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O fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, durante depoimento no Congresso americano, em 2018

Redes sociais fogem do seu papel nos ataques à democracia

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O Brasil chegou à semana do Dia da Independência com um clima tão denso, que dá para ser cortado com uma faca, feito doce de leite cozido além do ponto. Ainda que tudo leve a crer que isso não passe de uma fumaça espessa, diz o ditado que onde ela existe, também há fogo. E o combustível para essas labaredas são as redes sociais, particularmente o pouco que elas vêm fazendo para tentar corrigir seu papel decisivo no ataque crescente à sociedade organizada.

Para quem viveu praticamente toda sua vida em um Brasil redemocratizado com o fim da ditadura militar, é inacreditável e assustador ver essa escalada da insanidade e da violência. Ela acontece porque grupos políticos usam essas plataformas digitais e o incrível poder de convencimento de seus algoritmos para incutir, em uma parcela considerável da população, a falsa ideia de que podem pensar, dizer e fazer o que bem entenderem em nome da liberdade de expressão.

Isso é uma falácia! Quando todos têm razão, ninguém tem razão! Mas o fato de as redes sociais nos colocarem em contato apenas com quem pensa como nós acaba legitimando mesmo a mais absurda porcaria.


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Possivelmente o exemplo mais emblemático desse momento é o motim de grupos expressivos de polícias militares pelo Brasil, abarcando de soldados a coronéis. Em nome desse suposto direito de se expressar, vêm transgredindo, de forma despudorada, seu próprio regulamento e atacando explicitamente instituições democráticas. A insubordinação é alimentada pelos grupos de poder nas redes sociais, transformando os militares em marionetes.

A gênese desse comportamento são diversas insatisfações das tropas, especialmente quanto a salários. Mas a prolongada e aguda crise política e econômica do Brasil atinge todas as categorias da sociedade. Os policiais não podem se atribuir mais direitos que qualquer outra categoria, e muito menos, para conseguir o que querem, usar a força que a sociedade lhes confere para ameaçar a mesma sociedade. Caso contrário, quem nos protegerá de quem deve nos proteger?

Winston Churchill disse em 1947 uma de suas célebres frases: “Ninguém espera que a democracia seja perfeita ou infalível. Na verdade, tem sido dito que a democracia é a pior forma de governo, excetuando-se todas as demais formas.” O ex-primeiro-ministro do Reino Unido, considerado um dos maiores estadistas da história, sabia que a democracia só funciona bem pela contraposição de ideias.

Ele deve estar se revirando no túmulo agora ao ver o que oportunistas fizeram da democracia com a ajuda das redes sociais, ao eliminar tal contraposição.

 

Poder desmedido

Não seria absurdo afirmar que nunca existiram empresas tão poderosas no sentido de transformar a sociedade, para o bem ou para o mal. As redes sociais, que surgiram como espaço lúdico para encontrar amigos e compartilhar trivialidades, se transformaram em plataformas que definem o que compramos (seu grande negócio), com quem andamos e até o que pensamos.

Suas equipes conscientemente constroem sistemas que atuam nas camadas mais primitivas de nosso cérebro. Isso é fartamente explicado no documentário “O Dilema das Redes”, disponível na Netflix. Também foi descrito cientificamente em um estudo liderado por Adam Kramer, então cientista de dados do Facebook, publicado em 2014 na prestigiosa revista Proceedings of the National Academy of Sciences, assim como em outra pesquisa, que ganhou a capa da Science, a mais importante revista científica do mundo, em 2018.

Nunca nada ou ninguém sequer rivalizou com essa capacidade de persuadir as pessoas. Trata-se de uma virtual onipotência, que é usada o tempo todo. Assim como a indústria tabagista sabia que o cigarro fazia mal e viciava os consumidores e, mesmo assim, investia em ingredientes que ampliavam a dependência, as redes sociais persistem nesse seu caminho.

Justiça seja feita, algumas dessas plataformas, inclusive o Facebook, vêm tomando ações para minimizar os pesados efeitos colaterais provocados por suas atividades. Mas isso está longe de ser eficaz, principalmente porque essas companhias ainda não assumem a verdadeira extensão desse dano.

Além disso, as ações acontecem principalmente porque elas vêm sendo pressionadas por governos ao redor do mundo, especialmente depois que explodiu o escândalo da Cambridge Analytica em 2018. Como explica outro documentário da Netflix, “Privacidade Hackeada”, essa empresa britânica de marketing político usou o Facebook para manipular milhões de pessoas favorecendo a eleição de Donald Trump para presidente dos EUA em 2016, e o Brexit, que tirou o Reino Unido da União Europeia.

E pensar que tudo isso começou com conversas inocentes de amigos.

 

A alegria na ignorância

A maioria das pessoas gostaria apenas de seguir sua vida de maneira produtiva e em paz. Mas a onipresença das plataformas digitais acaba nos arrastando para esse turbilhão.

Governos totalitários adoram isso: o pensamento único lhes favorece. Por isso, investem tanto nas redes sociais.

Isso me faz lembrar do filme “O Doador de Memórias” (2014), que retrata uma sociedade em que não há tristeza, doença ou pobreza. Mas o custo dessa harmonia é a eliminação de todas as emoções (mesmo do amor) e da liberdade. As pessoas sequer têm memórias do seu passado e veem o mundo sem cores (literalmente).

Para a governante vivida por Meryl Streep, “quando as pessoas têm a liberdade de escolher, elas escolhem errado”. Assim o governo determina até o que cada pessoa deve fazer e como deve pensar. E, para conter qualquer rebelião, todos devem tomar diariamente uma espécie de droga.

Começo a achar que as redes sociais são essa droga em nossa realidade. Muita gente topa aparentemente eliminar toda a dor e a discordância, mesmo que o custo disso seja sua liberdade, sua autonomia e seu senso crítico. Precisam apenas de alguém que os guie para esse mundo do pensamento único.

Bem, isso agora existe e está sendo implantado. Mas não dá para viver assim!

Precisamos de paz e de liberdade! Ninguém se desenvolve em um uma vida de constante incerteza e conflito, ou sendo dominado socialmente (ainda que não perceba essa dominação).

Sou progressista e liberal (ao contrário do que muitos pensam, esses conceitos não são antagônicos). Entendo que empresas não podem atuar livremente apenas para garantir seus próprios interesses. Como integrantes de uma sociedade, suas ações têm impacto na vida das pessoas e devem ser responsabilizadas quando algo que fizerem prejudicar a população.

Por isso, devemos usar as redes sociais no que elas têm de bom –e são muitas coisas! Mas não podemos deixar que elas se prestem aos objetivos nefastos de alguns grupos. O espaço que elas já ocuparam em nossas vidas não pode colocar em risco a democracia e nosso bem-estar.

Nós também somos responsáveis por tudo isso!

Assis Chateaubriand, o “rei do Brasil”, que construiu um império de mídia na primeira metade do século XX só porque “queria ter opinião”

A verdade e os limites de cada um

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Segundo consta, o paraibano Assis Chateaubriand (que aparece na foto acima) começou a construir seu império de comunicação dos Diários Associados porque queria “ter opinião”. No início de sua carreira, ouviu do patrão que, para falar o que bem entendesse, tinha que comprar um jornal. E foi o que fez! Depois outro, outro e mais outro, até ser dono do maior conglomerado de mídia da América Latina na primeira metade do século XX, que chegou a contar com mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e agências.

Nada mal para quem só queria publicar suas ideias sem pedir permissão ao outro!

Passados cem anos, a coisa ficou bem mais simples. Não é preciso ter jornal, nem rádio, nem TV para expressar sua opinião. Basta uma conta nas redes sociais.

O problema é que, como diz o ditado, “quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza”. Opinião todo mundo pode ter sobre tudo, inclusive religião, futebol e, mais recentemente, política. Mas ter opinião embasada e saber expor isso de forma respeitosa e construtiva exige habilidades que poucos carregam. E, nesse emaranhado de ideias sem limite, pessoas e empresas tentam se encontrar.


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Chatô, como era conhecido Chateubriand, virou o “rei do Brasil” pelo poder que construiu na mídia. Acabou incorporando a bravata do antigo chefe, que repetia a seus subordinados: “se você quiser ter opinião, compre um jornal (ou uma revista)!” Defendia seu direito de se expressar, mas não que outros promovessem suas “verdades”, especialmente as contrárias às suas.

Esse comportamento condenável combinava com a personalidade autoritária e egocêntrica de Chatô. Apesar do poder acumulado, estava longe de ser um exemplo a ser seguido. Infelizmente agora a Internet permite que isso se multiplique indefinidamente por pessoas de todo tipo e todo lugar, donos de seus “pequenos castelos”.

Esse diálogo de surdos nas redes sociais se construiu porque as pessoas confundem sua opinião com fatos. É possível acreditar em algo, é possível repetir isso mil vezes, mas não é possível ser dono dos acontecimentos.

A intensa virtualidade em que vivemos, reforçada pelas várias horas que passamos metidos nas redes sociais todos os dias, favorece essa sensação de poder se controlar a verdade: qualquer coisa que dissermos nessas plataformas ecoará em muitas pessoas, graças aos algoritmos que criam bolhas de pensamento único a nossa volta.

Não podemos perder as referências do real e de nossa humanidade por essa sensação de falso poder. E isso nos traz outro desafio de nosso tempo, que é o de se posicionar, de promover a proximidade com o outro sem parecer oportunista ou piegas. Pelo contrário, como fazer isso de maneira construtiva e genuína?

 

Coragem e vulnerabilidade

O cenário de insana polaridade que vivemos decorre disso. Quando todos têm razão, ninguém tem razão. É como se, de repente, o Brasil fosse tomado por milhões de Chatôs.

Essa intolerância pode calar muitas boas vozes: pessoas não apenas com opinião, mas também com embasamento, só que sem interesse em entrar nos intermináveis e infrutíferos debates online. Daí, para se proteger, criam “couraças” sobre a pele.

Mas –suprema ironia– as redes sociais justamente premiam quem se mostra. Considerando que a presença nessas plataformas se tornou essencial para se posicionar, fica o dilema de como fazer isso sem se machucar.

Um dos caminhos é se demonstrar autêntico, despir-se da defesa da couraça. Para isso, é preciso coletar excelentes argumentos e fatos de fontes fidedignas antes de se pronunciar. E, nesse processo, temos um ganho secundário importantíssimo, que é separar aqueles que “falam apenas porque têm boca” dos que realmente têm algo útil a se dizer.

Não é uma tarefa simples. Em nossa sociedade competitiva e guiada pela tal meritocracia, mostrar-se genuinamente virou algo de certa forma indesejado. Ao tirarmos as “máscaras”, mostramos nossas imperfeições, e isso é visto como sinal de fraqueza, de alguém que não deve ser, por exemplo, contratado para um trabalho.

Esse pensamento é um grande erro, pelo simples fato de que ninguém é perfeito. Segundo Brené Brown, pesquisadora em serviço social da Universidade de Houston (EUA), “imperfeições não são inadequações: são um lembrete de que estamos nisso todos juntos.”

Brown é uma referência internacional quando se trata de vulnerabilidade. Para ela, demonstrar-se vulnerável pode ser uma poderosa ferramenta de autoconhecimento, que nos permite identificar e melhorar nossas deficiências e reforçar nossas habilidades. Esse é um passo essencial para demonstrarmos empatia por nós mesmos. Sem isso, não seremos eficientes em ser empáticos com o outro.

Não precisamos ter respostas para tudo na ponta da língua. Ninguém sabe tudo sobre algo e nem algo sobre tudo. Sempre teremos o que aprender. Dessa forma, o antídoto para a intolerância das redes passa pela coragem de se demonstrar vulnerável e construir algo com isso.

 

“Meta as caras”

Muito antes de saber dessas histórias de Chateubriand, eu criei um jornal, um tabloide mensal que chegou a ter 52 páginas coloridas e 50 mil exemplares por edição, que durou de 1991 a 1998.

O que me motivava era compartilhar um pouco do que eu sabia com muita gente, em um tempo em que a Internet comercial ainda não existia (só foi liberada no Brasil no fim de 1994) ou era muito restrita.

Era o começo da minha carreira. Ainda havia muito a se lapidar em mim, mas acreditava que podia contribuir com as pessoas. E fazia isso cuidadosamente, da melhor maneira que podia. Quando o impresso acabou, eu já tinha o digital para ampliar minha voz.

Hoje, só no LinkedIn, tenho mais de 750 mil seguidores. Naturalmente nem todos veem o que publico, e, dos que veem, nem todos gostam. E está tudo bem! Eu não quero ter uma opinião para impor aos outros e não sinto que sou dono da verdade. Entretanto, ao escrever um artigo, gravar um vídeo, fazer um simples post, procuro saber muito bem do que estou falando e me apresentar com autenticidade.

