Category Archives: Educação

Os perigos do marketing dentro da sala de aula

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Professores têm influência grande demais sobre as crianças para que sejam usados na promoção de produtos, ainda mais dentro da sala de aula

Professores têm influência grande demais sobre as crianças para que sejam usados na promoção de produtos, ainda mais dentro da sala de aula

A Folha de S.Paulo de hoje abre o caderno Cotidiano com uma reportagem sobre a transformação de professores em garotos-propaganda. A prática vem acontecendo nas escolas das redes COC e Dom Bosco, ambas do SEB (Sistema Educacional Brasileiro), que juntos têm mais de 4.800 professores. Os mestres vestem camisetas com logotipos de patrocinadores, promovendo seus produtos na porta de vestibulares e –bem pior– distribuem brindes e amostra-grátis dentro da sala de aula. Em alguns casos, a promoção vem acompanhada de “atividades pedagógicas”.

Não vou nem entrar no mérito da desmoralização da figura profissional do professor. Na matéria da Folha, o sindicato da categoria já deixou clara a sua posição contrária à iniciativa. Vou me ater ao que isso representa na formação das crianças. Professores têm uma enorme influência sobre seus alunos, especialmente os menores. Em assuntos discutidos na sala de aula, a posição do mestre chega a ter mais credibilidade que a dos próprios pais. Dá então para imaginar o “estrago” feito nas cabecinhas por promoções feitas pelos “donos do conhecimento” em pessoa.

É um escárnio com a educação! No Brasil, ela já tem um nível desprezível, mesmo nas escolas de elite. Onde isso vai parar? Se vale tudo até na sala de aula, qual o problema de o presidente do Senado fazer o que bem entender?

Em tempo, o Valor Econômico publicou hoje que o SEB pagou R$ 41 milhões por cinco das sete unidades do grupo Pueri Domus (as outras duas continuam sob administração da família Zocchio). Em comunicado distribuído aos pais, a escola garante que nada mudará, nem mesmo na filosofia de ensino ou no material didático. Não falaram nada de brindes nas salas.

Uruguai mostra como distribuir notebooks a alunos

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Recebi hoje o vídeo abaixo (em espanhol), que resume o processo de distribuição de notebooks educacionais aos alunos do Uruguai e seu estágio atual. Vale a pena investir nele 12 minutos do seu tempo.

[vimeo http://vimeo.com/2465202]

Mesmo considerando que o Uruguai tem uma escala muito menor que o Brasil -o que facilita imensamente a implantação de um projeto dessa natureza- o fato é que eles já têm 170 mil alunos individualmente com computadores (42,5% do total), 91% deles com conexão à Internet e 18 mil professores capacitados (ou em processo). Interessante também notar que a máquina adotada é o XO, do projeto One Laptop Per Child, de Nicholas Negroponte, que no Brasil não consegue vencer pregões do governo.

Mas o que me chamou mais a atenção é que as crianças efetivamente levam o computador para casa, exatamente a proposta original da iniciativa, visando a inclusão digital de toda a família. Sensacional! No Brasil, as máquinas deverão ficar restritas ao ambiente escolar, pois há um grande temor de roubo dos equipamentos. Foram criados dispositivos para desestimular esse crime, como o notebook ser automaticamente inutilizado caso não se conecte à rede educacional por um período de tempo razoável. Ainda assim, não deve mesmo ir além dos muros da escola. É uma pena, pois o Uruguai demonstra que a inclusão digital da família realmente acontece.

Só senti falta no vídeo de saber como é a experiência pedagógica com os equipamentos. A peça, muito bem editada com o intuito de ser uma bela propaganda, se resume a mencionar atividades que os alunos podem fazer com o equipamento, mas não como isso se integra ao dia a dia da sala de aula, o que é crítico e pode separar uma iniciativa bem-sucedida de um fracasso retumbante.

Enquanto isso, aqui no Brasil, o primeiro dos pregões, para aquisição de 150 mil máquinas, está empacado por disputas judiciais. Que lástima!

