. Afinal, o show tem que continuar!

É verdade que o futebol masculino brasileiro acabou ganhando o inédito ouro. Mas, para isso, tivemos que ouvir Neymar dizer a todos que “vocês vão ter que me engolir”, e depois partir para a agressão física contra torcedores ainda com a medalha no peito, dentro do Maracanã.

Esse é um preço muito alto por esse ouro. Não quero ter que engolir o galinho de briga, só porque a maioria diz que ele é um craque. Não estou impondo, com isso, o que eu acho sobre Neymar. Posso estar errado, afinal, e tenho que aceitar isso. Assim é a democracia, liberdade de pensamento, livre arbítrio.

Quero ter o direito de questionar, mas preciso aceitar quem pensa diferente de mim. Esse é o alicerce para tentar chegar a outra unanimidade, a inteligente. Que também pode falhar, mas que sempre constrói algo de bom ao contrapor pensamentos diversos e livres.

Por isso, sou muito mais Serginho, eleito o melhor jogador do torneio de vôlei da Rio 2016, com uma carreira muito mais campeã que a de Neymar, mas que, assim mesmo, se desfez em um choro muito humilde ao ganhar sua medalha de ouro. Um bom exemplo, afinal, para futuros atletas e para toda a sociedade.

Isso aconteceu no último dia da Olimpíada. Coincidentemente, nesse dia as redes sociais voltaram a apresentar divergência de pensamentos, patrocinados por esses comportamentos tão distintos desses dois atletas. Prefiro assim: redes sociais promovendo pensamentos diferentes, mesmo sob risco de polarizações (mas sem insanidades).

Já estou com saudades da Rio 2016! Não porque me cegou, mas porque me permitiu continuar vendo o mundo de diferentes maneiras, além do óbvio. Essa discussão foi mais um de seus legados. Agora é arregaçar as mangas para tentar resolver os problemas que estão aí. Aliás, de onde nunca saíram.


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Como não ficar obsoleto quando alguém fizer o seu trabalho

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Foto: Saad Sarfraz Sheikh/Creative Commons

Na semana passada, em uma aula sobre marketing de conteúdo, discutia com meus alunos sobre como empresas têm produzido conteúdo sério e de alta qualidade para atrair público para suas marcas. Surgiu então a questão: o que sobra para a imprensa? O fato é que essa pergunta pode ser extrapolada para qualquer negócio: o que sobra para você quando outro começa a fazer o seu trabalho?

Em tempos em que a tecnologia digital democratiza todo tipo de meio de produção e que a economia compartilhada subverte modelos de negócios consagrados, isso assombra o cotidiano de muitos profissionais e de muitas empresas. Será que estão ficando obsoletos?


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A má notícia: sim, você já pode estar obsoleto. A boa notícia: você ainda pode virar esse jogo!

Para quem não sabe o que é, marketing de conteúdo é uma maneira relativamente nova de as empresas trazerem potenciais consumidores para suas marcas, atraídos por ótimo conteúdo editorial. Não se trata de material sobre a empresa e seus produtos, e sim reportagens e artigos sobre temas de interesse dos clientes. Portanto, ao invés de ficar empurrando os produtos para o público, como se faz no marketing convencional, o marketing de conteúdo inverte esse sentido: as pessoas vêm até a marca e eventualmente podem passar a considerá-la uma referência no tema abordado. Idealmente, acabam se tornando clientes de seus produtos. Nestlé e Red Bull são referência em marketing de conteúdo, por exemplo.

Naturalmente as empresas não cobrem todo tipo de conteúdo. A Red Bull tem uma cobertura muito boa de esportes radicais, automobilismo, games e música. E –sim– nesses assuntos ela substitui veículos de comunicação. Some-se a isso a crise de credibilidade pela qual a imprensa tradicional está passando, e a sua situação fica realmente muito delicada.

