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Não alimente os trolls da Internet

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Trolls comendo no filme “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” (2012) - imagem: reprodução

Trolls comendo no filme “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” (2012)

Desde que me tornei um LinkedIn Top Voice, as pessoas me fazem algumas perguntas recorrentemente. Uma delas é como eu lido com gente com todo tipo de comportamento inadequado nas redes sociais, inclusive no LinkedIn. Afinal, qualquer pessoa pode ser vítima dessas péssimas abordagens, porém, quanto mais exposto estamos, maior o risco de virarmos alvo. A minha resposta é: não alimente os trolls! E todos nós temos que fazer isso, ou corremos sérios riscos.

Para começar, gente chata, grosseira ou até mesmo violenta sempre existiu e sempre existirá. Mas as redes sociais criaram um novo tipo de inconveniente: o “hater”. Para quem não sabe o que é, trata-se de um indivíduo que, como o nome em inglês sugere, destila um ódio exagerado e quase sempre gratuito contra alguém nas redes sociais. Ele não se preocupa em explicar, ele não avisa que está chegando: simplesmente aparece e parte para os insultos, normalmente muito pesados, tentando magoar e até mesmo destruir seu desafeto.


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Não se engane: até quem tem sangue de barata sofre o baque de um ataque desses, especialmente na primeira vez. Eu mesmo já fui vítima desse tipo de troll em algumas ocasiões (felizmente poucas).  E o mais triste é notar que isso aconteceu quando eu havia produzido algum conteúdo que tentava despertar coisas boas nas pessoas.

Só que, por algum motivo, pisei no calo do troll, e ele partiu para a ataque. E esse é um risco que qualquer profissional ou empresa corre, especialmente nas redes sociais. O que fazer diante disso?

Nessas horas, o melhor é entrar em uma caverna! Ou, em outras palavras, não responda na hora! Pois, se fizer isso, provavelmente a sua resposta estará contaminada pelas emoções que o hater plantou no seu coração: você devolverá na mesma moeda.

E é isso que esse troll mais deseja.

 

Desvie da rota de colisão

Quem se dirige a outra pessoa com insultos perde a razão, mesmo quando está apenas reagindo a outra ofensa. Só que o hater normalmente tem pouco ou nada a perder, ao contrário de sua vítima, cuja reputação já está sendo atacada. Portanto nunca, jamais devolva na mesma moeda, por mais que esteja coberto de razão.

Vá dar uma volta para esfriar a cabeça e acalmar o coração. Converse com alguém. Faça algo que gosta. Só então responda. E nunca deixe de responder, ou a última palavra será a do troll.

O que responder é o próximo desafio. Mesmo usando a lógica, não entre em rota de colisão com o agressor, pois os argumentos dele (se é que tem algum) são passionais, irracionais até. Portanto, acolha aquilo da melhor maneira possível, mas explique que vocês têm pontos de vista divergentes sobre o tema. Diga que, mesmo assim, a agressão não é necessária, pois opiniões conflitantes podem coexistir. E então reforce o seu ponto de vista educadamente.

É bem possível que o troll volte à carga. Nesse caso, avalie se vale a pena uma outra rodada de respostas, pois, a essa altura, provavelmente já ficou claro que o diálogo não é possível, pois o outro lado é surdo e fala mal. Então, se diante do que já foi dito, a criatura continua vociferando, deixe-o falando sozinho a partir desse ponto. O importante é que, para seu público –e toda essa discussão normalmente é pública– você já se posicionou adequadamente.

Aliás, disso surge outra dica: nunca apague as ofensas, pois o troll voltará com mais força, acusando-o de censura, e talvez ainda traga seus amigos. Ao invés disso, já que ele armou um pequeno palco para aparecer, suba ali junto com ele para reforçar os seus valores. Aproveite esse infortúnio para expor aquilo em que acredita.

 

Não negocie com terroristas

Mas há outros tipos de trolls nas redes sociais. Um deles atinge principalmente as mulheres: os assediadores.

Eles são resultados da combinação da sociedade machista em que vivemos com uma sensação de impunidade que as redes sociais provocam. Uma sensação completamente equivocada, diga-se de passagem, pois é possível rastrear criminosos usando os próprios recursos da rede.

A grande maioria das mulheres –e alguns homens– já foi vítima desse tipo de agressão ou conhece alguém que foi. Normalmente elas se manifestam na forma de cantadas ostensivas, envio de fotos obscenas ou desqualificação da vítima pelo simples fato de ser mulher (ou homem).

Pode-se tentar usar a mesma tática acima, adotada contra os haters. Mas, nesse caso, talvez o melhor seja usar os recursos das próprias redes sociais para denunciar e bloquear o agressor. Em casos extremos, deve-se acionar a polícia.

Uma amiga me disse recentemente que sofria muitos desses assédios, a ponto de deixar de usar alguns aplicativos. Apesar de compreender a sua dor, recomendei que ela não fizesse isso. Pois, por mais que as agressões sejam constantes., não podemos deixar de usar alguma coisa que gostamos ou que nos ajuda só por causa dos trolls. Seria como ceder às ameaças de um terrorista. Se nos rendemos, eles vencem e farão isso cada vez mais.

Esse tipo de ataque muitas vezes acontece em bando. Não se acanhe: denuncie e bloqueie todos eles. Sempre!

 

Idiotismo digital

Até há alguns anos, esse tipo de agressor tentava tomar alguns cuidados básicos –pelo menos usava nome, foto e conta falsos– na tentativa de proteger sua identidade, pois sabia que o que estava fazendo era errado e que poderia ser responsabilizado por aquilo, até mesmo criminalmente.

Mas é assustador notar que, de uns tempos para cá, muitos trolls não estão adotando nem essas medidas: cometem as suas barbaridades com seus perfis verdadeiros, com nome e sobrenome reais, para quem quiser ver. Até mesmo no LinkedIn, uma rede com um propósito mais sério, onde muita gente está procurando emprego, o indivíduo se sente à vontade para barbarizar e perpetrar todo tipo de ato de ódio, intolerância, machismo e afins.

Como explicar esse idiotismo digital? Pois é evidente que um recrutador jamais contratará alguém que comete esse tipo de coisa, ainda mais com um alcance potencialmente global. E, se já estiver empregado, isso pode lhe custar (como já custou em inúmeros casos no Brasil e no exterior) a demissão, pois a reputação da empresa pode ser comprometida se tiver trolls em seus quadros.

A psicologia pode ajudar a explicar porque as pessoas fazem no meio digital coisas que não fariam presencialmente. Quando estão online, muitas pessoas entram em um estado alterado da consciência, em que acham que podem tudo, pois a tela do computador ou do smartphone as ofereceria algum tipo de proteção mágica que garantiria que o que for feito na “vida online” não respingará na “vida real”. Quase como se estivessem sob efeito de algum tipo de alucinógeno. E, nessa hora, o pior de cada um pode aparecer.

Só que não existe essa história de “vida online” e “vida real”: são apenas duas instâncias da única vida que cada um de nós tem. Portanto, o que se faz de mal em uma se paga na outra.

 

O bem vence o mal

Sim, os trolls estão por aí, sempre prontos a dar o bote e abater suas presas. Devemos estar atentos e tomar as devidas providências, como descrito acima. Mas há algo ainda melhor a se fazer.


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Se as redes sociais podem mostrar o que temos de mais feio, também podem servir como instrumento para realizarmos coisas incríveis e muito construtivas. Como qualquer ferramenta, o que tiramos dela depende do uso que fazemos.

Como disse acima, já fui vítima de diferentes tipos de trolls nas redes sociais. Mas felizmente isso aconteceu poucas vezes, em contraste com uma infinidade de bons sentimentos trocados por mensagens, comentários, conversas telefônicas ou pessoalmente.

E não podia ser diferente disso: apesar de todas as mazelas que vemos todos os dias no mundo, acredito sinceramente que o ser humano tem muito mais bondade que maldade dentro de si. E, se o mal atrai o mal, a recíproca também é verdadeira, e muito mais forte.

Cito um exemplo recente que aconteceu comigo no LinkedIn: no início do mês, fiz uma campanha para que profissionais e empresas de TI ajudassem o Hospital de Câncer de Barretos (veja um exemplo de post criado). Ele foi vítima de um enorme ataque de hackers no dia 27 de junho, que estava atrapalhando o atendimento que presta à população, totalmente gratuito. Poucos dias depois, fiquei sabendo que um grande número de pessoas havia entrado em contato com eles se voluntariando, até mais que o necessário. Além disso, eu pessoalmente fui agraciado com muitas mensagens de agradecimento de pessoas que estavam muito felizes por poder ajudar a instituição.

Aquilo encheu o meu coração de alegria! Que mais eu poderia desejar?

Por isso, estou certo que há muito mais heróis que trolls por aí. É isso que eu vejo até mesmo nas redes sociais.


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Quer garantir o seu emprego? Volte para a escola agora!

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O personagem Ralph, da animação “Detona Ralph”: 30 anos fazendo a mesma coisa não o impediram de mudar e fazer algo melhor para si- imagem: reprodução

O personagem Ralph, da animação “Detona Ralph”: 30 anos fazendo a mesma coisa não o impediram de mudar e fazer algo melhor para si

Com a aprovação da reforma trabalhista há alguns dias, as discussões em torno do futuro do emprego, direitos, deveres e possibilidades de todas as partes se acirrou. Entre tantas conversas que estou participando sobre o tema, uma me chamou bastante a atenção, pois se levantou que todo esse debate acalorado pode ser inócuo! E o motivo é muito simples: não há emprego para todos! É verdade que a crise política e econômica agravou dramaticamente esse quadro, mas ela não é a origem do problema. Pior que isso: quando a crise passar, a coisa nunca mais será como antes. Como garantir seu emprego então nesse cenário?

A resposta reside em uma aparente contradição: pare de pensar no emprego! Você precisa começar a pensar em você! E goste ou não, esteja disposto ou não, o fato é que a solução para o problema passa necessariamente por voltar aos bancos escolares.

Sabe aquela história de que mau jogador de futebol “marca a bola”, ao invés do adversário? Na mesma linha, Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, costuma dizer que devemos prestar mais atenção nos consumidores que nos concorrentes.  O que as duas coisas têm em comum é um apelo para se concentrar naquilo que permite que você “agarre o touro pelos chifres”. Por isso, repetirei o que disse logo acima: pare de se preocupar com o emprego e comece a se preocupar com você! E esteja pronto para se reciclar!

Essa é uma mudança crítica na maneira de agirmos. Fomos acostumados a pensar que “temos que dar duro” e sermos corretos, porque assim, no fim do mês, o salário cairá em nossas contas. Não quero dizer que temos que abandonar esses valores –claro que não! Mas isso é resultado de décadas de governos paternalistas e de um sistema de ensino de base que ainda forma indivíduos para a Revolução Industrial, para executar tarefas com eficiência, respeitar a hierarquia, não questionar o status quo e não correr riscos.

Sinto ser o portador das “más notícias”, mas isso já era! E sempre foi, mas o modelo antigo, sedimentado desde a República Velha, acolhia esse comportamento. Só que a tecnologia digital, a globalização e as seguidas crises estão extirpando essa pseudossegurança da realidade.


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O vídeo acima nem é tão novo (dá para ver que alguns dados já estão desatualizados, mas foi a versão mais recente que consegui). Mesmo assim, traz alguns dados interessantes. Por exemplo, as profissões que mais contrataram em 2010 não existiam em 2004. E o Departamento de Trabalho dos EUA (equivalente ao nosso Ministério do Trabalho) estima que os estudantes americanos atuais terão passado por 10 a 14 empregos quando chegarem aos 38 anos!

Não faz muito tempo que ter uma boa faculdade e falar inglês eram suficientes para uma carreira vencedora até a aposentadoria. Entretanto, nesses tempos exponenciais em que o mundo se reinventa de maneira galopante, em que enormes quantidades de novos profissionais são despejadas no mercado a toda hora, isso ficou longe de ser suficiente.

Como resultado, a “idade de obsolescência profissional” está cada vez mais baixa. O vídeo traz outro incômodo dado: a quantidade de informação técnica está dobrando a cada dois anos. Ótimo, certo? Porém, em outras palavras, isso significa que o que um estudante em um curso técnico aprende no primeiro ano pode estar desatualizado quando ele chegar ao terceiro ano do curso. Ou seja, antes mesmo de se formar.

Como então querer segui adiante com o que aprendemos na faculdade, por melhor que ela tenha sido?

 

Melhores indivíduos, cidadão e sociedade

Felizmente algumas escolas já perceberam essa onda de mudança e estão transformando a maneira como ensinam e como formam os cidadãos. Não estou dizendo que devem começar a pensar apenas no mercado, criando pequenos mercenários, para quem os fins justificam os meios, e que relações afetivas devem ser suprimidas. Na verdade, é exatamente o contrário disso!

As boas escolas, desde o Ensino Fundamental até a universidade, são aquelas que reforçam valores como colaboração entre pares, desejo de correr riscos de uma maneira consciente, e trabalho para crescer como indivíduo e como profissional ao mesmo tempo em que se constroi uma sociedade mais justa e igualitária para todos. Em outras palavras, formam pessoas que se bastam e que estão dispostas a fazer com o outro, a empreender, a transformar o mundo, fugindo de zonas de conforto.

Um caso extremo dessa mudança, que já citei aqui várias vezes, e a Quest to Learn, escola pública em Nova York em que todas as aulas são dadas usando jogos, com resultados acadêmicos incríveis! Sei que isso é tão sensacional quanto difícil de implantar. Mas as mudanças podem ser promovidas gradualmente. De qualquer forma, mesmo que pequena, já trará bons resultados.