Schwarzenegger quer trocar livros didáticos por conteúdo digital na Califórnia

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Entre as propostas para substituir o livro didático, Schwarzenegger menciona o Facebook, o Twitter e até o conceito de open source, tudo para diminuir o déficit de US$ 24 bilhões do Estado

Entre as propostas para substituir o livro didático, Schwarzenegger menciona o Facebook, o Twitter e até o conceito de open source, tudo para diminuir o déficit de US$ 24 bilhões do Estado

O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, mais conhecido pelos seus papéis no cinema que por suas ações políticas (pelo menos para os moradores de fora do mais populoso Estado americano), anunciou uma iniciativa que visa substituir os livros didáticos usados nas escolas californianas por conteúdo estritamente digital. Em uma palestra a alunos na cidade de Sacramento, o ex-Conan republicano classificou os livros como “antiquados, pesados e caros”. “A Califórnia é sede do Vale do Silício. Somos líderes mundiais de tecnologia e inovação, por isso devemos ter isto em mente”, afirmou.

A idéia não é uma iniciativa pedagógica: é uma maneira para se tentar reduzir o gigantesco déficit orçamentário do Estado, que bateu nos US$ 24 bilhões. Nos EUA, o preço médio de um livro didático gira entre US$ 75 e US$ 100. A Califórnia gastou US$ 350 milhões em livros no último ano letivo. A ideia é começar a substituição já no início do próximo ano letivo, que lá começa em agosto.

“As crianças estão familiarizadas com a música digital, além de assistirem a televisão e a filmes online, entrando no Twitter e participando do Facebook”, disse Schwarzenegger. Ele chegou a sugerir o uso de ferramentas como essas no processo pedagógico, mas sem dizer como. A iniciativa está sendo supervisionada pela CLRN (sigla em inglês para Rede de Recursos de Aprendizagem da Califórnia). As obras substitutas podem até mesmo ser criadas sob o conceito do open source, com a autoria sob responsabilidade de voluntários.

Não sei… Isso pode funcionar bem na criação de notícias e até de enciclopédias, cujo maior exemplo de sucesso é a Wikipedia, mas, considerando-se o altíssimo nível de exigência para o material didático, algo nessa linha dependeria de uma supervisão muito forte. É efetivamente difícil de ser produzido. Que o diga o Governo do Estado de São Paulo, diante das recentes mancadas, que custaram a cabeça da secretária da Educação anterior, Maria Helena Guimarães de Castro. Há também uma questão pedagógica que –quero crer– os educadores californianos estejam atentos: é muito importante para os alunos –especialmente os menores– “registrar”, escrever em papel de verdade.

Por outro lado, simpatizo com a ideia do governador-Mr. Universo. É verdade que os livros didáticos custam muito dinheiro, não apenas para os Estados, mas também para os pais dos alunos que têm que desembolsar anualmente uma boa grana antes do começo das aulas. Para a classe média, que vive no fio da navalha, isso chega a abalar o orçamento doméstico. Qualquer iniciativa que reduza essa conta é, portanto, digna de análise. Do lado do aluno, os livros pesam… literalmente. Eu me lembro do exercício diário que eu fazia para carregar esse conhecimento de casa para escola e vice-versa. As mochilas com rodinhas atenuam o problema e algumas escolas oferecem armários individuais para que seus alunos deixem lá seus livros, mas eles continuam “antiquados, pesados e caros”.

Assim, por mais bizarra que possa parecer à primeira vista, a idéia tem seus méritos. Tomara que dê resultados ou pelo menos indique um caminho até um novo formato de conteúdo didático. A escola precisa se modernizar –e muito!– tanto do ponto de vista pedagógico quanto organizacional. Nesse sentido, os livros como os conhecemos realmente podem perder o seu lugar.

Para que os alunos estudam

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Ao continuamente modificar seus currículos para que atendam às mudanças dos vestibulares e do Enem, muitas escolas sacrificam a qualidade do ensino que realmente interessa para a vida de seus alunos

Ao continuamente modificar seus currículos para que atendam às mudanças dos vestibulares e do Enem, muitas escolas sacrificam a qualidade do ensino que realmente interessa para a vida de seus alunos

No ano em que o Enem foi reinventado como porta de acesso única para pelo menos metade das universidades federais, a Fuvest, tida como o mais importante vestibular do país, anunciou que voltará a avaliar todas as disciplinas na sua segunda fase, e não apenas as mais relacionadas ao curso que o vestibulando está concorrendo. O próprio “novo Enem” ainda não definiu exatamente quantas questões terá. Tudo isso a meio ano da realização das provas.

