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A origem do negacionismo

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No mundo todo, a educação sofre há um ano com a Covid-19. No Brasil, com o avanço galopante da doença, governadores e prefeitos vêm adotando medidas mais severas para conter o vírus, incluindo fechar as escolas. O impacto na formação de crianças e jovens é inevitável. Mas a educação sofre muitíssimo no nosso país desde muito antes da pandemia. De certa forma, grande parte do caos que vivemos se explica pelo desprezo histórico que o Brasil tem pela educação.

Basta ver que esse debate atinge basicamente educadores e pais de alunos. O resto da população passa ao largo do tema. Mas o fechamento de bares causa comoção nacional!

É sabido que cidadãos bem educados fazem valer seus direitos e igualmente cumprem seus deveres. Não ficam esperando que o governo os “salve de suas próprias vidas”. É assim em sociedades desenvolvidas. Por outro lado, os menos educados criam uma zona de conforto em torno de um pacto pela mediocridade: “se você me der o mínimo que preciso, eu não incomodo você, e vou levando minha vidinha”.

Como não somos bem educados, diante de algo muito maior que nós (como uma pandemia), procuramos uma “solução mágica”. Como isso não existe, negamos os fatos. Afinal, o que os olhos não veem o coração não sente, certo?

Errado!


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A nossa má educação é, portanto, a principal causa desse negacionismo que jogou o Brasil nas mais profundas trevas, que, para nossa desgraça, foram ampliadas pela pandemia. Não dá nem para dizer que foi azar: plantamos isso.

Não é de se estranhar que o nível da educação no Brasil caia gradativamente desde o tempo da ditadura militar. Um povo mal educado é um povo mais dócil e facilmente manipulável. Mas, com isso, jogamos tudo no colo do Estado ou damos um jeito de responsabilizar o outro quando algo dá errado. Esperamos que o mundo nos sirva e nos salve, mas damos muito pouco em troca. Ao fazer isso, cada um de nós, individualmente, e o Brasil, como sociedade, afundamos ainda mais no lamaçal.

Para completar a tragédia, o caminho para sairmos disso, que é a busca pelo conhecimento e a ciência, é banalizado, desvalorizado, ridicularizado até por governantes e seus seguidores. Quem estuda, quem pesquisa e quem ensina no Brasil não tem valor.

Para compensar essa gravíssima falha, nós nos apoiamos, até para afagar nosso ego, na crença de que somos um povo criativo e “esperto”, que consegue “sair de qualquer buraco”. A verdade é que essa “esperteza” está muito mais para malandragem burra. Trabalhamos muitas horas, mais que outros povos, porque somos profissionais de baixa produtividade e baixa inventividade.

Dói dizer isso! Mas temos que encarar o problema de frente se quisermos corrigi-lo.

Somos ótimos seguidores de ordens, com pouca iniciativa. Fomos educados assim! Além disso, trabalhamos mal em equipe. Basta ver a enorme quantidade de chefes tóxicos e as “puxadas de tapete” na própria equipe que ainda temos em pleno ano de 2021.

Que fique claro: ao dizer tudo isso, não estou afirmando que somos um povo “sem jeito” ou condenado. Muito pelo contrário! Mas estamos indo por um caminho muito errado há décadas, sem nenhuma perspectiva de melhora. Basta ver o Ministério da Educação, que está em coma desde que Bolsonaro assumiu o poder.

 

Brasil X Coreia do Sul

Em novembro, pesquisadores da FGV (Fundação Getúlio Vargas) divulgaram um estudo apontando que, se o Brasil investisse, a cada ano, 1% a mais do seu Produto Interno Bruto em ensino básico, o padrão de vida médio da população aumentaria até 26% nos próximos 50 anos. Em 2050, a população brasileira poderia atingir o mesmo padrão de vida da portuguesa. Além disso, investir (bem) na educação 2% do que o país produz levaria a um aumento de quase 32% na produtividade do trabalhador.

Um dos reflexos do nosso terrível fracasso nisso é que, apesar do altíssimo desemprego por aqui, as empresas não conseguem preencher vagas que exigem qualificação profissional e competências específicas, por causa da baixa qualificação média do brasileiro.

É possível mudar esse quadro, mas isso exige trabalho sério e consistente, investimento e tempo. Podemos pegar, como exemplo, a evolução da Coreia do Sul.

Antes da Guerra da Coreia, que durou de 1950 a 1953, o país era um dos mais pobres do mundo, muito mais que o próprio Brasil da época. Após o conflito, o sul capitalista criou um plano de longo prazo de industrialização do país (a partir de tecnologia estrangeira) e de educação de alta qualidade para todos.

O resultado é que, depois de cerca de 30 anos, a Coreia do Sul passou da sua antiga situação miserável para ser um dos Tigres Asiáticos. Não por coincidência, na pandemia de Covid-19, o país ostenta um dos melhores resultados do mundo.

 

Para que estudamos?

A educação certamente tem uma função utilitária, crítica para o desenvolvimento de uma nação. Estudamos para aprender a fazer coisas e, dessa forma, melhorar de vida.

Mas não pode ser apenas isso! A educação também tem o papel de desenvolver em nós o amor pelo conhecimento, transcendendo seu aspecto prático. Apenas alguém que goste de aprender coisas novas impulsiona a sociedade para um estágio superior, pois tem uma mente flexível e aberta à inovação. Infelizmente, o Brasil investe pouco em ciência, e o que se investe vai quase tudo para a ciência aplicada, ficando quase nada para a ciência de base.

No início da minha carreira, eu sempre ouvia que mestrados e doutorados só serviam para quem queria “dar aula”, que era muito melhor fazer um MBA para subir na carreira. De tanto ouvir isso, acabei fazendo primeiro o MBA na FIA, que de fato foi incrível! Mas, quando fiz meu mestrado na PUC-SP alguns anos depois, minha mente se expandiu a um outro nível. Por isso, afirmo que todos deveriam ter a oportunidade de seguir esse caminho: não é “só para dar aula”, mas sim para criar cidadãos e profissionais melhores!

Precisamos plantar em nossas mentes, desde a mais tenra idade, o amor pelo aprendizado. Vejo com tristeza crianças e adolescentes reclamando “por que estudar isso, se nunca será usado”. Tudo que estudamos serve para entendermos melhor o mundo em que vivemos e nos ajudará, quando necessário, a nos posicionarmos melhor nele.

Apesar de ser um profissional da área de Humanidades, quando cursava ainda o Colégio Mackenzie, minha matéria preferida era Física. Isso porque eu tive a sorte de ter bons professores que não se resumiam apenas a “dar a matéria”, como alguns inimigos da educação exigem hoje. Um bom professor vai muito além e contextualiza o conhecimento na vida do aluno e na sociedade.

No mundo ideal, os alunos estudariam para aprender e não para tirar nota na prova, um instrumento de avaliação falho que perpetua essa distorção no objetivo do ensino. Nesse mundo, entenderiam que Língua Portuguesa e Matemática são ferramentas para fazer melhor qualquer coisa na vida e que todas as outras disciplinas, de Química a Filosofia, servem para se desenvolverem mentes livres e se tornarem cidadãos conscientes de seus direitos e deveres.

Todos nós –e não apenas os educadores– precisamos nos engajar pela melhora da educação. Precisamos ser parceiros das escolas e dos professores, resgatando seu valor e sua autonomia, e dando a eles condições para realizar um bom trabalho.

Sem isso, nunca seremos como a Coreia do Sul ou qualquer outra nação desenvolvida. Nossa sociedade permanecerá estagnada e continuaremos sendo indivíduos que produzem pouco e produzem mal. E agora, pelo nosso negacionismo, nem somos aceitos nos aeroportos do mundo.

É isso que queremos para nós e para nossos filhos?

Pode ter menos pão, desde que tenha muito circo

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Um ano e 250 mil mortos depois do início da pandemia de Covid-19 por aqui, os brasileiros arranham caminhos para continuar tocando a vida. Diante da ausência de um norte consistente e seguro indicado pelas autoridades, buscamos garantir nossas necessidades básicas em meios ao caos.

Tradicionalmente tais necessidades são garantidas pelo Estado, até para sua própria manutenção. Na antiga República e no Império Romano, os governantes descobriram que era preciso garantir às pessoas duas coisas: o pão e o circo. O primeiro atendia parte do sustento, enquanto o segundo garantia a diversão, para diminuir as tensões do cotidiano.

Passados 2.500 anos, o panem et circenses, como era chamada essa política, continua valendo na relação entre governantes e governados, e invadiu também outras áreas, como o mundo do trabalho e até nossas relações pessoais. Além disso, o pão e o circo são representados de maneiras cada vez mais subjetivas e muito ligadas às redes sociais.

Uma coisa, entretanto, não mudou: se o pão diminui, é preciso caprichar no circo!


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Políticos jogam muito bem esse jogo, mas eles não estão mais sozinhos nesse tabuleiro. Graças aos meios que as redes sociais oferecem para se ganhar muita visibilidade, empresas e até indivíduos criam seus circos para ganhar o próprio pão.

A princípio, não há nada de errado em usar criativamente os recursos digitais, muito pelo contrário! O problema surge quando se ultrapassa o limite da ética ao se enganar os mais diferentes públicos, em uma espécie de estelionato ideológico.

O circo romano tem um aspecto muito perverso. Ao apresentar ao cidadão alguém que sofre muito mais que ele, seus problemas parecem ficar menores. Por isso, a plateia urrava em êxtase diante de gladiadores obrigados a lutar até a morte ou ao ver inimigos do Estado sendo entregues a leões. Qualquer problema fica menor diante do sangue jorrado na arena, pelo simples fato de quem assiste continuar vivo e estar sentado ao lado do governante, que promove a carnificina.

A lógica permanece até hoje, mas ganha novos recursos e novos promotores do espetáculo.

As autoridades continuam sendo soberanas em momentos de circo sem pão, e o nosso governo atual se destaca nisso. Diante de sua incompetência de solucionar as crises da saúde, do trabalho, da economia estagnada, da educação, entre muitas outras, abusa de bravatas vazias contra inimigos reais ou imaginários, para manter sua base de apoio incendiada. Com isso, cria uma densa cortina de fumaça que tira da população o foco nos problemas verdadeiros, mantendo aqueles que o apoiam anestesiados em uma fantasia grotesca.

Mas os políticos não estão sozinhos: reality shows também são um incrível exemplo de um circo romano moderno.

 

A vilã de uma nação

Sem dúvida, o melhor exemplo para entender esse fenômeno é o “Big Brother Brasil”. E um acontecimento da semana passada foi emblemático: a cantora Karol Conká foi eliminada do programa com uma rejeição recorde do público de 97,17%. Quando isso anunciado, pessoas gritaram nas janelas da minha vizinhança, algo que normalmente só acontece em partidas decisivas de futebol e em recentes manifestações políticas.

Karol foi alçada ao posto de supervilã do BBB 21 porque, segundo o jargão do programa, “jogou mal”. Foi arrogante, preconceituosa, agressiva, o que culminou na inédita saída espontânea de outro participante, Lucas Penteado.

Quando deixou a casa, ela descobriu que tinha perdido algo como 40% de seus seguidores nas redes sociais e contratos de trabalho que chegariam a R$ 5 milhões. Mas será que ela merecia tamanha punição, mesmo diante de seus comportamentos reprováveis no programa? Afinal, aquela casa costuma ser lar de muitas intrigas e muito veneno entre os participantes.

Mas, na lógica do circo, essa pergunta é irrelevante. A partir do momento que recebeu o selo de “pessoa má da história”, a audiência decretou que ela deveria ser imolada publicamente. O fato de ela ser famosa potencializou o sentimento. E a possibilidade de seu destino ser decidido por cada um de nós, impondo uma humilhante votação praticamente unânime pela sua saída, é um dos segredos do sucesso desse tipo de programa.

Cada um de nós se torna um pequeno imperador romano que, com o polegar para baixo, determina a morte do perdedor.

 

O circo nosso de cada dia

No mundo atual, não é preciso ser uma grande emissora de TV ou um presidente da República para armar um circo. Com as redes sociais, qualquer um pode ser dono de um picadeiro, apresentador e artista.