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Isso é excelente para os pequenos cidadãos, futuros profissionais. Só que agrava ainda mais a situação de quem já está no mercado, com o “jeito velho” de encarar o trabalho. Pois a turma que está chegando agora não apenas está com o lado técnico mais atualizado, como também pensa do “jeito novo”.

Acha que estou exagerando? Então, dê uma olhada a sua volta e veja as mudanças que a economia compartilhada está provocando na sociedade. Só para ficar em alguns exemplos óbvios, veja o que Uber (no transporte urbano), Airbnb (em hospedagem), Mercado Livre (no varejo) fizeram.

Mas o modelo de “open business” vai muito além, alterando a maneira como algumas empresas já trabalham. Há algumas semanas, contei aqui a minha experiência no Red Hat Summit, onde pude ver resultados muitos interessantes de colaboração até mesmo entre concorrentes, o que gerou um debate de alto nível. Pois é algo que, a princípio parece loucura, mas que, nessa nova realidade, traz resultados ótimos onde antes se via apenas risco. O próprio conceito de colaboração está se redefinindo. Em um outro artigo, mencionei sistemas de análise de big data, como os da SAP, que trabalham com quantidades gigantescas de dados médicos fornecidos pelas pessoas. Elas cedem essa informação para que seus médicos possam cuidar melhor de sua saúde individual, mas isso também permite que sejam criadas políticas de saúde e tratamentos mais eficientes para todos.

Mas como mudar a maneira de pensar depois de muitos anos no mercado?

 

De volta aos bancos escolares

Infelizmente não podemos mais nos matricularmos em uma Quest to Learn. Mas não quer dizer que não podemos continuar aprendendo coisas novas sempre!

Cursos de especialização, MBAs, mestrados e doutorados são opções interessantes para aumentar o nosso estofo acadêmico e até criarmos algo inédito para nossas profissões. Mas, como professor de pós-graduação, tenho observado com atenção uma busca crescente por cursos de extensão.


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O motivo é simples. Eles são bem mais curtos (e baratos) que as alternativas acima (normalmente duram apenas algumas semanas) e trazem conteúdos bastante atualizados e específico e de aplicação imediata no cotidiano profissional. Além disso, permitem que os alunos, que já são profissionais, façam um ótimo network com pessoas de sua própria área ou de outras, ligados por interesses em comum.

Isso traz vários ganhos interessantes, especialmente para aqueles com mais tempo de carreira. Muito mais que os “conteúdos frescos”, os alunos entram em contato com ideias profissionais diferentes, e até conflitantes. Isso abre a mente para visões diferentes do mercado. Por isso, não é de estranhar que muitos novos empreendimentos surjam desses cursos de extensão. Trata-se, portanto, de uma reciclagem múltipla.

Para concluir, gostaria de mencionar brevemente a premiada animação “Detona Ralph” (2012), da Disney. Para quem não assistiu (recomendo fortemente), ele conta a história de um personagem digital, que é o vilão de um antigo videogame. Mas, depois de 30 anos fazendo a mesma coisa, ele decide que quer mudar, e mudar para algo melhor. Mas, para isso, ele precisa sair de sua zona de conforto, correr riscos, conhecer gente nova e ajudar os outros.

Nessa hora de emprego escasso, todos nós somos Ralphs. Temos que querer melhorar, por nós mesmo e por quem está a nossa volta. Precisamos assumir o protagonismo de nossas vidas e, para isso, nos reciclar e parar de achar que algo ou alguém resolverá nossos problemas.

O que aprendemos até hoje pode ter nos definido até agora, mas o nosso futuro está em nossas mãos.


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Quem aguenta tanta opinião (e intolerância) nas redes sociais?

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Cena da animação “Yellow Submarine”: ter opinião é essencial, mas é preciso respeitar o outro - Imagem: reprodução

Cena da animação “Yellow Submarine”: ter opinião é essencial, mas é preciso respeitar o outro

Na última segunda-feira (26 de junho), estive com meu colega Top Voice João Paulo Pacífico para uma animada conversa sobre como a tecnologia digital vem mudando as empresas e a vida das pessoas. Hoje trabalhamos, estudamos, nos divertimos, compramos e até paqueramos de maneira completamente diferente do que fazíamos há uns 15 anos. Mas talvez uma das mudanças mais dramáticas é que hoje todo mundo é capaz de emitir a sua opinião sobre absolutamente qualquer coisa com o potencial de influenciar uma quantidade enorme de pessoas. Daí vem a pergunta: que tipo de opinião as pessoas estão emitindo pela rede e qual o impacto disso?

Tudo isso começou com a liberação da Internet comercial, em 1994. Mas o divisor de águas foi a combinação das redes sociais com os smartphones, o que aconteceu há mais ou menos uma década. Pela primeira vez na história, as pessoas tinham um computador poderoso e permanentemente online onde estivessem e a qualquer hora. Além disso, tinham o canal perfeito para falar o que bem entendessem. E foi aí que a porca torceu o rabo.


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A possibilidade de podermos nos expressar livremente é uma das coisas mais maravilhosas que existe, e os meios digitais elevaram isso a um patamar até então inimaginável. Mas o fato de podermos fazer qualquer coisa não nos dá o direito de abusarmos disso. No caso dessa chance de nos expressarmos, o exagero acontece na forma de discursos de intolerância e de ódio, pois afinal, “a minha opinião vale muito e é ela que tem que valer”.

Isso vem acontecendo com muita força há pouco tempo. As pessoas veem algo que não gostam e deixam de pensar com o cérebro, para pensar com o fígado. Daí descarregam nas redes sociais o resultado de tanta amargura, não importa se aquilo prejudicará ou simplesmente magoará alguém.

Entram em cena os algoritmos de relevância das redes sociais, que são construídos para colocar em contato pessoas que pensam de maneira semelhante. E então, aquela opinião carregada de sentimentos ruins, que antes ficaria restrita a um pequeno grupo, pode correr o mundo como um rastilho de pólvora e inflamar uma enorme quantidade de pessoas.

E o estrago pode ser gigantesco.

 

Transformando boatos em nitroglicerina

Também por influência dos meios digitais, as pessoas andam bastante imediatistas. Cresce a sensação de que temos que dar conta de uma quantidade cada vez maior de tarefas de todo tipo em um tempo cada vez menor, o que causa uma enorme fadiga mental. Um dos resultados disso é que, para conseguirmos fazer isso tudo, passamos a refletir menos sobre nossas ações.

Daí, nesse cenário, o indivíduo fica sabendo de algo que não gosta. Sem sequer checar se aquilo é mesmo verdade, sente uma necessidade de botar a boca no trombone e dizer ao mundo como não concorda com aquilo. Só que, como “quem conta um conto aumenta um ponto”, aproveita para jogar um pouco mais de gasolina na fogueira. Some a isso a capacidade de multiplicação das redes sociais e de repente, aquilo que talvez nem fosse nem verdade, ganha o poder destrutivo de uma enorme bomba.

Muita gente está inclusive ganhando muito dinheiro com isso. Eles produzem as chamadas “fake News”, conteúdo que parece ser verdadeiro, mas que, na verdade, só existe para inflamar as massas para que alguém tire algum proveito disso. E não é pouca coisa! Especula-se que Donald Trump tenha sido eleito presidente dos Estados Unidos com uma boa ajuda da “desinformação”, como esse fenômeno também é chamado.

Com isso, o direito legítimo de emitir a própria opinião pode se transformar em uma ferramenta de manipulação social eficientíssima, tudo porque falamos (ou repassamos o que ouvimos) sem pararmos para pensar direito naquilo.

Mas então ter opinião virou algo ruim?

 

Mesa de bar global

Claro que não! Mas, se o nosso direito cresceu muito, nossas responsabilidades associadas a ele cresceram na mesma proporção.

Há exatamente dois anos, o filósofo e escritor italiano Umberto Eco disse que as redes sociais deram voz a uma “legião de imbecis” antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” E continuou: “eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel (…) O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Eco carregou nas tintas, ao generalizar as opiniões que são publicadas na Internet com algo sempre rasteiro. Também foi infeliz ao sugerir no mesmo discurso, proferido quando recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim (Itália), que “especialistas” filtrem o que o resto das pessoas publiquem na Internet.

É verdade que qualquer um de nós pode falar besteiras em uma mesa de bar, e que agora essa mesa de bar tem alcance planetário. Só que simplesmente querer calar a multidão me parece uma espécie de censura prévia, promovida por uma aristocracia cultural. Além disso, trata-se de uma atitude inócua, pois as pessoas continuarão falando, e cada vez mais.

Portanto, ao invés de tentar silenciar as pessoas, deve-se trabalhar para que elas sejam conscientizadas do poder que suas palavras têm e que, portanto, pelo menos reflitam um pouco antes de emitir a sua opinião.

Perguntas simples, feitas antes de se publicar qualquer coisa, podem ajudar muito nesse processo. Por exemplo, “o que eu vou publicar é mesmo verdade ou só parece ser?” “O que estou prestes a dizer pode prejudicar ou ferir alguém?” “Eu preciso mesmo publicar isso?”

Não acho que o mundo seja formado por uma “legião de imbecis”, como disse Umberto Eco. Apenas algumas pessoas precisam de orientação. Pois poder exprimir a sua opinião é uma coisa maravilhosa, e os meios digitais são ferramentas incríveis para isso. Mas devemos sempre exercer esse direito com responsabilidade e consciência.

Quando isso é observado, os resultados podem ser incríveis! E a sociedade pode crescer muito.


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Qual é a melhor coisa de ter 300 mil seguidores?

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O professor Keating, de “Sociedade dos Poetas Mortos”, explica a seus alunos a importância de cada um exercer o seu papel no mundo - Imagem: reprodução

O professor Keating, de “Sociedade dos Poetas Mortos”, explica a seus alunos a importância de cada um exercer o seu papel no mundo

Na noite desta quinta (22 de junho), atingi a marca de 300 mil seguidores no LinkedIn. É um número incrível, que me encanta e ainda me surpreende! E, pelo jeito, também a muita gente, pois toda semana alguém me pergunta o que eu ganho com isso.

Só que, depois de trilhar esse caminho por quase dois anos, eu cheguei à conclusão que nada supera a alegria de perceber que consegui construir, com a ajuda de cada uma dessas pessoas, um espaço virtual de troca de ideias e de experiências em que todos os participantes ganham. E isso é um tremendo privilégio!

Isso só foi possível porque o algoritmo do LinkedIn é muito mais generoso que o de outras redes sociais, e eu descobri isso da melhor maneira possível.  O Facebook, por exemplo, coloca no seu feed de notícias posts das pessoas que você já conhece e se relaciona, o que talvez faça sentido ali. Porém o do LinkedIn é muito mais eficiente para nos mostrar IDEIAS, mesmo de pessoas com quem temos pouca ou nenhuma relação!

As ideias são o que movem esse mundo, são o que inspiram as pessoas a ser melhores, são o que dão sentido a nossas vidas. Especialmente em um momento tão difícil em nossa país, com uma crise política e econômica que parece não ter fim, que atrapalham muito os negócios, geram desemprego, e deprimem toda a população, não podemos entrar nesse turbilhão que nos leva para mais fundo.

E o motivo é simples: todos nós temos o nosso papel nesse mundo! Não se engane: qualquer um pode contribuir com a sociedade, de um jeito ou de outro. Cada um tem algo de bom a oferecer a quem está a sua volta. Para alguns, isso jorra naturalmente; às vezes, é necessário algum estímulo.

Por isso, poder compartilhar ideias com tanta gente não tem preço e por isso sou agradecido.

Há alguns dias, estava me lembrando da poesia “O Me! O Life!”, do escritor americano Walt Whitman (1819 – 1892), que acho que combina muito bem com essa discussão. Nela, Whitman questiona o que pode ser encontrado de bom em meio a um mundo cheio de mazelas. E sua resposta é belíssima. Transcrevo abaixo o texto em inglês, seguido de uma versão em português:


O Me! O Life!

O Me! O life!… of the questions of these recurring;

Of the endless trains of the faithless -of cities fill’d with the foolish;

Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I, and who  more faithless?)

Of eyes that vainly crave the light – of the objects mean- of the struggle ever renew’d;

Of the poor results of all – of the plodding and sordid crowds I see around me;

Of the empty and useless years of the rest – with the rest me intertwined;

The question, O me! so sad, recurring – What good amid these, O me, O life?

Answer.

That you are here – that life exists, and identity;

That the powerful play goes on, and you will contribute a verse.


Ó eu! Ó vida!

Ó eu! Ó vida!… Destas perguntas recorrentes;

Dos infindáveis trens de incrédulos – das cidades cheias de insensatos,

De mim mesmo sempre me censurando, (quem é mais tolo que eu, e quem é mais desesperançoso?)

Dos olhos que em vão suplicam pela luz – do significado dos objetos – do esforço sempre renovado;

Dos resultados insignificantes de tudo – das lentas e sórdidas multidões que vejo ao meu redor;

Dos anos vazios e inúteis que restam – com o resto de mim entrelaçado;

A pergunta, ó eu! tão triste, recorre – O que há de bom em tudo isso, ó eu, ó vida?

Resposta.

Que você está aqui – que a vida existe e identifica;

Que a poderosa peça teatral continua, e que você contribuirá com um verso.


Tive contato com esse texto pela primeira vez no filme “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), quando o icônico professor Keating (Robin Williams) recita seus versos para inspirar seus alunos da ultraortodoxa Academia Welton. Ele certamente me inspirou na maneira como decidi ser um professor, um palestrante e a pessoa que sou hoje.