Nesse cenário, as escolas de Ensino Médio, especialmente as conteudistas, enlouquecem, pois ficam sem saber exatamente como compor o cardápio que oferecem a seus alunos. Mas, no final das contas, que diferença isso faz? As vagas das melhores universidades serão mesmo ocupadas pelos alunos mais brilhantes, qualquer que seja o modelo do acesso ao curso.

E aí chegamos ao ponto que serve de título a esse post. Afinal, para que nossos alunos estudam? Para aprender não apenas conteúdos, mas também a resolver problemas de qualquer natureza, preparando-se para a vida, ou para apenas ingressar na universidade? Apesar de a resposta certa ser claramente a primeira, a maioria das escolas, escravizadas por uma necessidade mercadológica de depositar seus pupilos no Ensino Superior, orientam seus currículos para que atendam, da melhor maneira possível, à Fuvest e ao Enem. E, se der, a outros vestibulares importantes. Descarregam conteúdo e fórmulas na cabeça da galera. E dane-se o aprendizado que realmente importa! O resultado disso é a baixíssima classificação do Brasil internacionalmente quanto o assunto é educação.

Em seu formato atual, o vestibular deforma o Ensino Médio, que fica espremido entre o exame de ingresso (e não a faculdade em si) e um Ensino Fundamental quase sempre deficiente. Perde a chance de desempenhar um papel crítico na formação do indivíduo, em um momento em que sua personalidade está se consolidando. O Enem original se propunha justamente a avaliar a aquisição das competências desejáveis para o aluno, mas agora perdeu esse seu nobre objetivo.

Apoio a definição de um modelo universal de acesso ao Ensino Superior, mas não devemos matar a vaca para acabar com o carrapato. O Ensino Médio precisa ser respeitado, para que assuma e cumpra seu papel decentemente.

Colocando mais lenha na banheira

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O problema não está nos livros em si, e sim no fato de eles seram indicados para crianças de nove anos de idade

O problema não está nos livros em si, e sim no fato de eles seram indicados para crianças de nove anos de idade

Pouco mais de uma semana da barulheira causada pela distribuição –seguida de recolhimento– do livro “Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol” (da Via Lettera) a alunos da 9 anos da rede estadual de ensino, outra obra, distribuída a alunos da mesma faixa etária, está causando mais dor de cabeça ao tucanato de José Serra. Dessa vez, a polêmica gira em torno de “Poesia do Dia: Poetas de Hoje Para Leitores de Agora” (Ática). Se o primeiro era uma coletânea de quadrinhos recheada de palavrões e até insinuações ao PCC, a reunião de poesias abusa de ironias adultas.

Assim como no primeiro caso, o problema não está nas obras, e sim em sua distribuição a crianças, que dificilmente conseguiriam processar adequadamente frases como “nunca ame ninguém: estupre.” Por mais que faça parte do poema “manual de auto-ajuda do supervilão”, o que podemos esperar de uma criança de 9 anos ao ler isso?

No dia 22, Marcelo Tas fez um post em seu blog sugerindo que toda a gritaria em torno de “Dez na Área” é puritanismo demais. Na verdade, ele comentava artigo de Xico Sá na Folha que pregava a mesma coisa. Sugerem que palavrões e futebol estão intimamente ligados. Nas palavras do Xico, “em uma pelada, mesmo de criança, fala-se mais palavrões do que na última casa de tolerância da Vila Mimosa”.

Sim, pode ser. E de fato as crianças estão amadurecendo cada vez mais rápido, inclusive na boca suja. Mas tenho um filho de oito anos, que não é nenhum santo imaculado. Mas não acredito que, dentro de um ano, ele dirá “chupava ela todinha!” (que aparece nos referidos quadrinhos), sabendo ou não o que estaria dizendo.

Ademais, como já disse acima, a culpa não é das obras, e sim do fato de elas serem oferecidas à molecada na escola. A linguagem da turma mudou, mas tudo tem limites. Não proponho que a escola seja careta –pois ela já é bem chata– mas o material didático pode ser moderno sem ser grosseiramente inadequado.