Infelizmente, a maioria dessas apresentações é de baixíssima qualidade. Em uma sociedade cada vez mais dependente de espetáculos, de atos teatrais, de bufões e de fanfarronices, quanto pior, melhor.

Isso explica a ascensão e queda das diferentes redes sociais. Quem aqui se lembra do Orkut, que nasceu como um interessante experimento social e terminou com um nível baixíssimo das publicações? O mesmo aconteceu com o Facebook, que cresceu diante do declínio daquele concorrente, mas, há muitos anos, vem sofrendo com a piora das conversas ali. Criou-se até o neologismo que diz que o Facebook foi “orkutizado”. O mesmo aconteceu com o Twitter, o Instagram e até o LinkedIn, uma rede que até o início de 2018 resistia a esse processo.

Esse raciocínio pode parecer elitista e, de certa forma, é mesmo. Quanto mais sucesso uma plataforma digital faz, mais ela se parece à população que representa. Oras, se essa população aprecia ver o sangue de quem não gosta ou prefere conversas com a profundidade de um pires, para poder esquecer de seus próprios problemas, aos poucos as redes passarão a oferecer isso.

Isso é uma tragédia anunciada! Quando as pessoas não saem do mundo digital, sendo profundamente influenciadas pelo que veem ali, o discurso raso anestesia todo mundo, fazendo com que deixem seus problemas para lá (sem resolvê-los), dedicando-se apenas à “diversão”.

O circo se torna muito mais importante que o pão!

São nessas horas que os grupos de poder deitam e rolam! Enquanto a massa cega se diverte, eles podem fazer o que quiserem, até mesmo se preocupar menos em dar o pão.

Precisamos resgatar o nosso senso crítico, autoestima e coletividade. Sem eles, logo seremos nós mesmos a alimentar os leões, para o deleite dos que sobrarem.

A hora das empresas mostrarem seu valor

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Estamos completando um ano de pandemia de Covid-19, que jogou empresas, profissionais e clientes em um turbilhão que pôs em xeque fórmulas consagradas de relacionamento entre esses grupos. Isso deixou um vazio que agora todos tentam preencher com um marketing reformulado para esses novos tempos.

Surge então uma pergunta com ares quase freudianos: o que, afinal, as pessoas querem?

Essa não é uma pergunta retórica. Alguém ainda duvida que o mundo é muito diferente do que há apenas 12 meses? Mesmo para aqueles que já voltaram a suas atividades normais (ou talvez nunca as tenham abandonado), as transformações foram grandes. As pessoas agora se preocupam consideravelmente com novos valores e esperam que as companhias estejam juntas a elas nisso.

Empresas e profissionais precisam identificar e abraçar tais mudanças, para seu posicionamento. Mas a grande transformação é que essas informações não devem ser usadas em modelos tradicionais de marketing e muito menos com as irritantes e acefálicas “formulinhas de lançamento” que inundam as redes sociais. Isso precisa nutrir transformações reais no negócio para que ele genuinamente se aproxime dos valores do consumidor.


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Não é pouca coisa! A edição mais recente do “Trust Barometer”, aponta que as pessoas esperam que as empresas se engajem e solucionem temas sociais, que, a princípio, não seriam de sua responsabilidade. Essa pesquisa, feita pela consultoria americana de marketing Edelman há 20 anos, mede o índice de confiança do público em empresas, governo, mídia e ONGs.

Nessa edição, foram ouvidas 33 mil pessoas de 28 países, inclusive o Brasil, de 19 de outubro a 18 de novembro de 2020. Ela aponta que, dessas instituições, as empresas são as únicas em que o público deposita mais confiança no momento. E, no Brasil, esse traço é ainda mais forte.

O relatório indica que 86% dos entrevistados no mundo esperam que marcas solucionem problemas sociais. No Brasil, esse índice bate incríveis 97%! Isso acontece porque a população quer que as empresas atuem onde o governo falha, e a percepção que o governo vem falhando aumentou muito em 2020 no Brasil, especialmente em questões sociais.

Isso se explica, pelo menos em parte, porque as pessoas passaram a viver e fazer mais coisas em casa: ela ganhou muita importância frente ao mundo externo. Por isso, necessidades pessoais e da família se sobrepõem agora a status e imagem externa.

Globalmente, as maiores preocupações são o sistema de saúde (mencionado por 62% dos entrevistados), a pobreza (53%), a educação (53%), as mudanças climáticas (51%) e as fake news (50%).  No Brasil, a pobreza aparece em primeiro lugar (indicada por 58% dos respondentes), seguida por questões trabalhistas (52%), mudanças climáticas (51%) e racismo estrutural (51%).

 

Confiança se transforma em vendas

Como já dito, segundo o “Trust Barometer”, praticamente todos os brasileiros esperam que companhias solucionem problemas sociais. No vácuo deixado pela inoperância governamental, 72% almejam que as empresas tomem medidas para ajudar comunidades em tempos de crise.

Uma pergunta que muitos gestores podem se fazer nesse momento é: “o que eu ganho fazendo isso?” E, de uma maneira bastante simples, a resposta é: mais clientes e mais vendas.

As pessoas estão crescentemente atentas ao que as empresas pregam e também ao que elas fazem. É necessário que o discurso seja corroborado por ações. No Brasil, ainda há um grande espaço a ser ocupado nisso, o que representa uma incrível oportunidade para empresas que estejam dispostas a sair de sua zona de conforto.

A pesquisa mundial indica que os consumidores com alta confiança na marca são mais fiéis (75%) e mais engajados, o que implica em compartilhar seus dados (60%) e até defender e recomendar a marca (78%). Mas apenas 37% dos brasileiros acham que as marcas que usam estão fazendo um excelente trabalho em ajudar o país e o povo a enfrentar os desafios atuais.

Para obter essa confiança, palavras não bastam. Na verdade, se elas não forem verdadeiras, isso pode trazer enorme prejuízo à marca, pois a decepção pode significar a fuga dos clientes.

No Brasil, 72% dos entrevistados afirmam ser mais efetivo a empresa tomar medidas para ajudar trabalhadores e comunidades locais em tempos de crise, contra 28% que acreditam que isso acontece quando ela assume o compromisso publicamente. E, para demonstrar como as companhias por aqui ainda têm um longo caminho para fazer isso direito, 62% dos brasileiros afirmam que as marcas usam questões sociais e políticas importantes apenas como manobra para vender mais produtos.

Isso é um tiro no pé! Tanto que 64% dos entrevistados no Brasil afirmam que as marcas devem pensar primeiro na segurança do público, tendo cuidado ao encorajar as pessoas a voltar a lojas, restaurantes e outros locais públicos.

 

A vez das empresas

Todos nós queremos retomar a economia. O fim do auxílio emergencial em dezembro e a incapacidade do governo de encontrar uma maneira de reeditá-lo abre uma crise humanitária que jogará milhões de brasileiros para baixo da linha da pobreza. A crise das vacinas, também decorrente da crônica inoperância de Brasília no tema, piora ainda mais a situação.

Com isso, o país “trava nas quatro rodas”. A volta a uma “vida normal” é desejo de todos. Mas a discussão do “novo normal”, que, a essa altura, já parece velha, passa necessariamente por resolver esses e outros problemas sociais com a máxima urgência. A economia simplesmente não reagirá sem isso.

Diante de um poder público claudicante, a população espera que as empresas ocupem esse espaço. Felizmente temos visto alguns bons exemplos, que podem inspirar outros.

No início da pandemia, quando tudo estava ainda mais desestruturado que hoje, empresas produziram itens urgentemente necessários. A Ambev, por exemplo, produziu álcool em gel para ser doado a hospitais. Outras empresas produziram máscaras de pano e face shields para profissionais da saúde e a população em geral.

O Magazine Luiza vem se destacando em ações concretas que demonstram o alinhamento de seus valores aos da maioria da população. Há duas semanas, a empresa liderou a ação “Unidos Pela Vacina”, que visa incentivar a imunização, ajudar (e pressionar) o governo e até trabalhar na logística de distribuição das doses. Algumas ações chegam a criar polêmica, como o programa de trainees apenas para negros, uma ação afirmativa lançada em setembro passado e criticada por muita gente. Nem por isso, a empresa voltou atrás com o que precisa ser feito.

Essas ações estão diretamente ligadas à liderança de Luiza Trajano, presidente do conselho do Magalu. E isso é algo que também precisa ser mencionado. Essas decisões devem ser abraçadas por todos na organização e dependem do apoio dos gestores. Caso contrário, podem se reduzir a meras ações midiáticas vazias, exatamente o que as pessoas condenam.

É importante que fique claro que não são apenas ações grandiosas que funcionam aqui. Ações simples e bem intencionadas, mesmo de empresas pequenas ou profissionais autônomos, podem produzir resultados expressivos dentro de sua esfera de influência, e são igualmente bem-vindas.

Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, disse que o “lucro não é a explicação, causa ou razão de comportamento de negócios e decisões de negócios, mas o teste de sua validade.” Apesar de essa frase ter mais ou menos meio século, ela serve perfeitamente para esse momento. Afinal, a empresa que trabalha apenas para ter lucro eventualmente chega lá. Por outro lado, as companhias que entendem que são entidades ativas dentro de uma sociedade e percebem que trabalham para a melhoria dela tendem a ter um lucro maior e a colher benefícios que as primeiras nem imaginam existir.

Portanto, se você é um gestor de uma empresa ou de sua própria carreira solo, preste atenção no que você está fazendo para a sociedade, de uma maneira genuína. Por outro lado, se você é um cliente, não tenha dúvida em exercitar seus direitos ao escolher produtos e serviços daqueles que efetivamente estão trabalhando para melhorar toda a sociedade.

Essa não é uma visão dourada ou irreal do mundo. É o caminho mais moderno para ser bem sucedido nos negócios.

Nossa má educação cria um abismo entre os brasileiros e as profissões do futuro

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De tempos em tempos, vemos estudos e listas sobre as chamadas “profissões do futuro”. Elas nos enchem os olhos, com atividades incríveis e inspiradoras. Algumas parecem que vieram diretamente de um episódio de “Star Trek”, mas são reais! Infelizmente a maior parte das pessoas jamais exercerá qualquer uma dessas carreiras, pois não têm elementos básicos em sua formação para desempenhar suas tarefas. Nosso sistema de ensino e nossa cultura não são organizados para oferecer a crianças, jovens e adultos as habilidades necessárias para isso.

Isso fica ainda mais cruel quando consideramos que vivemos em um país que entrou em 2021 com cerca de 14 milhões de desempregados e 6 milhões de desalentados (aquelas pessoas que já desistiram de procurar emprego), números que crescem consistentemente desde antes da pandemia de Covid-19. Nos casos da imensa maioria dessas pessoas, infelizmente essas atividades inovadoras são inalcançáveis.


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Para as profissões que debutam com grande pompa e muitas novidades (as que chamam mais atenção), naturalmente não existe formação específica. As escolas precisam de um tempo para criar cursos, e isso só acontece depois que um novo ofício está consolidado. Portanto, se se almeja qualquer um desses incríveis trabalhos, a habilidade mais desejada é o amor pelo aprendizado. Com ela, o candidato descobrirá e fará muitos cursos específicos, para combinar seus conteúdos e construir o arcabouço intelectual necessário.

Nesse ponto, a situação começa a complicar. Nossas escolas não desenvolvem nos estudantes esse recurso. O amor pelo conhecimento é substituído por decorar o conteúdo para “tirar nota na prova”. Aliás, esse é um sistema de avaliação que persiste, apesar de ser incrivelmente falho. A prova pune o erro, o que faz com que o aluno prefira decorar mecanicamente, ao invés de sentir o prazer da compreensão dos assuntos, algo que deveria ser desenvolvido desde a mais tenra idade. Por isso, abordei esse tema na palestra que ministrei aos educadores da Fundação Raízen, na quarta passada

As “profissões do futuro” são tão incríveis porque elas saem do óbvio! Desafiam os indivíduos a pensar e a fazer diferentemente o que já existe ou criar algo completamente novo, que trará um grande benefício à sociedade. Para isso, o profissional não pode ficar preso a fórmulas consagradas. É preciso ser capaz de correr riscos, de buscar a inovação, de tentar.