Mas os veículos de comunicação são só um exemplo de negócio que está sofrendo com novos galos cantando em seu terreiro. Já discutimos aqui o caso do Uber, que está fazendo os táxis comerem poeira na preferência dos passageiros. Também debatemos, em diferentes momentos, sobre a Netflix, e como ela se posicionou como uma alternativa muito vantajosa à TV aberta e até à TV por assinatura.

Novos negócios sempre substituíram velhos negócios. Porém isso vem acontecendo de uma maneira inédita, seja pela velocidade exponencial, seja porque indivíduos que eram antigos clientes passam a ser concorrentes de empresas centenárias da noite para o dia. Aquilo que levou anos e consumiu fortunas para ser construído pode ser substituído por alguém com uma mente aberta para os negócios, muita vontade de trabalhar, inteligência e, quem sabe, o aplicativo certo em seu smartphone.

Como sobreviver a isso?

 

Descobrindo onde está o valor

Negócios consolidados e bem-sucedidos não perdem seu valor de repente. Entretanto, se estar em uma posição de liderança de mercado pode ser bom para os negócios, pode esconder um terrível risco de miopia empresarial: não ver as mudanças se aproximando rapidamente.

Voltemos ao exemplo do Uber: não é difícil encontrar clientes reclamando de péssimos serviços prestados por muitos taxistas. Mas as pessoas continuavam usando os táxis por falta de alternativa. No caso das TVs por assinatura, seus clientes sempre reclamaram do alto preço da mensalidade, da baixa qualidade da programação, do excesso de comerciais e de terem que engolir uma infinidade de canais irrelevantes para poder assinar qualquer pacote.

Nos dois casos, os sinais de descontentamento eram públicos e claríssimos! Bastava apenas alguém aparecer com uma solução melhor para tornar aqueles negócios candidatos à extinção.

Alguém apareceu!

Mas nem os táxis, nem a TV por assinatura, nem a imprensa, nem qualquer outro negócio ameaçado precisa morrer. Desde que redescubram onde seus antigos clientes estão vendo valor hoje. E mudar o seu negócio para atender essa nova demanda.

Os taxistas, por exemplo, são incapazes de derrotar o Uber hoje porque insistem em continuar disputando os passageiros com aquilo que eles sempre fizeram: o transporte de passageiros. Os taxistas acham que é isso que o Uber oferece. Só que ele transformou o transporte de passageiros em uma commodity! Os clientes veem valor hoje em serem levados em um carro novo e limpo, com um motorista educado e de bom papo, com serviço de bordo e a um valor justo (que incrivelmente chega a ser mais barato que o dos táxis). Obviamente, por baixo disso tudo, está o transporte, que viabiliza o negócio, mas de onde o valor foi retirado pelos clientes. Quem continuar competindo nessa camada inferior estará fora do mercado em breve.

Esse é o raciocínio que deve permear a cabeça dos gestores de qualquer negócio moderno! De nada adianta continuar fazendo o que se faz há décadas, se alguém estiver fazendo a mesma coisa tão bem quanto (ou melhor) que você, e de uma maneira mais inteligente. Pior que isso: talvez o seu negócio esteja até sendo oferecido de graça por outras empresas que o tenham como um subproduto de sua atividade principal, ou apenas como parte de um modelo de negócios mais amplo. É o caso do marketing de conteúdo.

Pare de se achar o senhor da razão ou detentor de algum direito adquirido! Preste atenção aos movimentos do mercado, seus novos concorrentes, o que e como oferecem e, principalmente, ouça detalhadamente o que o público tem a dizer.

A única coisa que não pode acontecer é querer continuar fazendo tudo do mesmo jeito e esperar que as pessoas continuem pagando por seu produto ou serviço por causa dos seus lindos olhos (ou sua tradição, sua marca consagrada). A fidelidade morreu! É preciso dar um novo significado ao seu negócio e reencontrar seu público. Caso contrário, ele rumará melancolicamente ao seu fim, à sua obsolescência.