Em um mundo tão complexo como o atual, precisamos de menos Chatôs e de mais Brené Browns. Portanto, convido você a trilhar esse caminho da vulnerabilidade, da empatia e do compartilhamento de ideias construtivas. Ganhará você e quem você tocar.

 

O filósofo austríaco Karl Popper, criador do "paradoxo da tolerância"

O dilema do bom produtor de conteúdo

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Em um mundo dominado pelo meio digital, em que as redes sociais ajudam a construir impérios e a vender de tudo, produzir conteúdo deixou de ser prerrogativa de empresas de comunicação e de jornalistas. Pessoas e negócios de todo tipo se aventuram nessa tarefa para se posicionar. Mas o que poderia ser algo benéfico e até divertido pode ganhar contornos sinistros, graças à intolerância nessas plataformas. E isso faz muita gente boa sofrer com suas publicações ou duvidar se deve se expor assim.

Na semana passada, o filho de 16 anos da cantora de forró Walkyria Santos se suicidou depois de receber uma enorme quantidade de comentários homofóbicos. Tudo porque ele havia publicado um vídeo que viralizou no TikTok, em que simulava um beijo em um amigo.

Esse é um caso extremo, mas infelizmente não é único. Além disso, vemos todos os dias uma enxurrada de ataques gratuitos, pesados e extremamente virulentos contra pessoas que fizeram publicações inofensivas e às vezes até positivas para a sociedade. Entretanto, por não concordarem com algo que foi dito, os “valentões digitais” não têm limites na sua fúria para desqualificar as ideias e destruir o autor.

Chegamos a um ponto irracional em que se produz conteúdo o tempo todo, mas isso pode subitamente destruir uma reputação e provocar grande sofrimento.


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É absolutamente injustificável um ataque desumano como o sofrido pelo filho de Walkyria Santos. A maioria desses agressores possivelmente não faria o mesmo olhando nos olhos da vítima, mas protegidos pela ilusão da “manada digital”, que justifica e incentiva o ódio e a intolerância, cada um deles agora carrega uma parcela da culpa pelo suicídio do jovem. O problema é que eles nem devem estar se importando com isso, seguros do outro lado da tela.

É praticamente impossível agradar todo mundo, ainda mais quando todos parecem ter opinião sobre qualquer assunto. Os algoritmos das redes sociais, que nos colocam em contato apenas com quem pensa como nós, estão destruindo a empatia e a capacidade de se construir com as diferenças.

O ativista político e pesquisador do meio digital Eli Pariser descreveu isso há uma década, com o conceito de “filtros-bolha”. Segundo ele, os algoritmos não são éticos ao tentar nos mostrar apenas o que nos agrada, barrando qualquer pensamento dissonante, tudo para aumentar a audiência das plataformas digitais.

Longe de ser um exagero, o conceito de Pariser é um fato que nos embrutece e nos torna menos tolerantes, resultando nesse cenário insustentável em que vivemos. A sociedade entrou em uma desnecessária autofagia.

 

O paradoxo da tolerância

É triste observar tudo isso!

A Internet comercial nasceu em 1994 como um espaço muito democrático, em que todos podiam se expressar livremente. Ninguém a imaginava como a máquina política de manipulação que se tornou nos últimos anos. Era um cenário idílico, em que todos falavam e ninguém se agredia (sim, a Internet já foi assim!).

Como pesquisador do meio digital e jornalista que atua nele desde seu primeiríssimo momento, defendo essa liberdade e combato os intolerantes, o que pode parecer uma contradição. Mas ela foi perfeitamente descrita em 1945 pelo filósofo austríaco Karl Popper (que aparece na foto no alto deste artigo) com seu “paradoxo da tolerância”, no best-seller “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”.

Segundo ele “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”. O filósofo explica que “se não estivermos preparados para defender a sociedade do assalto da intolerância, então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles”. Ele afirma que não é necessário calar as filosofias intolerantes, desde que possam ser combatidas com argumentos racionais e mantidas em xeque frente à opinião pública.

Popper alerta, entretanto, que os intolerantes podem não estar preparados para lidar com a razão, “a começar por criticar todos os argumentos e proibindo seus seguidores de ouvir argumentos racionais, porque são enganadores e os ensinam a responder aos argumentos com punhos ou pistolas”.

Alguma semelhança com o mundo atual?

Popper sugere que devemos então, em nome da tolerância, não tolerar o intolerante. E conclui que “devemos exigir que qualquer movimento que pregue a intolerância fique fora da lei e que qualquer incitação à intolerância e perseguição seja considerada criminosa”.

 

O raso combatendo o profundo

Cada um dá aquilo que tem! Infelizmente, as pessoas estão com cada vez menos recursos intelectuais, então se valem da agressividade e da divisão para combater quem tem a profundidade da qual não dispõem.

O problema é que essa violência dói em quem está querendo se posicionar de maneira construtiva. Por isso, vejo muita gente que poderia contribuir brilhantemente com a sociedade nas redes se calando para evitar ser envolvido em algum turbilhão insano, que prejudique sua imagem e até sua saúde mental.

Em resumo, os únicos que ganham com isso são os rasos, os intolerantes, aqueles que querem achatar toda a sociedade a seu nível.

Àqueles que querem usar as redes sociais para se posicionar, eu sempre digo que façam isso com um bom conteúdo. E, por “bom conteúdo”, entenda-se algo que apresente suas qualidades, contribua com o crescimento de quem verá aquilo, e não ofenda ou diminua ninguém. Quem tem a pretensão de criar uma boa imagem no meio digital deve entender que isso deve ser feito de maneira construtiva, e não praticando a intolerância ou cometendo crimes.

Claro –como já expliquei– sempre haverá o risco de “receber pedradas” mesmo quando se fizer tudo corretamente. Por isso, a sugestão é publicar sempre com segurança do que se está fazendo ou dizendo. No caso de ataques, haverá argumentos para se apresentar.

É verdade que eles podem ser muito agressivos, e acabam abalando o autor. Alguns ainda fazem isso para tentar crescer um pouco ao criticar alguém de mais envergadura moral e intelectual. Mas não se deve deixar abater por isso. O “idiota da aldeia”, como o filósofo italiano Umberto Eco descreveu em 2015 esses tipos que florescem no pus do ódio das redes sociais, sempre podem ser ignorados ou até mesmo bloqueados.

Ou resgatamos a nossa capacidade de conviver em harmonia com as diferenças, construindo com elas ao invés de silenciá-las, ou corremos o risco de deixar de sermos uma espécie viável no futuro. Não podemos nos tornar uma sociedade medíocre pela agressividade dos intolerantes.

Portanto, para esses, o conselho é: cuidado ao atacar alguém só porque a “manada” justifica. Isso pode ferir uma pessoa profundamente. Se esse comportamento não for combatido, o agressor pode ser a próxima vítima.

Limites melhoram a experiência digital de crianças

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No início do mês, o post de uma médica paulistana “viralizou” no Instagram. Ela explicava por que excluiu as contas no Instagram e no TikTok de sua filha de 14 anos, que já tinha cerca de 2 milhões de seguidores. Segundo a mãe, fez isso para proteger a filha dos efeitos da exposição desmedida nas redes.

Como já se tornou praxe em nossa sociedade polarizada, ela recebeu muitos apoios pela iniciativa, mas também foi pesadamente criticada. Mas, afinal, ela extrapolou com seus cuidados maternais?

O fato é que o mundo digital está profundamente integrado à vida de adolescentes e até de crianças. Segundo a versão mais recente da pesquisa “TIC Kids Online Brasil”, realizado anualmente pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 89% dos brasileiros entre 9 e 17 anos estão online. No Sudeste, esse percentual chega a 96%!

Nesse cenário, fica muito difícil impedir o acesso dos filhos ao meio digital. Por isso, especialistas afirmam que a supervisão dos pais é essencial para que os pequenos aproveitem ao máximo essa experiência.


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O pesquisador americano Philip Kotler, cunhou, em seu best-seller “Marketing 4.0” (2017), o neologismo netizen, combinando as palavras em inglês net e citizen, ou seja, os “cidadãos da Internet”. Segundo ele, “à semelhança de bons cidadãos, que contribuem para seu país, eles contribuem para o desenvolvimento da Internet.”

O papa do marketing moderno explica que “o papel deles de influenciar os outros está ligado ao desejo de estar sempre conectado e contribuir.” Não se limitam, portanto, a “consumir a Internet”.

Não seria diferente com as crianças. Katty Zúñiga, psicóloga integrante do Janus Leptic (Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e Comunicação) da PUC-SP, explica que, como computadores e celulares fazem parte do cotidiano das famílias, isso se torna natural às crianças. Para ela, “é um campo novo de diversão, de aprendizado e comunicação”.

Entre as atividades que muitas realizam, está se tornar influenciador digital. A psicóloga explica que isso pode ajudar a desenvolver a criatividade e várias habilidades das crianças, como pensamento mais rápido, comunicação, espontaneidade e a autoconfiança. Ela alerta, entretanto, que os pais precisam ser um fio condutor, para que os filhos não percam os limites. Caso contrário, os benefícios podem dar lugar a problemas como ansiedade, perfeccionismo e cobranças desmedidas para “entregar conteúdo”.

 

Pequenas estrelas, grandes vendedores

Os primeiros influenciadores-mirins surgiram em 2005. Começaram como brincadeiras, mas muitos ganharam legiões de seguidores no YouTube e posteriormente em outras redes, chegando a milhões de fãs.

Especialistas explicam que crianças e adolescentes que se tornam influenciadores devem continuar encarando isso como diversão, e não como um trabalho. Mas muitas empresas e alguns pais descobriram que estavam diante de uma mina de ouro: os vídeos das crianças brincando são uma poderosa ferramenta para vender qualquer produto para seus pequenos seguidores.

Bruno Studer, professor, pesquisador e deputado francês, abordou o tema no 10º RightsCon, evento mundial sobre direitos humanos no ambiente digital, realizado em junho. Para ele, “quando se fala de influenciadores mirins, há um natural conflito de interesses para os familiares: ao mesmo tempo que procuram o bem-estar das crianças, também precisam administrar suas carreiras.”

Essa forma dissimulada ou às vezes escancarada de publicidade infantil afeta os influenciadores e seus fãs. Os primeiros recebem dezenas de brinquedos todas as semanas, o que é uma distorção da realidade, e precisam “brincar” com todos eles diante de câmeras. Já os seguidores, que tampouco têm maturidade para entender isso, são bombardeados com uma mensagem publicitária extremamente eficiente.

As plataformas digitais também precisam fazer mais para solucionar esse problema. Afinal, elas lucram muito com essa superexposição. Não basta, portanto, ter apenas um comportamento reativo de remover vídeos denunciados.

A edição de 2016 da mesma “TIC Kids Online Brasil” identificou que 69% das crianças e adolescentes foram impactadas naquele ano por publicidade em sites de vídeo, e 62% em redes sociais. A pesquisa mostrou também que 43% deles pediram produtos anunciados aos pais.

 

Controle parental

Eles, por sua vez, precisam de apoio. Muitos, mesmo bem intencionados, podem expor seus filhos demasiadamente, por falta de informação.

Não há legislação no Brasil que discipline as profissões de youtuber ou influenciador, mas a Constituição proíbe o trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de 18 anos, e qualquer trabalho a menores de 16, exceto o de aprendiz, permitido a partir de 14 anos. Pais que queiram regularizar a atividade de filhos influenciadores podem, entretanto, buscar um alvará judicial que classifique a atividade como trabalho artístico.

Mais importante que isso é os pais terem apoio psicológico para a iniciativa. Eles não podem ver seus filhos como “a galinha dos ovos de ouro”, e precisam ajudar crianças e adolescentes a não se sentirem pressionados por entregas, ou ansiosos por aprovações virtuais, como curtidas. A falta de materialidade disso pode causar uma dependência que pode evoluir até para a depressão.

Além disso, celulares não podem ser usado como as “novas chupetas”. “Há pais que aproveitam dessas ferramentas para se livrar do choro das crianças, e acabam as entregando para elas sem limite”, explica Zúñiga.

Especialistas indicam que a exposição a qualquer tipo de tela não deve passar de uma hora por dia até os 6 anos de idade, subindo para duas horas até os 12 anos e no máximo quatro horas por dia após isso. “É importante ter um tempo, pois a criança precisa se desenvolver em todos os aspectos”, explica ela, reforçando que a criança precisa também ter necessariamente experiências concretas.

Portanto, não dá para simplesmente alijar crianças e adolescentes do mundo digital, pois isso faz parte da sociedade em que todos nós vivemos. Fazer isso os privaria do desenvolvimento de habilidades importantes.