Fácil falar! E é aí que “a porca torce o rabo”, como diz o ditado. Qualquer tentativa, em qualquer assunto, necessariamente embute um risco. Não há como garantir que tudo dará sempre certo. Mas nossas crianças e jovens crescem sendo punidos pelos seus erros. Quando se está na escola, o erro pode levar a uma reprovação de ano. Quando se chega ao mundo do trabalho, o erro pode custar seu emprego.

E assim todos preferem caminhar na segura trilha da mesmice. Ao não tentar, não se erra. E, ao não errar, garante-se o que já se tem. O problema é que, ao não tentar, também não se muda, não se cria, não se vence. Vivemos, portanto, em um pacto pela mediocridade.

Isso é antinatural! Todos nós somos capazes de aprender com nossos erros. Todo jogador de videogame sabe disso! Ninguém termina um game sem “morrer” nenhuma vez. Isso acontece várias vezes ao longo dessa jornada, mas nem por isso o jogador desiste dela. Pelo contrário: ele é obrigado a voltar um pouco na sequência, mas, quando chegar de novo no ponto em que falhou anteriormente, desenvolverá novas estratégias para superar o desafio, até que consiga! A partir daquele momento, esse recurso ficará disponível em seu cérebro para ser usado não apena no jogo, mas em qualquer coisa na sua vida.

Toda criança nasce sabendo disso. Mas a sociedade aos poucos a coíbe, para que essa habilidade fique cada vez menos disponível.

 

O valor da inovação

Profissionais e empresas que “sabem jogar” brilham muito mais! Por exemplo, na terça passada, a Apple recuperou a coroa de marca mais valiosa do mundo, depois de cinco anos. Segundo o relatório “Brand Finance 2021”, Amazon, Google, Microsoft, Samsung, Walmart, Facebook, ICBC, Verizon e WeChat completam a lista das dez mais valiosas. Apenas duas delas não são da área de tecnologia: o varejista americano Walmart e o banco chinês ICBC.

Nas 500 maiores, apenas duas são brasileiras: o Itaú, que ocupar o 387º lugar, e o Banco do Brasil, na posição 492. Sem desmerecer as operações dessas empresas, essa quase total ausência brasileira é emblemática. Nossas maiores empresas são de setores muito conservadores ou estão ligadas a commodities, enquanto as mais valiosas do mundo estão intimamente vinculadas à inovação, onde há um monte dos tais “profissionais do futuro”, dispostos a correr riscos.

Pode-se imaginar que esses ofícios são totalmente inéditos, mas isso não é o caso. Na verdade, muitas das “profissões do futuro” paradoxalmente existem desde a Antiguidade, como professores e médicos. Elas são “profissões do futuro” porque não apenas continuarão existindo, como se tornarão ainda mais importantes para a sociedade. Mas naturalmente elas já sofrem e continuarão sofrendo grande mudanças, inclusive impactadas pelo meio digital. Querer continuar as exercendo como se fazia há alguns anos é um convite para ser colocado para fora do mercado.

A digitalização já afetou todas as profissões e esse é um movimento que cresce exponencialmente. Não há como resistir à mudança. Pelo contrário, qualquer que seja a área do ofício, o domínio de habilidades normalmente associadas às Exatas, como raciocínio lógico, análise de dados, entendimento de sistemas ou estatística ficam mais e mais importantes. Da mesma forma, habilidade de Humanas, como comunicação, pensamento crítico, trabalho em equipe e até empatia também se tornam essenciais para trabalhadores de todas as áreas, e não apenas nas Humanidades.

Vejo isso com muito bons olhos. A ideia de ter um engenheiro com uma incrível capacidade de comunicação ou um médico guiado pela empatia é incrível! Ao final, teremos não apenas melhores profissionais, mas também melhores pessoas.

 

O avanço da automação

Não se engane: o que puder ser automatizado será! Isso já está acontecendo em todas as áreas.

Profissões nascem e morrem desde o início dos tempos. A diferença é que agora isso acontece em um ritmo muito mais veloz, pelo desenvolvimento de novas tecnologias e pela disseminação e democratização do conhecimento.

As que desaparecem normalmente são aquelas que foram substituídas por processos que atenderam seu cliente de maneiras que lhe eram mais convenientes. O que mata um produto, uma indústria, uma profissão é o cliente que encontra uma alternativa mais vantajosa para si.

Portanto as profissões que nascem são mais analíticas e inovadoras, e as que morrem são as mais operacionais e repetitivas. É por isso que nossas escolas precisam formar profissionais para o primeiro grupo, e não para o segundo. Caso contrário, dentro de alguns anos, não teremos apenas uma grande massa de desempregados, mas muitas pessoas “inempregáveis”, que não terão habilidades mínimas para realizar as tarefas exigidas pelos ofícios disponíveis.

A discussão do futuro do trabalho deve passar necessariamente pela do futuro da educação. Portanto, se você deseja abraçar uma das “profissões do futuro”, comece a se preparar desde já, estudando de uma maneira diferente. Procure cursos que o ensinem a pensar e não a simplesmente a “apertar botões”, que o ensinem a correr riscos e não a adotar posições conservadoras, que o levem a abrir novas trilhas e não apenas seguir por caminhos conhecidos por todos.

Com isso, você poderá criar algo de fato novo e que realmente faça a diferença para a sociedade. Assim seu futuro estará garantido.

A volta dos “Loucos Anos 20”

By | Educação | No Comments

Estamos começando não apenas um novo ano, mas uma nova década

Muita gente acha que pode ser uma reedição dos “Loucos Anos 20”, como ficaram conhecidos aqueles que aconteceram há cem anos. Depois de uma pandemia e uma guerra que devastaram o mundo, aquela década foi marcada por grandes avanços culturais, artísticos e científicos. Foi um período de alegria, com muitas festas, muita liberação e muito sexo, quase uma jornada hedonista!

Agora estamos passando por uma pandemia, que já matou quase 2 milhões de pessoas no mundo, 200 mil só no Brasil, e continua implacável. A Covid-19 colocou o mundo de joelhos, provocando muita dor, de diferentes maneiras, mudando nossas vidas.

Será que, quando ela passar, viveremos novamente um período de euforia desmedida? O que podemos aprender com os “Loucos Anos 20” da época do charleston e do jazz?


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Os “Loucos Anos 20” –ou os “Roaring Twenties”, como eram chamados nos Estados Unidos– foram uma reação, quase uma libertação das tristezas e das restrições causadas pela Gripe Espanhola e pela Primeira Guerra Mundial.

Na Europa, especialmente Paris (que virou o centro do mundo), em Berlim e em Londres, a alta sociedade e os intelectuais se misturavam ao som do can-can nos cabarés e outros ambientes efervescentes em ideias modernistas. Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, o charleston animava festas imensas, regadas a bebida, drogas e sexo. Isso mesmo em um país onde vigorava a Lei Seca, que proibia a fabricação, venda e transporte de bebidas alcoólicas.

Foi nessa época também que surgiu o jazz. Com seus improvisos e suas influências africanas, nasceu em Nova Orleans e ganhou a América, influenciando a música ocidental.

Tudo parecia possível graças à tecnologia, especialmente os automóveis, as imagens em movimento e o rádio. Houve grande popularização do cinema, cuja grande estrela da época foi Charlie Chaplin. Os filmes deixaram de ser um interesse para aficionados para ganhar as massas e levar milhões às salas de exibição. Eles ainda eram em preto e branco e mudos, por isso as salas tinham espaço para uma pequena orquestra ou pelo menos um piano. Os desenhos animados também se popularizaram, com O Gato Felix sendo lançado em 1919, e Mickey Mouse, no curta “Steamboat Willie”, em 1928.

Os “Loucos Anos 20” também foram um grande momento de avanço para as mulheres. Elas deixaram seus espartilhos para trás e passaram a usar vestidos decotados e na altura dos joelhos. Com cabelos curtos, lábios vermelhos, pálpebras escuras, lançaram um novo estilo, que ficou conhecido como “melindrosas” –ou “flappers” em inglês.

A sua libertação foi muito além! Passaram a fumar em público, a dirigir e a ir à praia de maiô inteiriço, além de conversar livremente sobre sexo, atitudes que escandalizaram os conservadores da época. Em alguns países, como os Estados Unidos, foi quando as mulheres também começaram a votar.

 

Os novos “Loucos Anos 20”

Será mesmo que caminharemos para uma nova versão dos “Loucos Anos 20”, quando a epidemia estiver controlada e a economia do mundo recuperada?

Alguns especialistas acreditam que sim. Nicholas Christakis, professor na Universidade de Yale (EUA) é um deles. Ele lançou recentemente o livro “A Flecha de Apolo”, em que debate justamente a vida durante a pandemia e o que pode vir depois dela.

Segundo o pesquisador, essa não é a primeira grande pandemia que a humanidade tem que enfrentar, apenas a primeira que nós estamos vivendo. Ele explica que, durante as epidemias, verifica-se o aumento na religiosidade, as pessoas economizam dinheiro e ficam avessas ao risco. Quando a ameaça acaba, há uma reação natural de resgate do que foi perdido, com todo mundo buscando experiências sociais.

Christakis afirma que isso vai acontecer de novo agora com a Covid-19. Com os países iniciando a vacinação em massa em 2021, a doença deve estar controlada no ano que vem, e a economia recuperada, segundo ele, em 2024, quando teríamos os “Loucos Anos 20” do século XXI.

Naturalmente o mundo de hoje é muito diferente do que era há um século. E, dentro do que estamos discutindo aqui, as redes sociais têm um papel determinante, agindo como um catalizador.

Há cem anos, os meios de comunicação tiveram papel fundamental para disseminar aquele estilo de vida frenético, principalmente o rádio, os jornais e o cinema. Agora, com o meio digital, tudo acontece de maneira mais rápida e mais intensa.

Muita gente, aliás, parece já estar no espírito dos “Loucos Anos 20”.

A atual pandemia é muito menos devastadora que a Gripe Espanhola, que durou de janeiro de 1918 a dezembro de 1920. Estima-se que o vírus H1N1 tenha infectado, naqueles três anos, 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época.

Não se sabe exatamente quantas pessoas morreram vítimas dele. Os números mais conservadores são de 17 milhões, mas a cifra poder ter chegado a incríveis 100 milhões de mortos. Até o presidente brasileiro da época, Rodrigues Alves, pegou a doença e morreu.

Agora, apesar de a Covid-19 ter travado o mundo, a situação é menos grave, graças aos avanços da ciência e do papel dos meios de comunicação em conscientizar as pessoas. Vale dizer ainda que a tecnologia digital diminuiu –e muito– os estragos na economia, pois muitos negócios continuaram funcionando, mesmo com o distanciamento social.

Também não tivemos recentemente uma guerra absurdamente devastadora, com a Primeira Guerra Mundial, que durou de julho de 1914 a novembro de 1918., matando quase 18 milhões de pessoas, entre civis e militares. Por outro lado, temos a violência disseminada em nossas cidades, deixando os cidadãos em constante estado de alerta.

Não é de se estanhar, portanto, a grande euforia que sucedeu à peste e à guerra, com grandes avanços na cultura, na ciência e nos costumes do século passado.

Apenas para acrescentar alguns feitos além do que já foi dito, na medicina, o médico escocês Alexander Fleming descobriu, em 1928, a penicilina, inaugurando a era dos antibióticos, que salvam incontáveis vidas desde então. O psiquiatra austríaco Sigmund Freud lançou as bases da psicanálise.

Surgiram também os movimentos artísticos, como o dadaísmo, de Marcel Duchamp e, o surrealismo, de Salvador Dalí. Também floresceram, nesses anos, grandes nomes como Joan Miró e Pablo Picasso. No Brasil, em 1922, aconteceu a Semana de Arte Moderna, que levou ao Theatro Municipal de São Paulo artistas plásticos, arquitetos, escritores, compositores e intérpretes, os quais foram recebidos, ao mesmo tempo, com aplausos e vaias.

 

Aprendendo com os erros

Mas nem tudo foram flores. Precisamos aprender com o que deu errado, para não repetir um dos períodos mais negros da humanidade, que sucedeu essa época dourada.