Pois, como se pode ver, por mais desesperançoso que o mundo possa parecer no momento, sempre há algo de incrível nele. E isso pode vir de dentro de você, daquilo que você compartilha com o outro, da sua vontade de construir algo grandioso, do seu verso.

Qual será o seu verso?


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Pense para agir, mas não perca muito tempo nisso

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Steve Jobs “mostra o dedo para a IBM”, em clássica foto de dezembro de 1983, tirada poucas semanas antes do lançamento do Macintosh – Imagem: reprodução

Steve Jobs “mostra o dedo para a IBM”, em clássica foto de dezembro de 1983, tirada poucas semanas antes do lançamento do Macintosh

Quem trabalha com mídia digital desde seu surgimento, como eu, acaba acumulando muitas histórias que vivenciou ou simplesmente ouviu falar. E é interessante notar como aprendizados do passado podem ser aproveitados hoje por qualquer profissional ou empresa. Gostaria de compartilhar com vocês uma história com Steve Jobs, da qual lembrei há alguns dias.

Não é segredo nenhum o desprezo que Jobs tinha pela IBM e seu modo de fazer negócios, que considerava, no mínimo, anacrônico. Mesmo assim a história conta que, em 1983, o fundador da Apple visitou a “Big Blue”, onde não pôde deixar de notar o slogan “PENSE” (ou “THINK”, no original em inglês) presente em todo lugar. Perguntou então ao executivo da IBM que o acompanhava o que era aquilo. Criado pelo lendário CEO da IBM Thomas J. Watson, o slogan sugeria que os funcionários da IBM levassem tudo em consideração antes de tomar suas decisões.


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Em 24 de janeiro de 1984, a Apple lançou o Macintosh, que revolucionou a microinformática introduzindo o conceito de interface gráfica em um computador para as massas. Alguns meses depois, o executivo da IBM se encontrou novamente com Jobs e perguntou a ele como a Apple tinha conseguido conceber uma máquina tão incrível! A resposta veio carregada de ironia:

“Nós não paramos muito para pensar.”

Jobs fez parecer que o Macintosh –nome original do Mac– tivesse nascido de uma epifania dele e de sua equipe, da noite para o dia. Claro que não foi assim: foi um processo longo, árduo, muitas vezes doloroso, e que envolveu até a “usurpação” dos conceitos do mouse e da interface gráfica, como pode ser visto no trecho acima do filme “Piratas da Informática”. Mas esse jeito impetuoso, ignorando o status quo e aproveitando as oportunidades (especialmente quando ainda ninguém percebia o que estava acontecendo) era uma das marcas de Jobs.

Evidentemente novos Macintoshes não são lançados a toda hora. Mas essa história guarda um aprendizado muito interessante. Sim, temos que pensar antes de tomar decisões importantes em nossas carreiras e em nossas empresas. Mas não podemos perder muito tempo nisso, e também temos que dar ouvido a nossos instintos e lutar pelo que acreditamos.

E chega a hora em que temos que pôr a banda na rua.

 

Identifique e aproveite as oportunidades

Como diz o ditado, “cavalo selado não passa duas vezes”. Em outras palavras, quando grandes oportunidades se apresentam a nós, não devemos desperdiçá-las, pois talvez não tenhamos de novo a mesma chance.

Parte da genialidade de Jobs se deve ao fato de ele montar nos cavalos selados que via, mas também em domar potros selvagens dos quais ninguém queria se aproximar. Foi assim que ele conseguiu mudar o mundo pelo menos quatro vezes: ao lançar o Apple II (1977), o Macintosh (1984), o iPod (2001) e o iPhone (2007).

Com exceção do Apple II, todos esses produtos foram bem planejados, claro. Mas eles só viram a luz do Sol porque Jobs tinha uma ideia clara para cada um deles, visões que, em incontáveis ocasiões, o colocaram em rota de colisão com sua própria equipe. Mas ele sempre forçou a barra para que tudo fosse como ele acreditava, em parte por ter um ego gigantesco, mas em parte (felizmente) por saber que era o certo a ser feito, por mais que tivesse que desafiar o mundo.

Trazendo para a nossa realidade, essa história se manifesta quando estamos diante de decisões que provocarão mudanças significativas em nossas carreiras ou nossos negócios. Nem sempre elas envolverão grandes riscos, mas exigirão que pensemos menos e ajamos mais, que enxerguemos algo que não está muito claro, e que acreditemos nessa visão.

Posso falar pela minha própria carreira. Algumas das melhores decisões da minha vida vieram desses pequenos “saltos de fé”, como quando eu troquei a engenharia pelo jornalismo, quando deixei o jornalismo impresso (que estava no seu auge, em 1995) pelo digital (que ninguém sabia o que era), ou quando abandonei uma posição confortável na área de produção pelo marketing. Em todos os casos, muita gente se apressou a dizer que eu estava tomando decisões erradas (e, à primeira vista, pareciam mesmo). Mas, em todas elas, segui minha intuição.

Ainda bem!

 

Preste atenção no mundo

Steve Jobs estava acima da média pois via muito além do que todos os executivos viam. Por isso, ele conseguiu fazer tudo o que fez. Mas não precisamos ter essa supervisão para tomarmos atitudes incríveis, pois elas podem surgir de coisas simplórias do nosso cotidiano.

Vou usar como exemplo um incidente que aconteceu no dia 15 de janeiro e que provocou enorme discussão nas redes sociais: uma moça foi literalmente levada pela enxurrada ao tentar entrar no restaurante Paris 6, em São Paulo. O constrangedor fato foi filmado por alguém e acabou no YouTube, “viralizando” rapidamente. Claro que a moça não jantou naquela noite.

Poderia ter sido só mais um dos incontáveis acidentes urbanos que acontecem todos os dias. O estabelecimento também poderia não ter feito nada sobre isso: afinal, ele não teve nenhuma culpa ou participação no fato. Mas ele fez: poucas horas depois do acidente, iniciou uma campanha nas redes sociais para descobrir quem era a vítima, para lhe presentear com um jantar (que acabou se transformando em um VIP vitalício diante da enorme repercussão do fato). A ação se espalhou feito rastilho de pólvora na Internet (no momento, o post original está com 169 mil “reações” no Facebook) e ganhou até espaço na imprensa. A vítima foi rapidamente identificada e ganhou o seu presente.

Na época, muita gente criticou o Paris 6, classificando a iniciativa de “marketing barato construído sobre o sofrimento alheio”. Não concordo com isso.

Sim, o Paris 6 foi oportunista. Mas não no sentido negativo da palavra, e sim porque identificou uma oportunidade e agiu rapidamente, criando algo positivo para sua marca, sem expor a vítima (que então nem era conhecida). Aliás, grande parte do sucesso da iniciativa se deve ao fato de o estabelecimento tratar a cliente como uma pessoa, demonstrando empatia. Sobre tudo isso, claro, souberam aproveitar bem os recursos dos meios digitais.

Ou seja, montaram no cavalo selado!

Lançar um computador revolucionário ou criar um post oportunista (no bom sentido) são coisas muito diferentes. Mas, deixando de lado a abissal distância entre um e outro, as duas coisas só aconteceram porque uma oportunidade foi identificada e aproveitada da melhor maneira possível: pensando, claro, mas também agindo! Nos dois casos, surgiram críticas (e elas sempre aparecem), mas o “dono da bola” bancou o que acreditava até o fim. E, por isso, fez a diferença colheu os louros.

Portanto, cuidado para não ficar empacado em seus pensamentos, especialmente naqueles mais brilhantes. Mesmo que muita gente torça o nariz, não deixe que isso apague a chama de seus sonhos ou as suas iniciativas mais brilhantes. Acredite e monte no cavalo!


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Seu sucesso pode vir quando você tocar a vida de alguém

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Imagem: Visual Hunt / Creative Commons

Eu sei: a vida não está fácil; a crise não dá sinais de trégua. Nessas horas, o velho ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro” ganha força! Uma multidão corre atrás do seu sucesso, tentando demonstrar sua competência, se especializando e, às vezes, até mostrando os dentes agressivamente. Mas minhas andanças nesses últimos tempos –e tenho andado cada vez mais vezes e mais longe como Top Voice– têm reforçado uma velha crença minha: seu sucesso pode vir dessas ações focadas em você, claro. Mas ele virá mais rapidamente e melhor quando você tocar a vida das pessoas. E as redes sociais podem ser ótimas para isso, desde que bem usadas.

O motivo é muito simples: nunca sabemos de onde virá o sucesso, assim como não dá para antecipar o próximo vídeo viral. Por mais que tracemos uma meta e trabalhemos duro para ela, não há nenhuma garantia que chegaremos lá, pois sempre há uma variedade de fatores externos que não estão sob nosso controle.


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Uma boa maneira de ampliar nossas chances é trazer mais gente boa para nosso barco. Não como funcionários, fornecedores ou mesmo clientes. O melhor tipo de companheiro nessa jornada é aquela pessoa que, mesmo não o conhecendo pessoalmente, saiba de seu propósito, seus valores, seus sonhos, e concorde com neles!

Como fazer isso? Falando com os outros, demonstrando empatia com pessoas e causas em que você acredite, estando genuinamente aberto para ajudar o próximo no que for possível. Não é doação financeira, não é trabalho voluntário (apesar de essas ações também serem muito positivas). É algo mais poderoso que isso: estar disponível e com o coração desarmado até para pequenas ações, como ouvir o que o outro tem a dizer, dar um conselho, compartilhar boas ideias.

Nesse tipo de alinhamento, existe uma combinação rara de conversa com o cérebro e com o coração do outro. Seu novo companheiro estará então com você promovendo o que você acredita e, de quebra, o que você é e o que você faz. Em outras palavras, o resultado disso é uma reputação consistente naquilo que você faz, algo inestimável no mundo atual dos negócios.

A essa altura do campeonato, alguns podem estar achando isso um tanto oportunista e até maquiavélico.

E é aí que você escolhe os bons companheiros de jornada.

 

Não existe gentileza falsa

Há muitos anos, meu chefe na época me disse algo que nunca mais esqueci: “não existe percepção errada”. Você pode criar um produto incrível, comunicá-lo da melhor maneira possível. Mas nada impede que seus clientes entendam tudo diferentemente. Eles terão percebido as coisas assim! E não é uma “percepção errada”, pois é a percepção deles.

Da mesma forma, não existe gentileza de mentira. Ou você é ou você não é. Quem fica se esforçando (talvez sofrendo) para ser gentil na verdade não é nada disso.

É por isso que, se você conseguir fazer o que propus de uma maneira leve e natural, você jamais estará sendo oportunista e muito menos maquiavélico. Por isso, não tenha medo de julgamentos.

E sabe o que é o mais interessante disso tudo? As pessoas percebem o que você realmente é!

Voltando ao campo dos negócios, não há melhor propaganda que essa! Pelo simples fato de que não é publicidade: ninguém está pagando nada a ninguém. É uma troca genuína de ideias e de propósitos, que pode render novos clientes e até novos mercados para os envolvidos.

Esse tipo de comportamento precisa de incentivo e de divulgação, seja dentro da empresa para clientes, fornecedores, parceiros e o público em geral. As redes sociais, e o LinkedIn particularmente, são provavelmente as melhores ferramentas para essa nobre tarefa. Pois elas propagam ideias muito, muito além de nossos limites pessoais. E de uma maneira mais convincente que qualquer propaganda.

Tem que espalhar!

 

Ouça mais, fale menos

Em outra experiência profissional que tive há muitos anos, em uma empresa de alta tecnologia que respirava valores típicos do Vale do Silício, os funcionários começaram a pedir para conversar com o presidente para lhe exporem suas ideias para o negócio e suas percepções (de novo elas) sobre a empresa. Acontece que, naquele momento, o presidente era alguém com uma visão mais conservadora de gestão. Por isso, sua resposta a esse clamor generalizado foi colocar uma caixinha de sugestões com o logo da empresa no saguão do andar da diretoria.

Sabe de nada, inocente!

Nem uma única sugestão jamais entrou na tal caixinha! Os funcionários se sentiram desprestigiados e o presidente ainda virou motivo de chacota. Pois ele não entendeu nada! E não entendeu porque, no fundo, ele não queria ouvir coisa alguma daquelas pessoas.

Para infelicidade geral, ele foi o presidente que conduziu a empresa ao encerramento de suas operações, algum tempo depois.

Quando queremos construir um relacionamento de qualquer natureza, pessoal ou profissional, precisamos estar preparados para ouvir o que o outro tem a dizer. E, nesses tempos acelerados, essa é uma virtude cada vez mais difícil de se encontrar. Pois todos parecem ter algo a dizer, inclusive para demonstrar como são competentes e que, assim, merecem uma chance de atingir o sucesso.

Só que o mais sábio não é aquele que tem muito a dizer, é aquele que sabe ouvir mais que falar, e, com isso, construir algo positivo para todos.

Parece óbvio. Aliás, muitos podem pensar que esse texto está cheio de obviedades. E está mesmo.

Mas então por que tão pouca gente age assim?

Ser gentil, demonstrar empatia, viver com humildade estão entre as coisas mais nobres e valiosas que qualquer um pode oferecer ao outro. Esse alto valor vem justamente da sua raridade. O que é uma pena, pois tem um grande poder de transformação pessoal e social.

Então, se a crise está feia e a necessidade de alcançar o sucesso nunca pareceu tão importante, comece a prestar mais atenção a quem está a sua volta, ainda que virtualmente nas redes. Ouça o que têm a dizer. Retribua! Ofereça algo de coração a todos. Esse é o melhor caminho para o sucesso hoje.