O que deve ser feito é orientá-las, supervisioná-las, estar junto a elas. Precisamos nos interessar genuinamente pelo que nossos filhos estão fazendo, e não apenas nas redes.

Para a sociedade dar certo, precisamos acreditar em algo

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A vida tem um jeito especial de eventualmente nos jogar em um turbilhão de fatos e tarefas que nos tiram a perspectiva de qual é nosso lugar no mundo. Passamos a viver um dia após o outro sem refletir sobre o que poderíamos fazer para melhorar. Quando isso acontece, para reconstruirmos nosso caminho, às vezes temos que primeiramente chegar ao fundo do poço.

É o caso da falta de confiança generalizada em nossa sociedade. Ela deriva de uma crise política e econômica que já dura sete anos, e que só vem piorando. A pandemia, que nos apresentou desafios nunca antes enfrentados, nos tirou ainda mais do nosso eixo. É o que demonstram os recentes estudos globais Digital News Report, do Instituto Reuters e da Universidade de Oxford, e o Trust Barometer, da consultoria Edelman.

O fato é que, se não confiamos em mais nada, ou quando apenas as nossas convicções pessoais guiam nossos atos, a sociedade se dissolve. Passamos a viver dentro de um eterno “diálogo de surdos”, em que ninguém mais constrói nada com o outro, indo cada vez mais para o fundo.

Temos que romper esse círculo vicioso!


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A desconfiança é um sentimento natural diante do desconhecido ou de alguém que dá mostras de praticar atos questionáveis. É um sentimento de autopreservação legítimo contra quem potencialmente pode nos fazer algum mal. Mas ela não pode crescer sem limites. Caso contrário, chegamos no ponto em que estamos, com uma polarização irracional, o que afeta nosso próprio desenvolvimento ao excluirmos possibilidades sociais.

Por exemplo, será que só podemos comprar de quem pensa igual a nós? Se a pessoa tiver outras ideias, será que tudo que ela faz é necessariamente ruim? Por outro lado, será que tudo feito por quem pensa como nós é bom? Contratar pessoas que são diferentes de nós seria uma ameaça ao nosso estilo de vida?

Claro que nenhuma dessas ideias extremistas é verdadeira! Mas pensamentos como esses estão guiando a nossa vida.

As pessoas acreditam no que elas quiserem, no que lhes for mais conveniente. Sempre foi assim! Mas algo mudou em nossos cérebros há alguns anos, com o apoio das redes sociais.

Para nos vender todo tipo de coisa, seus algoritmos nos mantêm enjaulados em uma zona de conforto de pensamento único. Qualquer ideia que tivermos parece ser corroborada pelo mundo, quando, na verdade, é apenas um recorte da sociedade filtrado pelo sistema, escondendo de nós pensamentos divergentes. Trata-se do que o ativista digital americano Eli Pariser chamou, há uma década, de “filtro bolha”.

Tanto é assim que, em 2016, o renomado Dicionário Oxford elegeu “pós-verdade” como a “palavra do ano”. Na sua definição, ela é “relativa ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais.”

Eu me pergunto se os organizadores da obra imaginavam quão proféticos estavam sendo ao escolher essa palavra.

 

O papel do jornalismo

Os veículos de informação têm um papel decisivo nesse resgate da verdade e da confiança. E, se alguém tinha alguma dúvida, isso ficou claro durante a pandemia: quando a situação ficou realmente crítica, a população correu para eles em busca de notícias confiáveis. Ou seja, apesar de toda a campanha de difamação que sofrem, eles conseguem manter uma boa reputação, especialmente quando as fontes “alternativas” de conteúdo carregam demais na pós-verdade.

O Digital News Report demostrou que a confiança aumentou em plena pandemia. Com informações de 46 países, que representam metade da população global, o relatório indica que a confiança no jornalismo cresceu seis pontos percentuais em 2021, chegando a 44%, mesmo índice de 2018. Além disso, aumenta a distância entre a confiança em veículos jornalísticos e em conteúdos nas redes sociais, que estacionaram em 24%.

O Brasil ficou em sétimo lugar entre esses países na confiança da população na imprensa, com 54%, empatado com Bélgica e Nigéria. O país em que a população mais acredita no jornalismo é a Finlândia, com 65%. Já nos Estados Unidos, que têm uma das melhores imprensas do mundo, apenas 29% da população acredita nos veículos de comunicação.

Isso é explicado pelos dados do Trust Barometer, que indica que eleitores de políticos conservadores e que abusam da pós-verdade confiam pouco na imprensa. A péssima colocação dos EUA deriva, portanto, da cruzada do ex-presidente Donald Trump contra o jornalismo.

Pela metodologia desse relatório, a confiança global na imprensa chegou a 51%, 2% a mais que em 2020. No Brasil, a confiança é de 48%, 4% a mais que no ano anterior.

 

Linguagem e formato

O levantamento do Instituto Reuters e da Universidade de Oxford traz duas coisas importantes. A primeira é que alguns grupos sociais não se sentem bem representados pelos veículos jornalísticos, como negros, mulheres e eleitores conservadores. A outra é que apenas 18% dos jovens se informam assim, enquanto 60% fazem isso nas redes sociais, sendo cada vez mais atraídos por redes visuais, como Instagram e TikTok.

Muitos veículos tradicionais ensaiam distribuir seus conteúdos nessas plataformas, até mesmo no TikTok. Mas como passar a informação necessária e não perder sua credibilidade nesses formatos? O tradicional Washington Post, com 143 anos, contratou Dave Jorgenson como editor dedicado ao TikTok. Ele consegue um bom engajamento, mas não dá notícias na plataforma.

Os veículos precisam encontrar o caminho para se reconectar com o público. Eles não podem esquecer seus valores, que os tornaram respeitados, mas talvez tenham que abandonar boa parte do seu formato e da sua linguagem.

O jornalismo só é viável se estiver representando o público! Caso contrário, a pós-verdade de políticos mequetrefes manipulará ainda mais as massas, destruindo a confiança das pessoas em todas as instituições, o que, a médio prazo, colocará em risco a própria existência da democracia.

O historiador israelense Yuval Noah Harari afirma que o ser humano só alcançou a dominância do planeta por ser o único ser vivo com a capacidade de acreditar em desconhecidos para construir algo com eles. A isso, damos o nome de “sociedade”. Não podemos perder esse recurso essencial de construir algo em grupo.

Será que chegamos ao fundo do poço da confiança para começar a reconstruí-la? Eu espero que sim, ou o que será do Brasil e do mundo daqui a 20 anos? Os que hoje são jovens precisam aprender o valor do bom jornalismo, tornando-se melhores cidadãos. Já os veículos de informação precisam reassumir seu protagonismo. Para isso, devem lembrar para quem trabalham, que é o público, e não seus acionistas, nem os anunciantes e muito menos os grupos de poder.

Como disse certa vez o jornalista e artista Millôr Fernandes, “jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados.”

Quanto a nós, todos nós, temos que reaprender a confiar no outro, mesmo em quem pensa diferentemente de nós. Só assim tiraremos nossa sociedade desse atoleiro em que está metida.

 

Anitta, Nubank e a irracionalidade das redes

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Na semana passada, um dos assuntos mais comentados nas redes sociais foi Anitta assumindo uma cadeira no conselho de administração do Nubank. Infelizmente a maior parte dos comentários não tratava das estratégias envolvidas, e sim de ofensas generalizadas contra o banco e principalmente a cantora.

Muitos detratores não são fãs de Anitta ou clientes do Nubank. Ainda assim, se dão o direito de fazer críticas muito pesadas a ambos. E isso não é a causa de um problema maior, e sim o sintoma de um cenário autodestrutivo de nossa sociedade: a cultura do ódio, impulsionada pelas redes sociais, impactando carreiras e empresas.

Os argumentos desses críticos têm a profundidade de um pires, mas eles fazem muito barulho, o que pode arranhar a imagem do Nubank, ainda que apenas momentaneamente. Tanto que a empresa decidiu cancelar, de última hora, uma coletiva de imprensa que faria na semana passada para apresentar sua nova conselheira e explicar os motivos da escolha.


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Para melhor entender o caso, vale explicar o próprio funcionamento e composição de um conselho de administração. Esse órgão não tem função executiva e seus membros são pessoas de notório saber em suas áreas de atuação, que se reúnem de tempos em tempos para ajudar a empresa a tomar decisões sobre que caminhos deve seguir para ampliar e melhorar seus negócios.

Os integrantes de um conselho de administração não precisam ser oriundos do mesmo segmento de mercado da empresa. Aliás, cresce o conceito de que conselhos devem apresentar diversidade de ideias e de valores, o que potencialmente torna suas decisões mais eficientes e representativas para atender clientes que são igualmente diversos.

Além disso, apesar de existirem “conselheiros profissionais”, formados em cursos desproporcionalmente caros, isso não é uma profissão. Na verdade, não raro os conselheiros exercem outras atividades e têm carreiras bem diferentes dessa função, o que tende a aumentar o valor de suas observações. Em outras palavras, o que faz de alguém um bom conselheiro não são essas formações, e sim a excelência na sua área profissional.

Isso descontrói um dos principais argumentos dos detratores do caso Anitta-Nubank, que atacam a instituição por colocar alguém “que não sabe nada de finanças” no conselho. Ela não foi convidada por seu conhecimento nessa área, e sim no que ela faz inegavelmente bem, que é o marketing, especialmente digital. Além disso, com milhões de seguidores em diferentes plataformas, ela tem uma inegável conexão com o público mais jovem e de diferentes classes sociais.

Ainda assim, vemos pessoas dizendo nas redes sociais que encerrarão suas contas no Nubank por causa de Anitta no conselho de administração. Muitos dos que dizem isso sequer são correntistas, mas sentem prazer em “jogar lenha na fogueira”.

Não se trata, portanto, de não entender o funcionamento de um conselho de administração. A origem desse problema é mais grave e permeia a nossa sociedade.

 

O bom e o ruim da exposição

Além do que Anitta pode contribuir com o Nubank pelos seus conhecimentos e sua popularidade, é inegável que há aí uma jogada de marketing envolvida. Afinal, muita gente a admira, até mesmo pessoas que não gostam da sua música.

Esse não é um caso isolado. Vários artistas têm sido convidados, no exterior e no Brasil, para integrar conselhos de administração ou assumir diretorias de empresas. A própria Anitta acumula o cargo de chefe de criatividade e inovação da Beats, na Ambev, desde setembro de 2019. Nesse papel, ela já assinou os lançamentos de vários produtos, como a Skol Beats 150 BPM e a linha Beats Zodiac.

Mas ter uma celebridade em seus quadros pode trazer problemas, especialmente em um cenário de polarização exacerbada na sociedade, como o que vivemos há alguns anos. Afinal, ninguém agrada todo mundo! Sempre foi assim, mas, graças aos algoritmos das redes sociais, o amor e o ódio aparecem agora com muita força. E o pessoal que odeia parece ter uma incrível disponibilidade de demonstrar esse sentimento, mais que os que amam.

Ninguém chega ao patamar de sucesso e admiração de Anitta sem fazer muitos desafetos. E seu estilo passa por responder aos críticos, o que alimenta a polêmica (que retroalimenta seu sucesso).

Além disso, a cantora não esconde suas opiniões políticas, bastante críticas ao grupo que está no poder agora. Mas os seguidores desse grupo são reconhecidos pela sua truculência digital e por fazer o que a manada manda. São especialistas em destruir reputações e causar alvoroço prejudicial a qualquer um que não se submeta a sua “seita”.

Anitta é vítima de ataques dessas hordas há tempos, e aparentemente convive bem com isso. Agora, assumindo a cadeira no conselho do Nubank, esse tsunami de ódio acertou o banco, que normalmente é um “queridinho” nas redes sociais, com incontáveis manifestações de apoio de seus clientes.

O Nubank sabe o que faz. Com 40 milhões de clientes em apenas sete anos de vida, já rivaliza com bancos centenários e que despejam milhões de reais em publicidade, em um segmento absurdamente consolidado, monolítico até.

No início do mês, a empresa recebeu um aporte de US$ 1,15 bilhão, US$ 500 milhões deles vindos do megainvestidor americano Warren Buffett. Com isso, não se tornou apenas a principal startup da América Latina, mas a sétima startup mais valiosa do mundo, segundo um ranking da consultoria CBS Insights.

Isso não é resultado de “sorte”: eles sabem o que fazem. Entendo que, da mesma forma, a empresa sabia do bônus e do ônus de chamar Anitta ao seu conselho. Por isso, não deixa de ser estranho terem cancelado a coletiva na semana passada diante da enxurrada de críticas.