A euforia desmedida terminou na chamada “Grande Depressão”. No final de 1929, os Estados Unidos entraram e profunda crise econômica, com a “quebra” da sua Bolsa de Valores, o que provocou inúmeras falências, desemprego gigantesco e muita miséria.

A reboque disso, houve um aumento da intolerância e da xenofobia, além de uma “caça às bruxas” de movimentos conservadores. Isso culminou com o surgimento da Ku Klux Klan, organização racista que pregava a supremacia de brancos e protestantes.

Na Europa, a crise abriu o caminho para o surgimento de aventureiros políticos nacionalistas, que criaram Estados totalitários e ultraconservadores. Seus maiores expoentes foram o nazismo alemão, liderado por Adolf Hitler, e o fascismo italiano, de Benito Mussolini. E, como se sabe, isso tudo deu na Segunda Guerra Mundial, o conflito mais sangrento da história.

Portanto, sim, é possível que estejamos prestar a entrar em novos “Loucos Anos 20”. Talvez mereçamos mesmo essa alegria, depois de tanto sofrimento.

Mas ainda não chegamos lá: temos um caminho a seguir. A pandemia está longe de acabar, especialmente aqui no Brasil, onde sequer começamos a vacinação.

Há uma poesia do genial Carlos Drummond de Andrade, que é muito apropriada a isso tudo. Ela se chama “Receita de Ano Novo”, e termina com a seguinte estrofe:

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

 

Portanto, vamos gozar dos nossos “Loucos Anos 20”. Mas temos que, antes, fazer por merecer isso.

 

Por que ainda temos chefes tóxicos

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Que tipo de chefe você tem? Ou que tipo de chefe você é?

Muito se discute sobre a diferença entre um simples chefe e um verdadeiro líder: você já deve ter lido incontáveis artigos sobre o tema.

Infelizmente, nessa pandemia, vimos várias histórias de chefes tóxicos que abusaram de sua posição com seus subordinados em home office. Justamente em um período de grande angústia pela transformação digital forçada e sem planejamento.

Mas uma pesquisa da Fundação Instituto de Administração (FIA) divulgada no mês passado traz um alento sobre as chefias brasileiras. Segundo o levantamento feito com cerca de 150 mil profissionais de mais de 300 empresas de diferentes portes e segmentos no país, os chefes brasileiros são “inspiradores”, “educadores” e “democráticos”.

Se isso já era importante antes, agora, com muitas equipes trabalhando em maneira distribuída, pode significar a diferença entre um time eficiente, entrosado e feliz, e um grupo de pessoas que não conseguem produzir juntas.


Veja esse artigo em vídeo:


Mas o que faz um chefe ser um verdadeiro líder? Por que não temos mais pessoas assim?

Não são só as crianças que aprendem com o exemplo: nós também! No ambiente corporativo, esse exemplo vem do chefe. Infelizmente também podemos aprender coisas ruins com um chefe tóxico.

A função do chefe é coordenar o trabalho de seus funcionários para atingir os objetivos da empresa. Portanto, quando se é subordinado, você é avaliado pela sua performance individual. Quando se é chefe, você é avaliado pela performance da equipe.

Entretanto, a maioria das pessoas assume uma posição de chefia sem ter sido preparada para isso. E daí passa a usar a máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Nada poderia estar mais errado!

E eu posso confirmar isso pela minha experiência pessoal como subordinado e como líder.

Ao longo da minha carreira, trabalhei para empresas bem diferentes, de várias nacionalidades. Tive a alegria de ter ótimos líderes e o desprazer de ter chefes ruins, felizmente mais do primeiro grupo. E posso afirmar categoricamente que os meus resultados e os das empresas como um todo eram muito melhores quando existia uma boa liderança.

Sabe aquela história da diferença entre o chefe e o líder?

O chefe é o que segue a máxima acima. Ele suga o trabalho de seus subordinados, como um parasita corporativo. Nesse cenário, apenas ele cresce, pois não dá visibilidade à equipe.

Essa é uma visão míope desse chefe e do chefe dele, que não percebe o mau instalado ali. Nessa gestão, o funcionário não oferece o melhor que tem. Adquire uma postura reativa de fazer só o que lhe mandam. Ele se desenvolve pouco e, caso acabe sendo chefe um dia, possivelmente repetirá esse padrão, criando um círculo vicioso em que todos perdem.

 

Os tipos de chefes

A pesquisa “FIA Employee Experience”, realizada há 40 anos, comprova que as empresas com melhores resultados são aquelas que têm verdadeiros líderes nas chefias.

Os dados foram coletados em uma pergunta de múltipla escolha. O chefe “inspirador”, aquele que inspira os funcionários e a equipe confia nele, aparece em 26% dos casos. Já 17% dos chefes foram considerados “educadores”, que se focam principalmente em desenvolver a equipe. Os “democráticos”, que consideram a opinião de todos nas decisões, representam 15% das chefias. Todos esses são considerados estilos positivos, somando 58% das lideranças das empresas pesquisadas.

Na ponta oposta, 9% dos chefes foram classificados como “coercitivos”, aqueles que são considerados autoritários e que não ouvem seus subordinados.

No meio do caminho, há ainda dois perfis considerados neutros. O primeiro são os “maternais”, que, segundo a pesquisa, colocam as pessoas em primeiro lugar e evitam conflitos. E, por fim, os “direcionadores”, que têm alto desempenho e cobram o mesmo de sua equipe, pressionando por metas. Cada um apareceu em 10% das respostas.

Os 13% restantes dos respondentes preferiram não classificar o estilo das suas lideranças.

Pode-se argumentar que as empresas que participam desse tipo de pesquisa, que é totalmente voluntária, de alguma maneira se preocupam com o bem estar de seus funcionários e prestam atenção no desempenho de suas lideranças. E isso pode fazer com que tenhamos mais bons resultados que a média de todas as empresas do país, que infelizmente estão longe disso.

Esse é um bom ponto. Entretanto, não desmerece suas conclusões que correlacionam boas chefias com alta performance das equipes e bons resultados do negócio.

Eu já tive o prazer de trabalhar em uma empresa que foi considerada, no ano 2000, uma das melhores para se trabalhar no Brasil: a America Online. Vale dizer que ela chegou a ser considerada a melhor empresa para se trabalhar nos Estados Unidos, na época. Era praticamente uma unanimidade que aquele foi o melhor trabalho da vida de quem passou pela AOL, especialmente a primeira turma, que ajudou a trazer o negócio para o Brasil.

Não era só pela empresa, que oferecia excelentes condições de trabalho e um pacote de benefícios atraente. O principal motivo eram as chefias, que se enquadravam perfeitamente nos papeis de “educadores”, “democráticos” e principalmente “inspiradores”. Era uma corrente de energia positiva que fazia com que os funcionários fossem todos os dias para a empresa com vontade de criar um mundo melhor a partir do resultado de suas atividades.

Quem não quer trabalhar em um lugar assim?

Foi lá que eu tive a líder mais inspiradora de minha vida, que me permitiu conhecer a sua história e descobrir que ela era daquele jeito porque também tinha sido inspirada anteriormente. Foi lá também que tive o meu líder mais democrático, uma pessoa incrível que fazia com que todos oferecessem o seu melhor, ao colocar a equipe no centro das decisões, uma pessoa muito querida que a Covid-19 levou embora há três semanas. Isso nos deixou todos em choque, porque, 15 anos depois daquele trabalho, ainda o queríamos muito bem.

 

As vantagens de um “trem da alegria”

Os exemplos desses e de outros bons líderes que tive me ensinaram como conduzir uma equipe.

Quero que quem trabalhe comigo produza não porque tem medo ou porque está sendo pressionado. Não quero que trabalhem apenas por causa do salário no fim do mês. Para mim, é importante que façam algo que seja importante para si e para a sociedade, que entendam qual é seu papel no negócio e por que são fundamentais para a equipe. Quero que compartilhem comigo seus pensamentos, mesmo os que não forem agradáveis, pois tudo isso é necessário para o conjunto melhorar.

Quando eu finalmente estive do outro lado da mesa, comandando equipes pequenas ou grandes, pude fazer isso. Em todos os casos, eu colhi os resultados esperados.

Eu me lembro de uma colega me dizendo certa vez: “você é a pessoa mais democrática que eu conheço”. Não sei se era para ser um elogio, mas nunca mais esqueci daquela singela frase.

Mas nem todos gostam desse meu estilo. Principalmente nas empresas mais “quadradas” em que trabalhei, isso às vezes era mal visto. Em uma ocasião, um outro diretor veio conversar comigo, na verdade, fazer uma reclamação velada, que meu departamento era um “trem da alegria”, que as pessoas trabalhavam rindo e se divertindo. Eu perguntei por que aquilo o incomodava, se estávamos dando um excelente resultado.

E aí é que está: chefes coercitivos, autoritários não conseguem lidar com uma equipe com autonomia, que trabalha sua liberdade com inteligência, entregando o que deve, sem que alguém os esteja pressionando. Não é de se estranhar que essa empresa, que construiu uma posição de liderança em seu segmento ao longo de décadas, não resistiu aos novos tempos e acabou sendo vendida.

Por isso, salvo talvez entre militares, aquela história de “manda quem pode, obedece quem tem juízo” não tem mais espaço.

As empresas com um futuro brilhante são aquelas que preparam seus funcionários para exercer suas funções com autonomia, eficiência e prazer. Isso não é um “trem da alegria”: ninguém está brincando em serviço, muito pelo contrário!

Esse é o caminho para termos menos chefes coercitivos e mais líderes inspiradores.

Já dá para voltar às salas de aula?

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Já dá para voltar para a escola ou é melhor continuar estudando em casa?

Um dos setores que enfrenta mais dúvidas para retomar suas atividades diante da pandemia de Covid-19 é a educação. De um lado, há o alto risco de contaminação de estudantes e de professores, que podem levar a doença para dentro de suas casas. Do outro, os inegáveis prejuízos no aprendizado e até na formação dos alunos, especialmente entre os mais jovens. Há também a pressão de escolas particulares pela reabertura, temendo que ainda mais clientes cancelem suas matrículas.

Em paralelo, corre outra discussão: a tecnologia dá conta de suprir as demandas de aprendizagem, para que as aulas em casa sejam eficientes?


Veja esse artigo em vídeo:


No meio de toda essa indefinição, muitas cidades reabriram suas escolas públicas e privadas já há várias semanas, enquanto outras ainda resistem. É o caso da maior cidade do país, São Paulo, que autorizou a volta apenas de alunos do Ensino Superior no dia 7 de outubro. Os Ensinos Infantil, Fundamental e Médio voltam nesse dia apenas com atividades extracurriculares opcionais.

Aula mesmo, ainda não se sabe quando. No dia 3 de novembro, será apresentada uma nova posição do município, com base na evolução da pandemia.

E se não voltar?

A tecnologia desponta em um papel central para solucionar esse problema. Mas, como tudo nessa vida, há um jeito certo e um jeito errado de se usar esse recurso.

Algumas coisas precisam ser levadas em consideração, e muitas delas vêm antes da própria tecnologia. A primeira é que a dificuldade de um aluno se concentrar em uma aula online é tão maior, quanto mais jovem ele for.

O ensino à distância pode ser excelente, mas exige muita dedicação do estudante. Por isso, ele tende a funcionar muito bem para o Ensino Superior, e mal para os Ensinos Infantil e Fundamental. As crianças normalmente se dispersam das atividades na tela, o que tem exigido muito de pais e mães para acompanhá-los nas aulas. E, depois de sete meses de distanciamento social, muitos desistiram dessa tarefa.

Além disso, a maioria dos alunos, incluindo muito de escolas particulares, não tem a infraestrutura necessária para estudar em casa. Falta uma boa conexão de Internet, para começar. Ela precisa ter uma boa velocidade e não ser limitada. Mas a maioria dos domicílios brasileiros não tem isso, com a Internet restrita aos planos para smartphones, que são lentos e com uma franquia de dados que acaba rapidamente. Sem falar que muitos simplesmente não têm conexão alguma.

Algumas instituições estão dando chips de celular com plano de dados para estudantes de baixa renda, o que é uma iniciativa muito bem-vinda. Mas infelizmente isso é um privilégio para poucos.