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Por que colaborar é melhor que competir, até entre concorrentes

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Cena de “The Wall”, ópera rock do Pink Floyd: escolas massacrando alunos, matando sua criatividade e colaboração, e promovendo a competitividade – Imagem: reprodução

Cena de “The Wall”, ópera rock do Pink Floyd: escolas massacrando alunos, matando sua criatividade e colaboração, e promovendo a competitividade – Imagem: reprodução

Se você costuma me acompanhar aqui no LinkedIn, provavelmente sabe que estive em Boston (EUA) na semana passada, participando do Red Hat Summit. Quando me perguntam qual foi a coisa mais bacana que vi lá, eu respondo: o conceito de colaboração que permeava o evento. Fiquei impressionado como até mesmo concorrentes podem fazer isso com grande sucesso! Então eu lhe pergunto: você e sua empresa conseguiriam fazer isso hoje?

Não chega a ser uma surpresa ver tanta colaboração em um evento de uma companhia que é a líder mundial em software open source. Mas o que me chamou a atenção é como essa filosofia transcendeu o desenvolvimento de software e está modificando a maneira como empresas de qualquer ramo fazem seus negócios, de uma maneira mais moderna, ágil e eficiente.


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Para quem não sabe o que open source, trata-se de uma modalidade de desenvolvimento em que alguém baixa um software cujo código-fonte está “aberto” (pronto para ser editado), realiza modificações no produto e o republica para que outros possam fazer outros incrementos a partir dessa versão melhorada. Entre as vantagens disso, estão produtos com mais recursos e muito mais estáveis, pois, ao invés de ser desenvolvido apenas pela equipe de uma empresa, é melhorado por uma boa parte de toda a comunidade de seus usuários. O exemplo mais emblemático dessa modalidade é o Linux, um sistema operacional que rivaliza com o Windows, especialmente em servidores corporativos.

No caso de negócios, a colaboração pode surgir de diferentes maneiras, como, por exemplo, no compartilhamento de recursos. Um exemplo interessante é o do Estadão e da Folha, que entregam seus jornais com os mesmos caminhões já há alguns anos. Concorrentes ferozes nos anos 1990, inclusive para ver quem chegava primeiro às bancas, a crise dessas empresas fez com que elas percebessem que era muito mais vantajoso juntar forças nessa questão operacional e continuar concorrendo naquilo que é realmente o seu negócio: a produção de conteúdo.

Aliás, a concorrência cada vez mais acirrada é hoje uma grande impulsionadora para a colaboração. Mas nem sempre foi assim. O ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro” explica o pensamento ainda dominante no mundo empresarial, que preconiza que, se o mercado está pequeno, se os recursos são escassos, o melhor a fazer é pisar na cabeça do concorrente e, se possível, tirá-lo do negócio.

Nada mais equivocado!

 

Colabore no essencial, concorra no diferencial

Empresas que já aprenderam a surfar nesse novo mundo colaboram até mesmo no desenvolvimento de seus produtos. E, como disse anteriormente, isso é viável até mesmo entre concorrentes! Isso é possível porque produtos semelhantes costumam ter características básicas iguais entre si. O que os diferencia é o refinamento que surge acima disso.

Apesar disso, em muitos casos, a construção desse alicerce comum acaba tomando a maior parte do tempo e dos recursos de desenvolvimento. Oras, se ele é indiferenciado entre concorrentes, por que então não juntarem suas forças nessa etapa?

Os benefícios imediatos são uma considerável redução nos custos e aumento na agilidade no desenvolvimento. Além disso, o produto final será potencialmente melhor que se fosse feito individualmente por cada empresa, pois ele será resultante de companhias diferentes, o que minimiza potenciais vícios empresariais de cada participante, que podem limitar bastante o escopo do produto. Além disso, cresce a base de clientes dessa solução e suas demandas, o que o torna mais atraente do ponto de vista comercial.

Claro que será necessária a criação de mecanismos para evitar que segredos industriais e comerciais vazem. Mas isso já faz parte do negócio, e a criação de processos bem definidos pode eliminar esse risco.

Mas há quem vá ainda além.

 

Negócios abertos e compartilhados

Algumas companhias vão além disso e adotam o conceito de “open business”. Derivado do “movimento open”, essas companhias possuem uma gestão colaborativa, onde funcionários e até mesmo consumidores participam da tomada de decisões em uma escala inimaginável para empresas tradicionais. Até mesmo as finanças são apresentadas de maneiras transparente.

Parte desses conceitos podem ser encontrados em empresas da chamada economia compartilhada, que tem no Uber e no AirBnB algumas de suas maiores estrelas. Essas companhias e seus modelos de negócios disruptivos estão redefinindo alguns pilares do capitalismo.

Talvez a mudança mais dramática que isso promova seja a construção de uma consciência de que não é mais necessário ter algo para usufruir de seus benefícios. O exemplo clássico disso é a furadeira. Quem tem uma em casa sabe que ela é usada muito, muito raramente. Então por que precisamos comprar uma?

O Uber partiu desse princípio para criar um negócio com milhares de pessoas que têm um recurso ocioso (no caso, um carro) e decidem ganhar algum dinheiro com isso. Por outro lado, um número ainda maior de consumidores pode usufruir de um serviço de transporte diferenciado sem precisar comprar um automóvel. Só para ficar no exemplo dos carros, quem quiser conseguir um sem motorista, pode recorrer ao PegCar, em que indivíduos colocam seus veículos para alugar. Bom para os clientes, bom para os donos dos carros. Ruim para as locadoras convencionais.

 

Mundo exponencial

A verdade é que hoje vivemos em um mundo exponencial. Quem tem mais de 30 anos aprendeu a pensar de uma maneira linear: fazemos uma coisa, depois outra, depois outra, todas elas encadeadas e com uma relação de dependência entre si. Fomos educados dessa forma!

É como construir um muro colocando um tijolo ao lado do outro, até completar uma linha, e só então partir para a de cima. Mas o que se vê, cada vez com mais força, são empresas e pessoas (especialmente entre as mais jovens) que descobriram maneiras melhores para se levantar esse muro. E isso acontece de uma maneira que poderia ser considerada anárquica pelos métodos convencionais, pois vários indivíduos trabalham no muro juntos, ao mesmo tempo, cada uma colocando o tijolo onde acha melhor. Em alguns casos, cada um traz o seu próprio tijolo! Mas longe de ser uma bagunça, isso representa a inventividade e a capacidade de colaboração, resultando em um muro melhor e concluído mais rapidamente.

É interessante observar que as crianças nascem colaborativas. Elas gostam de fazer coisas com outras crianças (e até adultos). Mas então por que, quando ficam mais velhas, as pessoas não são mais assim?

A resposta provavelmente está nos bancos escolares. Nosso sistema educacional tem uma estrutura que é essencialmente a mesma desde o século XIX. As escolas ainda formam indivíduos com a cabeça na Revolução Industrial, onde, mais importante que questionar ou inovar, era obedecer e executar. Uma visão digna da ópera-rock “The Wall”, do grupo Pink Floyd, que ilustra esse artigo.

E isso é um crime contra as crianças e contra toda a sociedade!

 

Escolas e iniciativas do futuro

Felizmente, muitas escolas, inclusive no Brasil, estão conseguindo se libertar dessas amarras com o passado e promovendo uma revolução no ensino, formando cidadãos capazes de viver no mundo atual de uma maneira construtiva e colaborativa. Em alguns casos, a mudança é realmente imensa, como no da escola nova-iorquina Quest to Learn, em que todas as aulas acontecem a partir de jogos, com resultados acadêmicos impressionantes! Aqui mesmo, neste espaço, falamos sobre ela, criando um ótimo debate.

Mas não só as escolas podem ajudar a incentivar as habilidades de colaboração e inventividade de crianças e adultos: as empresas também podem fazer isso. Nessa minha visita à Boston, tive a oportunidade de conhecer o projeto Co.Lab, realizado pela mesma Red Hat. Resumidamente, trata-se de uma iniciativa para aproximar meninas da tecnologia e de conceitos de colaboração. Para isso, elas montaram suas próprias câmeras digitais usando um Raspberry Pi, um pequeno computador de apenas US$ 35 que também incorpora o “modelo open” em sua concepção. Depois elas tiveram oportunidade de sair pelas ruas da cidade e fotografar tudo que elas quisessem para, posteriormente, criar colaborativamente uma releitura de um poema de Emily Dickinson. O vídeo logo no início desse artigo traz detalhes dessa bela iniciativa.

Se pensarmos bem, o que estamos fazendo exatamente aqui também é um bom exemplo de colaboração. Um dos maiores prazeres que tenho no LinkedIn é justamente fomentar debates em torno de temas que sejam importantes para a sociedade.

Vejam que eu disse “debate”, pois os artigos e atualizações que publico aqui são modestamente apenas pontos de partida para discussões. Elas são construídas com a colaboração de centenas de pessoas, que generosamente oferecem parte do seu tempo para tecer comentários com informações que enriquecem ainda mais o conteúdo já existente. E o resultado disso fica disponível para todos.

Portanto, diante de tudo isso, se os negócios estão difíceis, eu sugiro fortemente que você considere a possibilidade de trabalhar com outras empresas, mesmo que sejam concorrentes. Essa divisão do fardo pode deixar todos mais ágeis. E aí todo mundo ganha: as próprias empresas, seus funcionários e a sociedade, que fica mais moderna e humana.


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By | Educação | 2 Comments

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Você fez o que lhe disseram para fazer para sua careira ou seu negócio decolar nos meios digitais: montou um site moderno e amigável, criou perfis em várias redes sociais e faz muitas publicações neles, paga campanhas de marketing online… Talvez até tenha um aplicativo para smartphones só seu! Mesmo assim, o retorno não vem: parece que ninguém percebesse a sua existência. O que pode estar errado?!?!

O problema é que ter uma boa presença digital, como explicado acima, já não é mais suficiente. Com o barateamento dos custos e a melhoria nas ferramentas, qualquer um pode fazer tudo isso. E acredite: tem um monte de gente fazendo! Então, trocou-se a dificuldade de se diferenciar no mercado físico por uma dificuldade de se diferenciar no mercado digital.

A solução para fugir desse mar de mesmice é desenvolver outra característica: a reputação digital. Ontem realizei uma transmissão ao vivo no Facebook (um Facebook Live) sobre o tema. Caso queira também ver sua íntegra, ela está logo abaixo (47 minutos):


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Reputação –digital ou qualquer outra– não é algo que pode ser comprado. Ela precisa ser conquistada. E isso só acontece quando o profissional ou a empresa começam a se relacionar genuinamente, demonstrando empatia verdadeira com seu público. Pode parecer óbvio –e, de certa forma, é mesmo. Mas, como tantas outras obviedades da vida, ela é muito conhecida e pouco praticada.

Acontece que a maioria continua fazendo marketing como nos anos 1980. As faculdades –e até cursos de pós-graduação– ainda se dedicam a ensinar o conceito dos “4 Ps do marketing” (Produto, Preço, Praça, Promoção). Ou seja, manipulando essas quatro variáveis você supostamente conseguiria posicionar bem qualquer coisa no mercado.

No final das contas, quem acaba, de certa forma, sendo manipulado é o consumidor. As campanhas de marketing tentam empurrar goela abaixo do público sua mensagem, na expectativa que as pessoas mordam a isca e paguem pelo produto.

Mas Kotler, já no final do século XX, dizia que esse formato começava a se esgotar, que as empresas precisavam criar maneiras alternativas de se posicionar, parando de empurrar a sua mensagem e criando algo que fizesse com que as pessoas quisessem vir até a empresa espontaneamente.

O guru máximo do marketing disse isso uns dez anos antes do surgimento das primeiras redes sociais. Agora, com esses sistemas praticamente onipresentes no cotidiano das pessoas e das empresas, algo incrível aconteceu.

As pessoas ganharam voz e, com isso, muito poder.

 

De público a fã

Se desde os tempos de Orson Welles, as pessoas acreditavam muito facilmente no que a mídia dizia, as coisas têm mudado dramaticamente, especialmente nos últimos dez anos. A explosão do uso de smartphones e a virtual onipresença das redes sociais foram fatores decisivos para isso, pois o acesso e o compartilhamento de  informações têm crescido freneticamente.

Além disso, as pessoas agora têm capacidade de publicação que rivaliza, em alguns aspectos, com o que antes se via apenas na grande imprensa. Isso tirou o público de sua situação de passividade, colocando-o no centro das ideias. Mas a maioria dos profissionais (que curiosamente constituem o mesmo grupo citado no parágrafo anterior) e das empresas ainda tem dificuldade de perceber isso, insistindo em manter seu público fora da conversa, na velha posição de passividade.

Grande erro! Ao fazer isso, perdem justamente a melhor oportunidade que têm de se diferenciar na mesmice de ofertas e concorrentes.

Claro que qualquer um pode criar sofisticadas (e caras) campanhas de marketing para promover sua marca e aumentar suas vendas: nenhum problema nisso. Mas, como dito anteriormente, isso não gera reputação, ela não pode ser comprada. Quando acaba o dinheiro do marketing, o residual pode ser decepcionante, especialmente diante de concorrentes mais modernos e ágeis.

É preciso transformar o público em admiradores e até em fãs: nessa hora, o caminho para consolidar uma boa reputação está aberto. Mas ainda há algo mais a fazer.

Você precisa conversar com as pessoas.

 

De fã a amigo

Profissionais e empresas precisam aprender a conversar com seu público, principalmente com aqueles que já gostam do que eles fazem. E, como explicado acima, as pessoas querem falar. Mais que isso: querem ser ouvidas e respondidas! Querem, mas como isso ainda é algo raro, não esperam. Isso abre uma oportunidade de ouro para quem a souber aproveitar.