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O papel da Imprensa e da Justiça na crise brasileira

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Dilma conversa com Lula em cerimônia em que ele foi empossado como ministro-chefe da Casa Civil, no dia 17 de março - Foto: José Cruz/Agência Brasil

Dilma conversa com Lula em cerimônia em que ele foi empossado como ministro-chefe da Casa Civil, no dia 17 de março

Nos últimos dias, especialmente depois que as conversas telefônicas de Lula vieram a público, tenho visto uma enorme gritaria contra a Imprensa e contra o Judiciário. O que mais me assusta é perceber que as críticas vêm escoradas em uma ideologia maniqueísta que tenta transformar verdades escancaradas em versões pueris e reduzir aqueles que defendem a sociedade a simples “golpistas”.

Este artigo não tem objetivos partidários e não defenderei nenhum dos lados. Tampouco negarei que existem excessos de apoiadores e de críticos ao governo. A proposta é analisar desdobramentos que levaram o Brasil a uma polarização ideológica inédita e a uma movimentação política que não era vista desde os fatos que culminaram na renúncia de Collor, em 1992.


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A matéria-prima da Imprensa são os fatos, a verdade; do Judiciário, as leis, a justiça. Dentro desses limites, não podem ser condenados pelo resultado de seu trabalho incomodar alguém, especialmente porque, por definição, sempre incomodam.

No caso do Judiciário, a maior parte das reclamações recai sobre o juiz Sérgio Moro, por ter exposto repetidamente o Governo Federal e membros dos partidos da base governista na operação Lava Jato. Os críticos acusam o juiz de abuso de sua autoridade, por supostamente cercear direitos dos acusados e exagerar nos pedidos de prisão preventiva para obter delações premiadas.

O caso que jogou um tambor de gasolina em uma fogueira, que já estava bastante grande, foi a liberação, no dia 16 de março, de escutas em telefones usados por Lula, nas quais ele conversa com diferentes autoridades, inclusive a presidente Dilma Rousseff.

Como todos devem estar carecas de saber depois de uma semana de noticiário, os dois lados procuram se apoiar em leis para defender ou acusar Moro. Mas evidentemente não há nenhum “golpe” em curso pela Justiça, como muitos, até mesmo a própria presidente da República, insistem em dizer.

Moro está fazendo seu trabalho de juiz. Não é nenhum estagiário e está jogando o jogo com as peças que tem. Seus movimentos são, de fato, muito mais ousados que o que se costuma ver no Brasil. Mas seu baralho não tem cinco ases. Se ultrapassou os limites, a própria Justiça se encarregará de puni-lo. Por outro lado, se ele estiver dentro das regras, expondo ações criminosas de quem for, presta um inestimável serviço ao país. A gritaria dos descontentes não é, portanto, nada além de gritaria.

Mas ainda tem o “Partido da Imprensa Golpista”.

 

Imprensa preservando segredos?

No caso da Imprensa, vemos em diferentes veículos, tanto apoiadores quanto detratores do governo, a distorção da realidade para fazer valer seus pontos de vista. Qualquer título pode (e deve) ter seu alinhamento político, mas nunca, jamais pode faltar com a verdade e a pluralidade para valorizar o seu lado. Mas não vou dar audiência para essa turma que faz antijornalismo. Eu simplesmente não leio mais essas páginas da “direita” ou da “esquerda”. O que quero discutir aqui é a tentativa do governo de desqualificar o trabalho da Imprensa séria. E ele existe em profusão.

O principal argumento da turma do contra é dizer que ela se presta a publicar “vazamentos seletivos” e apenas notícias contra o governo. Eu nunca vi argumentos mais estúpidos e oportunistas, criados para confundir a população.