A culpa não é de José Serra, mas é de seus subordinados. Ele quer ser presidente, mas, para isso, é bom que já vá preparando o discurso para rebater o que a oposição lhe dirá sobre esses (e outros) episódios ligados à educação estadual no seu mandato

Não quero mais brincar de computador por aluno

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A Comsat, que representa a Encore, quer melar o pregão que venceu e que ainda pode lhe render mais de R$ 82 milhões

A Comsat, que representa a Encore, quer melar o pregão que venceu e que ainda pode lhe render mais de R$ 82 milhões

Parece bizarro, e talvez seja mesmo! A Comsat, representante no Brasil da indiana Encore, que ganhou em dezembro a licitação para a venda ao MEC de 150 mil laptops educacionais do modelo Mobilis, protocolou ontem uma ação no TCU (Tribunal de Contas da União) pedindo o cancelamento do pregão que venceu. Jackson Sosa, procurador da empresa, disse ao jornal Valor Econômico que eles “cansaram” de tentar dar prosseguimento à fase de testes de homologação do produto e que o Ministério da Educação estaria ignorando a companhia. “Não nos interessa mais levar esse processo adiante”, afirmou.

Sei… Você jogaria fora uma fatura de mais de R$ 82 milhões? É o que a Comsat está dizendo que quer fazer. Mas como escrevi em outro post aqui, no dia 5 de maio, o Mobilis teria sido rejeitado nesses mesmos testes, realizados pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Se isso se confirmasse, o que poderia acontecer a qualquer momento, o segundo colocado no pregão, no caso a CCE, com seu Classmate CM52C, seria chamada. Por outro lado, se o pregão for cancelado, todo mundo volta ao zero.

O MEC se defende e diz que já concluiu a sua análise, mas ainda assim enviou os equipamentos para o Inmetro para uma segunda opinião. E o tempo vai passando… Apesar de o computador por si só não resolver os problemas da combalida educação brasileira, a proposta do projeto UCA (Um Computador Por Aluno), versão tupiniquim do programa One Laptop Per Child, idealizado por Nicholas Negroponte, é bem-vinda e pode sim render bons frutos, especialmente à população carente, cujos filhos dificilmente têm acesso à informática. Ainda que não seja usado didaticamente, a simples inclusão digital já cria cidadãos melhores. Assim sendo, espero que o pregão seja mantido, mas que a CCE seja chamada logo! Não quero negar eventuais direitos da Comsat, mas esse seu comportamento é no mínimo suspeito, típico de quem quer ir para a casa com a bola só porque está perdendo na pelada.

Palavrões… didaticamente

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Além dos palavrões e das frases de cunho sexual, a obra também menciona o PCC mais de uma vez

Além dos palavrões e das frases de cunho sexual, a obra também menciona o PCC mais de uma vez

“Chupava ela todinha!” Isso pode não causar a você repúdio, mas faz parte de um livro que o Governo do Estado de São Paulo distribuiu às escolas de sua rede para ser usado por alunos de nove anos de idade, no terceiro ano do Ensino Fundamental. Ao todo, foram comprados 1.216 exemplares de “Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol” (da Via Lettera), uma coletânea de quadrinhos para o público adolescente e adulto que tem o futebol como pano de fundo.

Além do uso recorrente de palavrões e expressões de cunho sexual e de duplo sentido, a grupo criminoso PCC também é mencionado em histórias, o que deixaria José Serra de cabelos em pé, se ele tivesse para tanto. Mas o governador estrilou, disse que essa compra era “um horror”, prometeu punir os responsáveis pela escolha. Classificou essa mancada como mais grave que o material recheado de erros distribuído a toda a rede no início do ano, cujo mais notório foi um mapa da América do Sul com dois Paraguais (e os dois em posições erradas). Pela completa inadequação à faixa etária, diria que é mesmo! E olha que os Paraguais custaram a cabeça da ex-secretária Maria Helena Guimarães de Castro, que caiu no dia 27 de março, sendo substituída pelo Paulo Renato. Apesar disso e das ameaças do tucano, a secretaria se resumiu a emitir uma notinha burocrática, onde prometia apenas recolher os livros (que custaram aos cofres estaduais R$ 35 mil) e abrir sindicância interna.