Justamente por essa tradicional apatia empresarial, que plantou uma baixa expectativa entre os clientes, quando alguém recebe uma resposta, chega a ser quase uma surpresa. Afinal, alguém do outro lado investiu seu tempo para escrever algo. Infelizmente, na maioria das vezes, essa resposta não atende as expectativas de cliente, por ser burocrática e fria. E aí vem a dica de ouro: dê adeus às respostas prontas e automatizadas.

Se receber uma resposta –qualquer uma- já traz uma boa sensação à pessoa, receber uma resposta que genuinamente demonstra interesse no que foi dito, propondo uma solução, uma opinião, ou até mesmo um singelo agradecimento pode ter um efeito incrível!

“Empatia”, “gentileza”, “honestidade” são palavras poderosíssimas, capazes de fazer toda a diferença no posicionamento de qualquer um, seja no meio digital ou não. Portanto, invista nisso! Tenha pessoas inteligentes, com a mente aberta e um bom coração prontas para se relacionar com seu público: ele reage muito bem a pessoas assim.

Quando se chega nesse ponto, o profissional ou a empresa mudam de patamar. Seu público seus clientes se transformam em fãs, em alguns casos (quando se trata de profissionais) até mesmo em amigos. E essas pessoas ficarão felizes não apenas de comprar seu produto, como também de compartilhá-lo com sua rede.

É importante que fique claro que isso não pode ser uma manipulação maquiavélica, nada de ser bacana esperando algo em troca desde o começo. As pessoas percebem a diferença. E gentileza deve ser dada de graça, para que o retorno seja positivo.

Acha que isso é inviável? Pois saiba que eu sou um case para mim mesmo. No momento em que estou escrevendo isso, tenho quase 148 mil seguidores no LinkedIn, com uma taxa de crescimento de mil novos por dia. Antes do fim da semana, chegarei a emblemática marca de 150 mil. Além disso, em dezembro tive a alegria de ser considerado o sétimo brasileiro com mais destaque na mesma rede, pelo prêmio LinkedIn Top Voices. Isso foi conquistado sem investir um único centavo: é fruto do meu desejo de compartilhar ideias e ajudar as pessoas na própria rede, seja com artigos como esse, seja respondendo a todos os comentários e mensagens que recebo.

Isso consome muito tempo? Razoavelmente: aproximadamente uma hora por dia. Eu mesmo faço isso, pois quero ter o prazer de conversar com as pessoas. Como se pode ver, longe de ser algo humanamente impossível.

O que eu ganho com isso? Mais que milhares de seguidores, eu construí uma rede de pessoas que –acredito– gostem do que eu faço. Elas me ajudaram a construir e agora me ajudam a manter essa minha reputação digital. Isso me tira do mar da mesmice de concorrentes, me dá uma posição de destaque. E, dessa forma, quando eu promovo algum serviço meu, as vendas acontecem de uma maneira muito mais fácil e natural.

Portanto, quer ver seu investimento nos meios digitais dar retorno? Comece a fazer amigos.


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Dá para pular de cabeça no trabalho? Ou isso é coisa de “velho”?

By | Educação, Tecnologia | One Comment

Foto: Neil Moralee/Creative Commons

A publicação de um livro promete esquentar o debate sobre se redes sociais ajudam ou atrapalham no trabalho. Mais que isso, reabre discussões como se apenas é possível conseguir bons resultados concentrando-se totalmente nas tarefas ou ainda o choque de gerações no uso dos meios digitais como ferramenta de produtividade.

Seu título é “Deep Work: rules for focused success in a distracted world” (“Trabalho Profundo: regras para sucesso focado em um mundo distraído”, em uma tradução livre, pois ainda não foi lançado no Brasil), do pesquisador Cal Newport, da Universidade de Georgetown (EUA). Segundo sua teoria, as constantes distrações de inúmeras ferramentas digitais criam o que ele chama de “shallow work” (ou “trabalho raso”), de má qualidade e pouco produtivo.


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Para justificar sua tese, Newport usa o conceito de “atenção residual”, uma característica de nosso cérebro que faz com que, ao mudarmos de uma tarefa para outra, parte da nossa atenção permanece na tarefa original. Oras, se os estímulos digitais estão constantemente competindo por nós, isso seria levado às últimas consequências, impedindo que consigamos nos concentrar efetivamente em algo (no caso, no trabalho) e, dessa forma, obter um bom resultado dele.

O que ele propõe para resolver isso? Limitar dramaticamente o uso da tecnologia digital.

Em um primeiro momento, a teoria de Newport parece bastante razoável. Afinal, não precisa ser gênio para compreender que constantes interrupções minam a produtividade de qualquer um. Mas ele escorrega ao supor que todo mundo funcione da mesma maneira, e ao radicalizar na possível solução.

É claro que passar o dia no Facebook ou no WhatsApp trará prejuízos ao trabalho de qualquer um, não pelo impacto da “atenção residual”, mas também pelo tempo gasto nas interações nas redes sociais, que supostamente deveria estar sendo dedicado ao trabalho. Isso não se discute!

Mas muita calma nessa hora!

 

Suicídio digital?

Isso é muito diferente de simplesmente sumir das redes sociais. A menos que você seja um ermitão, que more isolado da sociedade e supra todas as suas necessidades sozinho (e aposto que você não é), você não pode ignorar as redes sociais. pelo simples fato que AS PESSOAS ESTÃO LÁ! Não estou dizendo que você precisa participar de todas as redes da moda, mas pelo menos aquelas que têm relação com o que você é e faz.

Como sugere Newport, esse quase suicídio virtual lhe pouparia um precioso tempo que poderia ser aproveitado em outras tarefas, inclusive no trabalho. Mas, ao contrário do que sugere o autor, você perderia, sim, muitas coisas importantes.

Não apenas você pode começar a ser visto como “o estranho da família que nunca sabe o que está acontecendo”, como perder dinheiro. Como profissional, você simplesmente desapareceria para o mercado, e dificilmente seria cogitado para vagas de trabalho, pois as redes sociais se transformaram em ferramentas essenciais para recrutadores e headhunters. Se não puder ser visto, essas pessoas jamais saberão de sua existência.

Da mesma forma, informações críticas e oportunidades de negócio para sua empresa também seriam perdidas. Seus funcionários, seus fornecedores, seus parceiros, seus clientes, seu público, instituições e até o governo usam as redes sociais para se comunicar também no campo dos negócios. Sem falar que a mídia digital se transformou em uma das melhores maneiras para posicionar sua marca, seja empresarial ou pessoal.

Portanto, abrir mão disso, ainda mais de uma maneira radical, é simplesmente inaceitável. Alguns poderiam até dizer: “ah, mas eu sou o diretor da empresa, posso me dar esse luxo, pois tem gente que faz tudo isso para mim”. É… podem dizer mesmo, mas esses daí inexoravelmente caminham para o ostracismo.

Isso me lembrou de um certo diretor que chegou a uma empresa em que eu trabalhava há uns 15 anos, e não sabia usar e-mail (sim, é verdade). Outros faziam isso para ele, que recebia cópias impressas dos comunicados e ditava as respostas à secretária (sim, também é verdade).

Sabe o que aconteceu com ele? Logo deixou de ser diretor. E deu lugar aos que sabiam fazer.

 

Adaptações neurológicas

Newport pinta um quadro como se as interrupções digitais acontecessem em um volume insano, que simplesmente não nos permitisse nos concentrar. E as coisas não são bem assim, nem mesmo com adolescentes hiperconectados.

Aliás, os mais jovens podem ensinar lições muito importantes nesse quesito aos mais velhos. Por mais que carreguem seus smartphones para todo lugar e aparentarem estar ligados a eles 24 horas por dia, eles não são escravos desses aparelhos ou das redes sociais. Criam suas próprias regras que deixam claro para si mesmos o que é importante e o que é urgente, coisa rara na maioria das empresas. E, na base dessas regras, está não atender a chamadas enquanto estiverem fazendo qualquer coisa que considerem mais importante.

Quem se vê absolutamente compelido a responder todos os estímulos que recebe tem outro tipo de problema, que deve ser tratado com psicólogos. E isso não tem nada a ver com meios digitais.

Você pode dizer então que esse comportamento dos jovens corrobora o que Newport diz. Mas há outras características muito interessantes nessa turma que sugere exatamente o contrário.

A começar porque eles conseguem atingir seus objetivos sem precisar abrir mão do que gostam. É pouco provável que um adolescente diga que deixou sua rede social preferida porque está indo mal na escola: se fez isso, provavelmente foi por pressão dos pais.

Isso acontece porque seus cérebros funcionam de maneira diferente dos mais velhos. Sim, a “atenção residual” também os afeta, porém muito menos. O tempo necessário para que eles estejam totalmente envolvidos com a nova tarefa é muito menor que o para os mais velhos. E isso acontece provavelmente porque, desde pequenos (e cada vez menores), eles estiveram submetidos a todos esses aparelhos e a todos esses estímulos.

A plasticidade de nosso cérebro permite que ele se adapte às necessidades e ao ambiente de cada um. Portanto, jovens que crescem imersos em um “ambiente multitarefa” desenvolvem habilidades para sobreviver nisso, inclusive a de migrar rápida e eficientemente de uma para outra.

Há alguns anos, escrevi um artigo em que questionava pais que deliberadamente restringem o uso de tecnologia a seus filhos, muitas vezes de uma maneira radical. Crianças que perdem essas oportunidades provavelmente não desenvolverão esses recursos neurais. Considerando a sociedade atual, o que será dessas crianças quando chegarem ao mercado de trabalho?

Outro estudo, publicado em 2011 e de autoria de Betsy Sparrow, da Universidade Columbia, sugere que a facilidade de encontrarmos facilmente qualquer coisa na Internet vem modificando nosso cérebro, para que nos tornemos mais eficientes em encontrar o que procuramos. Por outro lado, estaríamos deixando de memorizar informações que podem ser facilmente encontradas, como o número de telefone de familiares próximos.

E como ficam as empresas diante de todas essas novidades?

 

Conflito de gerações?

Esses jovens multitarefa e com seus cérebros adaptados  já estão chegando às empresas, que normalmente são organizadas para pessoas mais “tradicionais”. E, longe de ser um problema, isso pode ser uma grande oportunidade. Desde que os gestores saibam como lidar com isso.

Pessoas de gerações anteriores, cujo cérebro não está preparado para ser multitarefa, podem aprender não apenas a conviver pacificamente com esse novo estilo de vida, com também aprender a tirar proveito dele. Não estou dizendo que passarão a se comportar com a mesma destreza que os mais novos, mas tampouco precisam partir para amputações, como as propostas por Newport.

Da mesma forma, os mais jovens podem aprender com a experiência dos veteranos, inclusive –claro– a se concentrar em tarefas. Essa é uma troca muito rica entre gerações, e não um conflito entre elas!

Como qualquer outra ferramenta, as mídias digitais podem ser usadas de uma maneira construtiva ou negativa. Basta os envolvidos terem disposição e interesse para fazer um bom uso delas. Por isso, não vejo medidas radicais levando a nada de bom: temos que buscar o equilíbrio!


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By | Educação | 14 Comments
O incrível e maluco Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd, à esquerda) tenta usar uma invenção em Marty McFly (Michael J. Fox), no filme “De Volta para o Futuro” – Imagem: divulgação

O incrível e maluco Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd, à esquerda) tenta usar uma invenção em Marty McFly (Michael J. Fox), no filme “De Volta para o Futuro”

Inovar se tornou um mantra para sucesso de empresas e na carreira. Algumas das companhias mais admiradas do mundo –como Google, Apple, Facebook, Microsoft– são reconhecidas pela constante inovação, e seus funcionários parecem ter essa capacidade em seu DNA. Mas se inovar goza desse consenso, por que vemos tão poucas empresas e profissionais inovando?

A resposta é simples, porém dura: nós inovamos pouco porque nós nos sabotamos o tempo todo! Não porque ficamos malucos ou masoquistas, mas porque o nosso sistema de ensino forma, ano após ano, jovens com uma visão de mundo que talvez ainda funcionasse bem há uns 50 anos, mas que hoje freia a evolução de cada um de nós.


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Aprendemos a valorizar conquistas do passado, tradição e solidez de marcas e empresas e a tentar proteger ganhos existentes. Damos enorme atenção à “cash cow”, mesmo quando ela estiver cercada de vários bezerrinhos promissores. Afinal é ela quem dá o leite, até para os tais filhotes.

Nada mais equivocado! Era assim que a Kodak pensava: afinal tinha uma vaca muito gorda e bem estabelecida nos filmes fotográficos. Nunca deu muita bola para aquele bezerro da fotografia digital, que nasceu meio desengonçado no seu próprio curral.

Mas o bezerro renegado cresceu e engoliu a Kodak com leite!

 

Competitividade X inovação

Nossa educação também nos ensina a sermos muito competitivos, de preferência os melhores da sala, da escola. Quando deixamos os bancos escolares, continuamos querendo ser os melhores, inclusive os melhores da empresa. Muitos de nós podemos achar isso bacana, mas essa prática embute algo terrível para o processo de inovação: se estivermos muito ocupados sendo competitivos, esqueceremos de sermos colaborativos.

Grandes ideias cada vez mais são resultado do trabalho de muitas mentes e muitas mãos. Por mais que exista um gênio criativo, sempre existe alguém para complementar suas habilidades. Mesmo nas megacompanhias acima, as grandes ideias vieram de duplas (apoiadas por seus times): respectivamente Larry Page e Sergey Brin, Steve Jobs e Steve Wozniack, Mark Zuckerberg e (heh!) Eduardo Saverin, Bill Gates e Steve Ballmer.