A fantasia de qualquer governo é ter uma Imprensa dócil, que lhe apoie incondicionalmente. Mas, se ela fizesse isso, não seria Imprensa: seria relações públicas. E o governo, por si só, já tem mecanismos mais que suficientes para se promover, como as mais gordas verbas de publicidade do país e a força da própria máquina governamental.

A Imprensa vem veiculando coisas boas e coisas ruins de governos federal, estaduais e municipais, suficientes até para municiar as diferentes oposições de cada um, que usam material dos veículos de comunicação em seus dossiês e em posts raivosos nas redes sociais.

Alguns podem dizer que agora só se fala nos escândalos que jogam Lula, Dilma e seu governo na lama. Acontece que a quantidade de notícias sobre esse tema, que tem a mais alta relevância jornalística, parece não ter fim. E isso nos leva aos tais “vazamentos seletivos”.

A Imprensa séria não faz, nem publica “vazamentos”. Ela publica reportagens, com verdades apuradas. A turma da gritaria, incluindo a presidente da República, vocifera ao dizer que ela jamais poderia divulgar informações sigilosas, pois isso seria ilegal. Mas a função da Imprensa não é guardar segredos: é revelá-los! Quem tem que guardar segredos são os responsáveis por tais informações. Se elas foram “vazadas”, por incompetência ou de propósito, a função da Imprensa é apurar a verdade, ampliá-la com informações adicionais e publicar tudo com o maior destaque possível. E isso tem acontecido.

Alguns podem dizer que a Imprensa é irresponsável ao divulgar isso tudo, pois estaria criando uma gigantesca instabilidade política. Mas não é ela que está jogando o país no caos. Não são sequer as pessoas que fazem os vazamentos. Os responsáveis pela crise são aqueles que cometeram os crimes, que agora estão sendo desmascarados.

As fontes dos tais vazamentos são sempre pessoas imaculadas, livres de interesses pessoais, pensando apenas no país? Claro que não! Na verdade, o padrão é que seja o contrário disso. Como esquecer de Pedro Collor, que jogou o próprio irmão-presidente na fogueira, motivado por ciúmes? É por isso que os vazamentos nunca podem ser a única fonte da Imprensa, mas são ótimos pontos de partida para as reportagens.

Por isso, quem afirma que ela é golpista não sabe o que é Imprensa, não sabe o que é golpe ou é mal-intencionado. Ilegalidades do Judiciário ou da Imprensa devem ser coibidos. Qualquer outra atitude ousada e que mostre a verdade, deve ser aplaudida.

Nesse cenário, o governo enche a boca para bradar que nossa democracia é plena e madura, por isso temos tantas investigações em curso, inclusive dos próprios governantes. Isso é uma meia-verdade. Esse argumento funciona para quem cresceu sob a truculência militar, com a polícia atirando e jogando a cavalaria sobre manifestantes, para quem aprendeu que um país é “mais estável” quando tem sua Imprensa e seu Judiciário amordaçados e acovardados.

Temos uma cultura construída em cima de 516 anos de rapinagem da nação por aqueles que estão no poder. Nossa democracia é, na verdade, jovem, imperfeita e frágil. Estamos no caminho certo para que ela amadureça de fato, mas isso só será possível com o Judiciário e a Imprensa desempenhando livremente os seus papeis. Assim, qualquer tentativa de impedir isso é uma manobra para debilitar a democracia. E é o que não pode ser tolerado.


 

 

Morre outra vítima da imprensa

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Fachada da antiga Escola Base, que foi depredada pela população após denúncias infundadas veiculadas pela imprensa - Foto: reprodução

Fachada da antiga Escola Base, que foi depredada pela população após denúncias infundadas veiculadas pela imprensa

Na quinta, foi divulgada a morte de Icushiro Shimada, ex-dono da Escola Base e vítima de um erro generalizado da imprensa, que destruiu as vidas de sua família e de seus sócios e funcionários. O assunto virou um case que é estudado nas faculdades de jornalismo, mas profissionais e veículos continuam escorregando na ética e publicando denúncias sem a devida checagem. E as redes sociais só fizeram piorar esse comportamento.