 

Abandonar o barco?

Não é hora de encerra a conta no Nubank!

Por mais que Anitta eventualmente traga ideias muito absurdas, que prejudiquem a operação do Nubank (o que acho absolutamente improvável de acontecer), ela não estará sozinha no conselho. Suas outras cadeiras são ocupadas por Anita Sands (ex-UBS), Jacqueline Reses (presidente do conselho consultivo econômico do FED, o Banco Cental americano), Daniel Goldberg (ex-Morgan Stanley), Luiz Alberto Moreno (ex-BID), Doug Leone (da Sequoia) e David Vélez, fundador e CEO do próprio Nubank.

Em outras palavras, as características que fazem do Nubank um sucesso de público e de crítica devem continuar existindo normalmente. Todo esse barulho nas redes sociais resulta muito mais do fenômeno de intolerância da nossa sociedade atual, viabilizado pelo megafone de alcance global das redes sociais.

Com tudo isso, Anitta no conselho de administração do Nubank deve trazer muito mais coisas boas que ruins para a empresa e seus correntistas. O tempo e os clientes do banco dirão isso.

Até lá, como diz o ditado, “os cães ladram e a caravana passa”.

 

A ditadura das redes sociais e nossa autoestima

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Tem sempre alguém querendo dizer o que devemos ser ou o que temos que fazer: pode ser a família, a chefia, os amigos. As redes sociais pioraram ainda mais esse problema, pois estamos continuamente sob escrutínio de todos. Isso acontece de maneira tão invasiva e tão contínua, que alguns perdem a referência de quem verdadeiramente são, passando a viver um personagem.

Haja autoestima para resistir a essa virtual “autópsia de pessoa viva”, com uma plateia planetária!

Sempre usamos “máscaras sociais”: isso não é novidade. Adaptamos naturalmente nossa conduta, nossa linguagem e até filtramos nossas ideias de acordo com a situação. Mas, como em muitos outros casos, as redes sociais aqui não inventam algo novo, mas fazem isso acontecer de maneira mais intensa e mais rápida.

Dá para sermos nós mesmos nas redes sociais?


Veja esse artigo em vídeo:


Estou online desde 1987 e convivo com redes sociais há duas décadas. No começo, elas eram apenas um espaço para encontrar amigos (especialmente aqueles há muito tempo não vistos) e trocar ideias inofensivas. Isso era muito legal, e lhes garantiu enorme sucesso instantâneo.

De uns 15 anos para cá, os gestores dessas plataformas descobriram que haviam criado uma mina de ouro, com seus algoritmos que lhes permitiam conhecer profundamente cada um de seus incontáveis usuários, agrupando-os em “bolhas”, zonas de conforto de pensamento único, excelentes para se vender qualquer tipo de coisa. E esse recurso essencial das redes vem se tornando cada vez mais eficiente.

As empresas rapidamente perceberam a enorme oportunidade que isso abriu, mas também muitos indivíduos viram isso. Ouvimos o tempo todo: “você é a sua marca”. E isso se tornou a mais pura verdade.

Mas quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza. Assim como aconteceu com empresas, algumas pessoas tiraram grandes benefícios dessa exposição. Mas, para cada celebridade digital bem sucedida, há um exército de pessoas que fazem de tudo para aparecer, mas colhem muito pouco ou apenas frustração. E isso acontece porque elas não têm a menor ideia do que fazem, mas continuam “se jogando” no digital assim mesmo.

Fale-se muito bem do sucesso, mas ninguém gosta de mostrar o fracasso!

 

Depressão digital

Em junho de 2014, o cientista de dados do Facebook Adam Kramer e outros dois colegas publicaram um controverso estudo na prestigiada revista científica “Proceedings of the National Academy of Sciences”. Batizado de “Contágio emocional em grande escala por meio de redes sociais”, o experimento comprovou que usuários dessas plataformas ficam mais alegres se expostos apenas a publicações positivas nelas, mas também podem ficar deprimidos se veem muitas coisas tristes lá.

Assim, as pessoas naturalmente preferem se associar nas redes àqueles que lhes fazem bem, que as inspiram de alguma maneira. Isso reforçou a preocupação de muita gente de mostrar apenas o seu lado bom nas redes e, assim, atrair seguidores e potenciais clientes. Ou, quem sabe, alguns amigos?

A princípio, não haveria nada de errado com isso, desde que a coisa não fugisse de controle, como fugiu. A história de “mentir no currículo” ganhou uma nova dimensão no meio digital: qualquer acontecimento precisa ser maquiado e maximizado, para depois ser anunciado.

Em outras palavras, não basta mais “ser”, é preciso “mostrar” (literalmente) ao mundo!

O problema é que ninguém é assim tão brilhante o tempo todo. Mesmo celebridades e grandes profissionais têm seu lado sombrio, feio, que não precisa ser visto. Mas, como as pessoas estão com suas entranhas à mostra nas redes sociais, isso lhes exige cada vez mais energia.

Muito antes do surgimento do meio digital, no dia 1 de setembro de 1994, em uma conversa que antecedeu uma entrevista com o  jornalista Carlos Monforte, o embaixador Rubens Ricupero, então ministro da Fazenda, disse “eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. A fala vazou, causando a renúncia do ministro.

De volta a nossa realidade digital, vivemos continuamente o risco de sermos expostos. Aliás, “exposed” se tornou uma palavra comum nas redes sociais no ano passado, referindo-se a pessoas que são pesadamente expostas nessas plataformas por supostos crimes ou comportamentos reprováveis, antes de qualquer julgamento.

As pessoas vivem então no fio da navalha, entre exporem seu lado mais brilhante e serem expostas pelo seu lado sombrio. O primeiro lhes causa grande euforia; o segundo pode causar depressão.

 

O valor da autenticidade

Existe um ditado que diz que “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Isso talvez servisse na Roma Antiga, mas agora as redes sociais podem fazer parecer que não é preciso ser honesto: basta parecer honesto.

Não caia nessa armadilha! A verdade é sempre o melhor caminho no fim da história.

Como consultor, já me perguntaram se o melhor seria não se posicionar nas redes sociais sobre qualquer assunto polêmico. Em tempos de intolerância, isso pode ser mesmo um problema.

Só que não dá para demonstrar apatia completa. O mundo pulsa diante de nós e o público espera que nos posicionemos sobre pelo menos alguns fatos. Empresas e profissionais mais bem qualificados são aqueles que demonstram opiniões embasadas sobre o que realmente importa.

Não estou dizendo para ir às redes sociais e não deixar pedra sobre pedra. Temos que ser autênticos e expor pontos de vista construtivos nos debates que movem nossa sociedade.

Não devemos deixar de ser quem somos, filtrar nossa verdade. Mas podemos aprender a sempre ser pessoas melhores para nós e para quem estiver a nossa volta. Fazer isso contribui muito para nossa autoestima e nossa saúde mental, e ainda nos trará benefícios pessoais e profissionais.

Nossa energia deve ser canalizada para isso, ao invés de criar personagens nas redes sociais que muito se afastam do que realmente somos. Em um cenário de tanta exposição, relacionamentos pessoais ou comerciais duradouros nascem e amadurecem com a verdade.

O toque do ódio nas redes e seus “comunistas”

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Em uma época em que a destruição de reputações nas redes sociais se transformou em uma política de Estado, dois acontecimentos recentes me chamaram a atenção, pois as vítimas foram envolvidas em tramas que não pediram para entrar. E isso é algo que, cada vez mais, pode atingir qualquer um de nós.

Na quarta passada, a médica infectologista Luana Araújo depôs na CPI da Covid. Sua fala na comissão foi brilhante pela qualidade técnica e pela didática cristalina.

Apesar disso (e talvez justamente por isso) e de ser formada em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-graduada pela prestigiadíssima universidade Johns Hopkins (Estados Unidos), ela passou a ser atacada nas redes sociais por pessoas que querem desqualificar sua fala, até mesmo questionando sua formação acadêmica.

Também na semana passada, os jogadores da seleção brasileira de futebol disseram ser contrários à mudança recente da sede da Copa América, que agora será realizada no Brasil, depois da Colômbia abrir mão do torneio pela crise política que passa, e da Argentina fazer o mesmo pela piora dos números da pandemia no país.

A revolta da equipe foi defendida pelo técnico da Seleção, Tite. Apesar de comedido, ele vem sendo “fritado” nas redes sociais pelos mesmos motivos obscuros que tentam desqualificar Luana Araújo.

São duas pessoas muitos diferentes, mas vítimas de um mesmo sistema nefasto.


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Apesar de esses ataques serem extremamente cruéis, pela sua virulência e por não dar às vítimas qualquer espaço de defesa, eles acontecem cada vez mais e atingem qualquer um que cruze os interesses do governo federal, ainda que sem nenhuma intenção. As redes sociais são as ferramentas para esse grosseiro atentado à democracia e essas plataformas têm feito quase nada para evitá-lo.

Fico impressionado também com a prostituição do termo “comunista”. Na mente doentia dessas patrulhas ideológicas, ele se transformou em uma espécie de insulto generalista e acéfalo aplicado naqueles que desagradem as pautas desses grupos, que, aliás, variam ao sabor do vento ou de interesses de seus representantes máximos.

Entre os que já foram classificados como “comunistas” pelas hordas desmioladas nas redes sociais, estão o multibilionário e fundador da Microsoft Bill Gates, o megainvestidor e filantropo George Soros, o economista conservador Francis Fukuyama, os cantores Roger Waters e Madonna, o ator Leonardo DiCaprio e até –pasmem!– a política de extrema-direita francesa Marine Le Pen. Entre as empresas “comunistas”, estão o Facebook, o Twitter, The New York Times, a revista Economist e a Rede Globo. Nem a ONU ou a OMS escaparam do rótulo. Fico pensando que, se Peter Drucker, o pai da administração moderna, ainda estivesse vivo, ele também seria um “comunista”.

Não sei o que mais me espanta: o desconhecimento básico do significado do termo (até mesmo ao aplicá-lo a qualquer uma dessas pessoas ou organizações) ou sua transformação em um xingamento. Falta a esses agressores o mais básico conhecimento de História, que, diga-se de passagem, parece ter se tornado uma “disciplina de comunistas”.

 

Como chegamos a isso?

Há uma década, o ativista digital americano Eli Pariser cunhou o termo “filtro bolha”. Ele explicava, já naquela época, que esse mecanismo deriva dos algoritmos de relevância das redes sociais, que impedem que as pessoas vejam pontos de vista diferentes dos seus. Como resultado, os indivíduos vão se tornando cada vez mais limitados intelectualmente, abrindo espaço para o controle ideológico que enfrentamos hoje.

Ele não estava sozinho em pensamentos como esse. Em 2015, quando recebeu o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura na Universidade de Turim (Itália), Umberto Eco discursou dizendo que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” O escritor e filósofo italiano afirmou ainda que “eles eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Sem dúvida nenhuma, as redes sociais estão no centro dessa destruição do tecido social. Ironicamente, tornaram-se reféns do que viabilizaram. Por criarem mecanismos para tentar combater a desinformação e o discurso de ódio, agora são paradoxalmente atacadas por aqueles que delas dependem para continuar manipulando as massas, que as rotulam de “comunistas”.

Parte da inspiração para esse artigo foi um outro, que publiquei na quinta passada no LinkedIn, onde analisei por que o Twitter, que completou 15 anos em março, passa por uma séria estagnação em sua base de usuários há muito tempo. E isso coincide com a ascensão do ex-presidente americano Donald Trump, que deve grande parte da sua popularidade à plataforma, que sempre deixou que ele a usasse para disseminar suas ideias, atacar seus desafetos e destilar seu veneno.

Isso transformou uma das redes sociais mais inovadoras e democráticas já criadas em um monstrengo perigoso, um espaço tóxico e insalubre de troca de insultos, assassinatos de reputação e disseminação de todo tipo de mentira. Quando o Twitter e as outras redes resolveram reagir, já era tarde demais. Suas plataformas já haviam sido tomadas de assalto pelas hordas da desinformação e do ódio.

Trump e outros presidentes semelhantes ao redor do mundo começaram a ter suas publicações removidas ou marcadas como mentirosas, mas isso não foi suficiente. Depois que deixou a Casa Branca, em janeiro, ele foi banido das principais redes sociais. Mas o estrago já estava feito: esses políticos já haviam mostrado a seus apoiadores como usar as sementes da intolerância para atingir seus objetivos.