Há ainda uma terceira e perversa característica que nossas escolas plantam em nossos corações para que nos sabotemos mais tarde: a Intolerância a falhas. Em sistemas de avaliação compostos de provas e trabalhos que punem severamente os erros com a perda de nota, os estudantes aprendem a não ousar, pois isso aumenta implicitamente a chance de cometer algum deslize. Ao invés disso, procuram fazer apenas o essencial e “seguro” para garantir a aprovação. Não precisa ser gênio para perceber que isso envenena as sementes da inovação no momento em que elas cogitavam germinar.

O guru da administração Tom Peters costuma dizer que “o fracasso é uma medalha de honra”, pois ele demonstra que se tentou. E conclui: a única maneira de não fracassar em algo é não tentar. Mas essa também é a garantia de que não se atingirá o sucesso em nada.

Então como podemos inovar diante de um cenário desses?

 

Olhe para frente!

Conduzir um negócio ou a própria carreira dessa forma é como dirigir um carro olhando para o retrovisor. Confiamos no que já passou e esquecemos de olhar para onde realmente importa: a estrada à nossa frente.

Os pontos negativos citados acima precisam ser substituídos por coragem, curiosidade e a vontade de aprender! Ou seja, temos que cortejar a vontade de correr riscos, pois “o fracasso é ingrediente do sucesso”, novamente citando Peters.

Todos nós já passamos por isso, especialmente na nossa infância e adolescência. Quem não se lembra daquele frio na barriga, misto de medo e excitação, antes de entrar em uma montanha russa pela primeira vez? Ou antes do primeiro beijo? É verdade que muitos acabaram desistindo na primeira vez, talvez até nas seguintes também. Mas em algum momento aquele beijo teve que acontecer! E isso só se deu quando a coragem superou o receio, a curiosidade foi maior que a dúvida e a vontade de aprender nos levou a explorar ainda mais o mundo.

Não podemos aceitar que isso ficou enterrado em algum momento na nossa adolescência. Mas a maioria dos adultos age exatamente dessa forma! Nós nos acomodamos naquilo que conhecemos e dominamos: nos encastelamos ali como senhores da verdade.

Mas longe de ser uma fortaleza, isso é uma vulnerabilidade, pois impede que enxerguemos o novo à nossa volta. E não se engane: a mudança sempre chegará!

Isso me lembra uma experiência profissional que tive. Eu era responsável pela criação dos produtos digitais do grupo. Modéstia à parte, minha equipe e eu propúnhamos algumas coisas realmente interessantes e inovadoras. Mas quando as apresentávamos ao conselho de acionistas, invariavelmente acontecia um diálogo mais ou menos assim:

“Isso não vai ameaçar os nossos principais produtos?”

“Sim” –eu respondia.  “Mas, se nós não fizermos isso, alguém fará.”

“Ah, mas se é assim, não podemos fazer isso, não.”

A ideia era arquivada. E, como eu suspeitava, mais cedo ou mais tarde, alguém tinha a mesma ideia e fazia.

Dos tais “principais produtos”, dois já morreram e o que restou respira por aparelhos.

 

Seja honesto e aprenda a ouvir

Outro resquício da nossa educação que permeia empresas e profissionais é que devemos estar sempre “bonitos na foto”, coisa que, aliás, está bem na moda. Como dizia o meu pai, “come frango e arrota peru”.

Mas nem sempre acertamos. Nossa natureza humana é a garantia de que, de vez em quando, é o “frango” mesmo que aparecerá –ou algo ainda pior.

Profissionais e empresas precisam aprender que isso não é nenhum demérito. E que eventuais críticas podem ser uma oportunidade de ouro de vermos nossas imperfeições por um outro ângulo, para que aprendamos a melhorar.

A tecnologia está deixando o mundo cada vez mais transparente. Por isso, empresas que tentam encobrir suas falhas e até mesmo apagar comentários negativos podem, na melhor das hipóteses, passar por ridículas e, na pior, sofrer duríssimos golpes nos seus negócios.

Não basta ser honesto e transparente apenas para fora, com consumidores, governo e opinião pública. A inovação acontece de maneira mais rápida e natural em companhias que agem dessa forma sincera também para dentro, com seus funcionários, sem demagogia ou cortinas de fumaça. É preciso mudar não apenas as palavras, mas também as ações, inclusive na cultura da companhia.

Relembrando novamente a empresa que mencionei acima, de que adiantava o CEO nos dizer que deveríamos “pular no abismo” (no sentido de inovar), se o Conselho nos agarrava pelos pés?

Inovação é um processo incrível e libertador! Não se inova coletando mais informação, aplicando novos e eficientes processos, implantando tecnologia de ponta. Esses todos são elementos, ferramentas que podem ajudar.

Mas a inovação só acontece mesmo quando aceitamos que somos vulneráveis e que sempre podemos aprender algo novo. Aventure-se!


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As crianças enterraram a TV. E daí?

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A youtuber Kéfera Buchmann, do canal 5incominutos, que faz gigantesco sucesso  entre as adolescentes – Imagem: divulgação

A youtuber Kéfera Buchmann, do canal 5incominutos, que faz gigantesco sucesso entre as adolescentes

Nunca as crianças consumiram tanto vídeo quanto agora. O formato está cada vez mais consolidado, valendo também para os adultos. Só que, ao contrário do que acontece com eles, para os pequenos, ver vídeo virou sinônimo de YouTube. E, longe de ser apenas uma questão de mídia, isso é algo que também deve preocupar pais, educadores e profissionais de marketing e de negócios, pois traz questionamentos muito sérios e diversos.

Afinal, tanto YouTube pode alienar ou viciar as crianças? É a nova “babá eletrônica”? O serviço pode ameaçar as emissoras ou até mesmo os fabricantes de TV? Isso pode disfarçar publicidade infantil?

O fato é que, até setembro, crianças de zero a 12 anos brasileiras viram impressionantes 52,2 bilhões de vídeos no YouTube, considerando-se os 230 canais mais populares nessa faixa etária. Os números foram revelados pela segunda edição da pesquisa “Geração YouTube”, divulgada no dia 5 pelo ESPM Média Lab. Desde a sua primeira edição, publicada em novembro passado, o aumento nessas visualizações foi de 184%. Isso em um espaço de menos de um ano!

Nesta sexta, participei do JC Debate, da TV Cultura, onde pude conversar sobre isso com a jornalista Andresa Boni e com o advogado Márcio Mello Chaves. A íntegra do programa (30 minutos) pode ser vista abaixo:


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Além da audiência e do seu crescimento espantosos, o fenômeno inclui outra característica muito relevante: apesar de as crianças adorarem vídeos, elas simplesmente não os assistem no aparelho de televisão. Aquela tela enorme, normalmente na sala ou no quarto, não faz muito sentido para elas. E o mesmo vale para as emissoras.

Para as crianças, vídeo é vídeo, seja ele da TV aberta, da TV por assinatura ou de qualquer serviço digital. Mas todos eles, qualquer que seja sua origem, são vistos no YouTube. E o equipamento preferido é, de longe, o smartphone.

Isso explica em parte esse crescimento explosivo: as crianças, cada vez mais, têm acesso a esse aparelho, muitas vezes de sua propriedade (e não mais dos pais). Dessa forma, carregam o dito cujo para todo lugar e a todo momento, inclusive longe da supervisão paterna. E ver os vídeos passa a ser uma atividade constante, especialmente diante do aumento e da profissionalização dos tipos de canais preferidos: games, youtubers mirins  e youtubers teens.

É tudo uma questão de identificação!

 

“Eu falo como você fala!”

Todos nós consumimos conteúdos com os quais nos identificamos. Com as crianças funciona do mesmo jeito.

No caso dos canais de games, as crianças querem ver como outras crianças jogam os seus títulos preferidos, seja como um passatempo, seja para aprender a jogá-los melhor ou superar fases difíceis. E nada melhor que outra criança para explicar isso.

A identificação de linguagem e assunto é o que impulsiona os canais dos youtubers mirins e teens. Essa turma grava vídeos aparentemente sem uma pauta muito clara: falam para a câmera sobre suas experiências pessoais, alegrias, angústias, dúvidas relativas à idade. Sem filtros e, muitas vezes, até sem planejamento. Esse estilo despojado e natural, e os temas que também fazem parte das vidas do público são o segredo do sucesso. Alguns youtubers teens nem pertencem mais a essa faixa etária, mas continuam se relacionando muito bem com adolescentes, pois sabem como e o que falar com eles.

Portanto essa identificação confere a esses youtubers uma credibilidade que pais e educadores simplesmente não conseguem ter, o que muitas vezes deixa esses adultos de cabelo em pé, por desaprovarem o linguajar e o conteúdo dos vídeos.

E essa credibilidade pode ser usada também para objetivos questionáveis.

 

Publicidade eficiente e polêmica

A pesquisa do ESPM Media Lab também indicou um surreal crescimento de 975% nos canais da categoria “unboxing” desde a última pesquisa, de longe a que mais evoluiu. Para quem não sabe do que isso trata, são canais em que crianças e adolescentes, acompanhadas ou não por adultos, tiram produtos (normalmente brinquedos) das suas caixas diante das câmeras (daí o nome em inglês).

A atividade surgiu em canais estrangeiros de tecnologia, em que youtubers faziam análises técnicas de produtos, orientando compras de seu público. Mas rapidamente caiu no gosto das crianças, pois mostrar seus brinquedos aos amigos é uma atividade que os pequenos fazem naturalmente, desde sempre. A diferença é que, se antes a audiência dessas demonstrações ficava restrita a coleguinhas em casa ou na escola, com os vídeos digitais ela passa a ser potencialmente global.

Até aí, nenhum problema. Mas a coisa começou a complicar quando algumas empresas começaram a perceber que poderiam começar a “presentear” os youtubers mirins com seus produtos, para que eles fizessem seu “unboxing”. Trocando em miúdos, as crianças, que são formadoras de opinião nesse meio, passaram a fazer uma eficientíssima propaganda, o que caiu como uma luva para as companhias, especialmente em tempos de grande restrição à publicidade direcionada a crianças.

Isso tem gerado um caloroso debate. Apesar de alguns desses canais serem obviamente patrocinados, dada a incrível qualidade na sua produção, como diferenciar uma criança que está legitimamente exercendo seu direito de mostrar brinquedos de outra que está sendo usada como ferramenta de marketing? A BBC fez uma ótima reportagem sobre isso há alguns meses, para a qual fui entrevistado.

As crianças estão rompendo paradigmas. E a TV pode ser a próxima vítima.


Vídeo relacionado:


Adeus TV! Olá YouTube!

Nessa combinação incrível de YouTube com smartphones, a antiga dupla dinâmica formada pelas emissoras e pelos aparelhos de TV pode estar com os dias contados. Pois os adolescentes e especialmente as crianças, que deveriam ser seus futuros consumidores, simplesmente as ignoram. Para eles, aquilo é uma caixa anacrônica e pouco atraente.

O principal desalinhamento acontece em um ponto central do modelo de negócio das emissoras: a grade de programação. Os jovens não conseguem entender porque têm que esperar o “horário certo” para assistir um determinado programa. Para eles, o horário certo é aquele em que eles querem ver o programa, qualquer que seja.

As emissoras estão se mexendo, ainda que muito tardiamente, só porque sentiram a água gelada em seus fundilhos. A maioria delas já tem aplicativos para computadores e dispositivos móveis em que se pode ver a programação a qualquer momento. Mas é uma solução mambembe, pois o programa só é liberado online depois de ter passado na telona. Ou seja, não resolve o problema da grade. Por que preciso esperar uma semana para, por exemplo, assistir a um novo episódio de Game of Thrones no HBO Go, se a temporada inteira já está pronta?

Sei que não dá para fazer isso com uma novela, que chega a ter 200 capítulos, e o nível de liberação dos novos acontece apenas poucos dias após sua gravação. Mas para, por exemplo, séries de 10 ou 20 episódios, não faz o menor sentido. E justiça seja feita, a Globo tem feito alguns experimentos interessantes com o seu aplicativo Globo Play, mas ainda insuficientes para atender às demandas de um público cada vez mais exigente.

Outro ponto de discórdia entre a TV e os jovens é a interrupção dos programas para comerciais. Eles estão acostumados a novas formas de monetização, inclusive com um controle enorme sobre os próprios comerciais. E esse é outro ponto que bate de frente com o modelo de negócios cristalizado das emissoras.

Por fim, há ainda a questão da privacidade. Crianças e adolescentes querem assistir a seus vídeos em paz. Leia-se: sem que seus pais fiquem controlando o que consomem. Os smartphones são perfeitos para isso. Já as TVs, que estão, aliás, cada vez maiores, se tornam inadequadas.

Como se pode ver, é uma situação delicadíssima e muito difícil de ser resolvida, pois a TV atender essas demandas significaria matar um negócio que, a despeito de uma contínua queda na audiência, ainda vai muito bem, abocanhando mais de metade de todo o bolo publicitário entre todas as mídias.

Mas um dia essas crianças crescerão. E seus pais não estarão mais aqui para continuar vendo TV. Para elas, quem está mandando muito bem e indicando o caminho a seguir, desde já, é o YouTube.

E é como eu sempre digo: quer prever o futuro? Olhe para as crianças agora.


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Quem nunca disse “para que eu estou estudando isso mesmo”?