Como disse Caco Galhardo, um dos autores do livro, à Folha, “o cara que escolheu não leu o livro”. Realmente é uma das poucas explicações plausíveis para uma coisa dessas ter passado. Ou então é sabotagem! As editoras de livros riem quietinhas de novo, pois, apesar de o Governo Federal continuar comprando seus livros didáticos a todos os alunos do país anualmente, elas não nutrem exatamente simpatia pela iniciativa do Governo de São Paulo de distribuir material complementar, especialmente o que o próprio governo produz (como no caso das obras com os Paraguais). Agora, interesses econômicos à parte, elas têm razão, pois produzir material didático não é para qualquer um: é um trabalho extremamente detalhado e exaustivo, que envolve grandes equipes e muito tempo e dinheiro. E, mesmo com todo o investimento das editoras, muitas obras são recusadas ano após ano pelas comissões avaliadoras. Ver essas mancadas grotescas depois de tudo isso é de lascar!

(Nenh)um Computador por Aluno

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O equipamento indiano deve ser desclassificado por não atender às especificações do edital, mas ninguém se lembra de treinar os professores?

O equipamento indiano deve ser desclassificado por não atender às especificações do edital, mas ninguém se lembra de treinar os professores?

O leilão para compra de 150 mil notebooks educacionais para 300 escolas públicas de todo país deve fazer água de novo. Dessa vez, o modelo Mobilis, da indiana Encore, foi extra-oficialmente rejeitado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Ministério da Educação, por não atender às especificações.

O mercado aguarda agora a confirmação oficial do MEC, mas a Comsat, representante da Encore no Brasil, já promete recorrer. Se se confirmar a desclassificação, a segunda colocada, a CCE, vence o pregão. Cada Mobilis foi oferecido a R$ 553, enquanto o Classmate da CCE, batizado de CM52C, sairia por R$ 666,60 a unidade. Muito acima, portanto, dos US$ 100 sugeridos por Nicholas Negroponte quando instituiu o programa One Laptop Per Child, que gerou no Brasil o Um Computador Por Aluno (UCA), “motivador” do referido pregão.

Na verdade, o buraco é mais embaixo. Não quero diminuir a importância de iniciativas como o UCA. Muito pelo contrário: acredito plenamente que o uso consciente de tecnologia pode auxiliar –e muito– o processo educacional. Mas as escolas são bastiões contra novidades, infelizmente. E, na linha de frente da resistência, estão os professores, despreparados e desmotivados. Completando esse quadro, estão desencontros do próprio governo –que promove patacoadas como liberar acesso à Internet a escolas que não têm computadores– e dos gestores das escolas –que mantém equipamentos trancados com medo de que sejam quebrados pelo uso ou até mesmo roubados.

Tenho conversado com muitos professores e gestores de escolas sobre o uso da tecnologia. Falo também com pesquisadores e empresários do setor no Brasil e lá fora. Está muito claro que de nada adianta despejar computadores em escolas com o perfil acima. Os alunos até seriam beneficiados em um processo de inclusão digital, pois, muito mais que seus mestres, eles são bem adaptados à cybercultura, mesmo em comunidades mais carentes (dentro de limites, claro).

Mas as máquinas não seriam ferramentas pedagógicas. Isso só acontecerá com software realmente educacional (pouco disponível no Brasil) –e não uns arremedos na tela de material impresso– e com o preparo dos professores e das escolas. E aí está o grande desafio, pois não é só transformar o professor em um apertador de botões. Ele continua sendo o principal ator do processo. A tecnologia pode ser uma formidável aliada na sala de aula, mas só depois de o professor se apropriar dela, trazendo-a para a sua aula, o seu dia a dia.

Enem X vestibular

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O ministro da Educação quer modificar o Enem para que ele substitua o vestibular

O ministro da Educação quer modificar o Enem para que ele substitua o vestibular

O governo federal lançou a proposta de modificações no Enem para que ele passe a servir como uma alternativa aos vestibulares das universidades federais do país. A ideia é que o aluno faça a prova e possa escolher, de acordo com a sua pontuação, entre cinco cursos de uma mesma universidade ou de até cinco instituições diferentes. O discurso demagógico se completa com “uma ferramenta para democratizar o acesso dos estudantes à universidade” e ainda a chance de os alunos escolherem faculdades de qualquer parte do país facilmente.