Para quem não se lembra, em março de 1994, sócios e funcionários da Escola Base, localizada no bairro da Aclimação (São Paulo), foram acusados por mães de alunos de abusar sexualmente de crianças de um a seis anos de idade. Um laudo não-conclusivo do IML informava que as fissuras eram “compatíveis com ato libidinoso”. Isso foi suficiente para o delegado Edélcio Lemos, responsável pelo caso, convocar a imprensa e botar a boca no trombone, condenando os envolvidos sem qualquer julgamento. Iniciado no Jornal Nacional, o denuncismo se espalhou por toda a imprensa da época, exceto a TV Cultura e o finado Diário Popular, que não embarcaram por acharem que não havia provas.

Capa do extinto Notícias Populares, colocando ainda mais lenha na fogueira, de maneira totalmente irresponsável - Foto: reprodução

Capa do extinto Notícias Populares, colocando ainda mais lenha na fogueira, de maneira totalmente irresponsável

Graças ao noticiário, a escola e as casas dos acusados foram depredadas e saqueadas pela população. Eles faliram e tiveram que se mudar, pois chegaram a ser ameaçados de morte em telefonemas anônimos. Porém, quando a investigação foi concluída, “surpresa” geral: nunca houve qualquer tipo de molestamento sexual às crianças. As tais fissuras encontradas eram causadas apenas por diarreia. Mas o estrago já estava feito e os acusados para sempre foram condenados pela imprensa, por mais que tenham sido inocentados pela Justiça. Pediram indenizações do Estado e de veículos de mídia; algumas delas foram pagas depois de longos recursos, outras ainda não. Shimada morreu pobre, vítima de um infarto no último dia 16 de abril, assim como sua mulher, que morreu de câncer em 2007.

O comportamento profissional irresponsável e vergonhoso desse caso deveria ser suficiente para que casos assim não voltassem a acontecer. Não me refiro apenas a algo com essa magnitude, que não acontece tanto (mas desgraçadamente ainda acontece), mas também a falhas supostamente menores (mas não menos antiéticas) que estão no noticiário todos os dias.

A busca pelo “furo”, uma notícia exclusiva capaz de aumentar a audiência de um veículo, é como uma corrida por uma medalha de ouro. É legítima e bem-vinda. Mas não pode ser justificativa para atropelos. Mas é justamente isso que acontece: tudo parece ter virado uma “fonte confiável”. E, quando a blogosfera explodiu, lá pelo ano 2000, veículos começaram a usar até blogs obscuros como fonte. À medida que as redes sociais ficaram mais importantes, elas começaram a ocupar esse espaço.

Um caso recente que ilustra bem isso foi o do tal jornalista dinamarquês que teria vindo ao Brasil para cobrir a Copa do Mundo, mas “desistiu de seu sonho” e voltou para seu país depois de se deparar com as nossas mazelas sociais. Esse assunto resultou em longos debates no Facebook (até aí, tudo bem) e chegou a pautar vários veículos, que compraram a historinha como verdade (aí tudo mal!) e publicaram vários artigos (inclusive algumas toscas bravatas nacionalistas). Mas a história não era séria (pelo menos, não totalmente): um resumo da confusão pode ser visto neste post (que, por sinal, teve que ser atualizado após a publicação).

Pressões por dar logo uma notícia, especialmente quando ela é bombástica, sempre existiram, e muitas vezes vêm de fora da Redação. Quando seus concorrentes já estão falando no assunto, fica ainda pior, principalmente em veículos em tempo real, como a mídia online, a TV e o rádio. Mas essa pressão não pode servir de muleta para deslizes. Isso foi muito bem explorado no trecho abaixo, da série da HBO “The Newsroom”:

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=m95qHOmoUXs]

 

Como dizia Gabriel García Márquez, “a pressa é ingrediente desse ofício”, assim como a pressão. Quem não consegue realizá-lo eticamente nessas condições não está apto para o jornalismo. Se a imprensa continuar realizando seu trabalho dessa forma, acabará vítima de si mesma.