Vale dizer também que a experiência de aprendizagem fica muito melhor em uma tela grande, como a de um tablet e principalmente a de um computador. Só que, segundo o relatório PNAD Contínua do IBGE, apenas 48,1% dos domicílios brasileiros com Internet tinham um computador em 2018. E essa porcentagem vem caindo: em 2017, eram 52,4%. O uso dos tablets também diminuiu: de 15,5% em 2017 para 13,4% em 2018. Já os smartphones crescem, passando de 98,7% dos domicílios em 2017 para 99,2% em 2018. Ou seja, praticamente todos os domicílios brasileiros com Internet têm celulares, sendo que, em 45,5% dos casos, é a única forma de conexão.

Mas calma: nem tudo são notícias ruins!

Quando e como a tecnologia ajuda

Apesar de todas essas dificuldades, coisas muito interessantes surgiram desse processo de transformação digital acelerado.

Sou especializado na criação de conteúdo digital e acompanho a evolução do mercado de educação à distância há 15 anos e de mídia digital desde seu dia zero, há 25 anos. Desde o início da pandemia, em março, ministrei cerca de 350 horas de aulas em salas digitais, e cerca de 30 horas de palestras também online. E os resultados têm sido muito bons!

Por que dá certo para alguns e errado para outros?

Temos que entender que o meio digital pode ser uma ferramenta incrível, mas ela nunca pode substituir os conceitos básicos de uma boa educação e nem o professor. Por exemplo, a aula que eu dou online é a mesma que eu ministro presencialmente: nenhum conteúdo fica de fora!

Por mais que as íntegras das aulas sejam gravadas, elas são dadas ao vivo, e os alunos participam na hora marcada da aula, pois a sua experiência fica muito melhor assim. Os alunos fazem suas perguntas e debatem livremente, por voz, exatamente como em uma sala de aula presencial.

Aliás, a quantidade de alunos por sala também é a mesma de um curso no prédio da escola, limitado a 30, no máximo 40 alunos. Isso me permite conhecer cada um deles! Se tiver mais gente, abre-se uma nova turma, com horário próprio. Como as gravações incluem todas as interações com os alunos, elas só servem para aquela turma, não sendo reaproveitadas para outras.

É a mesma experiência que teríamos se estivéssemos em sala de aula? Claro que não! Eu mesmo sinto falta de estar na sala com meus alunos. Sou uma pessoa cinestésica e sei das perdas.

Por outro lado, sei também que há ganhos, muitos associados à vida moderna. Por exemplo, não é necessário gastar um tempo enorme no trânsito para se chegar à escola. Aliás, se não for possível chegar na hora, não tem problema: a aula não será perdida, pois ela fica gravada.

Além disso, meus alunos agora não ficam restritos a São Paulo. Nesse período, cheguei a ter uma aluna que assistia às aulas ao vivo de Dubai (Emirados Árabes Unidos), mesmo estando cinco horas a nossa frente. Ou seja, ela ficava, por iniciativa própria, acordada de madrugada para participar ao vivo das aulas, que aconteciam das 19h às 22h (hora de Brasília). Sem falar de muitos alunos do interior de São Paulo e de muitos Estados brasileiros, que agora podem se matricular nos cursos.

Posso garantir que todos os objetivos de aprendizagem são atingidos nessas aulas à distância. Os alunos aprendem tudo que aprenderiam presencialmente.

Muitas coisas são necessárias para esse sucesso. Primeiramente, os alunos são todos adultos. Portanto, eles estão assistindo aula porque querem, e estão pagando por isso. Eles têm a disciplina para cumprir as exigências do curso.

Além disso, eu tenho o privilégio de ministrar aulas em instituições sérias que se preocupam com a qualidade do ensino. E aqui cito nominalmente a PUC de São Paulo, a Universidade Presbiteriana Mackenzie e a ESPM, onde estou dando aulas nesse período de pandemia. Todas elas proporcionaram o que eu disse acima. Ofereceram a estrutura necessária para a viabilização dos cursos e respeitaram alunos e professores nesse momento de transformação.

Por outro lado, vejo com muita tristeza outras instituições, que não vou citar seus nomes aqui, fazendo mudanças inaceitáveis! Por exemplo, salas de aula que antes tinham 30 alunos agora passam a ter 500! Elas agrupam todas as turmas de uma mesma disciplina, de diferentes campi, às vezes de diferentes cursos, colocando todo mundo em um “saco” só, com um único professor. E daí dispensaram os professores que “sobraram”.

Que atenção esses professores podem dar aos 500 alunos? Que interação pode acontecer nessas aulas?

Há casos de professores que foram demitidos por um pop-up que apareceu em sua tela, quando tentaram entrar na plataforma da universidade para dar uma aula. Há ainda casos de provas dissertativas sendo corrigidas por robôs. A despeito dos avanços da inteligência artificial, qual a garantia que os alunos têm de uma avaliação justa nesses casos?

Que nível de ensino essas instituições estão oferecendo a seus alunos? E que falta de respeito com seus profissionais é essa? Isso é obsceno, e essas escolas deveriam se envergonhar por se dizer instituições de ensino.

A educação é essencial para que o Brasil avance! Muitos dos problemas de nossa sociedade seriam resolvidos se tivéssemos uma população mais bem educada, no sentido amplo da palavra.

A tecnologia é uma ferramenta magnífica para melhorarmos a educação. Mas ela deve ser usada exatamente para isso: para melhorar a educação, e não para piorar a experiência de alunos e de professoras.

Por isso, escolha bem onde você vai estudar. E estude!

Qual será o nosso legado?

By | Educação | No Comments

Há alguns dias, estava ouvindo uma playlist chamada “Brasil anos 1960”. Ela era fortemente dominada pela Bossa Nova. Fiquei pensando: “será que a Bossa Nova surgiria em um mundo como o que vivemos hoje?”

Pouquíssimo provável!

Então por qual música e outras formas de arte que as futuras gerações nos conhecerão? Mais que isso: o que estamos construindo, qual será nosso legado –muito além das artes? Afinal, o que fazemos hoje pavimenta a estrada de nossas vidas. E todas as pessoas influenciam pelo menos quem está a sua volta. Não precisamos ser artistas!


Veja esse artigo em vídeo:


Poucas coisas retratam tão bem um povo quanto sua arte. Na verdade, podemos contar a história de uma civilização a partir dela.

A Bossa Nova surgiu na Zona Sul do Rio de Janeiro, no final dos anos 1950, evoluindo do samba e com inspiração do jazz. Foi criada por universitários de classe média, e suas letras traziam temas descompromissados de seu cotidiano, influenciado por um momento de urbanização e desenvolvimentismo brasileiro.

Aquilo representava a realidade brasileira, pelo menos a daquele estrato da população. Era muito diferente, por exemplo, do rock inglês dos Beatles, que surgiu mais ou menos na mesma época, mas em uma realidade social completamente diferente.

Era um mundo incrivelmente mais simples que o de hoje! A vida passava de uma maneira muito mais lenta. Os “mocinhos” e os “vilões” eram claramente conhecidos. Cada um desempenhava seu papel como indivíduo e como cidadão.

Não é de se estranhar que a Bossa Nova, como movimento, desapareceria um ano após o golpe militar no Brasil. Afinal, aquele mundo de cores em tons pastéis das tardinhas deu lugar ao verde oliva e ao cinza chumbo.

Foi quando surgiu a MPB, que incluía temas mais politizados em suas composições. E não podia ser diferente!

O dramaturgo irlandês Oscar Wilde escreveu que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida’. De fato, a vida e a arte são interdependentes. Daí olho para o nosso mundo atual e me pergunto que elementos a vida atual oferece para a arte.

A pandemia de Covid-19 certamente já marcou a humanidade, assim como outras grandes crises sanitárias no passado, como a Gripe Espanhola. Seria capaz de apostar que, nos próximos anos, teremos muitos filmes e livros com histórias reais e de ficção a partir dessa tragédia global.

Mas há muito mais que define o mundo atual, de maneira mais determinante que a pandemia. Coisas que surgiram bem antes dela e que vão durar muito além dela: os smartphones, as redes sociais, os buscadores, a digitalização dos negócios e da nossa própria vida, por exemplo. Todos são coisas incríveis, que nos trouxeram grandes benefícios.

Mas temos também coisas terríveis, que surgiram a partir delas, por causa do mau uso desses recursos e da manipulação das pessoas por grupos inescrupulosos: a polarização política e ideológica extrema, as fake news, o roubo de dados e de identidades, a ditadura do ódio, a ideia de “cancelamento” de pessoas.

Futuro ou presente distópico?

Ao associar o mundo atual à arte, é inevitável pensar no romance “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”, do escritor britânico George Orwell, publicado em 1949. Cada vez mais acho que o mundo se parece conceitualmente ao Estado totalitário representado na obra, controlado pela figura do Grande Irmão, o Big Brother.

Teremos que esperar os artistas nos contarem suas visões desse momento. Entretanto, algumas iniciativas embrionárias já são reflexo disso e podem indicar caminhos que permanecerão além da pandemia.

Por exemplo, as superlives substituindo shows ao vivo. Acredito que, quando os shows estiverem novamente liberados, veremos os dois formatos coexistindo, cada um oferecendo uma experiência diferentes e complementares entre si. Começo a ver também a teledramaturgia produzindo material em que os artistas atuam dentro de suas próprias casas, com um resultado muito interessante.

Mas nós também podemos participar da construção desse legado, mesmo sem sermos artistas! Graças justamente ao meio digital, todos nós nos tornamos produtores de conteúdo. Todos nós viramos mídia e todos nós agora somos uma marca. Isso não é um exagero ou um abuso de linguagem.

No momento em que publicamos uma singela foto no Instagram, nós somos produtores de um conteúdo que potencialmente pode atingir milhares de pessoas em qualquer lugar do planeta. E esse conteúdo pode influenciar, de alguma maneira, cada uma dessas pessoas.

Portanto, temos que fazer isso com responsabilidade, mas sem que se torne um fardo. Esse é um poder que apareceu apenas quando os smartphones se popularizaram, pois eles são a nossa principal ferramenta de produção, enquanto as redes sociais são os principais espaços de troca.

Ou seja, estamos falando de pouco mais de uma década. Antes disso, em toda a história da humanidade, isso não era possível. Tanto que, em 2014, o especialista em marketing digital americano Mark Schaefer cunhou a expressão “choque de conteúdo”, que prevê que a humanidade literalmente produz mais conteúdo que é capaz de consumir.

Nosso papel para diminuir essa realidade autodestrutiva em que estamos é fazer a roda do desenvolvimento voltar a girar para frente, ao invés do movimento retrógrado atual.

Mesmo não sendo artistas, nossas publicações, até as mais singelas, influenciam muita gente. Temos, portanto, que barrar as ideias que visam a desunião social, a manutenção de interesses mesquinhos e egoístas, a disseminação do ódio, a destruição de quem pensa diferentemente, apenas por pensar assim.

A humanidade sempre se desenvolveu mais e melhor em torno de ideias que visavam o bem comum. Apenas conseguimos construir algo com quem está a nossa volta, combinando esforços e habilidades, quando confiamos no outro, e não quando o vemos como um inimigo.

Temos que usar esse incrível poder que a tecnologia nos concedeu para despertar bons sentimentos para que trabalhemos e nos desenvolvamos juntos. Portanto, lembre-se disso quando estiver nas redes sociais. Não curta e muito menos compartilhe conteúdos de pessoas e de grupos que pregam a supremacia de suas ideias, a desunião, o ódio. Ignore-os, deixe-os falando sozinhos! E eles eventualmente pararão de falar. Só continuam seu discurso porque ainda têm plateia.

Ao contrário, valorize quem produz um bom conteúdo, propositivo, construtivo, de união. Além disso, cada um de nós também pode fazer isso em nossas publicações nas mais diferentes redes sociais.

Não temos como reconstruir um “mundo Bossa Nova”, pois aquilo só existiu dentro de um contexto que não pode ser refeito. Mas não podemos sequer pensar em um mundo de “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” ou do que vivemos na época da ditadura militar. A sociedade está nesse ciclo de autodestruição por ter adotado alguns dos elementos desses momentos sombrios.

É hora de reverter isso e pôr a roda a girar para a frente de novo!