Na teoria, a proposta é boa, pois o vestibular é um modelo perverso. Mas acho que eu perdi alguma coisa… É razoavelmente simples de se concluir que deve acontecer o contrário disso. Essa história só seria verdadeira se a qualidade do ensino fosse homogênea em todo o país, e isso não é verdade nem entre as escolas particulares. Que dizer então das escolas públicas?

No final das contas, o processo vai acabar elitizando ainda mais o ensino superior federal. Os melhores cursos, quase sempre localizados nas instituições paulistas e cariocas, acabarão ocupados por alunos da rede particular de ensino do Sudeste, onde está a grande maioria das melhores escolas. E hoje a ajuda que o atual Enem representa na pontuação dos vestibulares tradicionais, que beneficia alunos da rede pública, deixaria de existir, pois o Enem seria o próprio vestibular.

Há ainda um outro ponto a ser considerado: o Enem, desde que foi criado, se propõe a traçar um perfil amplo da formação do aluno, indo muito além do conteúdo e concentrando-se principalmente na aquisição de competências esperadas do Ensino Médio. Pelo novo modelo, as atuais 63 questões passariam a 200, para acomodar a verificação de conteúdo, o que contraria essa proposta original.

As universidades devem ainda dizer se aceitam o novo formato: elas têm autonomia para rejeitar a proposta. O governo federal tem pressa -inclusive porque o ministro da Educação, Fernando Haddad, tem pretensões eleitorais. Diante disso, afirmou que as universidades que adotarem o novo sistema receberam mais verbas para assistência estudantil. E por falar em política, Paulo Renato Souza, que acabou de assumir a secretaria de Educação paulista e criou em 1998 o Enem (quando foi ministro da Educação de FHC), já declarou publicamente que desaprova o novo formato.

O governo Lula não tem exatamente se destacado no campo da educação. Em algumas semanas, devemos começar a ver a adesão das universidades. Se tudo correr como pretende o governo, pode ser o início do fim do vestibular. A conferir.

“Paraguais” derrubam secretária

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Paulo Renato disse que "manterá o bom trabalho e a equipe" de Maria Helena

Paulo Renato disse que "manterá o bom trabalho e a equipe" de Maria Helena

Dez dias depois de o governador José Serra anunciar que recolheria apostilas que traziam um mapa da América do Sul com o Paraguai em duas posições (ambas erradas), a secretária da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, caiu hoje. As apostilas, produzidas pela Secretaria da Educação com a Fundação Vanzolini, seriam distribuídas para alunos do 6º ano da rede estadual de ensino.

Antes de pedir o recolhimento, Serra chegou a dizer que “não é um erro grave, mas é um erro” e cogitou recolher apenas 1,55% dos cadernos impressos, que supostamente seriam os atingidos pela falha. Além de minimizar o problema, a Secretaria da Educação tentou se isentar da responsabilidade, jogando-a sobre a Vanzolini, que se isentou da culpa, afirmando que o material foi produzido por professores indicados pela secretaria. No final, ficou decidido que a Fundação recolheria todos os 500 mil exemplares e arcaria com as despesas. Mas agora, depois de todo esse circo, Maria Helena vai embora “por motivos estritamente pessoais”.

Em seu lugar, assume Paulo Renato, o aclamado ex-ministro da Educação de FHC. Entrou prometendo manter todo o bom trabalho e a equipe de sua antecessora. Justiça seja feita: Maria Helena conseguiu alguns avanços tão importantes quanto polêmicos, como pagamento de bônus a professores mediante resultados mensuráveis e sistema de metas por escolas. Ela também reformulou o Saresp -exame estadual de escolas- e criou o Idesp -índice para avaliar o nível de aprendizado dos alunos da rede pública.

Chega a ser uma pena vê-la cair por um erro tão estúpido. Estúpido, mas grave, ao contrário do que declarou Serra.