Isso me lembra do curta-metragem “For the Birds”, lançado pela Pixar no ano 2000. Antes da criação do LinkedIn (2002), do Facebook (2004), do YouTube (2005) e do Instagram (2010), e muitos anos antes da consolidação das “fake news”, os pássaros da Pixar explicaram, de maneira bastante didática, como os intolerantes rejeitam e isolam gratuitamente quem não se alinha a suas crenças. Eles se organizam e agem em torno do pensamento único e culminam com atitudes agressivas contra seus desafetos.

Pelo menos na animação, os intolerantes acabam se dando muito mal. Não podia ser diferente: a Pixar deve estar tomada por “comunistas”!

Eu riria dessa ignorância monstruosa, se ela não fosse, na verdade, uma terrível ameaça para a nossas vidas. Caminhamos para o cadafalso que pode decapitar a própria democracia, jogando o Brasil de vez em um abismo moral do qual demoraremos muitos anos para nos reerguer.

A maioria da população, os “comunistas”, vem levando seus dias com um misto de incredulidade, de revolta e de impotência diante do show de horrores cotidianos. A outra parte, minoritária porém extremamente barulhenta, por se sentir incentivada e protegida pela desinformação, segue em uma espécie de Carnaval-zumbi, carregando seu Rei Momo e escolhendo novos desafetos a cada dia, para atacar gratuitamente sua reputação.

Lamentavelmente as redes sociais continuam sendo palco dessa barbárie ideológica, que tenta destruir pessoas e instituições que deveriam ser premiadas por sua inteligência, integridade e ética. Essas plataformas e a sociedade precisam reagir, para que vejamos um final contra a intolerância pelo menos semelhante ao do curta-metragem da Pixar.

O que dá para comemorar nos 15 anos do Twitter?

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O Twitter completou 15 anos recentemente. Mas será que há muito a se comemorar?

Tudo começou em 21 de março de 2006, com a histórica mensagem “estou apenas configurando meu Twitter”, de Jack Dorsey, fundador da empresa. O mundo e as redes sociais eram muito diferentes então.

A política global era mais civilizada, a sociedade não era irracionalmente polarizada e as redes sociais eram um espaço para reencontrar amigos de infância, se divertir e trocar ideias construtivas. O Facebook tinha apenas dois anos; o LinkedIn, quatro; o Instagram ainda nem existia. O iPhone ainda não havia sido lançado e o melhor smartphone era o BlackBerry. Para ficar online, as pessoas ainda dependiam de se sentar à frente de um computador, o que limitava a experiência profundamente.

A rede social do passarinho azul nasceu naquele mundo, como um jeito rápido de as pessoas exprimirem seus pensamentos e dizerem o que estavam fazendo. Não havia fotos, vídeos e as mensagens eram limitadas a 140 caracteres. Bastante bom para um mundo em que a banda larga era uma novidade para poucos.

Fui um sucesso! E a coisa só melhorou com o surgimento de iPhones e Androids, pois as pessoas nunca mais ficaram off line.

De lá para cá, o Twitter permaneceu fiel a seus princípios e mudou pouco. Enquanto isso, outras redes sociais fizeram mudanças profundas, tornando-se espaços complexos e cheios de recursos. De uns anos para cá, todas foram, em maior ou menor escala, tomadas pela polarização política, o que tornou as conversas menos saudáveis e interessantes.

No Twitter, essa última característica aconteceu com mais força, em grande parte pelo exemplo do ex-presidente americano Donald Trump, que usava o Twitter o tempo todo para expor suas ideias, atacar desafetos e destilar seu veneno. A estratégia foi tão eficiente, que se pode creditar parcialmente à rede a eleição do mandatário americano em 2016 e sua quase reeleição no ano passado.

Trump foi imitado por outros políticos no mundo, inclusive pelo atual presidente brasileiro. Se, por um lado, isso concentrou o foco político das redes sociais no Twitter, aumentando pesadamente a troca de mensagens, por outro representou um custo terrível para a plataforma. Como se pode ver no gráfico abaixo, que traz o crescimento de usuários da plataforma na última década, a ascensão de Trump coincide com um abrupto achatamento na curva de usuários ativos na plataforma.

O Twitter se transformou em uma plataforma encharcada e dominada pelo ódio e pela polarização. Isso afastou usuários antigos e reduziu o ingresso de novos. Além disso, a rede foi acusada de fazer “vista grossa” para os abusos dos políticos, que teriam levado à polarização sem precedentes da sociedade.

Tanto que, quando ainda era presidente dos EUA, Trump sempre foi tolerado por lá. Ele teve alguns de seus tuítes mais grotescos apenas indicados como “falsos” pela rede, já no seu último ano de mandato. Quando deixou a Casa Branca, o Twitter o baniu definitivamente da rede, movimento semelhante ao de outras plataformas, mais notoriamente o Facebook.

 

Caminhos para retomada

O Twitter tenta reencontrar o bom caminho e voltar a crescer com força. Hoje a plataforma tem cerca de 340 milhões de usuários ativos, bem atrás de seus principais concorrentes, como o LinkedIn (760 milhões), o Instagram (1 bilhão), o YouTube (2 bilhões) e o Facebook (2,7 bilhões). O passarinho azul come poeira até de um rival bem mais jovem: o TikTok, que já tem 800 milhões de usuários ativos.

De certa forma, sua vontade de se manter fiel a seus princípios, algo louvável, pode atrapalhar essa retomada. Desde o lançamento de seu formato inusitado e único, há 15 anos, a plataforma não traz nenhuma inovação.

Nos últimos anos, ele tentou incorporar recursos que já existiam em concorrentes. Isso quase sempre se deu pela compra de empresas que tinham tais recursos. Foi o caso da Vine, plataforma de vídeos curtos comprada em 2012 e descontinuada em 2016, e do Periscope, uma plataforma de lives adquirida em 2015 e encerrada em março.

No início de maio, a plataforma lançou o Espaços, um recurso de criação de salas de áudio ao vivo que é basicamente uma cópia do Clubhouse. Mas aparentemente a coisa não está “pegando”.

Na quinta passada, “vazou” a informação de uma versão paga do Twitter, batizada de Twitter Blue. Ela deve permitir a edição de tuítes publicados, a criação de pastas para guardar publicações por assunto, a mudança de cor da plataforma (azul, verde amarelo, vermelho, roxo e laranja) e um modo de leitura para reunir, em um único texto, threads (grupos de tuítes). A assinatura deve sair por R$ 15,90 no Brasil e US$ 2,99 nos Estados Unidos.

Isso pode trazer algum caixa adicional, mas resta saber se conseguirá atrair novos usuários para a plataforma, o seu grande problema hoje. Ela ficou envelhecida: muitos de seus usuários são pessoas que se apaixonaram pela rede há muitos anos, e conseguem conviver com a enorme piora na qualidade das conversas e na deterioração do ambiente, pelos discursos de ódio.

Possivelmente fosse muito mais interessante que o Twitter resolvesse esse problema, para que voltasse a ser um lugar para as pessoas se divertirem de maneira saudável e trocar ideias interessantes. Mas o descuido com isso deixou o passarinho crescer como um adolescente monstruoso, uma espécie de senhor Hyde, da obra “O Médico e o Monstro”. Resta saber se ele consegue voltar a ser o agradável doutor Jekyll antes de completar 18 anos.

Imposto de Renda se aproveita do rastreamento digital que sofremos

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Hoje vence o prazo para declaração do Imposto de Renda deste ano. Apesar de a Receita Federal dizer que não haverá prorrogação, às 11h de sexta, tinha recebido apenas 27,6 milhões das 32 milhões de declarações esperadas. Ou seja, 14% dos brasileiros deixaram para acertar as contas com o Leão no último fim de semana ou até mesmo no último dia!

Se esse for o seu caso e não enviou a sua declaração, ainda pode haver esperança. A cada ano que passa, o processo fica mais simples e rápido. Normalmente, gasta-se mais tempo coletando informes de rendimento e comprovantes de pagamento que com a declaração em si. Pessoas com uma conta no site do governo federal ou donas de um certificado digital puderam receber o documento praticamente pré-preenchido, incluindo as suas fontes de receita.

Se, por um lado, isso facilita consideravelmente essa inevitável tarefa, por outro deixa claro como o governo já possui uma enorme quantidade de informação sobre todos nós. Com a digitalização da vida, nosso rastreamento cresce exponencialmente: o que fazemos, o que ganhamos, o que compramos, onde e com quem estamos e muito mais está sendo continuamente observado e registrado, e não apenas pelo governo.

Esse é um processo crescente e inevitável. As vidas daqueles que tinham a sonegação de impostos como esporte ficam cada vez mais difíceis.


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“Nada é mais certo neste mundo do que a morte e os impostos”, disse Benjamin Franklin, ainda no século XVIII. E o notável político e cientista americano nem de longe poderia imaginar o cenário em que vivemos hoje, com essa quase onisciência digital do governo sobre os cidadãos.

O Imposto de Renda é, de fato, uma certeza desse mundo, especialmente para quem é assalariado no Brasil, já que o tributo vem descontado no contracheque. Por isso, ficar feliz por receber uma grande restituição não faz sentido, pois isso indica que se pagou, com antecedência, muito mais imposto que deveria. O governo está apenas devolvendo isso posteriormente: não é um dinheiro que ele está lhe presenteando.

Dado que estamos indiscutivelmente sendo mesmo rastreados pelo governo, por empresas e sabe-se lá mais por quem, precisamos tirar algum benefício disso. Ter a declaração do Imposto de Renda facilitada pode parecer algo simplório, mas só quem nunca teve que a preencher nos antigos formulários em papel pensaria assim.

Desde minha primeira declaração de Imposto de Renda, tive a oportunidade de fazer isso de maneira digital. Mas eu me lembro, quando era criança, de ver meu pai com complexos formulários da Receita, uma pilha de comprovantes em papel, lápis, caneta, calculadora, preenchendo a declaração do Imposto de Renda. Nem dava para terminar no mesmo dia: o procedimento era demorado e a chance de cometer erros era grande. Depois ainda era necessário entregar os formulários pessoalmente.

Nos anos 1990, ele começou a ser digitalizado. Em 1991, surgiu a primeira versão do programa que substituía os formulários em papel, mas a entrega ainda precisava ser feita pessoalmente, em disquete, pois os brasileiros ainda não tinham acesso à Internet. O envio online foi liberado em 1997 e a entrega em papel resistiu bravamente até 2010, último ano em que a Receita aceitou os velhos formulários.

Programas do Imposto de Renda em 1991 e em 2021

Programas do Imposto de Renda em 1991 e em 2021 – Imagem: reprodução

 

Nesses 30 anos, o sistema evoluiu muito, até se tornar um dos melhores do mundo. Do lado do governo, ele garante uma arrecadação mais eficiente. Do lado do contribuinte, ajuda a evitar erros e torna o processo, antes penoso, algo que pode ser concluído com segurança em poucos minutos.

 

“Aceita que dói menos”

A pandemia de Covid-19 digitalizou ainda mais a vida de pessoas e empresas. Os que se deram melhor nesse período de provações foram justamente aqueles que tiveram a oportunidade de realizar suas atividades com grande apoio da tecnologia. Mas isso gerou ainda mais “pegadas digitais”.

Por isso, parece quase insano observar pessoas que ainda tentam resistir ao máximo à digitalização de suas vidas, justamente para evitar que seus dados sejam coletados. Isso implica em não ter contas em redes sociais, não usar alguns apps populares em seus smartphones e até se recusar a informar o CPF na hora que compram qualquer coisa.

Triste ilusão!

Pode-se fazer tudo isso e mais, e ainda assim ser rastreado de muitas formas. A maneira mais óbvia é pelo nosso smartphone, que está continuamente conosco, coletando ou gerando dados sobre nós. Mas a arapongagem vai muito além, com insuspeitos eletrodomésticos, câmeras nas ruas, empresas e condomínios, sensores em lojas e muito mais nos monitorando o tempo todo, sem nosso conhecimento ou controle.

De fato, nossos dados têm um valor inestimável para governos e empresas. Não porque eles serão vendidos, mas porque, graças a eles, todos podem conhecer melhor seu público e, dessa forma, melhorar seus produtos, seus serviços e o relacionamento com as pessoas. Na prática, isso diminui a resistência e aumenta a fidelização do cliente.

Na edição de 6 de maio de 2017, a revista inglesa de negócios “The Economist” trouxe, como matéria de capa, uma icônica reportagem que apresentou os dados como o recurso mais valioso do mundo. Segundo a matéria, “os dados são para este século o que o petróleo era para o último: um motor de crescimento e mudança. De trens de metrô e turbinas eólicas a assentos e torradeiras, todos os tipos de dispositivos estão se tornando fontes de dados.”

Diante disso, para não ser rastreado hoje, costumo dizer que seria necessário viver como Robinson Crusoe, protagonista do livro homônimo do escritor inglês Daniel Defoe, publicada em 1719. Ele conta a história de um náufrago que vive em uma ilha deserta por vários anos.