Que diferença um dia faz

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Quando todos a sua volta estão perdendo a cabeça, é hora de você manter-se centrado e deixar a sua humanidade transparecer!

Tradicionalmente falo aqui de técnicas de marketing e de transformação digital. Muito mais poderoso que isso é, entretanto, demonstrar sua empatia e a sua sensibilidade com as pessoas a sua volta, especialmente em um momento de crise, como a que estamos passando. Essa é uma crise diferente das outras, pois não é apenas econômica ou política: ela é tudo isso, mas também é um seríssimo momento de ruptura na saúde das pessoas, que pede até que fiquem em casa para se proteger de um inimigo invisível.


Veja esse artigo em vídeo, com música para entender ainda mais:


O resultado disso é um desequilíbrio emocional na sociedade, inclusive em nossos clientes. O problema é que nós também somos afetados por esses sentimentos. Precisamos nos recompor e organizar nossas ideias para demonstrarmos empatia verdadeira com o outro. Isso cria um poderoso vínculo entre nós, que certamente renderá bons frutos a todos.

Essa reflexão começou com o  belíssimo comercial do WhatsApp para o Dia das Mães, embalado pela música “What a Difference a Day Makes”. Eu adoro essa canção, que conheci quando eu ainda era criança, em uma em uma versão apenas instrumental, com o trompete de Billy Butterfield e a orquestra de Ray Conniff.

Bom, mas por que eu estou contando tudo isso?

Porque há muitos anos, no início da minha carreira, eu estava no hotel Maksoud Plaza, para onde eu tinha ido para participar de uma coletiva de imprensa, quando encontrei no elevador, totalmente ao acaso, o próprio Ray Conniff, com seus impecáveis cabelo, barba e terno brancos.

Depois de ficar olhando para ele por alguns segundos tentando lembrar de onde eu conhecia aquela figura, exclamei: “Ray Conniff?” E apesar de nossa conversa ter durado apenas o tempo do elevador, ele foi bastante simpático com essa fã inesperado.

Precisamos aprender a fazer isso!

Temos que entender que o nosso sucesso depende de mais que atender bem nosso cliente, nosso público, nosso fã: a gente precisa demonstrar a nossa humanidade com ele, aprender a se colocar no lugar dele. E estamos passando por um momento em que isso está importante demais, com tudo que a pandemia do novo coronavírus está provocando.

Não pense que é só você que pode estar angustiado! Essa crise impactou todo mundo, de um jeito ou de outro: está tudo fora do lugar!

Pergunte a você mesmo: o que você pode fazer para ajudar as pessoas com quem você se relaciona?

Sei que está todo mundo tentando se reinventar ou pelo menos encontrar maneiras de garantir as suas receitas. O medo de seu negócio quebrar ou de perder o emprego durando tanto tempo é terrível! Nessas horas, entramos em um modo de “luta pela sobrevivência”, em que algumas coisas acabam sendo sacrificadas sem percebermos. Ficamos muito fechados em nós mesmos.

Só que, nessas horas, deveríamos fazer exatamente o contrário! Temos que nos abrir para o mundo, prestar atenção ao outro, resgatar o que temos de melhor dentro de nós!

Se estamos querendo garantir nosso emprego, manter nosso negócio funcionando, temos que nos fixar nas necessidades do cliente, e encontrar uma maneira de atendê-las.

Aí entra a transformação, que pode ser digital ou não. Pode ser com elementos que passem a sensação de segurança e higiene, como uso de máscaras pela equipe, oferta de álcool em gel, manter o ambiente limpo, arejado e com pouca gente. Pode ser com comunicações criativas que identifiquem as necessidades de cada um e entregue, pelos meios digitais, ofertas que realmente sejam úteis para cada pessoa, individualmente. Pode ser por demonstrar uma preocupação genuína com a segurança de sua equipe, oferecendo-lhes todas as condições para que possam continuar realizando suas tarefas com segurança, seja na casa de cada um ou no local de trabalho, se assim for necessário.

Acima de tudo, precisamos deixar claro que não estamos preocupados apenas conosco, e sim com todos. Afinal, essa crise só vai passar quando ela passar para todo mundo. Cada um de nós pode contribuir com isso de alguma maneira.

Entre as habilidades que estão sendo mais valorizadas agora, e que serão ainda mais valorizadas quando tudo voltar “ao normal”, estão a adaptabilidade, a resiliência e a empatia. E vale dizer que empatia não é a mesma coisa que simpatia.

Simpatia é você querer ser legal com o outro, o que não é ruim. Mas isso gera desconexão, pois você não quer, de verdade, se envolver com os problemas da pessoa. Já a empatia gera conexão. Você está verdadeiramente querendo entender e atender o outro. E, mesmo que você não saiba ainda como, você está ali, junto, genuinamente.

Fico olhando à minha volta, para o comportamento das pessoas, inclusive de muitas lideranças políticas e empresariais, e vejo que estamos muito, muito mal nisso! As pessoas estão querendo garantir o delas, e o resto que se lasque! Na verdade, é pior que isso: há aqueles que usam os outros para atingir as suas necessidades, mesmo que isso coloque em risco as pessoas.

Isso é desumano!

Que sociedade é essa que estamos construindo, que vamos deixar para nossos filhos? Se essa pergunta não for suficiente para sensibilizar o discurso, reforço que isso também é negócio! As pessoas estão de olho nisso tudo, e, cada vez mais, compram de marcas que apresentam valores humanizados, que demonstrem transparência e preocupação com a sociedade.

Carl Jung, criador da psicologia analítica, disse certa vez: “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Por mais que ele tenha dito isso no contexto da psicologia, a frase é de um brilhantismo ímpar, e pode ser aplicado a virtualmente qualquer área.

Em outras palavras, não adianta nada você ter uma empresa azeitada, modelo de negócios bacana, a melhor tecnologia, se você não consegue tocar o seu público. E tem que fazer isso como disse o Jung: “sendo uma alma humana”, principalmente quando as pessoas mais precisam de você, como agora.

Vamos juntos construir uma sociedade mais humana! Esse é o convite que eu faço a vocês. Talvez até um desafio, mas um desafio do bem.

Como encantar as pessoas quando tudo a sua volta desmorona

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Ser agradável com seu público quando tudo está bem é fácil! Duro é fazer isso quando tudo a sua volta desmorona. Mas não é justamente na crise que encontramos as grandes oportunidades?

Estamos agora em um momento em que parece que tudo a nossa volta está no caos! Por conta da pandemia de Covid-19, vemos o tempo todo histórias de empresas e de profissionais com grandes dificuldades.


Veja esse artigo em vídeo:


A proposta aqui não trata de fazer um marketing barato e oportunista, mas de realmente estar junto com as pessoas em um momento em que todos estão passando por dificuldades.

A parte boa é que, em muitos casos, isso pode ser feito com baixo investimento. O que vale é a transparência e o desejo genuíno de fazer algo pelas pessoas. Valem muito mais os valores.

Seus valores estão sobrevivendo ao distanciamento social??

Não estou querendo “dourar a pílula” ou minimizar as dificuldades que muitas empresas e profissionais estão passando.

Peguemos o caso da Disney, empresa que praticamente é sinônimo de encantar o seu público. Ela foi colocada de joelhos, depois de ser atingida em cheio pela pandemia. Seus parques foram fechados, arrastando milhares de empresas no mundo todo -que compõem sua enorme cadeia- para o fundo. Com os cinemas impedidos de funcionar, todos os filmes que seriam lançados nesse período foram postergados, e as novas produções foram todas interrompidas. Até a ESPN, da qual a Disney é dona de 80%, está sofrendo, com todos os campeonatos esportivos interrompidos.

Sobra basicamente o Disney+, seu serviço de streaming, um setor que explodiu com muita gente em casa (que ainda não chegou ao Brasil, diga-se de passagem). Será que a empresa poderia ter usado esse seu serviço para se manter próximo de seu público de uma maneira criativa?

A Globoplay, concorrente local desse serviço, fez isso. Liberou gratuitamente toda a programação infantil, para ajudar a entreter as crianças em casa. É um gesto pequeno, talvez não o suficiente para encantar, mas é bem-vindo.

A Netflix, outra empresa desse segmento, querida pelos seus clientes, também perdeu a oportunidade de criar algo para encantar. Continuou apenas com as comunicações de sempre. Na verdade, com o aumento do uso da plataforma, até se viu obrigada a piorar um pouco a qualidade da imagem, para preservar a sua banda de transmissão.

Muitos podem perguntar: mas a Netflix, afinal, precisaria ter feito algo?

Não, não precisaria.

Mas -de novo- é um momento que as empresas podem usar para se aproximar positivamente das pessoas. Então, perdeu uma oportunidade de reforçar a sua já ótima imagem.

Tocando os cotovelos

Um exemplo que eu achei interessante foi o do Mercado Livre. A empresa criou várias iniciativas para esse momento. Por exemplo, isenção de multas por inadimplência, mais cuidado com os funcionários, criação de recurso para doações à Cruz Vermelha e até a uma linha de crédito de R$ 600 milhões a empreendedores. Mas do que mais se falou mesmo foi uma iniciativa singela: a mudança temporária de se logo. Passou de um aperto de mãos para toques de cotovelo, uma recomendação da Organização Mundial de Saúde para combater a disseminação do novo coronavírus.

Como disse, é uma questão de valores da empresa, comunicado criativamente ao público. É também um desejo de estar com as pessoas, fazer algo por elas. E não precisa ser uma grande empresa para demonstrar isso. Qualquer um de nós pode, usando a criatividade.

Um caso interessabte são os anônimos que vem encantando quem está a sua volta, fazendo pequenos espetáculos em suas janelas, normalmente músicos. A ideia surgiu espontaneamente na Itália, o primeiro país do Ocidente a ser atingido com força pela pandemia, e que obrigou seus cidadãos a ficarem confinados em casa.

Isso inspirou pessoas em janelas do mundo todo, pois é eficiente, traz conforto, aproxima indivíduos quando muitos estão afastados. E nem custa nada! Esses artistas ganham fãs e públicos inteiros que não tinham!

Outro exemplo interessante que surgiu no meio disso tudo são as chamadas “superlives”, transmissões ao vivo de artistas, que são verdadeiros shows gratuitos feitos normalmente de suas casas. Elas têm arrastado milhões de pessoas que se sentem próximas de seus ídolos de uma maneira inédita. Muitas dessas apresentações ainda têm um aspecto filantrópico, arrecadando fundos para iniciativas no combate ao Covid-19 e suas consequências para as populações.

Uma das primeiras a fazer isso foi a do tenor Andrea Bocelli, que fez uma comovente apresentação na magnifica catedral de Milão, uma cidade duramente atingida pela pandemia, acompanhado apenas por um organista. Outra apresentação internacional muito marcante foi a “live dos sonhos”, organizada por Lady Gaga para homenagear os profissionais da área de saúde e para conscientizar a população dos cuidados necessários. Para isso, reuniu alguns do maiores aristas do cenário pop do mundo todo, para cantarem uma música cada. Resultado: sete horas de uma reunião inédita de artistas!

No Brasil, Gusttavo Lima puxou a fila. Mas quem realmente inovou foi Ivete Sangalo, que fez uma live da sua cozinha, vestida com um pijama. A live ainda contou com a participação do seu marido, lavando a louça, e de seu filho. Para quem é fã da Ivete, esse show foi memorável!

É muito mais criatividade que investimentos. E também um desejo genuíno de querer fazer algo.

Por exemplo, que tal entregar uma máscara para quem comprar um produto seu? Ou mesmo ligar para clientes para saber como estão? Não é para vender algo: é para saber como estão!

Podemos encontrar maneiras de surpreender, de encantar, mesmo no caos.

Temos que ser mais humanos

Outro exemplo singelo vem da pizzaria que fica a uma quadra de casa, de onde sempre peço pizzas. Com tanta gente em casa e restaurantes fechados, eles estão vendendo como nunca! Desde o comecinho da pandemia, os motoboys que fazem a entrega usam máscaras. Além disso, a caixa da pizza vem dentro de um envelope para ser descartado. E, nessa semana, quem veio me entregar a pizza foi um dos pizzaiolos! Ele disse que, como o volume de entregas estava muito grande, os motoboys estavam cuidando dos pedidos mais distantes. E ele veio me entregar, pois era só uma quadra, e não queria me deixar esperando.