O Volp da discórdia

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Linguistas brasileiros estão questionando a iniciativa da ABL (Academia Brasileira de Letras) de lançar a quinta edição do “Volp”, o “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”. A publicação traz a grafia “oficial” das palavras do idioma, segundo as regras do acordo ortográfico entre os países de língua portuguesa, em vigor desde o dia 1º de janeiro.

Os críticos argumentam -com razão- que a obra foi organizada unilateralmente pela ABL, sem ouvir Portugal ou os outros países signatários, que podem questionar a grafia adotada pelos brasileiros para palavras polêmicas diante das novas regras. A maioria das dúvidas se refere a palavras grafadas com hífen (ou não).

A ABL se defende, dizendo que suas decisões foram bem embasadas e que não devem gerar polêmica com os outros países. Pode ser mesmo que estejam certos, mas a atitude foi um tanto arrogante. Se outros países contestarem o Volp, será legítimo.

Em entrevista à Folha, Evanildo Bechara, que coordenou o Volp, disparou: “se os portugueses seguirem o acordo que eles assinaram, o vocabulário será igual.” Feio! Muito feio! Quem lhe deu a autoridade para dizer isso?

Ora pois!

Notebook versus lápis

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Tendência aponta que estudantes preferem escrever em notebooks a usar o lápis

Tendência aponta que estudantes preferem escrever em notebooks a usar o lápis

A Folha publicou nesta segunda uma reportagem sobre como escolas já permitem que alunos levem notebooks pessoais para a sala de aula, como parte de seu material escolar. A reportagem me chamou a atenção em dois pontos: primeiramente porque foi a primeira vez que vi isso fora do ensino superior; em segundo lugar, e mais inusitado, porque os alunos começam a questionar o porquê de se escrever à mão.

Esse questionamento pode parecer absurdo -e é, pelo menos enquanto não dispusermos de infra-estrutura tecnológica que nos permita dispensar de vez papel e lápis-, mas é perfeitamente compreensível para alguém que manipula um PC com a mesma naturalidade que a TV. Esses membros da “Geração Z” realizam os seus trabalhos escolares -mesmo os mais prosaicos- em PowerPoint ou em sequências em Flash.

Além disso, a moderna pedagogia prega que as crianças hoje aprendam primeiro a letra bastão (ou, com se costumava dizer, “de forma”) em maiúsculas, passando depois para as minúsculas e apenas então passam à escrita cursiva (as “letras de mão”). Isso parece estar alinhado com o fato de que o mundo não é mais cursivo. Qualquer PC vagabundo com Windows oferece ao usuário dezenas de famílias de fontes para que experimente em seus escritos, e as crianças estão expostas a essa realidade. Dentro desse novo mundo, as pessoas, de todas as faixas etárias, escrevem e lêem mais que nunca. A questão deixa de ser se se deve escrever “à mão ou com letra de forma” e passa a ser se se deve escolher Arial ou Times New Roman para compor o texto.

Não estou advogando pelo fim da escrita à mão: muito pelo contrário. Mas os fatos estão postos. A questão é saber como pais, escolas e editoras lidarão com isso. Todos estão preparados para isso, pedagógica e até psicologicamente? Pais, professores e demais profissionais de educação conseguirão lidar com essa onda inovadora que ganha volume a cada dia, podendo chegar logo à escala de tsunami?

Não estão. Mas essa onda pega!

Fazendo água além-mar

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Se os brasileiros parecem estar dispostos a abraçar o novo acordo ortográfico, o mesmo não acontece entre os lusos. Pesquisa realizada em Portugal aponta que 57,3% deles são contrários ao acordo, sendo que 66,3% afirmam que não adotarão as novas regras. A situação é pior entre os mais jovens e os menos escolarizados.

Pode-se argumentar que se trata de um acordo de gabinete, criado sem apoio popular. Mas pensando friamente: haveria outro jeito de se fazer isso?

Particularmente as reações não me espantam: um acordo desse tira as pessoas de uma de suas maiores zonas de conforto, que é a maneira de escrever. Mas as regras estão aí, os governos estão apoiando o acordo. A grande imprensa e editoras têm papel fundamental para que isso aconteça, ainda que a longo prazo (uma década, provavelmente).

Em tempo: a pesquisa foi feita pela empresa Aximage, sob encomenda do “Correio da Manhã”. Trata-se do jornal mais vendido em Portugal. E que ainda não adota as novas normas em suas páginas. Ora pois!