Lula diz que a Internet enfraquece a imprensa e, por isso, fortalece a liberdade

By | Jornalismo, Tecnologia | 5 Comments
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=7nEbBfsHQEo]

Em sua fala no 10º Fórum de Software Livre, em Porto Alegre, no dia 26, o presidente Lula afirmou que a imprensa perdeu poder graças à Internet e que, por isso, vivemos um momento inédito de liberdade de informação. Não satisfeito, ainda insinuou que isso protegeria o país contra golpes perpetrados pelos grupos de mídia. O trecho do discurso onde solta essa pérola pode ser visto no vídeo chapa-branca acima, a partir dos 35 segundos:

“Finalmente este país está tendo o gosto da liberdade de informação. Sabe que eu penso que nós estamos vivendo um momento revolucionário da humanidade, em que a imprensa já não tem mais o poder que tinha alguns anos atrás. A informação já não é mais uma coisa seletiva, em que os detentores da informação podem dar golpe de Estado. A informação não é uma coisa privilegiada. O jornal da noite já ‘tá’ velho diante da Internet. O programa de rádio, se não for ao vivo, for gravado, já fica velho diante da Internet. O jornal fica hipervelho diante da Internet, e fica tão velho que todo jornal criaram (sic) blog para informar junto com os internautas do mundo inteiro.”

Desde então, tenho lido e ouvido coleguinhas esperneando contra mais essa declaração infeliz de Lula, ainda “magoados” pelo fim da exigência do diploma para exercício da nossa profissão.

Bom, como diz o ditado, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Apesar de seu carisma, nosso presidente tem uma clássica dificuldade de expor idéias. É claro que Lula (e qualquer governo) prefere uma imprensa dócil, submissa e palaciana, coisa que ele nunca teve. E ainda bem, pois “nunca antes na história desse país” vimos tanta bandalheira no poder. Por mais que os grandes grupos de mídia tenham seus interesses econômicos e políticos (e eles tem), não podem ser configurados como golpistas por publicar os desmandos governamentais.

Acho sensacional que a Internet dê voz ao cidadão comum, de uma maneira “revolucionária”. Isso realmente é uma mudança de paradigma que não se via desde os tempos de Gutenberg, quando, graças a sua prensa, a informação deixou de ser “de poucos para poucos” e passou a ser “de poucos para muitos”. Agora, a coisa é “de muitos para muitos”. Mas, mesmo assim, apenas grupos de mídia fortes e organizados editorialmente são capazes de impedir que o governo faça o que bem entender. Lula falou demais…

Fazendo água além-mar

By | Educação | 2 Comments

Se os brasileiros parecem estar dispostos a abraçar o novo acordo ortográfico, o mesmo não acontece entre os lusos. Pesquisa realizada em Portugal aponta que 57,3% deles são contrários ao acordo, sendo que 66,3% afirmam que não adotarão as novas regras. A situação é pior entre os mais jovens e os menos escolarizados.

Pode-se argumentar que se trata de um acordo de gabinete, criado sem apoio popular. Mas pensando friamente: haveria outro jeito de se fazer isso?

Particularmente as reações não me espantam: um acordo desse tira as pessoas de uma de suas maiores zonas de conforto, que é a maneira de escrever. Mas as regras estão aí, os governos estão apoiando o acordo. A grande imprensa e editoras têm papel fundamental para que isso aconteça, ainda que a longo prazo (uma década, provavelmente).

Em tempo: a pesquisa foi feita pela empresa Aximage, sob encomenda do “Correio da Manhã”. Trata-se do jornal mais vendido em Portugal. E que ainda não adota as novas normas em suas páginas. Ora pois!