Como se vê, pequenas coisas, gestos espontâneos podem ser mercantes.

Sei que, nesse período, todo mundo está tentando encontrar maneiras para se manter vivo, com a cabeça para fora da água, e não julgo ninguém por isso. Mas pode ser mesmo uma tremenda oportunidade de demonstrarmos a nossa humanidade. Não porque vamos vender mais, e sim porque vamos estar mais próximos das pessoas.

Carl Gustav Jung, pai da psicologia analítica, disse certa vez: “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”

Claro que ele disse aquilo em um contexto da Psicologia. Mas a fala pode ser perfeitamente aplicada a tudo hoje.

O que está esperando para criar esse vínculo com seu público?

É hora de se unir, não de desprezar o seu consumidor

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Ao longo do primeiro mês de distanciamento social para tentar conter a disseminação do novo coronavírus, vimos alguns empresários fazendo declarações desastrosas, que provocaram grande prejuízo a imagem de suas companhias. Ainda que tenham sido possivelmente reações espontâneas diante do impacto nos seus negócios, essas falas ofenderam o público, em um momento difícil para todo mundo.

Sim, qualquer um pode ter opinião sobre qualquer coisa. Mas, em um mundo hiperconectado, as palavras têm ainda mais peso. Elas demonstram nossos valores! Só que as pessoas, cada vez mais, compram de empresas cujos valores estejam alinhados aos seus.


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


Entra em cena a “customer experience”, a aclamada experiência do cliente. Ela não sumiu com essa pandemia. Pelo contrário! Ficou ainda mais importante!

A parte boa dessa história é que mais empresas e mais profissionais estão se preocupando com a experiência do cliente. É verdade que, para muita gente, isso é só uma moda. Até embarcam nela, mas sem entender de verdade para que serve, e sem estar tão disposto a mudar a estratégia da empresa e o seu foco, passando da própria companhia para o cliente.

Se antes da pandemia, empresas que não se conectavam verdadeiramente com seus clientes e com a sociedade já vinham tendo dificuldades, sua situação agora ficou ainda mais complicada. Ter um bom produto e um bom preço já não são suficientes para o sucesso. As pessoas hoje compram “a tal da experiência”, que é um grande pacote que -claro- inclui também o produto e o preço. Mas vai muito além disso: ele engloba todo o relacionamento, toda a percepção da pessoa com a marca, mesmo antes de comprar o produto, desde que descobre que a gente existe!

Como eu sempre digo, “customer experience” não é para “ficar bonito na foto”, não é para fazer amigos: é para fazer negócios!

Empresas que oferecem uma experiência superior a seu público conseguem mais clientes, e têm clientes mais fidelizados, que consomem mais! E, como já foi dito, as pessoas compram de empresas cujos valores estejam alinhados aos seus.

E justamente aí chegamos aos maus exemplos citados no começo desse texto.

Uma pesquisa recente da Agência de Bolso analisou centenas de menções em redes sociais sobre a rede de hamburguerias Madero, cujo dono, Junior Durski, deu uma polêmica declaração em março. Ele disse que não poderia fechar seus negócios “por 5.000 ou 7.000 pessoas que vão morrer”. O público reagiu imediatamente, com 63% de menções negativas nas redes! Uma semana depois, a mesma rede demitiu 600 funcionários: as menções negativas saltaram para 67%!

Na mesma época, em um outro caso que não aparece na pesquisa, Alexandre Guerra, sócio da rede de restaurantes Giraffas, ameaçou os próprios funcionários, que estavam em casa por causa das regras de distanciamento social, dizendo que eles deveriam ter mais medo de perder o emprego que do novo coronavírus. A reação nas redes sociais também foi de forte repúdio, com gente pedindo o boicote à marca. Isso fez com que o pai do empresário viesse a público desautorizar o filho e dizer que ele não seria mais membro do conselho, e sequer acionista da empresa.

Em contrapartida, a mesma pesquisa acima trouxe o caso da rede de restaurantes Outback, também da mesma época. Eles doaram ovos de Páscoa, que não seriam vendidos pelo fechamento de seus restaurantes, para mercados de bairro. Dessa forma, buscavam ajudar pequenos varejistas a ter uma renda adicional, nesse momento de dificuldades para todos. Resultado: 74% das menções na rede ao Outback foram positivas! Apenas 5% traziam alguma negatividade.

Em outros casos, vi pessoas reclamando que tiveram a sua Internet sumariamente cortada, porque não conseguiram pagar a conta, devido às dificuldades provocada pelo impacto do distanciamento em negócios.

Cortar Internet nesse momento em que tudo está sendo feito online por muitas pessoas e muitas empresas? Sim, sei que essas empresas podem fazer isso por contrato: afinal, a conta não foi paga. Mas precisavam fazer isso nesse momento? Não poderiam demonstrar um pouco de empatia, alguma flexibilidade? As empresas estão, sim, sendo impactadas por essa crise. Mas as operadoras de telefonia não vão quebrar. Aliás, se tem um negócio que não vai quebrar nesse momento é esse.

O comportamento descrito demonstra uma enorme falta de empatia. Se tivesse feito diferente, poderia ganhar alguém que promovesse a marca, em um segmento cujas empresas normalmente são rejeitadas pelos próprios clientes. Mas, com o que fizeram, só pioraram ainda mais a própria situação!

No caso dos restaurantes acima com declarações infelizes, talvez contem com a memória curta das pessoas, com o fato de que muitos não se importam e que muitos nem souberam do caso. Mas isso é uma roleta russa empresarial! As pessoas têm cada vez mais acesso à informação, e esse tipo ruim se espalha como rastilho de pólvora.

Entendamos de uma vez por todas: o público precisa estar conosco!

O empreendedor pode ter tido uma ideia brilhante e a executado muito bem quando abriu a empresa. Mas o seu negócio só deu certo porque teve uma equipe comprometida e clientes que consumiram seu produto. Se perder qualquer um desses dois, será colocado para fora do mercado. A concorrência está acirrada -na sua porta ou na internet- e está disposta a atender bem esses dois públicos.

Todo negócio tem que dar lucro, claro! Não há nada de errado nisso. Mas qualquer empresa também é uma entidade social: faz parte da sociedade, influencia e é influenciada por ela.

Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, disse há 60 anos: “lucro não é a explicação, causa ou razão de comportamento de negócios e decisões de negócios, mas o teste de sua validade.” Em outras palavras, empresas que só pensam no lucro eventualmente conseguirão isso, porém terão que trabalhar mais para tal. Por outro lado, se a empresa busca verdadeiramente oferecer uma boa experiência a seu público, o trabalho fica melhor e o lucro é uma consequência.

Com distanciamento ou sem distanciamento, temos que entender e aceitar que as coisas já estão diferentes. Temos que nos unir a nossos clientes para encontrar soluções boas para todos. Não adiantar “forçar a amizade” para que tudo seja como antes.

Não será!

Mas podemos nos adaptar! O público coloca da sua parte; a empresa também.

Empatia de todos com todos: precisamos dela para sairmos disso melhores.

A morte da empatia e o fim da humanidade

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A política é uma atividade nobre e necessária, mas não podemos sucumbir à luta pelo poder e matar a nossa capacidade de sermos empáticos, arrastando a nossa humanidade para a escuridão, como vem acontecendo no mundo todo, e muito fortemente no Brasil.

Negar a política é inócuo: ela faz parte da nossa natureza. Quando debatemos aqui, estamos fazendo política, que foi criada para nos organizarmos em sociedade e construirmos algo com nossos semelhantes.


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


Infelizmente, a política também pode se enviesar e criar algo contrário à sua função essencial. Na luta pelo poder, mentimos, roubamos, matamos. E acreditamos em pessoas que fazem isso em seu benefício.

Isso explica o atual cenário, em que aqueles que pensam diferentemente, mesmo quando estão buscando o bem da sociedade, devem ser calados ou até eliminados. Para desgraça geral, isso não vem sendo feito apenas de maneira figurativa.

Os fatos têm me feito pensar muito sobre isso, e já ensaiei alguns debates nas redes para ajudar na compreensão desse fenômeno perverso que estamos vivendo.

Por exemplo, na quarta passada (19), publiquei um post comentando o atual comercial do WhatsApp, uma peça belíssima, que me tocou muito. Ele mostra como o comunicador, que ficou famoso como a ferramenta mais eficiente para disseminar as “fake news”, as infames notícias falsas, também pode ser usado para fazer o bem. Claro, é só uma ferramenta: o bem e o mal vêm de como as pessoas usam esse recurso!

Dois dias depois, fiz outro post comentando um comercial, nesse caso, da companhia aérea Scandinavian Airlines. Outra peça inspiradora e emocionante, que explica que muito do que os escandinavos se orgulham de ter desenvolvido, como a licença paternidade, o movimento pelos direitos das mulheres, o clipe de papel, e muitas outras coisas, são, na verdade, invenções de outros povos. Mas isso não tira o valor da contribuição dos escandinavos, que melhoraram tudo aquilo. Apesar da bela mensagem, grupos conservadores locais não gostaram da peça, por isso atacaram a campanha e a empresa por supostamente estarem “desrespeitando a cultura escandinava”. A agência que criou a peça chegou a receber uma ameaça de bomba!

Honestamente, a opção política de qualquer um diz respeito apenas a si. Mas opção política é muito diferente de negar a verdade, só porque ela incomoda. E, pior, querer impor sua visão de mundo a todos pela força.

Por exemplo, na quinta, assisti estarrecido a um vídeo que viralizou na Internet, que mostrava alguns homens arrastando para longe da água um tubarão que havia encalhado e estava agonizando em Guaratuba, no Paraná. O animal acabou morrendo asfixiado logo depois. Além de não terem chamado especialistas para salvar o animal, ainda o arrastaram para a areia. Quanto sadismo!

Há também o caso da jornalista Patrícia Campos Mello, da “Folha de S.Paulo”, que vem sendo covardemente atacada por autoridades eleitas e hordas que as seguem. Motivo: fazer um trabalho exemplar, mas que vai contra os interesses desses indivíduos. Apesar de ter tudo documentado, de maneira mais que suficiente para desmentir todas as calúnias contra ela, essa turma continua rejeitando os fatos, para continuar a atacando de maneira sórdida!

Sei que, para muitos, a imprensa é como aquele tubarão na praia: se alguém fizer algo de errado e um jornalista descobrir, ele pode “morder”. E deve fazer isso mesmo! Por isso, esse pessoal acredita que jornalista merece “morrer de antemão”!

Mas, se não é perfeita, a imprensa é essencial para fiscalizar o poder político e econômico, impedindo que ele faça o que bem entender. Vale dizer que a imensa maioria do trabalho jornalístico é muito bem feito, essencial para a manutenção da sociedade.

Então, novamente, podemos e devemos ter suas convicções políticas, religiosas, ideológicas. Mas isso não pode fazer com que busquemos a aniquilação dos diferentes a nós.

As diferenças sempre existiram, e somos capazes de conviver em harmonia. Precisamos urgentemente resgatar a nossa capacidade de viver em sociedade de maneira civilizada, de construir com o outro, de demostrar empatia.

Se não fizermos isso logo, pode ser tarde demais e a nossa humanidade terá desaparecido para sempre.


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O pacto brasileiro pela mediocridade

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A atual campanha de um dos mais tradicionais fabricantes de chocolates do país é assustadora: ela premia quem reprova em disciplinas na faculdade! Como diz seu slogan, “bombou, ganhou!”

Normalmente os prêmios vão para quem tem desempenho superior em algo, não insuficiente. Essa iniciativa resolveu ir em sentido contrário. O mais triste é que ela não causa o problema: é mais um sintoma dele!


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


A proposta da campanha é “lutar contra os vilões que te impedem de curtir com seus amigos. E, para começar o ano, escolhemos a reprovação na faculdade como vilã”.

É verdade que pesquisas indicam que um dos motivos que faz as pessoas mais irem para a escola são os amigos, especialmente as crianças. Apesar de isso ser importante para o desenvolvimento infantil, não é a principal função da escola. E certamente não é –ou não deveria ser– o principal motivo de alguém ir para a faculdade.