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O improvável professor Dewey Finn (Jack Black), do filme “Escola de Rock”, conseguiu engajar seus alunos ao redefinir uma disciplina para algo que lhes fizesse sentido - Foto: divulgação

O improvável professor Dewey Finn (Jack Black), do filme “Escola de Rock”, conseguiu engajar seus alunos ao redefinir uma disciplina para algo que lhes fizesse sentido

O Governo Federal causou enorme alvoroço na educação brasileira ao anunciar, há alguns dias, profundas alterações no Ensino Médio. Mais que algo que impacte apenas a vida de estudantes, as novidades afetam decisivamente o futuro de todo o país. Entretanto, apesar de as mudanças estarem sendo muito criticadas, pouca gente tocou em um ponto essencial da miséria da nossa educação: o que afasta os estudantes da escola não é O QUE os eles aprendem, mas COMO eles aprendem.

Um dos motivadores das medidas anunciadas é justamente diminuir a evasão escolar. Isso seria conseguido permitindo que os alunos escolhessem um eixo temático entre cinco disponíveis (formação técnica e profissional, linguagens, matemática, ciências da natureza ou ciências humanas). Dessa forma, a partir da metade do segundo ano do Ensino Médio, cada estudante estudará majoritariamente disciplinas das quais gosta mais. As únicas que serão comuns a todos os eixos são Língua Portuguesa, Matemática e Língua Inglesa. Na primeira metade do curso, continuam sendo estudadas as 13 disciplinas atuais.

O governo argumenta que esse modelo está de acordo com o praticado em países que normalmente são referência de bom sistema educacional, especialmente os Estados Unidos. Se o aluno estudará majoritariamente conteúdos com os quais têm mais afinidade, isso aumentaria a chance de gostar mais da escola, melhorando seu aprendizado e abrindo caminho para um bom desempenho em um curso universitário na mesma área. Em tese, faz sentido.

Mas quem é educador ou tem filhos adolescentes está cansado de ouvir deles a célebre frase: “mas para que eu estou estudando isso mesmo?” E, de maneira geral, essa pergunta se aplica à maioria dos conteúdos, distribuídos entre todas as disciplinas. Portanto, pouco adianta segmentar o Ensino Médio para o aluno escolher qual percurso quer seguir, se nenhum deles FAZ SENTIDO para ele.

O verdadeiro problema é que a escola, há muito tempo, deixou de falar a língua dos estudantes.

 

Professor Mario Bros

Se puxarmos pela memória, podemos lembrar que nós mesmos, quando cursávamos o ensino de 2º grau (o “colegial”), também fazíamos essa mesma pergunta, pois aquilo tampouco fazia muito sentido para nós. Mas ainda assim enfiávamos a cara nos livros e aprendíamos. Pois, por mais que eventualmente achássemos o jeito dos professores falarem antiquado, conseguíamos nos comunicar com os elementos no ambiente escolar.

O professor ainda era o detentor do conhecimento: ele falava, os alunos ouviam. O aprendizado acontecia em uma única direção. Toda a informação didática estava organizada em livros e as pesquisas eram feitas em enciclopédias. Os alunos faziam uma tarefa de cada vez e de maneira sequencial, e o pensamento era organizado dessa forma. E quando a lousa de giz era substituída por um quadro branco, achávamos aquilo um grande avanço tecnológico.

Trinta anos depois, a introdução da tecnologia digital de maneira ubíqua em nossas vidas provocou mudanças culturais dramáticas em todos nós, especialmente nos mais jovens. E isso soterrou com uma pesada camada de questionamentos todo aquele sistema de ensino.

A primeira grande mudança é que os estudantes hoje são efetivamente capazes de fazer mais de uma coisa simultaneamente. E eles fazem isso o tempo todo. Essa habilidade multitarefa entre em choque com o estilo sequencial sobre o que a educação brasileira ainda está calcada.

A tecnologia onipresente e oferecida em cada vez mais dispositivos permite que os alunos acessem todo tipo de informação que quiserem, a qualquer hora e em qualquer lugar. Mas a maioria das instituições e dos professores insistem em barrar a entrada da tecnologia na escola, não porque não a conheçam, mas porque não sabem ao certo como tirar proveito pedagógico dessas ferramentas. Sem falar no temor (nada infundado) de que os alunos dominarão a ferramenta muito mais eficientemente que eles mesmos.

Afinal, são poucos os professores que conseguem ver um videogame como material pedagógico.

 

Mudança de papeis

Os estudantes têm, portanto, acesso a uma infinidade de informações de todo tipo. Não quer dizer que sejam todas de boa qualidade, mas eles absorvem o bom e o ruim como uma esponja. Em muitas ocasiões, chegam à sala de aula com mais informação sobre o tema da aula que o próprio professor. E aí acontece um grande cisma da educação atual.

Diante de tantas informações e tantos estímulos, os adolescentes vêm crescendo com grande carga argumentativa. São, portanto, questionadores natos, muito mais que o que se observava nas gerações anteriores.  Mas a maioria dos professores ainda quer manter o modelo de detentores únicos do conhecimento, no estilo de sala de aulas que eles conheceram como alunos e no qual foram formados profissionalmente. Os alunos, claro, não aceitam mais isso.

Os professores precisam entender que perderam o título de única fonte do saber, e que agora precisam se comportar muito mais como tutores, mediadores que conduzirão seus estudantes na sua jornada da construção do conhecimento dentro de seus próprios termos, incluindo uma relação de igual para igual com o mestre, pensamento não-linear, colaboração entre pares e uso intenso de todo tipo de tecnologia que tiverem à mão.

Como os professores não conseguem fazer isso, chegamos ao problema que serve de título para este artigo. Os alunos simplesmente não entendem por que estão aprendendo os conteúdos escolares, qualquer que seja a disciplina. Aquilo não lhes fala ao cérebro, e muito menos ao coração. E aí não aprendem. E se desestimulam. E a evasão escolar cresce.

Tudo o que a proposta do governo quer combater. Mas cujas causas sequer foram abordadas por ela.

 

Um novo modelo de escola

Não precisa ser gênio para perceber que a solução dos problemas da péssima educação brasileira e da evasão escolar não se resolverão simplesmente aumentando a carga horária ou segmentando o ensino em eixos temáticos. As essências do problema, que são a dificuldade de os professores se comunicarem com os estudantes e o fato de eles não verem sentido no que aprendem, permanecem intactos.

A solução só pode surgir com uma grande reforma nesses pontos, algo que provavelmente surtiria efeitos muito melhores que o que está sendo debatendo agora em torno da proposta federal.

Como exemplo, aproveito algo que já apresentei aqui: o modelo bastante ousado da escola Quest to Learn, que fica em Nova York e que construiu uma maneira completamente nova de ensinar todo o conteúdo do currículo nacional: usando apenas jogos (eletrônicos, de tabuleiro, de interpretação, e por aí vai). Cheguei a fazer o vídeo abaixo, onde detalho sua proposta:


Vídeo relacionado:


Muita gente pode achar que os alunos lá passam o dia brincando e não aprendem nada. Eles estão certos na primeira parte, mas rotundamente enganados na segunda. Os alunos da Quest to Learn apresentam resultados acadêmicos incríveis: a escola foi campeã na olimpíada de matemática de Nova York nos últimos três anos e seus indicadores pedagógicos são superiores aos da média das instituições da cidade. Além disso, o índice de faltas e de evasão escolar são ínfimos (6% e quase zero, respectivamente), os professores adoram trabalhar no local (90% não a deixam) e os pais a apoiam fortemente (88% de aprovação).

Tudo o que o governo quer.

Claro que implantar uma escola dessa é difícil. Exige uma mudança completa da maneira de pensar de professores e coordenadores, com uma tal profundidade que possivelmente a maioria não seria capaz de realizar. A estrutura da escola também precisa ser modificada para acomodar o novo formato. Além disso, muitos pais provavelmente resistiriam ao novo formato, por não acreditar que ele possa dar resultado.

Mas o caminho não precisa ser trilhado de uma só vez. Mudanças podem ser feitas de maneira gradativa e contínua, verificando as características de cada público e como os resultados vão sendo atingidos. E sempre discutindo com todos os atores envolvidos: alunos, pais, professores, academia e autoridades da área.

A única coisa que não podemos fazer é ficar parados. O governo federal está certo quando afirma que nossos resultados escolares são péssimos e precisam ser melhorados com urgência.  Mas as mudanças precisam ser tomadas no caminho certo, com coragem e com a participação de todos.

Portanto, querer impor uma proposta goela abaixo, por Medida Provisória, como está sendo feito agora, não funcionará. Educação é algo construído a muitas mãos.


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Como a briga sobre a política e a religião nas escolas determinará o nosso futuro

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Cena de “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), que conta a história do professor Keating (Robin Williams), que usa métodos de ensino heterodoxos em uma tradicionalíssima escola - foto: divulgação

Cena de “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), que conta a história do professor Keating (Robin Williams), que usa métodos de ensino heterodoxos em uma tradicionalíssima escola

As salas de aula brasileiras estão se transformando em um campo de batalha ideológico. De um lado, grupos exigem que professores sejam proibidos de discutir política, religião ou sexualidade com os alunos. Do outro, professores resistem. Mas será possível uma escola que ignore completamente esses temas? Na resposta a essa pergunta, reside o futuro de cada um de nós e do país.

Somos seres essencialmente políticos. Mesmo se nos posicionássemos contrários à sua prática ou discussão, estaríamos exercendo uma postura política. O mesmo vale para a religião e para o sexo: não há como escapar totalmente disso. Portanto, negar essas discussões é como negar nossa humanidade. Esses assuntos são poderosas ferramentas para transmissão de conhecimento, mesmo daqueles que não estejam diretamente ligados a eles. E a escola lança mão desses recursos desde os tempos de Aristóteles, de uma ou outra forma. Mas então o que mudou agora?


Vídeo relacionado:


Acontece que estamos nos tornando cada vez mais intolerantes. E isso é algo extremamente perigoso para a educação e para a sociedade como um todo.

A discussão vem ganhando força graças ao Movimento Escola Sem Partido, criado pelo advogado Miguel Nagib em 2004, mas que está aparecendo mais desde o ano passado. Ele defende que os professores sejam proibidos de discutir com os estudantes suas convicções políticas, religiosas ou sexuais. Segundo o advogado, isso funcionaria como a usurpação do direto dos pais da educação moral dos filhos, além de constituir um abuso contra os alunos, que não têm a opção de não querer ouvir o que o professor tem a dizer. Além disso, pela própria natureza da relação mestre-aprendiz, as palavras dos professores teriam grande influência sobre os estudantes.

O grupo vai mais longe, e propõe que sejam criadas leis que institucionalizem tais proibições. Mais que isso, querem que a Base Nacional Comum Curricular, atualmente em discussão, também inclua mecanismos no mesmo sentido. Dessa forma, não apenas o que os professores dizem, mas também o que os livros didáticos trazem seria controlado. E já conseguiram o apoio de muitos senadores, e deputados federais e estaduais para sua causa.

Mas, afinal de contas, há doutrinação nas escolas?

 

Os dois lados da mesma moeda

Resposta simples e direta: claro que sim!

Um desavisado poderia então achar que as propostas do movimento são válidas. Afinal, muitos professores discutem mesmo questões políticas, religiosas e sexuais com seus alunos, e, em muitos casos, isso é feito de uma maneira exagerada e tendenciosa. O mesmo vale para diversos livros didáticos, que prestam um verdadeiro desserviço à educação.

Entretanto o que o Escola Sem Partido propõe troca algo ruim por outra coisa tão ruim quanto. O movimento tem inspirações política e religiosa claramente conservadoras. Por isso, na prática, sua guerra declarada é contra conteúdos “de esquerda” e que contrariem dogmas das religiões cristãs dominantes.

Consideremos, por hipótese, que o movimento tivesse sucesso absoluto em suas propostas. Então os professores não debateriam mais questões como o homossexualismo e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, condenados pelas igrejas, mas que, queiram elas ou não, existem em todo lugar.

Que espécie de cidadãos essas escolas formariam? Um bom cidadão só nasce quando ele é exposto à diversidade de ideias. Dou um exemplo pessoal para ilustrar o caso. Acho o Criacionismo uma bobagem, e não nego que me causa estranheza que ele apareça lado a lado à Teoria da Evolução das Espécies, de Charles Darwin, nos livros de Ciências de meus filhos. Mas nem por isso vou criar uma guerra contra os livros, a escola ou os professores.

Apesar de não concordar com isso, sei que é importante que meus filhos conheçam as diferentes ideias sobre o assunto, para que possam crescer tomando decisões embasadas. Além disso, precisam saber que o mundo é feito de visões conflitantes, mas que elas podem coexistir em paz. Em contrapartida, debato com meus filhos sobre tudo, de cabeça e coração abertos.

Se esse tipo de “ensinamento moral” ficasse restrito à minha casa, como defende o Escola Sem Partido, talvez meus filhos tivessem uma visão limitada daquilo que eu não concordo. E isso seria muito ruim. Como pai, eu tenho a obrigação de permitir que meus filhos conheçam opiniões diferentes das minhas.

Na esfera política, os livros sempre trazem a visão do grupo que está no poder. É verdade que hoje temos uma clara inclinação aos conteúdos “de esquerda”, que vem se fortalecendo desde que os militares desceram a rampa do Planalto, e que acelerou com a ascensão do PT à presidência. Mas quem tem mais que 40 anos deve se lembrar que, na época da ditadura, esses mesmos livros eram recheados de temas ufanistas, do “Brasil gigante”, dos heróis nacionais. É só pensarmos na figura de Tiradentes se parecendo a Jesus Cristo, uma clara aberração histórica (um alferes jamais teria aquela barba e aquele cabelo), mas que servia muito bem para transformar um personagem menor da nossa história em um grande herói nacional.