E é aí que chegamos ao ponto-chave dessa questão.

 

O preço da modernidade

Obviamente ninguém ousaria pensar em uma vida de privações como a de Crusoé.

A vida moderna e particularmente as ferramentas digitais trazem benefícios inegáveis. O próprio smartphone, nosso araponga de estimação, que carregamos para todo lado durante as 24 horas do dia, tornou-se uma ferramenta praticamente indispensável, dada a quantidade de tarefas que fazemos com ele.

É curioso observar que ele existe em nossas vidas há pouco mais de uma década. É um tempo incrivelmente curto, se considerarmos a dependência que criou em todos nós.

É pouquíssimo provável que hoje alguém abra mão de seu smartphone porque ele coleta seus dados. Tampouco deixará de usar o Google e seus diversos produtos, de fazer compras online, de chamar carro por aplicativo. Até mesmo ficar de fora das redes sociais se torna uma tarefa complicada, uma vez que a vida de todos a nossa volta passa por ali.

O rastreamento de dados é inevitável e cada vez mais profundo e diverso. Assim, ao invés de inocentemente tentar escapar dele, devemos entender como ele funciona tanto quanto pudermos, para nos apropriarmos dessas ferramentas e tirar o máximo proveito do que elas podem nos oferecer.

A coleta de seus dados vai acontecer de todo jeito. O benefício que você pode colher disso está aí. Não faz sentido recusar o segundo quando não se pode escapar do primeiro.

Uma coisa é certa: ainda bem que não tenho que passar pelo calvário de declarar o Imposto de Renda em formulários de papel.

A esquizofrenia do posicionamento

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Há alguns dias, me perguntaram se se posicionar politicamente nas redes sociais nos atrapalharia profissionalmente. Essa é uma pergunta simples para uma resposta complexa.

Graças ao momento de grande intolerância e polarização em que vivemos, não há mais zona segura. Qualquer posicionamento, por mais bem intencionado, equilibrado e embasado que seja, torna-se potencialmente explosivo graças àqueles que pensam de maneira diferente. E sempre haverá muitas pessoas que pensam diferentemente de nós.

Poderíamos considerar então que o caminho para não termos prejuízos por nossa exposição seria não se posicionar. Mas isso também não é uma opção aceitável, pois as pessoas esperam que nos posicionemos. Não fazer isso enfraquece a nossa imagem nas redes sociais, cujos algoritmos de relevância premiam aqueles que estão sempre se expondo.

Resta a hipótese de simplesmente não aparecer nas redes sociais. Mas, em um mundo hiperconectado, ficar de fora dessas plataformas implica em quase desaparecer para nosso público, abrindo caminho para os concorrentes.

Vivemos, portanto, uma “esquizofrenia do posicionamento”: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come!


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A verdade é que não existe uma fórmula mágica para o posicionamento nessa realidade. Mas como sempre aparecemos, de um jeito ou de outro, essa é uma atividade de autoconhecimento, antes de mais nada. Afinal, se não soubermos nossos pontos fortes, como poderemos transmitir isso ao outro?

Precisamos também ter uma atitude de autopreservação. Considerando que nunca se sabe o que movimenta o “humor” dos algoritmos de relevância (e cada rede tem o seu, às vezes um tanto “ranzinzas”), não devemos nos tornar escravos dele. Isso contraria o que a maioria dos “gurus de redes sociais” prega, com suas “fórmulas mágicas” para ganhar seguidores e visualizações (que, no final, de pouco ou nada servem). É dessa forma que protegemos nossa saúde mental, que já vinha abalada por essa busca frenética de exposição digital e foi castigada pelos efeitos da pandemia de Covid-19.

É também um exercício de correr riscos calculados. Qualquer forma de exibição implica em alguns apontando dedos e dizendo que está ruim, errado ou feio. E isso é inevitável! Mas podemos mitigar esse risco ao conhecer bem nosso público, como ele se comunica, o que procura no que podemos lhe oferecer. Se nos posicionarmos atendendo isso, por mais que alguns “torçam o nariz”, aumentamos nossa chance de deixar uma boa imagem àqueles que realmente importam para nós.

Por isso, acho interessante o que muitos profissionais de saúde vêm fazendo no TikTok. Eles dão dicas em suas áreas dentro das características da rede, incluindo, em alguns casos, as infames “dancinhas”. Já ouvi várias pessoas afirmando que aquilo denigre as imagens desses profissionais. Não vejo assim: aquela é a linguagem da plataforma e seus usuários estão acostumados a isso. Ao fazer assim, esses profissionais estão prestando um serviço que talvez não chegaria àquele público se se restringissem a “formatos convencionais” de posicionamento.

 

Vivendo em uma vida nova

Devemos entender que as pessoas mudaram, e esse é um processo cuja velocidade cresce exponencialmente.

A digitalização de nossas vidas começou nos anos 1980, ganhou força com a Internet comercial na década de 1990 e explodiu com as redes sociais combinadas ao smartphones nos últimos 15 anos.

Há ainda um fator inesperado e extremamente dolorido, mas que acelerou ainda mais tais inovações: a pandemia. Mudanças nas empresas e em nossas vidas, que demorariam anos para acontecer, ocorreram em questão de poucos meses no ano passado. E qualquer que seja o caminho que encontremos ao sair desse cenário de privações, ele carregará para sempre elementos de um novo jeito de viver.

Uma das coisas mais emblemáticas nisso é que hoje fazemos ainda mais coisas online do que fazíamos em 2019. Algumas atividades então bem pouco desenvolvidas, como o home office e o ensino à distância, cresceram e assumiram uma dimensão em nosso cotidiano que não pode mais ser ignorada.

A maneira como compramos hoje também ficou muito mais online. O relatório Webshoppers, da consultoria Ebit | Nielsen, demonstra uma explosão nisso em 2020, com um crescimento de 41% na receita do e-commerce brasileiro frente ao ano anterior, chegando a R$ 87,4 bilhões. No total de consumidores, o e-commerce brasileiro atingiu 79,7 milhões de pessoas, 29% a mais que em 2019, o que representa 38% da população brasileira total. Além disso, 2020 foi o ano em que 13,2 milhões de brasileiros compraram algo online pela primeira vez em suas vidas.

Esse novo comportamento das pessoas frente ao varejo pode ser extrapolado, com segurança, para a maioria dos serviços. Outra coisa que cresceu enormemente no ano passado (até mesmo por conta da pandemia) foram os atendimentos médicos e psicológicos pelos computadores ou celulares. Tanto que a telemedicina acabou sendo regulamentada no Brasil em março. Os atendimentos psicológicos já tinham sido autorizados pelo Conselho Federal de Psicologia em 2018.

 

A importância da autenticidade

Obviamente não precisamos fazer dancinhas no TikTok para termos um bom posicionamento no meio digital. Essas ações “performáticas” podem gerar muita visibilidade, mas a qualidade do contato é muito mais importante que a quantidade.

Ser autêntico é fundamental por vários motivos. Em primeiro lugar, isso torna todo o processo mais leve para nós. Quando criamos nas redes uma imagem que não condiz com quem somos, um “personagem digital”, temos que estar sempre atentos para não trair sua personalidade. Quanto mais diferente de nós, mais de nossa energia essa personalidade alternativa consumirá.

Infelizmente, esse recurso é muito usado. Além desse consumo de energia, ele embute um outro potencial problema, que pode ser devastador para a imagem de qualquer um. Quando se cria esse “avatar” que não condiz com nossos atos e valores, corre-se o risco de ser desmascarado.

Foi o que aconteceu com a cantora Karol Conká, na edição desse ano do “Big Brother Brasil”. Ela foi eliminada do programa com uma votação recorde de 97,17%, por ter demonstrado arrogância, preconceito e agressividade. Seus fãs viram ali uma pessoa que contrastava com a personagem construída na mídia e nas redes sociais. Como resultado, quando deixou a casa, tinha perdido algo como 40% de seus seguidores e contratos que chegavam a R$ 5 milhões.

Para evitar o temido “cancelamento”, neologismo que descreve o que aconteceu com Karol, seja, portanto, autêntico. Além disso, suas opiniões devem ser sempre embasadas. E isso nos leva a um outro fenômeno recente, que é o abuso do direito de “liberdade de expressão”.

As redes foram tomadas por pessoas que, invocando tal liberdade, acham que podem dizer o que bem entenderem, além de ofender deliberadamente quem pensa de maneira diferente em qualquer assunto.

Em um primeiro momento, isso pode gerar muita visibilidade e até atrair fãs, mas essa não é uma tática sustentável. Isso não é liberdade de expressão (que tem limites), e sim agir como um ogro digital. Comportamentos destrutivos e agressivos devem ser substituídos por atitudes construtivas e agregadoras, se o objetivo for elaborar um posicionamento de qualidade e duradouro.

Aparecer nas redes sociais não pode ser algo que cause dor ou exija muita energia. Se isso estiver acontecendo, algo precisa ser repensado.

Concentre-se no campo das ideias positivas, compartilhe um pouco do que sabe. E entenda que, ainda assim, não agradará todo mundo. Mas basta agradar aqueles com quem queremos nos relacionar. Se fizer tudo corretamente e alguém não gostar, provavelmente essa pessoa não faz parte do seu público.

Por isso, a melhor maneira de vencer a esquizofrenia do posicionamento é não embarcar nessa loucura.

O poder do gado pode massacrar nossas convicções

By | Jornalismo | No Comments

Somos seres únicos e, como tal, temos a capacidade de ter ideias próprias. Combinamos conhecimento para criar conclusões que nos ajudam a crescer como pessoas e a desenvolver a sociedade. Mas a digitalização de nossas vidas vem tornando essa tarefa mais complicada. Ter autonomia e manter convicções exige cada vez mais energia.

Acontece que também somos seres gregários. Precisamos conviver com outras pessoas para benefício mútuo. Precisamos nos sentir aceitos! O custo disso é ajustar eventualmente o que pensamos ao grupo, para uma convivência harmoniosa e construtiva. No final, esse confronto com pensamentos diferentes acaba nos ajudando a refinar nossa visão de mundo.

O problema é que a pressão do grupo cresce exponencialmente com a exposição às onipresentes redes sociais. Para integrarmos a manada, o gado nos impõe sua visão de mundo, que, em muitos casos, contraria o bom senso, a ciência e pode ameaçar a vida dos membros do rebanho. E, como seus algoritmos insistem em nos manter dentro de “bolhas”, perdemos as referências com a realidade.


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Isso pode parecer exagero, mas não é!

Entre os dias 20 e 27 de abril, o Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação entrevistou 2.031 pessoas para a sua pesquisa “A Cara da Democracia”. Além de conclusões políticas muito interessantes, o estudo demonstrou que 22,2% dos brasileiros acreditam que a Terra é plana. Isso dá quase 50 milhões de pessoas que deliberadamente rejeitam um fato científico largamente explicado e observado.

Anteriormente, em julho de 2019, outro levantamento indicava que “apenas” 7% dos brasileiros então acreditavam nessa barbaridade e outros 3% diziam não saber qual era a forma do mundo. Ou seja, em quase dois anos, a quantidade de brasileiros que cometem esse atentado científico, que já era gigantesco, triplicou!

A pesquisa “A Cara da Democracia” traz ainda outras informações muito preocupantes, e que impactam de maneira mais decisiva nossa vida. Por exemplo, 50,7% dos brasileiros acreditam que o novo coronavírus foi criado pelo governo chinês e 56,4% acreditam que os hospitais são pagos para inflar o número de pacientes mortos pela Covid-19.

Esses últimos dados são gravíssimos pois estão associados à crença em notícias falsas que efetivamente colocam a vida das pessoas em risco, como se recusar a se vacinar, usar máscaras, praticar o distanciamento social, ou acreditar que drogas como cloroquina e ivermectina combatem a Covid-19.

Segundo o instituto, isso escancara como a desinformação cresce de forma galopante no Brasil, especialmente entre aqueles que se informam por redes sociais, mais notadamente Facebook, WhatsApp, Instagram e YouTube. A situação é ainda mais grave entre eleitores de Bolsonaro, pois o presidente é um notório detrator da ciência e de fontes confiáveis de informação, fazendo uso das redes sociais para disseminar todo tipo de notícia errada e teorias da conspiração.

 

A desinformação não escolhe vítimas

Muitos podem argumentar que apenas pessoas ignorantes, com baixa escolaridade acreditam e vivem de acordo com essas coisas estúpidas. Mas não é o caso: entre os negacionistas e os conspiradores contra a ciência, há de tudo, inclusive gente muito estudada. E é por isso que a situação é dramática!