Mas me chamou muito a atenção chamar a reprovação de “vilã”.

Oras! O “vilão que te impedem de curtir com seus amigos” não é a reprovação. É uma política educacional medíocre, cuja raiz está no sucateamento do ensino desde a ditadura militar, que vem piorando ininterruptamente desde então e que atingiu seu clímax agora.

É uma política educacional que muda a cada governo que assume, eliminando tudo que foi feito antes, seja bom ou ruim, acabando com qualquer chance de consistência pedagógica. É uma política que desestimula, humilha e agora até persegue os professores, que prioriza números ao invés de aprendizagem ou a formação de cidadãos mais alinhados com o mundo em que vivemos.

Talvez a campanha quisesse ser “divertidinha”. Mas isso não pode ser motivo para fazer piada. Nada justifica premiar um desempenho insuficiente. Isso promove a mediocridade, em um país que cada vez menos se busca a excelência acadêmica e em outras áreas.

Isso está em linha com um país que desmoraliza a ciência e joga contra a educação. A piora nessas áreas nos afasta cada vez mais dos países desenvolvidos. Nunca ocuparemos um lugar de protagonismo no mundo fazendo isso. Sempre seremos uma república de bananas! Basta ver métricas importantes, em que continuamos dando vexame e caindo.

No dia 23 de janeiro, por exemplo, o Brasil piorou no relatório de percepção de corrupção da Transparência Internacional, amargando a 106ª posição de um total de 180 países. No dia 3 de dezembro, a OCDE divulgou os resultados do Pisa mais recente, avaliação internacional sobre educação, e o Brasil manteve seu histórico vexatório: ficamos entre os 20% piores países do mundo. No dia 24 de julho, caímos duas posições no Índice Global de Inovação, realizada pela Universidade Cornell, pelo Instituto Europeu de Administração de Empresas e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual: ficamos na 66ª posição, entre 129 países. E hoje somos a 9ª economia do mundo (pelo tamanho do nossos mercado), mas já fomos a 6ª, há apenas uma década.

Todos esses números, por si só, são motivo de grande vergonha. Todos eles estão interligados. Mas nenhum deles é uma surpresa.

Para revertermos esses indicadores, e tantos outros que vamos mal, temos que investir em uma educação de qualidade e que seja verdadeiramente para todos. Uma educação que promova a excelência acadêmica e também habilidades como respeito a diferenças, tolerância e trabalho em equipe.

Há pelo menos 15 anos folclorizamos a educação deficiente, como se a formação acadêmica fosse algo dispensável. Que bastaria ter vontade, ser espontâneo, fazer “o certo” para se dar bem na vida. Em resumo, que estudar é um tanto dispensável, desnecessário. Junto ao jeitinho brasileiro, criamos um outro câncer social no país: a figura do “bom ignorante”.

Haja chocolate para “curar” isso tudo!


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O meio digital pode lhe deprimir ou curar: depende de você

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Vivemos uma corrida para nos destacar nas redes sociais. Alguns fazem isso por trabalho, outros para satisfazer o ego, e há ainda aqueles que simplesmente querem aceitação do seu grupo social, ainda que inconscientemente. Nem sempre as coisas saem como queremos. Em uma sociedade já bastante digitalizada, esse “fracasso” pode gerar tristeza, angústia, ansiedade e até depressão.

Nesse cenário, uma das principais ferramentas para construirmos nossa imagem digital é o que publicamos nas redes. Isso gera uma avalanche de conteúdo, com a qual não conseguimos lidar, aumentando ainda mais os sentimentos acima. Para piorar, as “fake news” aparecem como alternativa, pois, como normalmente têm grande apelo, acabam seduzindo aqueles que não conseguem aparecer com seu próprio conteúdo e, por isso, as espalham.


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


Em uma aula em 2018 com a professor Lucia Santaella, que foi a orientadora do meu mestrado e é uma autoridade internacional em semiótica, ela disse uma coisa que me marcou muito: “As redes sociais não criam nada novo, mas fazem tudo acontecer de maneira mais intensa e em um tempo menor.”

Ou seja, os fatos acontecem no seu ritmo. Mas, com o meio digital, somos bombardeados com uma quantidade enorme e crescente de informações. Antes de assimilarmos uma notícia, já temos que lidar com outras três. E esse volume cresce assim exponencialmente.

Daí vem a ansiedade.

A crise do coronavírus é um ótimo exemplo. Trata-se de uma doença perigosa e precisa ser observada com seriedade. Mas não é o apocalipse zumbi! A crise da SARS, em 2002, por exemplo, foi mais grave e a humanidade não pereceu.

O problema é como isso chega nas redes sociais. Tenho observado muita gente acreditando e espalhando todo tipo de notícia falsa, especialmente no Facebook e no WhatsApp. Nessas horas, aparecem os vivaldinos que querem ter ganhos econômicos ou políticos, distorcendo os fatos a seu favor. E há aqueles que simplesmente passam informações erradas ou inócuas, por ignorância ou má fé mesmo.

Vi gente conclamando a população a aumentar o consumo de vitaminas, para evitar a contaminação. E alguns “figurões” (estão mais para figurinhas mesmo) espalharam até que a Fundação Bill e Melinda Gates, do fundador da Microsoft, teria patenteado o coronavírus em 2014, com o objetivo de redução populacional!

Sério mesmo?

Crescimento da intolerância

Vivemos um momento triste da história, de polarização extrema, de violência, de intolerância e de donos da verdade pipocando de todos os lados. E todos esses sentimentos e essa percepção são alimentados por nós mesmos nas redes sociais!

A sensação que dá é que o mundo está piorando ao longo do tempo. Mas, na verdade, está melhorando! Não me refiro a esse ano, ao ano passado, aos últimos cinco anos: estamos em um momento de crise, de piora mesmo. E isso contamina a nossa percepção, porque estamos literalmente vivendo todos esses problemas na nossa pele, todos os dias.

Eu quero dizer que está melhorando ao longo de décadas!

Por exemplo, segundo o IBGE, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer chegou a 76,3 anos em 2018. Em 1900, esse indicador era de míseros 33,4 anos! Isso acontecia porque a medicina era muito pior, não havia remédios e vacinas como hoje (nem antibióticos), as pessoas não se alimentavam tão bem, e as condições de trabalho também eram muito piores.

Mas essa melhora não foi exatamente linear. Teve altos e baixos. Se olharmos de longe o gráfico, eles não aparecem tanto. Mas, se aproximamos com uma lupa, vemos que existiram anos de mais sofrimento e outros de mais bonança. A diferença é que essa percepção, no passado, era menos intensa, inclusive porque não havia tantos veículos de comunicação. Hoje vivemos tudo isso com muito mais intensidade.

Por isso, digo que os jornais hoje contam os fatos do dia, mas, quando olhamos um noticiário consolidado do passado, eles se tornam “livros de história” incrivelmente detalhados. Isso ficou muito claro quando eu tive o prazer de ser o gerente do projeto que criou o Acervo Estadão, digitalizando todas as páginas do jornal, fundado em 1875.

Então, para que todos vivam melhor, precisamos cuidar de como usamos o meio digital. Sem falar que o que publicamos, mesmo que seja uma singela foto, constrói a nossa imagem digital. E, em uma sociedade permanentemente online, a nossa imagem digital é a nossa principal imagem!

Portanto, “não alimente os trolls”! Não acredite em qualquer coisa, especialmente se vier de pessoas que vivem de atitudes extremas e radicais, de “fake news” e cortinas de fumaça. Não se informe pelo WhatsApp!

Precisamos usar esse incrível poder que todos nós temos, nas redes sociais, para construir algo que não seja bom só para nós mesmos. Quando aproveitamos o meio digital para construir algo que ajude muita gente, que busque uma sociedade mais justa, equilibrada e verdadeira para todo mundo, nós não apenas melhoramos a nossa imagem, como também diminuímos essa ansiedade imensa em que vivemos.

E aí, prontos para isso?

Não há atalho nas redes sociais

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Se tem uma coisa que muita gente quer saber e outro tanto tenta vender é a “fórmula mágica” de como se dar bem nas redes sociais. Afinal, criar uma boa imagem nas redes é um excelente marketing para qualquer profissional e qualquer empresa.

Pena que isso não existe!

Existem, sim, boas práticas que ajudam, mas elas precisam ser usadas com trabalho duro, consistente e ético. Mas pouca gente está disposta a se dedicar dessa forma


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


Na quinta passada, entreguei a minha dissertação de mestrado na PUC de são Paulo, que trata exatamente desse tema. Hoje eu quero compartilhar com vocês o resumo das conclusões desse estudo de dois anos.

Primeiramente, a melhor ferramenta para construir uma comunidade virtual em torno da sua marca, seja um profissional autônomo, seja uma multinacional, é a produção consistente de conteúdo e o relacionamento de qualidade com seu público. As duas coisas são essenciais!



Mas talvez a coisa mais importante de todas é que, para se dar bem nas redes sociais, você precisa construir reputação, e não só ficar fazendo barulho.

E o que eu mais vejo nas redes é gente fazendo barulho!

Entendam: não há nada de errado em vender seu produto, seu serviço na rede. Só que, apenas com isso, enquanto você estiver aparecendo, as pessoas eventualmente comprarão. Quando o barulho acabar, não sobra nada! Em meio a um oceano de ofertas, você não vai ser lembrado.

Outra coisa comum nas redes –e isso é péssimo– são essas “histórias fajutas”, normalmente com uma suposta superação, na tentativa de inspirar as pessoas e mostrar como os autores são “pessoas maravilhosas”.

Muitas dessas “historinhas” usam o conceito da Jornada do Herói, criado pelo grande mitólogo Joseph Campbell em 1949. Ela está associada a um processo de “superação” do autor do conteúdo, que vence suas dificuldades com a ajuda de um mentor e, ao final, regressa triunfante. Mas o próprio Campbell advertia que “o escritor deve ser verdadeiro para com a verdade”.

Infelizmente o que vemos é um abuso desse recurso, pois ele fisga muita gente mesmo! E como muitas pessoas curtem, comentam e compartilham aquela bobagem, os algoritmos das redes a espalham para ainda mais gente.

Essas histórias pioram o nível médio das discussões das redes e atrapalham as visualizações daqueles que realmente estão contribuindo com conteúdos relevantes. Além disso, chega uma hora em que as pessoas percebem o truque, e o autor acaba ficando queimado na rede.

Para a pesquisa, foram analisadas quase mil publicações, de sessenta usuários. O foco foi o LinkedIn, por ser a rede que melhor serve à construção de propósito. Para cada uma delas, foram vistas dez variáveis, incluindo diversas métricas de engajamento, a facilidade de entendimento do conteúdo e se a publicação abordava algo que estava “na moda”, ou seja, um tema sobre o que muita gente estava falando no momento. Houve ainda 35 entrevistas qualitativas com autores.

O estudo demonstrou que existem algumas boas práticas para aparecer bem na rede.

Primeiramente, o autor deve entrar regularmente na plataforma, realizar diversas ações e adotar comportamentos construtivos. Fomentar conversas e participar delas é essencial. O melhor assunto é aquele que o autor domina e que agrada o seu público, e temas “da moda” tendem a trazer melhores resultados, especialmente quando o autor consegue aplicar isso aos assuntos de seu domínio.

A linguagem das publicações deve ser simples de ser entendida, e posts tendem a trazer melhores resultados que textos muito longos. E o melhor dia e horário para publicação é aquele que o público do autor está on line.

Por fim, a presença de imagens é fundamental e vídeos são o formato que mais agrada o público, apesar de não ser garantia de mais engajamento.

É fundamental entender que esse resumo traz apenas sugestões que são observações estatísticas. Nas redes sociais, assim como na vida, não há verdade absoluta.

Uma outra coisa importante que o estudo demonstrou é que uma reputação sólida na rede traz benefícios bem palpáveis no cotidiano dos autores, até mesmo profissionais e comerciais. Ou seja, não é necessário ficar se preocupando em vender explicitamente seu produto. As pessoas compram de quem lembram como uma autoridade no assunto e está sempre presente construtivamente em suas vidas.

Afinal, redes sociais são espaços privilegiados de relacionamento. A construção de uma boa reputação passa, portanto, por ser verdadeiro e humano.