Mas então o que pode ser feito para melhorar de verdade a educação?

 

Equilíbrio e tolerância

Professores que se preocupam mais em doutrinar que educar fazem de seus alunos pessoas piores. Mas querer lavar todo esse cenário com água sanitária, abrindo caminho para exageros em sentido oposto, é igualmente horrível.

Uma educação de qualidade só pode ser conseguida com uma visão ampla do mundo, e com equilíbrio de posições que se contrapõem. E um futuro positivo para o Brasil só pode ser moldado por uma ótima educação. Para isso, temos que exercitar uma das mais nobres características humanas: a tolerância.

Lembro-me que, quando casei, o sacerdote nos disse: “o segredo para um casamento duradouro é a tolerância às diferenças do outro e o perdão”. “Tolerância” e “perdão”: duas palavras que todos conhecem e que sabem o seu significado, mas que são observadas cada vez menos no comportamento das pessoas.

Escolas deveriam ser locais de tolerância e perdão. E elas também são casas de formação acadêmica e de cidadania. Portanto as pessoas nos diferentes papeis ali devem expor o que pensam, mas aproveitar isso para genuinamente ensinar a ouvir e a tolerar opiniões divergentes, sem radicalismos ou histórias que maquiem a verdade para qualquer um dos lados. Pois alguém só pode ser considerado um bom cidadão se as conhecer bem e se for capaz de analisá-las desapaixonadamente, inclusive vendo o que cada uma tem de bom e de ruim.

Você consegue fazer isso?


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By | Educação | 8 Comments
Cena do filme “Muito Loucos” (1990), em que um publicitário (Dudley Moore, à esquerda) é internado como louco porque decide dizer só a verdade em suas peças - imagem: divulgação

Cena do filme “Muito Loucos” (1990), em que um publicitário (Dudley Moore, à esquerda) é internado como louco porque decide dizer só a verdade em suas peças

Na semana passada, a AlmapBBDO e a Bayer passaram pelo ridículo de devolver dois Leões de Bronze do Festival Internacional de Criatividade de Cannes. A situação vexatória representa muito mais que a perda de importantes prêmios: ela escancara como o mercado publicitário se acha um fim em si mesmo e como muitas empresas estão completamente dissociadas do mundo em que vivem.

Para quem não sabe do que trata o caso, a agência se viu obrigada a abrir mão das estatuetas porque as três peças premiadas, feitas para a Aspirina (que podem ser vistas ao longo desse artigo), foram pesadamente criticadas pelo público por terem um caráter machista e incentivar a gravação não consentida de sexo. Afinal, bastaria tomar um desses comprimidos para se livrar da dor de cabeça que o vazamento de tais registros causaria à vítima. Isso em um momento em que a sociedade brasileira está engajada em torno de discussões que condenam práticas como essa!


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Para piorar, as peças foram criadas exclusivamente para ganhar prêmios, e não para vender o produto! Tanto que a veiculação foi paga pela AlmapBBDO, e não pela Bayer, apenas para poder atender aos critérios mínimos e concorrer ao prêmio. Diga-se de passagem, esse tipo de “peça fantasma” é proibida em Cannes.

Uma das "peças-fantasma" que a AlmapBBDO criou para a Aspirina para vencer em Cannes

Em sua defesa, a agência disse em comunicado que “pode ter havido interpretações diferentes da mensagem que a peça queria passar” e que ela “repudia a prática de filmagem não consensual e qualquer espécie de violência ou invasão de privacidade”.

De fato, pode ter havido.

Uma das "peças-fantasma" que a AlmapBBDO criou para a Aspirina para vencer em Cannes

Estou confuso: se realmente repudiam isso, como essas peças puderam ser criadas? Qual seria a interpretação legítima na cabeça do criativo responsável? É uma pena que, mesmo depois dessa mancada mastodôntica, a AlmapBBDO não teve a sensibilidade de assumi-la e pedir desculpas sinceras ao público e ao mercado. Ficou tudo naquela zona morna de “foi tudo uma piada genial, que vocês não entenderam nada, seus chatos”.

Isso guarda um outro componente perverso da publicidade brasileira. Ninguém duvida que ela é uma das melhores do mundo, mas os incontáveis prêmios inflaram de tal maneira os egos de muitos profissionais, que se acham no direito de fazer o que bem entenderem. Consideram-se artistas, quando, na verdade, não passam de operários de uma indústria cuja existência destina-se a vender produtos alheios. Por conta disso, se dão o direito de infringir as regras, para inscrever em um concurso uma peça que eles acham uma “grande sacada”, mas que não seria paga pelo anunciante e que ofenderia o consumidor.

Uma das "peças-fantasma" que a AlmapBBDO criou para a Aspirina para vencer em Cannes

Mas nada disso importa. O que vale é valorizar a sua “arte”, mesmo que ela seja criada sobre todo tipo de estereótipo e apelações.  Um bom exemplo são as propagandas nacionais de cerveja, fortemente vinculadas à exposição de mulheres-objeto voluptuosas em trajes mínimos.

Como se cerveja servisse para pegar mulher. Ou como se mulher não bebesse cerveja.

 

Falta de empatia

A Bayer também saiu chamuscada do episódio. Diante da repercussão na imprensa internacional do caso, um porta-voz resumiu-se a dizer que “a veiculação foi de responsabilidade da agência, a fim de atender os requisitos para submissão em Cannes”. E concluiu: “a Bayer solicitou à AlmapBBDO a descontinuidade da campanha bem como a divulgação, promoção subsequente ou adicional do anúncio”.

Ótima maneira para tirar os holofotes do fato de que a Bayer concordou com todo esse circo desde o princípio.

Que vergonha, Bayer!

Criada em 1899, a Aspirina sobreviveu a dramáticas mudanças sociais em todo mundo, desde o fim da Era Vitoriana até o Brexit. E uma dela é que as empresas, cada vez mais, devem ter uma postura mais consciente com as sociedades em que atuam, e devem ser mais empáticas com seu público.

Com o surgimento de leis de defesa do consumidor e o fortalecimento dos canais de comunicação, especialmente as mídias sociais, as empresas não podem mais simplesmente se ver no papel de produtores de bens que devem ser consumidos pela população. Hoje elas são chamadas a participar do debate público, a serem sustentáveis e a conversar com as pessoas, sejam seus clientes ou não.

Quanto maior a empresa, mais envolvida ela está com tudo isso. E poucas empresas na história chegaram ao tamanho da Bayer, uma gigante farmacêutica e química com mais de 150 anos de estrada e 100 mil empregados. Omitir-se em temas de grande repercussão social seria como querer esconder um elefante em uma plantação de morangos pintando as suas unhas de vermelho.

Nesse episódio, a situação da indústria é ainda pior, pois os anúncios eram de um de seus principais produtos. Não interessa se a peça era só para ganhar prêmios e se a veiculação foi paga pela AlmapBBDO: a empresa se prestou ao papelão de empenhar a marca Aspirina a peças moralmente questionáveis.

Há algo de bom a se tirar dessa absurda patacoada. Ficou mais um exemplo de que as empresas precisam estar atentas aos movimentos da sociedade e demonstrar empatia com as pessoas. E isso não significa ter discursos bonitos. Tampouco respostas burocráticas resolvem. Empatia significa verdadeira e genuinamente demonstrar interesse pelos sonhos, pelas necessidades e pelas dores do outro. É vir a público, de peito aberto, e dizer tanto “deixe-me ajudá-lo” quanto “desculpe, errei, mas vou corrigir isso”.

E vendo por uma lógica capitalista, executivos das empresas devem parar de pensar que isso é “custo”, pois, a longo prazo, todo esse investimento no bem-estar social se reverte em ganhos maiores, proporcionados por clientes conscientemente engajados em torno de causas em comum, que podem até se tornar embaixadores da sua marca.

Do ponto de vista da publicidade, fica claro que as agências deveriam tomar vergonha na cara e coibir fortemente esses condenáveis anúncios social e moralmente deploráveis. E parar de achar que a publicidade vende a si mesma, ao invés de vender o produto do anunciante.

Enquanto isso, a AlmapBBDO e a Bayer ainda devem desculpas decentes ao mundo.


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Exibicionismo nas redes sociais: por que as pessoas se expõem online

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Cena de “Janela Indiscreta”, clássico de Alfred Hitchcock de 1954 – foto: reprodução

Cena de “Janela Indiscreta”, clássico de Alfred Hitchcock de 1954

Desde as primeiras webcams, voyeurismo e exibicionismo inundam a Internet. Com os smartphones, ambos passaram a ser praticados a qualquer hora e lugar, ganhando uma legião de adeptos, inclusive entre adolescentes. Longe de qualquer discurso moralista, de vez em quando, as coisas fogem do controle, reabrindo o debate sobre os riscos do exibicionismo online.

Recentemente, tivemos dois exemplos extremos disso. Há alguns dias, uma adolescente se suicidou após suas amigas publicarem no Snapchat um vídeo dela tomando banho. Em outro caso, uma mulher está sendo processada por transmitir o estupro de uma amiga pelo Periscope. Apesar de, nesses dois episódios, os vídeos terem sido postados sem consentimento, esses dois aplicativos se tornaram ferramentas incríveis para esse “Big Brother pessoal”.


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Apesar de os termos de uso do Periscope e do Snapchat proibirem explicitamente conteúdo sexual ou pornográfico, não é difícil se deparar com isso nos dois serviços. Mas o que leva alguém a se expor dessa forma? E as pessoas realmente têm consciência do que estão fazendo?

O principal motivo é que, em tempos de vidas hiperconectadas, ver uma foto ou um vídeo seu sendo amplamente compartilhado e “curtido” causa um enorme prazer aos seus autores. O feedback instantâneo de comentários e de ícones de positivo e corações aquece o ego e incentiva uma corrida para se tornar uma microcelebridade online, seja entre seus amigos, seja em um grupo de desconhecidos em escala global.

Nessa busca pela “fama”, vale tudo. E poucas coisas são tão eficientes nessa jornada quanto erotismo e sexo.

O Snapchat tem uma curiosa característica de que todo o conteúdo publicado nele se autodestrói pouco tempo após ser visto pelo destinatário. Isso causa uma sensação de segurança, que tem favorecido o compartilhamento de imagens íntimas para “sexting”, ou seja, conversas online de conteúdo sexual.

Só que essa segurança é pura ilusão.

 

“Manda nudes”

O Snapchat realmente destrói os conteúdos logo após serem visualizados. Mas nada impede que os destinatários criem cópias dessas fotos e vídeos antes que isso aconteça. Portanto, aqueles “nudes” (fotos explícitas) podem ter uma vida nada efêmera.

Trocando em miúdos: sabe-se onde surge a imagem, mas não se sabe onde ela vai acabar. E aí está o problema: as pessoas nem sempre têm consciências disso.

Por exemplo, aquelas imagens enviadas cheias de confiança para o outro podem se transformar, no futuro, em outro fenômeno recente: a “revenge porn”, quando uma das partes espalha fotos íntimas da outra na Internet, normalmente por vingança pelo fim de um relacionamento.

No caso de adolescentes, a exposição de sua intimidade também pode estar associada a mais um fenômeno da cultura digital: o “cyberbullying”, quando as redes sociais são usadas para humilhar um desafeto. E imagens íntimas são ótimas para isso. Disso podem surgir atitudes extremas, como o suicídio mencionado no segundo parágrafo.

O fato é que não existe segredo na Internet. Por mais que se use os controles de privacidade das redes sociais, por mais que aplicativos garantam o anonimato, uma vez na rede, não tem volta: tudo corre o risco de vazar.

Mesmo lugares que são criados com a premissa da defesa da privacidade, não há garantia de segurança absoluta. Em 2014, James Comey, diretor do FBI, disse que existem dois tipos de grandes empresas: aquelas que já foram invadidas e aquelas que não sabem que já foram invadidas.

Como esquecer do caso da invasão do site Ashley Madison, que promove relacionamentos extraconjugais, ocorrida em agosto de 2015? Subitamente não apenas os dados pessoais de milhões de usuários foram expostos pelos hackers, como também as pessoas com quem conversaram, o que disseram e até as fotos que trocaram.

 

O que fazer?

Mas então devemos parar de usar nossos smartphones? Abandonar as redes sociais? Deixar de enviar fotos a quem gostamos?

Claro que não! Não devemos renegar o mundo que vivemos, e sim usá-lo com sabedoria.

E isso significa, para começar, seguir o ditado que diz que “não devemos dar sorte ao azar”. Em outras palavras, ao fazermos alguma coisa, devemos pelo menos estar conscientes do que cada ato representa. Tirar uma foto sensual não é um problema; publicá-la online para um grande grupo de pessoas (especialmente se tiver desconhecidos nela), pode ser. A menos que a superexposição não seja um problema em absoluto para essa pessoa, e ela estiver muito segura disso.

No caso de se ter filhos na adolescência ou entrando nela, uma conversa sincera é fundamental. Nunca no sentido de proibição ou de amedrontamento, mas de conscientização. A melhor maneira de se evitar dissabores nesse sentido é oferecer aos filhos todos os recursos para que eles compreendam o que fizerem. Além disso, é fundamental que pais e filhos conversem com franqueza e confiança sobre tudo, para que os primeiros sejam o porto-seguro dos segundos, sempre que precisarem.

Tudo porque estamos vivendo um momento de grande transformação social. Não é necessário temê-lo. Tentar impedi-lo não é possível. A melhor coisa a se fazer é compreender as mudanças e usá-las com inteligência e a nosso favor: curti-las numa boa e com confiança!