Está “melhor”, mas está ruim

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Serra comemorou os 38%: de 1,41 para 1,95!

Serra comemorou os 38%: de 1,41 para 1,95!

No dia 18, o Governo do Estado de São Paulo divulgou o resultado do Idesp, índice criado para avaliar o nível de aprendizado dos alunos da rede pública, como forma de avaliação indireta das escolas e de seus professores. Tanto que o bônus pago aos mestres -que pode chegar a 2,9 salários adicionais- depende dele. Ele leva em consideração os resultados no Saresp, prova do governo estadual que avalia conhecimentos de Língua Portuguesa e de Matemática, a taxa de aprovação e de evasão dos alunos.

O governo saiu comemorando o resultado, especialmente o do Ensino Médio. Afinal o índice nessa faixa deu um salto de 38,3% do ano passado para cá! Bom mesmo, hem? Na minha opinião, nem tanto. Nesse ano, esses alunos cravaram míseros 1,95 contra 1,41 do ano passado. É bom que fique claro que o Idesp vai até 10. A meta da própria Secretaria de Educação para o Ensino Médio é 5.

Para os menores, a evolução é pior, já que estatisticamente não houve: no Ensino Fundamental 1 (as antigas 1ª a 4ª séries, atuais 1º ao 5º ano), o índice saiu de 3,23 para 3,25 (variação de 0,6%); no Fundamental 2 (as antigas 5ª a 8ª séries, atuais 6º a 9º ano), foi de 2,54 para 2,60 (2,4%). Detalhe: as metas são, respectivamente, 7 e 6.

Ok, as metas são só para 2030 (!!!) e rivalizam com números de “países desenvolvidos” (quando falo de educação, tenho que admitir que somos mesmo “subdesenvolvidos”). E reverter o estado de penúria em que a educação brasileira está (São Paulo está bem na foto do país) é trabalho para uma geração. E se for bem-feito.

Mas vamos combinar: não dá para sair comemorando esses resultados, ok?

Onde fica o Paraguai?

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Material complementar do Governo do Estado de São Paulo não sabe bem onde ficam nossos vizinhos

Material complementar do Governo do Estado de São Paulo não sabe bem onde ficam nossos vizinhos

Você sabe onde fica o Paraguai? Se não souber, NÃO consulte o material complementar ao livro didático que o Governo de São Paulo distribuiu aos alunos do 6º ano da rede estadual. Ele traz um mapa em que o nome do vizinho aparece em dois países. Detalhe: errado nos dois casos! No primeiro, aparece sobre a região da Bolívia; no segundo, sobre o Uruguai. No que deveria ser o Paraguai, aparece Uruguai. E tem mais: o Equador sumiu!

A Secretaria da Educação joga a culpa na Fundação Vanzolini, que produziu o material. Essa se defende dizendo que o material foi criado por professores indicados pelo governo e que o erro atingiu “apenas” 1,55% dos cadernos impressos. Ou seja, 7.750 dos 500 mil exemplares, número de alunos do 6º ano da rede estadual. Pode parecer percentualmente pouco, mas em termos absolutos é muito! E o Serra: “não é um erro grave, mas é um erro”. O que seria grave? Talvez dizer que Buenos Aires é capital do Brasil. Na dúvida, o governador mandou recolher os 500 mil exemplares e que todo o custo de substituição ficará por conta da Fundação.

Não bastasse a falta de respeito com alunos e professores, uma coisa dessas é uma ofensa às editoras de livros didáticos, que se submetem a regras draconianas do Governo Federal para entrar no páreo do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) e do PNLEM (Programa Nacional do Livro do Ensino Médio). As normas desses dois programas, que distribuem milhões de livros às escolas do Brasil inteiro todos os anos, tratam até do entrelinhamento: que dizer então do conteúdo? E, se um livro for reprovado (sem direito a contestação), só poderá tentar de novo depois de três anos. Não questiono que as editoras não devam ter todos os cuidados na produção de seus livros, mas um caso como esse manda todo esse esforço por água abaixo. Afinal, os dois materiais chegarão juntos às mãos dos alunos de São Paulo.