Conheço profissionais da saúde que, a despeito de todas as indicações da comunidade científica e até de fabricantes, continuam acreditando na cloroquina como remédio contra a Covid-19. Outros se negam a se vacinar, afirmando que os imunizantes não funcionam ou até são perigosos! Por outro lado, médicos contrários a esse uso da droga entram na Justiça contra colegas e associações de classe.

Esse “racha” entre os profissionais da saúde piora ainda mais a situação das pessoas, que não sabem em quem acreditar. Nessa semana mesmo, uma amiga, que trabalha em um hospital, me disse que se recusou a tomar a vacina a que tinha direito. Outra, que contraiu a doença, me perguntou se deveria tomar cloroquina ou ivermectina.

É de se perguntar como profissionais da saúde, que deveriam ser os primeiros a abraçar o que a ciência diz, se deixam levar por essas aberrações que apenas atendem a interesses políticos. Não são culpados: é aí que entram as redes sociais, que dão voz tanto a quem constrói o discurso negacionista, quanto ao “gado” que o distribui.

Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha Nazista de Hitler, dizia que uma mentira dita uma vez é apenas uma mentira; já uma mentira dita mil vezes se torna verdade. Mas hoje, com as redes sociais, as mentiras são ditas não mil, mas milhões de vezes!

 

O risco da conformidade

Em uma das cenas mais emblemática do filme “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), o professor Keating, vivido por Robin Williams, faz um interessante exercício com seus alunos para ilustrar os perigos da conformidade, ou seja, os riscos envolvidos quando abandonamos nossas convicções ou até a ciência para fazer parte do grupo.

Ele fez três alunos darem voltas ao redor do pátio. No começo, cada um andava à sua maneira, mas rapidamente todos alinharam seus passos e o estilo. Mais que isso: os demais alunos, que assistiam, começaram a espontaneamente bater palmas, marcando o ritmo das passadas. Ninguém determinou aquilo: aconteceu naturalmente.

Apesar de ser um exercício singelo, ele explica muito bem o que vivemos hoje. Todos querem voltar a ter uma vida “normal”, a trabalhar ou estudar sem medo, a se encontrar com os amigos e a família, a se divertir. Mas a pandemia continua a todo vapor, com números de novos casos e óbitos altíssimos!

Como não temos como controlar o incontrolável, abraçamos qualquer coisa que nos aqueça o coração e justifique fazermos o que quisermos. Infelizmente essa fórmula mágica não virá de cientistas, de profissionais da saúde ou de professores sérios, pois simplesmente não existe. Mas virá de um presidente ou de um tio negacionista no grupo da família no WhatsApp, o que já basta, porque as pessoas acreditam no que elas quiserem ou no que lhes convier.

Elas querem uma saída rápida para seus problemas. Abraçarão tudo e todos que lhes acenarem um caminho e combaterão qualquer um que irritantemente insista na verdade. O problema é que, como vemos diariamente, a saída mágica pode levar o indivíduo ao caixão.

Quando vejo que 50 milhões de brasileiros acreditam que a Terra é plana, temo que estejamos rumando para uma nova Idade das Trevas, em que a verdade será combatida sistematicamente por grupos que se alimentam de mentiras e por uma massa controlada, cuja única preocupação é um ‘”lugar no céu quando morrer”.

Temos que ser “renascentistas” que lutam contra esse mal supremo! Não podemos render nossas convicções, nossa inteligência e nosso senso crítico a quem nega os fatos, a ciência, a vida para garantir seus interesses. E devemos ajudar quem estiver a nossa volta a não cair nesse poço sem fundo.

Caso contrário, se os negacionistas vencerem, jogarão a humanidade para um novo período de obscurantismo e de retrocesso. E já tivemos mil anos disso na Idade Média.

 

O valor da notícia que informa você

By | Jornalismo | No Comments

Na semana em que o Brasil teve mais de dez mil mortos pela Covid-19, Bolsonaro disse para a população “parar de mimimi” e questionou “até quando as pessoas vão continuar chorando”, ao invés de “enfrentar o problema de peito aberto” e sem “frescura”. Para a maioria das pessoas, essas bravatas são um ataque frontal à vida. Mas há uma fatia considerável da sociedade que não apenas concorda com ele, como o defende.

Como explicar essa polarização em um caso tão extremo e literalmente de vida ou morte?

A resposta passa por outra doença crônica do nosso país, que também se agrava: a maneira ruim como as pessoas se informam. Isso se deve não apenas pela escolha de fontes questionáveis de notícias, mas também como elas chegam até nós, o que hoje acontece majoritariamente pelas plataformas digitais. As duas coisas desempenham igualmente um papel crítico na guerra da desinformação.

Para “combater esse bom combate”, existem, portanto, três atores principais: os veículos de comunicação, as big techs e nós mesmos, o público. Cada um tem seu papel e seus interesses nesse cenário, mas inimigos em comum: a desinformação e as fake news. Para vencê-las, é preciso que os três trabalhem em conjunto, fazendo adaptações e concessões.


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Quando isso não acontece, surgem os efeitos nefastos, como os que estamos vivendo. Não se engane: a qualidade da informação que você consome tem um efeito decisivo na sua vida. Essa afirmação pode soar óbvia, mas, às vezes, o óbvio precisa ser reforçado.

A desinformação não é naturalmente um fenômeno exclusivo do Brasil, mas o fato de ser muito forte aqui explica, ao menos em parte, o fato de estarmos na contramão do mundo no combate à pandemia. Como mostrou a manchete do Estadão desse domingo, dos dez países com mais mortes pela Covid-19, oito registram queda na média móvel de novos óbitos e um, a Índia, tem alta de 8,9%, enquanto, por aqui, esse indicador subiu 30,5%.

Isso acontece porque o tripé entres produtores, distribuidores e consumidores de notícias está desequilibrado. Enquanto as empresas de comunicação sérias se esforçam para produzir um conteúdo de alta qualidade, mas sofrem para impactar uma parcela grande da população, as plataformas digitais atingem virtualmente todo mundo, mas distribuem uma enorme quantidade de porcaria. O público, por sua vez, consome qualquer coisa que lhe é apresentada, tornando-se presa fácil da desinformação.

As empresas de comunicação e as plataformas digitais são um tipo especial de empresa, pois suas atividades influenciam profundamente a vida das pessoas. Portanto, precisam assumir com seriedade seu papel social. Claro que, como qualquer empresa, têm seus objetivos comerciais, mas eles não deveriam jamais se sobrepor ao que melhora a sociedade.

 

Simbiose informativa

Isso nos leva a um intenso debate sobre a eventual obrigação das redes sociais e de buscadores remunerarem as empresas de comunicação por usarem os conteúdos jornalísticos nas páginas dessas plataformas.

A origem desse debate remonta à criação do Google Notícias, serviço noticioso do buscador, lançado em 2002. A partir das notícias de veículos do mundo todo, ele cria um “jornal digital” personalizado para cada usuário.

Os produtores de informações sempre reclamaram que o Google criou um produto com seu conteúdo, sem pagar nada por isso. Ele, por sua vez, se defende dizendo que não tem nenhum ganho direto com a plataforma e que, na verdade, aumenta a audiência dos veículos, pois, se alguém clica em uma notícia, cai direto nela, no site ou aplicativo do produtor.

Com o tempo, essa cisma se expandiu também para as redes sociais, pois seus feeds são inundados de posts com notícias, criados pelos próprios usuários ou pelos veículos. Assim como o Google, Facebook e afins se defendem dizendo que não lucram diretamente com esses links, e que ainda aumentam a audiência dos produtores do conteúdo.

Mas a coisa não é tão simples assim.

O físico britânico Tim Berners-Lee, que criou a Web há 30 anos, já afirmou que um link não carrega em si conteúdo ou valor autoral, pois ele simplesmente leva o usuário de uma página para outra. Isso reforça os argumentos de defesa das plataformas digitais.

Por outro lado, dizer que não ganham nada com essas chamadas de conteúdo alheio é uma falácia! Podem até não ter ganho direto dali, mas elas aumentam a percepção de valor de toda a plataforma pelos usuários, aumentando até mesmo o valor dessas marcas bilionárias.

Há alguns anos, a organização Pew Research Center publicou um estudo que demonstrava que a maioria das pessoas não entra no Facebook para consumir notícias, porém, quanto mais tempo elas ficam nele, mais notícias consomem. Mais que isso: elas se engajam mais com notícias vistas a partir da rede social. Trata-se, portanto, de uma relação simbiótica, de ganho mútuo. E, como tal, todos os envolvidos precisam colaborar entre si.

Há ainda um outro fator a se considerar nesse embate. Os veículos de informação tradicionalmente tinham duas formas de financiamento: a assinatura de seus produtos e a publicidade. As plataformas digitais praticamente acabaram com esse modelo de negócio.

Do ponto de vista da publicidade, muitos anunciantes preferem agora colocar seu dinheiro nas redes sociais e nos buscadores, que custam menos e podem trazer melhores resultados, se bem usados. Quanto às assinaturas, muitas pessoas não se sentem mais atraídas a pagar pela informação, pois o meio digital inundou suas vidas com conteúdo, por mais que a maioria seja ruim.

 

Quem paga a conta?

Diante disso, as big techs vêm sofrendo pressões de conglomerados de mídia e de governos para remunerar os produtores de conteúdo. E, a contragosto, têm se rendido a elas.

No mês passado, um episódio foi emblemático. Depois de o governo australiano introduzir um projeto de lei que obrigaria o Facebook a pagar por todos os posts noticiosos em suas páginas no país, a empresa bloqueou a exibição de qualquer material jornalístico a usuários australianos. Além disso, usuários do mundo todo deixaram de ver material de veículos daquele país. Quatro dias depois, o bloqueio acabou após o governo fazer concessões à empresa de Mark Zuckerberg. O Facebook, por outro lado, se comprometeu a remunerar produtores no mundo todo, anunciando que investirá US$ 1 bilhão no setor jornalístico nos próximos três anos.

A Alphabet, controladora do Google, enfrenta pressões semelhantes e também chegou a ameaçar interromper seus serviços na Austrália pelo mesmo motivo. Mas, assim como o Facebook, a empresa também fechou um acordo de pagamento pelo conteúdo, como vem negociando no mundo todo, inclusive no Brasil. Também no mês passado, ela anunciou um grande acordo com o conglomerado de mídia News Corporation, do magnata Rupert Murdoch, para usar o conteúdo de seus diversos veículos, entre eles “The Wall Street Journal”, “The Times” e “The Sunday Times”. Vale dizer que Murdoch sempre foi um ferrenho crítico do meio digital, como algo que destruía o valor de seus negócios.

As empresas de comunicação, por sua vez, precisam abandonar o papel de vítima, que não lhes cai bem. Em parte, estão nessa situação porque, quando o meio digital ainda se consolidava, se recusaram a adaptar seus modelos de negócios a um público em rápida transformação. Agora “perderam esse bonde” e dependem umbilicalmente das plataformas para que seu conteúdo de qualidade chegue ao público. Basta observar que a audiência de suas home pages desaba há anos, pois as pessoas chegam diretamente às notícias a partir de buscadores e redes sociais.

Sei que em um ambiente de capitalismo selvagem, as boas intenções costumam ser colocadas de lado e até ridicularizadas. Mas, como disse antes, essas empresas têm um papel social que está na essência de seus negócios e podem se beneficiar mutuamente do trabalho umas das outras. Portanto, precisam aprender a colaborar mais.

Quanto a nós, o público de todo esse conteúdo, cabe escolher e incentivar aqueles que realmente produzem bom jornalismo. Apesar de estar “fora de moda”, assinar uma ou mais publicações melhorará nossa visão de mundo e ajudará quem trabalha contra a desinformação. Do lado das plataformas digitais, como inevitavelmente continuaremos consumindo conteúdo por elas, precisamos reforçar o nosso senso crítico, para não acreditarmos em qualquer porcaria ali.

Caso contrário, se nenhum desse atores fizer a sua parte, continuaremos vendo pessoas apoiando a morte e se negando a tomar vacinas, temendo virar jacaré.

Pode ter menos pão, desde que tenha muito circo

By | Educação | No Comments

Um ano e 250 mil mortos depois do início da pandemia de Covid-19 por aqui, os brasileiros arranham caminhos para continuar tocando a vida. Diante da ausência de um norte consistente e seguro indicado pelas autoridades, buscamos garantir nossas necessidades básicas em meios ao caos.

Tradicionalmente tais necessidades são garantidas pelo Estado, até para sua própria manutenção. Na antiga República e no Império Romano, os governantes descobriram que era preciso garantir às pessoas duas coisas: o pão e o circo. O primeiro atendia parte do sustento, enquanto o segundo garantia a diversão, para diminuir as tensões do cotidiano.

Passados 2.500 anos, o panem et circenses, como era chamada essa política, continua valendo na relação entre governantes e governados, e invadiu também outras áreas, como o mundo do trabalho e até nossas relações pessoais. Além disso, o pão e o circo são representados de maneiras cada vez mais subjetivas e muito ligadas às redes sociais.

Uma coisa, entretanto, não mudou: se o pão diminui, é preciso caprichar no circo!


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Políticos jogam muito bem esse jogo, mas eles não estão mais sozinhos nesse tabuleiro. Graças aos meios que as redes sociais oferecem para se ganhar muita visibilidade, empresas e até indivíduos criam seus circos para ganhar o próprio pão.

A princípio, não há nada de errado em usar criativamente os recursos digitais, muito pelo contrário! O problema surge quando se ultrapassa o limite da ética ao se enganar os mais diferentes públicos, em uma espécie de estelionato ideológico.

O circo romano tem um aspecto muito perverso. Ao apresentar ao cidadão alguém que sofre muito mais que ele, seus problemas parecem ficar menores. Por isso, a plateia urrava em êxtase diante de gladiadores obrigados a lutar até a morte ou ao ver inimigos do Estado sendo entregues a leões. Qualquer problema fica menor diante do sangue jorrado na arena, pelo simples fato de quem assiste continuar vivo e estar sentado ao lado do governante, que promove a carnificina.

A lógica permanece até hoje, mas ganha novos recursos e novos promotores do espetáculo.

As autoridades continuam sendo soberanas em momentos de circo sem pão, e o nosso governo atual se destaca nisso. Diante de sua incompetência de solucionar as crises da saúde, do trabalho, da economia estagnada, da educação, entre muitas outras, abusa de bravatas vazias contra inimigos reais ou imaginários, para manter sua base de apoio incendiada. Com isso, cria uma densa cortina de fumaça que tira da população o foco nos problemas verdadeiros, mantendo aqueles que o apoiam anestesiados em uma fantasia grotesca.

Mas os políticos não estão sozinhos: reality shows também são um incrível exemplo de um circo romano moderno.

 

A vilã de uma nação

Sem dúvida, o melhor exemplo para entender esse fenômeno é o “Big Brother Brasil”. E um acontecimento da semana passada foi emblemático: a cantora Karol Conká foi eliminada do programa com uma rejeição recorde do público de 97,17%. Quando isso anunciado, pessoas gritaram nas janelas da minha vizinhança, algo que normalmente só acontece em partidas decisivas de futebol e em recentes manifestações políticas.

Karol foi alçada ao posto de supervilã do BBB 21 porque, segundo o jargão do programa, “jogou mal”. Foi arrogante, preconceituosa, agressiva, o que culminou na inédita saída espontânea de outro participante, Lucas Penteado.

Quando deixou a casa, ela descobriu que tinha perdido algo como 40% de seus seguidores nas redes sociais e contratos de trabalho que chegariam a R$ 5 milhões. Mas será que ela merecia tamanha punição, mesmo diante de seus comportamentos reprováveis no programa? Afinal, aquela casa costuma ser lar de muitas intrigas e muito veneno entre os participantes.

Mas, na lógica do circo, essa pergunta é irrelevante. A partir do momento que recebeu o selo de “pessoa má da história”, a audiência decretou que ela deveria ser imolada publicamente. O fato de ela ser famosa potencializou o sentimento. E a possibilidade de seu destino ser decidido por cada um de nós, impondo uma humilhante votação praticamente unânime pela sua saída, é um dos segredos do sucesso desse tipo de programa.

Cada um de nós se torna um pequeno imperador romano que, com o polegar para baixo, determina a morte do perdedor.

 

O circo nosso de cada dia

No mundo atual, não é preciso ser uma grande emissora de TV ou um presidente da República para armar um circo. Com as redes sociais, qualquer um pode ser dono de um picadeiro, apresentador e artista.

Infelizmente, a maioria dessas apresentações é de baixíssima qualidade. Em uma sociedade cada vez mais dependente de espetáculos, de atos teatrais, de bufões e de fanfarronices, quanto pior, melhor.

Isso explica a ascensão e queda das diferentes redes sociais. Quem aqui se lembra do Orkut, que nasceu como um interessante experimento social e terminou com um nível baixíssimo das publicações? O mesmo aconteceu com o Facebook, que cresceu diante do declínio daquele concorrente, mas, há muitos anos, vem sofrendo com a piora das conversas ali. Criou-se até o neologismo que diz que o Facebook foi “orkutizado”. O mesmo aconteceu com o Twitter, o Instagram e até o LinkedIn, uma rede que até o início de 2018 resistia a esse processo.

Esse raciocínio pode parecer elitista e, de certa forma, é mesmo. Quanto mais sucesso uma plataforma digital faz, mais ela se parece à população que representa. Oras, se essa população aprecia ver o sangue de quem não gosta ou prefere conversas com a profundidade de um pires, para poder esquecer de seus próprios problemas, aos poucos as redes passarão a oferecer isso.

Isso é uma tragédia anunciada! Quando as pessoas não saem do mundo digital, sendo profundamente influenciadas pelo que veem ali, o discurso raso anestesia todo mundo, fazendo com que deixem seus problemas para lá (sem resolvê-los), dedicando-se apenas à “diversão”.

O circo se torna muito mais importante que o pão!

São nessas horas que os grupos de poder deitam e rolam! Enquanto a massa cega se diverte, eles podem fazer o que quiserem, até mesmo se preocupar menos em dar o pão.

Precisamos resgatar o nosso senso crítico, autoestima e coletividade. Sem eles, logo seremos nós mesmos a alimentar os leões, para o deleite dos que sobrarem.

Sinto informar, mas o mundo não existe para lhe servir

By | Tecnologia | No Comments

O meio digital nos deu poderes com os quais talvez não estejamos prontos para lidar, e isso pode estar destruindo nossa humanidade!

Costumo dizer que quando algo aparece em novelas ou reality shows, a coisa definitivamente já está integrada na vida da maioria da população. E uma coisa que vejo representado nesses programas, nos últimos anos, é o poder de observar, influenciar e até destruir a vida alheia com as redes sociais.

Vivemos uma época de crescente tirania digital, em que muitos acham que o mundo tem a obrigação de lhes agradar. Caso contrário, agem como se tivessem o direito de punir severamente quem quisessem.


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No Big Brother Brasil, maior reality show do país, a presença nas redes já é critério de escolha dos participantes há algumas edições. Na que está acontecendo agora, uma palavra não sai da boca de alguns deles: “cancelamento”, esse comportamento nefasto de uma multidão abandonar e criticar pesadamente alguém nas redes ao mesmo tempo, na tentativa de calar suas ideias.

Oras, como alguém entra no BBB, o ambiente de maior exposição do país, com medo de ser “cancelado”? Até mesmo porque uma coisa é certa: ninguém agrada todo mundo!

Por outro lado, será que alguém merece ser “cancelado” ou qualquer coisa do tipo? Essa punição me parece severa demais, especialmente porque a condenação vem sempre da cabeça de uma pessoa ou de um grupo, que pode estar errado. Mais que isso: uma ação impensada e às vezes até gratuita dessas pode destruir a vida de alguém! E, se hoje o indivíduo é algoz, amanhã mesmo pode se tornar vítima.

Para entendermos de onde veio essa aberração comportamental, precisamos conhecer a história dos relacionamentos on line.

 

A origem das conversas on line

Quando surgiram os primeiros serviços na Web, existiam apenas as salas de bate-papo dos portais para conhecermos outras pessoas, e aquilo já parecia incrível: a chance de falar com muitas pessoas ao mesmo tempo, onde quer que estivessem, era inebriante! Depois vieram os sites de namoro, cada vez mais segmentados, e finalmente os aplicativos “de pegação”.

Lá atrás, existia a falsa ideia de que a vida on line e a off line eram separadas. Isso era parcialmente explicado por que a tecnologia era precária: até para nos conectarmos, tínhamos que estar diante de um computador, on line por uma lenta conexão telefônica. Esse ritual criava uma ruptura que sugeria que nossa presença nas redes era dissociada de quem somos.

Para quem procurava conhecer novas pessoas ou até explorar novas possibilidades, isso era muito interessante: o aparente anonimato digital permitia que fôssemos quem quiséssemos! Além disso, se algo não saísse como planejado, bastava deixar de falar com a outra pessoa. Eventuais danos ficariam restritos àquele caso.

Entendo que o fim de um relacionamento pode ser doloroso, não desprezo isso. Mas infelizmente isso evoluiu para algo muito mais abrangente e pior, à medida que nossa vida se tornou cada vez mais ligada e dependente do meu digital. Com os smartphones, estamos permanentemente on line e muitas, muitas coisas que fazemos passam pela Internet, seja trabalho, lazer, estudos, compras e até relacionamentos.

Aquele mecanismo pueril de que, se algo não desse certo, bastaria excluir o outro também evoluiu e ficou mais poderoso, resultando nos infames “cancelamentos”, com seus danos crescendo na mesma escada. Nesse ponto, surgem os tiranos digitais, que podem ser restritos ao grupo da família no WhatsApp ou atingir escala global. Em qualquer caso, “brincam de deus”, exercitando alguns de seus piores sentimentos.

Sua humanidade desce pelo ralo quando são incapazes de demonstrar o menor sinal de empatia com o outro: se não me servir, não fizer o que desejo ou simplesmente pensar de maneira diferente, então se decreta que deve ser varrido de sua própria existência ou que, pelo menos, sofra muito.

Essa ilusão de onipotência chega às raias da loucura ao se manter pessoas em “cativeiros digitais”: quando não se quer falar com o outro, ele é bloqueado. Quando, por qualquer motivo, precisa-se dele novamente, o bloqueio é desfeito.

Isso é insano! A outra pessoa também tem sentimentos, desejos, uma vida, enfim. Não está nesse mundo para servir a ninguém. Insistir nessas ações pode indicar uma psicose que nos foi “presenteada” pelo meio digital.

 

Devastando a psique

O que mais me preocupa é que não há indícios de que as pessoas possam melhorar nesse ponto. Pelo contrário, vejo cada vez mais gente disposta a brincar em seu fantasioso “Olimpo digital”.

Temo que cheguemos a um cenário de exclusão digital como o visto no episódio “Natal”, da série “Black Mirror”, disponível na Netflix. A exemplo do que se faz hoje nas redes sociais, nessa história, os indivíduos podem efetivamente bloquear outros na sua realidade. Graças a sinistros implantes que todas as pessoas lá têm, ao se bloquear um indivíduo, ele não será mais capaz de ver ou ouvir quem o bloqueou (e vice-versa), mesmo que estejam frente a frente. Sua imagem será substituída por uma silhueta animada cinza e sua voz ficará incompreensível.

Se essa tecnologia já estivesse disponível, receio que muita gente a adotaria alegremente. O problema é que, quando existe uma grande demanda reprimida no mercado, eventualmente um produto acaba se tornando realidade.

Quando teremos algo assim? Apesar do que acabei de dizer, espero que nunca!

Isso não é engraçado e muito menos inofensivo. “Apagar alguém da existência” de outras pessoas a seu redor pode ter efeitos psicológicos devastadores para a vítima. Quem me conhece sabe que sou um entusiasta e um grande defensor no mundo digital, mas isso não pode jamais matar a nossa humanidade.

Infelizmente, aqueles sistemas primitivos e quase inocentes de relacionamento dos anos 1990 foram a semente para esse comportamento nocivo que temos hoje. As pessoas se tornaram brutalmente intolerantes. Não aguentam frustrações em qualquer área de sua vida. Estão prontos a “cancelar” quem quer que seja por questões sentimentais, sexuais, políticas, religiosas e até esportivas.

Isso precisa ser revertido o quanto antes! Infelizmente parece que o mundo caminha justamente rumo ao que se vê naquele episódio, pois muitos indivíduos e grupos descobriram que manipular o outro pode ser um grande negócio. E, usando outra referência a séries, no caso “The Boys”, disponível no Amazon Prime Video, muitos percebem que manipular o ódio das multidões pode trazer mais dividendos que manipular seu amor.

Corremos o risco de estagnar no nosso desenvolvimento como espécie. Crescemos quando somos confrontados com as diferenças e a sociedade só se desenvolve com o trabalho conjunto para o bem de todos, e não de apenas um grupo.

Se não se gosta de alguém ou de algo, basta não comprar aquilo. Não é preciso destruí-lo para que ninguém mais o consuma.

O mundo não existe para nos servir: vivemos em constantes trocas. Sempre foi assim e sempre será! As pessoas devem reaprender que não são o centro do universo e que precisam do outro.